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Monday, August 27, 2012

Caetano & Guantánamo

Tempos modernos III

vamos viver nossos tempos modernos
em confortáveis shopping centers
enquanto se celebra a admirável
tecnologia contemporânea - 
telefones, televisões, computadores
e nenhuma depressão por quem
dobram os sinos debaixo da marquise
nenhuma tristeza por quem come lixo
nenhum peso na consciência:
- não temos nada a ver com isso!
- nós não inventamos o mundo!
vamos viver planejando viagens
e fanfarras onde se possa gritar
muito "uhu!" e onde possamos
nos sentir tão vencedores
enquanto a miséria humana triunfa
tranquilamente
em meio a grandes livrarias onde
não se lê
monumentais bares onde
não se conversa
grandes programas em tv lcd
onde nada importante se avista -
é tudo modern times!
vamos viver nossos tempos modernos
onde o vazio da alma é multidão
e os caixas registradores tilintam:
feliz natal!
eu tenho o poder!
eu sou um vencedor
e meu peito é solidão!

paulorobertoandel27082012


Thursday, August 23, 2012

Urbanorixá/ Urbanoxalá



paulo
roberto
andel
2308
2012

Monday, August 20, 2012

Choque de ordem!
















paulorobertoandel 20 08 2012
@pauloandel
sobre grafia original na rua dos inválidos

Saturday, August 18, 2012

Cinelândia-Méier

Thursday, August 16, 2012

As coisas

Monday, August 13, 2012

Quociente/ resto


tanto faz: fosse Atacama
Arcozelo ou Juiz de Fora
o fato é que somos noves
fora nada e adianta
qualquer moeda atirada
no poço de desejos?

e adianta um milhão
de poemas e cartas que
levam do vazio ao
perdido?

- be still my beating heart!
- don´t stand so close to me!
- nenhum amor é um só deserto!
- nenhum espinho esmorece a canção!

oh, tabuada! que não
se oferece ajeitada -
o teu mistério é superstição
noves fora nada
zero sinuoso e flamejante!
então merecemos mais
e mais de novo e mais
do mesmo - pior do que 
perder é não jogar.

paulorobertoandel13082012
@pauloandel

Wednesday, August 08, 2012

Sex


E você, hein? Já fez sexo várias vezes com uma mulher pensando intensamente em outra que sequer havia beijado antes? E gozou e fez gozar intensamente enquanto tudo o que pensava era outra coisa, outra carne, outra entrega? E quantas vezes teve em seu colo a outra, a querida, a preferida? Pois bem, alguém me disse certa vez algo que parecia uma lição, mas que não soube utilizar na vida prática: “Não fique com quem você gosta, fique com quem é possível”. Um tanto pragmático, um tanto vazio, um tanto real. Mergulhamos no mundo real, a vida real, de pequenos prazeres efêmeros. O admirável mundo novo das carnes, formas e desejos, que buscamos saciar através do sexo, muitas vezes disfarçado de paixão, casamento, namoro e a mais indesejada das palavras neste tema: “relacionamento”. E você, hein? Quantas vezes você se permitiu – nem sempre - solitário prazer da masturbação enquanto sonhava com outra mulher, a outra, sempre a outra, não propriamente aquela que te falou de amor e querer para sempre e ficar a dois sempre? Então você falou de amor eterno, de sentimento eterno e fingiu que não olhava para o lado quando a outra passou num vestido provocante, de modo que a imaginou completamente nua a seu lado? E você? E você? E a sua admirável vocação para tangenciar determinadas hipocrisias que não sabemos toleram bem numa sociedade respeitável? Você fingiu em algum momento que era um cavalheiro respeitável, enquanto tudo o que queria era mergulhar nas mais loucas perversões sexuais possíveis, onde tudo fosse o underground de Copacabana misturado aos mafuás do centro e uma hipotética New York? E desejou namorar aquela puta deliciosa, que tinha o sorriso moreno e provocante feito fosse Nanda Costa à tela do cinema, ardente, provocante e, ao mesmo tempo, incrivelmente romântica? Você sonhou em tirá-la daquele puteiro quase sofisticado, quase elegante, mas temperado com o licor de decadência que todo puteiro exige? Vamos, diga! Faça das palavras um vão central, faça dos pensamentos um trem de metrô que passa sob nossos pés tremendo o chão na Treze de Maio e seguindo seu inevitável caminho de vida e morte – o início e o fim da linha, para depois voltar tranquilamente.  O que você está sonhando, hein? E pensando? A mesma mulher de carne alva e tenra que jamais lhe será o maior dos pecados? A mesma vizinha excitante no prédio? O ex-amor que nunca foi necessariamente um ex-amor? Mas afinal, do que estou falando tanto se sexo acaba ficando tão pequeno diante do vazio da alma humana? Como posso condenar quem vive como eu? O que me resta além dos pequenos sonhos e momentos, diante de tudo o que se foi e parece tão distante, perdido noutra galáxia? Eis o sexo: maravilhoso combustível para arrancarmos pela estrada afora sem pensarmos na imensidão das coisas. Prazer para se esquecer das mazelas do mundo. Prazer para entorpecer os malditos sentimentos que nos atordoam. Prazer para tentar entender o que significam o princípio e o fim daquela mesma estrada, gigante e tortuosa, que denominamos vida.

Paulo-Roberto Andel
@pauloandel
08082012

Monday, August 06, 2012

*Fumando na escuridão





eu não sabia do fim
das tuas madrugadas
on the rocks à vera
nem da guitarra
encostada num canto
de parede – não, eu
não sabia – e nem que
já era tão tarde frente
ao dia azul-e-cinza
eu não sabia da dor
eu não sabia do caos
e era incapaz de pressentir
o fim, mas será que há
realmente fim?
- vamos abrir mão das
máscaras e falhas
- todos os rancores
- vamos gritar alegria
nem que seja
*fumando na escuridão
- vamos beber todos
os drinques e saborear
os acepipes!
agora dorme um agosto
e certa pergunta é
inevitável:
afinal, onde descansa
a vida de quem poupou
a vida em vão?


Em memória de Celso Blues Boy, 06/08/2012

Paulo-Roberto Andel
@pauloandel

Saturday, August 04, 2012

13 Copacabana 13 Copacabana


1

dois anjos tortos
passeiam
em serena mendicância
por uma rua aprazível
de Copacabana -
sofrendo, riem! –
onde deixamos de ser
nós
mesmos?

2

os sexos florescem
há elegância e decadência
no olhar desejoso
- da cobiçada puta
- do efêmero travesti
e tanta gente mais
a fazer de cada corpo
um entreposto
de tesão

3

almas desertas/ e concretas/ navegam o mar bravio/ das esquinas de Copacabana – parecem abençoadas pelos santos – sugerem demônios afrodisíacos – e são verdade: essências românticas, super-humanas e mais não basta!

4

os jovens moderninhos/ e os nem tão jovens assim/ praticam o burburinho/ na dorsal atlântica do Pavão Azul – um bar predileto de Copacabana/ somos tão modernos/ e antenados/ e nos lambuzamos de atraso e tradição

5

sob lua cheia
uma copa de árvore
abafa a fumaça de um cachimbo
de crack e Copacabana se
entorpece – esfaqueia
seus sonhos enquanto
as lágrimas descem num
rosto fenecido
enrugado e não vil

6

pedir um hamburger e um
mate do Bolonha – tocar
o velho balcão de aço
espiar o letreiro de preços
e os outros fregueses
famintos – é tudo rever
Xuru

7

Eliane não estampa
mais seu sorriso lindo e
indestrutível pelas ruas
espertas de Copacabana -
agora, quem lhe namora
é o luar de Vitória

8

eu e Bola/ solidários companheiros/ justiceiros de ninguém/ delicadamente bêbados/ quando subitamente levanto/ e acosso Cássia Eller – desafiar obviedades é oxigênio cristalino!

9

Juliana mora longe
longe
da minha faixa de areia preferida
na praia de Copacabana
Juliana mora longe e sóbria
e não há de compreender
nenhum delírio exasperado
de poeta frente ao horizonte -
carcereiro da alma
guardião da morte
artífice sem esperança -
Juliana mora tão linda
feito a lua que nos
assola

10

e Tati não chora nada
que não seja pecado
na base lunar que provoca
arrepios
pela areia fria à noite
em Copacabana:
pele de ametista
olhar de naja
e inestimável vocação
de ser tão
cobiçada

11

agora o sonho é longe
e tarde
nem faço planos -
a vida, límpida, é areia
a despencar na cânula
da ampulheta -
agora virei um noves-fora-nada
e estranhamente isso
me faz tão
bem

12

onde as ruas movimentadas são artérias
e pulsam tão vivas:
sangue de asfalto, borracha e aço
e corações doidivanas
na pedra fundamental
que concebeu o maior dos corações -
o segredo de Copacabana

13

o verão disse adeus e houve
um motivo: tudo tem seu
tempo, os ciclos, o crescer e
fenecer
a noite chegou sem atrapalhar
a magnética lua cheia
a lua de Juliana
a lua de Tati
e tantas outras estátuas
de carne -
o verão disse adeus
e sou um garoto da praia
que ainda sonha à toa
com a próxima
jornada -
até breve, delicado
amor!


Paulo-Roberto Andel 04/08/2012
@pauloandel

Tuesday, July 31, 2012

On the corner


acho que te vi numa rua
da grande cidade                            (talvez Gonçalves Dias, talvez Sete de Setembro)
conversando com outra garota
bonita
a caminho do metrô
acho que te vi pela tatuagem
perto de uma camiseta
verde e tão sexy e responsável
enquanto respeitáveis
senhores te fitavam com dobro de ardor            (ontem – agora – talvez sempre)
acho que te vi
falando da vida em foco
ou hiatos e romances
ou pequenas centelhas
num momento rush hour
e isso muito admirei:
tão bom que até dispensei baratos – adeus, rancor
acho que te vi ao longe
com sorte, sem recato
brilho de lua aos pés de agosto
delicia nua a navegar por entre
as nuvens
e o que eu mais fale
pode suceder amor

paulorobertoandel
30072012
@pauloandel

Monday, July 30, 2012

Quando o verão se for






Agora sou tão velho. E quase outro. Curioso é navegar pelos cantos escuros de minha memória, revendo tudo o que já foi há muito perdido mas, num estranho passe de mágica, parece ali tão evidente e claro, sem a menor importância se o que vejo tem vinte ou trinta anos atrás. Pois bem, agora sou outro. Vivi muitas vezes, morri em quase todas, mas sobrevivi para chegar até aqui e olhar todo o passado, como se fosse na visão romântica de quem, por exemplo, atravessa a ponte no sentido Niterói-Rio numa terça-feira à noite, bem noite, e ainda se encanta com as luzes da cidade – até mesmo as vistas nas localidades mais carentes, cercadas por sofrimento, parecem sorrir aos céus. E sobrevivi inesperadamente segundo meus próprios conceitos rústicos: por alguma razão, quando pensei em idade no tempo em que era garoto, achava trinta anos uma eternidade, algo muito longe, impossível de alcançar. Dessa feita, caminhar rumo aos cinquenta anos tem sido uma experiência surpreendente. Talvez pareça menos do que tenho, talvez muitos riam do que falo e, por isso, me achem alguém admirável e divertido – pode ser verdade, mas não tenho me divertido comigo mesmo nestes dias em que o gris das tardes troca as mãos com réstias de sol. Estranho pensar que algumas das pessoas que considerei mais admiráveis estão irreversivelmente mortas, mesmo que permaneçam à luz do dia por meio da arte, das expressões, das lembranças pequenas e grandes. Posso lembrar de meus pais a cada instante, suas frases, caretas, brincadeiras e discussões; vivem em meus pensamentos, mas estão irremediavelmente mortos. Xuru é uma referência constante de piadas em todos os sentidos, mas não me canso em lamentar que esteja morto. Fred, meu grande anfitrião de tantas jornadas desde sempre, permanece vivo à mente e completamente morto em meu telefone. Minha amada mãe. Tatiana. João. Todos estão irrecuperavelmente mortos e, quando começo a escutar Thelonious Monk ou Tom Jobim ou Jon Lord numa tarde de sábado em casa, percebo que parte da minha vida foi embora com eles, mesmo que estejam aqui de alguma forma – ou estão, acho. Alguém me disse que eu deveria ter comemorado meu aniversário, mas acho isso absolutamente desnecessário para mim (não para os outros) – é que constatei estar muito, mas muito longe das coisas que eu imaginava perto de mim na juventude, de modo que esta distância também torna tudo um pouco irremediavelmente morto. Claro, muitos dirão que a vida começa aos quarenta anos, mas não tenho como acatar isso: aos dezesseis, já havia meninas a fim de carinho sem compromisso, o eterno belo horizonte no mar do Leme e incontáveis acampamentos, viagens e experiências - tudo, hoje, irremediavelmente morto. Outros dizem por que, na verdade, isso é uma forma de talvez não se sentir tão desconfortável quando comemora um aniversário e parece muito mais perto do fim do que do começo. Mas agora isso pouco importa, eu penso no hoje, no logo mais e não há muito tempo para refletir sobre o que há de sombrio no futuro. Simplesmente não há tempo. Não temos tempo a perder quando somos jovens, não temos tanto tempo para qualquer coisa quando ficamos bem afastados da juventude. Há um futuro lá fora que não me pertence. O egoísmo, a hipocrisia, a falsidade, a prepotência, valores mofados que não significam nada diante de cadáveres, nada. Dizem dos tempos modernos, dizem do futuro, mas que presente é esse? Talvez não possa reclamar: quando optei por determinados caminhos, sabia que eles seriam os mais difíceis e tortuosos e nunca me arrependi deles, independentemente de qualquer tristeza. Quero ouvir Kurt Cobain gritando “It's better to burn out than to fade away”. Quero ouvir os Beach Boys cantando “Summer’s gone/ gone like yesterday/ The night’s grow cold/ It’s time to go”. O orgasmo da morte me interessa, mas tlvez seja cedo demais. Estou muito longe de tudo, mas isso tudo não quer dizer da última noite, menos ainda a última história. Ainda haverá um verão invencível.




paulorobertoandel30072012


@pauloandel

Wednesday, July 25, 2012

Nossas vidas escorrem



Nossas vidas escorrem

Somos tão respeitáveis, em busca de uma impossível pureza que disfarce os pensamentos mais soturnos. 

Enquanto isso, desfilamos por nossa cidade engarrafada no asfalto e nas calçadas; as ruas são artérias entupidas, mas pulsam como nunca. 

Os arranha-céus se esbarram com estranha fidalguia, mas o mesmo não se pode esperar dos transeuntes que correm em busca de condução – principalmente aqueles que, sabe-se lá por que, vestem-se com ternos mais caros. 

As mesmas calçadas hospedam sonhos e desilusão: trabalhadores, empresários, ambulantes, meninos de rua, mulheres sonhadoras, jovens ambiciosos, cavalheiros humildes, entusiastas religiosos, sofredores maltrapilhos, torcedores, mensageiros, estudantes, homens inescrupulosos, adeptos de pequenos crimes, pessoas de indubitável valor moral.

Então ficamos no vaivém das palavras, dos sonhos, das responsabilidades, dos compromissos e sempre à caça do ouro que se chama tempo livre, tão ouro quanto a água e o oxigênio ou ainda a floresta.

Passamos o dia respondendo e-mails, olhando mensagens, atendendo pessoas, fazendo perguntas, elaborando respostas e ele, tempo, senhor implacável da razão, faz-se trem de pouquíssimas paradas onde possamos embarcar e dele aproveitarmos bem.

Parece estranho que a violência seja tão fascinante, a ponto de alguns dos nossos não mais se espantarem com as aberrações a olho nu na televisão. O que dizer de um ídolo do rock esmolando nas ruas? O que dizer das crianças e idosos que fazem das marquises a única promessa de um lar? O que dizer dos mais perdidos, que fumam crack para aliviar a dor de suas almas e, com isso, apressarão o caminho inevitável para a morte?

Em tempo real, sabemos das mortes, acidentes, crises e tudo o que deponha contra o bem supremo: a vida humana. Mais tarde, confortavelmente instalados nas salas, a novela há nos de mostrar que cada ser humano vale meio centímetro de consideração - segundo os preceitos dela, claro. O jornal impresso dirá que seus amigos - os dele! - são as pessoas de bem, enquanto os corruptos são os outros. Os outros, sempre os outros.

Não dá tempo de respirar. Hoje é o fim de julho, talvez o mundo acabe em dezembro, o inverno quer se despedir, já pensamos nas compras de Natal, a festa de fim de ano, o carnaval, a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o outro carnaval e o tempo flana ligeiro, voa rasante por nossas dimensões humanas e segue para onde não sabemos ao certo dizer.

As cartas na caixa de correio querem dizer de grandes ofertas, cartões de crédito, viagens imperdíveis e, claro, cobranças. Cobranças. Cobranças. Você será punido, você será ameaçado, você precisa pagar as contas porque esta é sua obrigação para que a máquina funcione, embora não se saiba bem a serviço de quem – ou até se sabe.

Outro dia, éramos jardim da infância. Agora, alguma maturidade. Daqui a pouco, respeitáveis senhores, tanto quanto estes que ocupam a avenida Atlântica, a Rio Branco e outros logradouros de garbo. Tudo passa num tufão de pensamentos e atos que, quando notamos, estamos a falar de coisas de dez, vinte ou trinta anos atrás. Nunca temos tempo. Pouco importa riqueza ou miséria nisso, o tempo não se mede em valores – e se esvai com notável velocidade. 

Então olho para um lado, o outro, estou cercado de paredes brancas enquanto alguém cochicha noutro espaço da empresa. É quarta-feira, mas parece sexta. Estou de férias, mas faço vários cálculos. Um querido amigo, Luiz Carlos, fala comigo por meio eletrônico e me lembra de que hoje é o dia do escritor. Automaticamente penso em Ivan Lessa. 

Tenho que comprar remédios, sinto fome, estou bastante insatisfeito com tudo e, olhando ao redor, por um segundo eu penso em como estou tão distante de tudo o que pensei aos catorze ou vinte anos de idade, tempos em que a juventude era o caminho a seguir. 

Perto daqui, pessoas morrem neste instante no Souza Aguiar e no Inca. Alguém sente fome. Alguém quer ser amado. Pouca gente está preocupada com a dor de quem sente dor.

E tudo virou o que chamamos de tempos modernos.

Prefiro dizer que são vidas que escorrem.


Paulo-Roberto Andel, 25/07/2012


(Em memória de Ivan Lessa e em modesta homenagem ao dia do escritor)

Tuesday, July 24, 2012

Onde?

aqui:
lugar tão bonito
onde não caibo
em nenhum espaço
confortável - 
é que preciso de carinho
contra mágoas
conforto contra tristeza
bondade contra 
o convencional
mas só esbarro em vitrines
e preços
e modas
enquanto as pessoas
flanam tranquilamente
à caça de objetos, objetos
e pequenas formas de poder.
não caibo aqui
não me importo com grandes 
lojas e tecidos e marcas
não me importo com as
novidades
e qualquer pé de árvore
tem mais sinceridade
em meu necessário
conforto

paulorobertoandel24072012

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Friday, July 20, 2012

Agora um ontem


agora somos quase nada:
palavras vazias, tardes curtas
e nenhuma solidão é calma
somos tão amáveis
respeitáveis e assepticamente
vazios
diante de tudo o que, um dia
soubemos erguer
agora somos vozes sem eco
o vizinho alheio ao lado
a indiferença diante dos que
esmolam
o dar-de-ombros a quem não
parece forte
ficamos perdidos
zonzos
meio sem papel definido
nesse admirável mundo
corporativo de posses
poderes, ostentações
e uma solidão de rasgar mil
corações
a mil
paixões a mil desintegradas
- eu não tenho
- você não sabe
- você não me importa
- não faço sentido
agora arranha-céus esfaqueiam
nosso horizonte
e tudo é cinza e concreto
e com objetivos definidos
agora tudo tarda
porque nunca fomos tão
tristes
solitários
navegadores de barco sem mar
e românticos
enquanto a fumaça sobe no asfalto
transeuntes são pinos de boliche
ordem e progresso são incerteza
e nada mais


Paulo-Roberto Andel 20/07/2012

Sempre muito atual...

Televisão

Titãs

A Televisão
Me deixou burro
Muito burro demais
Oi! Oi! Oi!
Agora todas coisas
Que eu penso
Me parecem iguais
Oi! Oi! Oi!...
O sorvete me deixou gripado
Pelo resto da vida
E agora toda noite
Quando deito
É boa noite, querida....
Oh! Cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro
Que o espirro
Fosse um vírus sem cura
Vê se me entende
Pelo menas uma vez
Criatura!
Oh! Cride, fala pra mãe!...
A mãe diz pra eu fazer
Alguma coisa
Mas eu não faço nada
Oi! Oi! Oi!
A luz do sol me incomoda
Então deixa
A cortina fechada
Oi! Oi! Oi!
É que a televisão
Me deixou burra
Muito burra demais
E agora eu vivo
Dentro dessa jaula
Junto dos animais...

Thursday, July 12, 2012

Cotidiano/ A poesia



COTIDIANO

Quando ouvi há pouco Johnny Hartman cantando “It Never Entered My Mind” num vídeo do Youtube, tive vontade de chorar. A canção bela, doce, sofisticada, imediatamente me soou como perda do que não aconteceu, meu amor que morreu sem florescer, o vazio de quando se está sozinho no mundo mesmo que a cada dia uma bela mulher diferente divida seu colchão. Mas talvez não tenha sido só por isso. “A cada hora que passa, envelhecemos dez semanas”, ensinou Renato Russo. O tempo nunca será o suficiente para vivermos tudo o que gostaríamos. O dinheiro nunca será o suficiente. Os problemas estarão sempre presentes e serão mais implacáveis do que qualquer grande alegria. Horas antes, lembrei de que hoje seria o dia de mais um dia comum: ligar a televisão, assistir os grandes congestionamentos da cidade, a dificuldade das pessoas em chegarem ao trabalho. Um crime, um assassinato, a violência tão pútrida, imbecilizada e solta feito fera a troco de nada. As pessoas chorando e sentido dores na porta de um hospital onde não serão atendidas, onde não há vagas e onde alguém morrerá por alguma ação de descaso. Turistas roubados, ossadas nunca encontradas, crianças roubadas na maternidade. Crimes impunes. A patética verborragia barata de um senador a minutos de sua morte política. A cidade não dorme e, enquanto desfila sua beleza em generosos decotes da Mata Atlântica ou do Atlântico Sul, muitos fazem do viver a rotina, o cotidiano entre desmaiar de sono, recobrar-se em pleno caos e viver sem muito sentido, onde cada pequeno divertimento é a réstia das poucas horas. Untando o tabuleiro, tome ingratidão, indiferença, injustiça e falsidade. Ontem, testemunhei um pouco disso tudo contra mim mesmo, o que fez lembrar de minha mãe numa tarde de 1981: “Cuidado, meu filho, os amigos são poucos e muita gente vai passar pelo caminho, lá na frente são muito poucos os que vão estar ao teu lado”. As mães sabem das coisas, mas não ficam para sempre conosco. Quantos não foram embora, quantos não se esconderam atrás de amém, quantos foram falsos e planejadamente vingativos? Isso não impediu de chegar até aqui, onde dizem ser idade madura, mas onde o chão é tão frágil, as coisas tão esfareláveis, a certeza de que a maior parte do tempo já desceu à base da ampulheta, “a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”. Deve haver algum sentido para sermos tão respeitáveis, molas propulsoras do estado dinâmico e moderno e, ao mesmo, tempo, passarmos a vida mendigando tempo onde se possa provar as pequenas balas de açúcar que chamamos felicidade. Deve haver algum sentido, quase que um desafio, quando os piores sentimentos humanos afrontam o nosso caminho. Deixo Johnny Hartman e penso em “Dark Side of The Moon”, talvez um dos grandes apogeus de descrição da decadência humana, tão bem-feito pelos jovens ingleses do Pink Floyd que, hoje, sendo eles senhores perto do crepúsculo – Rick Wright e Syd Barrett mortos – pouco há a superar naquelas melodias e letras que, a seu modo, capturam os lados mais sombrios da alma humana. Deve haver um sentido, mas não é certo que tenha. Enquanto isso, resta esperar, contar as horas e esperar novamente o próximo desmaio, mais o próximo despertar em plena tempestade enquanto o novo noticiário desfila velhos novos crimes, velhos novos personagens, novas vítimas e uma cruel realidade muito, mas muito distante de tudo aquilo que se convencionou chamar de sociedade. Alguém me disse debochadamente um dia que, por tal raciocínio, eu deveria morar em Cuba. Respondi: “Deve ser difícil ter Guantánamo nos arredores”. Fui um tolo: porque quem despreza Cuba há de se preocupar com Guantánamo? E mais não sei dizer.

paulorobertoandel12072012


A POESIA

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.”
 
"Tratado geral das grandezas do ínfimo", Manoel de Barros

Censura: a Plebe no Chacrinha

Milton e Elis

The colorful side of the moon


Wednesday, July 11, 2012

Os barcos da Urca


em breve, chega a noite enluarada de julho
e seu frio um tanto sulista, falsete carioca em alarme enquanto
sorvo café amargo e Jards Macalé soa mais blues do que nunca -
"Nessa manhã de louco todo mistério é pouco" -
enquanto pareço tão cruel comigo mesmo
uma pena que você more tão longe
e durma tão longe
e goze tão longe que não posso te provar
nem mesmo vê-la dançar nua na praia como Isadora Duncan fez
no areal deserto de Ipanema
"pretty city lights"!
nós nunca vimos de mãos dadas
o atracar dos barcos nas pedras da Urca
nunca trocamos beijos e carícias de afeto no caminho
do Leme e sequer me permitiu bolinar-te
nas escadarias modernas do bloco F
mas eu sinto o calor das tuas mãos de alguma forma
nem que seja num simples e-mail
e conjugo tuas coxas, persigo tuas curvas mais as duas najas
verdes que locupletam o teu olhar
hoje somos tão pouco, quase nada ao longe
quase tudo diante do que nunca fomos ao certo
e isso me inibe a ponto de não chutar
tudo para o alto! mãos ao alto!
e dar o fora daqui, te sequestrar, levar a um jardim de sonhos
imaginários
todo colorido em azul-limão, verde, roxo e gris
feito meus tempos de criança - 
dez mísseis psicodélicos disparados em torno desse quase luar
ora, nunca nos abraçamos na Praia Vermelha e nem trocamos
carinhos ousados nas poltronas do Roxy
nós nunca vimos de mãos dadas o impecável crepúsculo da Urca
a sangrar expondo a carne viva!
e isso me fz tão mal: parece que, ao teu lado, viver faria sentido.
"big city lights"!
- o poeta já não sonha, já não dorme, esfarela os amores, apenas repousa 
para se esquecer
de toda fúria e dor, todo rancor e desejo
porque você não está aqui
porque você não está aqui
porque você não mora em mim
e isso tão-somente quer dizer
da simplicidade que julgamos ser fim

paulo-roberto andel 10 07 2012

"there's never a forever thing"




Monday, July 09, 2012

Só morto!

Saturday, July 07, 2012

História em quadrinhos - Sganzerla

Pequenos fragmentos de uma paixão inútil



Pequenos fragmentos de uma paixão inútil


Quando estava sozinho naquele quarto de hotel semana passada e surgiu uma garota de ocasião, pensei em você. Ontem, trocando beijos inúteis com outra mulher, cobicei você. Tem sido assim nos últimos anos, desde que reparei em seu olhar algo de naja e isso me encantou, o encanto de cobra verde que Glauber Rocha mencionou certa vez. Achei que fosse apenas desejo, tesão, admiração física, achar você linda e atraente, linda e sexy, linda e adorável. Mal trocamos palavras, sequer viajamos, não nos beijamos, não oferecemos carícias um ao outro num cinema em dia de filme chato. Estamos longe, moramos longe, nossas vidas não se cruzam, não sei de nossa afinidade. Mas eu penso em você. Incomoda-me saber que talvez não esteja feliz dentre os lençóis em certa noite com algum companheiro – queria estar a seu lado, nem que fosse somente para apagar a luz e ver as estrelas imaginárias do teto de concreto num quarto qualquer. Estamos longe, muito longe, mas o fato é que, sem maior motivo, tenho pensado sempre em você. Era e é querer o teu gosto, teu sexo, tua mão esquerda entrelaçada à minha, mesmo que fizéssemos quase nada numa lateral do Central Park ou num restaurante em Guaratiba. Podia ser um simples passeio pela rua Halfeld em Juiz de Fora, podia ser uma exibição de balé contemporâneo no João Caetano da Praça Tiradentes. Podia ser também um café no CCBB um uma leve caminhada pelas ruas mais discretas do Leme. São fragmentos de uma paixão inútil: você não pensa em mim, não me cobiça, não se interessa pelo que eu faço e não há a menor possibilidade de que esse quadro se altere por ora. Pensei que quando chegasse à idade madura, estaria livre destes percalços da paixão: a coisa de pensar a cada instante, de querer a todo custo, a intranqüilidade saudável da adolescência rediviva. Tudo em vão. Não há eco. Não há retorno. Agora você dorme noutro quarto, outro cavalheiro tem acesso às delícias do teu corpo, a tua boca mora longe de mim. Agora eu fico insone noutro quarto, vasculho seios e coxas e intimidades de mulheres para tentar encontrar você e não consigo. Tudo parece sem sentido. Por que me deixei cair em tal armadilha, logo que eu já passei por tantos caminhos e estava tão vacinado contra este tipo de situação? Já se foram dois, três, cinco anos e permaneço inebriado, encarcerado neste sentimento inútil que não desaparece mesmo que mil mulheres atravessem o meu caminho – nos sonhos mais lascivos, mais temperados com o ardor erótico, só você se revela. Sou um homem velho, vivido e há muito devia ter deixado estas hipérboles de lado, mas ainda não consegui. Nem sequer te procurei; um dia, na primeira vez em que te vi, estavas tão linda e deliciosamente provocante em tua sobriedade que, tranquilamente, eu poderia ter ido para casa e desfeito meu casamento. As águas não têm sido mansas em meu barco de atravessar o oceano, mas tudo o que eu queria era estar em minha Copacabana que hoje faz aniversário, queria ser as outras águas do Leme e ter você nua  - te envolver, refrescar, molhar teus cabelos e servir-te de um longo e delicado abraço que, aos poucos, te apertasse por completo, de cima a baixo, até que fosse plenamente minha. Hoje, Copacabana não dorme e eu, ao longe, descanso depois de uma noite de sexo sem felicidade, espio o teto de meu quarto e procuro por você. Não há sinais. Agora você dorme noutra cama e noutra cama, nenhuma delas comigo, e reside em outros sonhos, faz planos, espera outros acontecimentos. Eu não sou sequer o teu dia seguinte, a esperança, não faço parte dos teus planos. Preciso dormir e voltar a sonhar outros sem a tua presença. Mas, se isso realmente acontecer, saiba sempre de tua eterna importância dentro do que mais prezo: amor. Não preciso chorar: a vida é só um instante entre dores, perdas e mistérios inexplicáveis. Um dia, a paixão pode passar; o amor, contudo, é monumento permanente.


Paulo-Roberto Andel, 07/07/2012

@ pauloandel

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Monday, July 02, 2012

O tempo não para

Era uma vez na América...

Thursday, June 28, 2012

A poesia nua e crua de Itamar Assumpção

Qualquer agora

agora
bebo um guaraná
numa cidade
ocidental
para esculpir vida
num solitário
quarto de hotel-cinco-estrelas
e nenhum luar

tomo um guaraná
e penso numa gata loura
branca
misteriosa e provocante
mas todo o gás que tenho
está num copo de refresco -
na esquina
as doces e belas putas
esperam velhotes 

endinheirados
no quarto ao lado
alguém aperta a descarga
do vaso
sanitário
e nada é propriamente pecado
- ah, meu guaraná,
adorável entorpecente de vida
nos intervalos entre sofrer

e sentir dor
e querer e não ter
mas nem por isso alimentar
rancor.


paulorobertoandel28062012

Amor de longe, longe


humm, e o meu amor
agora mora tão longe, longe
que nenhum Realengo recebe
aquele abraço
e meu amor não chora
nem dança
mas sorri na mesa de outra cidade
enquanto morro mil vezes
e meu sangue jorra
na lâmina afiada de um solo
de guitarra
um dia o meu amor vai voltar
sem nunca ter ido -
neste dia, nunca terei sido
tão tolo e fútil e esparso -
na verdade, sinceramente
apaixonado:
descobri isso numa esquina da
Pampulha
onde o sol não corroborava
tudo aquilo que senti
feito um jorro d’alma.
ah, o amor,
amor que não dorme nem sonha
e nem dá as mãos num desafio
não oferece versos de uma canção -
basta-se por si mesmo,
dengoso, mas longe de ser
coitadinho.
amor num passo de dança
amor num sonho de valsa
enquanto a Savassi descansa em paz
e outro sonho me atordoa manso

PauloRobertoAndel 280612


Wednesday, June 27, 2012

Patti! Patti!

Monday, June 25, 2012

Patti rules!


Saturday, June 23, 2012

A crise no Paraguai e a estabilidade continental


por Mauro Santayana

Toda unanimidade é burra, dizia o filósofo nacional Nelson Rodrigues. Toda unanimidade é suspeita, recomenda a lucidez política. A unanimidade da Câmara dos Deputados do Paraguai, em promover o processo de impeachment contra o presidente Lugo, seria  fenômeno político surpreendente, mas não preocupador se não estivesse relacionado com os últimos fatos no continente.

Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner enfrenta uma greve de caminhoneiros, em tudo por tudo semelhante à que, em 1973, iniciou o processo que levaria o presidente Salvador Allende à morte e ao regime nauseabundo de Augusto Pinochet. Hoje, todos nós sabemos de onde partiu o movimento. Não partiu das estradas chilenas, mas das maquinações do Pentágono e da CIA. Uma greve de caminhoneiros paralisa o país, leva à escassez de alimentos e de combustíveis, enfim, ao caos e à anarquia. A História demonstra que as grandes tragédias políticas e militares nascem da ação de provocadores.

O Paraguai, nesse momento, faz o papel do jabuti da fábula maranhense de Vitorino Freire. Ele é um bicho sem garras e sem mobilidade das patas que o faça um animal arbóreo. Não dispõe de unhas poderosas, como a preguiça, nem de habilidades acrobáticas, como os macacos. Quando encontrarmos um quelônio na forquilha é porque alguém o colocou ali. No caso, foram o latifúndio paraguaio – não importa quem disparou as armas – e os interesses norte-americanos. Com o golpe, os ianques pretendem puxar o Paraguai para a costa do Pacífico, incluí-lo no arco que se fecha, de Washington a Santiago, sobre o Brasil.  Repete-se, no Paraguai, o que já conhecemos, com a aliança dos interesses externos com o que de pior há no interior dos países que buscam a igualdade social. Isso ocorreu em 1954, contra Vargas, e, dez anos depois, com o golpe militar.

Não podemos, nem devemos, nos meter nos assuntos internos do Paraguai, mas não podemos admitir que o que ali ocorra venha a perturbar os nossos atos soberanos, entre eles os  compromissos com o Mercosul e com a Unasul. Mais ainda: em conseqüência de uma decisão estratégica equivocada do regime militar, estamos unidos ao Paraguai pela Hidrelétrica de Itaipu. O lago e a usina, sendo de propriedade binacional, se encontram sob uma soberania compartida, o que nos autoriza e nos obriga a defender sua incolumidade e o seu funcionamento, com todos os recursos de que dispusermos.

Esse é um aspecto do problema. O outro, tão grave quanto esse, é o da miséria, naquele país e em outros, bem como em bolsões no próprio território brasileiro. Lugo pode ter, e tem, todos os defeitos, mas foi eleito pela maioria do povo paraguaio. Como costuma ocorrer na América Latina, o povo concentrou seu interesse na eleição do presidente, enquanto as oligarquias cuidaram de construir um parlamento reacionário. Assim, ele nunca dispôs de maioria no Congresso, e não conseguiu realizar as reformas prometidas em campanha.

Lugo tem procurado, sem êxito, resolver os graves problemas da desigualdade, da qual se nutriram líderes como Morínigo e ditadores como Stroessner. Por outro lado, o parlamento está  claramente alinhado aos Estados Unidos – de tal forma que, até agora, não admitiu a entrada da Venezuela no Tratado do Mercosul.

O problema paraguaio é um teste político para a Unasul e o conjunto de nações do continente. As primeiras manifestações – entre elas, a da OEA – são as de que não devemos admitir golpes de estado em nossos países. Estamos, a duras penas, construindo sistemas democráticos, de acordo com constituições republicanas, e eleições livres e periódicas. Não podemos, mais uma vez, interromper esse processo, a fim de satisfazer aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos, associados à ganância do sistema financeiro internacional e das corporações multinacionais, sob a bandeira do neoliberalismo.

Os incidentes na fronteira do Paraguai com o Brasil, no choque entre a polícia e os camponeses que ocupavam uma fazenda de um dos homens mais ricos do Paraguai, Blas Riquelme, são o resultado da brutal desigualdade social naquele pa[is. Como outros privilegiados paraguaios, ele recebeu terras quase de graça, durante o governo corrupto e ditatorial de Stroessner e de seus sucessores. Entre os sem-terra paraguaios, que entraram na gleba, estavam antigos moradores na área, que buscavam recuperar seus lotes. Muitos deles pertencem a famílias que ali viviam há mais de cem anos,  e foram desalojados depois da transferência ilegítima da propriedade para o político liberal. E há, ainda, uma ardilosa inversão da verdade. A ação policial contra os camponeses era e é, de interesse dos oligarcas da oposição a Lugo, mas eles dela se servem para acusar o presidente de responsável direto pelos incidentes e iniciar o processo de impeachment. É o cinismo dos tartufos, semelhante ao dos moralistas do Congresso Brasileiro, de que é caso exemplar um senador de Goiás.

Quando encerrávamos estas notas, a comissão de chanceleres da Unasul, chefiada pelo brasileiro Antonio Patriota, estava embarcando para Assunção, a fim de acompanhar os fatos. Notícias do Paraguai davam conta de que os chanceleres não serão bem recebidos pelos que armaram o golpe parlamentar contra Lugo, e que se apressam para tornar o fato consumado – enquanto colunas do povo afluem do interior para Assunção, a fim de defender o que resta do mandato de Lugo.

Tudo pode acontecer no Paraguai – e o que ali ocorrer nos afeta;  obriga-nos a tomar todas as providências necessárias, a fim de preservar a nossa soberania, e assegurar o respeito à democracia republicana no continente.

Friday, June 22, 2012

Ditadura, NÃO!


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Thursday, June 21, 2012

Enquanto Theo nao vem/ Solstício



Enquanto Theo não vem

Moramos num fim de tarde de sábado, com a chuva tilintando leve nas calçadas de Botafogo, perto da rua Dona Mariana, enquanto a sala do confortável apartamento de José serve para ruminar o tempo. No fundo do apartamento, Ana descansa e mostra uma serenidade natural enquanto Theo não vem, o que deve acontecer daqui a pouco mais de um mês, queria eu dia vinte e seis para ter um amigo aniversariando comigo – nasci no mesmo dia de minha amada e inesquecível mãe. Não temos sede, mas falamos das mesmas bobagens que caem tão bem quando se quer passar as horas, a tal conversa fiada. E Rafael ri quando perguntam de sua súbita progressão financeira, típica dos moradores fidalgos do Jardim Botânico, ou ri também dos eternos flashbacks que gastamos com situações engraçadas de outrora, algumas com graça particular nossa, hermética, que pouco interessam a transeuntes, desavisados ou estranhos, acho. Quem rirá de nós lá fora? Num dado momento, quando recordamos de Xuru, algo poderia parecer triste porque o velho amigo já terá em breve sete anos de falecido, mas não é o caso: quanto mais anos se passam de sua morte, mais Xuru parece estar vivo, não como um fantasma ou espírito, mas em presença franca mesmo – seja por piadas, absurdos e até mesmo coisas sérias. E o velho Flamengo mostra velhos defeitos, mas vence o Coritiba numa partida que não empolga, mesmo que não precisemos de tal combustível. Ainda assim, é uma boa diversão. Sempre gostei de futebol e de vários jogos, os escudos dos times, as camisas. Quando era criança, nos já distantes anos 70, minha querida mãe não poupava economias para me dar de presente botões, cuja coleção mantenho até hoje, meus amigos queridos sem alma, mas cheios de vida. Enquanto Theo não vem, conversamos mais do que prestamos atenção à partida e também aguardamos ansiosamente a chegada de duas pizzas. Moraes chegou depois de longa travessia de carro, de Ipanema ao Catete, para deixar Clarissa e Catarina em algum lugar antes do objetivo. Há um drama com sua mudança de apartamento; há um drama pela dificuldade em administrar o amor de seis balzaquianas simultaneamente, todas devendo prestar obediência, fidelidade e disponibilidade; há um drama porque Brasília sempre será Brasília enquanto o Rio de Janeiro pode ser vários Rios, cada um a seu compasso. Mas não são dramas de dor, na verdade induzem a risos, não podia deixar de ser assim. Então nos vemos ainda tão jovens uns para os outros, mesmo que os sorrisos já não sejam juvenis, mas constatamos que tanta coisa mudou e passou. Não há mais espaço para pensar apenas na aula do dia seguinte ou a praia ou o milk-shake: os compromissos são outros, a rijeza da vida é uma evidência e só existe alívio porque sabemos que, dentro em breve, Theo virá. Contudo, enquanto Theo não vem, rimos e ficamos sérios porque isso é a essência humana mesmo, sem cortes. Alguém lembrou de uma mulher sem predicados físicos, na verdade feiosa, agora casada. E alguém também lembrou de uma festa em Teresópolis onde tudo foi tão punk que vômito e tiros foram meros itens do cardápio. E alguém mais lembrou de um jogo entre Flamengo e Ceará num Calamares vazio da Lopes Quintas em 2002, quando foi assustador pensar que dez anos escorreram como se fossem dez dias, mas ainda estamos muito vivos, muito humanos e, assim seja, com muitas milhas a percorrer pelo caminho. O Calamares foi, provavelmente, o único bar de todo o Rio de Janeiro onde faltava cerveja a poucos instantes de um Fla-Flu decisivo. Xuru não chegou a ser tristeza, mas Alex sim: tudo podia ter sido diferente e evitado.  Era para ter sido tudo diferente, mas isso não podemos mais modificar. Era o caminho. E Rafael falou de Elisa, Moraes falou novamente de Catarina, as crianças vão crescendo, nossos destinos viram outros. E então chega o rapaz da entrega com a pizza, e então eu corto as fatias enquanto Moraes resolve amolar Ana ligeiramente com perguntas sobre outra balzaquiana, pelo calor do sábado à noite. Ursula me liga, adio para responder mais tarde, não tem como ela entender, não consigo evitar pensar em Juliana por uma ou mais razões, todas proibitivas. São coisas de ontem, ja que agora é tudo inverno. Ana dá outro sorriso e deita em berço esplêndido no sofá da sala, porque é preciso descansar e contar as horas e os dias, tudo isso enquanto Theo não vem e, com sua graça admirável, nos empresta um pouco de paz aos corações, tão ansiosos por sua chegada, mas também tão preocupados com o ir e vir das coisas e das gentes, das horas e dos momentos, desse estranho - mas empolgante - rumo que denominamos vida.


Solstício

E os mortos
Nem estão mortos
Como se pensa –
É reparar uma velha vitrola
Os vinis que amadurecem
Fotos e letras e fitas
Fazem pensar
Que eles ainda parecem
Por aqui
E isso faz bem:
Você tem medo de John Coltrane
E Jim Morrison e Renato Russo?
Você tem medo de Elis Regina
E Leonel Brizola e Sérgio Macaco?
Quem se arrepende de pensar
No Ivan Lessa?
No Martin Luther King?
Mortos, mortos e muito vivos
Que vagam nas cabeças falantes
Dos que não se conformam
Com a mediocridade na vida.


Paulo-Roberto Andel, 21/06/2012