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Wednesday, November 22, 2023

Às vezes II

Obrigado. 

Bom dia. 

Como vai?

Você está bem? 

Precisa de alguma coisa? 

Às vezes é só uma palavra. Uma conversa. Mas boa parte das pessoas só pensa em dinheiro e, por isso, mesmo vendo que você está mal, evita fazer perguntas ou puxar algum assunto por puro medo de receber algum pedido.

Nós ouvimos o dia inteiro o nome de Deus, porque ele é a justificativa para todos os males segundo os escroques. Tem idiota que diz que a desigualdade no mundo é porque "Deus quer". 

Repare que nos seus piores momentos, ninguém ou quase ninguém te estenderá a mão. Alguns serão suficientemente escrotos para dizer que realmente não vão te ajudar, inclusive com desculpas estapafúrdias. A maioria, covarde, simplesmente ficará em silêncio. Os mais crápulas vão dizer que seus problemas são falta de Deus, tentando te rebocar para alguma religião como se fosse um crédito bancário - e às vezes é. 

Boa parte de toda a merda que vemos no mundo inteiro é consequência direta do egoísmo, da indiferença e da incapacidade de muitos em enxergar a opressão. Às vezes pode ser cinismo mesmo: enxergam e deixa rolar.

O mundo tem coisas maravilhosas, só que 99,9999999% das pessoas não podem aproveitá-las, porque são submetidas à escravidão travestida de liberdade. Quase ninguém tem dinheiro, quem tem algum não tem tempo. 

Ainda bem que existe o entretenimento. O futebol, a TV, o Carnaval, os livros e discos. Se não fosse isso, a vida seria ainda muito pior, embora outro grande contingente também não tenha direito a nada. 


Às vezes

Nem sempre é simples ter paciência com grosseria, estupidez, indiferença, dor, dívidas, atrasos, falta de iniciativa e congêneres.

Uma hora dá no saco. 

E dá vontade de mandar um foda-se bem grande intenso para quem merecer: tem fila. 

Uma hora o saco fica cheio demais e depois os outros acham que você é o grosso ou o impaciente. Falta de noção extrema. 

Às vezes dá vontade de jogar tudo fora, porque no fim tudo é inútil e a maioria trata os outros como um produto descartável, nada além disso. 

Um dia você se toca de que dá muito mais do que recebe e se toca de que quase ninguém merece isso, seja em que relação for.

E que vários dos seus amigos só são amigos quando precisam de alguma coisa. Ou seja, não são amigos porra nenhuma.

Se os teus amigos são assim, imagine os idiotas que viraram teus "amigos" nas redes sociais e só aparecem para escrever merda nas tuas postagens? 

Quase tudo é inútil: lutar para sobreviver, numa vida de merda, à base de migalhas, até perder todas as pessoas queridas, envelhecer e morrer. Aí pode ser que alguém te chame de boa pessoa no Facebook. Um ou outro lamentará e dois ou três dias depois ninguém mais liga, porque somos uma sociedade mundial de merda, escrota, egoísta, ignorante e chinfrim ao extremo. 

Os jovens morrem antes da hora, os pobres são humilhados, os ricos mandam um dedão, a maioria só trabalha e dorme, muita gente mal consegue comer em lindos países de geografia deslumbrante. 

Uma hora essa merda toda explode. 

Monday, November 20, 2023

O fim do Kiss


Tudo passa. Só o Fluminense jamais passará. Mas taí: o Kiss vai acabar. Não como indústria, claro, mas como a banda que dá as cartas nos palcos há meio século.

Foi minha estreia em grandes shows de rock. E que estreia: o Maracanã abarrotado de gente, velhinhas do lado de fora tentando impedir a nossa entrada - uma delas, tadinha, pegou no meu braço e não me largava, até que virei um cabo de guerra humano e meus amigos levaram a melhor. Do lado de fora espalhavam em cartazes que o Kiss na verdade era "Knights In Satan's Service", Cavaleiros a Serviço de Satã. Anos depois eu diria que no máximo chamariam a atenção de Madame Satã pelo glamour...

Máquina de fazer dinheiro, império do entretenimento, digam o que disserem: o sucesso cinquentenário do Kiss vem de seu talento, pouco importando os erros que a banda cometeu ao longo do tempo, como qualquer outra. Paul Stanley é um dos maiores cantores do rock em todos os tempos, embora não soe aos 72 anos do mesmo jeito que aos 21 ou 35, tal como qualquer ser humano - é sempre uma ladainha, "Ah, o Ian Gillan não canta como há 50 anos", dai-me paciência. Gene Simmons é um tremendo baixista e a banda sempre foi ousada. Acertou muito, também errou, mas sempre arriscou e, por isso, cumpriu sua missão artística.

Antes do Kiss, eu ouvia Genesis e Police. Um pouco do Van Halen. O show do Maracanã foi uma espécie de sinal de alerta para o que viria a seguir: Rock In Rio, Hollywood Rock, outros grandes shows no maior estádio do mundo. Em 1984 meu pai me deu de presente uma fita cassete do Jethro Tull, "Aqualung", e outra do Pink Floyd, "The Wall". Misturando isso tudo à bossa nova, que eu já adorava, à MPB que eu ouvia em rádio e o pop anglo-americano, formou-se o meu amálgama musical que continua crescendo até hoje. Ouço de tudo: de música popular paquistanesa às novas tendências rock de Vladivostok. 

Ainda o Kiss: em certa ocasião, quando eu tinha um sebo na Gomes Carneiro, apareceu o BNegão por lá. Coisa de 2003. Gente fina à beça, passou horas escolhendo LPs. Na hora de embrulhar, vi que tinha vários do Kiss e ri, por gostar também. BNegão, sem saber, disse: “Pô, eu vi que você riu dos discos do Kiss, mas eu me amarro na banda e tal”. Aí falei pra ele sobre o show do Maracanã e conversamos por mais de uma hora. 

Não fui ao primeiro Rock in Rio por falta de grana e pela distância, mas num período de cinco anos eu já tinha visto James Taylor (na Apoteose), The Cure (no Maracanãzinho), Eric Clapton, Paul McCartney, David Bowie e os nacionais Paralamas, Titãs (trocentas vezes), Barão Vermelho, a Legião Urbana, Ira! e grande elenco, sem contar as grandes apresentações gratuitas no Parque Garota do Arpoador: Raphael Rabello, Armandinho, Adriana Calcanhotto, Tim Maia, Francis Hime. Eu já gostava bastante de ouvir música, mas foi o Kiss que me jogou no voo livre dos grandes shows, no que sou muito grato. 

Paul Stanley foi um dos maiores cantores dos últimos 50 anos. Merece respeito para sempre. O Kiss pode acabar, mas eu não vou parar de escutar pelo resto da minha vida. 

@p.r.andel

Saturday, November 18, 2023

Orla

Antigamente eu gostava de ir à praia, bem cedinho feito agora. Dava para ouvir todos os sons do mar, se refrescar e experimentar a doce solidão diante da natureza. Ainda gosto da praia, meu problema é com o calor enlouquecedor, com queimar a pele e me sentir bem mal. Não consigo mais, mas adorava. 

O mar é apaixonante, a praia também, mas prefiro sem sol. Pra mim, claro: eu sei que quase todos querem se queimar e compreendo. Só não serve pra mim. Mas tenho saudade daquele silêncio matinal de Copacabana, com quase ninguém na areia, a água geladíssima que parecia energizada. Já gostava disso com 13 anos de idade, sempre fui meio off de algum jeito. 

Depois, a corrida. Demorei a gostar e praticar, mas quando gostei... Eu praticava vários esportes com bola e achava suficiente, mas as cobranças da adolescência vieram e eu precisava ser menos gordinho para atender às exigências de não sei quem. Rapidamente perdi 15 kg e comecei a treinar feito um louco. O futebol é uma parte muito importante da minha vida, maravilhosa, mas posso dizer que alguns dos meus melhores momentos no esporte foram correndo. E quando você treina vendo o Oceano Atlântico, tudo melhora. Naquele tempo eu tinha recomeçado a faculdade: corria, tomava banho, pegava o ônibus e chegava na aula a 300 km/h. O pessoal ficava atônito comigo. 

Foi uma pena que minha vida de atleta tenha se encerrado tão cedo por problemas de saúde. É uma das poucas coisas que realmente lamento, mas sinceramente eu não mexeria no roteiro original. Foi o que tinha que ser. All things must pass. A tristeza foi sendo trocada aos poucos pela observação e eu, que já gostava muito de música, mergulhei em outros interesses artísticos até que anos depois assumi a persona de escritor, poeta, cronista ou talvez isso tudo junto. A corrida e os livros cairiam muito bem juntos, mas de longe eu continuo a espiar os trajetos solitários de homens e mulheres com seus tênis e disposição. 

Nem são sete horas da manhã de sábado. Há quarenta anos, eu já teria passado pela padaria, traçado um pão de queijo e estaria a caminho do mar de Copacabana, preferencialmente na Figueiredo Magalhães ou no Posto Seis. Agora, não: é só um calor enorme, banho frio, Renitec, ventilador e a (ainda) estranha  sensação de ter acabado meus dois livros, prontos e a caminho da gráfica. Pensando bem, outras coisas também mudaram pra pior mas deixa pra lá: não se pode ganhar todas. 

Relembrando o futebol: partidaços na areia, campo do Juventus ou Bairro Peixoto. Disputas de dupla de praia à noite, golzinho, de fora. Cobranças de falta, de escanteio. A bola se espatifando no travessão. O voo solitário do goleiro. 

Que muitos tenham um bom sábado. A maioria não terá porque sofre naturalmente. Isso é a vida. Vida. 


Wednesday, November 15, 2023

Os garotinhos da Uruguaiana

Há muitos anos, quando eu nem sonhava em escrever publicamente, meu passatempo era andar pelas ruas do Centro do Rio sempre que tinha alguma folga do trabalho.

Na esquina de Carioca com Uruguaiana ficava uma loja tradicional do Ponto Frio Bonzão. Durante um certo tempo eu espiava as vitrines porque precisava de uma televisão e de um aparelho para tocar CDs. Finalmente consegui a grana e comprei uma TV bem bonita para minha mãe, ela ficou bem feliz e eu queria ver todos os jogos de futebol possíveis. 

Depois reparei a loja noutras vezes, muitas, e percebi quantos garotinhos ficavam ali olhando as telas das TVs ligadas. Eles tinham caixas de balas, caixas de engraxate e, às vezes, nada além da esperança. Ficavam hipnotizados com os desenhos animados que lhes serviam de única alegria do dia, talvez. Muitas e muitas vezes. O pessoal da loja era gentil e deixava as TVs nos desenhos, só para que os garotinhos pudessem se distrair. Bom, falo de 29, 28 ou 25 anos atrás. 

Terça passada, eu voltava com o Diniz da Leiteria Mineira. Passamos pelo Largo da Carioca, vazio e calorento. Num instante, olhei para a esquina e lá estava o que sobrou daquele tempo: a loja fechada, as vitrines debaixo das portas de ferro, sequer uma esperança de anúncio de aluguel. Acabou. Morreu. 

Daqueles garotinhos que tinham o mundo menos amargo por causa dos desenhos animados, quem chegou até aqui? Quem conseguiu superar a miséria? Quem realmente sobreviveu e está bem? São rostos que lembro sem detalhes, olhares afetuosos que o tempo levou, garotinhos magros e muitas vezes descalços ou com chinelos gastos. Sempre me senti triste por eles. Quando fiquei sem uma televisão, já podia trabalhar e comprar uma depois de alguns meses. Meus pais fizeram tudo que podiam por mim, então sobrevivi bem por conta deles, do esforço deles. Tive boa cama, comida, brinquedos, botões e o que faltou não fez falta. E queria que eles tivessem tudo também. Quantas vezes eu matei aula só para ver desenhos animados com minha mãe em casa? Muitas. 

De lá para cá, vivi muitas injustiças, traições e golpes, falsidades e injustiças. Perdi minha família e minha órbita, mas me recobrei a tempo e fiz o que fazia quando eu mesmo era um garotinho: juntar pessoas, ajudar o próximo e, sempre que possível, fazer o bem - não basta ser apenas bonzinho. Desde então, tenho vivido modestamente, mas com algumas realizações pessoais que simplesmente o dinheiro não compra. Já sofro os efeitos do etarismo e, se muitas pessoas estivessem no meu lugar durante essa travessia, provavelmente não teriam aguentado. Gente que se acha muito poderosa não aguentaria 5%.

Na esquina famosa, havia apenas um silêncio frio contrastando com a manhã calorenta. Um silêncio vazio, uma ausência e a certeza de que hoje é um novo tempo, bem mais cruel do que já foi antes. Difícil imaginar que, um dia, aquela loja fecharia para sempre. 

Estou aqui. Luto. Sofro. Choro. Às vezes rio. Construo algumas coisas belas mesmo com um revólver apontado contra mim 24 horas - e desde já ofereço meu profundo desprezo aos que me ofereceram cara de paisagem em meus piores dias. Mas estão rolando os dados e amanhã tudo pode mudar. Há muito a ser feito, resta saber se dará tempo. Enquanto isso, em minha bela TV, nesse exato momento bandidos estão se matando na novela por dinheiro. Quase uma metáfora da vida cotidiana. 

As poucas lojas de eletrodomésticos que sobreviveram na Uruguaiana não têm TVs ligadas em desenhos animados. 

As crianças continuam sofrendo no Centro. Pagam a pena pelo crime de existirem, com todo o absurdo que isso significa. 

Para quem é possível, boa noite.

Sunday, November 12, 2023

Sobre nossas cantoras

Nossas cantoras brasileiras tiram onda. 

É fato: o Brasil tem uma riqueza musical arrebatadora e reconhecida no mundo inteiro. Vale para cantores, instrumentistas e compositores. Agora, quando as cantoras brasileiras estão em campo, meu amigo, não tem para ninguém. 

Caso da semana que passou. Por sorte descobri que a espetacular Virgínia Rodrigues faria uma apresentação na Biblioteca Parque, bem no coração do centro do Rio, gratuitamente. De imediato avisei meu amigo Edgard e partimos para lá, ele com sua esposa e uma amiga. 

Muito menos conhecida do que deveria ser no Brasil, Virginia é uma espécie de deusa afro, uma verdadeira entidade que, quando adentra o palco, toma atenção de todas as pessoas, sem piedade. Sua negritude, sua postura de realeza afro e o principal, sua voz incomparável, arrebatam qualquer pessoa. Não é à toa que ela já fez várias turnês internacionais e é reconhecida em todo o planeta. 

Dentro das possibilidades, o teatro da Biblioteca Parque ficou lotado. Que show espetacular meus amigos! A percussão, o violoncelo, a voz de Virgínia numa fase esplendorosa, uma coisa maravilhosa e de graça para as pessoas, em horário acessível. Virgínia está lançando um trabalho novo nas plataformas digitais. Eu, que sou adepto do bom e velho CD, tenho todos os discos dessa maravilhosa cantora. 

No domingo à tarde, descansando depois da festa do Fluzão campeão, dando uma espiada no festival Rock da Montanha pela TV, me deparo com minha eterna crush e atual ministra Margareth Menezes. Outra deusa afro, né? Aquela mistura de Brasil e África para deixar Peter Gabriel louco, os sopros, a voz e a personalidade única de Margareth compõem um show para levantar as pessoas, tanto que a plateia não parou nem um pouquinho durante sua apresentação. 

Margareth é assim desde sempre. Eu me lembro de tê-la visto no Hollywood Rock 1993, abrindo uma noite que tinha os excelentes Eurythmics e ninguém menos do que Mr. Bob Dylan.  Desde então, é outra das nossas cantoras com muitas turnês internacionais. 

Então fui dar uma espiada no jogo do Botafogo para dar uma força, não adiantou muito mas eles conseguiram o empate, e então volto para o Multishow, onde encontro ninguém menos do que Maria Bethânia cantando para outra multidão no mesmo festival. 

É difícil falar de uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos sem ser redundante, mas é que o fato é, perto dos 80 anos, Bethânia é arrebatadora. Seu show continua visceral, teatral, e a sua presença magnética de palco realmente deixa todo mundo enfeitiçado. É um orgulho tê-la como uma das nossas grandes representantes da arte brasileira por tanto tempo, e por fazer um trabalho tão rico. 

Nossas cantoras brasileiras muitas vezes foram formadas pelo canto popular, pelo cancioneiro do povo, e seguiram a trilha de outras grandes cantoras que já não estão mais aqui, mas que fizeram longo da história da trajetória brasileira, seja em priscas eras do rádio e mesmo na televisão. Nossas cantoras vêm de uma longa e maravilhosa história. 

Monday, October 30, 2023

Histórias reais

UM


Não sei que diabos me deu. De vez em quando eu tenho sonhos muito doidos, mas dessa vez exagerei. Sonhei com uma ex-colega de trabalho que foi extremamente cretina comigo. Do nada estávamos numa sala, quando ela vem, me abraça e começa a me beijar demorada e loucamente. Algo impossível. De onde tiramos essas loucuras que se tornam sonhos, cheios de detalhes? 


DOIS


Estamos eu e Josemar ouvindo música no sebo, não entra cliente algum, ficamos bastante irritados, mas aí surgiu um assunto de quase todos os dias. Ou  melhor: de todos os dias. Fluminense. Fluminense. A gente não consegue parar de pensar no Fluminense, a gente faz as contas da loja pensando no Fluminense, a gente ouve algum artista tocando e lembra do Fluminense. Tudo é Libertadores. Então coloco no CD player uma coletânea de Joe Cocker. 


De cara vem "With a little help from my friends", demolidora. É um estouro desde que Cocker incendiou o Festival de Woodstock e mudou a vida de milhões de seres humanos. Tive sorte: pude ver Joe Cocker ao vivo no Maracanã em 1991 no Rock in Rio. Depois teve um super show de Prince, que subiu ao palco com horas de atraso e um gigantesco coro de "vi-a-do". 


Voltando a Cocker, sua versão para "With a little help" é de atravessar a alma. Uma experiência sonora da qual ninguém sai imune. Ali tem algo muito profundo que reúne rock, soul, blues, jazz, gospel e a atitude de um artista único. 


TRÊS


Andando na rua, carregando minhas pequenas e humildes comprinhas, de repente aparecem duas jovens amigas travestis, conversando alegremente pela calçada. Quando chegam perto, uma delas diz "Esse gordinho é bom". A outra ri, eu finjo que está tudo bem e sigo em frente.  E aí fico pensando que que eu fiz para merecer isso aos 55 anos de idade, com minha bermuda velha e meu pai de chinelões em frente à nova Petrobras, onde trabalha um dos próceres da cidade, Wagner Victer, provavelmente perto de vários ex-colegas dos tempos de faculdade que nunca mais verei - e é melhor assim mesmo.


QUATRO


Depois de sair do sebo, tenho a ilusão de um sonho bom, procurando por um mundo novo que já não existe.  Agora é caminhar por menos de um quilômetro, fitando lojas fechadas, procurando por imagens desaparecidas e pessoas idas.


Na segunda-feira a rua do Lavradio quase não existe. Tudo fechado. Desolação. Até o pessoal que passa apressado com seu almoço de biscoitos não está pela área. 


No meio do caminho tem uma bandeira do Fluminense, pendurada numa janela de alumínio na Henrique Valadares. O bar ao lado está cheio de flamenguistas preparando um churrasco e, claro, secando o Fluminense desde já. Mas não vai adiantar. 


Senhor, tende piedade de nós, tricolores, no próximo sábado. 


CINCO


Perto da esquina da Ubaldino do Amaral, uma garota muito bonita passa com seu cachorrinho salsicha, fazendo uma bela composição de cenário. 


A garota é bonita, muito bonita e me lembra de outra muito bela, que conheci há vários anos e que perdi contato. 


A vida é assim: amizades, admirações e amores que vão escorrendo pelo ralo. 


Monday, October 16, 2023

Nos arredores do Castelo

CAMINHANDO pelo meu pequeno e desimportante mundo, lembrando de tanta coisa que passou e plenamente destemido, apesar de ter uma pistola apontada para a minha cabeça 24 horas. 

Eu ando com meu par de chinelos confortáveis que comprei no Mercado Livre, e olho para os grandes prédios com a mesma admiração de criança. Olho para o prédio do Consulado da Itália e lembro de um pesadelo que tive justamente dali, me suicidando mas caindo em câmera lenta e acordando molhado de suor. Isso tem muitos anos mas nunca me esqueci, porque foi um pesadelo com final feliz. Feliz? É, eu me salvei. Não sei se foi realmente feliz, mas escapar da morte é uns vitória, acho. 

A grande avenida com poucos carros, quase nenhum, mas todos apressados porque ninguém quer perder um segundo que seja.

Na calçada, sempre tem gente morrendo a prazo e isso é devastador, mas ninguém liga e fica por isso mesmo. A regra é a desumanidade. O outro que se dane. Fico triste em lembrar de um colega que me parece tão desumano agora. Bom, a maioria é assim. 

Perto do grande prédio da Academia, a bela estátua do poeta Manuel Bandeira, muito parecida com o original. Perto dele, Joaquim Nabuco. 

Uma garotinha vendendo balas pra ninguém, provavelmente longe de todos os seus sonhos e tenho vontade de desistir, porque nasci no país do futuro que nunca chega e estou morrendo completamente distante de tudo que sonhei para mim, bem como para a coletividade. Crianças deveriam estar brincando, lanchando, descansando, estudando e vivendo a melhor época de suas vidas, logo está tudo errado. 

Eu não preciso olhar para o Whatsapp porque não tem mensagem alguma. Sou eu caminhando pelos restos mortais da glória da cidade, com uma pistola apontada para a minha cabeça e tentando respirar, enquanto olho à distância para a Santa Casa. Eu me sinto tão derrotado que poderia serrar ali mesmo e chorar até morrer. 

Eu ando pelo mundo e choro, e daí? Por que não posso ser diferente dos lacradores, dos senhores com peito de pombo? Por que não posso dizer e sentir o que realmente sinto, se ninguém vive essa vida miserável e deprimente no meu lugar? A minha vida não é o meu lugar de fala, ora? Eu estou tripudiando de quem vive uma vida de aparências e mentiras? Não. Posso me sentir infeliz em paz. 

Aí o Fluminense. Todos estão sonhando com um ingresso para a decisão. Eu estou tranquilo: quem tem uma arma apontada para a cabeça 24 horas tem outras prioridades. Eu queria estar lá mas já vi muito. Edinho, Assis, Romerito, Renato, Magno Alves, Antônio Carlos, Sheik... Já vi muita coisa e já escrevi demais. O Fluminense talvez seja o nosso único amigo, de nós tricolores. A gente pensa nele, sonha com ele, quer o melhor para ele. Sem o Fluminense, o que teria sido de mim? Quantos e quantos dias ele não me deu sentido à vida, alegria e bem estar? Eu lembro dos campeões da Taça Rio de 1990, mas ninguém liga porque agora só a Libertadores interessa. Futebol é bom demais, só o esnoba quem é muito, mas muito ignorante. O futebol já salvou minha vida e a de muita, muita gente. Já evitou muitos suicídios e adiou as famosas últimas palavras em leitos de despedida. Mesmo com todos os seus problemas, o futebol foi um dos únicos ambientes onde vivi momentos verdadeiramente felizes. Eu ainda me lembro dos garotinhos descalços na porta do Maracanã, sonhando em entrar no estádio, até que pessoas como meu pai vinham com quatro ou cinco ingressos e os garotos viravam foguetes em direção à lua, de tão felizes. Subiam a rampa cantando e rindo. Que momento!

Eu ando pelo mundo, tenho sessenta anos de vida e dez de sentimento. Eu ainda penso em brinquedos, lancheira e desenho animado. Meu espírito não se encaixa em meu corpo: um garoto que sonha com o futuro ocupando o corpo de um homem idoso. E ser criança é a única chance de afastar a pistola apontada para a minha cabeça. 

Na esquina, está minha lanchonete favorita da infância. Estava. Ela acabou. Faliu. Há uma grande faixa de "aluga-se" mas nada será alugado mesmo. A cidade é cheia de anúncios e cartazes, e cheia de gente dando adeus. Aluga-se o mundo, quem tem dinheiro? 

Caminhando sem canto, com medo, sem esperança, sem amigos, sem pai nem mãe mas ainda igualzinho a quando tinha sete ou oito anos de idade, olhando os prédios e as pessoas com curiosidade e empatia, sem receber nada além da indiferença em troca - não nos esqueçamos, esta é a sociedade do descaso, do desprezo, do descompasso entre discursos e ações. Esta é a sociedade da hipocrisia, onde a solidariedade, se muito, surge nas condolências e às vezes sequer isso. É a sociedade que absolve qualquer canalha na hora da morte, mas humilha e deprime pessoas honestas por toda uma vida. É a sociedade da falsidade e da bajulação acima de tudo. 

Depois do almoço, dois quilômetros depois, espias o deserto da Praça Tiradentes. Há um clima de desolação, exceto na nova loja de empréstimo pessoal - claro, o dono sabe que terá lucro máximo explorando gente pobre. As pessoas vão se humilhar. A vida é assim.

Aluga-se. Vende-se. Não há vagas. Tanto faz se é noite ou dia, exceto pela chuva e saber que, a cada manhã, a Supervia humilha e ridiculariza centenas de milhares de cariocas. Ninguém liga. 

Falei de ontem e hoje. A noite passou. Mais um dia, mais um cumprimento de pena para milhões de pessoas. Numa cidade esvaziada, a chuva ajuda a detonar de vez o movimento das ruas.

@p.r.andel

Sunday, October 15, 2023

Uma grande farsa

A Terra nunca será o que muitos esperam. Ela é dominada pelo ser humano, uma de suas espécies mais atrasadas. Dotado de vícios abomináveis como o egoísmo, a ganância, a falsidade, o desprezo e a indiferença para com o próximo, o ser humano tem a vocação para manter tudo como está e, consequentemente, manter toda a porcaria aí como está. 

No fim, tudo é uma grande farsa. Somos cercados de paliativos, de esmolinhas, de falsa caridade para deixar tudo exatamente como é. Tudo feito para que o poder e o conforto fiquem na mão de capitanias hereditárias, com a maioria das pessoas sendo humilhada e oprimida em todos os aspectos: social, econômico, educacional, emocional, financeiro. 

Tudo é uma grande farsa. E não vai mudar.

Depois de tantos séculos de opressão e barbárie, o ser humano naturalizou todas as crueldades possíveis. Não liga para guerras que matam inocentes, não liga para pessoas que procuram comida no lixo e moram em calçadas, terceiriza todos os males que cria para Deus, silencia quando sua hipocrisia é denunciada, não dá a mínima para o grande sofrimento coletivo. Quando muito, reconhece parte da família como sua semelhante. 

A maioria apenas sobrevive, não mais do que isso. Porém, como temos muita informação e consumo centrado na elite, nos iludimos com a farsa do progresso. Que progresso? A maioria não tem acesso aos mínimos recursos possíveis. Para piorar, sobram falsos progressistas que adoram lacrar em posts mas, na vida privada, agem como verdadeiros senhores de engenho. 

A janela é a porta principal.

Tuesday, October 10, 2023

Professô

Houve um tempo da minha vida em que dei aulas particulares. Uns dois anos mais ou menos. De Estatística. 

Nunca me considerei um professor. Não tinha formação para aquilo, mas dominava bem o assunto e de modo a torná-lo acessível. Acabei fazendo sucesso no boca a boca e tive a ideia de cobrar barato por cabeça, para grupos de quatro ou cinco estudantes. Eles pagavam barato, eu ganhava mais. E me divertia com aquilo. As garotas da Psicologia me adoravam. A UERJ era o mundo, ainda é para quem sabe aproveitar. 

Um belo dia, uma ex-professora minha, acostumada a estorricar os alunos dos outros institutos, se viu diante de um monte de notas boas. Descobriu que a turma estudou comigo.

"Pra que vocês estão pagando aula particular se no sexto andar tem monitoria de graça?"

"Eu pago porque a aula do Paulo é dez vezes melhor do que a da sua monitora, professora..."

(gasp)

Dias depois, a jovem mestra me encontrou toda sorridente na Matemática. 

"Oi, Paulo! Fiquei sabendo que o pessoal da Psicologia andou estudando com você."

"Claro, claro, tanto que você recomendou que eles não me pagassem aulas. Muito obrigado pela propaganda gratuita."

(Ela não sabia onde enfiar a cara)

Mais outros dias, tou com minha crush no elevador e a professora surge de algum andar. 

Do nada, vem a seguinte pérola: "Não da bola pro Paulo não, ele é muito feio pra você". 

"Tá com ciúmes?"

(Ela não sabia onde enfiar a cara)

(Quando me deu aulas no segundo período, cansou de dizer para a turma que eu era a cara do seu marido...).

Nunca mais a vi. Vai fazer trinta anos. 

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Cheguei a um inacreditável índice de 95% dos alunos particulares. Aquilo dobrava a minha renda, mas cansava. Toma ônibus de um lado pro outro. Toma trem. Finalmente consegui um emprego decente $ e resolvi parar. Me desmotivei com o mestrado sem bolsa também. 

Meu último aluno era um rapaz esforçado, mas estava no terceiro período e não conseguia fazer as operações triviais de calculadora. Dei três aulas, não cobrei nada, senti que ali eu não venceria. Recomendei a ele que estudasse mais, abdicasse da prova e refizesse a disciplina. Ele não ficou feliz, mas fui sincero. Seria fácil tirar dinheiro de um jovem trabalhador, mas aos 24 anos eu já sabia que isso era inadmissível. 

###########

A força da música é um negócio. Naquele tempo todo mundo ouvia Genesis ao vivo na rádio, superbanda que infelizmente acabou. 

"The sound of your Voice calling..."

Tocava daquele jeito do mesmo tempo que acontece exatamente agora aqui no trabalho. 

Lá se foram trinta anos. Trinta anos. Daquele tempo praticamente não há sobreviventes do convívio, no máximo um ou outro WhatsApp. 

Melhor assim. 

Nada de mexer em belas histórias.

Hamas x Israel

Pensei em escrever sobre a tragédia no Oriente Médio, mas desisti. 

Salvo as honrosas e valorosas exceções de sempre, o que sobra é um mar de malabarismos retóricos sem lógica, com análises de conjuntura internacional feitas por quem nunca leu um livro sequer a respeito, afora uma mistura sarapatélica de religião, ou que não tem a menor ideia do que acontece por lá há décadas. 

Nem é culpa do futebol, mas é deprimente o que vários brasileiros fazem, agindo como torcedores. Escolhem um lado como se fosse um time e fazem tudo que o torcedor faz, especialmente com a passionalidade. Curioso é que o mesmo tipo de eleitor brasileiro fica de um lado só no Oriente... Santa coincidência, Batman. 

Depois do monte de b0sta que escrevem e falam, postam figurinha de amor ao próximo, aos animais, feliz primavera. Difícil saber o que é ignorância, burrice e/ou hipocrisia...

Mas, pensando bem, para quem ainda apoia quem ajudou a matar mais de um milhão de brasileiros com deboche, descaso e negação da ciência, não constitui surpresa. 

É a lógica do picareta, que se diz patriota mas quer que boa parte de sua população morra, simplesmente porque é pobre. São os mesmos que pregam o assassinato das "sementinhas do mal" mas fazem vista grossa para crimes cometidos por parentes.  

A turma da "meritocracia", desde que você esteja dois metros à frente de todo mundo na largada da "competição".  

@p.r.andel

Monday, October 09, 2023

Postagens desagradáveis

São importantes. São fundamentais. A vida não se limita a sorrisos de Photoshop, posses, bens e vitórias ocasionais. A realidade da vida na Terra é extremamente cruel, injusta e violenta. Então é natural que muitas pessoas se incomodem com a arte que lhes desafia, seja a foto que estampa a barbárie, a crônica ou o conto que revelam o ódio e a dor, a música que toca a alma, a ilustração que atordoa. Tudo isso é um verdadeiro horror para os simplistas, especialmente os que tentam fugir do mundo real, próprio ou geral. A hipocrisia é sempre mais fácil do que a reflexão, o egoísmo é muito mais simples do que o senso coletivo. Quando a eschrotidaum é denunciada, o primeiro passo do eschrotum é se incomodar. O simplista sempre tem a solução para tudo, desde que com a janela fechada porque, se olhar para a rua, sua tese desaba feito farinha. Geralmente se trata de quem sempre teve facilidades e, por isso, tende a minimizar e mesmo desprezar a dor alheia. E todo simplismo é hipócrita e perverso: objetiva incutir no outro que ele é "fraco", que "não se esforça", que "reclama à toa porque há gente em condição pior". Verdadeiro desprezo à matemática, seja no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo: basta pensar que há muito menos escolas, casas, hospitais, áreas de lazer, transporte de massa e postos de trabalho do que o mínimo necessário para uma vida saudável, então é lógico que a maioria é oprimida, esmagada e humilhada. Basta ver e raciocinar. O simplista odeia postagens desagradáveis porque geralmente elas o lembram de sua condição eschrota. A verdade dói feito soco no queixo. As saídas do simplista são patéticas: fulano não se dedica, beltrano não tem fé, sicrano não é de família. Olhe para o lado e veja se não tem ninguém exatamente assim na sua lista de contatos. Este é um perfil de postagens desagradáveis, com o objetivo de fugir do senso comum, com o objetivo de fazer pensar no próximo, na sociedade e na vida coletiva. Ninguém faz nada sozinho. Tudo é coletivo. Sem coletividade você não bebe um copo de água, não come um prato de feijão, então achar que suas eventuais vitórias são fruto exclusivo de mérito pessoal é, no mínimo, falta de inteligência. Lembre-se: este é um perfil desagradável para egoístas, indiferentes e mesquinhos, para falsos e traidores, para mentes rsd. Enquanto ele existir, a única saída é o botão "Deixar de seguir", que pode significar alívio para você, mas muito, muito mais para mim. Uma ótima semana para quase todos e muita perturbação para os egoístas e hipócritas.

@p.r.andel

Sunday, October 08, 2023

Fim do domingo

As noites de domingo têm certa melancolia. Vem a manhãzinha de segunda, volta o sufoco, a pressão. Muitos de nós sonham com a chegada da sexta-feira para ter dois dias de descanso ou alívio, mas nem sempre acontece. Por exemplo, embora tenha ficado trancado três dias, não consegui descansar. Também trabalho de casa e os problemas são uma espécie de guilhotina armada contra o pescoço. Dói tudo, da cabeça aos pés. Os jogos de futebol e programas de TV ajudam a ocupar a cabeça, mas ninguém consegue descansar direito sem tranquilidade, com armas imaginárias apontadas para a cabeça. Não dá para ler direito, nem para escrever direito. Às vezes ouvir música. Às vezes, conversar com algum colega do Whatsapp - amigo é outra coisa. Às vezes, pensar, sonhar. Mas tudo passa rápido, a segunda não espera, a opressão está por toda parte e tudo aí está sem dó. A gente começa a semana procurando pela nossa paz, o bem mais precioso e raro. Mas será que pode haver paz em meio a tanta miséria, violência, doença, despejo, descaso e arrogância? Será que com tanta guerra, fuzilamentos e bombardeios é possível encontrar um punhado de paz? E talvez o pior: a maioria sofre, luta, se dedica, se esforça, sacrifica mas é tudo em vão. No fim mudamos pouca coisa: a maioria dos grandes defeitos que testemunhamos aí está há tempos, tempos. Por isso que a arte, a cultura, o esporte e o lazer são tão importantes: eles servem de bálsamo contra as dores da vida. É o que nos resta nesta grande república federativa cheia de árvores e gente tão nova dizendo adeus - nossos amigos e colegas por sinal. Vamos pedir esmolas de paz, esmolinhas de dignidade humana, é o que resta. Continuo nervoso paca, continuo desesperado, continuo verdadeiro. Só os falsos e hipócritas são felizes o tempo inteiro. Daqui a pouco é segunda e volta a terrível vida normal. Boa semana a todos. 

@pauloandel

Dia do Gordo

(Originalmente publicado em 20/09/2020)

Confesso a decepção. Um único amigo me deu parabéns pela data. Esperava mais, muito mais, mas solidariedade não é o forte de uma parte dos brasileiros, entendo. 

Sou bem gordo. Isso não me impediu de ser sexy, atraente e interessante, pude comprovar através dos tempos. Não perdi nenhuma mulher por isso - muitas magras e outras saborosamente gordas -, mas sim por situações realmente tóxicas. Que tal o fundamentalismo religioso, por exemplo? 

Nem sempre foi assim. Eu era um garoto gordinho, até que comecei a crescer. Aí, na chatice chamada de adolescência, começam a te sacanear o tempo todo como se isso fosse bom. Um dia me encheram tanto o saco que botei um par de tênis e fui para a praia correr. Resolvi que ia perder peso, 1986. Eu detestava correr sem ser para jogar bola. Subitamente me apaixonei para sempre.

Na primeira semana, duzentos metros. Depois, quatrocentos. Depois oitocentos. Em poucas semanas eu já corria três ou quatro quilômetros. Cinco. Sete. Perdi 15 quilos em três meses sem mexer num hambúrguer. Em pouco tempo ia do Bairro Peixoto ao Vidigal e voltava. Comecei a sonhar em disputar a São Silvestre, virar o ano correndo, era o máximo. 

Entrei pra faculdade, as garotas eram lindas, riam das besteiras que eu dizia, às vezes eu tinha coragem de mostrar algo que escrevi. E dava certo. Mas num belo sábado de sol, brincando de goleiro no grupo de escoteiros, ao fazer um defesaço no ângulo, desci com o pé virado no solo. Fui direto para o Miguel Couto, não quebrei mas foi uma tremenda entorse, doía demais e veio o fim da minha carreira de atleta. Não tratei direito, não tinha dinheiro nem plano, não havia SUS. Manquei por muito tempo, chorei e isso me tirou do futebol na faculdade - tanto Egídio tirando onda de craque, eu jogaria fácil. 

Engordei um pouquinho quando passei a ter o direito de almoçar, depois de conseguir um estágio e, posteriormente, meu emprego por 26 anos. Houve um tempo em que eu trabalhava demais e quase não saía para almoçar. Por sua vez, o ticket refeição era um bom reforço para sustentar a família em casa. Devo ter ficado uns quatro anos sem almoçar direito, o que destruiu meu metabolismo. Aí, passei dos 100 kg e tive outros problemas de saúde. 

Depois, quando a família se foi, voltei a almoçar. Meu peso não é somente por causa dos problemas: eu também gosto de comer. Gosto de comida e fartura, gosto de refrigerante - e já sei que tudo faz mal, como quase tudo na Terra. Lembro de quantas vezes queria ter almoçado e simplesmente não pude por falta de dinheiro, mesmo sendo um trabalhador. E fiquei pesado.

Só tem uma coisa: isso é apenas uma constatação, não um problema. Não tenho nada que me incomode em ser gordo, exceto que minha saúde poderia ser melhor se eu tivesse menos peso. Mas tem tanta coisa que as pessoas fazem contra a saúde, e que eu não faço...

Em alguns momentos, recebi comentários ridículos contra mim, sem contar declarações gordofóbicas que são tão estúpidas quanto as racistas ou homofóbicas - o problema é que a gordofobia é por demais introjetada na sociedade, fazendo do gordo um safado ou sem vergonha por causa de seu peso. 

Vou repetir: o gordofóbico é tão escroto quanto o homofóbico e o racista. 

Hoje penso: sou tão legal, já ajudei tanta gente, já fiz tanta coisa legal, não posso ser limitado por causa de minha barriga - aliás, quando estou de camiseta, várias pessoas dizem que emagreci muito, quando na verdade eu uso é roupa grandona - que sempre gostei desde que vi David Byrne num terno grandão. Minha literatura, meus atos, minha inteligência e meu carinho são muito mais importantes do que o tamanho da minha barriga, e penso o mesmo de qualquer pessoa. Cresci na Copacabana dos anos 1980, onde todos os tipos eram respeitados. Tudo era normal. E como funciona o cérebro de quem vê a barriga alheia como motivo para preconceito e ódio? 

Vi por décadas que um dos homens mais inteligentes do país era um gordo. Dois dos maiores cantores de rock, também. Quem se lembra do genial Edvin, super percussionista gordo da banda de Alceu Valença? Algumas das mulheres mais atraentes que conheci são chamadas de gordas. Sem nenhum machismo: pra mim são gostosíssimas. Agora, por causa desta estúpida gordofobia, muita gente desenvolveu traumas poderosos, outros até caíram pelo suicídio. Quase ninguém fala disso. 

Ninguém é obrigado a sentir tesão por ninguém. Que cada um viva do seu jeito e tenha paz. Que as pessoas se encontrem e vivam seus desejos, sem alimentar recalque e ódio. Eu encontrei o meu caminho e não me arrependo. 

Não quero ter o corpo de fulano, a barriga de sicrano, a perna de beltrano. Quero é ter momentos de paz, comer meu sanduíche e tomar meu guaraná numa boa. Pagar minhas dívidas e sobreviver. Fazer coisas legais e o bem. Quem define quem é "gordo" ou "gostoso"? Quem define o feio e o bonito? E o sexy? 

Que as pessoas se respeitem é o mínimo que se pode exigir. Fora, gordofobia! 

É isso. Tchau. 

@pauloandel

Sunday, October 01, 2023

Sobre "A alma aflita das ruas"

Há motivos para o que se considera uma produção literária frenética de minha parte, com 40 livros em 13 anos, na verdade 14 porque o primeiro estava quase escrito desde o ano anterior. O principal deles foi a morte repentina dos meus pais, que me levou a mergulhar vertiginosamente para tentar ocupar a cabeça - e não adiantou nada. Em menor escala, minha vontade de ser publicado desde os anos 1990, o que acabou acontecendo somente em 2010. Também conta o fato de poder produzir meus próprios livros, sem os vícios preconceituosos que costumam povoar a mente de boa parte dos editores, lutando para tornar o livro um objeto hermético. 

Agora, um grande motivo para essa correria desenfreada foi o medo da morte. Não exatamente o medo, porque ela é inevitável, mas o medo de morrer sem ter escrito um conjunto de livros que considerasse razoável. O medo de que não desse tempo. Hoje ainda me falta muita coisa, claro, mas era inimaginável o número de 40 há 13 anos e ele foi alcançado. Alguns venderam milhares de cópias, outros venderam centenas e provavelmente os melhores não venderam nada, mas tudo bem - o autor quer ser lido mas não faz um pacto de plateia antes de escrever. Só lamento que meu trabalho como autor "carioca" fique à margem do trajeto no futebol - do qual me orgulho muito mas não não sou 100% dependente. De toda forma ele existe e pode ser lido há anos no Correio da Manhã e no meu blog, "otraspalabras!". 

Vivi e vivo com medo. Sempre foi assim, havia e há muito sofrimento. Por muitos motivos, achava que minha vida seria curtíssima - e quase foi mesmo -, o que se acentuou quando alguns colegas meus morreram jovens. Então acabei chegando aos 55 anos, que para muitos ainda é uma réstia de juventude nos tempos modernos, mas me tem pesado com enorme cansaço. A luta pela sobrevivência, a sensação da velocidade do tempo, as perdas e danos mais a certeza da ruindade da maioria dos humanos aumentam a fadiga. Só que eu não paro, nem sei por que motivo. Então continuo escrevendo e produzindo livros de terceiros, enquanto sigo cumprindo minha pena por aqui - nada que se compare às verdadeiras penas aplicadas em presídios, mas também longe de ser fácil. 

Meu novo livro estará pronto em duas semanas mais ou menos. Ele se chama "A alma aflita das ruas" e é uma brincadeira com o craque João do Rio, inspirada em meu amigo Luiz Carlos Lacerda - poeta e consagrado diretor de cinema -, dado que algumas pessoas veem semelhança entre o que tenho feito e a produção avassaladora dele. Obviamente não cabe comparação: João foi o maior cronista de seu tempo, inaugurou a ABL e seu talento venceu as décadas. O que faço é tentar registrar alguns cenários do Centro do Rio para que, no futuro, alguém os ache numa garrafa que atirei no mar da internet. "Alma" é um livro de humanidade, de minha incapacidade em desprezar o próximo, e está alinhado com todos aqueles que veem o Rio de Janeiro com amor mas sem hipocrisia, entendendo a verdadeira tragédia que nos cerca há anos. Vários de seus textos foram produzidos durante a pandemia ou depois de suas consequências, portanto não são leves. Contudo, não se trata de um livro fúnebre, como a primeira vista sugere a capa, mas sim sobre a vida real, que é feita por aqui de descaso, indiferença, desprezo, falsidade e mau caratismo, tudo devidamente varrido para debaixo do tapete do Facebook. Um livro sobre a opressão, naturalizada pelo neoliberalismo e tolerada com candura por certa esquerda cheia de discurso, mas pouca ação prática no sentido coletivo. 




Os interessados em "A alma aflita das ruas" podem encomendá-lo pelo WhatsApp 21 99634-8756. A princípio ele não terá um lançamento. Venderá pouco e é para poucos mesmo - os que nele acreditam. Nenhum problema para quem não acreditar: a recusa e o desprezo fazem parte do jogo literário. Porém, até segunda ordem, não há mau resultado financeiro que me faça parar de escrever. É uma causa e, como disse Borges, "aos verdadeiros cavalheiros só interessam as causas perdidas. 

Enquanto isso, vamos esticando a corda até onde der. 

@pauloandel 


Saturday, September 30, 2023

Dois ônibus (parte 1)

Esta semana fiz algo que há muito tempo não fazia. Melhor dizendo, que quase nunca fiz. Entrar num ônibus sem saber ao certo seu percurso. Fiz isso duas vezes. 

Quando era garoto eu adorava ler o Guia Rex. Estudar os nomes das ruas dos bairros, das ruas dos trajetos dos ônibus e por aí vai. Quando estagiei na Firjan, os mensageiros me pediam dicas sobre ônibus e ruas, era engraçado. Por muito tempo fui um entusiasta da cidade, atravessando bairros e bairros, mas à medida que tenho envelhecido as travessias reduziram drasticamente. Com as mudanças de mãos das ruas, de números das linhas e as reformas desde a Copa 2014, perdi meu capital de informações. Além do mais, trabalho perto de casa, faço muita coisa a pé, Uber e táxi. Às vezes pego um ônibus por 900 metros para chegar a estação Carioca do metrô. 

Nem sempre foi assim. Especialmente entre 1988 e 1994, quando fazia faculdade e me deslocava de lá, para o trabalho e para casa. Eu gostava, mesmo. Sempre gostei de ver a paisagem, as pessoas perto. Claro, eu nunca pertenci à população oprimida pelas precariedades do sistema de transportes. Era pobre também, mas um pobre que usa ônibus na zona sul e no Centro é privilegiado na comparação com usuários da zona norte, oeste e região metropolitana.

Veio o 201. Chovia fininho, ainda tinha uma hora para abrir a loja. Entrei. Antigamente ele subia até o fim da Almirante Barroso e voltava pela Assembleia. Mudou. Virou para a direita depois pegou a Araújo Porto Alegre. Me deu uma saudade enorme da ABI - outro dia mesmo estávamos lá lutando contra o golpe e Isabel estava deitadíssima no chão, vendo um vídeo. Nossa musa do vôlei, tão cheia de vida. E a Sala Sidney Miller? Quantos shows maravilhosos ali, de Jorge Mautner a Victor Biglione, tanta coisa. 

Simpático o motorista. Conversa com uma passageira conhecida, risonha. Aí chegamos à Evaristo da Veiga e, rapidamente, República do Paraguai - que eu adoro porque você vê do alto a avenida Chile, os grandes prédios, o Edise, símbolos de uma afirmação carioca, talvez. Dia de chuvinha, ruas vazias trânsito livre. 

Sem planejar nada, descobri que o ônibus me deixaria na porta do trabalho. Foi divertido. A primeira vez que fiz isso em quase cinco anos de loja. Fazer um caminho minimamente diferente. Já escrevi outras vezes que, por gostar muito de VLT, faço um percurso quase ridículo só para usá-lo: apenas duas estações, com direito a baldeação na Sete de Setembro, que me deixa na Praça Tiradentes. 

Foi legal rever certa paisagem que, às vezes, a pressa e as responsabilidades nos alijam da oportunidade. Gostei tanto que repeti dias depois, mas com outra linha de ônibus. Acabei indo até o stand do Túlio, que fica na Primeiro de Março, com excelentes CDs e LPs estilo King Crimson, Traffic, Premiata Fornecia Marconi e outros craques.

Depois eu conto. 

@pauloandel.

Sunday, September 24, 2023

Copa do Brasil 2023

Antes de se apaixonar pelo Fluminense para sempre, meu pai torceu para o São Paulo quando era garoto. Vivendo em colégio interno e órfão, talvez o futebol fosse uma de suas únicas alegrias. Aos 18 anos veio para o Rio e nunca mais saiu. 

Uma hora antes do maior jogo entre os dois times da sua vida, um infarto o tirou de cena em 2008. E mudou a minha vida para sempre.

Cresci numa casa com paixão pelo futebol, sem ódios, sem rancores. Claro que tinha as rivalidades - aos 11 anos de idade eu já tinha visto jogos nas torcidas do America, Campo Grande, Goytacaz e Palmeiras. Claro que secar sempre foi divertido, claro, mas ódio, rancor, jamais. E cresci com muita simpatia pelo São Paulo, por conta da questão familiar. 

Portanto, a vitória de hoje me faz pensar que, onde quer que esteja, meu pai está feliz. E a felicidade dele é a minha. Agora penso nos jogos que vimos juntos, e foram bem menos do que eu gostaria - com 14 anos eu já ia sozinho para o Maracanã. Penso nesse gosto pelo futebol que ele foi me passando desde que eu era criança, a própria maneira como me tornei Fluminense e tantas outras coisas. 

Já adulto, com mais de 40 anos, eu sonhava em escrever um livro sobre o Fluminense para homenagear meu pai. Em certo momento, parecia impossível, mas certa conjunção astral mudou tudo, acabei conseguindo ser publicado e nunca mais parei. Tenho escrito muitas coisas sobre muitos assuntos, mas sei que os trabalhos que me projetaram para milhares de pessoas são os do Flu. Nenhum problema. 

Seria bom tê-lo aqui agora, comendo os sanduíches que ele sempre gostava (minha mãe imitando meu pai nessas horas é uma cena inesquecível). Falaríamos desse jogo, desse título, desse negócio chamado futebol que, mesmo contaminado, nos dá alegria e esperança, alivia as noites - ok, também as destrói - alimenta as conversas. 

Na ausência inevitável, resta pedir um sanduíche, lanchar, rir com as mensagens no WhatsApp, brincar com os rivais. Pequenos momentos divertidos desse estranho negócio chamado vida. 

@p.r.andel

FIGUEIREDO MAGALHÃES, 00:47H, PRIMAVERA DE 1989

[A praia está vazia e silenciosa, algo incomum para a madrugada do fim de semana. Geralmente vem o pessoal de outros bairros e, claro, os turistas. 

Não tem mais ninguém na rede de vôlei. Futevôlei. No campo de areia, nem pensar. 

Estranho. 

[Na esquina de Figueiredo com Domingos Ferreira tem sempre uma galera dormindo na rua. São uns dez. Não mexem com morador, mas se sacarem outra procedência vai dar zebra

[Na quadra seguinte, do outro lado da rua, tem as duas drogarias e, numa delas, o letreiro tem o Pepe Corta-Zeros. Um pequeno símbolo da rua. 

No prédio da esquina moram Marcelo e Hermínio. Talvez no quarto andar. Bem, não é uma esquina qualquer, mas a mais barulhenta do mundo. Dizem que até entrou para o Guiness. 

Se você atravessar a Avenida Copacabana e utilizar a primeira entrada, perto da mitológica Galeria Ritz, cujo terreno já abrigou a fantástica faquiresa Suzy King - que o poeta e cineasta Luiz Carlos Lacerda, menor de idade, espiava pela fresta da porta -, vai adentrar as Lojas Americanas, paraíso das crianças com suas balas e brinquedos. A loja tem formato de L e você pode sair pela Figueiredo Magalhães, onde não encontrará mais vestígios da lanchonete de rua - que vendia cachorro quente e refresco de côco no copo de cone -, apenas a sorveteria Akay do outro lado da rua, bem em frente, que tem um misto quente imperdível: pão crocante, queijo derretendo e fatias finas de bom presunto. 

Cine Condor, dentro da galeria. Minha amiga Katia morava ali. São mais de 800 lugares no ótimo cinema refrigerado. Tenho visto muitos filmes, exceto "Psicose" - dormi e depois explico o motivo.

Ainda poderia voltar à esquina anterior, a mais barulhenta do planeta, bem na diagonal do prédio do Hermínio. Casa Nelson, roupas finas para senhores exigentes - especialmente para quem não quer sair do armário, se é me entendem.

[Figueiredo e Barata Ribeiro é Varese, loja esportiva. Lindos e caros botões, tênis fascinantes, artigos de primeira. A vitrine é uma beleza. E é também Sumol, lanchonete querida do bairro que aguenta o tranco até três da manhã. Salada de frango, belo bife de hamburger da casa, grandes sucos e a maravilhosa fatia de pizza muçarela, verdadeira salvação depois dos jogos noturnos no Maracanã. Ai, Jesus!  

Ainda o futebol. Passando pelo Sumol (alguns chamam por a Sumol), tem a Kayat Esportes, outra loja de artigos esportivos que faz a festa da garotada: vende escudos bordados, números de camisa que se prende com ferro de passar e bolas, bolas, maravilhosas bolas de futebol. 

Na esquina da Edmundo Lins incrivelmente não tem ninguém. É um dos alvoroços de Copacabana por causa da turma que ali convive, pessoal da praia, das lutas e da noite. Uns trinta garotos ou mais. Eles são a GEL e a sigla é óbvia: Galera da Edmundo Lins. 

Esquina de Figueiredo com Toneleiro, resta o único estabelecimento aberto da quadra, o velho botequim pé-sujo sem letreiro, onde os últimos boêmios tomam goles de cerveja e cachaça, afogando mágoas e melancolias. Mas não por muito tempo: uma das portas já foi baixada e em pouco tempo só restará um único bem, raro em Copacabana e na rua Figueiredo Magalhães mesmo de madrugada - o silêncio.

@p.r.andel

Sobre Rick Davies e o Supertramp

Eu sou fã do Supertramp desde garoto. Fiquei louco da vida quando não pude ver a banda no Hollywood Rock de 1988. Estava em meio ao vestibular, matar ou morrer. Passei, felizmente. 

O problema é que o Supertramp nunca mais voltou ao Rio, sequer ao Brasil. Nas últimas três décadas lançou apenas dois álbuns, "Some things never change" (1996) e "Slow motion" (2002). O grupo está recolhido, não faz shows, não lança álbuns e não dá qualquer indício em seu site oficial. 

Não vou entrar aqui na briga entre Roger Hodgson e Rick Davies. Eu gosto do Supertramp e ponto. Uma banda que não deixou herdeiros, ninguém se parece com ela. Hits eternos como "Give a little bit", "Goodbye stranger", "My kind of Lady", "Bloody well light", "From now on", "It's raining again" e tantos outros êxitos. Quando Roger deixou o grupo, é claro que muitos fãs lamentaram, mas a vida seguiu, ele fez sua carreira solo e o Supertramp funcionou bem ao vivo com os vocais de Mark Hart, cantor do Crowded House. Ok, os puristas e cri-cris odiaram, mas qual a exata importância destes? 

Há alguns anos, mais precisamente em 2015, prestes a iniciar uma turnê europeia, ela foi cancelada às vésperas porque Rick Davies foi diagnosticado com um mieloma múltiplo, aos 71 anos. 

O tempo passou, as notícias eram escassas e a única coisa que achei no Google para me dar esperanças foi uma foto de Rick, acompanhando uma partida de futebol americano. Só. 

Semana passada, pesquisando pelo YouTube me deparei com alguns vídeos de Rick Davies, tocando várias músicas do Supertramp com outros músicos, num local relativamente intimista. Achei glorioso: Rick, atualmente com 79 anos e depois de superar um câncer, voltou aos palcos. O som continua inconfundível e a voz é a mesma. O Supertramp estava lá, ao menos na memória e nas canções. 

Então fiz uma postagem no Facebook a respeito, e confesso que me decepcionei com a reação de alguns colegas. Houve quem dissesse algo como "Que coisa decadente! Tocando num palquinho, que triste fim de carreira!", bem como outras sentenças parecidas. 

Então me perguntei: de onde as pessoas tiraram que o artista consagrado só pode tocar em grandes arenas, sendo um ser inatingível? 

Desde quando se apresentar em palcos alternativos é exclusivamente sinal de fracasso ou ostracismo? 

Quantas vezes artistas mundialmente consagrados já tocaram em casas com público mínimo, por diversas razões? 

E mais: a qualidade artística de um músico é definida pelos palcos em que toca? Parece improvável. Quantos e quantos músicos espetaculares são completamente desconhecidos do grande público? Outros não tocam sequer em palcos pequenos, mas se limitam a estúdios. E isso não lhes tira o talento. 

É difícil dizer se o Supertramp voltará aos palcos um dia. Roger Hodgson continua fazendo turnês regulares. Ao que tudo indica, Rick Davies está recuperado. De tudo isso, certo mesmo é que um artista que já vendeu mais de 60 milhões de álbuns na carreira pode ser quase tudo, menos um fracassado. Procure nas rádios do mundo inteiro: sempre tem "The logical song" tocando em algum momento, só para lembrarmos que o Supertramp é eterno. 


Tuesday, September 19, 2023

noite agora

noite agora

2023


agora é noite, o começo

da noite


a nação proletária sonha 

com casa, banho e comida

sonha com descanso

enquanto se encaminha


[nas gares


agora é noite e os corações

perfeitos


procuram seus pares em sonho

sorriem para o amor passado

celebram os vivos e os mortos

pelas veias velozes de asfalto 


os corações solitários 

navegam rumo à via láctea:

batem, voltam, se esparramam

pela incerteza da vida


agora é noite, agora

é o futuro que decola

para o voo cujo destino 

é o eterno presente em que

vivemos


@p.r.andel

Sunday, September 17, 2023

Fragmentos da UERJ

[Numa certa manhã de 1988, aproveitamos que a aula terminava às 8:50h e nos mandamos para São Conrado. Objetivo: jogar boliche. Depois voltamos para almoçar no La Mole da Marquês de Valença, Tijuca. Não sei como, mas juntávamos pobres e ricos no mesmo barco, ou melhor, carro. Todo mundo ia. Não era baratinho, mas certamente era bem mais barato do que qualquer coisa de 2023. 

[Ou juntarmos uma turma para assistir Dick Tracy, acho que no Cine América. Foi um acontecimento. Depois lanchamos no Bob's. Madonna era Breathless Mahoney, no auge da forma e fama. Tinha também Warren Beatty, as garotas adoravam. Era muito bom ter dezoito ou dezenove anos. Ou vinte. 

[Estávamos na varanda do Bloco A, bem de frente para uma maravilha chamada Maracanã, quando testemunhamos uma tragédia. Eu estava com a mão encostada no parapeito quando de repente senti uma dor lancinante. Um segundo depois, um barulho assustador. As garotas correram, aterrorizadas. Olhei para baixo e lá estava um corpo estendido no chão, depois de seu último voo. Então me senti gelado, estático e demorei para perceber que minha mão havia inchado e arroxeado com a pancada que, involuntariamente, o suicida me acertou num esbarrão. 

[Às vezes matávamos aula só para conversar e mais nada. Era um grande prazer coletivo. Juntávamos oito ou dez alunos e falávamos, falávamos e ríamos. Aquilo me fazia um bem enorme, eu estava sofrendo muito em casa. Eu me sentia acolhido, era bom. Era como se fosse como a casa do Fred, só que com outros colegas e outras garotas bonitas.

[Eu achava um barato aquele ir e vir que só a UERJ tem. Você sobe uma rampa e está no Direito, desce outra e está na Engenharia. Para no meio do caminho e fica na Estatística. E História. Educação Física. Letras, Economia. Tudo se misturava. Logo, logo, fizemos muitos colegas de outros cursos. 

[Acho incrível que aquele grande prédio só tenha me feito bem, porque muitas pessoas espiritualizadas o condenam por conta do que aconteceu lá. Antes da construção da Universidade, seu terreno abrigava a favela do Esqueleto, havendo um terrível incêndio antes da remoção. Depois, o prédio virou uma espécie de referência para suicídios, hoje atenuada por diversas providências. 

[Nos primeiros períodos eu não estudei direito. Olhava a grandiosidade dos corredores, das salas lotadas, um mar de gente de todos os lugares com mil interesses e formações. Eu espiava as palestras, os filmes e shows da concha acústica, os cartazes nas pilastras com os eventos culturais. Era um mundo.

[Minha amiga Lou era uma graça. Eu a achava linda, com um sorriso de braços abertos sobre a Guanabara. Ela tinha o cabelo alourado, cacheado. Linda e divertida, sempre rindo. Convivemos por bons anos. No dia seguinte ao título imortal do Fluminense em 1995, o do famoso gol de barriga, nos encontramos no hall do sexto andar e trocamos um longo abraço de campeões. Foi a última vez que nos vimos. 

[Tinha a Sônia também, que era uma graça. Largou o curso pelo caminho. Às vezes eu a encontro num dos restaurantes onde almoço, perto de casa. Ela tem negócios por ali. É sempre simpática quando nos vemos. Eu sei que agora temos mais de cinquenta anos, mas eu só a vejo como a garota de dezoito anos, elegantemente vestida, do tempo em que eu sonhava em disputar a São Silvestre, me formar e viver feliz com a minha família.

Sunday, September 10, 2023

Salut, São Paulo!

Até que envelhecer tem suas vantagens. Com ou sem dinheiro, dificilmente vou a festivais de rock pop. É que meus heróis estão aposentados, quase aposentados ou muito mortos. Naturalmente há exceções: dia desses fui com meu amigo Marcelo Rodrigues Lessa ao show da Dorsal Atlântica, do meu querido amigo e ídolo Carlos Lopes. Trash metal roots, em pé, como o estilo pede. Bom, a Dorsal pede uma coluna inteira e o Carlos não cabe num livro. Por enquanto digo que é um dos maiores artistas em atividade no Brasil. Gênio. Perguntem ao João Gordo.

Então fiquei vendo The Town, o Roquinrio de Sampa, meu! Gosto de São Paulo, de suas esquisitices, de suas garotas, aventuras lokas e até das viagens de avião - são as melhores do mundo para quem tem medo, pois mal dá tempo de servir o sanduíche - quando há - e o piloto avisa que iniciou o processo de aterrissagem. Só que tá bem caro...

Da Pitty só vi o finzinho. Ela é uma graça. Vinte anos de carreira, atitude, uma garota baiana que botou muita pimenta no vatapá. Trajetória maneira, vitoriosa. Tem toda razão quando canta "Que me acha foda". 

Num susto, o Garbage. Shirley Manson, minha crush desde os anos 1990, senhor! Butch Vig, o homem de "Nevermind" do Nirvana e "Siamese Dream" do Smashing Pumpkins. Gostei muito. Minha preferida é "Stupid Girl". Especialistas dizem que o show não emplacou para a plateia presente. Bem, em 95% dos dias de festivais é assim. Achei o show correto e, pra quem conhece as músicas, elas soam como nos álbuns. Tomara que voltem, no Vivo Rio (sem mesas). Shirley é adorável. 

Barão. Barão é foda. Stoneanos de corpo e alma. Desde a volta, acho que vi uns seis shows do BV na TV e todos foram ótimos. Frejat era uma voz espetacular para a banda, mas gostei mesmo do Suricato, é um outro jeito de cantar e com mais peso no som. Foi legal ver o Barão tocando as músicas do Skank, bem divertido. Certa vez o Samuel Rosa foi muito antipático comigo e com o Bolinha, deixa pra lá. Espero que façam outros shows junto. Guto senta a mão na bateria, gosto quando Maurício canta. E onde tem Barão, tem a presença poética do meu ídolo e parceiro literário Mauro Santa Cecília. O livro tá atrasado, senhor! 

Wet Leg eu não conhecia. A cantora é linda, docinha, aquele pop rock leve às vezes com uns berros. Ok, tem a questão das escalações e palcos, mas isso também é de todos os festivais. Deveria ser ótimo vê-las na antiga arena da Caixa Cultural do Rio na Almirante Barroso, que os fascistas destruíram. Bom passatempo para o gran finale. 

Por fim, Foo Fighters. Eu demorei a gostar do Nirvana e demorei com o Foo, mas o show dos caras é devastador. Dave Grohl passou por duas tormentas e, pelo visto, ainda vai contar muitas histórias. Simpatizo mesmo é com Pat Smear, divertido e excelente guitarrista que vem dos tempos do Nirvana Unplugged. Um show de rock como tem que ser. Ouvi como se tivesse 22 anos de idade, que infelizmente já estão longe demais. 

Meu Roquinrio foi na TV. Uma noite divertida mesmo. Este ano tem Paul McCartney e Roger Waters por aqui, com ingressos salgadíssimos. O Glenn Hughes também. Em tempos de dureza, se eu conseguir comprar o novo Dark Side, está bom. 

@pauloandel

Saturday, September 09, 2023

Onde estão eles?

Eu penso muito. Em muitas coisas e pessoas. 

Hoje comecei a pensar em um monte de gente que me lembro, mas provavelmente sequer sabe da minha existência. 

Gente que foi minha vizinha, gente que estudou comigo - foram muitas escolas, gente com quem joguei bola na praia, gente do bairro que me cumprimentava com a levantada da sobrancelha - você não fala mas reconhece a pessoa. 

Lembrei de gente e coisas, algumas muito duras e outras até felizes. E me dei conta que uma parte dessas pessoas pertence à minha vida, mas eu não pertenço às delas. 

Falo de gente de longe, dos anos 1970, 1980 e 1990, não de agora, onde ficou quem tinha que ficar e saiu quem tinha que sair. 

É sobre gente que sumiu. 

Eu lembro dos nomes, dos rostos, nem tanto das vozes. E lugares também. 

Lojas que faleceram, prédios inteiros, lugares. Copacabana por exemplo, que é tão igual mas mudou muita coisa que só os veteranos conheceram. 

Deitado na cama e espiando o show do Foo Fighters, começo a pensar na quantidade de pessoas que conheci e nunca mais vi. Elas não morreram para mim, mas podem ter morrido de verdade. Eu nem nasci para elas e isso é engraçado. 

Em grupos muito pequenos, de três ou quatro pessoas, eu sou o único sobrevivente e tudo me parece estranho. 

Agora mesmo me lembro de uma vizinha bonita que não vejo há 40 anos. Um jornaleiro que também sumiu há 40 anos. Colegas de escola e vizinhança, lembro de dois que por sinal torciam para o America. Lembro até do vendedor da loja de roupas numa loja da Figueiredo Magalhães, que era muito roqueiro e também homofóbico - vivia sacaneando Rob Halford e Lou Reed. 

Lembro duma outra garota bonita, bonita, que nem olhava pra gente e era irmã de um conhecido - ela passava pela gente quase todo dia e nos desprezava, ou não sei dizer se era uma autodefesa porque ela tinha um mínimo problema motor e talvez tivesse vergonha - mal ela sabe que a achávamos linda demais, porque ninguém falou com ninguém. 

Achei graça de lembrar também que uma garota da sexta série queria me dar um beijo, porque resolvi um exercício difícil de Matemática - eu fiquei com vergonha, acredita? Claro, nós, garotos de 1980 com 11 ou 12 anos éramos verdadeiras crianças - a ditadura de certa forma nos fez retraídos e tristes. Nunca mais vi a garota, nem seu irmão que era um botafoguense fanático? Que fim será?

Naquele tempo mal havia telefone e uma simples mudança de endereço podia significar a morte em vida do pré-adolescente. Agora tudo mudou: telefonar para alguém é quase um crime, as pessoas deixam dias sem resposta no Whatsapp - mas quando precisam, são as primeiras a chamar, e agora tudo é descartável. Se você não pensa como eu, você é burro e não entende nada, então eu posso silenciar você e me livrar da oposição. Eu sempre sei mais, mesmo quando comprovadamente eu não sei pomba nenhuma. 

Deixa de seguir, exclui, bloqueia, silencia, deixa invisível. 

Foi pra isso que inventamos o smartphone? 

@pauloandel

Fragmentos do Rio num sábado

[Oh, é uma tarde carioca tão legal que deveríamos aproveitá-la ao máximo, quero dizer, deveríamos alguns de nós porque a maioria não pode aproveitar nada. Apenas sobrevive e sofre. Alguns de nós se solidarizam e se doem por isso. A maioria, não. O céu do Rio é lindo e azul celeste, mas isso não impede sinos que estão a dobrar por ora - é que os assassinados também se despedem em dias de sol, e nós temos muitos assassinados, quero dizer, alguns de nós porque a maioria é de alienação e descompromisso assustadores. 

[A jovem linda, alva, de cabelos Chanel pretíssimos, sorve uma taça de vinho num restaurante do Largo do Machado. Linda e só, ela alterna os tragos com espiadas lentas no smartphone como se estivesse a ler um texto caudaloso. Sozinha no salão, ela fita a rua e percebe que, à altura do muro que toca o vidro da porta, um pequeno par de olhos é que a fita. Um garotinho preto, talvez de seis ou sete anos, com seus pequenos e aflitos olhos de jabuticaba, talvez um dos garotinhos que vendem drops na região - e que olha pelo vidro porque é sua única chance de estar ali. Em alguns segundos, ela toma um gole, aterrissa a taça na mesa e abre um sorriso que só realça sua beleza. Pequenininho, o menino não alcança a altura do vidro, mas o franzido de sua testa e o brilho do pequeno olhar de criança não deixam dúvidas: ele também está sorrindo. Uma jovem e bela mulher, um garotinho e dois segundos da fraternidade mundial.

[O Arco Metropolitano é uma das vias mais perigosas do Brasil e não são poucas as suas histórias de violência. Ontem tivemos mais um, com uma garotinha de três anos fuzilada por um policial. Em condições normais, isso bastaria para manifestações de dezenas de milhares de pessoas nas ruas, mas a desumanidade tomou a sociedade de tal forma que as piores coisas são naturalizadas. Ninguém liga. É feriado. Uhu! Aguardemos a próxima manchete com a nova criança barbarizada. 

[Jovens de classe média, casais bem sucedidos, intelectuais legítimos e pretensos, moderninhos e descolados, muitos são os frequentadores do CCBB num sábado, para apreciar a exposição de Evandro Teixeira, um dos maiores fotógrafos do mundo. Tempos atrás foi a vez de Walter Firmo, outro gênio. Evandro fez a crônica fotográfica de um Brasil dos mais difíceis, o da ditadura 1964-1985. É certo que as pessoas estão no CCBB em busca de arte, cultura e informação, mas seria bom que refletissem sobre o tempo maligno que Evandro registrou como ninguém, e que até hoje mantém feridas profundas na vida brasileira - basta pensar em tanta gente que foi torturada, estuprada, esquartejada e incinerada em nome do fascismo travestido de patriotismo, que só fez o povo sofrer. 

[Dois camaradas de vinte e poucos anos conversam num botequim perto da Nova Petrobras, no coração do centro. Parecem novos beatniks à primeira vista. Enquanto bebem uma cerveja artesanal, um fala para o outro que está completamente apaixonado por uma garota do trabalho, ao que tudo indica numa agência de publicidade, mas que tem muitas dúvidas se será retribuído na paixão e que, em caso positivo, precisará preparar os pais para terem uma nora trans. O outro dá uma gargalhada de corar Chiquinho Zanzibar, o exótico personagem da noite carioca, e diz: "Irmão, vai fundo. É 2023! Bem-fundo, hein? O apaixonado beatnik dá um sorriso meio sem graça. Numa mesa próxima, uma velhinha com a amaldiçoada camisa da CBF arregala os olhos. O garçom abre outra artesanal e tudo bem. 

[A garotada chutando uma bolinha de plástico numa área de lazer do Méier, enquanto transeuntes passam com as compras de supermercado e o bar está apinhado de gente. Na calçada bem em frente, a marquise é a única companheira de um velhinho que pede esmolas quase chorando. Quase ninguém liga.

@p.r.andel

Monday, September 04, 2023

Fragmentos de São Paulo

1987

[A gente não tinha um tostão pra sair. Resolvemos caminhar seguindo três ou quatro estações do metrô. Numa delas, São Bento, vimos uns caras espertos dançando break e ouvindo sons de batida da pesada. O Marco ia entrar na escola do exército, eu fazia faculdade com o dinheiro que meu tio me deu tão generosamente. A gente estava acostumado aos acampamentos, a noite no campo, admirar as garotas e viver nossa melancolia serena. Ali era o urbano, o som da rua, a galera black e, enquanto começava a revolução cultural do hip hop no Brasil, a gente era testemunha sem querer. Dois garotos cariocas andando na grande solidão que abraça a noite de São Paulo. Perto dali, a gente nem sabia do sofrimento do pessoal no edifício São Vito. A gente não sabia de nada e nem era feliz, mas tinha uma esperança enorme. 

2011

[Cansado da vida ridícula e posuda do mundo corporativo, onde sempre me sinto tão deslocado. Às seis da tarde escurece e caminho pela Berrini cheia de carros no asfalto e calçadas vazias. Quatro quadras depois encontro um botequim respeitável, parecido com o Vieira Souto no Rio. Entro e vejo o cardápio, também respeitável. Então peço um bife a cavalo que vem maravilhoso. Enquanto saboreio a excelente refeição, numa outra mesa o pessoal fala do Corinthians enquanto ri. Na rua, os faróis dos carros parecem espadas de luz se digladiando no rush de São Paulo. Logo depois, voltarei sozinho pela calçada deserta, chegarei ao bom hotel, tomarei banho, verei TV, a vista da janela e tentar descansar para o trabalho no dia seguinte. Estou num hotel quatro estrelas mas nem ligo para isso - a única coisa que me interessa é o ovo mexido no café da manhã. Suco de laranja também.

1987

[Samuel me levou ao cemitério para ver o túmulo de meu avô. Foi uma tarde muito triste. Eu merecia ter conhecido meu avô, algum dos avós. Não tive nenhum. Estamos na Vila Mariana? No Araçá? 

A inscrição na lápide dizia algo como "A saudade de seus filhinhos". Como meu pai e meu tio sofreram com sua morte, minha tia também, que não conheci, foi dada para uma família rica e nunca vi. Ela também não me viu. Se estiver viva, tem 80 anos. 

As famílias dos meus pais sofreram demais. Quando se casaram, eles tinham mil quilômetros de distância de casa, muita luta e provavelmente eu fui a única alegria deles por muito tempo. De certa forma, a herança desse sofrimento me ajudou a aguentar muita coisa ruim, especialmente vinda de pessoas ditas amigas - elas são as piores. 

Não ficamos muito tempo no cemitério. Logo depois, estávamos no jipe cortando as ruas, navegando pelas artérias de asfalto de São Paulo. Ladeiras, sobe, desce, mão dupla. É bem diferente do Rio e também interessante.

2011

[Ainda tenho três horas para chegar ao trabalho. Talvez seja legal ficar deitado vendo TV. Juliana manda uma mensagem de bom dia, eu digo que seria muito bom se ela estivesse lá comigo, ela ri e dissimula. Gastamos uma hora com passatempos, aí desisto de sair mais cedo e passar nos sebos da Avenida São João. 

No ano passado comprei um ótimo CD do Yes. 

@pauloandel

Sunday, September 03, 2023

Eu lembro e me lembro (reprise)

eu lembro. lembro de quase tudo. minha memória é delícia e inferno. 

eu me lembro quando fiz sinal para um táxi no colo de minha mãe, assim como me lembro de ser carregado em minha festa de aniversário em 1970, aos dois anos de idade. eu lembro do panduíche na revista e do sujismundo na tv. 

eu me lembro quando meu pai me disse "félix" e "fluminense" pela primeira vez em 1973, antes dos cinco anos de idade. lembro de ver minha mãe chorando quando chegamos a vaz lobo para morarmos um ano, em 1976 - eu já tinha oito anos. também me lembro de comprar coxinhas sequinhas e deliciosas numa lanchonete no largo de vaz lobo, enquanto tocava belchior na lanchonete. 

volto a copacabana em 1975 e lembro quando a ditadura me expulsou da escola, ou quando minha mãe chorou muito ao falar com uma jovem mãe em situação de rua na frente do metro copacabana. 

eu me lembro de ana paula, linda, passar pela figueiredo magalhães, mas aí já tinha 14 anos e isso tem apenas 40 anos. 

eu me lembro de todas as vezes que precisei chegar em casa para dormir, ou às vezes nem ir, para não ter choques com meu pai doente por alcoolismo. 

eu me lembro de quantas vezes vi o atlântico sul e pensei no mistério, no medo e na morte, sonhando em ser alguém digno e poder dormir todas as noites em paz - o que jamais aconteceu. 

eu lembro de meus amigos à mesa jogando cartas enquanto alguns ficavam muito loucos de pó e algumas garotas se esfregavam em nossos colos, aí já tinha 18. 

recuo e relembro quando ia com meu pai de copacabana até são joão de meriti, então pegávamos um belo ônibus que passava pela dutra e eu me sentia feliz por ser um ajudante de loja aos sete anos de idade.

lembro de minha mãe comprar uma caixa de madeira de um velhinho na rua viveiros de castro, ele era bem velhinho e essa caixa até hoje serve para guardar meus botões. 

eu me lembro de todas as vezes que sofri bullying na escola, todas as humilhações ridículas e todos os rostos dos algozes - a maioria se tornou a mediocridade esperada. 

eu me lembro de uma garota que beijei sem saber o nome, no meio do ajuri de cotia com dez mil escoteiros em 1985. lembro de quase todas as admirações e paixões que tive, vividas ou não, não sei se sou lembrado. 

lembro das últimas palavras que não troquei com xuru e fred, cujas ausências são dolorosas ao extremo para mim, isso com 14 ou 18 anos atrás. e lembro do dia em que fiquei amigo do xuru em 1984, assim como lembro da primeira vez em que fui à casa do fred em 1977. 

eu me lembro de ter visto os paralamas do sucesso no parque lage, quando ninguém os conhecia. 

eu me lembro do bar bole bole e de billy blanco cruzando diariamente o shopping dos antiquários. 

lembro de antológicas noites no campo em arcozelo, vale do sol, imbuí, serra dos órgãos e vassouras - japuíba-patis-gaviões, 1987. 

eu me lembro de ter jogado botão com augusto, luis e marcelinho debaixo da escada volante em 1978, e de ter assistido aulas de catecismo com floriano em 1979. 

eu me lembro de ter acariciado uma gata por baixo da mesa enquanto seu noivo tinha ido ao banheiro do bar, 1995. 

eu me lembro quando vi chocão pela primeira vez e ela era bem pequenininha. 

eu lembro de lula perseguido pela imprensa numa denúncia do pasquim de 1978. e me lembro do homem cadeirante triste, usando uma sonda debaixo da marquise do shopping dos antiquários em 1993. 

bem mais longe, lembro de minha primeira entrada no shopping em 1975, vindo da Toneleiro e acessando pela siqueira campos. eu me lembro de dri, roberto e nilton jogando bola no bairro peixoto em 1981. lembro do lazlo e do janjão, que foram meus vizinhos em 1978, assim como o luiz fernando português, o marcelo e a maravilhosa zuleika. 

eu lembro de todas as injustiças e portas na cara que sofri, e me lembro também das pouquíssimas pessoas que me deram a mão sem oportunismo. 

eu me lembro quando chorei de alegria pela primeira vez, quando passei para a uerj - tem apenas 35 anos. 

minha memória tem coisas demais, é minha delícia e desastre ao mesmo tempo. 

ainda me lembro.

@pauloandel