Translate

Thursday, September 28, 2006

A velha prosa de amor

Já me acostumei com teu bel canto
Ungindo e atiçando meus ouvidos
Limitando toda nobre balbúrdia
Imaculado firme, a meu solo dispor
Até que a doce madrugada cresça
No dourado acalanto entre nós
Ao sereno que refresca penumbra
Lânguida, lasciva e provocante
Imersa no tinto vinho da paixão
Noite, minha melhor e bélica noite
Dai-me para sempre tal conforto
Aos pés divinos do corpo, que dança

Brilhando esperança, ao redor da mudança
Fazendo alvoroço leve, debaixo da calma
Que Lua abriga


Paulo Roberto Andel, 28/09/2006

A canção da serena jovem

Eu queria ser
Literatura
Para te descrever
Com perfeição
Doce, mansa
De nascença
Recompensa
Para os olhos
Paladar de
Ouvidos
Todos sentidos
Talento me falta
E nem precisa
Quem não vê?
Tudo à vista
Teu sorriso
De conquista
Duas mil
Esmeraldas
Bandeira fincada
No monte plano
Estrela Vega
Navegante
Da candura inconteste
Que não sei
Descrever
Basta admirar
Repousar
O cansaço
E ver-te em sonho bom
Com brinde do cálice
Sagrado
Beleza em riste
Que te faz soberana
Tatiana


Paulo Roberto Andel, 28/09/2006

Tuesday, September 26, 2006

Quando éramos três

Toda casa era morada
Namorada sublime
Toda apoteose em praça
Quando éramos três
Fim do Leme, pôr do Seis

Tabernas eram nossas varandas
Cirandas para as marquesas
Asa morena, ala moana
Na Carioca, sempre matinê
Vinis de metal e fúria de titãs

Quando éramos três
Tínhamos juventude sob nossos pés
O charme do mundo, nas mãos
Dálias, margaridas meninas
Afora um túnel claro, sem luz
Nem fim

Quando éramos três
Bastava-nos serra e mar
Serra Costa
Chão de estrelas
Dadivosas
Inconteste beleza
Palavra cantada

Todas as coisas devem passar
Algumas, velozmente
Outras, com muita demora
E agora
Restam as lembranças
Dos melhores dias
De nossas vidas

Quando éramos unos
Indivisíveis
Quando éramos três
De uma só vez


Paulo Roberto Andel, 26/09/2006

Friday, September 22, 2006

Qualquer bobagem

Inventei
De escrever
Um fragmento
Só para fingir
Não ter
Argumento

Adoro ser tolo
Desacredito



Paulo Roberto Andel, 22/09/06

Thursday, September 21, 2006

Las chicas

Para as três meninas
Abraçadas, reunidas
Debruçadas em berço esplêndido
Banhadas no calor de festa
Delicadas como o dedilhar das cordas
Para o melhor rigor dos bandolins

Para as três meninas
Três marias
Dois sorrisos e um beijo são justos
Renascença da primavera
Que hoje estréia
E traz afagos, chamegos
Licores para brindar as flores
Inauguradas, desabrochadas

Para as três meninas,
Todo o vento nevega velas
Mesmo que seja brisa ligeira
Nau nenhuma há de resistir
E partirá
Em busca dos oceanos
Todos os continentes
Voltando apenas
Quando deixar meu coração em paz
A mesma paz que traz calma
Quando beijo a foto com os olhos
Três amores, três gargalhadas
Três meninas, treze tílias, sina.

Paulo Roberto Andel, 21/09/06

Do cristal quebrado

Encontrei um vaso raro de cristal, posto ao chão, quase espatifado
Houve quem lamentasse a queda do artigo por demais valioso, caro
Eu pensei em outra coisa, distante, outro jeito, outras palavras, mais
Reparei nos cacos maiores, lisos, brilhantes mas perdidos, revoltos
Cercados de menores, que emprestavam um batalhão de estranhos
Não havia mais liga, unidade, junção, formosura encantadora n'arca
Tanta beleza trucidada, jogada, descuidadamente fraturada, sem cura
O vaso tinha importância para nosso doce colírio aos olhos, caloroso
Valor vil do dinheiro ali, na cena, era de rasteira relevância, minorado
Prostrei-me ao deparar com certo final da peça, desfalecido aos tacos
Enxerguei morte de amor, o amor rasgado, desperdiçado, poído, nu
Daqueles que, tal como o belo vaso, cola alguma é tenaz de reparar.


Paulo Roberto Andel, 21/09/06

Wednesday, September 20, 2006

As flores da vida

Era o menino de olho na lagoa vadia, tão vespertina
Cheia de garças brancas e também dois pedalinhos
Sem muitos namorados a dedilhar por tanto amor
Em um fundo turqueza, cinzento, de muitas cores

Era o menino que fazia das vistas um bom navio
Para cruzar todos os mares de um planeta livre
Com a velocidade de um tal cometa, admirável
Desejável quando viesse toda noite enluarada
E que cortasse os horizontes feito tinta na tela
Brilhante, impactante, tal como caleidoscópio

O menino trazia um bondoso sorvete à mão
Contrariando o calor de seu coração juvenil
Ria do nada para quem fosse ali desatento
Mil motivos de felicidade não lhe faltavam

Ria da tarde, das cores sãs, do vento breve
Tudo coisas passageiras que nós, humanos
Desprezamos pela bobagem do ser adulto
É preciso que demo-nos o próprio indulto
Pela redenção da liberdade calorosa, viva
Que traga empolgantes visões das garças
Aposentemos de vez em sempre os paletós
A frieza dos escritórios gélidos, impessoais
Merecemos o intervalo do caos nas ruas
Apenas em breve e tão decidido instante
Para viver a verdade de meninos, limpos
Namorando a paisagem vistosa da lagoa
E cantar, partir e voltar ao melhor da vida

Há vida nas flores, nos cantos e campos
Onde os cegos também vêem, e vibram
Melodia melhor para os surdos não há
E o que dizer da voz que aparta mudez?


Paulo Roberto Andel, 20/09/06

Tuesday, September 19, 2006

O último dos moicanos

Eu sou o lobo que nunca dorme
E vivo vago, pela travessa dos poetas de calçada
Procurando meu quando, meu quanto,
Meu por quem?

Os sinos dobram?

Eu sou o sangue
Que jorra dos belos olhos da imagem da santa
Não me despeço ao primeiro passo
Eu troco meu traço
Por qualquer Graham Greene
Qualquer Rubem Braga
Todo biscoito fino me diverte
Me derrete
Feito o bom da calda
Brilho de amálgama

Eu sou uma canção na voz de Tatiana
Meu jazz é de Ipanema, secreta
Cortante blues
Bossa nova ao pôr do sol
De braços dados com a
Menina Janaína
Rainha de mar, morena de céu
Tudo ao léu

Eu sou meu longo caminho
Quando tudo parece perdido
Me divirto
Na roleta russa, vetusta
Falho, não caio
Junto, caminho
Sozinho
Sempre sozinho, mesmo ajuntado
Descanso em minha paz
Enquanto a noite de primavera
Não me conforta
Eu não digo amém
Além dos pés da bailarina

Meu tempo é nada
Delicado vazio
Dedicado, infinito

Paulo Roberto Andel 18/09/06

Cálice de agosto

Inexiste
Aquarela
Com todas cores
Para pintar
Tua beleza
Leveza e graça
de sorriso moço
Meu apreço
Em teu desejo
Feito a paz
De tua face
Que parece
Uma prece
No piano
De Simone
Julho é
Tua bênção
Agosto,
Minha lágrima
Cinema é
Tua fala
Teatro meu
Te amar


Paulo Roberto Andel 18/09/06

Monday, September 18, 2006

Quando menos se espera

Quando menos se espera, surge uma esquina
Uma dobra, um novo caminho para alameda
Mudam as coisas, as pessoas e os arredores
Males que se calam ou felicidades cerradas
Jogos de ação e reação, azar ou toda sorte
Vida e morte, desencanto e prazer, agonia
Serenidade, loucura, paz, insanidade ou fé
Todos os sentimentos, sensações e misturas
Guardados para o próximo passo, adiante
Mais à frente bem no arco do compasso
Quando menos se espera, logo em frente
Tem gente nova no paço, bem na sacada
O boteco da calçada e o novo sanduíche
A banca de jornais e uma velha novidade
O melhor de tudo, meu velho camarada
Vem com a surpresa, imponderável e sã
Indecifrável e pagã, inconscientemente vã
Que há de surgir logo na próxima virada
E nós, breves mortais em cativeiro livre
Não fazemos a menor idéia do que seja
Sabemos apenas que é maioral incerteza
Cujo controle foge de nossas leves mãos
Feito gata escaldada, lisa, escorregadia
Por todo dia a nos trazer o brilho novo
Quando menos se espera, o tempo muda
Voa ligeiro, delicado, busca e traz de volta
O que perdido parecia estar para o infinito
E aparecem os Zés, as Kleins, Alessandras
Elianes, Maranhões, tudo beira do monte
É quando olhamos para trás e refletimos
Para entender a doçura do tão ser acaso

Plácido

Absurdamente simples e real


Paulo Roberto Andel, 18/09/06

Sunday, September 17, 2006

O silêncio das mil palavras

Ontem, em certo momento do fim do dia, pude observar o horizonte nas imediações de Mangueira; subitamente e sem maiores justificativas lógicas, fui tragado pelas memórias de muitas estações atrás. Tratou-se um momento de amor antigo, surpreendente pelo momento em que ontem eu vivia, calmo e feliz. Surpreendente? Quem somos nós para administrar os anjos e demônios que navegam em nossas cabeças? O que importa se estamos bem-acompanhados, desejados, amados, se um pensamento vago pode nos surpreender com uma força de criptonita capaz de derrubar qualquer Super-Homem? Podemos estar apaixonados, inebriados, quando uma lembrança de amor rasga-nos feito uma potente lança das Cruzadas.

Nos tempos de minha adolescência, muito diferentes dos modernos, quando ainda era um amador assumido nas artes do amor, quase o mesmo de hoje, comecei a me interessar por uma menina que morava na mesma rua que eu; estudava num colégio, hoje extinto, onde eu tinha alguns amigos e, por fim, era minha companheira no grupo de escoteiros. Passamos a conversar regularmente, de modo que eu também comecei a utilizar o pretexto de visitar os amigos na saída da escola, apenas para vê-la. Em certo momento, era comum que nos falássemos diariamente e isso, certamente, fazia com que a moça não saísse de meus pensamentos. Havia, contudo, um problema para mim: tinha sido namorada de um então amigo meu, que ainda mostrava-se interessado, embora ele também o fizesse para outras inúmeras garotas. Tomei-me pela insegurança e fui deixando o tempo levar-me.
Aconteceu uma festa, eu sentado ao lado do amigo, e a moça convidou-me para uma dança. Tremi, mas fui. Primeiramente, o turbilhão de incertezas que povoa todo jovem; segundamente, o ar educado mas contrariado do amigo. Terminei a dança rapidamente, voltei a meu posto. O amigo comentou-me que eu não deveria ter ido, já que ela tinha chamado-me apenas para provocar-lhe ciúmes. Talvez fosse o certo, desculpei-me e seguimos em frente. Não sabia como lidar em tal situação, e nem sei se ainda hoje sou capaz.
Tempos depois, fizemos um acampamento de escoteiros e bandeirantes em um belíssimo lugar, o Forte Imbuí, parte integrante da Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói; teatro de uma vista fascinante, capaz de lotar as vistas de Guanabara e suas luzes, mais o Atlântico Sul. Houve uma tarde muito nublada durante o evento, feriado, de modo que os escoteiros foram liberados das suas obrigações rotineiras; com a praia deserta a postos, resolvi mergulhar no mar gelado, emoldurado por cinzas, mas ainda sem chuva. Eis que o amigo, ao saber, veio em seguida. Sugeri-lhe que saísse; estava relativamente gripado e o oceano não estava dando tréguas, um frio enorme. Manteve-se.
Ao sairmos d'água, alguns outros amigos estavam na beira-mar; entre eles, a linda menina. Meu amigo batia-se de tanto frio, o que fez com que a garota fosse até perto do acampamento para pedir a alguém um casaco. Trouxe-o e entregou-lhe. Tive algum desconforto com a situação; ciúme, só instantes depois, quando ele comentou-me algo sobre o amor que ela lhe dedicava ainda, tendo ido até duzentos metros depois só para trazer-lhe um casaco. Quando estávamos deixando a areia, rumo às barracas, em bando, eis que a menina tocou em meu braço e disse-me que queria conversar comigo mais tarde. A curiosidade me bateu; imaginei que talvez quisesse minha ajuda numa conversa entre os dois, não sei dizer ao certo. Após o jantar, procurou-me e fez convite para que fôssemos ver o mar de perto, por cima das cúpulas dos canhões de guerra do forte. Aceitei e fomos.
O caminho foi de menos de um quilômetro, talvez. Perguntei se não queria que chamasse mais alguém, e surpreendentemente, recebi o veto. Ao longe, o amigo olhou e calou; nada fez nem disse, deu as costas.
Chegamos a uma das cúpulas e sentamo-nos ao chão. Tenho certeza de que a vista do negrume do Atlântico foi um grande momento para nós. Assaltado pela vergonha e pela insegurança da juventude, comecei a falar de outras coisas, menos a que supostamente nos teria levado ali: o desejo dela em conversar em particular. Entre músicas e futebol, a passagem do dia e a praia, ocorreu que ela entrelaçou sua mão esquerda na minha, direita. Em diante, um silêncio, silêncio profundo, de mergulhos n'alma. Pensei em fitá-la de frente e dizer como a achava linda; pensei em aproximar-me devagar e dar-lhe um beijo capaz de empolgar toda uma cidade. Pensei em dizer-lhe que era a dona dos meus pensamentos quando eu vagava em busca de sono, de como era bom ir até o colégio dos amigos só para vê-la.
Mais do que a falta de coragem, deve ter ocorrido outro motivo, inexplicável, para que eu não dissesse nada.
Por sua vez, ela também se calou, não sei exatamente a razão. E ficamos nós, calados, com os olhos mergulhados no Atlântico, de mãos dadas, sem dizer uma palavra por minutos e tendo como trilha o tilintar das águas nas pedras e areia.
Foram muitos minutos, muitos, até que ela, docemente, pediu para que retornássemos à base.
Deu-me outro sorriso, lindo, louro. Levantamo-nos e fomos caminhando calmamente, como que sorvendo cada instante, cada pedaço de brisa, cada gomo azulado do céu. Ela manteve a mão junto à minha, muitos metros. Ainda tenho na memória o calor de sua mão, a candura, a maciez, tudo inesquecível.
Quando a entreguei em seu posto, não podia sequer imaginar que aquele era o último momento próximo que teríamos em vida. Esperei por uma nova oportunidade que jamais voltaria a acontecer; o amigo, também.
Foram-se mais de vinte anos. Passa um, passa outro, sempre lembro do acontecimento.
O que diria a menina? O que me contaria? Aceitaria meu carinho, que ali seria inesquecível feito a cena de um épico de Hollywood? Paro e penso na delícia de que foi aquele momento, tão puro e significativo das melhores sementes do amor que tenho tentando plantar pelo mundo, por onde passo.
Tanto tempo depois, não sei dizer se aquele beijo, que tanto desejei ali, por não ter acontecido, passou a ser mais importante do que os inúmeros que vieram a seguir, nessa jornada de desencontros que, por nossa comodidade, denominamos vida.
Até hoje, mesmo amado e desejado num fim de tarde em Mangueira.
Sentindo-me primaveril, docemente adolescente e até sonhando com o amanhã.
Paulo Roberto Andel, 17/09/06

Saturday, September 16, 2006

Pausa

Sinto-me embebido na estranheza de mim mesmo
Quando surges à minha frente tão linda e morta
Não me cabe disfarçar o que penso feito espanto
Todavia, é o contrário do que eu sempre gostaria

O que te fez desfalecida para mim?

Foste meu recomeço e primavera, bem-abençoada
Sincera morada e guarita dos meus sonhos de amor
Povoaste todo meu encanto de céus e estrelas fiéis
Em teu sorriso guardavas minha cintilante alegria

No entanto, suicidou-se em meu peito

Ver tua beleza infinita ainda faz eloquente sintoma
Inegável te pensar ou desejar, medrosos instintos
Diferente, contudo, é não mais buscar o teu amor
Não procurar, não cobiçar e nem sentir-me vazio

Como pode o que melhor tive para oferecer a ti
Falecer em teu descaso, pétala rosa que resseca
Ter virado breu, pisado e não menos descartado
Pelas sapatilhas velozes de fascinante bailarina
Enquanto uma velha canção de trilha ecoa firme
Procuro pela noite morena onde tanto te sonhei
Acordo sereno e amuado, para te desencontrar

Meu anseio por tua voz escreve outras palavras

Não mais brilhantes, não tão apaixonantes

E, sinceramente, por essas eu não esperava


Paulo Roberto Andel, 16/09/06

Friday, September 15, 2006

Noite de folguedo

Convidaram-me para uma festa que acontecerá na noite de hoje.

Logo eu, tão velho e já sem empolgação para os arroubos juvenis que toda festa, toda celebração, de alguma forma possui.

Convite feito, refleti.

Não é nas festas que eu escuto a minha trilha sonora. Longe de tristeza, mas o que me alivia é a calmaria, a conversa de bom e suave tom. A música, urbana ou não, em moderado volume. Também há outra questão, que é a de certa falta de humanidade que as festas provocam, uma vez que, nelas, o importante é gritar, pular e não necessariamente compartilhar, exercer fraternidade. Gosto de recolhimento; gostava menos na mocidade. Mesmo os grandes eventos musicais não tenho presenciado. Barulho mesmo, só o do Maracanã, onde tudo é diferente - não acontece exatamente uma festa, mas sim um ritual de exorcismo.

Entretanto, é claro que festas têm o seu valor.

É bom ver as pessoas alegres mesmo que tudo seja por poucos instantes, pontinhos na aquarela.
A vida na Terra, árida, cheia de responsabilidades e compromissos, pede uma folga, ainda que efêmera. Cantar, dançar, pular, verbos interessantes para descarregar as tensões d'alma. Sei que não vai ter Bob Dylan, Eric Clapton ou Antonio Jobim; atualmente, gostam muito daquelas coisas dos chamados anos oitenta, um verdadeiro endeusamento que, se de certa forma pode parecer exagerado, ganha relevância quando se descobre o que veio dali em frente.

A bebida, gelada, há de ser um contraponto socializador. Afinal, tudo indica que o calor que tem assolado a Guanabara prevalecerá. Noite quente, noche caliente, sem culpa nenhuma.

Alguém me disse de umas meninas bonitas que por lá estarão. Festa sempre tem mulher bonita; sucedendo o contrário, não é festa mas guerra. Sei de algumas. Vez ou outra, uma casada; várias, com seus namoros que não levam a mais de três milhas, distantes no pensamento feito certa canção de Vinicius, presentes de corpos mas ausentes de alma. Não se pode deixar de dizer daquelas que, furtivamente, aproveitarão para conquistar seus amores de ocasião, safadinhos, velozes.
Incrível mesmo é saber das solteiras.
Jovens, lindas e solteiras. Devem ser muito exigentes, creio. Sei de uma, encantadora, que deixa a vizinhança em polvorosa com seu olhar de ametista, suas melenas claras que emolduram o rosto de porcelana, divino, abençoado. Difícil imaginá-la sem cortejos, sem companhia, plenamente improvável.
Enfim, todas, cada uma a seu modo, admiráveis.

Outra canção povoa minhas lembranças, algo de Ben, onde vai ter batucada e missa de ação de graças.

Os jovens vão cair na folia, divertir-se, amar, viver o bom da vida que é cada um desses goles de relaxamento mais do que merecidos na jornada.

Deixarei reservado um cantinho, para ficar espiando a algazarra, de perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Talvez portando um toca-discos eletrônico, com algo bem distante do que as festas pedem, a delícia de sentir-me completamente estrangeiro em minha própria terra.

Acariciando a vista, meia dúzia de belezas entrecortando os céus do Centro. Tudo misturado a Bob Dylan, de novo ele, no direction home.

Em mente, o beijo da mulher amada.

Numa das mãos, o chope dourado da felicidade.

Na outra, uma liberdade enorme para ir e vir.




Paulo Roberto Andel, 15/09/06

Monday, September 11, 2006

Réquiem para o jovem velho amigo

Houve um ano
E foste embora
Com discrição
Por mais que o sol
Brilhasse
Era tempestade
Era teu inferno
E queríamos céu
Chão
Redenção
Todos demos
As mãos
E seguimos
Caminhando
Pela trilha
Sombreada
Recatada
Em busca
De luz
Da paz
O inevitável
Breve
Sentimento
Que tomou-nos
Por momento
E esvaiu-se
Feito pipa
Sem rabiola
Botão sem
Palheta
Na brisa leve
Duma tarde
Ensolarada
Triste
Mas ainda
Longe
Longe
Do fim.


Paulo Roberto Andel 11/09/06

Wednesday, September 06, 2006

Déjà vu

Estranha, sempre, a experiência de estar em um lugar novo e fitá-lo como se não fosse pela primeira vez. Tudo quase inédito: uma canção, uma foto, a literatura, o discurso, a mesa de botequim. Bateu um estalo, acha-se já ter sido tudo aquilo realmente vivenciado, como se fosse possível na vida apertar uma tecla, para a mesma voltar feito a nostálgica fita cassete.

Já vivi a sensação do déjà vu muitas vezes, todas brevíssimas. Lembro de algumas particulares, várias relacionadas à beleza e ao encanto da mulher. Certa vez, tive a sensação de que o beijo de uma era idêntico ao de outra, antiga; noutra oportunidade, a voz de uma futura amiga soou-me como a de uma bela e desaparecida mulher amada. Dia desses mesmo, encantei-me ao ver uma bela jovem flanando pela rua feito bailarina, remetendo-me ao distante passado. Outros, de amor, mais amargos: ao fim de uma história, em mais de uma vez, recomendei à ex-amada cuidado para que não fosse tomada pela frieza que, de certo modo, poderia deixá-la sozinha no fim do caminho. Sem querer, vi em face meu comentário travestido de profecia.

A saudosa praia de Copacabana é cenário meu para muitos outros devês também. Dia de sol que tem foto emoldurada pelo celeste do Leme ou do Posto Seis é padrão para a eterna repetição de cenários. Chuvoso também. Não foram poucas vezes que, na tarde cinza do mesmo Leme, eu enxerguei Copacabana por fotos em preto e branco que vieram da mesma lente, em momentos diferentes. Nunca me esqueço de um dia em que estava com minha mãe na praia, em tempos de Pedro Brito, com balde e pá de remexer areias; dei as costas para o Atlântico Sul e minha vista infantil beijou o Copacabana Palace como se fosse a primeira namorada – senti-me nos anos vinte, admirando a formosura do prédio

Ultimamente, tendo voltado aos bancos escolares depois de uma carreira acadêmica tida como encerrada, o devê é presença constante por todo lado: a emoção das provas, o bate-papo vadio na cantina, a festa de congregação, os churrascos de fim de semana, as jovens musas encantadoras que vêm e vão pelos corredores e arredores. E as vozes? Os jeitos? É Lívia que soa feito Ana, é Juliana que recorda Lavínia, muitas mais. O velho chope dourado celebrando os fins de noites. Caminhada em grupo, tal como manada de fiéis elefantes africanos pelas savanas.

Por outro lado, é possível crer no devê como uma ilusão de ótica, já que mesmo o mais assemelhado tem lá suas pequenas diferenças. Visto, revisto, revisitado, tudo sempre tem lá as suas questiúnculas, suas delicadíssimas nuances, essência deliberadamente chupada da idéia do bom e velho Heráclito, aquela onde não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Viver, escrever e reescrever, tudo com parágrafos de mesmo tamanho mas texturas diferentes.

Meu devê preferido? Agora?

O que não virá, certo.

Tuesday, September 05, 2006

Diariamentes

Todo santo dia, uma menina passa por perto de uma praça, onde hoje vivo
É rotina que insiste em transportar minha atenção para aquele mesmo trajeto
Faceira, vem e vai com seus trajes de belo corte, e melenas que livres flanam
Gosto de reparar seus nos modos, que remetem-me à velha canção de Gilberto
Alguma coisa sobre tradição e, ao mesmo tempo, sobre um tal jeito diferente
Ela desloca-se com admirável classe, em firme e decidido compasso de saída
Fosse eu um grande poeta, naturalmente traduziria sua candura em bons versos
Uns seriam mais recolhidos, outros mergulhariam num oceano celestial de paixão
Para que as doze ondas banhassem seus cabelos sedosos com o melhor carinho
E combinassem com o esmeraldino que faz justo enfeite a seu olhar distanciado
Procuro ao fim da praça, buscando quem seria o escorte preferido da tal menina
Olho e não vejo, ouço e não escuto, vasculho e desencontro signatário da sorte

Nada encontro pelos arredores, um murmúrio sequer

Havendo Deus, quem teria sido nomeado o fiel guardião daquela formosura?
Não tenho palavras e nem outras respostas que possam servir de forte amparo
Antes da primeira curva, ainda noto forte harmonia no suave passo da menina
O corpo que segue rota delicada, pequeno de tamanho, mas presença gigantesta
É como se fosse um novo pincel, quando namora gouache para beijar aquarela
E desenhar sonhos, desejos, dolências e carícias, luz de noite azulada e poesia
No fim do caminho, tenho a quase impressão de que ela flutua em vez de andar
Pois seus pés parecem desprezar quaisquer confrontos ou atritos contra os chãos
Dois amigos, entorpecidos, apresentam a exata solidariedade com minha causa
E, sem um fonema sequer, fitam-na do jeito como eu sempre faço, diariamentes

Ela desliza, solta, charmosa de inverno e linda, despedindo-se do horizonte

Parece que baila

E a praça termina, emudecida, divina

Friday, September 01, 2006

Tributo ao natimorto

Eu me perdi muitas vezes nas esquinas da cidade
Não sabia ao certo o prumo de uma nova casa
Faltou quem me servisse de guia ou guarita
Não foram poucos os mares que tragaram-me

Servi de gota no oceano, mero detalhe do plano
Calei-me no melhor momento de minha voz
Os manuscritos, atirados no fundo de uma caixa
Não guardei prosa, nem poesia, soneto que fosse

Procurei o espírito da paz e não fui recebido
As juras de meu amor foram incineradas em fel
Quando não parecia mais haver saída, motivo
Olhei para todos os lados e me veio a morte

A sorte

A boa morte

Morri quinze mil vezes, uma a cada dia
Todas em muitos momentos, negros
Renasci em mais outras quinze mil
Senti-me feito um reles punhado de Brasil

Brasil, terra vil, de aroma e azul de anil
Nunca fui tão reticente, pertinente
Nunca vi-me tão forte, sem mais morte
Nunca fui tão brasileiro

Ligeiro

Os que de mim caçoavam, emudeceram
Minha desgraça rezaram, exasperaram
Quando busquei meu próprio féretro, vivi
Longe, forte

Passageiro

Ainda não perdi a batalha
Dados de ossos repicam sobre a mesa
Escondem-se no copo de couro
Duradouro

Nunca fui tão estrangeiro



Paulo Roberto Andel 01/09/06

Amor debulhado

O agora visto
é um pote
de lágrimas
derramadas
que seriam vãs
se não fossem
incenso
para uma
palavra
esmiuçada
debulhada
outrora
batizada

amor

Friday, August 25, 2006

Carta de um jovem são, Paulo

Eu sou Paulo
De São Paulo
E num pulo
Paro e percebo
Nós somos sãos
Nem tão santos
Feito Joões ou Josés
Anjos Gabriéis
Eu não pressinto
Que possa ser santo
Não careço disso
Tal como vós
Pois é mansa
Nossa cidade
Repleta de estrelas
Oclusas pela poeira
E gentes
Por todos os cantos
Em cânticos
E prantos
Suplicando
Pelo santo
São
Em vão

Tuesday, August 22, 2006

Lívida

Branca é a tez de enquadro
Teu sorriso generoso
Comburente de amor em paz

Preto ampara tuas melenas
Debruçadas no alvo sardento
Sedento de mar e luz

Azul de céu faz janela
Em tua casa nobre, rasa
Morada de sol
Jardim da primavera
Que recomeça e recorda
Teu belo nascer

São flores e flores
Que brilham, cheiram
Anunciando tua chegada
Tua presença cálida

Lívida
Límpida

Monday, August 21, 2006

A menina dança

As sapatilhas deslizam
Demonstram candura
Ao beijar o tablado

Porque a menina dança

Eu, velho calado
Sussurro alegria
A qualquer companhia
De vista que não cansa

Por que a menina dança?

Solta no ar, flutua
Felicita
Brilha sozinha
Voando faceira
E me faz de criança

A menina dança

Aplausos, são muitos
Em solene palco
De breu em vez de talco
Debret encanta olhares

Alva e pequena
Doce e segura
Flanando rasante
Em sorriso breve, leve

Breve

Leve

Que ameniza e entorpece
Ao som da lembrança
Tirem-me a mordaça
Eu quero falar de amor
Todo puro e mágico
Aroma de amor

Porque a menina dança


Paulo Roberto Andel - 21/08/06

Friday, August 18, 2006

Jangão

Escutei o choro de minha mãe ao telefone e parti rapidamente para casa.
Coisa de cinco da tarde.

Soube então da morte de meu tio.

Foi um homem bom e carinhoso. Teve uma vida de percalços. Muito pobre e batalhador árduo durante boa parte da vida. Lembro-me em 2002, quando ele mostrara-se tão orgulhoso ao me conhecer; eu sou único universitário dentre mais de cem familiares por parte materna e, embora isso não tenha a menor importância pessoal para mim, dele tive um tratamento de pai durante uma semana que passei em Ponta Grossa, cidade paranaense.

Levei trinta e seis anos para conhecê-lo e só tive uma semana, única.

Minha mãe, criança ainda, saiu de casa para buscar emprego em Curitiba nos anos cinqüenta, visando ajudar a família em casa. Não tinha dez anos. Passou em casas de família, dormiu na rua, sofreu. Acabou conhecendo um grupo de ciganos e, por consequência, veio parar em Resende, na divisa entre Rio e São Paulo. Nunca conseguiu dinheiro para voltar. Sofreu.

Quanto eu tinha vinte anos, comecei a tentar pesquisar o possível paradeiro da família. Foi uma década perdida: com a morte de meu avô, os humílimos filhos sequer tinham certidões de nascimento, e todos foram registrados com o sobrenome Antunes, não o correto Quadros – por isso, nunca os achei em listas telefônicas ou similares.

Com o advento da rede mundial de computadores, passei a pesquisar em salas de bate-papo, sem qualquer sucesso. Um dia, uma moça que jamais conheci, ao saber da história, manteve-se anônima mas ficou de fazer chegar meu pedido a quem pudesse ajudar. Dias depois, um homem de grande coração, Rubens Tuma, telefonou-me; confirmei a história e prontificou-se a ajudar. Dias depois, nosso pedido de contato foi veiculado em uma grande rádio popular da cidade e, com isso, conseguimos realizar o sonho de fazer minha mãe rever os parentes. Alguns não puderam esperar, já eram idos; outros, muitos, lá estiveram e a abraçaram como nunca. Se alguém tivesse me perguntado qual foi a coisa mais bonita que tinha acontecido em minha vida, eu certamente teria dito que foi essa, a de ajudar a plantar felicidade no coração da minha amada mãe.

Tempos depois, uma tia faleceu. Minha mãe chorou como nunca, à distância de mil quilômetros, como ontem – e, para nós filhos, esta é a pior das dores: ver o sofrimento dos pais.

Meu tio, depois de uma vida de muito sacrifício, nos últimos anos de vida arrendou um barzinho, onde faziam serestas, coisa muito simples, típica da boa gente do interior. Na única semana que nos vimos, abraçou-me muito e parecia feliz. Devia ser mesmo.

Sinto uma dor enorme. Não sei descrever.

É a dor da distância.
A de não poder ter vivido as coisas. A de não poder ter ficado mais perto da minha gente, nem minha mãe, coitada. Não foi culpa minha, mas era merecido um jeito diferente de lidar com isso.
Ao meu tio Jango, João Maria, nome mais que brasileiro, meus sinceros melhores sentimentos de amor.


Paulo Roberto Andel 18/08/06

A balada da moça distante

Vieste na névoa ensolarada
Do fim de tarde na Guanabara
E a baía, luzidia, dava-te silêncio
De compaixão

Contemplação

Foste vinda do vento, de longe
E, de perto, eu já não entendia
O que te reluzia
Na beira parada do quase cais

Quando a tua voz doce, rápida
Vibrava entre versos simples
E mesmo por alfarrábios
Meus ouvidos tomavam-te
Por licor
O leve licor de suave luar

Por onde andas?
O que tivestes?

Pouco importa de fato
Pois a beleza do acto
É tua aparição
Seja o que for
Haja o que houver
Na luz de Madredeus

Teus olhos majestosos moram em mim
Feito dois diamantes
E ocupam duas casas
Uma de cabeça
Outra de coração

A trilha de tua morada
Entre majestosos arbustos
E frutos dadivosos
Faz sete candeias
Cândidas neves
Cânticos de lírio

E um breve intervalo
Para que venhas serena
Violante morena
Pérola de mar celeste

Beijo de brigadeiro ao léu
Azul de instigante céu

Lábios dos mais belos beijos
Velas dos melhores castiçais


Paulo Roberto Andel 18/08/2006

Friday, August 04, 2006

A esposa do ginecologista

Não entendo muitas coisas neste mundo, é verdade, mas nada me incomoda mais quando penso em certos papéis desempenhados por determinadas pessoas. Não sei, ou até sei, que se é pelo fato de eu ser mulher e uma mulher relativamente normal ou se eu sou anormal mesmo e fico intrigada com coisas sem importância. O fato é que eu não acredito que exista esposa de ginecologista neste mundo.

Começo pensando em um trabalho normal, como outro qualquer. Pense em um! Obviamente não pode ser o ginecologista porque ele não se enquadra nesses termos... mas um dentista, por exemplo. Imagine agora um dia comum de trabalho deste dentista: abre boca, fecha boca, o próximo! Abre boca, fecha boca ... o dia inteiro nisso. Agora, imaginemos nosso normal lidador chegando ao aconchego do lar, exausto depois de um duro dia de trabalho... não agüenta mais ver uma boca aberta na sua frente. Quer ver televisão, ler um livro, conversar e namorar sua esposa...

Acho que não preciso citar outros exemplos. Para que vocês entendam onde quero chegar, podemos ir direto ao nosso estranho trabalhador: o ginecologista. Poupemos-nos dos detalhes do seu dia e vamos direto ao final de sua jornada, a sua chegada ao seu doce lar. A sua necessidade merecida de descanso, estacionando o carro na garagem... quem abre a porta de casa para recebê-lo? Ela! A sua esposa que é a causa da minha indignação e descrença.

Vamos continuar a imaginar o casalzinho feliz em casa. Toca o telefone, a esposa atende. Uma voz feminina do outro lado inicia:

“-Alô, o Doutor Arthur está?”

Sua voz é de coitadinha, pois está sofrendo de algum mal que até Deus sabe aonde. O doutor vem prontamente atendê-la e carinhosamente pergunta:

“-O que está sentindo?”
Silêncio. O doutor está ouvindo. “Estarei lá na clínica amanhã, dê um pulinho lá para eu dar uma olhadinha, enquanto isso pode ir aplicando...” e a doce e feliz esposa à mesa com o jantar esfriando ouvindo esta conversa. Desliga o telefone e o jantar prossegue naturalmente. E depois vão para cama, onde juram que tudo acontece como em qualquer outro lar. Ora, quem pode acreditar que esta cena é real sem questionar se o casal não é de outro planeta?

Já tentei perguntar a esses enigmáticos homens sobre esta minha inquietude e todos mentiram da mesma forma: é diferente. Olhar a esposa é diferente de olhar uma paciente. Como isso é possível? A não ser que a esposa seja “realmente” diferente - o que torna a história mais assustadora. E para onde as esposas vão quando tem problemas ginecológicos???

Vamos além, dizem esses seres que é um trabalho como outro qualquer. Que “analisar” uma mulher é, na prática, igual ao que qualquer mecânico de automóvel faz. Levamos o carro com problemas, ele olha e dá o diagnóstico. É claro que como a mulher é um ser humano há um cuidado maior na forma que o problema será tratado; porém, é fato, que não há nenhum deslumbre ou uma emoção da parte do médico ao ver sua paciente de pernas abertas na sua frente. Se assim for, agora temos uma situação mais estranha ainda. Trata-se do médico examinando sua paciente no consultório.

Todas as mulheres sabem que ir a um ginecologista é um evento, seja lá qual for a freqüência que o vemos. Preocupamos com a nossa “aparência”, nos olhamos no espelho sob determinados ângulos que não nos vemos todos os dias, algumas passam perfume, todas tomam um banho mais demorado... Enfim, chega a hora de contarmos o nosso probleminha ou apenas fazer um simples preventivo. Conversamos um pouquinho até que ele nos olha com certo jeitinho e diz para nos trocarmos, isto é, que é para colocarmos aquela camisolinha que está pendurada no banheiro do consultório. Faço xixi? A mulher nervosa pensa. E se o papel ficar grudado? Jogo água? Me enxugo como??? Deita-se na cama. Será que estou bem? Ouve-se a voz dele: "relaxa, meu bem." Devo me fazer de meiguinha ou relaxar como ele pede? E se eu soltar um pumzinho sem querer? Ai meu Deus! O médico a examina... "Quanto será que foi o jogo de ontem?" Era só o que faltava...meu time perder de novo! Será que vai dar tempo de passar no banco? Ih, não posso me esquecer de ligar pro... pronto, querida, acabou! Depois conversam médico e paciente, despedem-se e... próxima!

À noite, a paciente lembra que esqueceu de perguntar algo para o médico. Liga para a casa dele, atende uma calma voz feminina.

“-Alô. Alô, o Dr Arthur está?”

“- Ele ainda não chegou, quer deixar recado?”

“- É que eu estive com ele hoje, meu nome é Elika e, bem... ele sabe qual o meu problema, é que eu esqueci de perguntar a ele uma coisa.”

“- Ligue mais tarde, ele chega daqui a pouquinho.”

“- É que eu fico sem graça em ficar incomodando...”

“- Bobagem! Pode ligar, o trabalho dele é esse!”

“- Com quem estou falando?”

“- Com a esposa dele...”

Neste momento, a origem do Universo, a física quântica e a desigualdade social viram objetos de simples pesquisa - e me repreendo ao ter ensinado aos meus filhos que fadas e ETs não existem.


Ao meu ginecologista e sua esposa com carinho
Elika Takimoto

Monday, July 31, 2006

O frio domingo

Ontem não era propriamente o que se chama de um domingo de regatas.
Houve um frio enorme na Guanabara; as ruas eram vazias e, portanto, cheias de silêncio ocasionalmente cortado pelo tilintar das gotas de garoa nas peças metálicas de bueiros, tampões e semelhantes.
O sopetão de inverno deixou os bairros calados, serenos, acolhidos pelo cinza que se fez de celeste.
Segui a minha rotina habitual de vários domingos, vários dias e anos: ir para o Maracanã, o mesmo que está na minha vida tal como um parente querido, que tantos insistem em derrubar. A rotina foi levemente alterada pelo fato de que utilizei o metrô como meio de transporte - normalmente gosto de ver as ruas, os caminhos, mas a falta das gentes e a garoa me incentivaram à troca. De qualquer forma foi bom: houve um clima de subway no metrô, de fog, alguma coisa londrina que não sei determinar ao certo. Muitos botafoguenses, alguns tricolores, várias meninas lindas, todos devidamente agasalhados.
E tive lembranças.
A primeira, quando foi necessária a triagem para a linha dois, que conduz até o estádio. Sou do tempo em que eram somente as estações de São Cristóvão e Maracanã - hoje, é um mar delas, chega até Pavuna, coisa impensável antigamente.
Outra, durante o jogo, com pouco público, devido às campanhas reticentes dos times e o frio, mais o afastamento natural que tem ocorrido dos estádios: televisão, preços, violência, tudo tem sua parcela. Houve um Fla-Flu há vinte anos, também num dia chuvoso, que teve vinte mil pagantes; eu achei um absurdo - como poderia um jogo dequela estampa ter um público tão pequeno? Agora, dependendo da ocasião, vinte mil é para lamber beiços inesgotavelmente.
O jogo em si não trouxe os alfarrábios à minha mente. Foi fraco, lento, quase desinteressante, indigno da rivalidade centenária entre o Fluminense e o Botafogo. Porém, quem frequenta o Maracanã sabe da magia que é estar nele presente, nem que seja para vaiar a pior pelada dos últimos doze mil anos - e quem frequenta de verdade, com fé, não concorda e jamais há de concordar com a aberração que seria demolir não um estádio, mas a prima dona do futebol brasileiro que, copas fora ou não, ainda faz as vezes de banca no carteado da bola. Quando o jogo é ruim dos dois lados, tirando uma surpresa do destino, termina como ficou de verdade: com empate.
O dia frio teve seu último capítulo de lembranças quando desci a avenida Maracanã. Subitamente, deixei-me tomar pelos anos setenta. Na mesma avenida, outrora, meu pai dava-me a mão para atravessarmos. Em sentido contrário ao dos carros, virávamos à direita, na São Francisco Xavier, invariavelmente à espera do 434 ou 435, que nos deixava na porta de casa, Siqueira Campos. Tempos de uma casa muito pequena, estávamos até sem mesa de jantar; minha mãe preparava a comida e servia numa mesinha que não tinha mais do que um metro de área. Bebida era refrigerante, feito até hoje. Na televisão, a espera pelos gols do Fantástico e, mais tarde, pela reprise do jogo na TVE. Não foram poucas as vezes que isso aconteceu, basicamente entre os anos de 1979 e 1981, quando então eu já comecei a ir sozinho ao estádio - recordar é viver, tempos em que era normal um garoto de treze anos ir sozinho ao Maracanã.
Ao final da avenida, prestes à tradicional direita, vi-me sem a mão de meu pai, sem o 434, a Siqueira Campos. Tenho hoje duas mesas, quase grandes, com refrigerante. A família estaria em casa, felizmente, mas é certo que nenhuma janta estaria à minha espera. TVE? Gols do Fantástico?
Dei-me conta de que, mais do que a magia do futebol, tão embriagante para mim, é a eterna saudade de ser criança, criança na essência absoluta, e não ter que enfrentar as segundas-feiras com suas gentes, reclamações, contas e tristezas vãs.
Paulo Roberto Andel - 31/07/06

Thursday, July 20, 2006

Ode à pequena mendiga

Lembro-me de que uma menina era linda
Logo à vista fitei seus olhos esverdeados e faiscantes
Trajava uma roupa poída, porém tratada e honesta
Alguns traços cinzentos cobriam os braços maltrapilhos
Esmolados, esfomeados na escada da estação de trem
Que avizinhava-se da Rua da Matriz

Eu, nós, eu, criança tomada pela mão, trazida pelo pai
Era menino de longe, muito longe, outra Copacabana
Ela era pedinte, talvez filha da outra mendiga na parte baixa
Chorando pelas moedas aos pés da mesma escada

O pai me passou na roleta, eu despedi-me com o olhar para nunca mais
Não sei dizer da formosura de seu rosto, as formas, outros detalhes
Cabe-me apenas recordar de sua candura e seu olhar
Brilhante, colorido, desesperado, fugidio


Não haviam ensinado-me o que eu tinha acabado de sentir
Um breve instante que há muito trago no peito, na memória
E sempre recordo toda vez que a mulher mais linda
Já vista pelos doces olhos do meu cansado coração
Surge à minha frente, de repente, em trajes vermelhos, pretos

Volto a ser criança e me espanto com a imagem distante
É o amor que me remota à beleza da mulher, a leveza da menina
Que mora eternamente na mendicância, em qualquer escadaria
Que faça às vezes daquela, perto da Rua da Matriz

Onde estará a menina? Viva? Linda? Vadia?
Onde morrerá a menina? Perdida na esquina?

Onde reside o amor que inunda minh’alma desde a infância?

Perto de algo que lembra Cristo?
Longe de tudo o que fala de Deus?


Paulo Roberto Andel - 20/07/06

Parassimpático

Parassimpático

Feito de cranianos nervos
Alojando-se pelos núcleos
Alvejando certos órgãos

Sacramentando vidas
Vistas, faces, vozes, vagas

Parassimpático
Perto de ação final
Morando nos gânglios
Tronco cerebral
Medula sacral

Do vago a Edinger-Westphal

Parassimpático
Parasatisfeito?

Paramétricontroladoesquerdorsonu



Paulo Roberto Ândel - 20/07/06

Friday, July 14, 2006

Sodade

Bastou um estalo, um breve sussurrar da televisão de baixo volume, um sono leve e eu me deparei com o branco opaco do teto.
A meu lado, não estava quem eu somente queria.
Havia silêncio a preencher os espaços d'alma, majestoso feito duas mil orquestras num carnaval de sonhos a olhos abertos, atentos.
Não era o posfácio de um dia difícil, tampouco resquício de mágoa ou desconforto. Nada disso.
O teto beijou minha vista quase embriagada e me trouxe à mente uma única palavra: saudade.
Ah, a saudade! Esse rio, um turbilhão.
A saudade que mora em Cabo Verde, numa canção de Cesaria Evora, preencheu-me. Tudo junto, num instante.
Era do amor que tanto prezo, sem retorno. Dos amigos queridos, que foram para o infinito. Breve lembrança da oitava série, debruçado na janela da sala e fitando o Atlântico Sul. Corrida na pista do Forte do Leme, picolé com Vera. Jogo de botão debaixo da escadaria do shopping center. Reunião ao sábado no grupo de escoteiros. Não-beijo na Tatiana, perto da Sá Ferreira. A pizzaria Caravelle. O bar do "Seu Manel". A casa do Buja. Atari com Ricardinho. Arroz à piemontese na Bella Blu. Viagem despretensiosa para São Paulo, aparentemente sem maiores motivos.
Em segundos, minha vista firme no vazio do teto serviu de combustível para cinco mil viagens, todas somente possíveis na perfeita harmonia da confusão mental, cada idéia em dois segundos enquanto o mundo girava muito mais rápido do que de costume.
Saudade dos meus tempos de faculdade. Saudade do Maracanã, da universidade. Saudade de Arraial do Cabo. Saudade de outra linda Tatiana. Teresópolis. Raiz da Serra. Patis. Guanabaras. Niteróis, especialmente: uma viagem que fiz na madrugada, sozinho na proa da barca, sentindo-me um verdadeiro pirata e deliciando-me com o barulho breve d'água, na solidão mais bem-acompanhada da minha história. Friburgo, na volta, abraçado à mais bela das belas. Resende, na ida. Mendes, na estadia.
Quebrei o tempo por um instante e liguei o aparelho de discos. A doçura da poesia de Francisco para superar beleza do outrora silêncio.
A fresta da janela permitiu-me ver outros quartos, de outros apartamentos. Luzes apagadas, ausência de outros ruídos, todos os tudos desligados. Talvez três da manhã, imaginei.
Outras saudades bateram-me no peito preciso. Das mais simplórias, feito a de um milk-shake, até as de maior sofisticação, tal como um show de Jane Monheit. Saudade da boa conversa do Moraes. Saudade da viagem com Tatiana. Saudade da prosa de Breno. E Alessandra? E Luciene? E Ana. Todas de beleza sem fim.
Deixasse o tempo correr em meu descanso, não faltariam motivos para lembrar e pensar em mais e mais saudades. Algo que se sente e é difícil de descrever ao certo, mas que pode ser traduzido como um prazer celestial de repetir o que se passou - mesmo que essa passagem ainda esteja presente e que vá se repetir por muitas outras quinzenas.
Juarez Machado, o grande artista, disse em certa vez que só seria realizado em sua profissão quando conseguisse desenhar a saudade.
Como expressar a saudade em arte? Como dialogar com a saudade? Eu não sei. Dela, minha ignorância só permite-me aproximar através do sentir, do pensar, do refletir no meio de madrugada vadia, entre calados e música de leveza. E foi isso que tanto fiz em efêmeros momentos do descanso interrompido.
Imaginei ser hora de guardar a saudade, para ter saudades da saudade e posteriormente recordá-la, sorvendo cada pedaço feito uma deliciosa iguaria ou um drinque apoteótico; dei cabo temporário aos pensamentos.

Recolhi-me à prévia antes do novo sono discreto.

Idílio à vista não havia, meu coração era morador de um bairro distante, suburbano.

Não pedi licença em meu espaço na cama. Desnecessário, pois.


Paulo Roberto Andel - 14/07/07

Monday, July 10, 2006

Fora de sim

Quando dei por conta, eu não estava mais ali
Éramos muitos na companhia, todos falantes, felizes
Meu silêncio se fazia de voz aguda, translúcida
Transportada para a calma infinita
No vazio que era pura presença e pertinência

Havia algo de feliz no semblante da moça
Decerto não sei descrever na plenitude
Mais que bastante, por mais de um instante
Contagiado fiquei, solidário e participante
Não era a mudez que me restringia do ato
Pois fato era que eu permanecia
Com a chama ardente em meu coração

Houve um momento fora de propósito
E poucos foram dos mais atentos
Foi relento que nos deu testemunha
E carinho nos serviu de guarita

De repente, veio um rompante
Dois lábios que avoaram ligeiros, acesos
Feito aves em bando, para meu espanto

Quando dei por conta, eu não estava mais em mim
Era toda praça, cada pedaço, todo lugar
Toda estrada de batida terra, paz e guerra
Sóis e céus por detrás dos véus
Meu lugar era dela, por ela

Presente sentinela

A guardar o melhor do amor.


Paulo Roberto Andel, 10/07/06

Tuesday, July 04, 2006

Um rosto

Minha vista enevoada
Fitou um velho rosto

Entre tantos na multidão

Com seus olhos pequenos
Lábios limpos
Saborosos
Sorriso de linho
Moldura de cachos
Especiais
Nada banais

Calei frente ao rosto
Consenti
Carinhei minh’alma
Deserta
Pequena
Vaguei no mar da lua
Quase nua

O rosto me deu uma prece
Agradeci o viver

Friday, June 23, 2006

As coisas que nunca mudam

Você está parado e, de repente, as lembranças sobrevoam pela mente feito pequenos outdoors, incessantes e permanentes. Basta silêncio que a memória há de agir navegando pelos passados. Pode ser um grande jogo, um motivo de risadas, a mulher amada, o amigo que se foi antes da hora, quase tudo. Nosso tempo é hoje, agora, já. Contudo, o passado, mesmo que devidamente bem controlado, guardado hermética e seguramente em compartimentos devidos, surge quando menos se espera. Aquelas caixinhas que ficam devidamente preservadas, que nos fazem quase sempre bem quando ressurgem – e que nunca mudam.

Uma vez, lá ao longe, eu gostei muito de uma garota. Coisas dos tempos de faculdade, quando tudo é encantamento, beleza e poesia. Ana. Era mais nova do que eu, mas já trabalhava, carteira assinada, assistia às aulas arrumada pelo rigor da profissão, era um encantamento. Logo que a vi, chamou-me atenção o fato de que falava pouco em público, parecia inicialmente tímida e era mesmo; muito depois, soltou os cachorros, mas era outra história. Timidez de lado, eu gostei de que não fosse uma daquelas garotas fúteis, que já trabalhasse e tivesse responsabilidades, me inspirava confiança e nem sei bem por quê. Adorava seus cabelos tingidos com as luzes, seu sorriso. Lia, conhecia jazz, bossa nova e, assim como eu, eleitora de Brizola. Assistimos juntos ao dia que Luiz Carlos Prestes concedeu uma de suas últimas palestras, na universidade da Guanabara. Ficamos amigos. Tinha namorado, separou-se. Fomos a uma festa em Niterói num agosto distante; o aniversariante, famoso no circuito colegial por suas conquistas, não tardou em assediá-la, mas foi educadamente dispensado. Acabei beijando-a na beira da piscina, sob aplausos de um casal de bêbados, na mesma rua onde, muitos anos depois, outra menina que depois namorei tinha uma casa. Coisas da vida.

Eu, menino pobre, gostava de suas conversas, de sua alegria, do fato de que ela gostasse da minha companhia mesmo quando andávamos de ônibus, íamos ao Bob´s ou caminhávamos na praia iluminada de Copacabana. Tudo simplicidade, mas deliciosa. Trocávamos presentes, ríamos, divertíamos um ao outro. Adorava aquele beijo. E por que não namoramos? Confesso que não sei dizer. Deve ser da garotada, quando você ainda não tem segurança para certas coisas, talvez.

Aconteceu, um dia, de a moça loura de tinta ir embora, ainda não sei se para sempre. Casou, separou, Perdemos contato há uns dez anos, melhor assim. Em mente, tudo devidamente arquivado.

Um velho amigo inventou de me colocar de novo em sala de aula, não para dar aulas, sim como aluno. Eu, que já tinha minha carreira tida como encerrada, dei fim ao fim. Houve um outro agosto, outra faculdade, outra ansiedade de estréia e tudo novo de novo. Os companheiros de sala foram apresentando-se, conforme instruções de uma professora. Um menina novinha, bonitinha, então calada, sentada à direita, fitei rapidamente. Casada, pelo anel à vista, respeitosamente. Passaram-se uns dois ou três dias, até que alguém conversava no fundo da sala por perto, e assustei-me: num instante, veio-me à mente o cabelo tingido, a boca escarlate, os dentes alvos, os olhos pequenos, depois de tanto tempo. Evitei olhar para trás no instante: pensei que Ana estivesse na sala. A voz, sim, a voz ali estava, timbre fino, agudo, quase inconfundível, como se aparecesse ecoando por meio de uma fita cassete interminável. Esperei mais alguns momentos antes de virar para trás e ver quem era a ressurreição da voz de Ana, já que a mesma nunca estaria ali. Melhor, quase nunca.

Quando vi, surpreendeu-me constatar que a dona daquela voz, em beleza sorridente, era idem a do lado direito de outro dia. Olhei e gostei. É bom rever boas coisas na memória, mesmo que a origem da produção das lembranças seja completamente involuntária, pois.

Ana? Não. Alívio? Ah, Lívia.
(Andel Roberto Paulo, 06/23/06)

Wednesday, June 21, 2006

21 de junho

Agora, início de nublada tarde na Guanabara.

Não há, no momento, grande ameaça de chuvas, que tanto atormentam os nativos da cidade, principalmente aqueles que fazem das marquises o próprio teto. Parece um dia de calmaria: trânsito de carros escassos, muitos na expectativa de mais uma partida na Copa do Mundo, quase um feriado disfarçado, exceto pelo comércio que não pára, pois vender é preciso.

Junho, das festas, das conquistas.

Chegou o inverno.

Os dias já estavam frios para nós, em nossa capital, desde o outono. As noites também chegaram mais cedo.

As folhas que caíram das árvores foram devidamente recolhidas pelos servidores de limpeza.

Há um certo clima pelos arredores, ora de nostalgia, ora de recolhimento. O frio, embora esse, nosso daqui, não seja genuinamente gelado, humaniza. Flanam os romances de orla, gestos mais comedidos, certa calmaria. Os que podem, vestem-se melhor; mesmo os mais humildes cuidam-se, com seus velhos casacos e gorros.

Será bonito ver Ipanema e Leblon tendo o céu elegante e levemente cinzento, feito nos tempos em que conversava com Pedro Brito nas pedras do Arpoador. Ou ainda, quando Tatiana era linda em meus braços.

Serão três meses de reflexão, quase meditação. Nossos dias de fog londrino chegarão.

Mesmo sem crença, torcerei contra as tempestades e contra as mazelas da pobreza que insiste na cidade, injusta que é.

No mais, pelas noventa noites a seguir, nós todos, de certa forma, estaremos pacientemente brindando nos cafés e cantinas a expectativa da chegada da primavera, com suas novas flores e promessas ao alcance de uns e outros, não de todos.


(Paulo Roberto Andel, 06/21/06)

A crônica partida

De acordo com alguns homens das letras, por vezes tidos como de brilhante espectro intelectual, a crônica é tida como um gênero literário “menor”. Coloco aspas na diminuição: a meu ver, são válidas porque discordo frontalmente dessa opinião. Como poderia ser menor para nós, brasileiros, uma expressão cultural que nos deu simplesmente Rubem Braga?

Eu, que cronista não sou, defendo a idéia central do velho Braga a respeito do tema: crônica é viver em voz alta. Mesmo que passe pela auto-bustificação, conforme a visão de outro craque, Ivan Lessa.

A crônica é o jeito de garantir eternidade aos momentos que, por confusão mental nossa, minha e sua sim, parecem desimportantes, mas não são. Para mim, é o resultado da vista firme do poeta que se reflete nos comentários, todos que não precisam ser os de maior profundidade.

O bem que confronta o mal; o sol que brilha na tarde que sucedeu uma manhã nublada; o sorriso da criança; o olhar da mulher amada; um humilde engraxate em busca de seu ganha-pão; o disco que toca a bossa; o melhor time da semana; a traição e a verdade; o fim da linha. É tudo simples e definitivo. É tudo vida.

Em crônica, tudo cabe – assim, não é o gênero menor, e sim o maior, o mais profundo. Cheio de formas e nuances.

Uma crônica reticente ou definitiva? Pode ser, pois.

Uma descrição rasa ou profunda? Também.

Recheada de palavras que nos tragam ventos de delicadeza ou da mais pura aspereza, quem sabe?

Viva? Permanente, mesmo que feita para o entendimento efêmero.

A crônica é partida constante para um infinito de idéias que, gigantescas ou curtíssimas sejam, congrega a síntese do eterno presente em que vivemos. Repetidas vezes, tal como fosse uma crônica e incessante partida rumo ao mar da tranqüilidade. Redundante pelo próprio nome: crônica.

Ou ainda a crônica partida, rasgada, de cujas entranhas venha sempre um novo amontoado de palavras, quase versos, capazes de expressar a nossa, humana, genuína capacidade artística, que é a de pensar.
(Paulo Roberto Andel, 21/06/06)

Monday, June 19, 2006

Saudades da graça

Lá pelos tempos de oitenta e nove, coisa de uns dezessete anos, eu era apenas um rapaz latino-americano, sem parentes importantes e nativo da Nova York brasileira, Copacabana. Uma década antes, eu gargalhava sozinho ao ler os textos de Ivan Lessa no então vivo Pasquim, e sentia-me chateado porque nenhum outro amigo sabia sequer do que eu ria com o jornal de “oposição”, assim falavam. Adorava os palavrões, os insultos aos leitores, tudo coisas que eu não tinha a plena noção, assim como a de que Ivan é um gênio e que, se um dia eu aprender a escrever direito, devo tudo a ele, velho Ivan.

Volto aos oitenta, quase noventa. Uma dureza danada, começo de faculdade, pai contra, dificuldades. Houve um dia em que paralisaram a faculdade, voltei para casa, perto de nove da manhã, resolvi caminhar pela beira do mar em dia nublado. Desci a Figueiredo velha de guerra, rumo ao Sumol, esquina com Barata Ribeiro, Varese em frente, lanchódromo do bairro ao lado de próceres como o Gordon e o popular Cervantes. Provavelmente Ferôncio e Luiz estariam jogando bola, Rubinho ao menos. Antes de pedir meu tradicional eggcheeseburger, vi um carro parado, não sei se uma Brasília, daquelas que os Mamonas iriam imortalizar anos depois. Fato era o de ser um carro da antiga. Quando olho para o motorista, me vem uma sonora gargalhada, uma seqüência delas – o interlocutor, melhor, interobservador retrucou-me com risos idem, e não trocamos uma palavra, até que o carro partiu e eu cheguei ao balcão para pedir o sanduíche.

Era Bussunda.

Não se tratava de uma celebridade televisiva, mas já tinha seu fan club. Ano antes, tinham feito um show histórico no Circo Voador, em campanha para o macaco Tião, hóspede do zoológico e candidato informal a prefeito que conseguiu medalha de prata no pleito – Xuru foi ao show e fez campanha para o Macaco Tião; adorava contar que Bussunda tinha sido jurado em um concurso do qual ele, Xuru, tinha participando como...vocalista da Troncomóvel Band. Redator de um programa de tevê que tinha acabado de alcançar índices alarmantes de audiência, a TV Pirata. Engraçadíssimo, pois. Escrevia também numa revista sensacional, a Casseta Popular, que fez – merecidamente - gato e sapato de Collor. Vendiam camisetas com deboche e cartuns marcantes, frases, comprei duas para Alessandra e uma para Klein.

Tempos depois, fizeram outro show hilário no Teatro Ipanema, todos vestidos de Leopardos, Luizinho me chamou para ir. Bussunda, em certo momento, causava alvoroço de risos na platéia – imitava simplesmente Deus numa parte da peça, caminhando por entre os expectadores, com seu sorriso ímpar, sem dizer uma só palavra.

Universidade do Estado, 1991. Show de Oswaldo Montenegro para a TVE, beta-boca com um aluno, OM irou-se, referência ao fato de Bussunda ter comentado no Salão Carioca de Humor, na Santa Úrsula, que o “Museu do Babaca” ia ser inaugurado no Casseta Shopping Show, simpático bar da rua Paulino Fernandes...com um móbile em tamanho natural do trovador citado, na porta.

Com o passar dos tempos, a turba toda se reuniu, a Casseta Popular, o Planeta Diário – maravilhoso, com suas manchetes surreais. Livros, discos, programa em horário nobre, virou indústria das boas. Fiquei sabendo que alguns dos membros da turma foram estagiários do Pasquim – e conseqüentemente, do Ivan, que muito inspira muito do que fizeram de melhor.

Os veteranos da Uerj que divertiram-se a valer nos folguedos e eventos promovidos pelo alto clero estudantil do Instituto de Matemática deve, em algum momento, ter percebido a influência Bussundiana no grupo. Tivemos um grupo de humoristas famoso por lá, hoje finado, chamado Cecrime e que nada tinha a ver com crime, só com gargalhadas.

Não gostei quando Bussunda resolveu distratar o Fluminense em suas crônicas esportivas – ressalte-se, eu e uns dois milhões de torcedores que muito o xingaram. Pediu desculpas: era craque, percebeu que o humor tinha extrapolado a conta. A vida seguiu, sem mágoas. Bem disse Rinus Michels, também desaparecido, que era e é, sempre, somente mais um jogo de futebol. Enquanto isso, os Cassetas fizeram as turbas rirem e rirem.

Vem uma bobagem e splaft! Tira o Bussunda do caminho. Muito antes dos acréscimos do árbitro. Errradamente. Esse negócio do grande palhaço, do humorista, morrer antes da hora, dá um gosto de cabo de guarda-chuva danado. Parece que a festa não vai ter vela soprada porque o aniversariante não veio.

Eu, sabe-se lá porque, recentemente voltei a ver os Cassetas antes do outro programa de terça, que considero muito bom, coisa deste ano. Dia desses, vi um quadro divertido e fiquei recordando, meus flashbacks imaginários na cachola, dos tempos do Casseta Shopping Show. Tempos do Collor, quando achávamos que a coisa ia dar certo, pobres de nós....Tempos da faculdade, que voam ligeiros e não deixam rastros. Tempos da Alessandra e da Klein.

Luizinho foi embora. Xuru, idem. Cecrime, ausente. Bussunda também.

O Sumol já não é mais o mesmo. Não posso ir mais à praia de manhã. Não tem mais nenhum motorista gargalhando na esquina.

Tenho saudades da graça.
Paulo Roberto Andel, 06/17/06

Thursday, June 08, 2006

Dois edifícios

Caiu uma tarde, coube-me um lanche no décimo-segundo andar de um prédio que tenho freqüentado nos tempos recentes, morador honorário, creio. Arquitetura sessentista, moderna, cinzento.

Em minha mesa, além da solidão inevitável, havia um sanduíche de queijo minas no pão da França, mais um refresco.

O tal prédio da lanchonete esbanja uma vista linda: em frente, o esplendor do desprezado Campo de Santana, tão bonito e abandonado, com o lirismo de seus bichos democraticamente soltos e juntos, entre idosos que praticam a caminhada entre elementos do underground. Noroeste, tem o garboso prédio do Corpo de Bombeiros; nordeste, morro da Providência, berço primeiro do que convencionamos chamar de favela – e se não é bonita como gostaríamos que fosse, cabe lembrar que é casa de gente, por menos que isso agrade a alguns. Perto do Norte, o playground preferido: Maracanã, de Mário Filho e Nelson Rodrigues, que só os desavisados cogitam chamar de ultrapassado ou propenso à demolição. O gigante do futebol é eterno.

Tudo devidamente misturado ao maciço da Tijuca, outros morros, outros verdes. Belo horizonte.

Minha vista enevoada deparou-se com outro edifício, ao longe, tão cinza quanto este meu daqui. Um velho e charmoso prédio, dos tempos da Guanabara. Por um instante, fitei-o como nunca; o cinza e o concreto serviram de combustível para minhas lembranças, minhas melhores lembranças e saudades. Foi naquele prédio que eu pude, em muitas vezes, me confortar das tempestades; não foram poucas as vezes que, junto de amigos, mal possuíamos o dinheiro para o biscoito ou o refrigerante, mas tínhamos o mundo sob nossos pés e todo um caminho de suposta felicidade a ser ainda trilhado. Lá, aprendi muito e talvez tenha ensinado alguma coisa; ri e chorei, gritei e calei, amei e odiei. Meus companheiros de trajetória forjaram laços comigo nos corredores daquele prédio. Eu amei três mulheres na vida, e beijei duas exatamente naquele poente da minha vista. Minha política, minhas palavras, meus pensamentos, tudo num momento parecia ter o sabor daquela construção. E tem. Terá.

Soube que querem derrubar meu velho prédio. Ambições desmedidas, demagogias, peitos sem corações. Não acontecerá, por mais que poderosos queiram.

E eu, com o sanduíche na mão e o refresco em espera, reparei que agora, hoje, moro em outro prédio. Outro condomínio, outro pavilhão.

Meus vizinhos daqui são outros, algumas vizinhas continuam lindas. Klein, já tem; Serra Costa, também; Alessandra, ainda não. Importante, porém, é reconhecer que os sonhos estão encurtados, já que falta tempo. Não há mais Guanabara, nem trote, nem tardes vadias para vivenciar as melhores prosas, os mais honestos sorrisos, os beijos mais suaves.

Hoje é futuro. Diferenças.

Minha mente estalou seus dedos secretos; daí, percebi uma fina ironia.

Olhar o que melhor me abrigou no passado, aquele velho, soberano e inesquecível prédio, não seria um presságio, uma promessa de grandes dias neste novo condomínio? Serei quase feliz aqui?

A vista de um é a promessa do outro? Como saber.

Acabei o sanduíche, cumprimentei a turma da lanchonete e espiei pela última vez os cento e oitenta graus de imagens, com o velho prédio, sempre ele. A escada me chamou, desci calmamente, saboreando todas as imagens na memória.

Do futuro, nunca se sabe.

Do passado, belíssimo, dos anos incríveis, acabou de bater à minha porta pelo método menos convencional: através de uma janela, beijada ao chão pelo verde da esperança que esparrama-se pela Praça da República.



Paulo Roberto Andel 08/06/06









Espelho meu

Meu espelho não me reflete
É nele que mergulho
Navego
Traço rotas imprecisas
Para te procurar

Meu espelho não tem sombras
Nem jogos
É reflexo na cidade de luzes
Cores
Matizes
O arco-íris de teu brilho maior

Cores
Todas as cores
Todos os tons
Em meu espelho és impecável
Formosa
Brilhante de ágata
Semente eterna de calor no coração

Sofreguidão

Meu espelho é dobra de sinos
Cântico de paz
Belo horizonte
E logo ali defronte
Há um inenarrável sorriso
Que não ouso decifrar
Mas causa-me bem estar
Brilha em minhas retinas
Aquece minhas almas
Tira-me da tempestade
A mocidade
Traz-me ao pantheon
O som

Onde mora minha alegria
Minha vista
Meu paladar
Perfume de conquista
Ametista
Pedra preciosa de tanto encanto

Meu espelho mora em ti
Por fim

Monday, June 05, 2006

Das mãos

Quando eu provei tuas mãos
Pétalas de rosas beijaram as palmas
Minhas palmas
Rosas, flores vivas
De brilhante gracejo
E poesia lunar

Quanto eu toquei tuas mãos
Teu calor me atravessou
Na lida, por dias
E me trouxe um suspiro
De beleza letal
Meridional

Fulminante
Ardente
Doce nave a me transportar
Pelos novos planetas
Todo o Sistema Solar
De sonhos límpidos
Tão claros, precisos
Nada indecisos
Teu mel em pleno cais

Quando tuas mãos foram minhas
Não estavam decerto sozinhas
Trouxeram em si toda minha felicidade
Toda a mocidade
E o afeto que me reside e te procura

Ávido
Necessário
Cálido

Brilhante feito o pôr do sol
Sereno feito leve tom
Imagem de Arpoador
Teu melhor amor
Meu maior clamor

Iluminado

Definitivo

Tuesday, May 30, 2006

Gotham City, por um triz

Noite de outono gelada, éramos eu e Max a caminhar pelo negrume da Gomes Freire, avenida que já fez os encantos da capital e hoje, embebeda-se de nostalgias, decadências e um futuro que pode tanto ser de samba quanto de réquiem. E nossas vizinhas, lindas? Não pudemos avistar, dado o adiantado da hora. Silêncio perene da rua, nada de carros a não ser nos motéis da região. Pedestres? Quais?

Veio a delegacia. Uma viatura estacionada e, dela, surgiu um policial com seu fuzil à nossa esquerda. Levei breve susto; afinal, nós, cariocas, por mais que vivamos uma guerra civil silenciosa que alguns insistem em esconder, ainda não estamos acostumados a fitar fuzis com naturalidade, feito fossem o chope dourado da felicidade ou a mulher amada. Outro policial, outro fuzil. Atento para a saída do terceiro homem, um talvez meliante, de olhos assustados e punhos algemados. Era um preto novo, de seus poucos vinte. Parecia aterrorizado. Não saberia dizer se era um assassino, um ladrão, um golpista ou mesmo um preto – que, nesta terra, ainda é motivo para quase prisão, mesmo que tentemos veladamente ocultar o assunto, para não revelarmos nossa mais áspera face, a de sociedade perversa, fria, cínica, despreocupada com a grande maioria das gentes, preconceituosa e racista, pois. Os homens da lei também eram pretos, ou negros se o racismo inverso assim exigir; contudo, pretos diferentes, pretos em defesa da lei. E mesmo que estivessem mais do que certos, capturando um perigoso bandido, passou-me pela cabeça uma das cenas típicas de outro século, a do preto fugido, quando era reconduzido pelo capitão-do-mato ao seu dono. Não seria analogia barata, há resquícios de coisas assim em todas as terras que percorremos nesta capitania, como se eternamente estivéssemos condenados a viver como se fosse naquele modelo.

O horror foi de um instante, um triz, uma vírgula. Logo viria a próxima esquina.

Ledo engano.

Eram sons de sirenes. Ambulâncias vermelhas.

Demo-nos por conta, havia um sujeito no último andaime de uma obra abandonada na rua da Relação. Um candidato à morte voluntária, tal como eu fui um dia, feito cada um de nós por quase um segundo. Dezenas de pessoas ocupavam a rua, havia engarrafamento, confusão. Um sujeito perto de nós contou uma história, a de que seria um moço sem casa que, acolhido pelo pastor de uma igreja, roubou-a com um comparsa que foi preso – denunciado, ameaçou acabar com a própria vida. Verdade ou não, eu e Max aceitamos a premissa.

Houve quem gargalhasse com a possibilidade da queda do sujeito, mais do que real. Alguns gritavam de perto da portaria virtual, pediam que pulasse – e não arredavam pé dali, donde desconfiei que eram pouco afeitos às leis da física, na condição de potenciais vítimas terrestres de um suicida.

Nós fitávamos tudo de certa distância. Logo ao lado, o “Caveirão”, veículo de combate que, teoricamente, é um instrumento de paz para populações carentes vitimadas pelo tráfico vizinho. Controvérsias à vista, creio.

Outro triz surgiu em minha vista. Eu lembrei do dia em que, ainda menino, vi corpos voarem em chamas do edifício Andorinha, o mesmo que hoje dá bons dividendos ao meu amigo de arquibancada, Max. Eu era um garoto e vi as mortes pulsando a todo instante. Recordei meses antes, quando três mulheres dependuradas por uma mangueira de incêndio, em um prédio da Senador Vergueiro, não resistiram e espatifaram seus sonhos no asfalta, tudo por obra de um louco incendiário.

Não havia fogo. Gelo, sim. Frieza, necessária quando a vida está no limite.

Enquanto o pastor e amigos subiram nos escombros para tentar dissuadir o possível suicida, um bombeiro subiu lentamente os andaimes. A lentidão de quem tem certeza da vitória, mesmo num momento como aquele, onde tudo parecia féretro. Houve um golpe, o bombeiro imobilizou o sujeito, os dois com a vida em risco. Uma vida foi salva, mesmo que efemeramente. Por mais estranho que pudesse parecer, e é, os mesmos que gritavam ao desesperado para que pulasse, aplaudiram o salvamento. Eu compreendo, pois rezo a cartilha de Enrico Bianco, onde só o que realmente importa no homem é a contradição.

Quando o espetáculo trágico se desfez, sem o final talvez esperado de maneira mórbida, os populares começaram a retirar-se. Max me disse do brilhantismo do homem, daquele que pôs a cabeça em prêmio para salvar o desconhecido: não sabíamos dizer quanto ganhava por mês, se tinha filhos, se a esposa em casa sabia que ele atrasara-se para o jantar para resolver um pequeno pepino profissional. Em seguida, o amigo se foi para sua Barra, sua Beverly Hills carioca sem suingue sangue bom, contrariado.

Eu desci a rua. Sozinho. Não havia mais risco. O preto novo foi encarcerado, o quase morto renasceu. Foi tudo por um triz.

A morte, sempre tão sombria e certa de sua vitória, ali naufragou.

Um ou outro bobo, quase todos devem ter ido para o bar, fazendo pilhéria do caso.

Meu silêncio tomou-me de assalto. Era tudo Gotham City, sem Batman, Comissário Gordon e nem mesmo a espetacular Mulher-Gato.

Só.


Paulo Roberto Andel

Rio, 42º

Sete horas (PM.) e a cidade ainda arde.

A tarde resiste bravamente e retarda a chegada da noite.

A cidade é um labirinto onde eu ando e sinto em cada rua, em cada esquina que dobro, o calor (também da sua alma, da sua gente).

Caminho por entre as ruas fechadas pelos arranha-céus e preso a essa geometria reta, esbarro nos vértices e arestas que desenham sua assustadora beleza. Verticais edifícios que quase tocam o céu, que recortam e cobrem o céu azul, com suas paredes, misto de vidro, concreto e ferro, parecem esmagar as pessoas apressadas.

Procuro o infinito e não encontro, tudo é extremamente finito.

Numa rua longa, meus olhos quase colados pela poeira e suor, descobrem um atalho e enxergam numa fresta de céu, a figura esférica da lua, que surge repousando sobre um prédio, cheia e ainda amarela. Parece guardar um pouco do mel que roubou do sol que ainda há pouco clareava e aquecia o dia.

À medida que caminho, olho fixamente pra lua que vai se escondendo atrás do prédio como que inibida, e olho, e caminho em direção a ela, que se esconde totalmente.

Agora estou no meio da cidade e não existem mais atalhos.

O céu agora só existe sobre minha cabeça.

A cidade ainda é linda e já esfria. A cidade é absolutamente encantadora em sua capacidade de mistura do antigo com o moderno, do asfalto com o morro, na mistura das raças, do executivo com o ambulante, etc. E as mulheres? Ah, as mulheres... ! (isso merecia várias linhas a mais)

E o cafezinho carioca? E o chope?

O dia teimoso cedeu enfim lugar à noite.

Meu corpo, já cansado do calor e do suor do longo dia precisa dormir... Acho que só resisti aos 42º devido à beleza que vi e vivi.


Por Jocemar Barros, 30/05/06

Monday, May 22, 2006

O invencível verão

Sobraram ainda, creio, alguns momentos a serem usados nos próximos vinte dias, bem como alguns últimos momentos divertidos. Mas o verão começa a dar o ar de sua despedida, começa a dizer um "até breve" que não chega a soar como "adeus". As estações são assim, passam velozes em nossas vidas e, se não estamos devidamente atentos, podem escapar pelos dedos. Todas têm o seu importante valor; contudo, o verão é bem lembrado pelo seu brilho, pela sua perseverança, pelo azul sorridente de seus dias.

Imagino e espero que o verão tenha sido bom para você. Para nós, não foi intenso como outros; para mim, foi pouco e escasso. O verdadeiro verão deve ter crianças nas praças sem grades, moças lindas a desfilar nas orlas claras, gente feliz nas tabernas entre conversas fiadas e chopes dourados da felicidade. É preciso ver as pipas avoarem em ventos ligeiros dos bairros da Central. Urge que espalhem a fraternidade, ternura, carinho e esperança pelas esquinas, calçadas e travessas, pelas alamedas e vielas. As vilas e os condomínios ficam mais próximos do que o normal. Os poetas devem deixar fluir a sua verve, tão verve quanto dos escultores e pintores, dos homens de cinema e teatro, dos artistas do futebol. O bom verão toma emprestadas as flores da primavera e as refresca com alguns dias do outono, tudo para temperar o amor que surge de um beijo à beira-mar, no portão da casa ou na piscina. Esperamos do verão o rigor da paixão, a disciplina do caráter, a firmeza do excelente humor, o clarão da luz que acompanha os homens de bem, tudo temperado pelo balanço que os pianistas impregnam o samba - sim, o samba bom, o samba que aquece os corações perfeitos.

O verão, este que já despede-se, foi escasso para mim. Não tenho mais tempo para viver intensamente as coisas que disse antes nestas linhas. Não tenho mais tempo para as pipas nem para a verve, chopes não são mais freqüentes à minha mesa. Moro longe das praças queridas e meu amor desapareceu feito certa brisa leve. Devo ser ranzinza, posso ser mesquinho, tendo à mediocridade; entretanto, nada disso abala minha saudade do bom verão, um verão pomposo e metropolitano, cheio de promessas e tentativas que pudessem um dia dar certo. Queria a criança chamada eu de volta, para que me guiasse pelo pensamento de que somos nós mesmos que construímos as estações e, por isso, podemos transformar cada estação a nosso bel prazer, de acordo com nosso espírito livre. Queria por que não tenho, mentiu quem disse que querer é poder: na verdade, antecipo-me ao outono que já vai chegar, trazendo folhas ao chão e mocidades independentes para ocupar os espaços urbanos, prateados com pitadas de chumbo.

Daqui a vinte dias o verão será a saudade de todos os que o viveram bem e foram felizes - estes dele falarão aos quatro cantos e à rosa dos ventos. Para mim não sobrou nada, passou e senti um vazio por não vivê-lo como deveria e poderia.
Cabe-me contar as folhas do chão, as nuvens de chuva e as flores que surgirem até que surja um novo verão, uma nova promessa, um novo nascente que me faça sonhar. Como todos aqueles que, neste, tiveram um invencível verão.
Paulo Roberto Andel