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Wednesday, June 23, 2010

O SUJO, O MAL-LAVADO E A PODRE












Quando comecei a freqüentar estádios de futebol duas vezes por semana, ou três, Dunga começava sua brilhante carreira como jogador. Volante com bons recursos, combativo sem ser violento, capaz de dar ótimos passes e dono de um chute fortíssimo, passou por vários clubes no Brasil e no exterior. Tinha tanta raça que certa vez, atuando pelo Corinthians, vomitou no vestiário durante o intervalo de um jogo - excesso de esforço.

Era um cavalo, no bom sentido.

Ficou milionário.

Injustamente, foi execrado na Copa de 1990, apontado como o líder de uma “era” de derrota da seleção brasileira – sonora bobagem se levarmos em conta que, um ano antes, a mesma seleção brasileira tinha vencido a Copa América, título que não conseguia desde 1949 e os mesmos que lhe fuzilariam na imprensa no ano seguinte eram os que lhe teciam loas ali.

Veio 1994 e Dunga conseguiu um título que poucos jogadores têm: mais do que campeão do mundo, mais do que tetracampeão com o Brasil, se tornou campeão mundial nos juniores e nos profissionais. Uma façanha. Poderia se aposentar feliz (sem trocadilhos) e satisfeito. Um vitorioso. Saiu da ruralidade e ganhou o mundo, ganhou títulos, ganhou dinheiro, foi admirado e ainda deu o troco nos que o malversavam. Suficiente, não?

Não.

Ainda houve tempo para salvar o Internacional do rebaixamento em 1999 com um gol heróico de cabeça. Antes disso, o vice-campeonato mundial na França. Sejamos sinceros: por mais que se queira colocar a culpa no episódio envolvendo Ronaldo, nosso time poderia nem ter ido à final. Ou à semifinal. Nos arrastamos contra a Dinamarca, uma via-crucis contra a Holanda e a velha camisa amarela chegou até mais longe do que as pernas permitiam – que não eram as pernas de Romário, maleficamente cortado pelo “Copas-Fora”, claro. E uma imbecilizada cabeçada em Bebeto, os dois jogando pela seleção brasileira. Aí o leite começou a azedar. Garra, raça, disposição, todas características admiráveis. Estupidez e burrice não.

Passou o tempo. Futebol sempre tem um quê de injustiça. Descobriram que Parreira, depois de montar fantásticos times, ser campeão em tudo quanto é lugar e ter sentado praça na galeria dos admiráveis do futebol brasileiro, não servia para comandar porque não gritava na beira do campo – como se isso tivesse alguma utilidade junto aos berros de um Maracanã lotado ou mesmo na Copa atual, onde cinqüenta mil vuvuzelas imperam. Então surgiu a figura do Dunga como a do “grande capitão” (Carlos Alberto Torres seria muito, mas muito melhor, se o caso era esse), a do “moralizador”, a do “chefão”. Então o Brasil ganhou muitos amistosos (a maioria deles contra adversários sofríveis determinados pelo patrocinador da camisa amarela), venceu Copa América, venceu Copa das Confederações (levando sufocos) e venceu a Argentina pelas eliminatórias – o que pouca gente lembra é que, até ter feito o primeiro gol, a seleção passou meia hora sendo dominada pelos portenhos. Então, a massa jornalística atribuiu ao Gran Comandante o título de inquestionável, por conta dos resultados. Contradição? Sim. Ratificaram a velha escrotice de que “não importam os meios, mas sim os resultados”. Eu vos pergunto: conseguem identificar três ou quatro jogadas ensaiadas que esta seleção, mesmo vitoriosa, mostrou nos últimos quatro anos em campo? E por conta daqueles resultados, Dunga se achou no direito de fazer o que bem quer, contando com o aval de seu patrão Ricardo Teixeira (o mesmo que diz que a CBF é uma entidade privada e, por isso, não precisa dar satisfações de seus atos a ninguém – como assim?). O rio desaguou em repetidas ofensas aos jornalistas que cobrem a televisão brasileira a cada nova entrevista coletiva e culminou na mais recente, domingo passado. Antes disso, Dunga, funcionário de uma instituição privada que não deve prestar contas a ninguém, mas pessoa pública que representa o interesse de quase duzentos milhões de brasileiros, já se posicionou de forma patética ao não saber, por exemplo, se a ditadura que assolou o Brasil era boa ou ruim, porque não viveu nela. Um pouco de leitura de livros do ensino fundamental ajudaria bastante.

Deu problema com a plim-plim. Raivosos com o destempero fascista de Dunga, o comando da Vênus da Ditadura resolveu linchá-lo publicamente. Estão sendo prejudicados no preparo de matérias, têm poucas imagens, os jogadores não falam. De certa forma, para qualquer brasileiro bem-escolarizado não há como não rir desta situação, por mais que ela não seja engraçada: a superpoderosa se submetendo aos caprichos pessoais de um chucro. Minha vocação brizolista não perdoa. Porém, que fique bem claro: nada disso está acontecendo por conta de um esclarecimento político-social do “treinador” da seleção brasileira (muito pelo contrário: em várias vezes ele já desfraldou seu oceano de ignorância a respeito do tema); tão-somente, por capricho de um sujeito que teria motivos para viver feliz em todos os dias de sua vida, mas que precisa a todo instante mostrar sua raiva, seu rancor, sua mágoa e sua pequenez em não reconhecer que, embora campeão do mundo, bem-sucedido e vencedor, ele foi bastante inferior a vários outros também campeões do mundo como aqueles de 1958, 1962 e 1970. Foi, é e será, mesmo que consiga a façanha de se tornar campeão mundial como treinador e, com isso, ser o único do mundo a também ter conseguido ser campeão nos juniores e nos profissionais. Tornou-se um cavalo, no mau sentido.

Tudo na Globo tem odor de conspiração. É fato. Considero bastante positivo que sua sede de poder e completo domínio da informação em detrimento das concorrentes estejam sendo prejudicados. Mas não é por causa disso que tecerei loas a Dunga como atual técnico. Se tem obtido vitórias e títulos no futebol, no trato com os seres humanos em público tem agido como se fosse um completo irracional.

Não sou de ficar em cima do muro.

Nem a Globo, nem Dunga.

Cartão vermelho para os dois.

Nenhum dos dois nos representa com dignidade, mesmo que com “excelência” de resultados. Não se trata do Brasil, mas sim a briga do sujo com o mal-lavado.


xxxxxxxxxxxx


Recebo reprodução do blog de Luis Nassif:

“A PRESIDENTE TUCANA DO FLAMENGO

Por Stanley Burburinho

E sabia que um dia isso aconteceria porque ela é filiada ao PSDB. Imagino o que a imprensa e o TSE falariam se o presidente do Corinthians desse ao Lula uma camisa com o número 13.

Patrícia Amorim usa o Flamengo para beneficiar seu partido PSDB

Vergonha inaceitável para a nação rubro-negra

A presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, usando uniforme com a marca oficial do clube, foi a um restaurante do Rio de Janeiro para assistir ao primeiro jogo da seleção brasileira junto com político do seu partido PSDB, o candidato tucano José Serra, apesar do estatuto do clube proibir esse tipo de manifestação.

Em um evento em que deixava transparecer que comparecia como Presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Patrícia Amorim posou para fotos entregando camisa personalizada do clube a José Serra. A camisa, que tinha o número 45 às costas e o nome de Serra (sic), ainda era do terceiro uniforme do Flamengo, que estranhamente ostenta as cores do PSDB: Azul e Amarelo.

Patrícia Amorim, que parece desconhecer o estatuto do próprio clube que dirige, se comportou como se fosse um apoio oficial da instituição Flamengo à candidatura de Serra.

Cabe lembrar à ex-nadadora olímpica que o artigo 24, parágrafo XIII do estatuto do Flamengo diz:

Art. 24 – Ao sócio, além de outros deveres previstos neste Estatuto, impõem- se:

XIII – abster-se de usar ou envolver o nome do FLAMENGO em campanha, de qualquer natureza, estranha aos objetivos do Clube.

Lembrando ainda que o presidente do Flamengo é, sobretudo um sócio, e mais do que ninguém é obrigado a respeitar o estatuto do clube.

Além de desrespeitar o estatuto nesse caso, não é a primeira vez que Patrícia confunde sua vida política pessoal com suas atribuições como presidente do clube com a maior torcida do país, o episódio da escolha da camisa azul e amarela gera muita polêmica na torcida, que é o maior patrimônio do clube. A desculpa de homenagear a origem do remo só faria sentido se o uniforme fosse azul e dourado, afinal essas eram as primeiras cores que os remadores ostentaram a partir de 1895, ano de fundação do clube. Aproximar dourado de amarelo é forçar a barra; ela quis usar as cores que costuma usar em suas campanhas políticas.

Desde as primeiras pesquisas de maior torcida feitas por jornais há décadas, a torcida do Flamengo ficou conhecida por ser um fenômeno de massas; sua composição é na sua maioria de pessoas humildes, de comunidades mais pobres, espalhados por todo o território nacional.

O Flamengo é pluralidade, não pode ser associado a um partido ou uma candidatura, seja lá de quem for. Se fosse definir a ideologia da torcida do Flamengo diria que é majoritariamente de esquerda, no extremo oposto ao caminho que trilha o PSDB - foi uma das primeiras, senão a primeira a usar bandeiras com imagens de Che Guevara, de Cuba, da Palestina. Como associar com o clube uma candidatura que representa um elitismo que em nada tem a ver com a história do clube e com a sua torcida? Lá em São Paulo, a polícia do então governador Serra PROIBIU a torcida do Monte Azul de ostentar bandeira de Che como se ainda estivéssemos na ditadura, alegando que estimula a violência (sic).

Eu espero que o conselho deliberativo coloque um freio nessa tentativa de associar uma instituição centenária como o Flamengo com um partido envolvido com tanta corrupção e que se aliou a tudo que tem de pior na sociedade brasileira. O estatuto é claro: a presidente usou o nome e marca do clube em campanha estranha aos objetivos do club., Talvez não seja caso de impeachment, mas ela deve ser advertida para não usar mais o Flamengo para beneficiar seu partido.”


Precisa dizer mais alguma coisa?

Podre!


Paulo-Roberto Andel, 22/06/2010

4 comments:

Carlos said...

"Precisa dizer mais alguma coisa?" Sinistro. Texto perfeito assim como a argumentação. Recomendo aos leitores que comprem, peçam emprestrado o livro sobre João Saldanha, outro grande que peitou geral. Viva Leonel, que não morre jamais.

Carlos said...

"Precisa dizer mais alguma coisa?" Sinistro. Texto perfeito assim como a argumentação. Recomendo aos leitores que comprem, peçam emprestrado o livro sobre João Saldanha, outro grande que peitou geral. Viva Leonel, que não morre jamais.

Carlos said...

Perfeita e sinistra análise. Sugiro que leiam o livro sobre João Saldanha. Viva Leonel, que não morre jamais.

Pedro Du Bois said...

Meu caríssimo Andel, seu texto está excelente, como sempre. E a inclusão do crime da Amorim, mais hilário que trágico, visto soçobrarem os dois (aos poucos). Quanto ao Dunga e à Globo: parabéns pela distribuição dos cartões. Até porque o futebol, coitados de nós, foi-se pras cucuias, ficou apenas o acre (des)gosto dos negócios. Abraços, Pedro