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Sunday, November 27, 2011

DEIXEM LOU REED CANTAR




Deixem Lou Reed cantar. É preciso ouvir a reinvenção do poeta. No rosto vincado, a história busca mais passos definitivos além dos que já foram dados. Que cante como rap ou texto falado, mas cante. A generosidade do peso das guitarras a lhe cercar soa como sinfonia, ainda que no inferno – mas o que será realmente o inferno senão nossa própria indiferença contemporânea? As guitarras urram e Lou Reed declama, mais poeta e artista do que nunca. Não importa que seus versos crus celebrem tortura e morte – eles têm um papel importante e, se algo nisso nos horroriza nisso, é porque temos sido muito esquecidos, relapsos e hipócritas com o que acontece à nossa volta. É Lou quem nos lembra e alerta. Deixem Lou Reed cantar. Quando falava de heroína e travestis, o poeta também era discriminado; nossa hipocrisia via nele um símbolo de asco, mas já se passaram quase quarenta anos e o que era asqueroso deve ser lido como visionário. Por vezes, queremos um mundo onde tudo seja belo e magnânimo, rico e saudável, imponente e aprazível, mas o que fazemos para que tais anseios se materializem em bem comum? Nada, mil vezes nada, e é por isso que há importância em que Lou Reed permaneça impávido rumo aos setenta anos de idade, causando a mesma estranheza de sempre. Os ouvidos convencionais rejeitam-no por ora, da mesma maneira que fizeram com o Velvet Underground para depois, amargamente, arrependerem-se. Deixem Lou Reed falar, cantar, gritar e declamar sua poesia intocável, mesmo que ela cause repulsa ou rancor; não cabe fugir das perspectivas da vida. Não podemos nos trancar em abomináveis condomínios de ponta, sem contato com o próximo, degustando a saudável mediocridade da solidão frente à televisão. Não devemos - ou deveríamos – perder tempo censurando as idéias dos outros que têm a ver com arte. O fato é que Lou Reed precisa cantar, porque esta sempre foi a essência de sua vida. As guitarras do Metallica prestam-lhe admirável tributo. Todos precisamos ter noções mínimas de ética antes de condenar a estranheza de qualquer manifestação artística. Deixem Lou Reed cantar, pois está vivo e isso significa alguma esperança da inteligência na Terra. Deixem o poeta cantar: ele está vivo.

Friday, November 25, 2011

MISCELÂNEA!


Hoje eu faço quase um feriado. Um entretanto nestes dias nem tão frios, nem tão tristes e que não cabem direito nos sonhos de um porta-retrato. Um finalmente depois de muitas horas de angústia, o mar da incerteza, muito descaso e a indiferença que só sente quem tem a pele açoitada pelas mazelas da vida. Desliguei o telefone para qualquer pessoa que só me use como passatempo para suas horas inúteis. Não respondi as mensagens daqueles que copiam textos e me enviam por absoluta falta do que dizer. Não, definitivamente não é necessário perder tempo com quem não o valoriza; segundos escorrem e precisam de carinho e atenção. Hoje, eu sou quase um feriado. As salas ao lado são embebidas por silêncio e quase nenhum atentado. Eu não penso na mulher amada, tão-somente um punhado de sexo energizado em dois seios salientes, de bicos relevantes e algum tesão acumulado. Os jornais, deixei ao longe; o som, desligado. Ninguém é de ninguém e a ninguém importa o que me faz calado. Rio daqueles outros, também em silêncio, tementes de que eu lhes peça ajuda, aconchego, um tostão furado. O jazz me espera em casa, com um prato barato, algum conforto, as delicias de idílio que carrego à mente e mais nenhum outro pecado. Nada me apavora por ora; isso é incrível, não se explica e talvez este seja meu único predicado.

Friday, September 09, 2011

ALGUM TEMPO DEPOIS


(Baby, all I need is a shot in the arm)

É que continuamos os mesmos em nossa sede vã de liberdade que, no fundo, esconde individualismo e indiferença. Cada vez mais a tecnologia avança e somos mais atrasados, mais rústicos, mais desapegados de certa humanidade que seria essencial nessa terra estranha, para onde se vem e de onde se vai sem o menor sentido. Depois de amanhã, o mundo vai parar por causa da tragédia das torres. Uma guerra onde só há derrotados: os mortos, os oprimidos. Para vingar o desastre de 11/09, quantas pessoas foram assassinadas, torturadas, estupradas e vilipediadas no Oriente? O petróleo roubado, as armas químicas em massa, a desconfiança; o temor nos aeroportos e, longe destes (ou mesmo muito perto), os grotões de miséria que compõem a grande parte do que se convencionou chamar de população humana. Continuamos os mesmos: uns escravizam outros, com ou sem códigos, com ou sem regras. Somos a essência da estupidez que incensou perseguições e teve como pavorosa resposta aqueles dois aviões explodindo os prédios. Assassinar três mil, vinte e cinco mil ou dois milhões não é nada para a perversidade humana. Há dez anos, eu tinha família, achava que tinha amigos, achava que tinha futuro e tentava entender porque o Xuru ria depois de mais uma cirurgia, que parecia tão simples como noutras vezes mas acabou sendo tão cruel. Há dez anos eu tinha algumas dívidas, muitas expectativas e ainda acreditava no ser humano como pensamento em massa. Há dez anos talvez o mundo tivesse chance de ser mais mundo. Eu tinha raiva de como as coisas eram conduzidas em meu país e hoje isso mundou um pouco; a vida de muita gente ficou menos pior, e isso me conforta. Mas é pouco. Muito pouco. Tecnologias, dinheiros, prazeres e gostos que sempre vão ser restritos à ínfima amostra da população, enquanto o resto vive de dia para conseguir o sono e dorme para esperar o próximo dia. Vão. Tudo em vão. Eu não tenho mais nada, exceto a certeza de dez anos perdidos e sofridos. Meu olhar se perde no espelho velho de um banheiro. Os cabelos são tomados aos poucos pelo branco. Mal tropeço ou estalo os dedos e me surgem as lembranças admiráveis de quando eu tinha vida pela frente - foi outro dia, mas agora é tão desaparecido quanto tudo o que escapou de minhas mãos. Enfim, depois de amanhã vão celebrar os dez anos de horror e morte na cidade de Nova York para que nunca mais esqueçamos daquele dia pavoroso. Meu maior problema é que, ao lado daquele mesmo dia, passaram outros três mil, seiscentos e quarenta e nove outros dias - e, a cada vez que vi a dor, o drama, a miséria, a violência e o horror contidos em cada um deles, jamais fui capaz de captar algum sentido na vida. Vivamos até a próxima refeição, o próximo programa de TV a cabo ou a internet que nos junta a milhões de pessoas para nos diplomar bachareis da solidão. Vivamos até o próximo consumismo barato dos shopping centers; a nova cena da novela; a mentira dos supertimes ou o mais novo político ou grupo que realmente mostra ares de combate à corrupção. Vivamos até o próximo botequim cheio de gente mas vazio de assuntos, ou as pessoas massacradas na covardia do mau transporte público de massa. Vivamos para nos esconder da vida e usar as religiões como um saboroso cartão bancário: você paga, terá crédito no futuro. O sentido talvez seja esse: o de esperar o futuro, o que vem depois da luz no fim do túnel, se luz houver. Porque o presente, esse sim, não faz sentido algum.






Paulo-Roberto Andel, 09/09/2011

Tuesday, July 05, 2011

POR VEZES

É certo que não deveria, mas ainda me surpreendo com certas coisas na vida cotidiana. A indiferença de uns pelos outros ainda me soa como surpresa, porque persisto numa ingenuidade que não cabe nestes tempos ditos modernos. Ainda me sinto um Dom Quixote, mas os moinhos são reais, não há fantasia. Minha ilusão é ainda acreditar no progresso do ser humano em si. A canalhice ainda me surpreende, assim como o ódio, a ganância, a inveja, o mau-caratismo, a podridão moral. Não falo de doutrinas políticas nem religiosas e menos ainda de pensamentos confrontantes, que são muito importantes para o exercício da compreensão; quero dizer do rancor, da obsessão indevida, da falácia, da mentira. Somos animaizinhos desprezíveis quando limitamos nossa amizade a conversas fiadas, eletromensagens e tapinhas rápidos nas costas. Somos animais nojentos quando priorizamos sempre a nós mesmos, sem o menor compromisso com a dor do outro, a visão do outro, a angústia do outro. Perto dos cinquenta anos, vejo que desacreditar o coletivo humano é uma realidade inevitável e cada vez mais evidente. Praticamente morreram todos os valores que sempre acreditei e defendi, tão bem-ensinados por meus pais, alguns amigos e poucos professores - eu os procuro em várias outras pessoas mas duas ou três palavras fazem-me um rosto em choque com uma porta de aço trancada. Eu os carrego comigo mas parece que estou sempre sozinho. Onde está o respeito? A atitude de compaixão? O compromisso? A palavra? A consideração? Morreram, assim como meus pais - estes, ao menos, ainda moram em mim enquanto eu viver. Falo de quase cinquenta anos de idade e, ao olhar para trás, é difícil ver que todos aqueles que defenderam as causas populares também morreram sob o fracasso e a derrota de suas ideias frente ao imaginário coletivo tão satisfeito com seus "vencedores", seu "consumo" e suas práticas individualistas abomináveis. A tecnologia melhorou, os recursos são cada vez melhores, só que jamais chegarão à maioria dos vivos. O que chamam de moderno é basicamente trabalhar, trabalhar, pagar e consumir sem ter tempo de ver a vida real, cada vez mais presa ao que chamam de obrigações. Que evolução seria esta? Modernos? Nunca fomos tão atrasados e estúpidos e inconsequentes ao apoiarmos o modelo fracassado que chama de progresso o indivíduo que atende por um número. Queremos modernidade tecnológica, melhores aeroportos mas não estamos nem aí se o próximo bueiro vai explodir e matar alguém. O que dizer de nossas conversas rasteiras, nossa falta de profundidade, nossa confusão entre humor e grosseria? Gostaria de ser um homem calejado, sem me deparar com surpresas, mas ainda sofro com a estupidez humana, a mesma raça à qual pertenço contra minha vontade. Eu mesmo sou um estúpido: falta-me humildade para reconhecer a vitória das ideias corporativas, dos business centers e das joint-ventures sobre a pequenez da bondade humana. A vitória do individualismo arcaico. Assim padeço.


Paulo-Roberto Andel

Wednesday, March 16, 2011

SOBRE RICHARD ASHCROFT


A noite de sexta-feira não tem calor ou frio, apenas Richard Ashcroft está ao meu lado com sua voz marcante, berrando em plenos pulmões uma frase que me parece emblemática: "Are you ready?". Não creio. Não creio mais. Não acredito no ser humano preparado, em permanente estado de alerta, buscando uma perfeição impossível; somos tão falíveis que qualquer sopro pode cerrar a porta de nossas vidas. "I'm not ready so!", diria a um conhecido qualquer que aqui estivesse enquanto contemplo as cenas televisivas: a destruidora imponência do terremoto e seu tsunami promovendo o mau espetáculo de dor e morte na Ásia. Não estou pronto, talvez nunca esteja, mesmo que seja frente a um simples café no centro da capital trocando prosa com outro conhecido. Não estou pronto para os horrores do verão, os maus-lençóis de agosto, a rijeza de um maio qualquer. A mutação constante não é fortaleza frente às mazelas da vida; a cada momento, eis que uma fagulha possa se tornar vulcão e, assim, nos tragar como o nada que somos frente à grandeza do universo. A música não para de tocar; Richard Ashcroft já fez canções mais pesadas e instigantes, já fez a casa cair sem que alguém sucumbisse, tudo muito diferente da televisão muda e aterrorizante. Era música, talvez aquela que pontuasse meu rápido bate-papo com o Moraes nos subterrâneos da estação Carioca ou, noutro caminho, me inebriasse numa tarde de amor com uma mulher proibida. É a dor: o tsunami segue firme em sua obsessão pela morte. Não estou preparado; quando estiver, serei tão frio e indiferente que nada será mais importante do que o fim de uma canção, e não é o que quero. A força do Japão há de renascer dos escombros, tal como foi contra uma bomba atômica; Richard Ashcroft insiste numa negativa. Noutra vizinhaça, os casais e combos se preparam para a dança do sexo de sexta-feira. As cinzas do carnaval navegam delicadamente pelo ar noturno. Meu bloco-do-eu-sozinho é um coro de multidão; é um bloco, é um blog. Isso é música? Quem sabe?


Paulo-Roberto Andel, 11/03/2011

Friday, January 28, 2011

IRONWEED
















A esquina da rua do Senado com Mem de Sá continua com o mesmo abandono de anos à trás, ou talvez décadas. Quando havia Maracanã e, posteriormente, UERJ, todo dia era dia de passar por ali, muitas vezes num romântico 434 ou seu primo menos requintado, o 464. Mais tarde, quando meu pai era vivo e já não tinha plena motilidade, coisa do fim do século, uma cena não saiu mais de minha vista: certa moradora de rua ficava sobre seu colchão de casal, com molas, em frente às portas do finado supermercado Nova Olinda, ali vitimado por um incêndio e, noutros lugares, por alguma crise econômica ou interesse similar. Ela parecia sorridente por vários dias, embora não andasse mais e precisasse se arrastar para os movimentos corporais mais simples. Diante do sofrimento daquela mulher, em contradição ao seu sorriso, padeci muitas vezes em poucas dezenas de horas: lembrava de meu pai, era triste com sua aposentadoria compulsória, mas tinha certo alívio em saber que ele poderia contar comigo, como aconteceu pelos oitos anos a seguir. Uma dia, ela sumiu - e o colchão também. Ver a dor e a miséria do mundo me traz um doloroso sentimento de impotência; não aceitar nem compactuar com nada daquilo, mas nada poder fazer de verdade para atenuar ou melhorar a situação. Ter exata consciência do quanto somos pequenos e passageiros diante do mundo, utilizando o intervalo entre as horas de dor para beber, comemorar gols ou até mesmo sorrir. Somos pequenos e isso é um fato, mesmo que muitos insistam em não ver o óbvio. Tão contundente em ver o sofrimento dos comuns pelo mundo talvez seja, com mínima importância, rever um grande ex-amor ao vivo e atestar que o ex é realmente ex e nada mais, com total desprovimento de tudo o que um dia significou. O nada é assustador. A dor dos outros só não é assustadora para os medíocres, os individualistas, os que mergulharam na decadência do próprio umbigo sujo enquanto pensam na próxima vitrine. Alguma coisa daquela esquina me apavorou por hoje de manhã: saber que nunca mais a mendiga se recuperou, saber que meu pai é uma lembrança, tal como o velho letreiro do Nova Olinda que parece querer beijar o chão imundo. Havia também um restaurante num sobrado, a peso, com bons salgados; o dono era um velhinho simpático, hoje a porta está lacrada. Tudo parece fim. Mais à frente, muitos trabalhadores são apenas corpos cansados numa fila para comprar biscoitos Globo, como reza a tradição do verão. Não sei dizer ao certo, mas alguma coisa me traz “Ironweed”, de Babenco, à cabeça. Talvez “Blue Velvet”, de David Lynch. Talvez o fato de rever a UERJ depois de tantos anos, talvez começar de novo. A esquina continua abandonada e, agora, agravada pelo vazio. Sigo meu caminho debaixo do violento sol que nos atordoa. Faltam poucos passos para entrar em minha sala de trabalho, começar mais um dia de atendimentos, deixar as dores de lado e me vestir como um robô, alheio ao mundo que não seja estritamente profissional, científico. Ouvir The Vails lembra realmente algo de Tom Waits com Thom Yorke, também tem algo de “Ironweed” e isso me leva aos vinte anos longe daqui, aos afagos da Ana, a sessões de cinema gratuitas tendo o imortal Maracanã ao fundo. Uma esquisita e ilógica sensação de que algo bom virá, temperado pelo que já foi longe. O aniversário da Patrícia reforça as lembranças do muito ontem. Janeiro se despede em quase silêncio. Os tempos voam rasantes. Antes da esquina abandonada, noutra rua vi um senhor que tinha certo jeito de meu pai ao sentar à cadeira. Não tinham a menor semelhança física, apenas a postura era a referência. Por um detalhe, parei e quase chorei. É preciso caminhar em frente, mesmo que o nunca mais seja a maior das realidades e a vida pós-vida não me pareça nada além de uma promessa. “Ironweed” é a vida real, ou melhor como ela deveria não ser.


Paulo-Roberto Andel, 28/01/2011

Thursday, January 06, 2011

LÁ FORA
















Lá fora, o sol fosco se avizinha ao gris do céu enquanto os janeiros de longe e perto me provocam sensações diferentes, mas também associáveis: a dor, a perda, a morte, a esperança e uma inexplicável tranqüilidade. Talvez a tempestade pareça uma estrangeira frente às multidões que povoam o verão. Pode ser que seja breve ou não, intensa ou não. Lá fora, os mortos adentram gavetas, jazigos e covas, enquanto felizmente as crianças nascem e soltam suas delicadas lagrimas calouras. Lá fora, as pessoas passam apressadas dentro do ir e vir que não explica bem o sentido da vida. E também lá fora somos dinheiro, lascívia, compulsão, carência, fraqueza, tormenta, egoísmo, solidão, fama, ingenuidade, angústia e tantos outros subjetivos e adjetivos que mostram, ao mesmo tempo, a complexidade do ser humano e a impossibilidade de um único rótulo, uma classificação. As grandes cidades, o subúrbio, a periferia, as comunidades carentes, o sertão indigente, a terra perdida – tudo temperado a misturado com pequenos sentimentos de alegria e prazer efêmeros, não menos efêmeros do que aquela mesma esperança, aquele mesmo jeito de pensar nos outros por um momento e não se sentir apenas um indivíduo. Lá fora é um janeiro, não tão janeiro quanto outros mais. Eu não sei mais onde meus pais dormem, sequer se dormem ou apenas pulam e dançam incessantemente dentro da minha cabeça. Eu não sei mais onde o Buja dorme, onde o Xuru dorme; João Carlos, Cláudio e Luiz Magno também. Há uma nova ordem, um novo governo e tudo o que é novo necessariamente traz um pequeno temor, mesmo que a confiança seja total: meu tio Mendel, que também não sei mais onde dorme, de algum jeito chegou ao poder que tanto mereceu. Lá fora, os brasileiros rezam, urram, choram e se apertam dentro da ingratidão dos transportes populares. Lá fora, um carnaval se espalha em chamas de samba e, num abrir e cerrar de cortinas, as pessoas vão esquecer de suas dores e mazelas para se deliciarem com o samba retumbante no peito, feito os que meu amigo Nelson escreve e canta, escreve mas não mostra. Lá fora, um campeonato de futebol se aproxima e isso é bom: saudável cachaça, paixão inebriante que ajuda a passar horas quase confortáveis enquanto a vida mostra seu desfile non sense. Quero reler o monodrama do grande poeta até encontrar H. Quero rever John Coltrane solando como se pudesse ser Deus. O barulho do circulador de ar me conforta, enquanto o som de antigamente ecoa na sala como se fosse de agora: a Califórnia do Oingo Boingo. Mais tarde, quero rever meus velhos amigos que nunca vejo como gostaria, porque os desejos são sempre escassos: compromissos, compromissos e compromissos que, somados, mal dão chance ao binômio inspiração-expiração. Lá fora, antes de bebericar o chope do fim da tarde, hei de passar pelos congestionamentos de carros, ônibus e gentes como nunca se imaginou um dia, agora tão comuns que chegam a ser vulgares. O telefone mudo me agrada, por ora. A caixa de correio vazia me apraz. Duas mulheres bonitas conversam num corredor, mas não me atenho a detalhes. Lá fora, feito aqui, existe vida, do jeito que tem que ser, com dissabores e palitadas de alegria. Os humanos são feitos para o erro; nós, feito bobos, um dia ensaiamos o que deveria ser perfeição que, quando perfeita é, vira perversão. Mais tarde, um show de realidades será a grande ficção que a tevê nos oferece a olhos e anseios nus. Mais tarde, notícias sobre um mesmo fato serão contadas de maneiras diferentes, conforme o gosto de cada freguês. E lá fora? Mendigos farão das marquises seus solares, casais hão de namorar aos pés da areia, famílias vão chorar nos necrotérios dos hospitais; enquanto isso, estaremos incansavelmente dedicados ao amanhã, ao depois, ao daqui a pouco, sob impecável obsessão, às vezes nos esquecendo que deveríamos ser mais solidários, mais humanos e poderíamos deixar um pouco de lado essa coisa de futuro que, num certo lance, faz a vida virar um cheque pré-datado. Lá fora é aqui dentro ou o avesso, tanto faz.


Paulo-Roberto Andel, 06/01/2011

Wednesday, May 26, 2010

A VIOLÊNCIA (É?) TÃO FASCINANTE...


Uma grande canção de outra geração versava sobre o fato da violência ser tão fascinante. O que poderia parecer non sense virou lugar comum – assim não fosse, como justificar o carnaval de maldades que vejo ao ligar uma televisão, ouço ao ligar um rádio ou leio ao folhear qualquer jornal, desses de papel, com sabor de antigamente? Um fascínio em prol da loucura ou da desordem que hoje vivemos, que jamais deve ser confundida com ausência de ditadura, pois. O que sei é que penso na canção e em seu grande compositor, falecido muito antes da hora por conta dessa mesma violência fascinante que habita a terra, ritualizada em mídias, decantada a quatro cantos. A violência das síndromes e outras doenças. A violência que floresce no olhar dos que têm dignidade, quando se deparam com jovens remexendo lixo em busca de comida. A violência que espanta qualquer pessoa normal quando, num rompante, se sabe que um avô estuprou a neta. A violência de um sistema tido como liberal mas que, na verdade, é o principal elemento opressor da sociedade, colocando muitas vezes a grande maioria da população sob total penúria, impossibilidade de ascensão social e a real liberdade de expressão – tudo longe, mas muito longe de qualquer Cuba; não me venham com falácias mofadas. A violência fascinante do poeta era outra, claro; se vivo, hoje, ele diria outras coisas, escreveria outros poemas e talvez parecesse mais aturdido ainda diante de tanta cegueira, tanta insensatez, tanto egoísmo e indiferença para com o outro – tudo longe, mas muito longe de qualquer necessidade de crença religiosa: todas me fazem um indigente da fé. Nossas ruas celebram a violência, mas finge-se não fazer isso. A indiferença não é uma violência? Cinqüenta centavos de esmola por quatro horas de pedidos não é uma violência? A remoção das favelas, o choque de ordem, os hospitais superlotados, as colossais filas de desempregados à busca de uma única vaga, não são tudo a constituição da violência? A distorção das informações, a não-democratização dos acessos, a opressão do capital, a prática de monoculturas também não formam um abominável conjunto de violência? Alguém há de dizer que tudo isso é uma sonora bobagem diante dos assassinos cruéis, traficantes vis, estupradores e outros marginais, mas não seriam praticamente todos frutos da violência onde vivemos, em vez de agentes causadores? Do covarde assassino de hoje, quanto restou do menino maltrapilho e sem perspectivas de ontem? Não, a violência não é fascinante à vista, embora isso em nada diminua a monumental obra do grande poeta, que poderá ser entendida com mais clareza; ela, na verdade, é chocante, é assustadora, é temida e, principalmente, quando a vemos, estamos diante de nossas próprias falhas. Dentro de instantes, minha televisão ligada oferecerá um novo telejornal; é fácil prever que o hediondo estará presente de alguma forma, em maior ou menor escala. Em nome deste mesmo hediondo, pessoas falarão que, se vivêssemos numa ditadura, teríamos ordem e progresso; que seria tudo belo e perfeito e melhor. Nada poderia soar mais patife e leviano; mais cego, surdo, mas não mudo, dotado apenas de palavras rudes e de rasa essência no pensamento. E chega a hora de dar razão ao poeta: momentos como este é que desvelam o fascínio pela violência, entranhado na estranha contradição de que o agente violento de hoje nada mais é do que a vítima, direta ou indiretamente, da violência de ontem. E também porque aquele que parece não-violento, mas não ajuda a combater a violência em sua gênese é, involuntariamente, um agente propagador dela. Duro é rever as palavras do poeta e saber que, vinte e cinco anos depois, não fomos capazes de mudar uma vírgula do que já estava previsto nos versos. A violência escrota, ignara e pútrida é, ao mesmo tempo, para alguns, a violência tão fascinante; para outros, a verdadeira ordem vigente a ser mantida.


Inspirado em "Baader-Meinhof Blues", de Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá


Paulo-Roberto Andel, 26/05/2010

Tuesday, April 13, 2010

É SÓ UM OUTONO LÁ FORA















É só um outono lá fora. Talvez. Muitos choram seus mortos, outros subvertem a verdade e alguns cogitam encenar o raso teatro do meu-mundo-sou-eu-mesmo-e-ponto. A temperatura, nem quente de fazer suar, nem fria de agasalhar, segue seu destino entre uma e outra nuvem. Nenhuma ameaça visual iminente da tragédia de uma semana atrás, quando minha principal preocupação era evitar o molhar da roupa, depois de sair da sessão de fisioterapia. As autoridades garantem que tudo está sob controle, mas sabemos que esta verdade não tem cor. É só um outono lá fora, parecendo ter mãos vazias, mas insinuando a alguém que dias melhores estão por nascer. É só um outono lá fora, que precede um grande feriado e, com este, a inevitável promessa de morte sacramentada nas estradas rodoviárias. Dor e calmaria convivendo na mesma sala de espera. Um carnaval sem barulho, exceto nos gritos das torcidas no Maracanã, se jogo houver lá. Os bares serão mais bares e não faltará quem precise afogar as mágoas com drogas legalizadas ou mesmo as “proibidas”. Na televisão, faremos galhofas de nós mesmos: nossas idéias mal-concebidas; nosso preconceito escancarado que, por vezes, aflora; nossa eterna dúvida em relação aos nossos semelhantes, que talvez não sejam tão semelhantes assim, mas que nos fazem insistir que a nossa semelhança é superior à deles – pode ser a diferença também. Dinheiro, ah, dinheiro: faltante nos bolsos, abundante nas vitrines; fundamental para diminuir as mazelas do mundo, até que um míope mental pergunte quem vai pagar a conta, sem saber que o que se faz para o bem comum não tem preço. É só um outono lá fora, e o cinza se confunde com o azul. É só um outono lá fora e a mansidão parece algo tão distante. Risos precisam ser mais risos. Pobres precisam ser mais gente aos olhos neoliberais. Gente precisa ter mais apreço à gente. Quem me dera deixássemos de lado a eterna busca pela juventude, pela beleza, pelo corpo perfeito que não passa de falácia para se vender produtos – é que a perfeição não existe e, em busca dela, sacrificamos nossas próprias vidas em vão. É só um outono lá fora e desejo que vivamos com menos belicismo, menos hipocrisia, menos indiferença. Uma tardinha que se avizinha e as horas a se contar para nova fisioterapia. Longe daqui, os flamboyants ditam as regras. Um cinema me fará bem quando a noite vier, ou um som de jazz ou uma canção que heróis africanos entoam com rigor. É só um outono lá fora, e leio que Manoel de Barros nos brinda novamente aos noventa e três anos, assim como Carlito Azevedo nos brindou com seu Monodrama no verão que se foi. Os poetas insistem; não são fáceis de derrotar, não são acostumados ao licor da inércia. Os poetas fazem seus versos e, com eles, ajudam o mundo a ficar menos poluído do racionalismo oco dos articulistas políticos, ainda mais quando estes articulistas se diziam homens de teatro e cinema – em suma, falsos poetas. Há um outono lá fora, e ele se faz poema de versos livres, com certo toque de melancolia pelos mortos sofridos que temos chorado nesta cidade. Outro toque também lhe cabe: o de certa elegância, cujos mares freqüentei, mas sou ignorante o suficiente para não saber explicar. Há um outono lá fora, e isso me basta.


Paulo-Roberto Andel, 13/04/2010

Tuesday, February 09, 2010

PROSA DO CANSAÇO (OU OTTO MAXIMILIANO)



Estou cansado. Otto me oferece uma trilha sonora para esta terça de verão arábico. Lá fora, um mundo cheio de fantasias e desgraças, entre céu lindo e esgotos nas veias de concreto abertas. O corre-corre e o clingue-clangue das ruas cansam. O egoísmo e a indiferença dos outros uns para com os outros me cansam. A verborragia oca dos que proclamam o fim do Brasil, em prol de ressuscitar um cadáver como o de Fernando Henrique Cardoso me cansa, absolutamente. É a cegueira, a miopia, a falta de acuidade desfraldando a apoteose da ignorância, e isso me cansa. A mofada notícia sobre os perigos da dengue; a insistência em se impor a Zona Sul como a única face do Rio; o tráfico que estupra e corrompe no Turano; a falta de profundidade em se discutir as questões; a previsibilidade da opinião dos capangas do grande capital; tudo celebra meu cansaço. Janelas, não há. Temperatura ambiente, travestida com um velho circulador e um ar-refrigerado longe de seu auge. Juliana não me sorri. As canções de Otto são doces e pesadas, capazes de atenuar parte da fadiga. Um Carnaval à vista com seus baticuns, um Ano-Novo que começa a seguir. Querem um mesmo velho campeão novamente, para que o dinheiro impere com amor. Ao menos, em algum lugar desta cidade, que é recheada de mulheres bonitas, alguém se refestela com o brilho de estrelas entrangeiras: Beyoncè, Madonna, Alicia. Porém, o resto me cansa. Noutros tempos, éramos mais profundos e dedicados e solidários, sem acharmos que toda a nossa compaixão e fidalguia pudessem ser limitadas ao MSN, ao celular e outras eletromídias; hoje, o que nos resta é a inevitável solidão humana de joelhos diante da fraternidade tecnológica. Nem os loucos não-tratados escapam: usam falsas identidades para mostrarem as piores faces do quase-ser humano. Que dizer dos bobos que se dizem liberais? Basta pensar no Haiti; aliás, país já varrido dos interesses noticiários: deu o que tinha que dar; lucraram e, agora, que os miseráveis se virem. O que dizer dos que leitores que não sabem explicar o que leram, ou os que leram numa linguagem particular hermética, incompatível com o que tinha sido escrito? Estou cansado. Otto canta que, para morrer, é preciso existir. Estamos diante de um invencível verão em seu apogeu, se é o que sei dizer. Talvez cem mil pessoas se divirtam na beira-mar, enquanto alguns milhões trabalham e trabalham e trabalham até que o sol seja pouco. Soube que três trabalhadores foram assassinados por bandidos durante o expediente; a empresa empregadora limitou-se aos pêsames, e isso quer dizer bem o que somos hoje: um batalhão de estranhos, num salve-se-quem-puder e o-que-importa-sou-eu-mesmo. Estou cansado. O Banco Itaú lucrou com o nunca no último quadrimestre. Parece ordem e progresso, para poucos. O telefone toca, não posso atender. Mensagens inúteis estampadas no computador – não vou responder. É preciso ter amigos, mas poucos – quem diz ter muitos, na hora da verdade não tem nenhum. Recordo dos tempos de bar, quando tudo se aprendia com os mais velhos, sábios de rua, que faziam questão de compartilharem suas experiências. Recordo Copacabana numa terça à tarde, quando eu corria dedicadamente e me sentia tão bem. O Lido, o Leme, o Bairro, tudo tão perto, vivo, mas ao mesmo tempo tão distante. Certa manhã, acordei de sonhos intranqüilos – era Kafka. Hoje, numa tarde que não sabe dizer o futuro, Otto alivia meu viver. Nem é tão relevante o fato de que ainda estou cansado. Não é relevante lembrar da estupidez humana que se manifesta a cada expiração. Quero apenas lembrar desta tarde de cansaço como algo que me fez pensar nos meus, nos outros e no todo, coisa que cada vez vejo mais rara fora de mim mesmo, e isso não é bom. Talvez seja de meu eterno inconformismo com o dar-de-ombros daquele todo contra os que precisam esmolar. Talvez seja humanidade, nem no melhor e nem no pior sentido da palavra. Talvez seja somente uma tarde de céu romanticamente lindo para meia-dúzia e sacrifício para a enorme plebe. Isso me torna cansado. O que me resta é a diferença. O outro lado da tarde ensolarada. Uma canção de Otto.

Paulo-Roberto Andel, 09/02/2009