Pela enésima vez, recebi tal correspondência eletrônica.
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Thursday, March 22, 2012
Friday, March 16, 2012
ISCA NO ANZOL DE ARRIGO
Onde há isca, não petisca na mira dos polícia.
Eu queria dizer.... ah, eu queria dizer?
Esperei quase trinta anos para ver a Isca ao vivo na minha terra. Eu era garoto e via aquele show meio doido, aquelas garotas bonitas com vozes trovejantes, aquelas canções que não pareciam com absolutamente nada do que eu ouvia – embora parecessem tão familiares e interessantes aos meus ouvidos -, tudo na Bandeirantes antes dessa corruptela engraçada de Band. Ser adolescente em 1981 não era muito fácil: o dinheiro curto, os shows escassos, o intercâmbio longe da descomplicação.
Então, dado que a vida é um estalar de dedos com farpa na unha do dedão, o tempo vou e fugiu. Dia desses mesmo, coisa de uns cinco anos, pela primeira vez eu pude ver Arrigo no Rio, na Caixa Cultural. Eu tenho um ídolo chamado Arrigo, o resto eu não conto por pode parecer sintoma de perigo – postiço! E vi a segunda, no Oi (agora as casas de espetáculos têm estes curiosos nomes corporativos).
Meu tempo me mastiga. Inventei de escrever dois livros sobre futebol ao mesmo tempo, em vez de viver minha vida pacata de estatístico. Isso tem acabado até com a pausa para inspirar. Deixei de lado os cadernos de cultura, talvez a única coisa que ainda preste nos diários midiáticos convencionais. Mas na terça, eu sempre leio (mesmo que atrasado) a resenha dos discos da semana (eu ainda compro discos!); foi minha redenção: escondida nas entrelinhas, a notícia do show que eu esperava há tantos anos – e que imaginei que nunca fosse ver ao vivo. Depois Carlão, nosso mensageiro aqui do trabalho – e, por conseqüência, herói – zarpou rumo ao CCBB para comprar meu ingresso. E conseguiu, fato raro em se tratando da programação da casa (geralmente esgotada com enorme velocidade). Estava escrito que eu finalmente ia ver o que queria.
Quando o show começou, voltei 30 anos no tempo e revi na memória as melhores lembranças da minha casa: era minha mãe rindo (ela gostava quando eu via aquelas “coisas diferentes” na televisão), meu pai com ar soturno que escondia a aprovação, nossa casa em Copacabana. Nada foi para o beleléu, mesmo eles não estando mais aqui: eu os carrego comigo em algum lugar dentro de mim que não sei explicar. Não tinha bateria, uma pena? Pena? Ficou ainda mais espetacular, porque tudo ficou marcado no baixo do meu xará e aquilo saltava aos olhos como se Art Blakey estivesse nas redondezas. Mais estranho ainda é eu não ter qualquer crença, mas sentir que Itamar estava na ocorrência – tudo naquele pequeno teatro fazia crer nisso: os coros suaves, o impacto das interpretações, o clima de club. Alguma Lira Paulistana aconteceu em meu coração.
De todo o maravilhoso repertório e a arrebatadora performance da Vange e da Suzana, o que me chama atenção é que ambas cantam de um jeito jovem, jovem, tão jovem como se o tempo tivesse sido congelado e tudo voltasse. Não há dúvidas de que a obra de Itamar – ainda a ser descoberta por milhões – exala juventude, mas as cantoras dão o tom impecável.
O Luiz era o pai da Tulipa nas apresentações. Faz todo o sentido, são tempos modernos – e tomara que todos os fãs dela, Tulipa, dentre os quais me incluo, tenham a curiosidade de investigar a obra fantástica que seu pai ajudou a construir.
Perdi a conta dos shows que vi em minha vida. Foram muitos. Muitos. Mas não tenho a menor dúvida: este do Isca com Arrigo foi um dos melhores que assisti em toda a minha existência. E isso pouco ou nada tem a ver com tantos anos de espera: é que foi bom demais, bom pra carvalhowski.
Tomara que algum gênio tenha gravado na mesa. Os ouvintes merecem um CD no futuro.
Obrigado por tornarem minha vida mais feliz, desde aquele 1981 até hoje, 2012, e o que vem pela frente.
Obrigado e obrigado.
Paulo-Roberto Andel
Thursday, February 16, 2012
LEMBRANÇAS DA ADOLESCÊNCIA
Gritos na multidão
sabe faz, faz tanto tempo faz
já faz um tempo faz, estou querendo mais
preciso ir embora, tomei uma coca-cola
não se preocupe mais
eu não perturbo mais
já disse adeus à mãe
já disse adeus ao pai
estou desempregado, estou desgovernado
a fome me faz mal, estou passando mal
mas vou entrar na luta, eu vou sair na rua
já vejo a poluição
já está ficando perto
esse é o coração da máquina do esperto
e aqui estou então, não estou sozinho não
é mais de um milhão
ninguém mais pensa, irmão
existe confusão
gritos na multidão
é o fim da convenção
gritos da multidão
pobre de ti, irmão
Pobre paulista
todos os não se agitam
toda adolescência acata
e a minha mente gira
e toda ilusão se acaba
dentro de mim sai um monstro
não é o bem, nem o mal
é apenas indiferença
é apenas ódio mortal
não quero ver mais essa gente feia
não quero ver mais os ignorantes
eu quero ver gente da minha terra
eu quero ver gente do meu sangue
pobre são paulo,
pobre paulista, oh, oh
pobre são paulo,
pobre paulista, oh, oh
eu sei que vivo em louca utopia
mas tudo vai cair na realidade
pois sinto que as coisas vão surgindo
é só um tempo pra se rebelar
pobre são paulo,
pobre paulista, oh, oh
parou, pensou e chegou ... à essa conclusão
Friday, February 03, 2012
Para ver, ouvir, ler e respirar
Abujamra, sobre texto de Ruy Castro
A velha Hollywood nos ensinou que tudo nos EUA era maior, melhor, mais limpo, justo, ético, honesto, adulto, moderno, eficiente e perfeito do que nos outros países. Também pudera - os americanos eram o povo mais bonito, forte, corajoso, engenhoso e talentoso do mundo. Onde mais as pessoas saíam cantando e dançando pelas ruas com naturalidade e ao som de uma enorme orquestra invisível?
E quem cavalgava melhor e tinha os cavalos mais velozes? O cowboy americano. Não havia índio ou mexicano que o capturasse, exceto à traição, coisa que, aliás, eles viviam fazendo (e de que o cowboy americano era incapaz). O mesmo se aplicava ao soldado americano em relação aos alemães e japoneses -quem era o mais heroico, o mais desprendido, o mais inteligente? E a Marinha americana? Quem tinha porta-aviões mais imponentes? Quem usava camisas de manga curta mais brancas? E quem mais tinha milhares de marinheiros que sabiam sapatear?
Nos filmes, víamos maravilhas que faziam parte do dia a dia dos americanos e de ninguém mais: cerveja em lata, barbeadores elétricos, cortadores de grama, trevos rodoviários (filmados de avião), edifícios de 90 andares e naves que iam à Lua e voltavam. E quem seria mais poderoso que o governo dos EUA, capaz de movimentar estruturas gigantescas para plantar um exército inteiro em território inimigo a 15 mil km e resgatar um espião a minutos de ser descoberto?
Todas essas eram benesses do poder e da riqueza. De repente, fico sabendo que o dinheiro no caixa do Tesouro americano vai acabar na terça-feira e que a Casa Branca, com uma dívida de US$ 14,3 trilhões, ameaça dar o beiço no mundo.
Friday, December 09, 2011
SOBRE HORACE SILVER E O CAOS
RUSH
A estupidez é franca e se mostra com todo vigor nesta sociedade que julgamos ser moderna. Reitero: onde está a modernidade? Se deixamos de respeitar o próximo, de cuidar do planeta, de pensar no verdadeiro caos que se apresenta por conta das grandes desigualdades, como somos capazes de enxergar a modernidade? Basta apenas um i-phone, uma tv plana e seremos honestos com nossa felicidade? O que fazer com os ódios, os preconceitos, as manifestações racistas, a subversão dos oprimidos, a ânsia de submeter o ser ao ter? Simplesmente varrer para debaixo do tapete e se esconder num condomínio confortável com câmeras 24 horas? Esperar que o capital promova o progresso social que não foi conseguido até agora, atravessando séculos? Deixar que tudo se limite a mesas de bar como último refúgio do suposto conceito de amizade social – bar é bom, mas a amizade precisa ser algo mais do que beber até cair. Os computadores aí estão e são bem-vindos, mas eles não significam a erudição automática: não há como prescindir de estudo e leitura, mas o que menos se faz pelas cidades afora é estudar e ler. Dizem que vivemos num mundo muito audiovisual hoje, de modo que a leitura perdeu interesse. Acho muito estranho: ler permite chegar a mundos que os olhos não enxergam sem a mente a trabalhar. Dentro de algumas horas, pessoas se acotovelarão em shopping centers. O trânsito será infernal e não haverá um centímetro disponível nos transportes de massa, sempre aquém das necessidades populares. Pessoas assistirão mais um capitulo de novela em suas salas e quartos, mas não haverá diálogo familiar e elas serão solitárias como nunca. Parece evidente que a revolução não será transmitida pela televisão, tal como certo poeta ensinou, mas estamos ocupados demais para qualquer reflexão de qualidade. Batalhões de estranhos a se deslocar pelas orlas, ruas, alamedas e demais espaços, sem qualquer afinidade ou apreço entre si. Alguém vai se divertir. Muitos rirão mais tarde, mas quase ninguém com o coração. Estranho mundo moderno.
RASCUNHO SOBRE HORACE SILVER
um homem está seduzido
pelo âmbar da morte
e faz do acostamento
o seu berço esplêndido
envolto num plástico azul
e com os pés descalços
ele é o protagonista
num programa de tv
enquanto leio o monodrama
pela ducentésima vez
e ouço as notas delicadas
que Horace Silver toca
à tela, um acidente de carro
garrafas quebradas, vidro moído
e uma sobrevivente seminua e ébria
tentando recitar o inexplicável
no disco, as pessoas aplaudem
outro solo de Horace Silver
“Let´s take any cool eyes” floresce
recordando Newport no ano de 1958
a morte do homem e seus pés descalços
são sinais de mera importante audiência
enquanto meu sono está no exílio
em certa embaixada distante
a solidão é recato e me conforta:
degusto a noite e seu desencontro
fugaz, a tal ponto que a insônia
me parece admirável companhia
Friday, December 02, 2011
MODERN TIMES
6
Crua a tarde nublada e chuvosa de sexta-feira. Ela intumesce o sentimento implícito de que o ano de 2011 já terminou. As ruas estão mais vazias. As pessoas vêm e vão mais lentamente. Talvez haja certa consternação por percebermos que o tempo escorre na ampulheta e não temos a felicidade eterna, indissolúvel – o que não quer dizer nada no meio de três bilhões de pessoas famintas. Quando estive no mercado ontem, noite os detalhes que já marcam o fim do ano: grandes estoques de bebida alcoólica, grãos e carnes diferenciadas, até mesmo ventiladores. Mais cedo, visitando a sala de trabalho de um amigo meu, o rádio tocava John Lennon com seu hino de Natal. Nos dias de hoje prefiro outra canção do ídolo: “Nobody told me”. O telefone já quase não toca, os e-mails são escassos; há muito trabalho a fazer, mas em outros formatos. E então olhamos para trás, visando refletir o que já passou. É pouco. Pensamos no que poderia ter sido melhor. É pouco. O que sei é que mais tarde os shoppings estarão abarrotados de sedentos consumidores, enquanto as marquises abrigarão os que nasceram condenados por tudo o que aí está, mas muitos fingem não ver porque lhes é mais confortável.
38
Outro dia, o travesti estava nas imediações da rua do Senado. Alto, ainda vestido de forma feminina, mas muito humilde e sem condições de cuidado estético necessárias para ostentar o glamour que, um dia, talvez tenha tido. É possível que esteja na casa dos quase setenta anos, idade de pai ou avô. Pedia dois reais aos transeuntes; dei-lhe cinco. Olhou assustado: não deve estar acostumado com maiores generosidades. Se soubesse de minha pobreza, ele entenderia. Ontem, fazia esquina com Washington Luiz e Tadeu Kosciusko – assim mesmo. Continuava a pedir, nem sempre tendo retorno. Pedintes sempre chamam minha atenção porque eles são a mais evidente prova da injustiça em que vivemos neste mundo, onde muitos têm tanto e outros, nada. Neste caso, a atenção foi acentuada porque nunca tinha visto um travesti pedir esmolas em minha vida. Deve haver várias razões para isso. Muitos não chegaram à idade madura por diversas mazelas. Outros, vivem recolhidos. O senso comum, muitas vezes mais raso, não atenta para o travesti com alguém que pode ter vida longa, o que pode ser reforçado no imaginário pelos inúmeros jovens que se prostituem nas grandes cidades. Todos os dias ouço debates sobre a questão do respeito à homossexualidade no Brasil – todos justos, por sinal. O movimento homoafetivo consegue colocar milhões de pessoas nas ruas das grandes capitais em manifestações de civilidade. Será que não poderiam cuidar também dos travestis na terceira idade, que não são muitos? Melhor ainda: podemos entender como feliz uma sociedade que se acotovela frente às vitrines de natal enquanto temos ainda tantos moradores de rua? Desconsiderar isso pode ser algo normal?
4.501
Gosto do Fluminense. Amo o Fluminense. Não tenho paciência para torcedores desagradáveis que se julgam senhores da razão. Futebol não tem propriamente lógica e nem é ciência exata. Às favas com os chatos que só vêem defeitos porque o time não foi campeão este ano; não passam de carpideiras rancorosas oferecendo seu licor de ridículo ao eleitorado. Estamos na Libertadores e vamos brigar com títulos em 2012. O resto é idiotice barata ou prepotência que cheira a charlatanismo.
0,14
co
gito
regur
gito
co
3,0579
tudo o que me veste é tempo
algo do que sonho é aurora
então desnudo-me em lágrimas
frente ao fim que me atordoa
¼
Tempo é arte, foi o que eu aprendi/ Não é dinheiro ou outra coisa que se conte/ É uma outra dimensão/ Toda vida vive da luz do sol/ Que se faltasse tudo então pereceria/ Foi o que eu aprendi de tanto ver se repetir/ Que anestesia, e eu já nem sentia, ia me destruir/ Mas não aconteceu, estou aqui/ Toda vida, eu quis tanto querer/ Como se não bastasse o que já me cabia/ Na esfera emocional/ Na verdade eu sou outro você/ Tanto que enxergo em ti o que em mim não veria/ Foi o que eu aprendi de tanto ver se repetir/ Que anestesia, e eu já nem sentia, ia me destruir/ Mas não aconteceu, estou aqui (Lulu)
14,6565656565
Tempos modernos, hipocrisia jurássica.
Friday, November 11, 2011
FERIADÓPOLIS
A
Nossa sociedade, no bojo, muitas vezes defende a "cadeia para estudantes maconheiros", mas também fuma; a "porrada nos camelôs" que enfeiam as cidades, mas também compra as mercadorias baratinhas; a punição de "todos" os politicos, porque "todos" são corruptos, mas gosta de sonegar impostos; é contra as "bolsas assistencialistas", mas não tem nenhuma atitude para ajudar a diminuir o desnível na concentração de renda. Finalmente, depois de dar de ombros para o próximo, ela não quer que aqueles que foram eternamente marginalizados e, em sua maioria, submetidos às piores humilhações e privações, sem o menor amparo social, queiram tomar o seu carro, a sua bolsa ou mesmo a sua vida.
O que nos assola propriamente? A indiferença? A ignorância? A estupidez? Ou a burrice?
Eles estão muito ocupados no feriadão.
Eles estão muito ocupados no feriadão.
B
Não se trata jamais de ser permissivo com o crime. Jamais.
Mas onde ele, crime, realmente nasce?
Da “má-índole” dos mais pobres ou do descaso dos mais ricos?
C
Prenderam mais um chefão do tráfico. Mas o consumo não vai parar. Parte da Zona Sul precisa de cocaína para dar algum sentido ao vazio da vida, mesmo que isso custe mortes, estupros, terror. As pessoas estão ocupadas na sala de jantar.
Retratos de uma guerra inútil e interminável.
É bom saber que as mortes e a opressão vão diminuir. Mas ainda é pouco.
Retratos de uma guerra inútil e interminável.
É bom saber que as mortes e a opressão vão diminuir. Mas ainda é pouco.
D
Certa vez, nos tempos de escola, conheci um sujeito. Era mirradinho, humilde, pobre, bom garoto. Estudava de graça, assim como eu – e quem precisou disso sabe muito bem o que significa: foi o que salvou a minha vida.
Os anos passaram. Eu também era pobre e humilde, não mudei muito.
Tempos depois, encontrei o sujeito. Virou um funcionário público bem-abonado – com méritos. Mas o discurso mudara. A pobreza e a humildade se dissiparam, dando lugar a um discurso extremamente reacionário e calcado na “livre iniciativa” que, se fosse tomada ao pé da letra, não teria lhe permitido deixar de ser pobre – quem é contra a escola pública não deveria tê-la como beneficiário. Só o capitalismo salva, só o capitalismo constrói. A retórica era bem-construída do ponto de vista da sofisticação, mas na verdade omitia o principal: nada pode ser pior do que dar as costas às origens. Ou dar de ombros. A ele dediquei um minuto de silêncio. Descansou em paz.
Nestas horas, tento entender a mim mesmo. O que é falácia, o que é escárnio.
Lá fora, as pessoas estão ocupadas com a novela.
Não me venham falar de ideologias. Eu falo de matemática. Tabuada, equações miseráveis. Simplicidade.
Que liberalismo servirá para pagar os 7 trilhões que os EUA colocaram na pendura pública sem que milhões de pessoas famintas no mundo continuem a sê-lo?
E
A perfeição é mera indelicadeza.
F
Ézio não foi somente meu artilheiro ou ídolo. Foi meu super-herói.
Como perder um super-herói impunemente?
G
Rap 1
agora caibo num punhado/ a palavra e um punho cerrado/ migalhinha sem açoite, pobre sem dote/ uma luzinha que pisca à noite no topo do morro/ mas o túnel passa tão longe/ e o caminho tira sarro/ beijo o asfalto feito um pedaço de papel picado/ atirado com vã fidalguia/ pela janela de um grande edifício na avenida central/ durante a passeata-carnaval/ irrisório, sou fulano-de-tal/ e não me acostumo com a hipocrisia/ que habita a eugenia das ruas/ preto chora na marquise/ branca esnobe na boutique/ oscar freire, vieira souto, tanto faz/ ele te fita testa abaixo/ relaxa sem rir/ se a morte me atordoa/ é um dar-de-ombros/ descanse em paz
Rap 2
rapte-me/ faça-me gozo de teu corpo tátil/ uma casa aprazível/ um naco de carne palpável/ eis meus seios em delírio/ cobiçando lábios nos bicos/ o que chamam tesão é indescritível/ namore meu colo/ meu ventre umedecido/ e venha preciso, decidido/ lá fora, o tom da morte/ aqui dentro, deleite no idílio.
H
"Piririm, piririm, piririm: Jairo de Sou-Za!"
Friday, November 04, 2011
A MIOPIA
x
Perdi a conta de quantas pessoas eu conversei estes dias, profundamente infelizes com futilidades. Na verdade, todas, com exceção de um grande amigo meu, que sei estar triste com razão e de outra amiga, cujo problema conhecerei mais tarde. E o que chamo de futilidade? O que não coloca em risco ou desgaste a vida da pessoa e de seus próximos. Acordar cedo não é motivo para ninguém se sentir triste. Trabalhar muito. Encarar o trânsito. Não comprar a roupa de moda da semana. Tristeza para mim é fome, violência, pobreza, miséria, ruína, doença. O resto é bobagem, com se um ou outro quisesse dar um dom de drama profundo ao ridículo da vida.
Sete bilhões de pessoas na Terra, a maioria extremamente miserável.
Bastava pensar nisso para não fazer um papel grotesco em público.
Com minhas dores, minha fome, meu cansaço e pensamentos inevitáveis, às vezes ouço calado. Noutras, falo o que é importante... para mim. Quem tem desapreço pelo outro não há de se comover com minhas querelas.
y
Perdi a conta de quantas pessoas eu conversei estes dias, profundamente infelizes com futilidades. Na verdade, todas, com exceção de um grande amigo meu, que sei estar triste com razão e de outra amiga, cujo problema conhecerei mais tarde. E o que chamo de futilidade? O que não coloca em risco ou desgaste a vida da pessoa e de seus próximos. Acordar cedo não é motivo para ninguém se sentir triste. Trabalhar muito. Encarar o trânsito. Não comprar a roupa de moda da semana. Tristeza para mim é fome, violência, pobreza, miséria, ruína, doença. O resto é bobagem, com se um ou outro quisesse dar um dom de drama profundo ao ridículo da vida.
Sete bilhões de pessoas na Terra, a maioria extremamente miserável.
Bastava pensar nisso para não fazer um papel grotesco em público.
Com minhas dores, minha fome, meu cansaço e pensamentos inevitáveis, às vezes ouço calado. Noutras, falo o que é importante... para mim. Quem tem desapreço pelo outro não há de se comover com minhas querelas.
y
O meu amigo realmente importante lá de cima me disse algo que me fez pensar e achei genial: "As pessoas se escondem atrás de seus deuses (e religiões) para justificarem toda sua falta de atitude".
Atitude para com o próximo. Com a vida. O outro.
Não é infeliz aquele que só poderá ir a Manhattan semana que vem.
É algo que sempre tenho visto em minha vida. Por não ter religião, sempre fui tratado em algum grupo social com reservas; enquanto isso, pessoas se divertiam alegremente à minha volta e, diante do problema de um terceiro, o equivalente ao que mais ouvi foi: "Melhor não falar nada, não quero me comprometer".
Outra afirmativa abominável é aquela que diz "Todo mundo tem problemas" no sentido de torná-los iguais. É o que se chama de erro de inferência clássica: generalizar o particular.
Encontrar alguém na rua quando você está visivelmente transtornado e ela te diz: "Está acontecendo alguma coisa?". Não sei até onde vão a ignorância e a hipocrisia, de mãos dadas ou calçadas separadas.
Continuo com fome.
z
Parece claro que os fundamentos elementares da matemática, ciência tão importante e ainda não absorvida pelo homo sapiens, não conseguem esconder a inviabilidade econômica do que hoje é a Europa, mais os 7 tri torrados na dívida pública norte-americana. Durante décadas, venderam a mentira de uma prosperidade sustentada na economia neoliberal. Um dia a conta chegaria. Chegou.
Por outro lado, chego a me assustar quando ainda vejo tanta gente idiota referindo-se ao "comunismo" (entre aspas mesmo) como algo "atrasado" e "primitivo". Além de não lerem uma página sobre o assunto, encarregam-se de distorcê-lo. Seria interessante que os mesmos defensores ardorosos deste atual modelo de excludência fossem convidados a audiências via internet para justificarem o que pensam.
Talvez fosse mais engraçado do que 90% da programação de televisão no Brasil.
Justificar o injustificável.
Quem diria... a Europa se curva perante uma tabuada.
Talvez fosse mais engraçado do que 90% da programação de televisão no Brasil.
Justificar o injustificável.
Quem diria... a Europa se curva perante uma tabuada.
@
Tenho dores.
Lá fora é uma sexta-feira.
Vamos ao shopping center, vamos ver a galera, vamos beber até cair, vamos zuar?
Vamos?
Me mantenha fora disso para sempre.
w
Acabou o ano. As ruas estão mais vazias, as salas de trabalho estão mais silenciosas, o telefone oferece silêncio. Somos números, estatísticas. Emolduramos relatórios e vivemos para almoçar correndo, sair do trabalho correndo, chegar em casa correndo e, entre estes intervalos, vivenciar o inevitável nada. Em breve, chegam aquelas confraternizações sem amigos onde muitos vão beber até caírem. Qual o sentido de um dia no ano se todos os outros são vividos sem a fidalguia mínima?
#
Definitivamente, nada pode ser mais inútil do que alguém que cumpre seus "deveres religiosos" e trata a crença como um plano de capitalização para o futuro, enquanto a vida real e fazer o bem são itens fora da pauta.
Como se perde tempo com o futuro sem viver o presente.
Se Deus houver, certamente ele não aprova isso.
&
Será que depois de tanta fome, tanta dor e incompreensão, ainda tenho futuro?
Somos sete bilhões de pessoas na Terra.
Nunca fomos tão solitários com nossos modernos computadores. Vazios, quando lambemos a ganância e a usura em nossas peles. Inconsequentes, quando achamos que só somos responsáveis pelo que fazemos - e o que não fazemos, como fica?
9*t
A coluna de hoje não fala de sentimentos piegas, nem tem caráter evangelizador. Ela não fantasia e nem finge. É apenas uma crônica dos nossos dias e da nossa estupidez na condição de sociedade. Se você entendeu isso, meus sinceros agradecimentos. Se não, sem problemas: não há nada que não possa ficar mais claro depois de lido seis ou oito vezes.
xyzt
"Drume negrita/ Que yo va a comprar nueva cunita/ Que tendrá capite' y también ca'cabe'"
Ernesto Grenet Wood.
09dfe5
"Drume negrita/ Que yo va a comprar nueva cunita/ Que tendrá capite' y también ca'cabe'"
Ernesto Grenet Wood.
09dfe5
http://www.youtube.com/watch?v=o22eIJDtKho
Saturday, July 02, 2011
ITAMAR
Estranhem ou não, acompanho política desde os dez anos de idade, se é que isso é plausível. Filho de um progressista inconformado e sobrinho de um preso (e MUITO torturado) político expulso do Brasil, não tinha outra saída. Não entendia direito, mas folheava o Pasquim em 1978. dois anos depois, aí sim eu já compreendia quase todas as (justas) piadas a respeito do Presidente Figueiredo, a começar por sua triunfal pérola de posse do cargo: "Anistia ampla, geral e irrestrita; quem for contra, eu prendo e arrebento!". Que nível.
Conta-se nos dedos de uma única mão os políticos de direita que realmente trabalharam a favor do Brasil e dos brasileiros. Itamar Franco, que faleceu horas atrás, foi um deles. Sou testemunha.
Pegou a maior furada da história da república: o "legado" do (sic) "ex-comungado" Collor. Situação de emergência e risco total. Meteu a cara, arregaçou as mangas e seguiu em frente. Perto dos sessenta anos, poderia ter dado o fora. Mostrou vitalidade de menino e o Brasil, outrora um avião desgovernado e em queda livre, aterrisou inacreditavelmente sem maiores vítimas. Tudo bem, isso custaria oito anos de FHC com tudo o que de cômico e trágico isso significa. Porém, se hoje o Brasil é um pouco melhor do que o de anos idos, Itamar é cotista da empresa.
Quando a crise política cercou seu secretário da Casa Civil, Henrique Hargreaves, Itamar foi impecável e elegante como a cautela mineira do quase-Rio que é Juiz de Fora: o secretário foi afastado, investigado da cabeça aos pés, absolvido e voltou para seu cargo. Eram outros tempos.
Poderia lembrar aqui causos engraçadíssimos do Presidente Itamar, como aquela história da modelo Lilian, o clone de Fafá de Belém, ou seus arranca-rabos com FHC (sempre ele) e até mesmo Lula. Coisas de quem tem uma vida pública. E suas filhas lindas? A bela Tenente June (ou Júnia)? Há vários e vários Itamares, mas o maior, o supremo deles foi o homem que recebeu a república em extrema-unção e a recobrou sabe-se-lá-como. Eu era um dos coordenadores do centro acadêmico da faculdade onde me formei, na minha amada UERJ, de forma que vi tudo aquilo muito de pertinho.
Se a direita brasileira tivesse outros homens com o espectro de Itamar Franco, o Brasil de hoje seria muito diferente. Ele não teria esperado até 2002 para entrar no século XX; lucraria um meio-século de tempo. As ideias podiam ser diferentes, mas o objetivo era o bem do Brasil e não o próprio feudo, prioridade de tantos outros.
Se houver outra vida, Itamar acaba de ser ovacionado no lugar onde chegou. Eu não creio nesta outra vida, mas dele não tenho a menor dúvida.
Um abraço e obrigado por tudo.
Paulo-Roberto Andel
Friday, June 10, 2011
JOÃO GILBERTO
O Brasil sempre teve vocação para grandes cantores, grandes vozes, a grandiloquência sem par de craques como Orlando Silva, Francisco Alves e congêneres. Ali, por volta dos anos trinta, destoava a singularidade de Mário Reis. Eram tempos dos grandes programas de rádio, com força equivalente à televisão atual. Ao mesmo tempo, a temática das canções era carregada: a dor, o drama, a mulher sem moral que trai, o sofrimento e a desilusão amorosas; os cabarés enfumaçados.
No final dos anos cinquenta, um jovem da Bahia virou tudo de cabeça para baixo, influenciado por muitas coisas e também pelo Mário. Com um violão impecável, sintetizou toda uma bateria de escola de samba. A voz era quase sussurrante. Saía a puta de cena e entrava a garota linda, leve, praiana. Em vez da dor, o amor safadinho mas romântico e delicado. Em vez da noite, o céu ensolarado. O baiano, ao lado de outros craques com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, criou uma situação tão inesperada, empolgante e diferente na música brasileira que até hoje, mais de meio século depois, ainda é debatida se era um movimento, um momento ou um jeito de tocar e cantar - que até hoje influencia meio mundo musical no Brasil e no exterior, lotando casas nipônicas e norte-americanas com meses de antecedência. Tocar não somente as novas músicas como repaginar todo o grande cancioneiro de outrora, transformando as canções por completo. A batida é dele, o jeito de tocar é dele.
Samba de violão.
Voz de falar ao pé do ouvido da amada. Bossa Nova.
Voz de falar ao pé do ouvido da amada. Bossa Nova.
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira.
Gênio do Olimpo brasileiro.
Perde-se muito tempo ao se falar das manias e possíveis esquisitices de João.
Hoje é dia de seus oitenta anos de vida.
Vamos celebrar um craque que rompeu barreiras, dinamitou paradigmas e abriu as porteiras para a música moderna feita nesta terra.
Louvemos João Gilberto. Ele está para nossa música assim como seu amigo e contemporâneo Tom Jobim, ou no futebol como Pelé, ou na literatura como Fernando Sabino, por exemplo. Oiticica nas artes plásticas. Cacaso na poesia. Paulo Autran no teatro e por aí afora. Goste-se ou não, um revolucionário na arte que escolheu para fazer e nela viver.
O Brasil não conhece o Brasil.
Um dia, há de conhecer - e aí veremos o quanto brilha em nossa constelação a magnífica estrela de João.
O Brasil não conhece o Brasil.
Um dia, há de conhecer - e aí veremos o quanto brilha em nossa constelação a magnífica estrela de João.
A Bossa Nova passou na prova!
Paulo-Roberto Andel, 10/06/2011
Tuesday, March 29, 2011
DA AGÊNCIA CARTA MAIOR - EMIR SADER
(Reprodução de artigo) 1964: data incômoda para a direita A cada ano, quando nos aproximamos da data do golpe de 1964, uma sensação incômoda se apossa da direita – dos partidos, políticos e dos seus meios de comunicação. O que fazer? Que atitude tomar? Fingir que não acontece nada, abordar de maneira “objetiva”, como se eles não tivessem estado comprometidos com a brutal ruptura da democracia no momento mais negativo da história brasileira ou abordar como se tivessem sido vítimas do regime que ajudaram a criar? Difícil e incômoda a situação, porque a imprensa participou ativamente, como militância politica, da preparação do golpe, ajudando a criar um falso clima tanto de que o Brasil estivesse sob risco iminente de uma ruptura da democracia por parte da esquerda, como do falso isolamento do governo Jango. Pregaram o golpe, mobilizaram para as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, convocadas pela Igreja, tentaram passar a ideia de que se tratava de um movimento democrático contra riscos de ditadura e promoveram a maior ruptura da democracia que o Brasil conheceu e a chegada ao poder da pior ditadura que conhecemos. Na guerra fria, a imprensa brasileira esteve plenamente alinhada com a politica norteamericana da luta contra a “subversão” contra o “comunismo”, isto é, com o radicalismo de direita, com as posições obscurantistas e contrárias à democracia, estabelecida com grande esforço no Brasil. Estiveram em todas as tentativas de golpe contra Getúlio e contra JK. Em suma, a posição golpista da imprensa brasileira em 1964 não foi um erro ocasional, um acidente de percurso, mas a decorrência natural do alinhamento na guerra fria com as forças pró-EUA e que se opuseram com todo empenho ao processo de democratização que o Brasil viveu na década de 1950. Deve prevalecer um misto de atitude envergonhada de não dar muito destaque ao tema, com matérias que pretendam renovar a ideia equivocada de que a imprensa foi vitima da ditadura – quando foi algoz, aliado, fator no desencadeamento do golpe e da ditadura. (O livro de Beatriz Kushnir, Cães de guarda, da Boitempo, continua a ser leitura indispensável para uma visão real do papel da mídia no golpe e na ditadura.) Promoveu o golpe, saudou a instalação da ditadura e a ruptura da democracia, tratou de acobertar isso como se tivesse sido um movimento democrático, encobriu a repressão fazendo circular as versões falsas da ditadura, elogiou os ditadores, escondeu a resistência democrática, classificou as ações desta resistência como terroristas – em suma, foi instrumento do regime de terror contra a democracia. Por isso a data é incômoda para a direita, mas especialmente para a imprensa, que quer passar por arauto da democracia, por ombudsman das liberdades politicas. Quem são os Mesquitas, os Frias, os Marinhos, os Civitas, para falar em nome da democracia? Por isso escondem, envergonhados, seu passado, buscam a falta de memória do povo, para que não saibam seu papel a favor da ditadura e contra a democracia, no momento mais importante da história brasileira. Por isso tem que ressoar sempre nos ouvidos de todos a pergunta: Onde você estava no golpe de 1964?
Tuesday, March 22, 2011
AO QUARTETO NOVO
Ontem, perdido na mediocridade da televisão, esbarrei numa ilha de excelência: a SESC TV. Nela, mais um dos maravilhosos shows de música instrumental que só se pode ver por lá: uma apresentação de Theo de Barros, um dos mais completos músicos brasileiros da história. E, claro, onde tem o nome de Theo, não poderia faltar a menção ao Quarteto Novo.
Era originariamente não um quarteto, mas sim trio - o Trio Novo. Nasceu para acompanhar ninguém menos do que Geraldo Vandré, que fazia a terra tremer com sua música colossal e brasileiríssima em plena ditadura militar. Além de Theo, formavam o Trio os jovens Airto Moreira na percussão e Heraldo do Monte na viola. Tempos depois receberam um quarto integrante, jovem nordestino que já mostrava muita habilidade com piano e sanfona, mas que marcaria o grupo ao tocar flauta: ninguém menos do que Hermeto Pascoal, o maior músico que Miles Davis viu tocar. E, com essa formação musical que lembra no futebol o ataque da seleção brasileira tricampeã no México, o Quarteto Novo seguiu solo para um único disco, que levou seu nome e foi lançado em 1967, com oito extraordinárias faixas que poderiam soar como o melhor do jazz, mas que não eram "apenas" jazz - na verdade, a música instrumental brasileira levada ao Olimpo pela força da temática nordestina. É um disco que, ouvido 44 anos depois, ainda tira o fôlego dos apreciadores da boa música, tamanha a sofisticação e exuberância dos arranjos e sonoridades ali presentes. Um momento histórico e uno: jamais se repetiu. Antes da despedida, ainda fizeram parte da histórica vitória de "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, no Terceiro Festival de MPB.
Décadas depois, os integrantes do Quarteto Novo estão vivíssimos, hiperativos e com carreiras internacionais respeitadíssimas. Seu rol de fans, dentre os quais ardorosamente me incluo, bem mereciam uma apresentação ao vivo do disco de 1967, marco raro de um Brasil inquestionável e maravilhoso do ponto de vista artístico.
Paulo-Roberto Andel
Décadas depois, os integrantes do Quarteto Novo estão vivíssimos, hiperativos e com carreiras internacionais respeitadíssimas. Seu rol de fans, dentre os quais ardorosamente me incluo, bem mereciam uma apresentação ao vivo do disco de 1967, marco raro de um Brasil inquestionável e maravilhoso do ponto de vista artístico.
Paulo-Roberto Andel
Tuesday, February 22, 2011
PENTA EM PENCAS (REPRISE)
Amigos,
Em 07 de novembro de 2007, publiquei este artigo no OTRASPALABRAS!; nesta data, o Flamengo ainda não tinha conquistado - de forma brilhante e NO CAMPO - o título nacional de 2010, nem o Sport a Copa do Brasil de 2008. Como o tema "está na moda" e para manter a máxima de que vale o que está escrito, esta foi - e É - a minha OPINIÃO. Obrigado pela visita.
Penta em pencas (07/11/2007)
O que não faltam no futebol brasileiro são equívocos das mais variadas naturezas, e a recente discussão sobre o propalado pentacampeonato dos flamengos contra os são-paulinos vem bem a calhar como reforço de tese.
Primeiro ponto, a bobagem de se discutir a origem do que se chama de “campeonato brasileiro” – o que, para alguns, data de 1971. Levando-se em conta, por exemplo, que a Taça Libertadores começou em 1960, tendo como participantes os representantes nacionais dos países sul-americanos, é claro que havia um meio de representação para tal acontecimento. E assim foi: em 1960, o E.C. Bahia, campeão brasileiro de 1959, disputou a Libertadores, na condição de campeão da Taça Brasil. Dali em diante, o campeão da Copa Brasil foi sempre o representante oficial. A Taça era disputada pelos campeões estaduais de todo o país, com a diferença de que os times do Rio de Janeiro e de São Paulo entravam automaticamente na fase final do certame, em modelo muito parecido das primeiras disputas da Copa do Brasil, torneio criado em 1989.
A Taça Brasil teve dez edições, com a seguinte distribuição de títulos: Santos, 5 (1961 a 1965); Palmeiras, 2 (1962 e 1967); Bahia, 1 (1959); Botafogo, 1 (1968); Cruzeiro, 1 (1966).
No mesmo ano de 1967, o então Torneio Rio-São Paulo recebeu uma ampliação, com o convite de times das regiões Sul e Nordeste, como Grêmio, Inter, Atlético Paranaense e Santa Cruz, passando-se a se chamar Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o popular “Robertão”. A Taça Brasil permaneceu como torneio paralelo até o fim de 1968 – a partir de então, o Robertão tornou-se a única competição nacional do Brasil Em 1969, o torneio passou a ser denominado Taça de Prata. Em suas quatro edições, os campeões foram: Palmeiras (1967/1969); Santos (1968) e Fluminense (1970). Até aqui, já tínhamos 11 anos de competições nacionais, inclusive com anos em que um time havia ganho duas competições nacionais (Palmeiras em 1967) e que havia dois campeões no mesmo ano (Santos e Botafogo, 1968).
Então, em 1971, criou-se o chamado “Campeonato Brasileiro”, que já existia de fato há mais de uma década. E deveria ser chamado de torneio ou copa, pois o campeonato pressupõe jogos de ida e volta entre todos os participantes, com acesso e descenso, e isso jamais ocorreu de forma correta entre 1971 e 2003 – mesmo depois, como veremos a seguir. A dita nomenclatura de “Campeonato” Brasileiro nem era unânime à época; álbuns antigos de figurinhas daqueles podem mostrar os nomes de “Taça Brasil” ou “Copa Brasil” em seus títulos. Posteriormente, “Taça de Ouro”.
A cada ano, houve uma fórmula de disputa do torneio. A cada temporada, o inchaço provocado pelos interesses políticos da ditadura militar, num princípio de se “integrar” o Brasil. Depois de anos incríveis, como 1979 (com 96 clubes e os times paulistas entrando automaticamente na fase final de disputa) e 1982 (onde o Corinthians, advindo da “Taça de Prata, espécie de segunda divisão, chegou às semifinais do torneio no mesmo ano), a campanha pela ética e a moralidade no futebol brasileiro foi deflagrada em 1987, logo após o torneio de 1986, vencido pelo São Paulo, em março do ano seguinte – o atropelo deveu-se a confusões administrativas e a continuação da fase final deu-se após o carnaval. Os times de maior apelo popular reuniram-se e resolveram bancar um campeonato por conta própria, a chamada (corretamente) de Copa União. Importante dizer que tudo isso começou porque a CBF resolveu reduzir o número de clubes de oitenta para vinte e oito e, com isso, Botafogo (co-campeão em 1968) e Coritiba (campeão em 1985) corriam risco de serem alijados da competição. Ambos os clubes interpelaram a CBF judicialmente e, com isso, surgiu o Clube dos 13 (Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco). O América, terceiro colocado da competição de 1986, foi alijado da competição por decreto, recusou-se a jogar qualquer torneio que não fosse o de elite (com absoluta razão, já que a chamada Copa NÃO foi elaborada com base em critérios técnicos) e, daí, iniciou longa jornada de dificuldades até hoje. O mesmo aconteceu com o Guarani, campeão em 1978 e vice-campeão do torneio de 1986 – porém, os de Campinas concordaram em disputar o que se convencionou chamar de Módulo Amarelo.
Dado o impasse, pois certamente o formato da Copa União contrariava os interesses dos clubes que, em tese, conquistaram suas vagas nos critérios supostamente técnicos (classificação no ano anterior), a CBF interveio com a decisão de cruzar o chamado Módulo Verde (Clube dos 13 mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz) com o Módulo Amarelo, composto pelos demais times alijados da disputa pela chamada elite. Esta intervenção deu-se meses antes da fase final da Copa União – que, embora com um discurso renovador, permitiu situações curiosas como a de um time que não tivesse ganho nenhum dos turnos de classificação chegasse às semifinais, que foi exatamente o caso do Flamengo (o Atlético Mineiro foi o primeiro colocado nos dois turnos de classificação, e o time da Gávea entrou como o melhor segundo). Recorde-se que, dez anos depois, uma final de Taça Guanabara previu uma partida final entre o primeiro e o segundo colocados e muitos gargalharam, atribuindo um ar grotesco ao método de disputa. Certamente, se eram rubro-negros, deviam ser para lá de esquecidos.
Particularmente, não tenho dúvidas de que, naquele ano e com aquela fórmula de disputa, o Flamengo seria o grande favorito ao título nacional e a uma das vagas da Libertadores em 1988 – ainda que de forma estranha, alijou o Atlético da conquista da Copa União e bateu um limitado Inter na final do Módulo (este sim, o time gaúcho, tinha todo interesse em “melar” o cruzamento de módulos, pois temia o confronto contra Sport e Guarani, devido ao péssimo momento em que se encontrava tecnicamente). Sport e Guarani nem chegaram a decidir quem seria o campeão do Módulo Amarelo, tamanha era a importância maior de se ir para o quadrangular final – embora isso não diminua a aberração da decisão em aberto após um incontável empate nos pênaltis.
O que atrapalhou os da Gávea foi o gigantismo e a prepotência. O mesmo que se revela de forma agressiva na mídia ainda hoje, que vende a idéia de um time somente no Brasil, o que sabemos há muito ser uma balela. O mesmo que faz uma auto-exaltação diária, como se futebol pudesse ser jogado sem adversários e sem outras torcidas, outras diferenças. Recusaram-se a disputar o quadrangular final e deixaram que a competição começasse, não comparecendo aos jogos e perdendo por W.O. Tinham a certeza de que seriam nomeados por decreto para a disputa da Taça Libertadores. Mas não foi o que aconteceu. E perderam a vaga para a competição sul-americana mais fácil de sua história.
De lá para cá, passaram vinte anos, desordens e muita confusão no futebol brasileiro. O Flamengo viria ainda a conquistar duas Copas do Brasil, em 1990 e 2006, competições nos mesmos moldes que seus antecessores nos anos sessenta o fizeram – e que a chamada massa rubro-negra insiste ingenuamente em não reconhecer, como se o Santos de Pelé, bicampeão mundial em 1962-1963, por exemplo, tivesse chegado à Libertadores por acaso ou convite – e não há um brasileiro vivo ou morto que conheça futebol e não saiba do Santos de Pelé. E ganhou um torneio brasileiro também, em 1992 – cujo sucessor inauguraria uma nova era de ascensões, promovendo doze times à chamada divisão principal.
Anos depois, por motivos até parecidos, em 2000, foi instituída a Copa João Havelange, vencida pelo Vasco, na final contra o São Caetano. Os times vieram de módulos diferentes e, teoricamente, o Vasco poderia sentir-se prejudicado por chegar à final contra um time que enfrentou adversários de nível técnico menos apurado. Mas nem mesmo Eurico Miranda cogitou de não realizar os jogos de cruzamento, ainda que a partida final em São Januário tenha sido suspensa. E o que dizer do Cruzeiro, que terminou o Módulo Azul daquele ano com 45 pontos, seis à frente do Vasco? Imaginem se os oito times que classificaram-se na divisão de elite recusassem-se a disputar a fase final com os demais das outras chaves? Teríamos perdido a oportunidade histórica de ver um time como o do São Caetano, que eliminou em casa Fluminense, Palmeiras e Grêmio, até chegar à grande final.
Patético ainda imaginar que o Flamengo possa “apresentar” protestos por um título que não requereu durante quinze anos. E sabedor que a Conmebol e a FIFA não lhe dariam amparo em tal reivindicação.
O São Paulo, se olharmos bem a história, nem é o primeiro pentacampeão brasileiro. Basta olhar o passado. Mas pode comemorar que ganhou cinco títulos no campo, no que merece absolutos parabéns.
Para finalizar, lamento que Zico, jogador de grande categoria, mas içado ao pantheon de maior de todos os tempos por critérios mais do que discutíveis, tenha expressado o sentimento de que a comemoração são-paulina pelos cinco títulos possa ter sido uma “palhaçada”. Vi Zico jogar, e testemunhei muitas vezes sua categoria em campo, embora tenha presenciado falhas também. O sentimento de comemoração de uma torcida por um título é sempre nobre. E, queira ele ou não, o São Paulo venceu os cinco títulos no campo, sem tapetões ou tentativas frustradas de demonstração de força. E que o Flamengo comemore os quatro títulos, mais as duas Copas do Brasil, porque a competição de 1987, mesmo que para alguns de forma imerecida, foi do Sport - e ele foi reconhecidamente o representante nacional do Brasil em competições, junto com o Guarani.
Zico ressaltou que “quem ganha títulos é o time em campo, e não os dirigentes”. Teria toda razão, não tivesse omitido sua opinião num lamentável episódio da Taça Libertadores da América em 1981, quando o árbitro José Roberto Wright encerrou o jogo decisivo contra o Atlético-MG, após ter expulsado mais da metade do time alvinegro com meia hora de partida. Queira ou não Zico, a trajetória de gala de seu time tem remendos rasteiros, da mesma maneira que todos os chamados grandes times brasileiros. E trata-se apenas de um exemplo.
Paulo-Roberto Andel, 07/11/2007
Friday, February 18, 2011
A SOCIEDADE DA FARSA

Pela manhãzinha, lembrei de certa passagem do maravilhoso livro de Ruy Castro, “Ela é carioca”, quando Cacá Diegues (este sim, cineasta de verdade) polemizou com os críticos de seu filme “Orfeu”, acusando-os de nunca terem visto “Aurora”, de Friedrich Murnau, clássico cinematográfico do ano de 1927. Muitos dos críticos, claro, ao se depararem com a trajetória oceânica de suas ignorâncias, simplesmente calaram: como enfrentariam Cacá? Para mim, este pequeno episódio é um marco exemplar de como funciona em muitos casos a ânsia debatedora do brasileiro mediano: baseado no “já ouviu falar” ou “eu li no Globo” ou ainda “o Jabor me disse”. De certa forma este comportamento é compreensível porque ainda temos muito a cumprir em educação e cultura (lembrando que a escolarização é um paralelo). Eu perdoo o jovem menino magriço, desnutrido, que padece nos bolsões de miséria que ainda perduram no país, mesmo com a verdadeira revolução neste sentido que se tentou de 2002 para cá. Toda forma, ainda falta muito. Eu perdoo os desassistidos que não tiveram a chance de ler bons livros, aprender a ciência social, que não acessaram as artes porque simplesmente viveram num caos econômico que os alijava destas oportunidades. O que acho imperdoável vem daqueles que tiveram acesso aos meios educacionais, escolares e sócio-culturais e, mesmo depois de ganharam dinheiro e até algum status em suas vidas profissionais, continuam tão ignorantes quanto nos tempos idos. É dessa classe que surgem incensados novos “grandes gênios” da vida cotidiana brasileira – a maioria sem genialidade alguma que não tenha sido obtida sem penhor. Falo dos Mainardis, Jabores e Olavosdecarvalhos, apenas para citar alguns exemplos de fracasso intelectual que é vendido feito “oro”. Sujeitos como estes ganham visibilidade não pela profundidade de suas produções – a de Mainardi, propriamente, é nula – mas porque a classe ignara intelectualmente e bem-disposta financeiramente os elege como “heróis”, para assim poderem abrir mão da discussão, da troca de experiências intelectuais, da visão em trezentos e sessenta graus da sociedade, do entendimento do outro. Fica mais cômodo e fácil repetir abobrinhas como “o Mainardi disse”, “o Jabor falou”. Beira o ridículo, tão ridículo quando, em certa oportunidade, um sujeito que estudou comigo, advindo de classe economicamente carente, mas hoje vivendo com um excelente salário estatal (e poucas horas de empenho profissional), vir me dizer que só o capitalismo constrói e o resto que se dane; ora, todo o direito de crer nisso, mas fazer discurso com o dinheiro do contribuinte no bolso? Faça-me o favor, é não olhar para o próprio espelho e passado, é não se enxergar como monstro. Mesmo um leitor de Fitzgerald ou Hemingway pode ser um idiota se não olhar para o lado, o outro, o próximo. Acabo me perguntando se tenho chance ainda de conviver suma sociedade dominada por verdadeiros picaretas da intelectualidade, que tentam prevalecer com suas falácias mofadas porque a maioria da população ainda está escravizada pelos pagodinhos, pelos jornais sem texto de cinqüenta centavos, pela mentiras editadas do casal global, pelo fascismo esportivo de Prado, pelos escombros mentais de Kamel. É isso: não tenho como tolerar qualquer sujeito que, ao se formar quase gratuitamente (não me venham com conversinha de grandes impostos pra a universidade pública) e ganhar muito dinheiro a posteriori às custas do Estado que o formou, ser porta-voz de raciocínios que já eram considerados excludentes há cinqüenta anos. Não se trata de desrespeito intelectual, mas sim revolta contra um aviltante mau-caratismo. O país está cheio de geniozinhos auto-declarados, confiantes nos argumentos fascistas das pseudo-revistas, assim como de críticos de Orfeu que nunca viram a Aurora de Murnau. Li que alguns mais sóbrios começaram a perceber que os Estados Unidos, com sua “sede” de democracia e liberdade no mundo (vide milhões de mortos no Iraq), sempre apoiaram a ditadura de Mubarak por trinta anos, sem nunca terem movido uma palha sequer contra o eterno país aliado. Por outro lado, os bobos-alegres hão de vibrar com o “apoio norte-americano à libertação do povo egípcio”. Ha, ha, ha! Felizmente ainda sou um democrata: li num sítio qualquer que Olavo de Carvalho considera “Aurora” um dos grandes filmes de todos os tempos. Isso talvez queira dizer que nem tudo está perdido ainda. Mas somente ainda.
Paulo-Roberto Andel, 18/02/2011
Wednesday, February 16, 2011
AMOR SOB ESCOMBROS

A belíssima (e triste idem) foto de André Durão, do Globo Esporte, me soa como uma poesia seca, rascante, tirada a fórceps de um ventre doente.
Durante trinta e dois anos eu frequentei esse lugar como se fosse a minha própria casa. Sonhei com ele. Coisas que vi acima destas pedras estão intactas em minha memória.
Quantas vezes não cheguei bem mais cedo do que o necessário, apenas para espiar o gigante de concreto que é (ou foi) uma verdadeira bandeira da pátria brasileira? Muitas e muitas. Mil partidas.
Foi no Maracanã que andei de mão dada com meu pai pela última vez.
Bola dente-de-leite e os amigos do Cìcero Penna para bater uma pelada na geral. As traves eram feitas com caixinhas de leite CCPL.
Geraldo fez um golaço em Mazzaropi, a massa botafoguense ajoelhou e chorou. Eu estava com eles.
O gol de bicicleta de Romário. O pênalti que Paulo Goulart defendeu de Zico, muito antes de 1986. O maior três a dois de todos os tempos. Os risos do Xuru. O maravilhoso pó-de-arroz jogado pelo Careca. Cachorro-quente Geneal e refrigerante na máquina que os vendedores traziam nas costas. O bandeirão Tricolor que minha mãe costurou para mim. a massa flamenga em êxtase, muitas vezes antes de uma grande derrota. A força vascaína. A minha pátria amada das Laranjeiras. Alvaro Doria em claros delitos. Mil histórias.
Será que, em nome da modernidade e do futuro, era preciso fazer isso com o Coliseu do futebol?
A copa do mundo dura um mês. O Maracanã tinha sessenta anos.
Fluminense, Botafogo e Gávea têm mais de cem.
Foi uma morte lenta. Várias obras que nunca levaram em conta o verdadeiro espírito do lugar. Aos poucos, tiraram os pobres de dentro do estádio, ao menos como pagantes ou puladores de grades. Agora reclamam que as pessoas não têm ido ao Engenhão; como esperar um banimento de hábito e uma mudança a seguir tão rápidos? Agora, mais agora, uma demolição disfarçada. Não entendem que o Maracanã era o templo sagrado, intocável. Há palácios mais modernos do que o Taj Mahal, mas quem seria louco de pô-lo abaixo por isso?
Cristóvão deu um grande drible e Manguito desabou. Mendonça nos trucidou. Assis e Romerito foram a redenção. Roberto e suas precisas finalizações. Leandro e seu toque de bola inconfundível. Edinho, o craque da defesa. Luizinho, rei dos gols. Paulo Victor, discípulo de Castilho. Não é preciso falar de Didi, Garrincha, Pelé - todos sabem o que isso quer dizer.
Neste lugar, vivi grandes dias dos melhores anos de minha vida.
Colocaram minha infância e adolescência em destroços.
Ingenuamente, espero que não tenha sido em vão.
Paulo-Roberto Andel, 16/02/2011
A copa do mundo dura um mês. O Maracanã tinha sessenta anos.
Fluminense, Botafogo e Gávea têm mais de cem.
Foi uma morte lenta. Várias obras que nunca levaram em conta o verdadeiro espírito do lugar. Aos poucos, tiraram os pobres de dentro do estádio, ao menos como pagantes ou puladores de grades. Agora reclamam que as pessoas não têm ido ao Engenhão; como esperar um banimento de hábito e uma mudança a seguir tão rápidos? Agora, mais agora, uma demolição disfarçada. Não entendem que o Maracanã era o templo sagrado, intocável. Há palácios mais modernos do que o Taj Mahal, mas quem seria louco de pô-lo abaixo por isso?
Cristóvão deu um grande drible e Manguito desabou. Mendonça nos trucidou. Assis e Romerito foram a redenção. Roberto e suas precisas finalizações. Leandro e seu toque de bola inconfundível. Edinho, o craque da defesa. Luizinho, rei dos gols. Paulo Victor, discípulo de Castilho. Não é preciso falar de Didi, Garrincha, Pelé - todos sabem o que isso quer dizer.
Neste lugar, vivi grandes dias dos melhores anos de minha vida.
Colocaram minha infância e adolescência em destroços.
Ingenuamente, espero que não tenha sido em vão.
Paulo-Roberto Andel, 16/02/2011
Monday, February 14, 2011
UM FENÔMENO

Acompanho futebol regularmente desde 1978, o que totaliza praticamente trinta e três anos, dependendo do mês de referência. Nos últimos dezessete ou dezoito, invariavelmente alguma conversa sobre o esporte fazia surgir o nome do então Ronaldinho, depois Fenômeno e, mais à frente, Ronaldo; para finalizar, o acréscimo do sobrenome: Nazário.
Diga-se o que disser, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos.
O maior artilheiro da história das Copas.
O jogador que, com seu talento, fez rever a imposição de um estilo europeizado ao nosso futebol. Em alguns momentos, fez com que lembrássemos de outros craques do passado e de como era bom quando nosso futebol era diferente dos outros: talento, técnica, apuro.
Um sujeito que desafiou definições e paradigmas, conseguindo dar a volta por cima depois de situações que beiravam o impossível. Quem podia imaginar que, depois da rótula solta atuando pela Internazionale de Milano, ele ainda faria a diferença, seria artilheiro de um campeonato mundial e pentacampeão?
No limiar da carreira, a vontade de jogar pelo Flamengo não se materializou. Culpa da dirigência da Gávea, que fique bem claro. O Corinthians era uma despedida à altura e ainda houve lampejos de genialidade absoluta, alguns contra o meu amado Fluminense, outros como naquele golaço contra o Santos pelo campeonato paulista, encobrindo Fábio Costa.
Todos temos vivido ao vivo a trajetória de Ronaldo, com seus inúmeros acertos e alguns erros, muitos prós e alguns contra. Uma vida humana, de um garoto que saiu da miséria para dominar o mundo com sua profissão. É certo que queríamos dele uma perfeição impossível em nosso imaginário popular. Há como imaginar um garoto de 25 ou 28 anos multimilionário e com todos os títulos possíveis no esporte que pratica? Ninguém fica impune a isso, o que ajuda de certa forma a busca pelos prazeres da noite, alguns incompatíveis com a vida atlética. Mas aqui não sou um juiz.
Muitas vezes Ronaldo fez rir e chorar. Sofremos com aquela derrota de 1998, mas vibramos muito com 2002. Os europeus o chamaram de fenômeno, com razão. E as poucas – mas fantásticas – vezes que Ronaldo tabelou com Romário? Outras mais, com Rivaldo (mesmo que talvez contra a vontade) e o Ronaldinho, que lhe tirou o diminutivo? Os deuses da arte e do futebol agradecem.
Aos trinta e quatro anos, é bastante provável que, dentro de uma hora, Ronaldo dê adeus ao esporte mais amado e consumido em todo o planeta. Não sejamos tolos de olhar um único ponto numa reta enorme: a história desse garoto dá filme e livro. E digo garoto porque eu gostaria de ter trinta e quatro anos e olhar tudo o que ainda teria pela frente. Maravilhoso, provocante e apaixonante, o futebol também é ardiloso: ainda em idade curta, os profissionais precisam parar de jogar; é a lei do processo físico. Ele deixará os gramados onde fez uma história inesquecível para sempre, mas ainda é um garoto com tudo o que terá para fazer daqui por diante. Eu fico agradecido com todos os ótimos momentos que ele proporcionou a mim e a milhões de brasileiros que, muitas vezes, tiveram num golaço dele as suas únicas alegrias de um dia ou semana.
Obrigado por tudo, Fenômeno.
Paulo-Roberto Andel, 14/02/2011
PS: Este artigo de hoje serve de homenagem não somente ao Ronaldo, mas também ao Wal - que há se recuperar no hospital – e ao time do América, que há se recuperar de tudo.
Thursday, November 11, 2010
A IMPRENSA ÉTICA (?)
Menos de dez dias depois de uma derrota eleitoral que muito irritou seus patronos e financiadores, parte significativa da imprensa brasileira convencional voltou a fazer o que mais sabe: criar factóides.
Por representarem um segmento social alheio ao aceite democrático do resultado das urnas, a imprensa agora tenta impor “graves mazelas” à vida brasileira, como a patética condenação do ENEM (que, no fundo, sempre desagradou ao PSDB pela evidente insatisfação de representar uma perspectiva de não-colonização das classes sociais menos abonadas, agora com acesso ao ensino superior) e o fenomenal “escândalo” envolvendo Silvio Santos. Em ambos os casos, os dados disponíveis revelam clara contradição entre o que realmente aconteceu e o que se lê nas manchetes. Tentaram o “escândalo” do IDH e não deu certo. Curiosamente, tudo isso acontece não somente no momento em que o PT confirma a vitória nas eleições presidenciais, mas também quando a mais poderosa rede de comunicação do país – com forte ascendência sobre as demais - recebe violento golpe do CADE num de seus tesouros mais bem-amealhados: a transmissão dos jogos de futebol, que gera verbas bilionárias de publicidade nos caríssimos anúncios comerciais. Não é nenhum delírio afirmar que a fábrica de factóides, tão bem-engendrada pelo ex-futuro líder político da oposição no Senado brasileiro, César Maia, à época de seu período como prefeito da cidade do Rio de Janeiro, cause espécie entre seus pares jornalístico-televisivos que, incomodados com a perda de lucro bilionário que possam vir a ter, partiram para uma situação de enfrentamento constante em prol da “verdade e da justiça”.
Não é a primeira vez, nem a segunda e nem a décima em que, incomodada por qualquer tipo de ameaça ao seu reinado, a rede líder e seus peixes-piloto avancem com fúria de tubarão contra governos. Leonel Brizola sofreu isso na pele, Lula também. Se pensarmos bem, uma reflexão profunda sobre um tempo sombrio da vida brasileira é necessária; o que fez as forças que fabricaram e elegeram Fernando Collor de Mello com presidente voltarem-se contra ele menos de três anos depois? Um automóvel? Não somos tolos em corroborar essa tese – a própria mídia tenta forçadamente aproximar Collor de Lula, como se ela nada tivesse a ver com o “Caçador de Marajás”. Algo fede a peixe, ainda não desnudo em sua decomposição. Para culminar, o completo temor exibido em telejornais contra marcos regulatórios da profissão jornalística, tidos com “censura ditatorial” em contrapartida ao verdadeiro golpe de Estado que tentaram impor neste ano de 2009. Difícil dizer até onde vai a ignorância ou a ma-fé nesta questão: nos países mais desenvolvidos do planeta, poucos jornalistas poderiam fazer em público o que fizeram com Lula nos últimos oito anos. Ninguém foi censurado. Querem fazer crer que liberdade e libertinagem são a mesma coisa. Qualquer profissional superior tem sindicatos a lhe representar, conselhos aos quais presta contas financeiras e pode ser até impedido de exercer a profissão em caso de ferimento à ética ou aos princípios básicos do diploma que obteve. Jornalistas estão acima da lei? Não. Devem ter toda a liberdade de se manifestarem livremente, desde que não afrontem princípios constitucionais – o que têm feito de forma incessante.
Que imprensa é essa?
A que pretende a ampla discussão do país ou a golpista, entreguista, representante dos que traíram o Brasil em 1928, 1932, 1954 e 1964?
Aos brasileiros de bem, a reflexão.
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