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Friday, August 27, 2010

VIVO















subitamente, me percebo vivo
e isso não quer dizer
contradição/ angústia
nem ausência de bom senso;
capto-me vivo no silêncio
ante celestiais bobagens
dependuradas num jornal de grande
circulação
nos sorrisos cretinos
da televisão
ou ainda
nas fachadas pútridas
calcinadas com botox
que se ostentam nos maiorais
do Leblon no multiplex
mostro-me vivo
quando a música
sem
letra
de damo suzuki
bombadeia meus ouvidos
com doçura
sou vivo porque meu coração batuca
vivo porque o muito ainda me falta:
mesmo num mundo sem cura
viver é escavar
procurar pequenos tesouros
chamados instantes
pequenas riquezas
que significam momento
sou vivo porque o amor me tece
no alto de um pé-direito
à francesa
e nenhum artifício me destrói
pareço tão vivo
quando minhas palavras
tão perfumadas pelo efêmero
ganham vida eletrônica
quero ser vivo porque sou oceano:
namoro a paz
mesmo que ela não me dê tanta atenção
estou vivo
porque os mortos são muito vivos
em meu peito estudantil
e o domingo
é um domingo
embalsamado por futebol
finjo-me vivo por meu sexo
minhas querelas de madre-pérola
meu ir-e-vir sem muita precisão:
o que parece ao léu
na verdade é liberdade –
respiro e ansio,
ansio e regurgito,
cobiço o vivo
o rito
o crivo!


Paulo-Roberto Andel, 27/08/2010
Foto: Aline Massuca












3 comments:

Elika Takimoto said...

Inspiradíssimo, amigo!

Parabéns!

Lau Milesi said...

Ainda bem que você vive, poeta maior.
"Viver é não ter a vergonha de ser feliz", como dizia o Grande Gonzaguinha.
Linda, sua prosa!
Um beijo


E.T.Amanhã tem Maraca, né?Neeeense...

Daniele Barizon said...

Hello, my friend!

Miss you!!

Estou por aqui ON outra vez! Por agora, dando um mergulho decrescente no que perdi deste espaço. Nos vemos novamente mais abaixo, rs!

Bjs!