o negrume de um
quarto
escuro
e procuro no teto
o mapa mundi
do fim do
mundo
o mês que se despede
a opressão que insiste
em coibir a vida:
a liberdade
é uma farsa
de calças arriadas
debaixo do teto
de um quarto escuro
funciona um bunker
de proteção contra
o fim do mundo
as mensagens estão
mudas
a palestra parece
vazia
ninguém troca
amores
escondido no escuro
do quarto vazio
numa noite do mundo
quem vai nos salvar
de vez?
os corações perfeitos
parecem arredios
demais
@pauloandel
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Monday, February 26, 2018
Sunday, February 25, 2018
amor mora
onde mora o meu amor
além dos silêncios
e desencontros
ou em palavras que
nunca são ditas?
perdido entre hiatos
náufrago da distância
retrato de natureza
morta
ah, o meu amor
escondido em prateleiras
e postagens
insignificantes
ou em versos de
passos tortos
claudicantes de
um bêbado admirável
ele estende as mãos
de paixão
e pede esmolas
debaixo duma marquise
numa grande avenida
central
o meu amor anda sozinho
por ruas perigosas
e não dá bom dia
a estranhos
não dorme mas sonha
e espera o impossível
na próxima esquina
ele mora longe, longe
sem palavras
o meu amor está falido
em portas arriadas
cadeados fechados
e placas de aluga-se
há poesia em vão
escorrendo entre corações
de peitos vazios
e memórias desperdiçadas
o meu amor tão sozinho
esperando o VLT
às oito horas na Rio Branco
enquanto famílias
felizes trazem os filhos
de mãos dadas
ou alguém olhando
o antigo relógio da Mesbla
subindo a escada do metrô
na Cinelândia
o meu amor é um domingo
à noite
silencioso e fugidio
sem bares lotados
e risos
sem um grito de campeão
o último pouso
no Santos Dumont
enquanto a linda
comissária parece
tão indiferente ao fim
do expediente
o meu amor é um país
destruído
é um féretro vazio
é um livro que não
foi lido
e mora tarde, tarde
ele dá as costas
e dá de ombros
para caminhar sozinho
na madrugada
na avenida chile
procurando a morte
num assalto covarde
- ou celebrando a vida
sob escombros
no coração da grande
cidade
@pauloandel
Wednesday, February 21, 2018
a tristeza soberana da guanabara
inevitável é pensar:
soberana, a tristeza
em meio à tempestade
os desprezados e humilhados
ratos humanos em busca
de toca
os corações solitários
oprimidos
em terra de cobiça
e modernas senzalas
a cidade e suas águas
melancólicas
pela própria natureza:
os famintos, desabrigados
o desprezo tão humano
e alheio ao razoável
a opressão em doses cruas
o desamor a indiferença
o sofrimento em peles queimadas
e drogas letalíssimas
à venda numa TV
que nem Paul Simon acode
o amor que delinque
o tesão que não se
cumpre
os sonhos sob
escombros
a cidade afogada em
lágrimas
não há vagas
não há sonhos
não há abraços
e as mãos mendigas
afagam a morte
sob marquises infiéis
e as mãos mendigas
procuram um aperto
um abraço de palmas
mas só encontram
pequenas moedas, se muito
hoje é um novo dia
para os mais ingênuos
os indiferentes
os homens de negócios
chamando as pessoas
por números e valores
e contas desprezíveis
depois do sinal os
recados
são a consagração
da inutilidade
diante de todos os
mortos
os corações dilacerados
em vão:
somos um lindo planeta!
nosso único pecado
reside na colossal
hipocrisia
ninguém há de resgatar
a lama suja da nossa
insana hipocrisia
o sinal caiu
soberana, a tristeza
em meio à tempestade
os desprezados e humilhados
ratos humanos em busca
de toca
os corações solitários
oprimidos
em terra de cobiça
e modernas senzalas
a cidade e suas águas
melancólicas
pela própria natureza:
os famintos, desabrigados
o desprezo tão humano
e alheio ao razoável
a opressão em doses cruas
o desamor a indiferença
o sofrimento em peles queimadas
e drogas letalíssimas
à venda numa TV
que nem Paul Simon acode
o amor que delinque
o tesão que não se
cumpre
os sonhos sob
escombros
a cidade afogada em
lágrimas
não há vagas
não há sonhos
não há abraços
e as mãos mendigas
afagam a morte
sob marquises infiéis
e as mãos mendigas
procuram um aperto
um abraço de palmas
mas só encontram
pequenas moedas, se muito
hoje é um novo dia
para os mais ingênuos
os indiferentes
os homens de negócios
chamando as pessoas
por números e valores
e contas desprezíveis
depois do sinal os
recados
são a consagração
da inutilidade
diante de todos os
mortos
os corações dilacerados
em vão:
somos um lindo planeta!
nosso único pecado
reside na colossal
hipocrisia
ninguém há de resgatar
a lama suja da nossa
insana hipocrisia
o sinal caiu
Thursday, February 15, 2018
A Globo é a mesma de sempre
É natural que a Globo passe a mirar seus fuzis para a Tuiuti.
Acostumada a colonizar opiniões, oprimir e apartar brasileiros por meio de castas, ela não toleraria impunemente a verdadeira humilhação que passou na Sapucaí, ao ter pago para transmitir a demolição de suas mentiras em rede internacional. E, como sempre faz, agora busca meios para destruir moralmente sua nova inimiga número um.
A "novidade" é, em nome de sua ética elástica, apontar o terrível acidente que vitimou uma pessoa ano passado na avenida como a "mancha" para o desfile-denúncia que ganhou o mundo no Carnaval 2018. Tudo dentro das perspectivas de cinismo de quem vê o povo brasileiro apenas como mercado consumidor, dócil e submisso.
Quantos crimes contra o povo brasileiro têm sido estimulados, apoiados ou promovidos pela Globo no último meio século?
A mesma Globo que fez tudo para sabotar o Carnaval de 1984. Ou a que apoiou todos os golpes contra a democracia no Brasil, para décadas depois 'pedir desculpas' cinicamente. Ou a que editou criminosamente um debate presidencial para impor seu candidato ao país, elegê-lo a marretadas e depois descartá-lo quando ele contrariou algum de seus interesses.
A Globo que hipocritamente denuncia o 'crime' da Tuiuti é a mesma que sempre apoiou, bajulou e promoveu poderosos homens do Carnaval, todos eles com enorme ficha criminal desde sempre. Nunca se preocupou com crime algum. É uma farsa. O que lhe incomoda é ter sido desafiada perante o povo brasileiro, sem capacidade de reação simultânea, exceto a ridícula supressão de comentários na reprise do dia seguinte.
A mesma Globo que, anualmente, com a força de seu dinheiro (obtido dos pobres que ela tanto odeia), humilha as escolas de samba porque "paga a transmissão". O desfile é transmitido cortado para dezenas de milhões de pessoas há anos. As primeiras escolas a desfilar, excluídas. Trabalhadores de um ano inteiro são condenados à invisibilidade para que ela, Globo, possa exercer os seus caprichos de programação. Quem não aceitar, está fora.
A mesma Globo que 'promove o futebol', impondo-o nos horários mais estapafúrdios, mas paga propina para a FIFA visando unicamente benefício próprio. Ética e moral seletivas.
A mesma Globo que quer triturar o brasileiro com essa farsa da reforma da presidência, mas que não esboça a menor preocupação quando um de seus funcionários, alçado à condição de 'presidenciável' (é a cara da emissora), 'fatura' um jatinho no BNDES para gerar zero emprego. Aliás, falando em dinheiro público, em matéria de calotar tributos a empresa de comunicação (editada) é multicampeã de todos os Carnavais. E depois coloca a culpa nas aposentadorias...
A mesma Globo farsante que, durante anos e anos, tentou destruir a imagem de Leonel Brizola, até que um dia foi humilhada em suas próprias câmeras de transmissão por determinação da Justiça, a mesma que hoje ela faz tudo para manipular, tratando os brasileiros como marionetes ou fantoches.
Qualquer semelhança de reação odiosa contra o desfile da Tuiuti em 2018 e o vídeo abaixo não é mera coincidência.
Nos dois casos, a Globo foi desmascarada em rede nacional, diante de suas próprias barbas.
https://youtu.be/ObW0kYAXh-8
Acostumada a colonizar opiniões, oprimir e apartar brasileiros por meio de castas, ela não toleraria impunemente a verdadeira humilhação que passou na Sapucaí, ao ter pago para transmitir a demolição de suas mentiras em rede internacional. E, como sempre faz, agora busca meios para destruir moralmente sua nova inimiga número um.
A "novidade" é, em nome de sua ética elástica, apontar o terrível acidente que vitimou uma pessoa ano passado na avenida como a "mancha" para o desfile-denúncia que ganhou o mundo no Carnaval 2018. Tudo dentro das perspectivas de cinismo de quem vê o povo brasileiro apenas como mercado consumidor, dócil e submisso.
Quantos crimes contra o povo brasileiro têm sido estimulados, apoiados ou promovidos pela Globo no último meio século?
A mesma Globo que fez tudo para sabotar o Carnaval de 1984. Ou a que apoiou todos os golpes contra a democracia no Brasil, para décadas depois 'pedir desculpas' cinicamente. Ou a que editou criminosamente um debate presidencial para impor seu candidato ao país, elegê-lo a marretadas e depois descartá-lo quando ele contrariou algum de seus interesses.
A Globo que hipocritamente denuncia o 'crime' da Tuiuti é a mesma que sempre apoiou, bajulou e promoveu poderosos homens do Carnaval, todos eles com enorme ficha criminal desde sempre. Nunca se preocupou com crime algum. É uma farsa. O que lhe incomoda é ter sido desafiada perante o povo brasileiro, sem capacidade de reação simultânea, exceto a ridícula supressão de comentários na reprise do dia seguinte.
A mesma Globo que, anualmente, com a força de seu dinheiro (obtido dos pobres que ela tanto odeia), humilha as escolas de samba porque "paga a transmissão". O desfile é transmitido cortado para dezenas de milhões de pessoas há anos. As primeiras escolas a desfilar, excluídas. Trabalhadores de um ano inteiro são condenados à invisibilidade para que ela, Globo, possa exercer os seus caprichos de programação. Quem não aceitar, está fora.
A mesma Globo que 'promove o futebol', impondo-o nos horários mais estapafúrdios, mas paga propina para a FIFA visando unicamente benefício próprio. Ética e moral seletivas.
A mesma Globo que quer triturar o brasileiro com essa farsa da reforma da presidência, mas que não esboça a menor preocupação quando um de seus funcionários, alçado à condição de 'presidenciável' (é a cara da emissora), 'fatura' um jatinho no BNDES para gerar zero emprego. Aliás, falando em dinheiro público, em matéria de calotar tributos a empresa de comunicação (editada) é multicampeã de todos os Carnavais. E depois coloca a culpa nas aposentadorias...
A mesma Globo farsante que, durante anos e anos, tentou destruir a imagem de Leonel Brizola, até que um dia foi humilhada em suas próprias câmeras de transmissão por determinação da Justiça, a mesma que hoje ela faz tudo para manipular, tratando os brasileiros como marionetes ou fantoches.
Qualquer semelhança de reação odiosa contra o desfile da Tuiuti em 2018 e o vídeo abaixo não é mera coincidência.
Nos dois casos, a Globo foi desmascarada em rede nacional, diante de suas próprias barbas.
https://youtu.be/ObW0kYAXh-8
Tuesday, February 13, 2018
todos todos os dias
todos os dias, morre um policial a tiros, disparados por armas que os bandidos compram da própria polícia.
todos os dias, os golpistas tentam convencer os golpeados de que a corrupção deles é legítima.
todos os dias, escravos contemporâneos batem palmas para os maus atos dos senhores de engenho da era moderna - e vibram com as chicotadas que sofrerão
todos os dias, a estupidez comum impede o entendimento das manipulações praticadas pela TV, seus jornais e demais veículos de comunicação
todos os dias a massa de manobra não percebe que é manobrada, enquanto os fantoches se divertem com a própria mediocridade
todos os dias, o ódio tem vencido o amor, a fome tem vencido o conforto, a hipocrisia tem vencido a sensatez, a cobiça tem vencido a paz
todos os dias, a humanidade escorre pelos ralos em troca de nada, a maior parte das vidas é sofrimento em troca de nada, a miséria é a lei magna
todos os dias são a casa grande para poucos, a senzala para uma multidão, mas ficamos felizes com nossos smartphones em plena idade média
todos os dias são mãos mendigas estendidas, gravatas e ternos em correria, ladrões em bando dando porrada e matando, o caos latejando
todos os dias são de cidades esfaceladas, vidas perdidas, ordem e progresso das mentiras e crimes, a banalidade da morte, a opressão
todos os dias são pavor, morte, tristeza, pobreza, exclusão, aparte, insensatez, ignorância, tragédia e muita estupidez
é preciso mudar estes dias, a ferro e fogo, a espuma de sangue a brilhar, acabar com uma escravidão que nunca foi extinta, apenas realinhada, adaptada, marretada
@pauloandel
todos os dias, os golpistas tentam convencer os golpeados de que a corrupção deles é legítima.
todos os dias, escravos contemporâneos batem palmas para os maus atos dos senhores de engenho da era moderna - e vibram com as chicotadas que sofrerão
todos os dias, a estupidez comum impede o entendimento das manipulações praticadas pela TV, seus jornais e demais veículos de comunicação
todos os dias a massa de manobra não percebe que é manobrada, enquanto os fantoches se divertem com a própria mediocridade
todos os dias, o ódio tem vencido o amor, a fome tem vencido o conforto, a hipocrisia tem vencido a sensatez, a cobiça tem vencido a paz
todos os dias, a humanidade escorre pelos ralos em troca de nada, a maior parte das vidas é sofrimento em troca de nada, a miséria é a lei magna
todos os dias são a casa grande para poucos, a senzala para uma multidão, mas ficamos felizes com nossos smartphones em plena idade média
todos os dias são mãos mendigas estendidas, gravatas e ternos em correria, ladrões em bando dando porrada e matando, o caos latejando
todos os dias são de cidades esfaceladas, vidas perdidas, ordem e progresso das mentiras e crimes, a banalidade da morte, a opressão
todos os dias são pavor, morte, tristeza, pobreza, exclusão, aparte, insensatez, ignorância, tragédia e muita estupidez
é preciso mudar estes dias, a ferro e fogo, a espuma de sangue a brilhar, acabar com uma escravidão que nunca foi extinta, apenas realinhada, adaptada, marretada
@pauloandel
Monday, February 12, 2018
tempestade
há muitos anos tenho
visto as dores
o sofrimento
dos outros o meu
todos parecem tão
felizes enquanto
choro - ninguém repara
ou finge não perceber
tenho sido testemunha
das misérias infinitas
da indiferença e até
do ódio cru e rijo
já vi de perto os dramas
as tragédias as mortes
o desespero e muitas vezes
não encontrei
outras lágrimas além
das minhas
ah, as pessoas estão
ocupadas
elas têm suas vidas
ou estão desinteressadas:
ninguém tem culpa
deste mundo injusto
e cruel exceto
a raça humana
agora vejo a melancolia
a violência o ódio
o assassinato por nada
ou quase nada ou qualquer
coisa - a selvageria venceu:
ela mora nos discursos
dos homens brancos de bem
e também nos porretes dos
bandidos pretos e brancos
ou de qualquer outra pele
agora vejo o passado em
remake: a idade média tem
smartphone o crime tem
piratas e quadrilhas selvagens
enquanto se mija e caga
nas ruas tão carnavalescas
agora o futuro é ontem
a esperança virou desprezo
e só falta acontecer de vez
a nova guerra dos cem anos
as cruzadas os corpos
estraçalhados por cavalos
as cabeças decapitadas
tudo está aí no jornal nacional
e o contragolpe não será
televisionado o contragolpe
não será televisionado
ainda somos os mesmos
e vivemos chicoteados
por manchetes editadas
por farsas golpistas e mãos
estendidas à espera de
uma esmola em salvação
há muitos anos tenho sido
o menino mais triste
do mundo
não importa quem esteja
ao meu lado a cada passo
eu choro pelas dores de tudo
e sou o menino mais triste
do mundo ainda mais agora
que o fim parece tão mais
perto do que o começo
mas as pessoas estão felizes
ou fingem estar felizes
- o errado sou eu certamente
não sei enganar a mim mesmo
e sei que o tempo é cada vez
mais escasso e rápido, rápido
minha dor reside em testemunhar
a grande ilusão do mundo
e toda a minha impotência
não salvarei nem a minha vida
triste e deprimente vida - não:
eu não tenho mais tempo
nem força nem esperanças
em deixar um pedacinho
de terra melhor do que encontrei:
nem terra eu tenho!
o que me restou foi procurar
beleza em meio a uma
tempestade interminável
minha dor respira, inspira, respira
sem ajuda de aparelhos sem atenção
caridade ou amizade sem mais ninguém
a minha dor é o que me basta
@pauloandel
visto as dores
o sofrimento
dos outros o meu
todos parecem tão
felizes enquanto
choro - ninguém repara
ou finge não perceber
tenho sido testemunha
das misérias infinitas
da indiferença e até
do ódio cru e rijo
já vi de perto os dramas
as tragédias as mortes
o desespero e muitas vezes
não encontrei
outras lágrimas além
das minhas
ah, as pessoas estão
ocupadas
elas têm suas vidas
ou estão desinteressadas:
ninguém tem culpa
deste mundo injusto
e cruel exceto
a raça humana
agora vejo a melancolia
a violência o ódio
o assassinato por nada
ou quase nada ou qualquer
coisa - a selvageria venceu:
ela mora nos discursos
dos homens brancos de bem
e também nos porretes dos
bandidos pretos e brancos
ou de qualquer outra pele
agora vejo o passado em
remake: a idade média tem
smartphone o crime tem
piratas e quadrilhas selvagens
enquanto se mija e caga
nas ruas tão carnavalescas
agora o futuro é ontem
a esperança virou desprezo
e só falta acontecer de vez
a nova guerra dos cem anos
as cruzadas os corpos
estraçalhados por cavalos
as cabeças decapitadas
tudo está aí no jornal nacional
e o contragolpe não será
televisionado o contragolpe
não será televisionado
ainda somos os mesmos
e vivemos chicoteados
por manchetes editadas
por farsas golpistas e mãos
estendidas à espera de
uma esmola em salvação
há muitos anos tenho sido
o menino mais triste
do mundo
não importa quem esteja
ao meu lado a cada passo
eu choro pelas dores de tudo
e sou o menino mais triste
do mundo ainda mais agora
que o fim parece tão mais
perto do que o começo
mas as pessoas estão felizes
ou fingem estar felizes
- o errado sou eu certamente
não sei enganar a mim mesmo
e sei que o tempo é cada vez
mais escasso e rápido, rápido
minha dor reside em testemunhar
a grande ilusão do mundo
e toda a minha impotência
não salvarei nem a minha vida
triste e deprimente vida - não:
eu não tenho mais tempo
nem força nem esperanças
em deixar um pedacinho
de terra melhor do que encontrei:
nem terra eu tenho!
o que me restou foi procurar
beleza em meio a uma
tempestade interminável
minha dor respira, inspira, respira
sem ajuda de aparelhos sem atenção
caridade ou amizade sem mais ninguém
a minha dor é o que me basta
@pauloandel
Sunday, February 11, 2018
um abraço de Carnaval
Dois homens conversando nas imediações da Mem de Sá em plena alvorada do domingo de Carnaval. Podiam estar indo ou vindo, mas ali eram apenas dois confidentes, talvez tentando espantar a tristeza com um dos únicos punhados de celebração destas terras, que é quando as pessoas vão às ruas e cantam, dançam, transam, gozam, vibram e procuram algum sentido numa vida que é, entre sofrimentos, o intervalo para um trago ou um gole.
Falavam baixo para uma festa e alto para a madrugada, quase atrapalhando o sono desesperado dos mendigos nas imediações. Falavam de samba e sociedade, de alguma alegria e afeto, de pequenos brindes e deliciosas ilusões.
Quando se abraçaram, eram mais do que amigos ou irmãos. Dois camaradas, dois sobreviventes da guerrilha urbana, dois trabalhadores humildes celebrando os últimos momentos da primeira grande noite de Carnaval.
Um tomou um ônibus qualquer. O outro tomou o caminho de casa a pé. A noite acabou, o silêncio apareceu, o negrume do céu fica cada vez mais azulado, a Praça da Apoteose estava deitada em seu berço esplêndido. Ainda vai ter festa, mas tudo passa tão rápido que é preciso saborear cada momento.
Duma janela nas imediações, um velho homem testemunhara a despedida dos dois camaradas. Pensando em seu passado, quando acreditava ter amigos e estar longe do fim, ele se calou e chorou.
É Carnaval, mas existe um estranho cheiro de ruas tristes no ar.
Falavam baixo para uma festa e alto para a madrugada, quase atrapalhando o sono desesperado dos mendigos nas imediações. Falavam de samba e sociedade, de alguma alegria e afeto, de pequenos brindes e deliciosas ilusões.
Quando se abraçaram, eram mais do que amigos ou irmãos. Dois camaradas, dois sobreviventes da guerrilha urbana, dois trabalhadores humildes celebrando os últimos momentos da primeira grande noite de Carnaval.
Um tomou um ônibus qualquer. O outro tomou o caminho de casa a pé. A noite acabou, o silêncio apareceu, o negrume do céu fica cada vez mais azulado, a Praça da Apoteose estava deitada em seu berço esplêndido. Ainda vai ter festa, mas tudo passa tão rápido que é preciso saborear cada momento.
Duma janela nas imediações, um velho homem testemunhara a despedida dos dois camaradas. Pensando em seu passado, quando acreditava ter amigos e estar longe do fim, ele se calou e chorou.
É Carnaval, mas existe um estranho cheiro de ruas tristes no ar.
Wednesday, February 07, 2018
eu não tenho a menor ideia
se
existe alguma verdade
ela é: não sei
ela é: não sei
não
sei da minha vida
não tenho planos
não sei se a minha morte
está logo aqui ou longe
não sei quem me amou ou ama
quem gosta de mim
quem me abraçou de verdade
e sente falta
não sei direito a quem ajudei
se influenciei alguém
quem se emocionou com algo que fiz
eu não sei quem pensa em mim com amor
não tenho a menor ideia de quando fui marcante
ou se fiz chorar por algo bonito
não tenho planos
não sei se a minha morte
está logo aqui ou longe
não sei quem me amou ou ama
quem gosta de mim
quem me abraçou de verdade
e sente falta
não sei direito a quem ajudei
se influenciei alguém
quem se emocionou com algo que fiz
eu não sei quem pensa em mim com amor
não tenho a menor ideia de quando fui marcante
ou se fiz chorar por algo bonito
será
que lembram de mim no sniff?
no que sobrou do loreninha?
ou da parede de uma casa aos escombros
em arraial do cabo?
quem comprou discos de jazz comigo
em ipanema?
quem me ouviu em mesas de bar?
no que sobrou do loreninha?
ou da parede de uma casa aos escombros
em arraial do cabo?
quem comprou discos de jazz comigo
em ipanema?
quem me ouviu em mesas de bar?
eu não
tenho a menor ideia
se sou importante para uma única pessoa que seja
e realmente não penso nisso:
o que fiz e tenho feito é ser sincero
amar e ajudar o próximo
desde os tempos em que fiz uma promessa
quando era um garoto com o mundo pela frente
quando fred era meu amigo inseparável
e jogávamos botão à tarde numa mesa de tacos
se sou importante para uma única pessoa que seja
e realmente não penso nisso:
o que fiz e tenho feito é ser sincero
amar e ajudar o próximo
desde os tempos em que fiz uma promessa
quando era um garoto com o mundo pela frente
quando fred era meu amigo inseparável
e jogávamos botão à tarde numa mesa de tacos
eu não
tenho a menor ideia
de quem me lê ou escuta
quem sorri com minhas pequenas trapaças
em versos tortuosos e nada óbvios
quem entende por que vivo numa guerra particular
chorando e vendo os destroços da gente
amontoados debaixo das marquises?
de quem me lê ou escuta
quem sorri com minhas pequenas trapaças
em versos tortuosos e nada óbvios
quem entende por que vivo numa guerra particular
chorando e vendo os destroços da gente
amontoados debaixo das marquises?
eu não
sei
sobre os piores futuros que se avizinham
sobre o meu tempo
que é cada vez mais perto do fim
do que do começo
das coisas que passam velozes
feito a paisagem numa bela janela
do vlt
sobre os piores futuros que se avizinham
sobre o meu tempo
que é cada vez mais perto do fim
do que do começo
das coisas que passam velozes
feito a paisagem numa bela janela
do vlt
eu não
sei dizer
porque gosto tanto de miles davis
e jorge mautner e carlito azevedo
de rubens figueiredo e cacaso
e também jards macalé - tom zé
como se todos estivessem comigo
a conversar sobre o nada - uma ilusão
eu não sei dizer
porque sempre choro no cinema
e sofro tanto com a dor de um mundo
que não tem solução
nem que eu fosse egoísta
e só pensasse em mim mesmo
porque gosto tanto de miles davis
e jorge mautner e carlito azevedo
de rubens figueiredo e cacaso
e também jards macalé - tom zé
como se todos estivessem comigo
a conversar sobre o nada - uma ilusão
eu não sei dizer
porque sempre choro no cinema
e sofro tanto com a dor de um mundo
que não tem solução
nem que eu fosse egoísta
e só pensasse em mim mesmo
eu não
sei dizer
se whatsapp é amizade mesmo
se normalidade é distância e frieza
não sei dizer o que é normal
no dito mundo dos adultos
o quê?
se whatsapp é amizade mesmo
se normalidade é distância e frieza
não sei dizer o que é normal
no dito mundo dos adultos
o quê?
[aqui
padeço a cada dia
como se cumprisse uma pena
como se cumprisse uma pena
eu não
entendo o mundo e seus rancores
suas vaidades ocas
o pedantismo reinante
se vamos todos um dia
ser carne apodrecida ou cinzas
numa caixinha
suas vaidades ocas
o pedantismo reinante
se vamos todos um dia
ser carne apodrecida ou cinzas
numa caixinha
é tudo
tão inútil
eu não
tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
e sigo vivendo até não sei quando
o que virá
o que virá
a luz no fim do túnel
o desabamento final
ou qualquer coisa muito diferente
de todas as que pensei
e vivi - até aqui quase nada
fez sentido mas talvez
o grande lance seja mesmo este:
ficamos a procurar pela vida inteira
o que não existe
o que faça sentido porque
na verdade a vida e o sentido
devem caminhar em paralelas perfeitas
de todas as que pensei
e vivi - até aqui quase nada
fez sentido mas talvez
o grande lance seja mesmo este:
ficamos a procurar pela vida inteira
o que não existe
o que faça sentido porque
na verdade a vida e o sentido
devem caminhar em paralelas perfeitas
[elas jamais se cruzam
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
@pauloandel
Monday, February 05, 2018
o suicídio da cidade
há tristeza
tão sincera por
todos os poros
tão sincera por
todos os poros
da cidade
mergulhada na
falsa felicidade
do Facebook
nas verdades ocas
do WhatsApp
nas manchetes mentirosas
dos jornais
e suas imitações baratas
a tristeza é vencedora
nos semblantes arrogantes
na indiferença para com
as mãos de esmola
no ir e vir das gentes apressadas
no silêncio dos vagões lotados
e cabeças pensantes
com fones de ouvido
há tristeza na política
feita por gente de merda
na hipocrisia de generais
e juízes de merda
tristeza nas grandes avenidas
nas vielas, nas ruas esquecidas
há tristeza nas mãos armadas
de jovens traficantes
deixando a vida escorrer
em rastilhos de sangue seco
a tristeza nas portas das lojas
cerradas
nas vagas já preenchidas
na violência primitiva
no desamor que prevalece
e no amor que só existe
nos desencontros
há tristeza numa banca de revistas
sem leitores
numa carrocinha de açaí
sem compradores
numa linda praia de Copacabana
deserta e fria
há tristeza nos arredores
da Cinelândia
e da avenida Rio Branco
é carnaval, e daí?
a tristeza é a grande vencedora
a campeã do desfile
escondida entre os sorrisos
a cantoria, o tesão
a tristeza pelo que poderia ter sido
mas nunca será
a geografia permanecerá intocável
mas é impossível esconder
a tristeza: somos sem dúvida
uma cidade triste
por todos os poros de concreto
em cada gota de sangue
nas artérias de asfalto
tanta beleza infinita
num mar interminável
de corações tristes
e outros, infames, egoístas
é carnaval, é carnaval
mas muitos de nós carregamos
no peito um funeral
lágrimas contidas
e a sensação de que já
fizemos o suficiente
o suficiente
o suicídio da cidade é um poema
alguém não para de chorar!
celebremos o fim do que sequer
começou
@pauloamdel
Sunday, February 04, 2018
somos todos ódio
agora temos ordem
e progresso
somos todos
ódio
cólera
desprezo e empáfia
no outro vemos apenas
um escravo
um bosta
um número
odiamos nossos vagabundos
na calçada
mas aplaudimos nossos pilantras
de gravata
parecemos tão antenados
mas somos cópias do discurso
da televisão
as chacinas já não nos importam
não temos nada a ver com isso
e acreditamos com fé, santa fé
em nossa estupidez carnavalesca
adoramos criticar ditadores
mas somos incapazes de enxergar
a tirania que envolve as nossas favelas
as nossas favelas
as ruas e praças e bairros:
viramos reféns da nossa própria indiferença
o que podemos oferecer é ódio
foda-se o outro o pobre o bosta
somos pessoas de bem
quem nunca saiu na mão com uma mulher?
quem nunca recebeu auxílio moradia?
nós somos contra a corrupção
(dos outros)
nós somos em defesa da família
(a nossa)
e assim vivemos em berço esplêndido
da nossa fina hipocrisia
namorando vitrines de shoppings
gritando uhu atrás dos cordões
xingando o show da travesti
e nos calando diante de traficantes morais
um helicóptero de cocaína não nos importa
queremos ser classe pose e presença
mas na essência
não passamos de filhasdasputas
- eis o nosso doutorado!
e progresso
somos todos
ódio
cólera
desprezo e empáfia
no outro vemos apenas
um escravo
um bosta
um número
odiamos nossos vagabundos
na calçada
mas aplaudimos nossos pilantras
de gravata
parecemos tão antenados
mas somos cópias do discurso
da televisão
as chacinas já não nos importam
não temos nada a ver com isso
e acreditamos com fé, santa fé
em nossa estupidez carnavalesca
adoramos criticar ditadores
mas somos incapazes de enxergar
a tirania que envolve as nossas favelas
as nossas favelas
as ruas e praças e bairros:
viramos reféns da nossa própria indiferença
o que podemos oferecer é ódio
foda-se o outro o pobre o bosta
somos pessoas de bem
quem nunca saiu na mão com uma mulher?
quem nunca recebeu auxílio moradia?
nós somos contra a corrupção
(dos outros)
nós somos em defesa da família
(a nossa)
e assim vivemos em berço esplêndido
da nossa fina hipocrisia
namorando vitrines de shoppings
gritando uhu atrás dos cordões
xingando o show da travesti
e nos calando diante de traficantes morais
um helicóptero de cocaína não nos importa
queremos ser classe pose e presença
mas na essência
não passamos de filhasdasputas
- eis o nosso doutorado!
Wednesday, January 31, 2018
o poema da grande farsa
Radiohead,
The Bends, 1995
You
can force it, but it will not come
You can taste it, but it will not form
You can crush it, but it’s always here
You can crush it, but it’s always near
You can taste it, but it will not form
You can crush it, but it’s always here
You can crush it, but it’s always near
Chasing
you home
Saying
Saying
Everything
is broken
Everyone
is broken
You
can force it, but it will stay stung
You can crush it as dry as a boné
You can walk it home straight from school
You can kiss it, you can break all the rules
You can crush it as dry as a boné
You can walk it home straight from school
You can kiss it, you can break all the rules
All
the rules
But still
But still
Everything
is broken
Everyone
is broken
Everyone
is
Everyone is broken
Everyone is broken
Everyone
is
Everything is broken
Everything is broken
Why
can’t you forget?
Why can’t we forget?
Why can’t you forget?
Why can’t we forget?
Why can’t you forget?
xxxxxxxxxx
Você
pode forçá-lo mas isso não virá
Você pode prová-lo mas isso não vai se consolidar
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará aqui
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará por perto
Te seguindo até sua casa dizendo
Você pode prová-lo mas isso não vai se consolidar
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará aqui
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará por perto
Te seguindo até sua casa dizendo
Tudo
está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo mundo está quebrado
Você
pode forçá-lo mas isso continuará incomodando
Você pode esmagá-lo tão seco quanto um osso
Você pode levá-lo à casa direto desde a escola
Você pode beijá-lo, você pode quebrar todas as regras
Todas as regras, mas ainda
Você pode esmagá-lo tão seco quanto um osso
Você pode levá-lo à casa direto desde a escola
Você pode beijá-lo, você pode quebrar todas as regras
Todas as regras, mas ainda
Tudo
está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo
mundo está
Todo mundo está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo
mundo está
Tudo está quebrado
Tudo está quebrado
Por
que você não pode esquecer?
Por que nós não podemos esquecer?
Por que você não pode esquecer?
xxxxxxxxxx
Por que nós não podemos esquecer?
Por que você não pode esquecer?
xxxxxxxxxx
RAY CHARLES
duas
e meia da manhã
o sono está morto
a noite está viva
ray charles canta na TV
e parece vivo demais
cego, enxerga tudo:
os tons, as matizes
america the beautiful
ray charles é cego
mas enxerga tudo no mundo
correm os metais de Montreux
you make me feel so Young
meu país é um sequestro
meu povo, perdição
meu time é a mais alegre
das tristezas
meu povo, exílio
existe ódio nas esquinas
a plateia bate palmas
a eterna voz ainda ecoa
o sono está morto
a noite está viva
ray charles canta na TV
e parece vivo demais
cego, enxerga tudo:
os tons, as matizes
america the beautiful
ray charles é cego
mas enxerga tudo no mundo
correm os metais de Montreux
you make me feel so Young
meu país é um sequestro
meu povo, perdição
meu time é a mais alegre
das tristezas
meu povo, exílio
existe ódio nas esquinas
a plateia bate palmas
a eterna voz ainda ecoa
é
impossível ser feliz sem música
meu país acabou
deixe seu recado no whatsapp
ray charles me redime
da dor e tristeza insone
meu país acabou
deixe seu recado no whatsapp
ray charles me redime
da dor e tristeza insone
xxxxxxxxxx
O POEMA DA GRANDE FARSA
ATENÇÃO: NÃO RECOMENDADO
PARA IDIOTAS. PROVOCA EFEITOS
COLATERAIS. LEIA A BULA.
PARA IDIOTAS. PROVOCA EFEITOS
COLATERAIS. LEIA A BULA.
todo esse ódio veio de longe e vai dar merda quem ri desse mar de ódio
ainda vai lembrar quando tomar a pedrada nos cornos do ódio um tricolor com
ódio do outro e meia dúzia de picaretas sonhando com a vitória meia dúzia de
picaretas sonhando com emprego meia dúzia de picaretas pensando em si e o resto
que se foda o amor tem sempre a porta aberta tem dois fluminenses um é eterno
das lembranças do amor da luta dos abraços até nas horas mais difíceis perdendo
ou ganhando o outro acabou aquele dos abraços e de uma só torcida acabou
parabéns panfleteiros do ódio parabéns candidatos do ódio parabéns
situacionistas do ódio parabéns higienistas da arquibancada do ódio parabéns
irresponsáveis do ódio o Fluminense vai ganhar e perder ruim ou bom vai
sobreviver mas uma coisa acabou morreu já se encontra em adiantado estado de decomposição o respeito entre os irmãos de arquibancada está tudo morto e podre
as vísceras rachadas as carnes dilaceradas os vermes navegando por entre os
restos de músculos o cheiro de merda lancinante o fedor do ódio o imbecil que
sorri do incêndio enquanto a vítima faz seus últimos acenos da bela janela
francesa antes do braço desaparecer no meio da fumaça preta o Fluminense está
vivo vai viver o ódio venceu apenas os idiotas comemoram somente os idiotas
semeiam o ódio todo idiota tem no ódio a sua única fonte de sobrevivência viver
o Fluminense sem intermediários sem filhasdasputas que só pensam em lucro sem
filhasdasputas que só pensam em cargos sem filhasdasputas que só pensem em si
só os idiotas se acham superiores com ódio nosso futuro recomeça o grande cão
late na porta do umbral esperando por todas as almas insanas e sementes ódio mil vezes ódio estúpido eis a grande farsa o ódio é a farsa todos são
fluminenses muitos são cada um por si outros pensam na morte do outro na
destruição do outro mas só quem morre é o Fluminense todos serão infelizes para
sempre os sócios estão mortos os torcedores estão mortos as carnes estão
putrefatas O FLUMINENSE vai viver vai sobreviver vai seguir seu caminho o ódio precisa morrer quem semeia o ódio está morto e não sabe todos devem renunciar
todos devem renunciar a grande farsa todos estão neste mesmo prédio em chamas e
uns acham que só os outros vão morrer o poder está morto a contestação está
morta a luta continua amanhã é um novo dia é preciso protestar contra tudo é
preciso tirar o Fluminense da morte mas isso não pode ser a morte de uma
legenda uma torcida um abraço uma arquibancada viva a Young Flu viva a Fôrça
Flu viva o Fluminense dos amores das vitórias improváveis dos timinhos
ganhadores morte aos falsos aos hipócritas às contas mentirosas aos CNPJs morte
à sonegação morte aos defensores do ódio ESTÁ TUDO MORTO ENTERRADO podre burro
estúpido ignorante reacionário imbecil há de haver um jogo há de sempre haver
Fluminense resta abortar todos os intermediários interesseiros de merda resta
desprezar todos os bandidos de computador de merda resta refundar um clube uma
torcida um time uma pátria um amor só os idiotas são felizes só os idiotas
odeiam só os idiotas não sabem renunciar FORA TODOS DE DENTRO DE FORA DE CIMA
DE BAIXO viva Nelson Rodrigues morte a todos os seus imitadores de merda morte
ao ódio morte ao ódio RENUNCIEM TODOS DE DENTRO DE FORA DE CIMA DE BAIXO chega
de ódio chega de incompetência chega de internet chega de livros chega de blogs
chega de redes imbecis chega de famosos de anônimos de bizarros vamos celebrar
a estupidez humana o Fluminense vive respira luta e é um poema verdadeiro não
uma farsa de quatro mil quando milhões o esperam chega de empresários de merda chega de funcionários de merda chega de traição em nome do amor SÓ OS IDIOTAS
SÃO FELIZES venha que o que vem é perfeição Fluminense sem intermediários time
stand still time stand still MANDAR O ÓDIO OS CARGOS A EMPÁFIA A INCOMPETÊNCIA
E 2019 À MERDA o caos é aqui a morte é aqui os inimigos riem de toda a nossa
estupidez nós mesmos nos matamos nós mesmos nos odiamos nós mesmos nos
fuzilamos e sequer nos conhecemos o cu do mundo hora de refundar um clube um
time uma torcida sem escola as crianças mortas não existe salvador da pátria
todos são mentirosos ao assumirem esse papel o ódio deve morrer SÓ OS IDIOTAS
SÃO FELIZES OU INSENSÍVEIS não abracei meu pai morto num jogo do Fluminense à toa só a poesia liberta do ódio e dos ignorantes vamos celebrar nossa
destruição só o Fluminense é importante morra o ódio o hino fala de amor não
sejamos estúpidos todos devem renunciar ao ódio aos cargos às aparências há um
prédio em chamas espuma de sangue a brilhar só bandidos podem comemorar esta
dor esta estupidez todos devem renunciar ao que estão fazendo todos devem podem precisam todas as políticas devem morrer mais do mesmo é a morte na janela
incendiada em nome do ódio somos todos merda terra arrasada a estupidez de quem
agride a estupidez de quem não ouve a estupidez de quem não estende a mão a
estupidez de quem ganha dinheiro às custas da desgraça do Fluminense não vender
o amor próprio não vender as próprias palavras não alugar o próprio caráter oh
santa estupidez a estupidez de quem quer conseguir emprego no Fluminense
aparecer no Fluminense botar uma melancia no pescoço enfiar a melancia na
cloaca os bilionários podem chacoalhar suas joias ódio é merda ódio é merda
tudo precisa mudar a partir deste momento dentro fora aqui aí lá aqui aí eu era
falso porque tinha ódio e morri então o ódio morreu e morto estou cada vez mais
vivo O FLUMINENSE VIVE viverá um dia tão bonito também pode ser o dia de um velório triste não precisará da estupidez de quem cantou esta canção oxalá
aleluia todos os versos são tristes
(este poema contém trechos de “Perfeição”, Renato Russo, 1994; “O cu do
mundo”, Caetano Veloso, 1989; Jards Macalé, “Só morto”, 1969)
Friday, January 26, 2018
city heartbeat
o coração da cidade
quente, forte, nublado
com seus meninos sem
esperança
os mendigos vivem a morte
em vida
e se tornam invisíveis
a quem os vê como lixo
obra do diabo, chorume
gente que não presta!
os grandes edifícios cheios
de indiferença e rancor
dos pavimentos altos não
se escuta o som do térreo
os transeuntes vêm e vão
muito ocupados com música
as grandes filas têm solidão
pouco se percebe o que está ao redor
o coração da cidade
é um peito vazio, perdido
acabrunhado
e assim vamos todos
juntos escrevendo
o futuro
@pauloandel
quente, forte, nublado
com seus meninos sem
esperança
os mendigos vivem a morte
em vida
e se tornam invisíveis
a quem os vê como lixo
obra do diabo, chorume
gente que não presta!
os grandes edifícios cheios
de indiferença e rancor
dos pavimentos altos não
se escuta o som do térreo
os transeuntes vêm e vão
muito ocupados com música
as grandes filas têm solidão
pouco se percebe o que está ao redor
o coração da cidade
é um peito vazio, perdido
acabrunhado
e assim vamos todos
juntos escrevendo
o futuro
@pauloandel
Wednesday, January 24, 2018
porque escrevi FDP
a essência
do fdp contemporâneo
brasilêro
"sem textões.
tudo o que eu tinha a dizer sobre o que aí está.
tem estado. vai estar.
jesus não tem dentes no país das panelas.
o estado mínimo é a escrotidão máxima.
o mais incrível de tudo:
apesar de escrever publicamente
há vinte anos, e de ter vendido alguns
poucos milhares de livros sobre football
consegui mil downloads desta obra grátis
em cinco dias não pelo talento que sei ter
não pela ideia de tributar o grande filósofo
Alberto Pimenta, mas
porque escrevi FDP na capa do livro e
ele é muito mais do que isso.
o brasileiro médio da vitrine do shopping
aquele que repete como papagaio
todas as nossas manchetes farsantes
é ou não é um FDP admirável?
o brasileiro médio é o escravo que tem
tesaum pela chicotada do capitão
do mato.
do mato.
mato!
fiz esse livro de graça
para esfregar na cara dos pobres
diabos
é melhor já ir se acostumando
com o quinto dos infernos, a casa do caraio
o ódio, a fome, a merda
os corpos em decomposição da alma
amontoados debaixo das marquises
muito obrigado aos que me inspiraram:
vocês são três letras
do fundo do meu coração.
paredón para quase todos."
do fdp contemporâneo
brasilêro
"sem textões.
tudo o que eu tinha a dizer sobre o que aí está.
tem estado. vai estar.
jesus não tem dentes no país das panelas.
o estado mínimo é a escrotidão máxima.
o mais incrível de tudo:
apesar de escrever publicamente
há vinte anos, e de ter vendido alguns
poucos milhares de livros sobre football
consegui mil downloads desta obra grátis
em cinco dias não pelo talento que sei ter
não pela ideia de tributar o grande filósofo
Alberto Pimenta, mas
porque escrevi FDP na capa do livro e
ele é muito mais do que isso.
o brasileiro médio da vitrine do shopping
aquele que repete como papagaio
todas as nossas manchetes farsantes
é ou não é um FDP admirável?
o brasileiro médio é o escravo que tem
tesaum pela chicotada do capitão
do mato.
do mato.
mato!
fiz esse livro de graça
para esfregar na cara dos pobres
diabos
é melhor já ir se acostumando
com o quinto dos infernos, a casa do caraio
o ódio, a fome, a merda
os corpos em decomposição da alma
amontoados debaixo das marquises
muito obrigado aos que me inspiraram:
vocês são três letras
do fundo do meu coração.
paredón para quase todos."
Sunday, January 21, 2018
os miseráveis
os miseráveis choram
seus mortos e vivos
estendendo suas mãos
para esmolas de fraternidade
que jamais virão:
os escravos de hoje
são os de ontem, ontem
e muito tempo atrás.
os indiferentes não
têm tempo a perder:
querem apenas viver bem
em nome do tímido deus
não criaram o mundo
e assim explicam as suas
indiferenças
os escravos sentem o açoite
n'alma enquanto vivem
sem uma esmola de paz
seus mortos e vivos
estendendo suas mãos
para esmolas de fraternidade
que jamais virão:
os escravos de hoje
são os de ontem, ontem
e muito tempo atrás.
os indiferentes não
têm tempo a perder:
querem apenas viver bem
em nome do tímido deus
não criaram o mundo
e assim explicam as suas
indiferenças
os escravos sentem o açoite
n'alma enquanto vivem
sem uma esmola de paz
Wednesday, January 17, 2018
Wednesday, January 03, 2018
onze anos sem minha mãe
Quem se lembra do que estava fazendo há exatos onze anos neste momento? Eu cochilava às nove da noite e não sabia que minha mãe estava morta no quarto. Meu pai só percebeu à meia noite e então passei a pior noite de toda a minha vida. Era cedo demais: ela mal completara 61 anos. Morreu dormindo, como merecem os melhores.
A dor mudou minha vida. Eu já escrevia desde os anos 1990 mas não levava muito a sério - a ponto de ter desperdiçado a oportunidade de colaborar com uma revista dirigida por dois vencedores do Prêmio Jabuti. Mas em 2007 tudo mudou: para ocupar a minha cabeça cheia de tristeza, passei a escrever, escrever, escrever e, quase num golpe de sorte, publiquei meu primeiro livro. De lá para cá, já ganhei muitos abraços na rua e em jogos do Fluminense, emocionei muitas pessoas que me agradecem reservadamente, virei amigo dos meus ídolos e o próprio Flu me homenageou. Ok, isso também atraiu gente falsa, interesseira e oportunista, mas só recebe bajulação e pedradas quem está na moda. Foi mal...
Conheci grandes pessoas, fiz rir e chorar muito, juntei amigos - o que nem todo mundo suporta -, e tenho sido um ótimo escritor, sem falsa modéstia. Para quem acha futebol um assunto menor, os Cenas do Centro do Rio aí estão.
A minha diferença primordial para muita gente deslumbrada por aí está num ponto: não comecei nisso em busca do mundo dos likes, dos compartimentos e da "fama" (quantas pessoas são realmente famosas num mundo com transbilhões de pessoas?). Nada disso: quando saiu meu primeiro livro, há sete anos, eu nem tinha Facebook - e o fiz por sugestão de amigos e da editora, para divulgar o trabalho.
O que me trouxe até aqui, quinze livros depois, entre solos e coautorias, foi a tentativa - em vão - de ocupar a minha cabeça depois de perder minha mãe. Isso nunca mais vai mudar e vale para meu pai, minha família, as pessoas queridas. Às vezes choro, todo dia tenho uma saudade de Madredeus, eu me pego pensando em algum momento e então escrevo.
Foi por isso que, um dia, muitos de vocês me conheceram. A todos, um grande abraço e muito obrigado.
A dor mudou minha vida. Eu já escrevia desde os anos 1990 mas não levava muito a sério - a ponto de ter desperdiçado a oportunidade de colaborar com uma revista dirigida por dois vencedores do Prêmio Jabuti. Mas em 2007 tudo mudou: para ocupar a minha cabeça cheia de tristeza, passei a escrever, escrever, escrever e, quase num golpe de sorte, publiquei meu primeiro livro. De lá para cá, já ganhei muitos abraços na rua e em jogos do Fluminense, emocionei muitas pessoas que me agradecem reservadamente, virei amigo dos meus ídolos e o próprio Flu me homenageou. Ok, isso também atraiu gente falsa, interesseira e oportunista, mas só recebe bajulação e pedradas quem está na moda. Foi mal...
Conheci grandes pessoas, fiz rir e chorar muito, juntei amigos - o que nem todo mundo suporta -, e tenho sido um ótimo escritor, sem falsa modéstia. Para quem acha futebol um assunto menor, os Cenas do Centro do Rio aí estão.
A minha diferença primordial para muita gente deslumbrada por aí está num ponto: não comecei nisso em busca do mundo dos likes, dos compartimentos e da "fama" (quantas pessoas são realmente famosas num mundo com transbilhões de pessoas?). Nada disso: quando saiu meu primeiro livro, há sete anos, eu nem tinha Facebook - e o fiz por sugestão de amigos e da editora, para divulgar o trabalho.
O que me trouxe até aqui, quinze livros depois, entre solos e coautorias, foi a tentativa - em vão - de ocupar a minha cabeça depois de perder minha mãe. Isso nunca mais vai mudar e vale para meu pai, minha família, as pessoas queridas. Às vezes choro, todo dia tenho uma saudade de Madredeus, eu me pego pensando em algum momento e então escrevo.
Foi por isso que, um dia, muitos de vocês me conheceram. A todos, um grande abraço e muito obrigado.
Sunday, December 31, 2017
a mudez
calar-se é falar tudo
nas entrelinhas da imaginação
o silêncio que provoca
sugere e excita
que faz pensar e sonhar
a mudez que tudo diz
ou aguça os pensamentos
os desejos provocantes
calar-se é dizer tudo
para o bem e para o mal
para o gozo e a frustração
não dizer, não comentar
observar, querer
e até mesmo desprezar
com classe
calar-se é oferecer
mil caminhos e também
a dúvida: será, será?
nas entrelinhas da imaginação
o silêncio que provoca
sugere e excita
que faz pensar e sonhar
a mudez que tudo diz
ou aguça os pensamentos
os desejos provocantes
calar-se é dizer tudo
para o bem e para o mal
para o gozo e a frustração
não dizer, não comentar
observar, querer
e até mesmo desprezar
com classe
calar-se é oferecer
mil caminhos e também
a dúvida: será, será?
Saturday, December 30, 2017
quinze anos
Eu andava com meu amigo Xuru pela Domingos Ferreira até que chegamos ao prédio onde ficava o grande apartamento de seus padrinhos, falecidos um ano e meio antes - lá fizemos uma grande festa de Réveillon que não deu exatamente certo. Não podíamos mais subir: parentes do Sul, subitamente surgidos, mandaram trocar a fechadura para que não entrássemos mais no apartamento. A missão era apenas pegar as contas na caixa de correio para pagá-las.
Xuru passou a vida inteira frequentando aquele apartamento e, se justiça houvesse, teria herdado o imóvel: era tratado como filho. Foi um pacote duro: além dos padrinhos, ele tinha perdido a mãe e acabara de se recuperar da primeira cirurgia do câncer que o vitimaria menos de três anos depois.
Depois de pegarmos as contas, ficamos olhando para a fachada do luxuoso prédio onde entramos tantas vezes. Segundos depois, ele disse "Paulón, foda-se esse apartamento. Ele só me importava por causa dos meus padrinhos. Se querem ganhar dinheiro com essa merda, que ganhem". E fomos embora, talvez para comer um lanche e tomar um chope.
Esta cena completa exatamente quinze anos hoje.
Xuru foi embora de vez em 2005. Ontem, teria feito 47 anos. Não chegou aos 35. Foi uma luta enorme até o fim. De lá pra cá, muitas coisas mudaram, algumas delas para pior, outras não. Perdi minha família, fiz novos amigos - o Leo hoje é uma espécie de Xuru sem a filosofia, digamos, "bring on the night". De resto, o mundo ficou mais colérico e odioso, o que atinge a tudo: a política, a sociedade, o cotidiano e até mesmo o meu Fluminense, do mesmo jeito que fizeram com o Brasil em 2015.
Este foi um ano de merda. Vi amigos sendo demitidos, pessoas passando mais necessidades, a fome está a olhos nus pelas ruas - só não vê quem não quer - e, no fim das contas, muitas vezes o próximo não está nem aí para você - e depois os outros bichos é que são irracionais. Ok, publiquei três e-books tricolores para download gratuito e, finalmente, dois pocket books sobre o centro desta cidade devastada. Vi grandes shows, namorei, ganhei elogios, involuntariamente também alimentei recalques de gentinha, acontece. Estou vivo, com alguma saúde. Vamos em frente, sem pensar muito. Eu não penso somente em mim e isso é o que me encaminha à infelicidade, mas não me arrependo.
Começarei o ano cheio de problemas, com pouquíssimo apoio e precisando manter a casa em pé, enquanto assisto nas ruas ao sórdido espetáculo diário do sofrimento coletivo. Vida que segue, diria o mestre Saldanha. Vamos para mais uma tentativa. Estou cansado. Muito cansado. Mas é nessa hora em que o sprint é necessário, mesmo sem família, sem Xuru, testemunhando a agonia de um país golpeado, pensando em gente feito meu tio Mendel, que arriscou a vida para defender esta merda e que, deprimido no exílio, cometeu suicídio. Ou sabendo que meus amigos de hoje vivem a vida muito mais pelo Whatsapp do que por qualquer outro meio.
Sem medo nem esperança, olho para trás e me recordo de uma bela lição do meu amigo: o ser humano é mais importante do que qualquer bem material. E mesmo que pareça uma bobagem, eu vou com ela até o final. Só me resta escrever.
Onde está o Xuru?
Thursday, December 28, 2017
impotência
o amigo que sofre
a dor que devasta
o silêncio opressor
nós não somos merda
nenhuma
e perdemos nossos tempos
com tolices em vão
o amor que dorme
o desencontro
a certeza do melhor
que já se foi
o que vai restar dos versos
além das lágrimas?
quando as drogas acabarem
sem lugar para comprar
nós não somos bosta
nenhuma
os cemitérios estão lotados
de likes e compartilhamentos
e visualizações
todos estão mortos
deus seja louvado
vamos aplaudir a queima
dos fogos
e fingir que o novo é novo
é um pé na porta
fingir que não há dor
sofrimento
que o outro não é nada
ah, real estupidez!
vamos aplaudir o ano novo
e o mundo
enquanto somos mortos
vivos mortos
vivos
não há saldo na conta corrente
the time is gone!
hoje a festa é sua
filhadaputa!
a dor que devasta
o silêncio opressor
nós não somos merda
nenhuma
e perdemos nossos tempos
com tolices em vão
o amor que dorme
o desencontro
a certeza do melhor
que já se foi
o que vai restar dos versos
além das lágrimas?
quando as drogas acabarem
sem lugar para comprar
nós não somos bosta
nenhuma
os cemitérios estão lotados
de likes e compartilhamentos
e visualizações
todos estão mortos
deus seja louvado
vamos aplaudir a queima
dos fogos
e fingir que o novo é novo
é um pé na porta
fingir que não há dor
sofrimento
que o outro não é nada
ah, real estupidez!
vamos aplaudir o ano novo
e o mundo
enquanto somos mortos
vivos mortos
vivos
não há saldo na conta corrente
the time is gone!
hoje a festa é sua
filhadaputa!
niilismo
se os novos críticos musicais atacam a Pablo por homofobia, fodam-se eles todos. se ela, Pablo, é obesofóbica, que se foda muito também. fodam-se todos. fodam-se os paneleiros, os golpistas, os ignorantes, os bandidos, os corruptos, os massademanobra. fodam-se os recalcados, as subcelebridades, a flubabaca. fodam-se todos os opressores, os covardes, os machões de teclado, os bonzinhos que não querem se envolver, os estapafúrdios, os coléricos sem causa. fodam-se o mbl, o pfl, as ditaduras da al, as organizações globo, a folha, o estadão, a casa do caralho. fodam-se todos os que estão silenciados perante o helicoca, as propinas da FIFA, a bodytech. fodam-se cabral e sua gang nos quintos do inferno. fodam-se de verdamarelo ou quaisquer cores e cinquenta estrelas. fodam-se os lobistas e vigaristas. foda-se o bitcoin e seus especuladores. foda-se trump e também o velho ridículo golpista do inferno. fodam-se os idiotas que abanam o rabo com as mentiras sobre os dados de emprego, renda e pib. fodam-se todos os egoístas, os fascistas, os totalitaristas do capital. fodam-se, fodam-se muito, sem sexo e gozo, mas o foder da vida. fodam-se os arrogantes, os indiferentes, os que não têm apreço pelo outro, os traidores da amizade. o concreto já rachou, a destruição é a moda, ninguém quer saber de ninguém e que todos estes se fodam. foda-se o ano novo, o carnaval, a copa do mundo, o próximo feriado. fodam-se as mudanças que não virão. foda-se o futuro: ele é a morte. um minuto de silêncio em memória de todos os oprimidos e desprezados neste mundo injusto de merda. o resto que se foda. fodam-se todas as fake news e breaking news. paz, onde mora a tal paz? o mundo é maravilhoso, a desgraça é o serumano.
Wednesday, December 27, 2017
um intruso no mundo
eu não quero ser
o grito de ódio
a gota d'água
o suspiro inútil
a despedida
não, não quero!
este dia amargo
não é meu
nem a selvageria
a escrotidão ao léu
este sangue morto
não me pertence
essa cólera fétida
não!
não, mil vezes não!
este cheiro asqueroso
eu só quero vender
meu cachorro quente
e ter um pouco de sombra
sem luxo esdrúxulo
sem gourmetizações
eu só quero olhar o céu
e ter a certeza de que
não feri ninguém
espiando os escoteiros
parados bem perto
do monumento nacional
pensando em música
e cultivando amor
num quartinho
essa rua não é minha
nem o bairro, a cidade
eu só queria não ser
um intruso no mundo
um intruso no mundo
um intruso
@pauloandel
o grito de ódio
a gota d'água
o suspiro inútil
a despedida
não, não quero!
este dia amargo
não é meu
nem a selvageria
a escrotidão ao léu
este sangue morto
não me pertence
essa cólera fétida
não!
não, mil vezes não!
este cheiro asqueroso
eu só quero vender
meu cachorro quente
e ter um pouco de sombra
sem luxo esdrúxulo
sem gourmetizações
eu só quero olhar o céu
e ter a certeza de que
não feri ninguém
espiando os escoteiros
parados bem perto
do monumento nacional
pensando em música
e cultivando amor
num quartinho
essa rua não é minha
nem o bairro, a cidade
eu só queria não ser
um intruso no mundo
um intruso no mundo
um intruso
@pauloandel
Monday, December 25, 2017
meia noite inteira
o teto é o céu
e o motor do
ventilador é
uma turbina de
avião: vamos
decolar! meia
noite inteira os
versos estão
cansados os
beijos estão
mortos a viagem
é longa meia
noite inteira os
amores silenciados
agora é um novo
dia inútil ninguém
à espera no ponto
@pauloandel
e o motor do
ventilador é
uma turbina de
avião: vamos
decolar! meia
noite inteira os
versos estão
cansados os
beijos estão
mortos a viagem
é longa meia
noite inteira os
amores silenciados
agora é um novo
dia inútil ninguém
à espera no ponto
@pauloandel
Saturday, December 23, 2017
quando você morre
há muitas maneiras de se estar morto em vida. você morre quando o ódio triunfa, quando a dialética é destruída pela ignorância, quando a ingratidão anda de mãos dadas com a indiferença. você morre quando beija o desamor, quando o abraço é formal, quando a democracia prevê senzalas. você morre quando as crianças são tristes, os idosos têm melancolia e os adultos estão ocupados demais no whatsapp. você morre quando um bandido acerta uma bala na cabeça de um inocente, mas também já morreu quando aquele mesmo bandido era uma criança chorando de fome e batendo na janela do carro. você morre quando o pragmatismo mata o sonho, quando a distância é melhor do que a vizinhança, quando ficar calado é o remédio para não ouvir. você morre com um gol contra ou a favor, a vitória que será derrota, quando a certeza é o desprezo. você morre muitas vezes, exceto quando odeia, porque aí já deitou morto dentro do ventre. você morre com o rancor e o descaso. você morre, morre, morre, mas depois respira e procura a próxima morte.
Friday, December 22, 2017
Saturday, December 16, 2017
Lançamento de "Cenas do Centro do Rio II"
Nesta segunda-feira, 18/12
Casa Vieira Souto
Praça da Cruz Vermelha, 9
Centro-RJ
A partir das 18 h
R$ 25,00
Casa Vieira Souto
Praça da Cruz Vermelha, 9
Centro-RJ
A partir das 18 h
R$ 25,00
Tuesday, December 12, 2017
45 minutos no Centro
Há semanas e semanas eu não caminhava pelo Centro. Aquela coisa de descer da Cruz Vermelha até a Uruguaiana, por exemplo.
No fim da tarde as ruas estão vazias. As pessoas, cabisbaixas. O Largo de São Francisco, deserto. Antes disso, uma visita à minha amiga Raquel Alves, sempre com CDs fantásticos: só ela podia ter Trey Anastasio no estoque.
Rua da Carioca, as lojas fechando, outras permanentemente fechadas, o trânsito ao contrário, pelo menos se salva a Casa do Choro. O Bar Luiz respira com ajuda de aparelhos. Outro dia mesmo eu saía com meus trocados do IFCS e bebia um chope dourado por lá, vinte anos que escorreram pela pia. O único momento alegre da rua é numa loja com trinta pessoas paradas na porta, resolvo espiar e tem uma TV com o jogo do Grêmio no Mundial - e há quem creia que é só um jogo quando milhões de homens fixam seus olhos à tela e procuram os melhores anos de suas vidas - a infância correndo atrás de uma bola.
Lojas Americanas da Uruguaiana, sinto um enorme aperto no coração porque antigamente sempre comprava coisas para minha família - e ela se foi. As pessoas disputam os presentes de Natal, mas nem de longe com a lotação de outras épocas. Uma vez comprei lá um liquidificador para minha mãe, que ficou felicíssima - eu era um estagiário e tinha a vida pela frente.
Resolvi descer no Metrô Carioca e atravessá-lo até a avenida Chile. Na porta, um morador de rua faminto, sujo, desesperado e uma senhora tentando saber onde estava sua família, provavelmente com a melhor das intenções mas sem perceber a dor do momento. Desci a escada, voltei, ela já tinha ido, ele continuou lá, dei-lhe vinte reais, ele quase chorou e eu também, porque estou cansado de ver tanta gente sofrendo na Terra desde que me entendo por gente - daquele dia em que minha mãe mergulhou em lágrimas ao ver a jovem mendiga com sua pequena filha, dando-lhe uma quantia e entrando em desespero a seguir, logo após termos saído do Metrô Copacabana em 1973 - de lá pra cá, vejo diariamente o sofrimento das pessoas realmente necessitadas e tenho raiva de mim mesmo por não ter condições de transformar suas vidas.
ATRAVESSANDO o metrô você vê o maior exército da solidão do mundo, uma multidão indo e vindo com toda pressa como se estivesse em fuga - as pessoas só têm olhos para os smartphones, o amor ao próximo parece tão escasso. Então vem a escada de degraus e a saída, onde logo se vê a turma da Petrobras descendo do elevado do BNDES.
Passe pela Chile e, logo abaixo da República do Paraguai, lá estão caixas, papelões e gente morrendo sem chance a conta-gotas. Mais à frente, grandes carros pretos corporativos prontos para transportar importantes executivos nessa terra de ninguém, no coração de uma cidade devastada por ladroes de termos bem cortados - e golpistas também.
Quase na esquina com a Lavradio, um garoto muito louco de crack grita uma canção de letra ininteligível e ri, sem a menor noção de onde estamos e, por isso mesmo, talvez até mais feliz diante de sua própria tragédia.
Duzentos metros depois, duas jovens saem do prédio da Nova Petrobras com expressões apreensivas, parecidas com seus colegas de trabalho nos restaurantes da região. Lembro de comprar quatro pães franceses na padaria. Peço queijo minas, não tem.
Paro na esquina da Henrique Valadares. Alguns fregueses conversam no churrasquinho da esquina. O céu gris não traz a chuva prometida. O movimento dos carros é pequeno. Dei uma bela volta no centro da minha cidade, e sou capaz de apostar que ela só esteve mais triste em dezembro de 1964 e 1968 - quando eu tinha cinco meses e era a alegria da minha família. A cidade não para, mas ela está triste demais. Nenhum lugar traduz o Brasil tão bem quanto o Rio, para o melhor e o pior.
Chego em casa, tenho uma boa conversa no fone com o craque Ricardo Mazella, finalmente tenho uma notícia legal. Desligo. Agora são oito da noite, o que resta é tomar banho, comer e descansar, até que nasça o amanhã cedo com tanta gente sofrendo na rua, no que sobrou dos empregos, nas calçadas abandonadas e na certeza de que tudo devia ser diferente, diferente demais.
@pauloandel
Monday, December 11, 2017
Saturday, December 02, 2017
cidade zumbi
a cidade dos zumbis
entre idas e vindas
e populares lutando
carregando bugigangas
para vender
mãos carregando caixas de balas
de amendoins, de biscoitos
mochilas baratas
e perto, na porta do necrotério
mãos desesperadas
em cachimbos de crack
- a morte à porta da morte
mãos espalmadas e vazias
mendicantes e enrugadas
ignoradas maltrapilhas
o brasil é uma covardia
entre idas e vindas
e populares lutando
carregando bugigangas
para vender
mãos carregando caixas de balas
de amendoins, de biscoitos
mochilas baratas
e perto, na porta do necrotério
mãos desesperadas
em cachimbos de crack
- a morte à porta da morte
mãos espalmadas e vazias
mendicantes e enrugadas
ignoradas maltrapilhas
o brasil é uma covardia
Friday, December 01, 2017
o homem ridículo/ hi-lites
I
era somente um fim
e nele nada havia
de fraternidade
respeito, carinho
solidariedade:
nada, nada, nada
a não ser a indiferença
que só os medíocres
possuem
Ii
o homem ridículo
fala para ninguém
e acredita fazer sucesso
com a sua escrotidão
finge-se potente, poderoso
tão importante
mas não a ponto
de enganar a si mesmo
olhando para o teto
numa noite insone
o homem ridículo é fruto
de sua pequena relevância
e precisa dos outros para
protagonizar delírios fúteis
porque é tão somente um idiota
nunca viu ashley judd
ou escutou henri Salvador
o homem ridículo
nunca leu ivan lessa
não entendeu veludo azul
e é homofóbico assumido
é totalitarista em nome de deus
e vomita verdades flácidas
- outros idiotas riem
- alguns se sentem constrangidos
o homem ridículo não tem paz
mesmo tão sozinho: ele é
a regra de ódio contra si mesmo
e corta as noites alucinadamente
entre carreiras repartidas
e pequenas trapaças consentidas
o homem ridículo
não entende a dor do outro
o abraço
a pátria partida
o homem ridículo
é a certeza da própria
mediocridade em riste
III
a navalha afiada está guardada
para todo o sempre na imperfeição
de uma cicatriz no rosto
IV
uma mensagem fria
às onze da noite da
sexta-feira pacífica:
o ódio não constrói
@pauloandel
Wednesday, November 29, 2017
amigo
Diante da miséria, do sofrimento, da dor, da doença, do risco de morte, qual o sentido do ódio na vida? Quanto tempo se desperdiça com inutilidades, com vaidades fúteis, com ruindade? Basta você olhar para o lado, o próximo, o pedinte na esquina, o esfomeado, o zumbi debaixo de crack e toda a empáfia vai ao chão.
É tudo inútil.
Viemos aqui para fazer coisas legais, progredir, ajudar o outro, aprender. Todos nascemos ignorantes, mas o aprendizado é permanente. E quem insiste na ignorância como meio de expressão nunca vai ver direito a tarde de sol, a criança caminhando na rua com seu biscoito à mão, o passarinho pousando na terra batida da praça.
Centenas de milhões de pessoas não podem usufruir dos confortos da Terra. Casa, comida, água, bens essenciais.
A vida escorre nos hospitais, no ódio estúpido, na violência que mata e mata sem sentido, na ganância, na negação da arte, na discriminação, no racismo, na homofobia, na retórica fascista, totalitária. Na ganância, a ganância.
Acabei de olhar para trás e vi 25 anos voarem longe.
Um amigo está em grande dificuldade num hospital.
Torço por ele. Torço, torço, torço.
Horas atrás, vivi uma felicidade estupenda ao me encontrar com Falcão. Agora, um rio de tristeza.
Não contem comigo para o ódio. Tenho mais o que escrever.
O ódio é para os fracos, os mal-amados, os que não veem os outros como amigos, os complexados, os rancorosos que têm certeza da própria mediocridade.
Numa triste manhã de quarta-feira, com trabalhos parados por motivo de força maior, meu tempo é para tristeza e amor.
Saia dessa, meu amigo. De alguma forma que não sei dizer.
@pauloandel
Monday, November 20, 2017
o berço esplêndido da dor
deitados eternamente
em chão de derrotas
a cada lindo dia de sol
ou nublado cheio de uhus!
e batidões e palmas das mãos
enquanto milhões de outras
mãos estendidas só pedem
clemência e até humanidade
um bem tão raro que até parece
valer dinheiro cru a olhos vivos
onde foi que nos perdemos?
onde aprendemos a estupidez
ao dizermos que essa é
a vontade de deus quando dele
só esperamos generosidade e o que
se vê aqui é avareza miséria
ódio pelo ódio pelo ódio pelo ódio
tentativas de limpeza étnica
travestidas de combate ao crime
enquanto nobres lordes brindam
nas milionárias sacadas das orlas:
'viva a escrotidão cosmopolita, viva!
não fomos nós que inventamos isso!
precisamos manter nossas putarias!'
as garotas são escravas dos puteiros
a polícia mata e morre por quem não
precisa dela mas sim de seus favores
mas já estamos perto do Natal e vamos
nos abraçar até chegar o carnaval
e depois a nova copa do mundo, uhu!
aprender lições não é o nosso forte.
Foto: Paulo-Roberto Andel
Saturday, November 18, 2017
simone mazzer's blues
enquanto teu corpo
me falta eu ouço um
rock na tevê miando
versos de amor e voz
a cantora grita afinadamente
e a guitarra me distrai em cor
num quarto escuro em noite
quente enquanto teu dorso
não me vem à boca em sonho
nem a carne fresca em pêlo
somos todos infelizes a granel
com delivery e smartphone
enquanto teu corpo
é lenda insone eu só
penso num jeito de
acabar indiferenças
se o futuro é a morte
e o fim do mundo é logo ali
por que a gente perde tempo
e não transa a vida logo?
ah, solidão insana que ejacula inbox whatsapp instagramático
os corações parecem sedentos
num país debaixo dos escombros
@pauloandel
me falta eu ouço um
rock na tevê miando
versos de amor e voz
a cantora grita afinadamente
e a guitarra me distrai em cor
num quarto escuro em noite
quente enquanto teu dorso
não me vem à boca em sonho
nem a carne fresca em pêlo
somos todos infelizes a granel
com delivery e smartphone
enquanto teu corpo
é lenda insone eu só
penso num jeito de
acabar indiferenças
se o futuro é a morte
e o fim do mundo é logo ali
por que a gente perde tempo
e não transa a vida logo?
ah, solidão insana que ejacula inbox whatsapp instagramático
os corações parecem sedentos
num país debaixo dos escombros
@pauloandel
Wednesday, November 15, 2017
quando o outro é nada
o problema está em
como vemos o outro
o outro
o maldito outro
o mendigo, o negro
o pobre outro
o transviado
o bêbado caído na porta do bar
- então fingimos: 'nada disso
nos pertence'
é mentira!
o favelado, o porteiro
que nosso preconceito estúpido
não cogita aceite
- nós somos escrotos covardes!
gente que não nos parece
gente mas é gente demais
aí está o país dos empregadinhos
gente tratada como números
ou pela nova pérola: 'recursos'
então dizimamos a praça
trocamos de calçada e sonhamos
com a mudança para Miami:
o mais cafona dos sonhos!
e quando não choramos pela
miséria em veias abertas debaixo
das marquises
e cogitamos uma bomba na favela
aí sim falta o outro
que nos diga sobre a nossa estupidez
que desvele nossa ignorância
e arrase nosso anseio escravagista:
- não queremos funcionários mas
escravos contemporâneos
os trens lotados são navios negreiros
a praça de lágrimas é a dor
dos miseráveis
e a empatia escorre por entre os
nossos dedos das mãos
o outro é o problema
o inferno
eu não tenho nada com isso
e não inventei o mundo
mas faço parte dele feito
o transeunte mais idiota
o problema está em
não tratar o outro feito
lixo, mas infelizmente hoje
essa é a voz do Brasil
a voz do Brasil, a pátria estuprada
em nome do vil capital
gente feita de massa podre
num estado que significa
decomposição
Thursday, November 09, 2017
Thursday, November 02, 2017
Finados?
Então é Dia de Finados.
O dia dos que tiveram fim.
Seria isso mesmo?
Sim, quando penso que é impossível não chorar por causa da ausência de meus pais, que se foram justamente quando estavam tendo algum conforto material. Não há beijo, nem abraço, nem bom dia e fica uma certa impressão do mais ensurdecedor dos silêncios.
Não, quando penso que a ausência física é apenas física, porque os sinto por perto o tempo todo.
Para tentar aliviar a tristeza das perdas, comecei a escrever feito louco, o que me permitiu ser publicado e, com isso, ter ajudado na alegria de milhares de pessoas. Muitas vezes recebo mensagens de pessoas que dizer ter chorado ao ler algo que escrevi, mas não creio que seja por tristeza. É o que elas dizem.
Não aliviou, mesmo com treze livros em pouco menos de sete anos. A tristeza volta toda hora, só que com o passar do tempo ela é combatida com muitas lembranças divertidas e também inspirações. E então continuo escrevendo. Esta foi a principal razão: fazer da tristeza a reflexão.
Meus pais, os escritores que leio, os músicos que ouço, os artistas que vejo, os poetas, os homens de visão social, todos eles estão mortos, mas nem tanto. Todos eles estão aqui perto de alguma forma praticamente todo dia.
Tenho andado há meio século pelas calçadas do mundo, aprendendo, sofrendo, sonhando. Entender todas as injustiças é difícil demais, porém esta mesma dificuldade é também a vida. A vida. Não sei se um dia alguém pensará em mim ou me sentirá por perto, mas sei que eu mesmo sinto isso quase todo dia por muita gente.
Os finados são na verdade continuados.
Existe amor, por mais estranho que pareça dizer isso em meio a uma tempestade de ódios, recalques e pequenez humana, como se pode ver diariamente pelo mundo. Mas o ódio é dos infelizes, dos que têm consciência da própria mediocridade, dos que usam a inveja como ópio, dos pobres egoístas e pernósticos.
Existe amor. Eu sei e sinto isso, até mesmo nas palavras que não foram escritas ou ditas.
Os finados estão vivos demais.
Vivamos também.
@pauloandel
O dia dos que tiveram fim.
Seria isso mesmo?
Sim, quando penso que é impossível não chorar por causa da ausência de meus pais, que se foram justamente quando estavam tendo algum conforto material. Não há beijo, nem abraço, nem bom dia e fica uma certa impressão do mais ensurdecedor dos silêncios.
Não, quando penso que a ausência física é apenas física, porque os sinto por perto o tempo todo.
Para tentar aliviar a tristeza das perdas, comecei a escrever feito louco, o que me permitiu ser publicado e, com isso, ter ajudado na alegria de milhares de pessoas. Muitas vezes recebo mensagens de pessoas que dizer ter chorado ao ler algo que escrevi, mas não creio que seja por tristeza. É o que elas dizem.
Não aliviou, mesmo com treze livros em pouco menos de sete anos. A tristeza volta toda hora, só que com o passar do tempo ela é combatida com muitas lembranças divertidas e também inspirações. E então continuo escrevendo. Esta foi a principal razão: fazer da tristeza a reflexão.
Meus pais, os escritores que leio, os músicos que ouço, os artistas que vejo, os poetas, os homens de visão social, todos eles estão mortos, mas nem tanto. Todos eles estão aqui perto de alguma forma praticamente todo dia.
Tenho andado há meio século pelas calçadas do mundo, aprendendo, sofrendo, sonhando. Entender todas as injustiças é difícil demais, porém esta mesma dificuldade é também a vida. A vida. Não sei se um dia alguém pensará em mim ou me sentirá por perto, mas sei que eu mesmo sinto isso quase todo dia por muita gente.
Os finados são na verdade continuados.
Existe amor, por mais estranho que pareça dizer isso em meio a uma tempestade de ódios, recalques e pequenez humana, como se pode ver diariamente pelo mundo. Mas o ódio é dos infelizes, dos que têm consciência da própria mediocridade, dos que usam a inveja como ópio, dos pobres egoístas e pernósticos.
Existe amor. Eu sei e sinto isso, até mesmo nas palavras que não foram escritas ou ditas.
Os finados estão vivos demais.
Vivamos também.
@pauloandel
Monday, October 16, 2017
você não engana mais a si mesmo mesma
Você não engana a si próprio. É absolutamente inútil. Pode contar todas as mentiras que quiser, pode falsear, pode até viver uma vida que não é a tua na tela de um computador, mas não vai adiantar: é impossível enganar a si próprio além de um breve momento delirante. Há muitos vocês em você mesmo, mas um deles é insuperável: o real. O você de verdade, que talvez nem mesmo você conheça direito, mas que inevitavelmente aparece a cada vez que você se deita e olha para o teto escuro de luz apagada. E aí você se depara com quem realmente é, com todos os fracassos pessoais que finge não ter experimentado; das drogas ilícitas que não consumiu, não por princípios ou serenidade, mas por cagaço; das mulheres que fingiu ter mas nunca lhe foram nada além de inspiração para masturbar-se; dos homens que desejou mas não teve qualquer coragem de viver seu tesão; dos amigos que não soube fazer porque a arrogância lhe lambe as vísceras; dos portes que não tomou porque lhe faltou coragem para viver uma pequena derrocada noturna. E então o que parecia grande coisa não é porra nenhuma: você se vê num espelho imaginário e encara toda a sua feiúra, toda a sua alma desajeitada, toda a sua futilidade e isso não cabe em nenhuma mulher. E das histórias que você contou mas não viveu? Lá estão no mesmo teto, como se fosse a faixa de torcida organizada onde se lê "mentiroso de merda!". Você nunca esfregou sua buceta em outra, nunca gozou pelo cu como tanto queria, nunca sequer se sentiu beijada de verdade. A avereza do rosto se encontra com a pobreza do caráter numa alma atormentada e, por isso mesmo, você nunca vai enganar a si mesmo. Deitado em berço esplêndido da mediocridade, você olha para a janela baixa e não se ilude: sabe que é um merda, um flácido, um pústula que caga ódio pelas ventas para não defecar a si próprio. Você tem fama, dinheiro, fode com vários caras, faz pose vitoriosa mas sabe não ter nada a comemorar. Você é desimportante e por isso se impõe pela virulência verbal, mas os teus dias vão ficar bem piores, você não engana a si mesma. Acorda, amor: a vida é hoje, somos todos bosta e você é desimportante. Somos todos formiguinhas em desconstrução, você também está com a sorte de nave mãe.
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