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Thursday, August 25, 2011
Wednesday, August 24, 2011
ORA, BOLAS
meu espelho,
que range os dentes
ao me receber,
desta vez ofertou
silêncio
e,
por isso mesmo,
estranhei.
ele já nao tem
mas raiva,
não tem rancor
e nem ousa
mostrar-se indignado:
agora é só
um espelho
que precisa de um pano
umedecido
em álcool
e um banho daqueles
de curar
mau-olhado.
meu espelho está mudo
mas não é morto;
apenas se restringiu.
também não morri -
apenas rever
minha velhice frente a ele
traz-me um que
de piada juvenil
qualquer.
Paulo-Roberto Andel, 23/08/2011
que range os dentes
ao me receber,
desta vez ofertou
silêncio
e,
por isso mesmo,
estranhei.
ele já nao tem
mas raiva,
não tem rancor
e nem ousa
mostrar-se indignado:
agora é só
um espelho
que precisa de um pano
umedecido
em álcool
e um banho daqueles
de curar
mau-olhado.
meu espelho está mudo
mas não é morto;
apenas se restringiu.
também não morri -
apenas rever
minha velhice frente a ele
traz-me um que
de piada juvenil
qualquer.
Paulo-Roberto Andel, 23/08/2011
Monday, August 22, 2011
Tuesday, August 02, 2011
EU RECOMENDO!
(Reproduzido do blog de Luis Nassif)
Enviado por luisnassif, ter, 26/07/2011 - 18:34
Enviado por luisnassif, ter, 26/07/2011 - 18:34
O uso da Internet em campanhas presidenciais
Autor: Daniele Barizon
Os veículos de comunicação sempre tiveram papel destacado na estrutura do discurso político, seja como instrumentos de campanha e/ou ferramentas para manutenção de governos. Com o advento dos meios de comunicação de massa – notadamente jornais, rádio e TV – sua utilização torna-se, a cada dia, mais aperfeiçoada. Com o surgimento da Internet, abrem-se novas possibilidades de conquista ao eleitorado, a despeito de sua ainda baixa penetração popular – ou penetração rápida, considerando-se seus apenas quatro anos, se comparada ao tempo em que o rádio e a TV levaram para chegar aos lares (38 e 13 anos, respectivamente).
As potencialidades da world wide web, suas prerrogativas de interatividade e de convergência despontam como novidades capazes de interferir significativamente nas relações até então baseadas em vínculo linear entre emissor e receptores passivos.
Ao utilizar o ciberespaço, suas comunidades e redes sociais – de onde emerge a chamada Inteligência Coletiva – o candidato penetra um novo tipo de dinâmica social, da qual pode beneficiar-se, desde que tenha sabedoria para operar o incrível aparato que se lhe apresenta.
O livro Eleições em Rede: A evolução do uso da Internet em campanhas presidenciais traça um histórico da utilização da rede em campanhas majoritárias no Brasil, do pleito de 1998 até 2010 (este último com resultado satisfatório, se comparado aos anteriores, porém ainda aquém do nosso potencial), por meio das atividades de seus principais candidatos. Partindo da análise de discursos políticos na Grécia antiga, discorre sobre as mudanças impostas pelas mídias ditas tradicionais, o emprego destas mídias como instrumentos de governos totalitários e democráticos, sua consequente desvirtuação para atendimento de caráter eleitoreiro e, finalmente, suas conexões com a Web.
Através da comparação entre as campanhas brasileira e norte-americana – esta sempre pioneira – investiga o desenvolvimento e as tendências da rede, as novidades constantes em cada pleito, seus principais SNSs (Social Network Sites), os erros frequentemente cometidos por partidos que não acompanham o crescente fluxo tecnológico e as dificuldades impostas por uma legislação que até há pouco entendia a Internet como um meio de comunicação similar ao rádio e à TV, regendo-a pelas mesmas diretrizes. Procura, por fim, esclarecer até que ponto a Web hoje se constitui em veículo indispensável ao bom desempenho de campanhas eleitorais, pontuando as diferenças sociais e culturais que imprimem caráter específico ao nosso processo – diferenças que devem ser compreendidas para que seu uso seja cada vez mais efetivo.
Para adquirir o livro Eleições em Rede (ISBN 978-85-7894-006-5):
Friday, July 29, 2011
MATRIZ
é tão engraçado
quando me sinto feliz
que futuco nuvens
sem pensar num instante - que futuco nuvens
e nem
poderia.
afinal, quem pode
ser
feliz
quando se trata
de um
ser
pensante?
quando é mais do que
um instante
a felicidade
necessariamente
se despe da lógica,
do pensamento e
da ação.
para existir,
ela exige a nulidade
do ser
perante os seres -
para ser preciso,
o triunfo
da indiferença.
Paulo-Roberto Andel, 29/07/2011
Thursday, July 28, 2011
O JOGO DE UMA DÉCADA
Ou duas. Ou três.
Assistir ontem ao emocionante duelo entre Flamengo e Santos me fez rever a infância. Melhor ainda: os tempos que não vivi, no futebol dos anos cinquenta e sessenta.
Assistir ontem ao emocionante duelo entre Flamengo e Santos me fez rever a infância. Melhor ainda: os tempos que não vivi, no futebol dos anos cinquenta e sessenta.
Era impossível levantar da poltrona e perder algum lance. Primeiro, o Santos devastador com três a zero em meio tempo. A seguir, a fúria imediata do Flamengo a mostrar que ali não seria canja de galinha, empatando um jogo que muitos consideravam perdido antes mesmo do intervalo. Ali sim se viu um espetáculo digno de fazer o torcedor esperar até dez horas da noite para saborear futebol. E futebol de verdade. Desconte-se apenas a ridícula cobrança do pênalti por Elano e a justíssima firula do goleiro Felipe no pós-defesa. Três a três foi pouco: poderia ter sido cinco a cinco. Um show.
No segundo tempo, de cara Neymar fez o quarto gol, logo ele que tinha deitado e rolado no campo. Mas Ronaldinho pela primeira vez fez completo jus ao salário e, mesmo que tenha sido por uma noite somente, voltou a ser aquele menino que encantou o futebol brasileiro tal como o Neymar começa a fazer agora. O jogo parecia tão nostágico em sua colossal qualidade técnica que a eterna camisa rubro-negra estava praticamente limpa, sem os malfadados patrocínios no peito que destroem os uniformes dos times mundo afora, tudo por conta das enormes boladas de dinheiro pagas. Mas o Flamengo queria mais, sempre mais e virou o jogo com dois maravilhosos petardos do Ronaldinho.
No fundo, no fundo, talvez tenha sido injusto ter um vencedor naquele jogo de ontem, que foi o melhor do ano, dos últimos anos ou de uma década, por tão bonito que foi o espetáculo. Mas somente talvez, depois explico. Matematicamente, o jogo não significou quase nada em termos de tabela: o Flamengo continua bem e o Santos ainda tem jogos a acertar. Agora, daqui a cinquenta anos, vários senhores dirão "Eu era menino e passei a amar futebol por causa de uma partida em que o Flamengo venceu o Santos por cinco a quatro na Vila Belmiro, no ano de 2011", não tenho dúvidas. E eu, que já sou um senhor, ao ver aquilo tudo voltei a ser menino: naqueles tempos, além de ver os jogos do meu amado Fluminense, ia sempre ao Maracanã ver jogos de outros times também, tudo por apreço ao futebol.
Foi uma grande noite, daquelas que sabemos ser cada vez mais raras em nosso país. Uma pena.
No mais, agora coloco o talvez para escanteio: a vitória da Gávea foi justa sim. Antes do jogo, metade da imprensa apontava o Santos como favorito. O futebol não aceita essas coisas: ele nasceu para contrariar a lógica e, por isso, ser o esporte mais popular, apaixonante e falado do planeta. Por não ser favorito, o Flamengo jogou o possível e o impossível e, ao lado do maravilhoso Santos escreveu uma linda página da história do futebol brasileiro. Não havia um título, uma grande disputa, uma cabeça à prêmio. Foi somente arte, correria e talento, tudo a serviço de quem ama o jogo de talento com bola no pé no tapete de grama.
Graças a esse jogão de ontem, adquiri forças para aguentar mil jogos medíocres pela frente. E espero rever algo parecido em breve, muito breve, de preferência com a vitória das minhas cores de Laranjeiras.
Quem não viu ontem, que trate de gravar ou fazer o download. Não foi apenas um grande jogo de futebol.
Foi cinema.
Paulo-Roberto Andel, 28/07/2011
Tuesday, July 26, 2011
UM PEQUENINO INSTANTE
1
Eu queria que você estivesse aqui, tal como nos velhos tempos. Era tão bom matar aula à tarde, comer hamburger Sadia e ficar ao teu lado para ver o programa popular da TVS. Certa vez, faltei tanto que vieram do colégio me procurar: acharam que algo de ruim tivesse me acontecido. Não é que eu lamente: chorar é outra coisa e eu choro todo dia. O que me dói é o danado do tempo, que corre solto tão rápido que tudo continua na minha cabeça como se fosse na semana passada. Eu queria que você me passasse um trote, ou fizesse uma torta montada com bolo Plus Vita. Eu queria que voce reclamasse do futebol ou da minha demora na rua. Eu queria qualquer coisa que me me fizesse parar de sofrer mesmo que por um pequenino instante apenas. Não tenho a menor ideia de quanto tempo vou ficar por aqui, mas carrego a infeliz impressão de que tudo aquilo não se repetirá. Eu queria te dar os parabéns pelo teu aniversário e mais um beijo, um abraço e um presente, mais uma declaração do amor de sempre. Eu queria fazer várias coisas, todas cerceadas pelo impossível. Este é o mundo que chamam de moderno e corporativo, enquanto eu sou meu próprio fantasma. Enquanto isso, eu te amo tanto, tanto, tanto e sempre que nem sei mais para onde minha bússola aponta.
2
Um jovem se arrasta pelo chão na praia de Botafogo. Tem a perna amputada numa cirurgia claramente malfeita. Descalço. Sem dentes. Tão menino e vivendo o pior do inferno, pedindo alguma comida. As pessoas passam alheias à dor: precisam correr para o shopping, mandar um SMS ou fingir que aquilo não é nada. Eu entrego o dinheiro de uma refeição: ele agradece e me recomenda a Deus. Dele, aceito. Eu não merecia isso hoje, ele não merecia aquilo nunca. É o único momento em que eu gostaria de ser um milionário. Tentar minimizar a dor dessas pessoas que sofrem tanto na rua, já que a minha dor ninguém vai mesmo tratar.
3
Depois de um excelente documentário sobre o genial músico Itamar Assunção, exibido quase de graça em Botafogo no Unibanco (ué, não é Itaú?) Arteplex, descubro que ele não teve um carro, uma casa própria, nada. Ou melhor, teve tudo. Nadou sempre contra a maré que não lhe derrubou. A terrível doença que lhe ceifou a vida antes do justo foi um detalhe, triste mas detalhe. Itamar foi Cartola ou Nelson, Camunguelo ou Blecaute: viveu para a arte, enquanto a sofisticada elite ignara dava-lhe os ombros e negava-lhe o reconhecimento tão evidente que desqualificá-lo fede a burrice atroz.
Paulo-Roberto Andel, 26/07/2011
Depois de um excelente documentário sobre o genial músico Itamar Assunção, exibido quase de graça em Botafogo no Unibanco (ué, não é Itaú?) Arteplex, descubro que ele não teve um carro, uma casa própria, nada. Ou melhor, teve tudo. Nadou sempre contra a maré que não lhe derrubou. A terrível doença que lhe ceifou a vida antes do justo foi um detalhe, triste mas detalhe. Itamar foi Cartola ou Nelson, Camunguelo ou Blecaute: viveu para a arte, enquanto a sofisticada elite ignara dava-lhe os ombros e negava-lhe o reconhecimento tão evidente que desqualificá-lo fede a burrice atroz.
Paulo-Roberto Andel, 26/07/2011
Para Bolinha Mãe, o jovem sofrido e Itamar.
PIADINHA
acho bom
desmistificar
qualquer fato
que pareça sério
a meu respeito: é que
a seriedade não
convence,
faz vezes de empáfia
oca
e isso não rima comigo.
no mais, não sou
palhaço: trata-se
de uma profissão
deveras importante
para alguém que
se pretende
ser humano
Paulo-Roberto Andel, 26/07/2011
desmistificar
qualquer fato
que pareça sério
a meu respeito: é que
a seriedade não
convence,
faz vezes de empáfia
oca
e isso não rima comigo.
no mais, não sou
palhaço: trata-se
de uma profissão
deveras importante
para alguém que
se pretende
ser humano
Paulo-Roberto Andel, 26/07/2011
Tuesday, July 12, 2011
EU SEM MEU
eu
que não creio
tantas vezes
me sinto
mais verdadeiro
eu
que não creio
tento entender
a verdade
do outro
eu
que vejo o fim
mas não me apavoro
quero sempre
estar errado
eu
tão sem-consolo
frente à inevitável
hipocrisia
humana
Paulo-Roberto Andel, 12/07/2011
que não creio
tantas vezes
me sinto
mais verdadeiro
eu
que não creio
tento entender
a verdade
do outro
eu
que vejo o fim
mas não me apavoro
quero sempre
estar errado
eu
tão sem-consolo
frente à inevitável
hipocrisia
humana
Paulo-Roberto Andel, 12/07/2011
O PARALELO
nada que me causasse
imensa alegria
faz algum sentido
neste instante
é que não sei fingir o momento
meu desprezo às aparências
permanece evidente,
tanto quanto meu gosto
por desacatar a futilidade:
não vivo em permanente
carnaval,
minha alma não é gritaria,
nem riqueza,
nem baticumbum prugurumdum -
menos ainda se for
o grande tambom
da vulgaridade.
alguns creem no sorriso
permanente,
na alegria infinita,
no mar e céu e sol
como se todos pudessem
estar ali
num misto entre o ingênuo
e o ridículo:
somos humanos, pois!
a solidariedade há tempos
não é nosso forte!
querem me falar de fraternidade
enquanto defendem
essa-tal-livre-iniciativa?
somos humanos e hipócritas!
está escrito o primeiro
verso da reza de minha cartilha,
que chamo simplesmente
de descrença no outro.
Paulo-Roberto Andel, 11/07/2011
imensa alegria
faz algum sentido
neste instante
é que não sei fingir o momento
meu desprezo às aparências
permanece evidente,
tanto quanto meu gosto
por desacatar a futilidade:
não vivo em permanente
carnaval,
minha alma não é gritaria,
nem riqueza,
nem baticumbum prugurumdum -
menos ainda se for
o grande tambom
da vulgaridade.
alguns creem no sorriso
permanente,
na alegria infinita,
no mar e céu e sol
como se todos pudessem
estar ali
num misto entre o ingênuo
e o ridículo:
somos humanos, pois!
a solidariedade há tempos
não é nosso forte!
querem me falar de fraternidade
enquanto defendem
essa-tal-livre-iniciativa?
somos humanos e hipócritas!
está escrito o primeiro
verso da reza de minha cartilha,
que chamo simplesmente
de descrença no outro.
Paulo-Roberto Andel, 11/07/2011
Tuesday, July 05, 2011
POR VEZES
É certo que não deveria, mas ainda me surpreendo com certas coisas na vida cotidiana. A indiferença de uns pelos outros ainda me soa como surpresa, porque persisto numa ingenuidade que não cabe nestes tempos ditos modernos. Ainda me sinto um Dom Quixote, mas os moinhos são reais, não há fantasia. Minha ilusão é ainda acreditar no progresso do ser humano em si. A canalhice ainda me surpreende, assim como o ódio, a ganância, a inveja, o mau-caratismo, a podridão moral. Não falo de doutrinas políticas nem religiosas e menos ainda de pensamentos confrontantes, que são muito importantes para o exercício da compreensão; quero dizer do rancor, da obsessão indevida, da falácia, da mentira. Somos animaizinhos desprezíveis quando limitamos nossa amizade a conversas fiadas, eletromensagens e tapinhas rápidos nas costas. Somos animais nojentos quando priorizamos sempre a nós mesmos, sem o menor compromisso com a dor do outro, a visão do outro, a angústia do outro. Perto dos cinquenta anos, vejo que desacreditar o coletivo humano é uma realidade inevitável e cada vez mais evidente. Praticamente morreram todos os valores que sempre acreditei e defendi, tão bem-ensinados por meus pais, alguns amigos e poucos professores - eu os procuro em várias outras pessoas mas duas ou três palavras fazem-me um rosto em choque com uma porta de aço trancada. Eu os carrego comigo mas parece que estou sempre sozinho. Onde está o respeito? A atitude de compaixão? O compromisso? A palavra? A consideração? Morreram, assim como meus pais - estes, ao menos, ainda moram em mim enquanto eu viver. Falo de quase cinquenta anos de idade e, ao olhar para trás, é difícil ver que todos aqueles que defenderam as causas populares também morreram sob o fracasso e a derrota de suas ideias frente ao imaginário coletivo tão satisfeito com seus "vencedores", seu "consumo" e suas práticas individualistas abomináveis. A tecnologia melhorou, os recursos são cada vez melhores, só que jamais chegarão à maioria dos vivos. O que chamam de moderno é basicamente trabalhar, trabalhar, pagar e consumir sem ter tempo de ver a vida real, cada vez mais presa ao que chamam de obrigações. Que evolução seria esta? Modernos? Nunca fomos tão atrasados e estúpidos e inconsequentes ao apoiarmos o modelo fracassado que chama de progresso o indivíduo que atende por um número. Queremos modernidade tecnológica, melhores aeroportos mas não estamos nem aí se o próximo bueiro vai explodir e matar alguém. O que dizer de nossas conversas rasteiras, nossa falta de profundidade, nossa confusão entre humor e grosseria? Gostaria de ser um homem calejado, sem me deparar com surpresas, mas ainda sofro com a estupidez humana, a mesma raça à qual pertenço contra minha vontade. Eu mesmo sou um estúpido: falta-me humildade para reconhecer a vitória das ideias corporativas, dos business centers e das joint-ventures sobre a pequenez da bondade humana. A vitória do individualismo arcaico. Assim padeço.
Paulo-Roberto Andel
Paulo-Roberto Andel
Saturday, July 02, 2011
ITAMAR
Estranhem ou não, acompanho política desde os dez anos de idade, se é que isso é plausível. Filho de um progressista inconformado e sobrinho de um preso (e MUITO torturado) político expulso do Brasil, não tinha outra saída. Não entendia direito, mas folheava o Pasquim em 1978. dois anos depois, aí sim eu já compreendia quase todas as (justas) piadas a respeito do Presidente Figueiredo, a começar por sua triunfal pérola de posse do cargo: "Anistia ampla, geral e irrestrita; quem for contra, eu prendo e arrebento!". Que nível.
Conta-se nos dedos de uma única mão os políticos de direita que realmente trabalharam a favor do Brasil e dos brasileiros. Itamar Franco, que faleceu horas atrás, foi um deles. Sou testemunha.
Pegou a maior furada da história da república: o "legado" do (sic) "ex-comungado" Collor. Situação de emergência e risco total. Meteu a cara, arregaçou as mangas e seguiu em frente. Perto dos sessenta anos, poderia ter dado o fora. Mostrou vitalidade de menino e o Brasil, outrora um avião desgovernado e em queda livre, aterrisou inacreditavelmente sem maiores vítimas. Tudo bem, isso custaria oito anos de FHC com tudo o que de cômico e trágico isso significa. Porém, se hoje o Brasil é um pouco melhor do que o de anos idos, Itamar é cotista da empresa.
Quando a crise política cercou seu secretário da Casa Civil, Henrique Hargreaves, Itamar foi impecável e elegante como a cautela mineira do quase-Rio que é Juiz de Fora: o secretário foi afastado, investigado da cabeça aos pés, absolvido e voltou para seu cargo. Eram outros tempos.
Poderia lembrar aqui causos engraçadíssimos do Presidente Itamar, como aquela história da modelo Lilian, o clone de Fafá de Belém, ou seus arranca-rabos com FHC (sempre ele) e até mesmo Lula. Coisas de quem tem uma vida pública. E suas filhas lindas? A bela Tenente June (ou Júnia)? Há vários e vários Itamares, mas o maior, o supremo deles foi o homem que recebeu a república em extrema-unção e a recobrou sabe-se-lá-como. Eu era um dos coordenadores do centro acadêmico da faculdade onde me formei, na minha amada UERJ, de forma que vi tudo aquilo muito de pertinho.
Se a direita brasileira tivesse outros homens com o espectro de Itamar Franco, o Brasil de hoje seria muito diferente. Ele não teria esperado até 2002 para entrar no século XX; lucraria um meio-século de tempo. As ideias podiam ser diferentes, mas o objetivo era o bem do Brasil e não o próprio feudo, prioridade de tantos outros.
Se houver outra vida, Itamar acaba de ser ovacionado no lugar onde chegou. Eu não creio nesta outra vida, mas dele não tenho a menor dúvida.
Um abraço e obrigado por tudo.
Paulo-Roberto Andel
Tuesday, June 28, 2011
Wednesday, June 22, 2011
Tuesday, June 14, 2011
PAULICEIA
e se
fosse o caso
daquela mina alucinante
da mooca
passar pelo pacaembu
e alimentar a tua vista
com desejos
até provocar
uma saudável
onomatopeia?
mesmo que precisasse
de vários asteriscos
que indicam
lascívia, tesão e vontade
não seriam em vão:
tudo culpa da saudável
sensação
de viver, ô meu!
vamos em frente
que armênia não é penha
e perus não é poá!
a mina é da hora
mas o sonho é só um sonho -
alguém me leve ao ponto chic,
ao delírio de um bauru
no paissandu.
sem pensar em holerite
nem osso:
eu faço o que posso
enquanto respiro e vivo
aquela onomatopeia:
a "tua mais completa tradução"*
da minha
pauliceia.
Paulo-Roberto Andel, 14/06/2011
*Citação de "Sampa", Caetano Veloso, 1978
Friday, June 10, 2011
JOÃO GILBERTO
O Brasil sempre teve vocação para grandes cantores, grandes vozes, a grandiloquência sem par de craques como Orlando Silva, Francisco Alves e congêneres. Ali, por volta dos anos trinta, destoava a singularidade de Mário Reis. Eram tempos dos grandes programas de rádio, com força equivalente à televisão atual. Ao mesmo tempo, a temática das canções era carregada: a dor, o drama, a mulher sem moral que trai, o sofrimento e a desilusão amorosas; os cabarés enfumaçados.
No final dos anos cinquenta, um jovem da Bahia virou tudo de cabeça para baixo, influenciado por muitas coisas e também pelo Mário. Com um violão impecável, sintetizou toda uma bateria de escola de samba. A voz era quase sussurrante. Saía a puta de cena e entrava a garota linda, leve, praiana. Em vez da dor, o amor safadinho mas romântico e delicado. Em vez da noite, o céu ensolarado. O baiano, ao lado de outros craques com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, criou uma situação tão inesperada, empolgante e diferente na música brasileira que até hoje, mais de meio século depois, ainda é debatida se era um movimento, um momento ou um jeito de tocar e cantar - que até hoje influencia meio mundo musical no Brasil e no exterior, lotando casas nipônicas e norte-americanas com meses de antecedência. Tocar não somente as novas músicas como repaginar todo o grande cancioneiro de outrora, transformando as canções por completo. A batida é dele, o jeito de tocar é dele.
Samba de violão.
Voz de falar ao pé do ouvido da amada. Bossa Nova.
Voz de falar ao pé do ouvido da amada. Bossa Nova.
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira.
Gênio do Olimpo brasileiro.
Perde-se muito tempo ao se falar das manias e possíveis esquisitices de João.
Hoje é dia de seus oitenta anos de vida.
Vamos celebrar um craque que rompeu barreiras, dinamitou paradigmas e abriu as porteiras para a música moderna feita nesta terra.
Louvemos João Gilberto. Ele está para nossa música assim como seu amigo e contemporâneo Tom Jobim, ou no futebol como Pelé, ou na literatura como Fernando Sabino, por exemplo. Oiticica nas artes plásticas. Cacaso na poesia. Paulo Autran no teatro e por aí afora. Goste-se ou não, um revolucionário na arte que escolheu para fazer e nela viver.
O Brasil não conhece o Brasil.
Um dia, há de conhecer - e aí veremos o quanto brilha em nossa constelação a magnífica estrela de João.
O Brasil não conhece o Brasil.
Um dia, há de conhecer - e aí veremos o quanto brilha em nossa constelação a magnífica estrela de João.
A Bossa Nova passou na prova!
Paulo-Roberto Andel, 10/06/2011
Thursday, June 09, 2011
A ESTRELA QUE ILUMINA O MAR
Caros amigos, ontem o futebol brasileiro experimentou um de seus momentos mais gloriosos e empolgantes dos últimos tempos – e de muitos outros.
Quero falar do colossal triunfo do Vasco da Gama, campeão da Copa do Brasil e digno representante brasileiro na Libertadores de América em 2012. Mais do que justiça, simplesmente uma questão de ajustar velhas tradições; afinal, o Vasco é o primeiro campeão sul-americano de clubes.
Não se vence um campeonato apenas num jogo final, assim nos ensinou Nelson Rodrigues, o maior cronista da história do nosso futebol. Conquistar um título é um somatório de detalhes que se juntam até o ápice. Assim foi com São Januário. O merecido título não nasceu ontem, mas meses antes, quando Ricardo – meu eterno ídolo Tricolor – chegou à cruz de malta para resgatar um time que não era ruim, mas fazia uma péssima campanha no Rio e era massacrado diariamente pelos jornais. Ricardo, com sua tradicional calma que fez dele um dos maiores zagueiros já que passaram pelo Maracanã, soube conduzir o processo com tranqüilidade e, paralelamente, chegaram alguns reforços. Muito antes do que qualquer torcedor ou analista imaginasse, lá estava o Vasco a disputar o campeonato estadual, perdendo nos pênaltis uma decisão em que tinha sido superior nos noventa minutos. Mais um recolhimento de cacos e a Copa do Brasil era uma meta – já se via na Colina certo padrão de jogo, bom sistema defensivo e a volta dos melhores momentos de Felipe, parcialmente limitado por sua condição de veterano mas ainda capaz de brilhar. Silenciosamente, sem os alardes da velha imprensa que, claro, trabalha incessantemente pela idéia de que o Rio de Janeiro tem apenas um time capaz de disputar títulos, o Vasco soube galgar os degraus e deixar os grandes favoritos comendo poeira pelo caminho.
Então, veio a batalha da grande final. Não me venham com a balela de que o primeiro jogo não foi brilhante. Ali, era o momento de o Vasco relembrar aos esquecidos o quanto sua camisa é um aríete numa final de campeonato. O Coritiba, incensado como o grande time do Brasil neste primeiro semestre, lutou mas não conseguiu empatar; assim a vantagem era enorme para São Januário: qualquer empate serviria, qualquer derrota mínima desde que fizesse gol serviria. Estava escrito.
Ontem, o Coritiba fez uma linda festa com sua bela torcida e um show de mulheres fantásticas. Fizeram do Couto Pereira um caldeirão. E começaram o jogo de forma impactante, buscando o gol mas sem maiores finalizações. Quando menos esperavam, a força vascaína apareceu como um tufão e Alecsandro abriu o marcador. Era um claro sinal de triunfo. Mais tarde, os esmeraldinos empataram e, numa infelicidade de Prass, viraram o jogo. Só os ingênuos acreditaram que tudo estava perdido para a Colina. Reitero: bastava a derrota pelo placar mínimo. Antes do final do primeiro tempo, alguns jogadores pareciam nervosos, colocando velocidade demais na bola quando isso não interessava ao Vasco, e creio que tenha sido o principal fator que levou à virada dos coxas; entretanto, quando um grande time está numa final, nada está perdido. O resto é balela dos despeitados. Perto de minha casa, uma enorme massa de torcedores cruzmaltinos ria e chorava, sofria e glorificava. Sempre me identifiquei com eles. São Januário guarda em suas fileiras torcedores que estão entre meus melhores amigos, aqui ou em algum lugar: os da faculdade, da infância e da vida afora – e todos podem se sentir representados aqui pelo inesquecível Xuru Nunes. Meu coração Tricolor não cogita desrespeitar a maravilhosa história da Colina; hoje, o Vasco é o maior algoz do meu gigantesco Fluminense e isso, por si somente, mostra o respeito que tenho por São Januário. As mentiras dos cadernos esportivos não me enganam, tais como a “sina de vice”; qualquer busca rápida nos alfarrábios e todos saberemos quem é realmente o time que mais perde finais nesta cidade.
Os quarenta e cinco minutos finais começaram e o Coritiba tentou impor a sua força como mandante, menos pela finalização e mais por certa correria e pressão. O Vasco contra-atacava. Em certo momento, me distraí com as imagens do jogo; ora mostravam Ricardo, ora o presidente Roberto, ora o treinador Marcelo e Carlos Germano. Vi todos quando eram atletas em campo e tenho maravilhosas lembranças, com apreço especial por Ricardo dados os motivos óbvios. Marcelo foi um craque; saiu do Atlético Mineiro porque tinha de disputar posição apenas com o Rei Reinaldo. Roberto é Roberto; quem viu, sabe do que estou falandoe o mesmo vale para Carlos. Num estalar de dedos, voltei à realidade atual e Éder Luiz chutou forte, de longe, contando com a falha de Edson Bastos. Seis mil vascaínos gritaram no Couto Pereira, dezenas de milhões de vascaínos gritaram por todo o Brasil e, naquele momento, ratifiquei o palpite que já tinha dado a amigos do trabalho, o pessoal da padaria e tantos outros amantes do futebol: estava no papo vascaíno, sem mais delongas. Muito antes do gol de Éder, o Vasco já vinha mostrando nos jogos a pegada de campeão que a Copa do Brasil exige: não é propriamente um futebol de rara beleza, mas nem por isso menos empolgante. Falo de garra, de luta, de marcação, de doação em campo. Falo de eficácia. Ainda houve tempo para um lindo gol do Coritiba no ângulo esquerdo de Prass e minutos finais que pareciam dias, tamanho o sofrimento – o mesmo Prass, no final, quase enfartou dez milhões de pessoas ao largar uma bola perto da trave esquerda, tocando-a para dentro do gol e dividindo com o perigoso – mas desagradável – atacante Bill. Era um três a dois, emblemático placar para nós, Tricolores, e emblemático também para o grande Vasco da Gama, que perdeu com esse resultado, mas foi um grande campeão – ao contrário de outros fracassos centenários escondidos nos cantos de páginas. Alguns querem bravatear sobre o pênalti que teria sido cometido; nada pode ser disto sobre aquele lance que venha a macular o brilhante título de São Januário, conquistado fora de casa como muitas outras taças erguidas pela cruz de malta. E é preciso dizer dos vinte minutos finais, tão eletrizantes que não permitiram que nenhum torcedor frente à televisão sequer respirasse, estivesse ele ali como vascaíno de fé, simpatizante ou mesmo mero expectador. Um jogo hitchcockiano, que fatalmente entrou para a lista das grandes finais da história do futebol brasileiro, como já disse antes.
O título vascaíno foi ainda mais valorizado pela luta do bom time do Coritiba. Espero que a perda dos coxas não abale a reestruturação da boa equipe, que tem tudo para fazer um bom campeonato brasileiro neste ano. Repito: a história de um time vai muito além de uma grande final. Após a longa noite de 2009, o Coritiba tem tudo para mostrar que aquilo foi apenas um momento. Como os coxas poderiam esquecer a esmagadora goleada sobre o Palmeiras? Impossível.
É um equívoco dizer que o Vasco voltou ao lugar de onde nunca deveria ter saído, simplesmente porque ele jamais saiu. Todos os grandes times do Brasil passam por bons e maus momentos. Uma história não se resume a cinco ou dez anos, é muito mais do que tudo isso. Como Tricolor, solidarizo-me com meus grandes amigos vascaínos e saúdo esta grande conquista, capaz de humilhar aqueles que escrevem e comentam unicamente em prol do “time oficial” do Rio de Janeiro. O Vasco não “voltou”; ele sempre esteve. "Nada além" de um grande, respeitável e permanente campeão.
A lendária estrela ilumina o mar.
A América será pequena.
Casaca!
Paulo-Roberto Andel, 09/06/2011
Wednesday, June 08, 2011
PARABOLICAMARÁ
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
Antes longe era distante
Perto só quando dava
Quando muito ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes
Dendê em casa camará
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia
Que o balaio ía escorregar
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau
Meu camará
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino
Apresentar
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
Gilberto Passos Gil Moreira, 1991.
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
Antes longe era distante
Perto só quando dava
Quando muito ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes
Dendê em casa camará
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia
Que o balaio ía escorregar
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau
Meu camará
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino
Apresentar
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará
Gilberto Passos Gil Moreira, 1991.
Friday, May 27, 2011
LOS MUERTOS ESTÁN A VIVIR
I
Então o telefone tocou antes da partida de futebol na televisão, jogo do Vasco. Alvaro Doria, que adora frases bombásticas ditas como se nao fossem nada, assim comunicou:
- O marido da Silvia morreu de infarto.
II
Jose era um homem bom, engraçado, divertido. Há coisa de anos, quando frequentava a Livraria Berinjela quase diariamente por conta de minha amizade com um de seus sócios, Maurício, esbarrava com ele. Era o cunhado do outro sócio, Daniel. Eu sempre o via trazendo um carrinho e isopores, por conta dos sanduíches que vendia pelo centro do Rio e arredores. Vindo da Argentina sob crise nos anos noventa, tentava prosperar no Brasil. Na mesma livraria, jogávamos fabulosos campeonatos de futebol de botão, geralmente num domingo a cada mês. Para matar a fome, lá estava Jose com seus sanduíches. Lembro de que ele tinha um dedo da mão parcialmente amputado, o que naquela época era motivo para recusas em processos seletivos de emprego - e há quem diga que o Brasil nunca foi racista nem preconceituoso. Eu me pergunto se os crentes nesta tese vivem como avestruzes. Apesar das supostas dificuldades, sempre chegava com algum sorriso ou piada. Parecia feliz.
Tinha o cabelo liso feito os índios que, de alguma forma, habitaram o solo portenho. Era gordinho, atarracado, de óculos e o portunhol carregado era uma verdade indisfarçável. Era um fã das mulatas cariocas e, entre os amigos cariocas, ficou famosa sua expressão "Negra linda!". Noutra situação, ao admirar as formas da então namorada de um conhecido comum que tínhamos, me chamou e sussurrou:
Tinha o cabelo liso feito os índios que, de alguma forma, habitaram o solo portenho. Era gordinho, atarracado, de óculos e o portunhol carregado era uma verdade indisfarçável. Era um fã das mulatas cariocas e, entre os amigos cariocas, ficou famosa sua expressão "Negra linda!". Noutra situação, ao admirar as formas da então namorada de um conhecido comum que tínhamos, me chamou e sussurrou:
- Peitinho gozztoço, hã?
Não tínhamos um tostão mas passávamos bem os dias da semana.
III
Nada é para sempre. Um dia, Jose se divorciou e voltou para a Argentina. Não deu tempo de despedida. Mais tarde, Maurício desfez a sociedade. Sempre me lembrava, mas não havia por onde fazer o contato. Assim, os anos escorrem. Estamos sempre muito ocupados com nossos computadores, nossas contas, o ir e vir do nada para o além. É chato ser adulto, tal como conversei com Bola ontem. Campeonatos de botão, nunca mais. Ou quase.
IV
Então o telefone tocou no começo do expediente há coisa de uns vinte dias. Depois de quase um ano, era o Maurício, ligando de outra livraria. As palavras continuavam as mesmas. Tantos anos depois, Jose estava no Rio por conta do aniversário da filha e o tinha visitado. Perguntou por mim, queria meu contato, Mauricio passou, ele acabou não ligando e voltou para a Argentina. Queria tê-lo visto; em compensação, dei um pulo na nova livraria e vi o velho amigo livreiro, pouco antes de ver o maravilhoso show de Elton Medeiros na terça-feira retrasada, no CCBB. Conversamos rápido, fiquei de voltar. Ainda não fui.
V
V
Então o telefone do Maurício tocou no começo do expediente de ontem, cirurgicamente dez da manhã. Conversamos e falei do ocorrido. Seria uma despedida o que aconteceu antes? Nunca saberemos, talvez. A vida é muito breve.
Jose foi um amigo muito divertido nas inúmeras conversas rápidas que tivemos. Não há uma foto, uma gravação, um registro formal mas sim várias lembranças engraçadas de alguém que, por amor e sobrevivência, não hesitou em tentar a sorte num outro país.
Qualquer morte me dói. Sou ateu. Tenho certeza do fim.
Por outro lado, os mortos nunca foram tão vivos ao meu lado.
Meus maravilhosos pais. O Xuru. O Fred. O João. O Bruta.
Atores que vejo, escritores que leio.
Tanta música que ouço.
Craques que me deram tanta alegria nos gramados de antigamente.
Será que a morte é morte mesmo? De alguma maneira que sei ser abstrata, estão todos aqui bem perto. A vida persiste enquanto estou por estas bandas.
VI
Voltar no tempo é experiência rara. Fiz isso ontem com meu amigo Bola, ao revirar uma caixona de cds no Extra de Niterói, feito os tempos em que íamos até a Barra para fingir comprar discos, mas na verdade com o intuito de conversar e experimentar essa estranha sensação na terra, que é a da amizade - afinal, hoje é tempo moderno, de redes sociais, amigos virtuais e nenhuma troca.
Bola está muito vivo.
E acho que eu também.
Paulo-Roberto Andel, 28/05/2011
Thursday, May 26, 2011
RESTOS
nunca pareceu
tão cru aos próprios
olhos,
tão cão vadio
sem lenda ou miséria,
tão liberto
frente ao próprio
vazio -
foi então que,
dolorosamente,
experimentou
sua humanidade
na mais estranha
plenitude.
Paulo-Roberto Andel, 27/05/2011
tão cru aos próprios
olhos,
tão cão vadio
sem lenda ou miséria,
tão liberto
frente ao próprio
vazio -
foi então que,
dolorosamente,
experimentou
sua humanidade
na mais estranha
plenitude.
Paulo-Roberto Andel, 27/05/2011
Tuesday, May 24, 2011
OS CLÁSSICOS SÃO ETERNOS
Hoje, Bob Dylan faz 70 anos.
Não se trata de dizer apenas que é um dos aniversários do rock n' roll, ou da música norte-americana.
Trata-se de um dos aniversários mais esperados da Terra. Para muitos, Bob Dylan é o artista norte-americano mais influente de todos os tempos em qualquer área.
Há quase 50 anos, Bob Dylan dá as cartas na cultura mundial, com sua poesia fantástica, sua reverência ao passado, seu sem-par de temas que serviram (muitas vezes, sem a intenção dele) como música de fundo para protestos, questionamentos e novos paradigmas a partir dos anos 60. Sem Dylan, os pais e quase-avôs de hoje seriam mais pobres do ponto de vista intelectual. E o que dizer de quem influenciou diretamente a ninguém menos do que os Beatles?
Trata-se de um dos aniversários mais esperados da Terra. Para muitos, Bob Dylan é o artista norte-americano mais influente de todos os tempos em qualquer área.
Há quase 50 anos, Bob Dylan dá as cartas na cultura mundial, com sua poesia fantástica, sua reverência ao passado, seu sem-par de temas que serviram (muitas vezes, sem a intenção dele) como música de fundo para protestos, questionamentos e novos paradigmas a partir dos anos 60. Sem Dylan, os pais e quase-avôs de hoje seriam mais pobres do ponto de vista intelectual. E o que dizer de quem influenciou diretamente a ninguém menos do que os Beatles?
Quando tudo parecia perdido e Bob fingia sugerir que tinha perdido a mão, em 1997 ele grava "Time out of mind", um de seus grandes clássicos e, desde então, uma retomada com discos maravilhosos como "Love and Theft" e o magistral "Modern Times". Sim, depois de incendiar toda uma geração do ocidente, já depois dos cinquenta anos ele ainda tinha fôlego para trabalhos espetaculares. Sua "The Neverending Tour" começou em 1988, passando por grandes palcos e ginásios até cabarés do Velho Oeste. Incansável, Dylan é pau para toda obra.
Incansável. Questionador. Provocador. Menestrel. Influência decisiva no pensamento mundial das últimas décadas. Tudo é pouco para descrever o gênio de Bob Dylan.
Quem me dera estes setenta anos pudessem ser cento e cinquenta.
Abraço de sempre e obrigado por tudo, Bob. "The times they are a-changin'"
Paulo-Roberto Andel, 24/05/2011
Tuesday, May 17, 2011
TARDE NUBLADA
por vezes
me esqueço
das intempéries -
não as da natureza,
feito a tempestade lá fora,
mas as que falam da dor
do ódio, o rancor
a pobreza d'alma humana
que faz tão mal
a certos corações.
por vezes,
desapareço
de meus próprios dramas -
busco exílio
em meu próprio peito
e navego velhos mares
imaginários
ao olhar para o teto
enquanto o silêncio
se faz de cais
por ora,
caminho em minha própria
e emocionante
perdição
quando me deparo
com as tolices da vida-
o que para muitos,
significa fascinação!
Paulo-Roberto Andel, 16/05/2011
me esqueço
das intempéries -
não as da natureza,
feito a tempestade lá fora,
mas as que falam da dor
do ódio, o rancor
a pobreza d'alma humana
que faz tão mal
a certos corações.
por vezes,
desapareço
de meus próprios dramas -
busco exílio
em meu próprio peito
e navego velhos mares
imaginários
ao olhar para o teto
enquanto o silêncio
se faz de cais
por ora,
caminho em minha própria
e emocionante
perdição
quando me deparo
com as tolices da vida-
o que para muitos,
significa fascinação!
Paulo-Roberto Andel, 16/05/2011
Wednesday, May 11, 2011
EXUMAÇÃO DA INFÂNCIA
"Lar doce lar" (para Maurício Maestro), de Cacaso:
"Minha pátria é minha infância: por isso vivo no exílio"
Tuesday, May 10, 2011
Monday, May 09, 2011
SOMOS ESTRANHOS
Alguns dos melhores livros já escritos não tiveram leitores em demasia; alguns, sequer leitores.
O mesmo vale para discos de música e peças e quadros e telas.
Excelentes - embora poucos - programas de televisão não têm audiência alguma.
Dentre os anônimos na Terra, há alguns dos melhores exemplares de bons humanos, vivos ou mortos.
Somos estranhos.
Estranha a natureza do homem que se basta em poder e dinheiro, fingindo não ver as mazelas do mundo e do próximo, inevitavelmente condenado à apoteose da mediocridade em todos os sentidos.
Não podemos saber todas as coisas do planeta, é evidente. Mas isso não deveria fazer de nossa maioria um perdido entre robôs consumistas, analfabetos com sede de luxo ou um bando de zumbis, esperando uma nova ordem do Jabor, do Mainardi ou do Obama. Não deveria. Mas infelizmente faz.
A parte que nos cabia neste mundo contemporâneo era muito maior do que viver falando sobre o nada nas redes sociais, buscar especialização em fofocas, gastar o tempo com temas e teses comprovadamente inúteis.
Não podemos saber todas as coisas do planeta, é evidente. Mas isso não deveria fazer de nossa maioria um perdido entre robôs consumistas, analfabetos com sede de luxo ou um bando de zumbis, esperando uma nova ordem do Jabor, do Mainardi ou do Obama. Não deveria. Mas infelizmente faz.
A parte que nos cabia neste mundo contemporâneo era muito maior do que viver falando sobre o nada nas redes sociais, buscar especialização em fofocas, gastar o tempo com temas e teses comprovadamente inúteis.
Deveríamos ser bem mais do que isso.
O que resta é a dor e o que venha a seguir, nem que seja o fim.
E nada de recomeços.
E nada de recomeços.
Reprisar a mediocridade é, em qualquer estágio, abominável.
Paulo-Roberto Andel, 09/05/2011
Wednesday, May 04, 2011
DESANOITECE
desanoitece
quando tento
entender as mazelas
do mundo
e vem
certa alvorada
trôpega
trocando passos
flácidos
entre a esperança
e a ilusão:
ampulheta contra o tempo,
uno frente à multidão
desanoitece
quando me vejo
bicho-homem,
permissivo diante do caos
que se tornou
a extinta fraternidade:
havia uma cidade
em meu bairro, ela
encolheu e calou
para agora, agora,
viver em solene angústia –
a dúvida sob fissão.
longe do antes,
exilado no futuro,
por onde navego à vida?
Paulo-Roberto Andel, 04/05/2011
Friday, April 29, 2011
QUANDO NEUSINHA ME LIGOU
Tardinha de 1986, perto de novembro. Era o cinza, sem chuva e sem perspectiva de celeste. Acho que tinha lanchado alguma coisa, pois estava escovando os dentes, coisa de garoto de dezoito anos sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, mas alojado em Copacabana. Morávamos no 143 da Siqueira Campos ou o 598 da Figueiredo Magalhães, conforme o gosto do freguês. Super Shopping Center de Copacabana, construído por Collor pai, berço da minha juventude.O telefone tocou, minha amada mãe atendeu e, com preocupação, me chamou para que eu assumisse os vocais:
- Paulo-Robeeeeeerrrrrrtoooooooo, não tou entendendo, é alguém do Brizola. Veja aqui por favor.
Tadinha da minha mãe, tinha razão para se preocupar. Por conta dos nazifascistas de 1964, ela teve que correr comigo dos bandidos fardados de soldados em pleno AI-5, noutro novembro bem mais pesado: o de 1968. Nunca mais se esqueceu disso. Imagine uma garota de 23 anos fugindo da própria casa com seu filho de oito dias no colo porque, “em nome da moral, da pátria e da família”, estavam à caça de um comunista: meu tio Mendel, posteriormente expulso do Brasil, para onde jamais voltou. E depois os idiotas viriam latir que não existiu ditadura, tortura ou falta de respeito para com a cidadania. Piada. Em minha casa sempre votamos em Leonel Brizola. Contudo, minha mãe, pessoa de formação humílima, mas de grande sagacidade, bom-humor e inteligência, não tocava nestes assuntos, ainda mais se tinha alguém no telefone falando de política ou do Brizola – nome que causava calafrios nos representantes da miopia político-intelectual do país.
Peguei o telefone.
Segue aqui uma breve lembrança do que conversamos.
- Alô?
- Oi, tudo bem, com que estou falando?
- É o Paulo. Eu sou o filho da Dona Lourdes.
- Oi, Paulo. Eu falei com a tua mãe, mas acho que ela ficou com medo de falar alguma coisa e te chamou. Muito prazer. Eu sou a Neusinha.
- (Silêncio).
- Acho que você já ouviu falar de mim, por causa de uma música que tocava muito na rádio, mas enfim, bem... eu sou Neusinha Brizola. Peguei o telefone de vocês em uma lista. Deixa eu explicar: tou ligando porque, como você sabe, está chegando o momento das eleições e eu estou pedindo votos para o melhor candidato, Darcy Ribeiro. Bom, você também deve conhecer o meu pai, Leonel Brizola. Essa luta é muito importante porque precisamos manter uma resistência no Rio de Janeiro: tem esse Plano Cruzado enganando todo mundo e a gente sabe que, depois das eleições, eles vão fazer tudo o que não prometeram. Darcy é um intelectual, é uma pessoa séria, tem um passado de trabalho (...), eu queria pedir o teu voto se você for eleitor, e se puder chamar mais pessoas para ajudar na nossa campanha.
- Sim, claro. (A seguir, silêncio total de quem tinha reconhecido que a voz era dela mesma, Neusinha, e que estava embasbacado com a situação em si, não com os propósitos dela).
- Olha, Paulo, avisa pra sua mãe que isso é muito importante para todos nós. Com certeza o Rio de Janeiro precisa disso.
- Eu vou falar sim (voz de vergonha).
- Ah, e se você quiser, pode aparecer qualquer hora aqui em casa, venha falar disso com a gente.
- Tá, mas ir na sua casa? (Voz de quem tinha vergonha de ir à casa de alguém que não conhecia pessoalmente e que poderia não saber o endereço, embora eu soubesse que era na Avenida Atlântica).
- Sim, claro, é aqui na Avenida Atlântica (ela não imaginou mesmo que eu soubesse); venha que vai ser legal, muita gente boa, Brizola pra frente. Apareça! Beijo.
Quando encerrou a ligação, é claro que minha mãe espiava de rabo de olho, querendo saber o que era aquilo. Tentei explicar com calma para que ela entendesse. Minha mãe tinha sido tão fuzilada pela ditadura que não lhe parecia “normal” que pessoas telefonassem para pedir votos.
Mais tarde, fui jogar bola na praia, trave do Juventus. Contei pros amigos. Alguns se espantaram, outros riram. “Essa é maluca mesmo”, “Vai lá, cara, vai que tem uma festa maneira?” e outras pérolas típicas dos jovens daquele ano de Copa do Mundo, criados para “não se envolverem politicamente”. Mais à noite, meu pai ouviu a história e riu baixinho.
Quando lembro desse esboço de diálogo, que deve ter durado uns dez minutos se muito, acho graça.
Vejam.
Semanas depois, naquele mesmo ano, o Rio de Janeiro perdeu uma oportunidade histórica, que era a de eleger um craque como Darcy Ribeiro para governador. Imaginem se poderíamos nos dar ao luxo de uma situação dessas hoje.
Iria entrar Moreira Franco, com a opulência do governo federal.
Depois, noutro âmbito, viriam o Collor e o FHC.
Dia desses mesmo, e isso já vai para 25 anos, a filha do governador (e meu eterno candidato) me telefonava para pedir voto de maneira bem-humorada e límpida, bem diferente das redes sociais impregnadas por ódio, vistas ano passado na disputa presidencial, as “redes do Zé”. E o que dizer do medo da atriz aterrorizando o horário nobre, tentando vender uma farsa contra Lula?
Dia desses mesmo, a gente tinha chance de ter um Darcy Ribeiro como governador!
Fui eleitor de Brizola durante o resto de sua vida, tal como meus pais fizeram também até o fim. Sou eleitor de seu neto.
Talvez a Neusinha não saiba, mas os cinco minutos que conversamos no telefone quando eu mal tinha dezoito anos foram um reforço definitivo para toda a minha vida política que, naquela época, já se desenhava.
Nesta semana, ela faleceu. Neste momento, está sendo enterrada em São Borja, cidade gaúcha, ao lado de seus pais.
Pensando naquele telefonema, tudo me fez sentir um baque.
Mas certas coisas não mudam.
Porque o sobrenome Brizola está mais vivo do que nunca.
Paulo-Roberto Andel, 29/04/2011
Wednesday, April 20, 2011
NOVES FORA
I
Um bate-papo de rua com um companheiro de trabalho, até deixá-lo no ponto de ônibus em frente ao Iaserj. A despedida, o até-segunda e resolvo voltar para casa. Passo pela porta do Inca e lembro do Xuru, como quase sempre. Fico estupefato: uma família se abraça e chora muito. Acabaram de perder alguém querido. Uma menina jovem e bonita explode em lágrimas. Penso que minhas pequenas dívidas, minha saudade, meus conflitos e tristezas são insignificantes perto da dor da morte, sempre a corroer quem fica. Passo em silêncio, como se fosse um réquiem ou minuto de condolências. A dor dói, bem escreveu o poeta. Somos pequenos e, às vezes, queremos ser muito maiores do que o mundo; ostentamos, subvertemos, vociferamos e não vamos a lugar nenhum. Que milhão ou bilhão de reais pode pagar a dor da perda de alguém querido? Nem em sonho. É que a vida não se resume a dinheiro ou poder. Existe sentimento, atitude, respeito e amor. O rsto é falácia para que o ser humano, em sua pobreza d'alma, tente justificar os muitos erros que comete. A família chora na porta do hospital. Eu choro por eles e meus pais, mas sigo em frente. Vivo meu drama. São quatro da tarde.
II
Bonitas as garotas que disputam espaço na próxima barca. Uma morena baixinha e graciosa de blusa vermelha, calça jeans e um chinelinho que permite ver a formosura de seus pés, com uhnas delicadíssimas. Uma loura com expressões sensuais. Talvez cinco jovens a caminho da UFF. Comentam sobre o que não pode ser consumido por ora: o podrão, a cachaça. Uma delas parece estar medicada. A juventude é uma multidão bebendo e gritando na porta de uma faculdade qualquer. A quarta-feira vira sexta, enquanto as pessoas se apertam no transporte marítimo das seis e meia, o famoso rush.
III
Eu e Bola na sala bem-refrigerada, falando de nossos sonhos. O que se perdeu e jamais voltará, o que renasce das cinzas, o que sempre ficou guardado numa caixinha da memória. Não sei se Irene vem lanchar conosco. Mais tarde verei o jogo com Leo, esperando o impossível virar fácil. Telefonar para Malu. Tentar resolver problemas meus e de outrem. É só mais um feriado. No fundo, estou ferido pela dor de morte daquela família. É que a dor dói. Não quero saber de virtualidades.
Monday, April 18, 2011
HOMO SAPIENS
Admirável talvez seja enxergar na multidão a mais evidente forma de solidão humana. Estar em um milhão é estar plenamente sozinho diante de avassaladores números, entre respirações e corações em movimento. Cada vez mais enxergo o ser humano em coletivo com certa estranheza; fazem coisas que não fariam sozinhos, geralmente contra a moral e o respeito ao próximo, haja vista a baderna de torcedores ditos organizados pelas ruas do mundo. Somos estranhos na condição de grupo: falamos de paz mas não a praticamos, fingimos fraternidade entre falsas conversas, sugerimos uma perfeição que não existe. Temos caprichado na solidariedade por computador, muito distante da vida real: diante de uma tela, fazemos amigos, batemos papos furados e outros positivos, às vezes trabalhamos. Existe um sol lá fora que serve como lazer de muito poucos: ai daqueles que batem pino carregando caixas e pesos e dores por conta de uma moedinha, um trocado, um pão com manteiga. Somos estranhos quando vemos os defeitos os outros mas somos incapazes de nos enxergar frente ao espelho de nossa suposta alma. Somos estranhos quando criticamos a tudo e não tomamos consciência dos nossos próprios defeitos. Muitas vezes, queremos o mais e mais por nada, o simples prazer de ter que, no fundo, remete a nenhum sentido. O fato é que o mundo tem muito mais dor do que cor, muito mais dor do que amor e uma pequena parcelinha pode viver com certas regalias e tecnologias, mais alguma felicidade social próxima enquanto a maioria despe suas vidas em sacrifícios que vão levar do nada ao lugar nenhum. O mesmo homem, tão admirável que conquista, cria e faz o progresso, é também o homem que corrompe, destroi e mata. O mesmo homem, tão apegado às crenças e à vida depois da vida é o homem que se esquece de praticar o bem durante a própria vida. Por vezes, mais ávido por auto-afirmação do que por sede de conhecimento, dinheiro ou poder, o homem tropeça em sua própria limitação humana: a de não perceber, respeitar e tentar colaborar. Quantas vezes elefantes e formigas já nos deram tais lições? Muitas, muitas. Da roda ao tablet, é certo que viramos o mundo, inventamos muito e avançamos muito. Agora, dentro de nós mesmos, não há como espantar a inevitável aragem da mediocridade.
Paulo-Roberto Andel
Paulo-Roberto Andel
Monday, April 11, 2011
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