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Thursday, April 30, 2009

ESTRICNINA


ligeira, a moça
com seus firmes passos
de juventude à lida

atravessa o boulevard
enquanto
olhares de lascívia
e doçura
escorrem
pelas pedras portuguesas

alguns denotam-lhe
tesão, prazer, perdão,
mas nenhum tem rima -
tão-somente um clima


outros, rejeitados,
sorvem o gosto amargo
da vã desilusão -
é a contramão,
fel à vista,
estricnina


Paulo-Roberto Andel, 30/04/2009

Wednesday, April 29, 2009

Fronteiras

entre a pétala
e o talo,
entre a força
e o fardo,
entre o incêndio
e o rescaldo;
entre o alvo de cortiça
e a agulha do dardo;
entre a secante
e a tangente;
entre a lâmina
e o corte rente;
entre o horizonte
e o zênite;
entre o planeta
e o satélite;
entre o choro
e o desabafo;
entre as frases
e um hiato;
entre o leme
e o pontal;
entre a
última palavra
e o ponto
final.


http://radinho.ning.com/profiles/blogs/otraspalabras-1

Paulo-Roberto Andel, 29/04/2009

Monday, April 27, 2009

Otrospetiscos

CANTO

canto
porque
meu tanto
é pouco,
o quinhão
que tomo
é
pouco
e a nostalgia
não me
apraz

canto
pelo
sopro,
tênue vento
sem maior
intento
na vida
que não
me
condiz

canto
como verso,
que se
desvela
onde há
segredo,
se desnuda
em meio
ao
pensamento
e não
vulgariza
o amor
que doa
paz


MUDEZ

silêncio,
silêncio:
vocação
lúgubre
da paz


NOT SO LONG

not so long
like a shame
burning
into a wild
heart

down by law
like a trust
shining
on a twisted
mind

not back home,
nor back on top -
just in a breathe,
a squeeze:
handsome love


Paulo-Roberto Andel, 27/04/2009

Monday, April 13, 2009

Permita















que
não me permita
confundir
serenidade
com frieza,
mocidade
com beleza,
felicidade
com riqueza

que
não me permita
proclamar
independência
em covardia,
misturar
indecência
na hipocrisia,
deixar rancor
sem fidalguia

que
não me permita
o óbvio, o flácido,
o histérico
e o desamparado,
o colérico
num amontoado,
um retrocesso
a morar do lado

que
não se habilite
a insensatez;
só a honestidade
pode me servir
por vez -
a estrela-guia,
um azimute
que se inicia

que todo mal
não me permita;
apenas permute
a luz pela luz -
a luz da vida,
todavia

Paulo-Roberto Andel, 13/04/2009

Friday, February 01, 2008

MEU NOVO BLOG

Caro (a) amigo (a),

Esteja convidado (a) a visitar meu novo blog, no endereço:

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action

Obrigado pela visita!

Paulo.

Wednesday, January 30, 2008

Crônicas Tricolores 5 - Chuva de gols

Caríssimos, em mais um capítulo da maratona de jogos que tem marcado a Taça da Guanabara, nosso Tricolor entrou em campo para mais um compromisso contra o Volta Redonda, o Peñarol do sul Fluminense - com sua garbosa e vistosíssima camisa aurinegra.
Vencemos, não convencemos plenamente, mas o time certamente se recuperou do empate contra a agremiação de Macaé – mais ainda, mesmo que timidamente, fez o que se pode dizer de melhor partida este ano; ao menos, a mais equilibrada em termos de dois tempos, mesmo que a goleada tenha sido desenhada apenas no segundo.
Nem a baixa temperatura de um Maracanã alagado com a chuva ininterrupta atrapalhou o pequeno, mas fiel, contingente dos nossos torcedores. Quase dez mil pessoas em Mário Filho, num dia de águas bravas e trânsito caótico, ainda mais no exótico horário das sete e meia. Com chuva, muita chuva. A sina do Tricolor tem sido a chuva neste 2008.
O time mudou, e para muito melhor, ainda que longe do ideal. Ao contrário dos outros três matches anteriores, facilmente viu-se a mudança de comportamento da equipe. Começamos agredindo, buscando ataque, fazendo pressão na intermediária do Volta Redonda, e tudo isso fez diferença. Mais ainda, compensação pelo nosso ainda precário entrosamento, afora a pouca ênfase de jogadas ensaiadas. Convém ressaltar que, embora a entrada de Júnior pela esquerda, no lugar do indeciso Nery, tenha colaborado para a mudança de atitude do Fluminense, houve uma sacudidela coletiva da meia-cancha para a frente, com todos correndo, brigando e buscando a abertura de resultado. O Volta Redonda, recolhido e respeitoso, não lembrava em quase nada o time de outros tempos – há pouco, decidiu contra nós um título do Rio.
Deixando de lado a nossa paixão, o Tricolor até que demorou para abrir o placar – e, curiosamente, numa das raras jogadas ensaiadas postas em prática, fizemos o tento numa cabeçada de Luiz Alberto, que tinha subido à área em função de um escanteio. Antes, vários chutes tinham sido dados contra a meta dos voltas – e o próprio escanteio que gerou o primeiro gol veio de uma grande defesa do goleiro Edinho, em chute de Dodô. Em suma, poderíamos ali já ter uma vantagem. Percebi evolução, vontade, e a diferença de apenas um gol só era preocupante porque sabemos que, no futebol, o um a zero é um triz – e, ao final da primeira etapa, quase os voltas igualaram o marcador; contudo, Nelson e outros deuses do futebol de Laranjeiras afastaram a bola de nossa meta, o que nos fez vencedores da primeira etapa. Não foi um jogo brilhante do Fluminense, mas raçudo e bem-disposto; parte de nossa torcida vaiou, mas não por uma péssima atuação e sim por saber que o Fluminense pode oferecer muito mais.
O pai-de-santo Tiba não foi visto nas arquibancadas, de modo que não se podia sequer pedir o amparo dos orixás para uma vitória consagradora na fase final. Porém, eu senti o aroma da goleada no vento úmido do Maracanã. Ao meu lado, a amiga Rita parecia cética quanto ao resultado, quando bradei:
“ – Querida, o Fluminense goleará. Espero cinco ou seis gols ao final. Será seis a zero.”
Rita riu da fanfarronice macarrônica que parecia vir das minhas palavras. Contudo, o destino do Tricolor é a vitória, é a conquista. E o que se viu no segundo tempo foi uma goleada retumbante, heróica, digna.
Para desespero daqueles que querem um dos nossos atacantes no banco, todos foram bem na segunda etapa, fazendo do Fluminense um algoz implacável dos voltas. Com dez minutos de segundo tempo, resolvemos a fatura: primeiro, num golaço de Washington em cobrança de falta, bola precisa no ângulo direito, impecável. Os amigos sabem com clareza; há milênios que não temos um finalizador, um centroavante, que tenha o dom da cobrança de falta. Washington tem. Como é importante ver o homem da frente fuzilando o gol adversário com maestria. E, em seguida, com o desespero de Volta Redonda, contra-atacamos e fizemos o terceiro, com o demolidor Leandro tocando rasteiro na saída de Edinho, Leandro que fora municiado por Washington. E, mais uma vez, Washington, em falha no rebote do goleiro, mas mostrando o faro de artilheiro, fez o quarto. Pela primeira vez no ano, ficamos tranqüilos bem antes do jogo terminar. Eu vi Rita e sorri, dizendo-lhe que os dois faltantes viriam para o sexteto retumbante de gols.
Jogávamos em franca velocidade e as jogadas vieram uma atrás da outra. Poderia ter sido mais, e desimporta se disserem que o Volta Redonda está mais fraco, que o Volta Redonda tem menor investimento, que o Volta Redonda já não é o de antes. Vale o que está escrito, e a súmula mostra uma goleada impiedosa, com um Washington esplêndido.
Fomos atrapalhados pelo gol dos voltas, numa desatenção que não pode se repetir. Tomar um gol de bola quicada n’área seria motivo de derrota e crise, se tivéssemos levado primeiro que eles. Falha sim, mas num momento em que podia acontecer. Menos mal.
Eu não destacaria um jogador em especial nesta vitória expressiva, pois acho que o time foi dedicado e aplicado, mesmo com a exuberante partida de Washington. As entradas de Roger e Cícero foram boas. Foi uma vitória de coletivo. Entretanto, cabe a menção um jogador de alto nível técnico que não vinha conseguindo mostrar o que sabe, e que fechou a partida com chave de ouro: Dodô. Sim, amigos, Dodô correu, passou, chutou muito, lutou e foi premiado a dez minutos do fim com um golaço, de artilheiro que sabe matar o goleiro. Um chute fortíssimo, que estufou o ângulo direito do goleiro do Volta Redonda, após dribles na direita da grande área. Um chute para desafogar mágoas. Tenho em mente a bela imagem que foi a do time inteiro vir em volta de Dodô para abraçá-lo; todos esperavam o primeiro grande gol dele com nossa camisa, e aconteceu. E ainda houve tempo para mais uma jogada fantástica dele ao fim do jogo, humilhando o zagueiro da direita e cruzando perigosamente. Agora, sim, vestiu de vez o manto Tricolor. Durante a partida, ao desperdiçar uma oportunidade, Dodô desabafou num rompante que perder aqueles gols tinha a culpa de alguma praga botafoguense, para fartos microfones abertos da imprensa, atrás dos gols - e hoje, alvinegros vociferaram alegando que o artilheiro tinha desrespeitado General Severiano. Para nós, Dodô mostrou, isto sim, um repertório de competência que foi coroado com um golaço – o resto é falácia.
Foi o quarto jogo em dez dias. Não fomos aprovados com honra ao mérito, mas a goleada, as boas jogadas e os vários lampejos de talento, principalmente no segundo tempo, sugerem que um Fluminense forte - mais forte do que nunca - pode estar a caminho. Assim como não jogamos bem com três atacantes no sábado, ontem tivemos excelente jornada no segundo tempo com o trio. E a imprensa esqueceu-se de que ainda temos Dario Conca para estrear.
Veremos o que nos espera pela trilha.
Errei o placar. Atirei no que vi, acertei no que não vi. A goleada é fato.


Paulo-Roberto Andel, 30/01/2008

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Monday, January 28, 2008

Crônicas Tricolores 4 - Um pequeno revés

Caríssimos, a partida de ontem à noite, contra a estreante agremiação auriceleste do Macaé, não foi de boa jornada para o Tricolor, ainda que o resultado final não tenha sido altamente comprometedor para a classificação na Taça da Guanabara. Jogamos mal e, como conseqüência, a partida foi de fraco nível técnico, sem desmerecimento dos valorosos macaenses. Apesar de ser uma peleja limpa, com poucas faltas, foi bastante truncada e com poucos lampejos de criatividade. O empate em dois tentos foi praticamente justo e, se os adversários de Laranjeiras quiserem falar do gol que os estreantes perderam na última finalização do jogo, posso lembrar de dois pênaltis claríssimos a nosso favor – que foram solenemente ignorados pelo rechonchudo árbitro Damásio, bem como sua loura assistente. Voltamos a sofrer dois gols no primeiro tempo e, embora merecidos, eles contaram com um misto de nossa desatenção e o salpicar de sorte.
Tudo começou com a chuva, a mesma chuva que vem nos perseguindo em todas as partidas. Nas arquibancadas, quero destacar a beleza do coletivo intitulado Legião Tricolor, uma torcida que visa exclusivamente apoiar Laranjeiras e, hoje, já repleta de uma multidão como as de torcidas organizadas convencionais. Os legionários, com seus sinalizadores verdes, deram enorme alegria ao estádio. Os quinze mil torcedores viram o Tricolor começando a partida exatamente como das vezes anteriores neste certame: com certa timidez e baixa velocidade. Ontem, um agravante: a má performance de Gabriel, que errou praticamente tudo o que tentou. Doutro lado, Nery foi Nery. Ao contrário do que quer fazer ver a crítica especializada, o problema do Fluminense não está no trio de atacantes. Washington tem voltado para buscar jogo e briga bem como primeiro marcador na intermediária adversária. Leandro, com alguns erros, tem buscado mais a posição de um ponta-direita, com algum resultado. Apagado mesmo, apenas Dodô; porém, é jogador de fartos recursos técnicos e digno de crédito. Creio que o time foi tomado por súbita apatia, sem culpa do ataque, e muitos foram contaminados, de forma que a velocidade não ocorria e o Macaé segurava-se na defesa, com esparsos ataques.

Num momento, quebrando a monotonia do jogo, veio um grande gol, um golaço, daqueles de se pedir bis, daqueles como fez Thiago contra o Caxias: a bola sobrou na entrada da área, mais à esquerda; Neves dominou, viu o experiente Cássio adiantado e colocou a bola no ângulo esquerdo – muitos torcedores, incrédulos, só bradaram o gol quando a bola já estava há muito nas redes. Uma beleza. E tudo indicava que, com o tento sensacional, o Tricolor rumaria para uma grande vitória. Mas não foi o que aconteceu. Logo de cara, os macaés empataram. O camaronês Steve, tal como um ponta-esquerda de verdade, invadiu nossa área após ter dado um drible da vaca no vacilante Ygor. Feita a jogada, fuzilou como se quisesse acertar a esquerda de Diego; contudo, Washington, sim, ele, ao tentar tirar a bola da defesa, resvalou nela – e a pelota beijou violentamente a direita do nosso goleiro, enganando-o por completo. Foi um chutaço, um tirambaço de Jorge Curi, e o empate foi decretado.
Quando tudo indicava que o empate em um seria o ocorrido em Mário Filho na primeira fase, o Macaé virou o jogo, de forma quase inusitada. Num ataque dos amarelados, a bola sobrou dentro da área, à esquerda, para que o mesmo Steve finalizasse, depois de falha inicial de Nery – errando o tempo de bola, o importado acabou cruzando e Jones completou sozinho, diante da atônita defesa. E terminou o primeiro tempo, sob vaias da nossa torcida, com exceção dos admiráveis legionários, sempre a cantar em prol de uma virada no placar. Estamos mal-acostumados por hoje, eu reconheço: a excelência da nossa defesa no ano passado, a segunda melhor no certame nacional, fez com que passássemos a considerar gols adversários como verdadeiro sacrilégio. De qualquer forma, o respeito aos adversários do interior não os credencia a fazer mais de um gol em nossa defesa a cada primeiro tempo. Apesar da má atuação e dos gols sofridos, de toda maneira eu não enxerguei ali um sinal de derrota fragorosa ou de nenhum conserto. O Fluminense pareceu-me desatento até demais, mas capaz de reverter o placar que, ressalte-se, não foi ocasionado pela propalada sobrecarga dos três atacantes, e sim pela falha coletiva.
Voltamos surpreendentemente sem alterações – talvez Renato estivesse convicto de que as orientações de vestiário fossem suficientes. O time, contudo, retornou com a mesma falta de ritmo da primeira fase, incapaz de agredir um Macaé recuado pela vantagem no placar. E então, Renato tentou a diferença ao sacar Gabriel (com justiça) para colocar Cícero mais à frente, passando Marcos Arouca para a direita. Cícero entrou em campo e foi para a área, veio o cruzamento e ele cabeceou para o empate a nosso favor. Pode-se dizer que foi um golpe da sorte Tricolor, uma vez que o jogo já se aproximaria da metade do segundo tempo e reagir nestas circunstâncias, contra um time fechado, é sempre mais complicado. E, por mais sorte ainda, uma vez que o time não se sacudiu, não vibrou, mesmo igualando o marcador – voltamos ao estado original de antes do tento, mesmo entrando Júnior no lugar do apático Nery.
Os vinte minutos finais foram marcados por jogadas inócuas e pelo gol que os macaés perderam, mais os dois pênaltis que não foram marcados a nosso favor. Faltou-nos força para reagir, para traduzir a superioridade do nosso elenco no campo, na peleja. E empatamos, num revés desagradável. Menos mal o empate, a derrota seria injusta e pesada neste momento.
Os mais afoitos poderão enxergar sinais da crise, de que os três ases não podem jogar juntos, de que o time está muito mal. Penso que foi a terceira rodada, o terceiro jogo. Ainda temos tempo. Foi um pequeno revés. Espera-se que alterações sejam feitas, que surjam jogadas ensaiadas, tabelas, triangulações. Grandes gols, já mostramos que somos capazes de fazer.
Temos quatro jogos para chegar às semifinais da Guanabara, e eu acredito nisso. Todos apontam nosso tropeço, nossa falha, e isso é bom: deixemos os louros da glória efêmera para os preferidos da imprensa. Somos a zebra para os desinformados. No momento certo, quando ninguém espera, o Fluminense tornar-se-á o maior favorito de toda a história. Que não duvidem de nossa capacidade. Ela é tão grande quanto os incansáveis e intermináveis gritos de apoio por parte dos legionários.

27/01/2008

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Friday, January 25, 2008

Crônicas Tricolores 3 - O time da virada.

Caros companheiros, ontem foi dia de grande emoção em Mário Filho, dada a vitória garbosa do Tricolor sobre a estreante e qualificada equipe do Duque de Caxias, vinda de uma goleada de cinco contra o América, no inusitado horário de sete e meia da noite. A emoção não se deu propriamente em termos de uma partida eletrizante, embora tenha sido longe da monotonia, mas sim por causa do complicado início de jogo para nós – uma vez que estávamos com o revés de dois gols em vinte e cinco minutos de partida. Falarei disso.
Antes de tudo, a chegada ao estádio. Chamou-me atenção, mais uma vez, a dificuldade enorme que um torcedor tem para adquirir seu ingresso nas bilheterias de Maracanã. Organizaram uma fila para os jovens de meia-entrada, demoradíssima. Testemunhei que bilheteiros estavam exigindo, além da carteira de entidade estudantil, a da escola de origem e, com isso, atestando a inutilidade do primeiro documento, como se garotos de dezesseis anos estivessem ali em sinal de mentira. Outra situação curiosíssima foi a de que as grades das bilheterias estavam abertas por baixo, ao contrário da posição correta e tradicional – o que fazia qualquer sujeito com mais de um metro e sessenta e cinco ter que praticamente ajoelhar-se para falar ao funcionário. No mais, a apoteose dos cambistas, negociando a céu aberto e à frente de um camburão de polícia. Hoje, no Maracanã, é mais fácil pagar a um cambista do que adquirir um ticket em guichê. Havia um público pequeno para um jogo do Fluminense, mas suficiente para uma conturbada compra de ingressos. Passam-se os anos, e a coisa somente piora; seria muito fácil consertar a compra de ingressos, houvesse interesse.
Adentrei Maracanã, e logo deparei-me com dois fatos muito agradáveis: um, ver a seriedade do goleiro Diego em seu aquecimento atrás do gol à esquerda das cabines de rádio. Estava concentrado, firme, dedicado. Nós, como reza a tradição de Laranjeiras, acompanhamos todo o treino em silêncio, sem atrapalhar, como fosse uma reverência à camisa que já foi de São Paulo Victor e São Castilho. Antes de voltar ao vestiário, Diego foi atencioso com os que beiravam o gramado, e gostei disso – o ídolo precisa saber tratar a torcida. Ele sabe. Outro fato bom foi rever em campo meu amigo Rafael Marques, jovem e já veterano repórter esportivo, criado em berço Tricolor apesar das raízes eternas em São Januário. Rafael, também bastante solícito aos fãs, mostrou inconscientemente ali o que é um jogo do Fluminense: uma festa de amigos, de família, onde as pessoas confraternizam.
Quando nosso time entrou em campo, seu líder à frente era o presidente Horcades. Estranhei o fato, por mais que a hierarquia o explique. Trata-se de um senhor, com peso e, ao caminhar lentamente, fez com que o time, respeitosamente, fizesse o mesmo em linha indiana atrás dele. Entendo que a maneira de subir ao gramado deva ser rápida e vibrante. Coincidência ou não, refletiu depois em campo. E o calção grená, pouco afeito à camisa Tricolor, é sempre um fator desconfortável para bons presságios.
O jogo.
Sob chuva leve que, rápida e brevemente apertou, começou o match e os de Caxias mostraram presença. Ataques, dos dois lados; entretanto, os visitantes, de uniforme todo alvo (com mando de campo, neste estranho regulamento) pareciam mais bem-arrumados, com jogadas rápidas e tabelas. Imagino ser um time formado bem antes de janeiro. Logo, Caxias fez um gol, em cima de nosso lado esquerdo, onde estava o titubeante Nery: um cruzamento da direita, rasteiro, forte, e a conclusão do atacante caxiense dentro da pequena área. Era apenas um atacante contra quatro defensores na ocasião, mas a bola veio bem ao feito de um matador. Um a zero para eles.
Apesar da desvantagem, não houve motivo para o temor exacerbado, mesmo que os minutos seguintes tenham mostrado erros em nosso meio-campo e a situação crítica da esquerda de nossa defesa. Conseguimos alguns bons ataques e, em dois deles, o empate esteve iminente: um chute forte de Dodô, por cima da meta, pela direita do ataque; a cabeçada de raspão de Washington, que beijou a trave direita. O ataque, embora bem marcado, parecia movimentar-se bem; Neves chamava o jogo para si e tentava jogadas impetuosas pela esquerda. Mesmo longe do melhor de nossa forma, a confiança na reação era grande.
E então veio uma estocada perigosíssima. Em novo cruzamento nas costas do desorientado Nery, a bola foi escorada na direita de nossa defesa, aconteceu um novo cruzamento e sofremos um golaço, com a finalização de voleio do veteraníssimo Viola em meio à área – um golaço daqueles que merecem aplauso, dignos do canto do cisne de um campeão mundial. Os torcedores de Caxias, trazidos pela prefeitura local e nitidamente disfarçados de sua real origem de coração, a Gávea, vibraram. Tomar um grande gol em qualquer situação pode ser desastroso para um time, ainda mais com uma diferença de dois a zero em menos de meia hora de partida.

O Maracanã foi tomado por um silêncio desconfortável; todavia, o Tricolor não esmoreceu e, ainda que sob certa desordem tática, buscou ataque. Nossa defesa, sempre segura, ali tinha vacilado, também prejudicada pela ausência de Marcos Arouca. Outro fator que atrapalhava, e também junto do nervosismo, era a tentativa nossa de municiar o ataque com chutões, sem a bola no chão e toques. Os de Caxias, bem posicionados, desarmavam os lances sem falta. A meu lado, o amigo Pai Tiba de Oxossi, deliciando-se com o sabor inconfundível de um cachorro-quente, bradava:
“- Viraremos. Será 4 x 2!”
Veio intervalo e a impressão clara de que Renato mexeria na equipe. Os Sussekinds, meus irmãos de fé, estavam num camarote e telefonaram-me, enquanto nos víamos ao longe. Eu avisei que Pai Tiba de Oxossi tinha previsto a virada monumental. Raul, sempre sereno e ponderado, preferiu um pontual realismo ao telefone:
“- Cara, acho que virar é impossível...”
É claro que essa frase veio de um momento de chateação de um grande Tricolor, um instante. Eu, você e todos nós sabemos que, para o Fluminense, nada é impossível. Marcos Caetano, em brilhante texto, certa vez definiu bem que não há buraco nesta terra capaz de tragar o Tricolor. Mesmo que não tão firme em campo, o Tricolor tomou gols mais por falhas pontuais do que por uma má atuação coletiva.
Renato fez as entradas que já se imaginava: vieram novamente Cícero e Júnior César. E o Fluminense tornou-se um titã enfurecido, incontrolável.
Saída do segundo tempo, fizemos ataques e, numa jogada que parecia perdida, o zagueiro craque Thiago roubou magnificamente uma bola à frente da área, e disparou um tiro de canhão na meia-altura direita, indefensável para o goleiro caxiense. Um chute espetacular, violento e preciso, daqueles que fazem qualquer time reagir e vencer qualquer jogo. Um gol antológico, para premiar tudo o que este rapaz tem feito com a camisa do Fluminense e, sem o menor exagero, no mesmo nível de gigantes do nosso passado mais recente, como Ricardo e Edinho. Thiago dificilmente faz faltas, tem um senso de cobertura fantástico, grande posicionamento, carrega bem a bola e finaliza com maestria. É jogador de Seleção Brasileira, para quem entende do assunto. Não reconhecer seu talento só pode ser fruto de cegueira futebolística.
O gol incendiou nossa torcida, a reação no placar era inevitável. E logo empatamos, numa jogada onde Leandro tentou encobrir o goleiro Fernando, mas a bola não ganhou força na direção do gol; de toda forma, serviu como belo lençol e Leandro apenas chegou perto do gol vazio para tocar e decretar o empate.

Ainda tínhamos mais de meia hora para dominar o jogo em números e, ao verem os dois a dois no placar, os caxias certamente sentiram a pressão que havia se estabelecido, bem como a condição física que não era mais a mesma. Ficou claro que vencer a peleja era questão de tempo para nós.
Demoramos um pouco. Houve um gol justamente anulado de Leandro, impedido. Dodô buscava jogo pelos dois lados. Washington vinha marcar na nossa intermediária. Júnior disparava a todo instante pela esquerda. Neves ia e vinha. Em um certo momento, fizemos quatro finalizações em três minutos. O gol não surgia. Contudo, os de Caxias, baqueados, sequer encaixavam um contra-ataque. Era preciso ter paciência, perseverar.
Numa jogada bem parecida com a que gerou a bola na trave, no primeiro tempo, aconteceu o que todos queríamos e precisávamos. Neves cruzou e Washington, definitivo, venceu todos no alto e tocou para o gol, decretando o terceiro tento. Ali, senhores, o jogo encerrou. O Caxias entendeu que, mesmo tendo uma boa performance, não seria páreo para Laranjeiras. E nada mais fez, exceto aceitar sofregamente a derrota de virada.
Renato, prudente, colocou o jovem Maurício para aumentar o poder de marcação, e tirou o aplaudido Washington, nome de hoje e sinônimo de tantas glórias passadas. Ainda perdemos alguns gols, mas a vitória estava selada.
Diverti-me ao final, com o apito do juiz, ao ver os flamengos disfarçados de Caxias, um tanto cabisbaixos, com remorso. Perceberam que, por mais que a Gávea tenha a predileção da imprensa e dos especializados, encarar o Fluminense será uma pedreira de sete mil quedas. Também agradou-me saber da correção profética de Pai Tiba: os gols aconteceram e, se não foram quatro, foi apenas uma questão de validação.
Mostramos força e valentia, mesmo com uma situação de revés na partida. Viramos. Nós somos o time da virada, o time das vitórias no último minuto. E quem duvida de nós na véspera corre o sério risco de engasgar-se ao fim, enquanto bradamos nossa vitória a cada quarta, cada domingo, cada dia onde a nossa centenária e imortal camisa esteja em campo.

Paulo-Roberto Andel, 24/01/2008

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Thursday, January 24, 2008

A respeito de Dora

Falar que Dora era apenas linda pareceria piegas ou diminutivo; para os mais atentos, não deve ter sido muito fácil descrever seu corpo de estátua grega, seu olhar cintilante e o rosto que cairia bem em qualquer passarela. Contudo, não se restringiu em vida apenas à beleza física.

Dora foi uma das grandes atletas brasileiras de todos os tempos, daquelas que um esporte passa a ser comentado por causa da performance dum determinado atleta. Foi assim no passado com Maria Esther Bueno e Aída dos Santos, para deixar dois entre muitos exemplos. Ganhou a América muitas vezes e bateu as ondas gigantes do Hawai. E virou referência de mulher ao mar.

Dora, de beleza infinita e mais que admirável, tinha um jeito de lady européia, tipo de mulher que cai muito bem na virtude de Ipanema com todo o jeito de Mônaco. Falando manso e com muita articulação. Mais ou menos isso. Charme especial, sofisticado.

Passou a vida desafiando as intempéries da natureza, nos mares, solitária em sua realização pessoal no esporte. Não havia alguém para tabelar, trocar passes, não havia nada ao lado - apenas ela e o mar bravio. Terminou a vida ainda jovem, muito aquém do justo e merecido - e, por desagradável coincidência, da mesma forma como sempre viveu: encarando as dificuldades da natureza, sob temporal, e sozinha ao carro onde acidentou-se derradeiramente.

Eu agradeço a Dora pelo que fez pelo esporte do Brasil, sozinha, catando apoios e patrocínios num lugar onde o futebol, nossa apoteose, ainda é tão mal-explorado e vilipendiado por gentes nefastas - e imagine-se dos outros esportes. Mais ainda, em muitas vezes que falou à imprensa, defendendo o direito de mulheres que, por opção, não tivessem se casado, tido filhos e que não fosem homossexuais - assim, combateu de uma vez só o machismo e o "achismo" dos que, em pleno século XX, ainda insistem em ditar comportamentos sobre o que "homem" e "mulher" devem "fazer". Seja o que tenha sido, sozinha que fosse, fãs não lhe faltaram aos pés.

Para os mais próximos, ela deve ter deixado muitas lições.

Para mim, apenas um amador fã à distância, desde minha adolescência, o ensinamento de que a mulher pode - e deve - buscar tanto beleza interior quanto exterior, ter postura, educação, fidalguia, formação intelectual e uma outra qualidade que anda rara no mercado: classe.

Eu adorava ver aquela mulher como numa fotografia, sozinha rumo ao mar, fosse qualquer tempo, carregando sua prancha e trilhando solitariamente o reconhecimento no esporte. Havia algo de atitude, personalidade ali. E linda.

Que esteja bem, tão bem quanto me fez sem nunca ter sabido. Muito bem.

Paulo-Roberto Andel, 24/01/2008

Tuesday, January 22, 2008

Do cansaço

eu, que me mastigo e rumino por vezes
em busca do meu próprio supra sumo,

eu, que me atiro e me estilhaço ao chão,
espalhando-me por dois mil e oito cacos,

eu, que me faço de lenha ao fogo intenso
e viro brasa de alimentar meu incêndio,

eu, que ponho quase tudo a tudo perder
por todo amor e alguma prova d'amizade

eu, tantas e todas vezes eu, tão indivíduo
e tão descrente que todos sejam só um

eu, dilapidado

eu, farto de mim, de meu, dos egoísmos
que se amontoam na gente apressada,
no bom-dia sem qualquer resposta vaga,
no monólogo e no bel prazer dum solo,

canso-me da frieza, da indiferença ao léu,
das pessoas que não sabem mais do Rio,
dos fatalistas que afirmam o fim do jeito,
como se a fidalguia fosse dejeto somente

eu, esgotado, tardo mas quase não falho
e muito há por ainda pastar, regurgitar,
ainda existe uma razão para se espatifar
mesmo que meia-dúzia não seja milhão


Paulo-Roberto Andel, 22/01/2008

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030

Friday, January 18, 2008

Crônicas Tricolores 1 - Gênese

Hoje, dia dezoito de janeiro, nós, Tricolores, estamos perto de nosso Réveillon, nossa virada de ano. O leitor desatento sabe que, tal como ensinou Nelson Rodrigues, Tricolor só há um, o Fluminense; os outros, com todo o respeito, são times de três cores. Nelson Rodrigues, também somente um.
Depois de quase quarenta dias longe de nossa casa, o Maracanã, é hora de brindarmos o ano novo que surge à frente e muito nos promete. A magia do futebol, que a milhões encanta na Terra, passa pela eterna renovação, a eterna busca e mudança: perde-se numa quarta, quinta é dia de se pensar no clássico de domingo. Contudo, este é um ano especial.
Depois de percalços do passado, nós, que respiramos o ar de Álvaro Chaves, estamos à boca de mais uma temporada, redivivos, firmes como nunca.
Amanhã, começa um desafio vigorosíssimo, que é o de buscar o trigésimo-primeiro título estadual. Porém, se a tradição e alguma superstição possuem força, estamos bem: um poderoso jornal desportivo do Rio realizou um levantamento entre seus analistas de futebol, para que indicassem os quatro primeiros colocados no certame que começará. A grande maioria indicou o Fluminense como vice-campeão do Flamengo, que empataria conosco em títulos regionais. Esse apontado favoritismo da Gávea cai bem.
Nós temos a descrença dos comentaristas como orgulhosa tatuagem no peito.
Não foram poucos nossos times que arrebataram as taças sem que um único analista nos desse o crédito do favoritismo. Relembro 1980, quando diziam ser da Gávea inevitáveis vencedores, ainda mais depois do campeonato brasileiro conquistado à época; contudo, não chegaram sequer à final de um dos dois turnos. Vencedores do segundo, os vascaínos esbanjavam favoritismo e acreditavam que, depois de seguidas derrotas para os flamengos, era chegada a hora da conquista. A chuva e o vento foram prenúncios, e o gol de Edinho foi abençoado por Cartola mais Nelson – assim, Laranjeiras naquele dia venceu mais do que nunca.
Creio que os da Gávea mereçam respeito por manterem o time-base do ano passado, mas nós, Tricolores, bem sabemos que eles não gostam de nos encontrar num jogo final ou decisivo. Há dois anos, quando estivemos perto de ganhar nossa primeira Copa do Brasil, mas perdemos a semifinal para São Januário, minutos após o jogo, houve um foguetório em muitos bairros da Guanabara – ao contrário do que se imaginava, não era a torcida vascaína, mas sim os flamengos, em comemoração de ter o Vasco como adversário em vez do algoz. Não queriam medir forças com o Tricolor, porque o passado os assombra. São fortes as imagens de Benedito de Assis, mesmo depois de vinte e cinco anos, entrando delicadamente pela esquerda d’área, para fuzilar Raul em seu gol de despedida. O golpe mortal de Assis, a cabeçada que pareceu um tiro e fez mágica da geometria ao deslizar no ângulo esquerdo, desnorteando Ubaldo Fillol. A maior vitória de todos os tempos, em todos os mundos, quando Renato encostou sagrada barriga à bola chutada por Aílton e correu de fita na cabeça, risonho, feliz, repetindo um 1950 para o centenário dos flamengos. Em todas, absolutamente todas estas ocasiões, a imprensa e a crítica especializada apontaram o Flamengo como superior, o Flamengo como o grande campeão, mas a glória final teve o destino da nossa casa.
Fizemos um time bom. Voltamos a ter um ataque com poder de fogo, com jogadores de alto nível técnico como Dodô e Leandro, e ainda o nome de Washington - tradicional em posters de campeões Tricolores e, inevitavelmente, um bom presságio. O meio de campo foi reforçado, e creio que Dario Conca possa render bons frutos. Nossa defesa, segura no ano passado, manteve-se íntegra. Para muitos, o gol era nosso sofrimento mais longo, dado que não temos um Paulo Victor há muito. Amanhã, jogará Diego, goleiro que ao ser contratado por nós era tido como o melhor do Brasil, mas que ainda não se firmou. É uma esperança.
Que não se iludam os mais vibrantes, mesmo que tenhamos hoje muita força. Doutro lado, estará o estreante Cardoso Moreira, da simpática e humilde cidade do norte Fluminense. Não virão com a intenção de serem meros coadjuvantes e, mesmo sabedores de tudo o que podemos realizar este ano, o respeito precisa imperar. Teremos o Maracanã como merecemos, nosso, límpido, e cabe-nos a função de abarrotá-lo, de fazer a grande apoteose da gênese, do nosso começo de um ano que pode ser especial.
A semana a seguir vem com mais dois jogos; em caso de boas vitórias, estará selado o passaporte de confiança para a Libertadores de América, que há muito nos espera. Muito falam do “grupo da morte”, que será uma tarefa terrível onde será muito difícil que nos classifiquemos. Para alguns, o futebol é momento, com certa razão; entretanto, basta olhar para nossa trajetória de louros e não será encontrada nenhuma facilidade, nenhuma dádiva. Para o Tricolor, não há títulos de antevéspera, mas sim os de últimos minutos. Nosso costume é o suor, a dificuldade, os olhares reprovadores dos mais sábios; porém, a sala de troféus mais abarrotada fica no vert-blanc-rouge.
Quando o Fluminense está em campo, todo jogo é importante e decisivo, toda taça é fundamental para as nossas mãos. Contudo, este ano é crucial, pois não podemos deixar que os flamengos sequer ameacem um título que trazemos desde a invenção do mundo, que é o de maior campeão desta terra. E há um sonho à vista: o das Américas. Ao contrário da ampla maioria dos especialistas em futebol, temos reais chances de conquistar a Libertadores e arrebatar o único título que nos falta – e o sol da América pode ser também o sol nascente de Tóquio, o sol do nosso bicampeonato do mundo. Sabemos, todos nós, que trata-se de um árduo caminho, tortuoso; entretanto, quando eu entrar amanhã em Mário Filho e subir a rampa, é exatamente neste caminho que estarei imaginando.
Em futebol, muita coisa é tênue, passageira, de modo que previsões têm sempre muita chance de dar em tiros n’água – mas eu acredito no Fluminense, na força do Fluminense, a mesma que nos tirou dos piores momentos e descréditos, a mesma que nos levou a folguedos e festas. Não sei dos títulos que virão, e nem se virão, mas o fato é que hoje, nesse dezoito de janeiro que se encerra, poucos times têm mais potencial de volta olímpica do que o nosso Tricolor de Laranjeiras. O tempo se encarregará do resto.
Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2008
Paulo-Roberto Andel

Monday, January 14, 2008

Gerúndios

minha amena vida não se pauta em pretéritos;
ela é regada num jardim de gerúndios.

digo não ao mais-que-perfeito, ao subjuntivo.

eu quero também o erro, o defeito, e alguns bons indicativos.

basto-me vivendo, vivendo e aprendendo, aprendendo e respirando, solfejando;

fico sonhando, falando, bebendo e cantando, fazendo e desacontecendo.

eu namorando, amando e remando com a maré, num descansando, repetindo ou reiterando.

eu vou brotando e desfolhando, renascendo das cinzas, dos louros e pêsames, das lembranças.

o gerúndio é meu oxigênio, pretérito mais-do que-erro,
meu erro crasso, meu ir e vir das apressadas ruas.

enquanto eu ando, a vida é agora,
é do endo, indo, do ando sem quando;
é água de riacho que vai rumando;

desce o curso em busca da morte,
longe do hoje, lá no além-mar.


Paulo-Roberto Andel, 14/01/2007


http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action

Friday, January 04, 2008

Brevidade

A única coisa realmente importante a dizer no dia de hoje é que eu amo minha mãe.

Muito.

Sempre.

No mínimo, enquanto eu viver.


Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008

A longa noite - partes I e II

I


quando você foi embora
não deixou rastro, nem cheiro
e nem carta de até mais


o que me parecia delírio
tomou ares de eterna mudez,
de silêncio inconveniente,
que ensurdece e apavora


você foi embora e cerrou meu canto,
rachou meu coração em dois,

ficou um para a vida ingrata,
com suas dores e paixões,
cheia de não e porém, ou talvez
e certeza de quase nada

a outra metade é toda tua
sempre tua, a cada momento


hoje eu não quero ver o sol
nem o mar da praiva vermelha,
basta-me cogitar o teu abraço,
o teu beijo de afago e certa graça
que só mora em teu sorriso,
em tuas piadas de sempre



hoje, não posso apertar a tua mão,
e daí?


todo lugar tem o teu rosto

qualquer frase na tua voz é poema

e cada passo que eu dou
exige o respirar do teu ar
do meu amor solene
teu, perene



II



A longa noite
é longa e morna
é longa e mansa
há noite

há um caminho de pedras
e percalços escondidos
no fúnebre silêncio
imerso em negrume

à própria sorte
a morte à noite

alonga-se a noite, feito um açoite
nas costas nuas dos pretos velhos,
dilacerados em vida

há noite ao norte
para cada estrela que brilha,

mesmo há muito morta,
a estrela estende as mãos
em forma de brilho,
na desilusão da esperança
que não se prende,
não espera quem a alcança
afoito, pela noite,
avançando horizonte

há noite, a longa noite,
doce e traidora noite,
que repousa cativa
no mar da tranquilidade,
no afago secreto da lua,
serpente no monte,

há noite,
a longa noite em riste
é tristeza pintada com aquarela.



Em homenagem à pessoa mais importante de minha vida, minha mãe, Maria de Lourdes Andel.



Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008

Diana

Velha amiga, eu volto à nossa casa
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar
Já não te encontro à espera ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanto silêncio sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar
Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom
Duma tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar
Diana, Diana, Diana, Dianá, Dianá
Diana, Diana, Diana, Dianá, Diá, Dianá, Dianá


Toninho Horta

Friday, December 28, 2007

Mais do mesmo

Entra ano, sai ano, as coisas não mudam muito, a não ser pela aceleração do crescimento (que é também uma pequena reação aos anos de estagnação d'outrora) e pela nova geração de celulares.
Este ano já nasceu morto.
Perdi minha mãe na terra com quatro dias.
O resto, foi quase lucro.
Vi os mesmos jogos de futebol e gostei de quase todos. Futebol é bom; desagradável é o que o cerca. O Fluminense ganhou o Brasil, o Fluminense é o que há.
Alguns shows, alguns filmes, muitas músicas.
Namoros que vão e vêm, namoros de uma noite somente, namoros de meia noite. Agora sou sério. Acho.
Lá fora, faz um calor danado e deve ter cem, duzentas mil pessoas na orla. Praticamente nenhum tumulto. Traficantes também tiram férias, acho. Nem tanto.
Acho estranho quando as pessoas falam de feliz natal e de boas festas.
Festa?
Não quero ser um chato, mas há um ano os bandidos incendiaram o ônibus com gente dentro, ninguém mais fala. Arrastaram o menino por quilômetros, ninguém comenta. Bala na cabeça do garoto no Clube Federal, cadê? Onde está a memória insana dessa gente?
Festa?
Final de ano, fui bem recepcionado por uma querida num daqueles apartamentões da Atlântica. Teve amigo oculto. Um amigo da turma, educado, começou a prosear. Outro camarada chegou. Falavam de Lula, do roubo, da corrupção, coisas que me deixam até cansado. Tudo bem. Problema foi quando um defendia a ditadura como meio de "salvação do país". O outro dizia que "tem que remover essas favelas inteiras".
Aí eu me assustei.
Perdi meu tio por conta da ditadura, já estudei o tumor que foi na vida carioca a remoção noutros tempos. Entendo quem defenda isso por desespero com as coisas de hoje ou ignorância com o passado. E só.
Noutros tempos, eu ia defender o meu discurso. Ali, naquela altura de dezembro, desisti. Susto em um segundo; silêncio, noutro. Melhor ver o mar de Copacabana, a construção do palcão onde vai ter muito fânqui na "festa da virada".
Virada?
Não passou a CPMF. Que maravilha. Ô. Tudo em nome do "povo" que é sacrificado porque já paga impostos demais. Certa verdade. Imposto para o refrigerante, o pão, o jornal, a luz, o gás. Mas a matemática me pareceu um tanto esquisita: boa parte do povo não paga CPMF porque simplesmente não opera com conta corrente. Verdade seja dita: uma pequena parcela do condado brasileiro não gostava desse imposto porque ele é mais enrolado de sonegar.
Os brasileiros estão aí. As televisões mostram seus programas de retrospectivas e seus "colar, colou!" - os pilotos de séries que, se derem alguma audiência, entram no ano que vem em grade fixa. A maioria não dá.
O doismileoito terá seu carnaval encolhido. Carnaval, para os pouco afeitos, não é somente o tempo de desfiles, mas sim todo o período compreendido entre primeiro de janeiro e o dia seguinte ao Desfile das Campeãs. Aí, o ano finalmente começa - e com desconto mas sem CPMF.
Ao que tudo indica, Bob Dylan vem cantar no Brasil, é sinal de alento.
Um bom campeonato de futebol, o carioca, e os times na Libertadores. Será divertido.
As pessoas vão encher a cara no dia trinta e um, muitos não abrirão mão do pó. Uma ou outra suruba, uma ou outra devassidão. Males diversos, creio.
Eu não faço planos.
A vida tem dois dias letivos: um quando você nasce, outro quando você vai embora. O resto é intervalo para amor, dor e pensamentos ao longe.
Eu queria ter visto Ana Klein, mas não consegui. Alessandra, felizmente sim.
O Zé vai casar, finalmente ouviu algo que eu disse.
Conseguindo viajar um pouco nos finais de semana, vendo o Fluzão e namorando normalmente, além de pagar as contas, estou quase satisfeito. Nada de grandes ambições.
Tomara que não me encham muito o saco com essa baboseira de "O governo do Lula é uma vergonha com toda essa corrupção"; já li e pesquisei muito sobre o assunto, muito além da leitura de jornais rasteiros e da falácia de senadores que têm a carteira profissional virgem.
Tomara que os traficantes matem menos e trafiquem menos. E que as pessoas cheirem menos pó.
Tomara que se roube menos.
Tomara que, daqui a um ano, tenha menos gente hipócrita falando em união, amizade, fraternidade, enquanto se nega a dar um real para o mendigo ou sonha com a remoção daquelas malditas favelas lá de cima.
E basta. Mais do mesmo já melhora alguma coisa.
Um beijo a quem devo.
Até.
Paulo-Roberto Andel; 28/12/2007

Thursday, December 13, 2007

Boa ação

Ontem, tarde da noite, estive refestelado no sofá enquanto girava incessantemente os canais da tevê. Houve um estalo, e lembrei-me de que ocorria a votação da CPMF transmitida pela TV Senado - sempre um bom programa para se rir ou chorar, dependendo de cada caso. Deixo claro que acompanhar a trajetória dos nobres parlamentares é fundamental, por mais inacreditáveis que sejam seus argumentos para votar nas questões á, bê ou cê, "pelo povo".

Certa hora, apareceu o Presidente Sarney, hoje Senador, em seu discurso. Naquele instante, esqueci-me das bazófias senatorais - até porque a CPMF, que desagrada mil vezes mais a classe empresarial (e dela cobra) do que o "povo" propriamente dito. Assisti um pouco e mudei de canal, sem prestigiar o cinismo do Sr. Virgílio e a posterior "comemoração da vitória", como se a vida de milhões de pobres nada valesse.

Sarney ficou na cabeça. Lembrei dos tempos de presidência. Confusos, por sinal.

Alguém me contou que a eleição era de mentirinha, somente no Congresso, e todos sabíamos que Tancredo venceria - o Brasil era caótico, mas Maluf era demais. Eu voltava da praia quando alguém gritou num bar da Domingos Ferreira:

- O Tancredo venceu!

Nada perto da ampla movimentação meses antes, por conta das manifestações pelas eleições diretas.

Tumulto mesmo foi quando Tancredo passou, era noite de 21 de abril. Entrou o Brito na televisão e comunicou. O enterro parou o país, era gente de todo lado. Menos pela boa trajetória de vida e mais pelo que significava aquele momento, Tancredo entrou para a história. E Sarney, que nem pensava em ser vice-presidente poucos meses antes, ocupou a cadeira.

Veio a febre do Plano Cruzado e a esperança de se controlar a inflação. Graças ao dinheiro doado por meu querido tio, que viria a falecer um ano e meio depois, consegui até fazer uma faculdade particular com os preços das mensalidades sob "congelamento" - se a memória não falhar, eram quatrocentos e sete mil cruzeiros em fevereiro, e passaram para quatrocentos e sete reais durante o ano todo. pelo menos, até a eleição, quando o "descongelamento" de preços foi para o espaço e a inflação voltou invencível.

Tempos de Sarney eram também tempos de Moreira Franco no Rio de Janeiro, e a promessa de acabar com a violência em 180 dias. O resultado, todos sabemos.

Eu não arrumava emprego, a não ser temporariamente na gigante Mesbla, a mesma que depois foi posta a pique pelo Sr. Mansur. Consegui a duras penas, nem tão duras assim, passar para a escola pública de qualidade. Dureza mesmo, era no bolso.

Tudo isso me veio à tona com a simples vista do discurso do Senador.

Agora, marcante mesmo, nos tempos do Sarney, foi uma certa noite, que deve ter sido no segundo semestre, depois do fracasso na Copa do Zico. Estudava em Niterói; para voltar, pegava o velho 996, velho mesmo, modelos Mercedes Benz dos anos 60. O caminho rotineiro de sempre: Ponte, Rodoviária, Santo Cristo, Santa Bárbara, Laranjeiras e Botafogo, até saltar na praia em frente à Sears. Ali, novo ônibus, em geral o 434, para saltar na Siqueira Campos e rever a turma no Bar do Seu Manel - o Xuru, Coruja, Pedro, Henrique, Ana, João.

Numa das voltas, eu saltei do 996 e, prestes a fazer a baldeação, uma senhora me pediu ajuda. Era bem velhinha, redondinha, tinha um quê de Tia Anastácia, mas com certa dificuldade para falar. Carregava uma bolsa grande, parecia vir de longe, de viagem. Estava com um papel rascunhado, mal-traçado, que tinha um escrito de uma secretaria que parecia ser um órgão público, mas sem o endereço, e procurava pelo filho que estava no trabalho.
E começou a chover.

A primeira coisa que pensei foi em tomar um táxi, só que eu não tinha um tostão no bolso que não fosse a passagem de ônibus. Arrisquei, estiquei o braço e um sujeito parou. Expliquei o fato de que estava tentando ajudar a senhora, já eram cerca de onze da noite, ele topou colaborar. Descemos São Clemente, Real Grandeza e Voluntários, até que lembrei de um antigo arquivo que funcionava na Praia, entre Voluntários e São Clemente, justamente, e pedi ao motorista para que fôssemos para lá. Na porta, comparamos o rascunho e era exatamente o local procurado. Saltamos, o motorista veio conosco. Depois de minutos de espera à porta, fomos atendidos. Ela balbuciou e, felizmente, o filho dela estava lá mesmo, trabalhando como vigia.

Deu certo. Ainda cheguei a ver pela fresta do portão mãe e filho se abraçando.

Despedimo-nos, o taxista me deu carona até em casa - ficou até emocionado, ele disse que era do Norte, que não via a mãe desde muito tempo e queria voltar à terra. Deixou-me na Siqueira. No bar, não tinha ninguém, eu resolvi subir logo para casa. Minha mãe estava sozinha pois, naquele tempo, meu pai tinha tentado uma experiência de trabalho em São Paulo, devidamente fracassada a posteriori.

Cheguei e dei o tradicional abraço na bolinha mãe, para depois contar do fato. Ela ficou contente e emocionada, até porque durante cinquenta anos procurou a família perdida (naqueles tempos, eram trinta). E disse que tinha ficado orgulhosa de mim. Fiquei contente também. A metros dali, a velhinha também estava abraçada ao filho, feliz. No fundo, foi apenas uma boa ação, daquelas que a gente devia fazer a toda hora e que eu, compromissado com a causa pelo fato de ainda ser escoteiro, buscava a todo instante. Quando não buscava, a chance da boa ação surgia logo em frente.

Hoje, nesse meio de dezembro, uma vez que ninguém vai me dar o caminho para eu reencontrar minha mãe, e nem eu vou poder mais ver a velhinha abraçando o filho, não deixa de ser uma boa associação de idéias que a imagem do Senador Sarney na tela me traga algo tão bom - e não exatamente o que eram aqueles tempos para muitas pessoas.

Um gosto de abraço infinito, uma boa lembrança. Excelente.

Daquele tempo de escassez, talvez uma das únicas.


Paulo-Roberto Andel, 13/12/2007

Friday, December 07, 2007

Pré-conceitos

Era tarde duma quarta, eu conversava ao telefone com um amigo que mora no Planalto, não necessariamente na sede do Governo Federal. Nada de i-meios ou emessêni, telefone da antiga, falar pra escutar e vice-versa. Contava-me ele das pressões que recebe, na condição de solteiro bon vivant, para celebrar um compromisso oficial, fato que o incomoda pelo preconceito que envolve este tipo de situação.
Eu compreendo.
O fato de ser solteiro, gostar de poesia e arte contemporânea rendeu-me e rende muitas pechas.
Tenho outro amigo que crê piamente em que eu seja virgem, por mais patético que isso possa ser, dado que ele não me viu com namorada a tiracolo, isso porque não somos companheiros de vigília noturna e nunca fomos - mas, além de amigo, ele ganha desconto porque também crê piamente em outras coisas que eu, nem sob o efeito dos mais potentes entorpecentes, colocaria fé. Por outro lado, cada um que regule a sua vida e saúde sexuais. Virgindade é direito, abstenção sexual ou mesmo luxúria plena, cada um que cuide de seu corpo.
Pensei em fazer uma listinha para entregar-lhe, mas soaria cafona e desrespeitoso com quem já amei - e com quem amo. Vida que segue.
Estamos em 2007 (ou, ao menos, deveríamos estar sob o ponto de vista cronológico), o velho modelo do eu-te-amo-para-sempre-e-vou-viver-junto-com-você tem seus desgastes - ainda que a mulher amada seja dádiva da natureza - e o resultado é que, num mundo de gente mal-casada, mal-namorada, mal-apaixonada e conformada com a mediocridade, poucos pares das novas gerações podem realmente falar da essência do eu-te-amo (Dara, argh). Amar é bom, mas não é para todo mundo.
Amor, sexo, casal homem-mulher. Tudo isso está envolvido pelo manto do preconceito. O casado que tem má vida sexual, o solteiro que deve ser gay por que não casa, o gay bonito que não fica com mulheres por mais que elas insistam em "regenerá-lo", as mulheres que não se separam para a família não apedrejar. A família que não conversa sobre sexo porque tem "respeito". Esqueci do sujeito que casa ou namora longamente para mostrar aos outros que não é um "encalhado", mesmo que a relação em si não seja das mais emocionantes. Melhor dizendo, uma porcaria.
Telefone desligado, pensei em preconceito. Outro. Outros.
Eu tinha uns nove anos de idade. No intervalo entre um outono e outro, mudei de um apartamento de 300 metros quadrados (onde poderia apresentar ótima forma na capa duma "revista" Caras) para um quarto-e-sala de 40. Tinha um garoto da terceira série, chamava-se Márcio, morava na Lacerda Coutinho. Encontrei-o na rua, chamei-o para jogar botão em minha nova minimansão. Ele apareceu. Lembro-me de como ele olhava aterrorizado para as paredes, para a cozinha, que eram humildes mas extremamente limpas e bem-cuidadas por minha amada mãe - estava acostumado ao gigantismo do antigo apartamento. Ficou lá em casa uns dez minutos, foi embora com cara de horror. Amada mãe até se assustou. Eu não tinha entendido muito bem, muito tempo depois é que saquei: preconceito contra a pobreza. Um sujeito de nove anos ser amigo do apartamento de outro é algo que desafia definições - e, talvez, quem sabe, possa explicar um pouco do que é o Brazyl e o Rio de Janeiro em que vivemos hoje. Primeira vez que me deparava com algo ruim desse jeito - até ali, minha vida era refrigerante, praia, botão, futebol e andar por Copacabana, desimportando quem era filho de barão ou porteiro.
Preconceito. O conceito prévio, normalmente embebido em ignorância.
Colégio, crianças, show de crueldade. Eu nem tinha onze anos, os galalaus de quinze, dezesseis enchiam a paciência porque minha voz era fina e eu tinha um metro e meio. Culpa minha dos caras serem reprovados três, quatro vezes. De vez em quando reencontro um pelo caminho, e incomoda ver que o dito fala das mesmas coisas, sem evolução, feito tivesse ficado em congelador tal como um Buck Rogers, só que sem o menor traço de heroísmo.
Era escoteiro, o pessoal dava gritinhos na rua, acho que por andarmos de uniforme. Estranho, pareciam as mesmas vozes daqueles caras que, passando de carro pela avenida Atlântica, xingavam os transeuntes em alta velocidade.
Faculdade, quando eu citava algum escritor ou poeta, alguém franzia a testa, com certa reprovação. Era o Instituto de Matemática e, em mais de uma vez, ouvi alguém dizer que ali era lugar de se calcular, não de ler. Deve ter sido uma das três maiores besteiras que ouvi na vida. Ou quatro. Oito. Teve uma outra criatura feminina de ofício que xingou meu nome aos quatro costões, e faz isso há dez anos, mesmo devidamente casada, apaixonada e feliz: tomou raiva de mim porque não a beijei e fiz certa força para não beijar. Era feia, um fato, mas não foi a principal razão do esforço: o problema mesmo era que fedia. As que eu devo ter beijado bem até hoje me chamam de Paulinho, me convidam para almoçar, nunca me xingaram. Grapete: quem bebe, repete. Deve fazer algum sentido.
Falaram mal de mim quando emagreci dez quilos e quando engordei trinta, com dez anos de diferença. Quando era moreno de praia, me chamavam de vagabundo; agora, branco, virei "esquisito".
No Brasil, o que não falta é segmentação. Gente disposta a tudo por quinze minutos de fama, a largar mão de qualquer senso ético em prol de bens materiais, luxúria e pequenas riquezas. Tudo raso, falho, trôpego. Você tem que ser bonito, rico, desejado, poderoso. Você tem que ter o mundo aos seus pés, não pode broxar, não pode falhar, não pode chorar, não pode deixar de mostrar aos outros o que tem de melhor. Você tem que ser o máximo, mesmo que isso signifique ser a maior lorota da semana, mês ou ano.
Falar de pobreza, um dos pontos-fortes do preconceito é simples. Basta procurar um nobre no meio do povo pelas grandes avenidas cariocas nestes tempos de pré-natal.
Solidariedade? Que tal começar por abraçar os mendigos, tão seres humanos como nós? Eles podem até feder, mas você não precisa beijá-los na boca.
Encheram meu saco por trinta anos. Agora é a minha vez. Arrá!
Eu não gosto de funk. Eu não gosto de viajar de avião. Eu não gosto de Arthur Virgílio. Eu não gosto de dirigir carros. Eu não gosto de bares cheios, de barulheira e da mais abominável expressão ideomática contemporânea: "galera", que não significa mais os velhos barcos. Dou gargalhadas quando falam que Ivete Sangalo é a maior cantora brasileira. Do Mainardi, quase não se fala porque ninguém o conhece. Eu não gosto dos jornais "Meia-Hora" e "Extra". Eu não gosto dos arroubos intelectuais da Luciana Gimenez. Eu não gosto da mídia que impõe a novela, o Flamengo, os vespertinos da televisão de domingo, o axé, o pagódi, os neo-sertanejos. Eu não me interesso pela carreira solo de Sandijúnior. Eu não gosto de suruba e de gente descontrolada pelo uso de drogas, legais ou não. Por isso, sou preconceituoso?
Tomara que sim.
E que o Márcio não tenha se tornado um boboca.
Paulo-Roberto Andel, 07/12/2007

Saturday, December 01, 2007

IMPRESSÕES - A pátria da debilidade

Tal como tantos outros brasileiros, senti-me humilhado e chocado ao pensar sobre o que seria a chamada cidadania num país que, por força de "contingências", permite que uma adolescente detida por furto seja presa numa cela com uma dezena de detentos, sendo estuprada várias vezes ao dia em troca de comida, água ou outras necessidades básicas, e ainda sendo filmada por "policiais" através de aparelhos celulares, que registraram criminosamente o horror do pior crime contra a mulher - conforme soubemos ocorrer no Pará, após ampla divulgação na mídia. O Estado, que deveria garantir segurança a qualquer cidadão, preso ou não, é promotor de tamanha crueldade através da polícia - inspetores e delegado (a), que conduziram o nefasto processo.

Dias depois, para tentar explicar o inexplicável, foi a Brasília o então chefe da Polícia Civil paraense, cujo nome não será citado neste texto por absoluta indignação. Coroando o show de atrocidades que envolveu tal caso, o dito chefe referiu-se à adolescente torturada como uma "débil mental", por, em nenhum momento, ter afirmado ser "de menor". Em suma, a culpa de todo o sofrimento que a garota sentiu, para o dito chefe delegado, era dela mesma. Sabemos que, no Brazyl, quase tudo é possível - mas aí, neste caso, passaram da conta. Palhaçada tem limite. O chefe perdeu o cargo. Que descanse em paz.

Será que é preciso comentar o desrespeito constitucional quanto ao fato da proibição de homens e mulheres presos dentro de uma mesma cela?

No próprio Pará, outros casos semelhantes foram denunciados. Não é problema de lá, bem sabemos. Procurando-se, acha em outras praças.

Dizem ser o Brazyl um país pacífico. Não temos guerra.

Com as cadeias que temos, e certos policiais, não precisamos de nenhuma Bagdad.

No mais, o dito chefe desrespeitou um coletivo de portadores de necessidades especiais, relacionadas a questões de saúde mental.

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Alguém imaginaria Suzane Von Richthofen numa cela com homens? Isso aconteceria hipoteticamente?

Nunca.

Suzane, que não está presa por furto, como a pobre menina paraense, mas pelo vil assassinato de seus próprios pais a pauladas, é um símbolo de perversidade.

Loura, bonita e rica. Jamais passaria por situação semelhante de estupro na cela, a não ser que quisesse.

A prisão no Brasil tem várias faces. Cada uma delas, de acordo com a condição financeira do detento - e isso faz pensar sobre o que é realmente no Brazyl a chamada "livre iniciativa".

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Apesar de cobertura televisiva compatível com o tamanho da atrocidade, a vergonha registrada no Pará perdeu terreno de mídia para os chamados "devaneios" de Chávez.

"Ditador" de plantão, segundo as autoridades jornalísticas.

Olhando para nossas próprias cadeias, deveríamos pensar sobre a tortura nelas praticada - provavelmente muito pior do que o resultado de todos os possíveis atos ruins de Chávez até a data de hoje, como comandante bolivariano.

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Juvenal foi um bom zagueiro. Sofreu o pão que o diabo amassou na Copa de 1950.

Naqueles tempos, boleiro não ganhava milhões de dólares.

Juvenal parou, ficou pobre, doente. Depois, miserável. Ainda vive, numa casa de pau a pique, oitenta e nove anos. Tem artrose, não anda. Deu no Fantático. Juvenal não viu, pois não tinha televisão. Depois ganhou uma velha, de presente.

O Brazyl é sede da Copa de 2014. Juvenal jogou no Flamengo e no Palmeiras.

De Parque Antactica, a única notícia é a de venderem um kit com pedaços de grama do Estádio Palestra Itália, mais um poster e um CD com o hino do clube, cantado pelos cracks da pelota. Setenta reais.

Márcio Braga, presidente do CRF, afirmou que "se o clube não puder ajudar Juvenal pessoalmente, ele mesmo o fará do próprio bolso". O Flamengo quer comprar o Maracanã e não pode ajudar Juvenal?

Palhaçada tem limite.

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A CBF, claro, não se manifestou.

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Somos ou não uma pátria marcada pela debilidade?

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Paulo-Roberto Andel, 30/11/2007

Thursday, November 08, 2007

Missa dos escravos (Slaves' Mass)

a missa dos escravos
era quilombo disfarçado
num veloz yorubá,

era fuga do inferno
para a bênção de oxalá,

a missa era canto,
era pranto de dores,
desesperança em fé

a missa dos escravos
era o alívio das almas
fatigadas, estupradas
sem piedade ou compaixão,
almas dispersas,
malversadas no riso do sinhô

era missa, era fuga
era passo ao cadafalso,
a corda, aos olhos era fim
missa diadorim
noite dos náufragos
era silêncio de amém, obá!
a missa dos escravos
era sempre a nação zumbi.


(Para Hermeto Pascoal)

Paulo-Roberto Andel, 08/11/2007

Ultimamente

era certa noite de terça-feira, eu fitava uma morena
e lembrava de minha mãe,
minha querida mãe, que se escondeu no infinito,
no longe d'orizonte preto
que não tinha Xuru, nem João e nem Luiz
ou Bustamante,
um disparate.

as pessoas têm morrido demais, de forma que só as vejo em mim,
em meus pensamentos que perambulam nas calçadas,
entre os passos apressados das grandes ruas,
pelo aperto das gentes nos veículos coletivos,
nos corredores de acesso aos estádios de futebol,
nos carros engarrafados nos arredores da orla azul de mar.

as pessoas têm morrido nas conversas de bar,
onde outrora é hoje,
e falecem nos dias de sol, com música de rua
em alto-falantes e batidões

as pessoas têm fenecido no funk, no rock,
sem axé nem bênção, sem cânfora nem bálsamo

as pessoas morrem nos feriados, nas férias
e numa terça-feira qualquer, aos olhos duma morena

e justamente por morrerem muito, são fagulhas de vida,
permanentes, e faíscam pelo eterno breve.


Paulo-Roberto Andel, 09/11/2007

Wednesday, November 07, 2007

Baticum

cada
passo curto
que eu peço
ao rosa firme
da tua boca
parece um eco
de caverna
e bate fundo
no meu coração
baticum de cuíca
samba lento
que sorvo
feito bebida
é um cale-se de amor

Paulo-Roberto Andel, 07/11/2007

Penta em pencas

O que não falta no futebol brasileiro são equívocos das mais variadas naturezas, e a recente discussão sobre o propalado pentacampeonato dos flamengos contra os são-paulinos vem bem a calhar como reforço de tese.

Primeiro ponto, a bobagem de se discutir a origem do que se chama de “campeonato brasileiro” – o que, para alguns, data de 1971. Levando-se em conta, por exemplo, que a Taça Libertadores começou em 1960, tendo como participantes os representantes nacionais dos países sul-americanos, é claro que havia um meio de representação para tal acontecimento. E assim foi: em 1960, o E.C. Bahia, campeão brasileiro de 1959, disputou a Libertadores, na condição de campeão da Taça Brasil. Dali em diante, o campeão da Copa Brasil foi sempre o representante oficial. A Taça era disputada pelos campeões estaduais de todo o país, com a diferença de que os times do Rio de Janeiro e de São Paulo entravam automaticamente na fase final do certame, em modelo muito parecido das primeiras disputas da Copa do Brasil, torneio criado em 1989.

A Taça Brasil teve dez edições, com a seguinte distribuição de títulos: Santos, 5 (1961 a 1965); Palmeiras, 2 (1962 e 1967); Bahia, 1 (1959); Botafogo, 1 (1968); Cruzeiro, 1 (1966).

No mesmo ano de 1967, o então Torneio Rio-São Paulo recebeu uma ampliação, com o convite de times das regiões Sul e Nordeste, como Grêmio, Inter, Atlético Paranaense e Santa Cruz, passando-se a se chamar Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o popular “Robertão”. A Taça Brasil permaneceu como torneio paralelo até o fim de 1968 – a partir de então, o Robertão tornou-se a única competição nacional do Brasil Em 1969, o torneio passou a ser denominado Taça de Prata. Em suas quatro edições, os campeões foram: Palmeiras (1967/1969); Santos (1968) e Fluminense (1970). Até aqui, já tínhamos 11 anos de competições nacionais, inclusive com anos em que um time havia ganho duas competições nacionais (Palmeiras em 1967) e que havia dois campeões no mesmo ano (Santos e Botafogo, 1968).

Então, em 1971, criou-se o chamado “Campeonato Brasileiro”, que já existia de fato há mais de uma década. E deveria ser chamado de torneio ou copa, pois o campeonato pressupõe jogos de ida e volta entre todos os participantes, com acesso e descenso, e isso jamais ocorreu de forma correta entre 1971 e 2003 – mesmo depois, como veremos a seguir. A dita nomenclatura de “Campeonato” Brasileiro nem era unânime à época; álbuns antigos de figurinhas daqueles podem mostrar os nomes de “Taça Brasil” ou “Copa Brasil” em seus títulos. Posteriormente, “Taça de Ouro”.

A cada ano, houve uma fórmula de disputa do torneio. A cada temporada, o inchaço provocado pelos interesses políticos da ditadura militar, num princípio de se “integrar” o Brasil. Depois de anos incríveis, como 1979 (com 96 clubes e os times paulistas entrando automaticamente na fase final de disputa) e 1982 (onde o Corinthians, advindo da “Taça de Prata, espécie de segunda divisão, chegou às semifinais do torneio no mesmo ano), a campanha pela ética e a moralidade no futebol brasileiro foi deflagrada em 1987, logo após o torneio de 1986, vencido pelo São Paulo, em março do ano seguinte – o atropelo deveu-se a confusões administrativas e a continuação da fase final deu-se após o carnaval. Os times de maior apelo popular reuniram-se e resolveram bancar um campeonato por conta própria, a chamada (corretamente) de Copa União. Importante dizer que tudo isso começou porque a CBF resolveu reduzir o número de clubes de oitenta para vinte e oito e, com isso, Botafogo (co-campeão em 1968) e Coritiba (campeão em 1985) ficariam de fora da competição. Ambos os clubes interpelaram a CBF judicialmente e, com isso, surgiu o Clube dos 13 (Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco). O América, terceiro colocado da competição de 1986, foi alijado da competição por decreto, recusou-se a jogar qualquer torneio que não fosse o de elite (com absoluta razão, já que a chamada Copa NÃO foi elaborada com base em critérios técnicos) e, daí, iniciou longa jornada de dificuldades até hoje. O mesmo aconteceu com o Guarani, campeão em 1978 e vice-campeão do torneio de 1986 – porém, os de Campinas concordaram em disputar o que se convencionou chamar de Módulo Amarelo.

Dado o impasse, pois certamente o formato da Copa União contrariava os interesses dos clubes que, em tese, conquistaram suas vagas nos critérios supostamente técnicos (classificação no ano anterior), a CBF interveio com a decisão de cruzar o chamado Módulo Verde (Clube dos 13 mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz) com o Módulo Amarelo, composto pelos demais times alijados da disputa pela chamada elite. Esta intervenção deu-se meses antes da fase final da Copa União – que, embora com um discurso renovador, permitiu situações curiosas como a de um time que não tivesse ganho nenhum dos turnos de classificação chegasse às semifinais, que foi exatamente o caso do Flamengo (o Atlético Mineiro foi o primeiro colocado nos dois turnos de classificação, e o time da Gávea entrou como o melhor segundo). Recorde-se que, dez anos depois, uma final de Taça Guanabara previu uma partida final entre o primeiro e o segundo colocados e muitos gargalharam, atribuindo um ar grotesco ao método de disputa. Certamente, se eram rubro-negros, deviam ser para lá de esquecidos.

Particularmente, não tenho dúvidas de que, naquele ano e com aquela fórmula de disputa, o Flamengo seria o grande favorito ao título nacional e a uma das vagas da Libertadores em 1988 – ainda que de forma estranha, alijou o Atlético da conquista da Copa União e bateu um limitado Inter na final do Módulo (este sim, o time gaúcho, tinha todo interesse em “melar” o cruzamento de módulos, pois temia o confronto contra Sport e Guarani, devido ao péssimo momento em que se encontrava tecnicamente). Sport e Guarani nem chegaram a decidir quem seria o campeão do Módulo Amarelo, tamanha era a importância maior de se ir para o quadrangular final – embora isso não diminua a aberração da decisão em aberto após um incontável empate nos pênaltis.

O que atrapalhou os da Gávea foi o gigantismo e a prepotência. O mesmo que se revela de forma agressiva na mídia ainda hoje, que vende a idéia de um time somente no Brasil, o que sabemos há muito ser uma balela. O mesmo que faz uma auto-exaltação diária, como se futebol pudesse ser jogado sem adversários e sem outras torcidas, outras diferenças. Recusaram-se a disputar o quadrangular final e deixaram que a competição começasse, não comparecendo aos jogos e perdendo por W.O. Tinham a certeza de que seriam nomeados por decreto para a disputa da Taça Libertadores. Mas não foi o que aconteceu. E perderam a vaga para a competição sul-americana mais fácil de sua história.

De lá para cá, passaram vinte anos, desordens e muita confusão no futebol brasileiro. O Flamengo viria ainda a conquistar duas Copas do Brasil, em 1990 e 2006, competições nos mesmos moldes que seus antecessores nos anos sessenta o fizeram – e que a chamada massa rubro-negra insiste ingenuamente em não reconhecer, como se o Santos de Pelé, bicampeão mundial em 1962-1963, por exemplo, tivesse chegado à Libertadores por acaso ou convite – e não há um brasileiro vivo ou morto que conheça futebol e não saiba do Santos de Pelé. E ganhou um torneio brasileiro também, em 1992 – cujo sucessor inauguraria uma nova era de ascensões, promovendo doze times à chamada divisão principal.

Anos depois, por motivos até parecidos, em 2000, foi instituída a Copa João Havelange, vencida pelo Vasco, na final contra o São Caetano. Os times vieram de módulos diferentes e, teoricamente, o Vasco poderia sentir-se prejudicado por chegar à final contra um time que enfrentou adversários de nível técnico menos apurados. Mas nem mesmo Eurico Miranda cogitou de não realizar os jogos de cruzamento, ainda que a partida final em São Januário tenha sido suspensa. E o que dizer do Cruzeiro, que terminou o Módulo Azul daquele ano com 45 pontos, seis à frente do Vasco? Imaginem se os oito times que classificaram-se na divisão de elite recusassem-se a disputar a fase final com os demais das outras chaves? Teríamos perdido a oportunidade histórica de ver um time como o do São Caetano, que eliminou em casa Fluminense, Palmeiras e Grêmio, até chegar à grande final.

Patético ainda imaginar que o Flamengo possa “apresentar” protestos por um título que não requereu durante quinze anos. E sabedor que a Conmebol e a FIFA não lhe dariam amparo em tal reivindicação.

O São Paulo, se olharmos bem a história, nem é o primeiro pentacampeão brasileiro. Basta olhar o passado. Mas pode comemorar que ganhou cinco títulos no campo, no que merece absolutos parabéns.

Para finalizar, lamento que Zico, jogador de grande categoria, mas içado ao pantheon de maior de todos os tempos por opiniões duvidosas, tenha expressado o sentimento de que a comemoração são-paulina pelos cinco títulos possa ter sido uma “palhaçada”. Vi Zico jogar, e testemunhei muitas vezes sua categoria em campo, embora tenha presenciado falhas também. O sentimento de comemoração de uma torcida por um título é sempre nobre. E, queira ele ou não, o São Paulo venceu os cinco títulos no campo, sem tapetões ou tentativas frustradas de demonstração de força. E que o Flamengo comemore os quatro títulos, mais as duas Copas do Brasil, porque a competição de 1987, mesmo que para alguns de forma imerecida, foi do Sport - e ele foi reconhecidamente o representante nacional do Brasil em competições, junto com o Guarani.

Zico ressaltou que “quem ganha títulos é o time em campo, e não os dirigentes”. Teria toda razão, não tivesse omitido sua opinião num lamentável episódio da Taça Libertadores da América em 1981, quando o árbitro José Roberto Wright encerrou o jogo decisivo contra o Atlético-MG, após ter expulsado mais da metade do time alvinegro com meia hora de partida. Queira ou não Zico, a trajetória de gala de seu time tem remendos rasteiros, da mesma maneira que todos os chamados grandes times brasileiros. E trata-se apenas de um exemplo.

Paulo-Roberto Andel, 07/11/2007

Wednesday, October 24, 2007

O concreto da festa

todos reunidos
todos reunidos
festa da ilusão
solidão

todos estão rindo
debochando e rindo
tudo soa em vão
depreciação

música gritada
corpos seduzidos
inaptidão
desvinculação

copos, tragos, fumos, balas
degeneração

putas, trouxas, broncos, vis
representação

festa da ilusão

decadência em vão

alma em contramão


Paulo-Roberto Andel, 23/10/2007

Velas ao vento

minha vista é caravela
que navega
nas águas claras
do teu olhar

nas turquesas que brilham
mares, ondas
feito fossem
tarde-noite do Leblon

eu suspiro pela bela vista
que namoro em teu olhar

mar de amparo, relicário,
com moldura dos teus louros,
tuas madeixas

eu me perco no mar
e procuro o fim do mundo,
o crepúsculo,
profundo na imagem santa, louca
que leva-me ao caminho
dos teus inesquecíveis lábios


Paulo-Roberto Andel, 23/10/2007

Rap Reto

tudo no manto reto, completo,
exceto o incerto,
para intervir discreto,
repleto no ato secreto,
retrato do fato incorreto e concreto;
portanto, noves fora nada,
tudo perto e deserto.


Paulo-Roberto Andel, 23/10/2007

Friday, October 19, 2007

O taxista

É o sol do meio-dia em plena Rio Branco e eu, homem antigo, daqueles que nem sempre usam o eMule para obter as músicas dos artistas prediletos, volto da tradicional loja de cedês da rua do Rosário.
Discos, mesmo compactos, hoje já se tornam obsoletos; contudo, eu quero o produto, a capa, as fotos, o encarte, tudo me interessa. Bons preços, uns de rock, um de blues, outros de jazz - diferente de tudo, apenas o de hip-hop português, de Portugal mesmo. A loja tem sempre boas ofertas, e ainda fica num endereço categório. Pela direita, terreno que sobrou de velho motel que ali desabou anos atrás, logo acima de um bar onde o Xuru adorava encher o pote, com drinques e drinques. Pela esquerda, Rosário 65, tradicional casa onde as garotas só dizem sim. Volta e meia vejo um amigo por aquelas bandas, cd na sacolinha é só comigo, todos os outros de mãos livres. Dizem que foram comprar pão, cortar o cabelo ou buscar o resultado da loteria. Eu acredito. E rio.
Braço à frente, chamo um táxi. O motorista, atencioso, pára imediatamente. Entro e peço o destino, rua do Senado. Muitos não gostam, acham que o caminho é curto e pode ser mais vantajoso ficar à espera de um apressado executivo que queira pagar sessenta reais por uma corrida até a Barra. Ele, não. É um senhor, vindo do Nordeste, talvez por volta de seus sessenta anos, ouvindo música clássica dentro do carro refrigerado. Eu gosto. Tem algum engano, de toda forma.
Em vez de tomar o caos de congestionamento pela rua da Carioca, o motorista toma iniciativa de seguir em frente, usando Almirante Barroso e imaginando usar Lavradio para chegar à Senado. Moro por ali há alguns anos, e gosto dessa coisa de uma única rua ter diversos nomes. Afinal, Conde de Bonfim, Haddock Lobo, Henrique Valadares, Relação, Chile e Almirante Barroso são seis nomenclaturas para a mesma super-via. Acho. Da Tijuca ao Centro, o que não falta é terra e gente homenageada. Chile é um pedacinho, Relação também. Tudo em nome da democracia.
Esquina de Chile com Lavradio, o sinal fecha. Na direita, IBGE e suas estatísticas. Noroeste, o veterano prédio da Tribuna da Imprensa, sobrado, quase centenário. Silencio, para dar vez ao taxista.
"O senhor sabe daquele prédio ali, da Tribuna? Olha, em 1950, eu era um menino, tinha nem trinta anos, menos até, e vivi uma história naquele lugar. Tinha uma moça, que era jornalista e casada com um policial. Uma vez, ela pegou uma corrida comigo, já que eu passava sempre aqui. Passou a ser minha cliente. Eu a levava até Piedade, Cascadura. Ela sempre me falava da casa, do trabalho, dos ciúmes que o marido sentia, e eu calado. Era mulher bonita, mas eu só espiava de esguelha, nada de me engraçar, nem tinha coragem naquele tempo. Levei a doutora muitas vezes em casa, tarde da noite, acho que ela ficava até o final cuidando das matérias, eram os tempos do Lacerda. Um dia, o policial ficou doente; fiz uma corrida para ela da Lavradio até o Hospital dos Servidores. Chegando lá, ela pediu que eu subisse com ela, para que o marido visse que não tinha nada de mais, e eu era somente o taxista - parece que ele morria de ciúmes do sujeito que levava a patroa todo dia em casa. Subimos, dei boa tarde ao moço, que nem era tão moço. Era, sim, um senhor, que devia ter uns quarenta, cinquenta anos, era velho para ela. Devia ser enciumado mesmo, porque mal balbuciou cumprimento. Terminou a visita, a dona pediu para eu levá-la até Piedade, era bom serviço. Aí é que a coisa entornou: quando chegamos lá, ela pediu para que eu entrasse na casa, bonita, grande, para tomar um café, tudo já de noite. Fiquei cabreiro, mas fui. Entrando, ela cumprimentou as crianças, a babá, pediu para a empregada que nos fizesse sanduíche e chocolate quente. Quando ia começar o lanche, botou toda a turma para dormir. Eu, trêmulo, naquela casa, com aquela mulher bonita, sem saber fazer as coisas direito, eu só sabia lidar com as quengas da Mimosa. Daí que a moça puxou a cadeira para perto de mim, começou a roçar a coxa e, quando vi, estava com a mão dentro da minha camisa e me beijando. Era uma mulher pra lá de bonita e de danada, fiquei amalucado, me levou pela mão para o quarto. Linda e safadinha. Quando fui embora, me deu um beijo na boca que até hoje eu sinto o gosto. Peguei o carro e voltei para Marechal Hermes. Tomei banho, deitei, quase não dormi, só pensava naqueles louros, naquela pele de seda, naqueles seios. No dia seguinte, me chamou de novo para a corrida. O marido, que ia ficar uma semana no hospital, acabou ficando meses - e eu ia para Piedade todo dia. Naqueles tempos, telefone era coisa difícil; um belo dia, a danada me ligou e pediu para não passar perto da Tribuna e nem de Piedade - a empregada, revoltada, foi ao hospital e contou para o corno o que estava acontecendo, sendo que o mesmo estava para ter alta. Quando desliguei, perdi dez quilos: imagina um policial armado atrás de mim. Nem pensei duas vezes: arrumei minha muda de roupa, paguei a despesa do quarto onde morava, deixei algumas coisas no quarto dum amigo e mudei para São Paulo. Fui trabalhar com frete e sumi do Rio, foi a única vez na vida em que deixei essa terra. Me escondi por um ano, deixei o buço crescer, o cabelo, imagine se o hômi vem atrás de mim. A saudade foi grande, mais uns três meses, não aguentei e voltei. Quando cheguei em Marechal, o amigo de volta me deu alguns recados, eu tremendo: quem será que poderia ter ligado? Policial, nenhum. A jornalista, umas três vezes. Retornei a ligação para o jornal. Acabei encontrando-a umas cinco, seis vezes, só para chamego, coisa da boa. O policial estava em casa, aposentado, ela disse que largava ele para ficar comigo. Achei que era loucura demais, mudei de Marechal, ela nunca mais me achou, eu conheci minha esposa e a vida seguiu. Tem cinquenta e sete anos, seu moço, isso foi em 1950, depois da tragédia do Maracanã."
Todo mundo tem suas histórias de amor, uns mais, outros bem mais. Por um instante, lembro das minhas, as distantes e as próximas. Noutro, assusto-me com a idade do taxista, e esse é o engano lá de cima: oitenta e três anos. Eu chutei uns sessenta. Ótima forma, no batente e com lucidez espetacular do contador de boas histórias. Se chegasse lá, aos oitenta, setenta mesmo, daquele jeito, seria feliz. Acho.
Chega a rua do Senado, 213, meu destino. A corrida não dá dez reais. O motorista merecia o dobro, só pela prosa, pela crônica que descreveu sobre o amor safadinho dos tempos de Vargas. Começou corrida às oito, ainda tem tarde e noite toda para trabalhar.
Eu agradeço e me despeço. O carro parte, decidido e sereno rumo à rua do Riachuelo.
Adentro o prédio antigo, de porta verde e alta.
Fico pensando no amor, na alcova, na mulher que não era só minha, tudo coisas que eu já vivi um dia.
O que será do amor do taxista? A bela mulher que hoje pode estar muito morta, mas que está tão viva naquele diálogo.
Lembro de coisas que nem deveria, mas me dão uma baita saudade. Acho.
Paulo-Roberto Andel, 19/10/2007