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Friday, July 23, 2010

VINTE E QUATRO ANOS SEM TÍTULO (ELEITORAL)

I

Qualquer coisa que dure mais de vinte anos e que não seja ditadura, feito essas defendidas por Boçalnaro e seus cupinchas, e que também não seja vida vegetativa, vale a pena. Os vinte e um anos do Botafogo sem título, com minhas respeitosas saudações à massa botafoguense, por exemplo: não fosse a espera, o campeonato de 1989 seria apenas mais um. Mas foi diferente, especial, histórico. Além do mais, piada por piada o Francis Hime fez muito melhor na música – e ele é dos de General Severiano. Dia desses, um conhecido meu, alvinegro em tom de raiva, disse que o Fluminense era lixo; retruquei-lhe, lembrando que o lixo ao menos pode ser reciclado, o que não cabe ao Botafogo. Quem entendeu, riu. E hoje o Fluminense é o líder do Brasileiro.

O que importa dizer é que ontem me dei conta de ter perdido meu título de eleitor há pouco menos de vinte e quatro anos. Na verdade, me dei conta na semana passada, mas só agora é que me veio o tamanho do tempo. Por quê? Simples: não precisava dele para nada. Tem um número, uma assinatura e, até o pleito passado, podia-se votar tranqüilamente com a carteira de identidade. O número do título eu sempre usei apenas para a declaração do imposto de renda; fora isso, nada. Os anos foram passando, continuei votando em Darcy, Brizola, até o ato falho – e reconhecido – de Anthony, o RG resolvia tudo. Então, 2010 chegou com toda a sua modernidade e tecnologia; portanto, o título, que só tem o maldito número e a danada da assinatura, agora passou a ser obrigatório junto de outro documento identificatório com foto. Não discutirei a lógica do procedimento. Fato era precisar comparecer ao Tribunal Regional Eleitoral, o notório TRE, seção Copacabana, numa tarde de quinta-feira, para obter a segunda via, votar em outubro e exorcizar de vez esse fantasma neoliberal chamado peéssidebê.

Uma tarde de quinta-feira em Copacabana. Ah, meus vinte anos.

Quando votei pela primeira vez, o pessoal elegeu Moreira Franco. Como bem se ouvia no jingle, “o nome dele é Moreiraaaaaaaaa...”. Ia acabar com a violência em seis meses, mas não deu muito certo porque Maria Paula - a filha de seu vice, Waldenir Bragança - começou a namorar um dos bandidos mais perigosos do Rio, o traficante “Meio-Quilo” (sugestivo nome), braço-direito da então organização criminosa Comando Vermelho. Destruiu os Cieps. Fez o buracão do metrô na General Osório na marra e, mesmo sendo um querido do presidente Sarney, não conseguiu inaugurar nada. Terminou seu mandato sendo condenado a devolver ao erário estadual uns milhõezinhos, por ter publicado com dinheiro público o livro “Moreira: ele governou para todos”. Hoje, é o vice-presidente de loterias da Caixa.

Uma eleição apertadíssima. Darcy perdeu por milímetros. Tinha o Gabeira no primeiro turno também.

Oitenta e seis, noventa, noventa e quatro, noventa e oito... Recém-dispensado do Exército, eu mal imaginava que o Brasil só ia tomar prumo quando Lula-lá fosse realidade. E ia demorar a valer, como vimos nos capítulos seguintes desta maravilhosa história contemporânea do Brasil.

Oitenta e seis? Zico perdeu o pênalti, as papeletas amarelas ganharam o campeonato, Xuru me fez sair antes do Maracanã. E faculdade em Niterói, na Facen. Carteado na casa do Fred, ouvindo vinis trazidos pelo Caux. E lanches no Gordon com Marco. Só.


II

“Um bom lugar, Copacabanaaaaaaaaa...”

Por um tempo, tomei cisma do metrô. Tenho um bom motivo: anos atrás, o mesmo vagão em que eu viajava foi meio de transporte de uma mala, contendo uma cabeça humana. Sim, amigos, existe violência no Brasil há muito tempo, embora parte da turba hipócrita finja muita preocupação com Chávez e Fidel, sem imaginar que existe uma linha dois no meio do Rio de Janeiro.

Gosto de ver a rua, o mar. Mas o metrô é mais rápido. E mais apinhado também. A estação do Cantagalo, que ia se chamar Pavãozinho, mas a burguesia não deixou, dá uma boa caminhada do trem até a rua. O tribunal é na esquina seguinte, bem pertinho.

Duas seções eleitorais, lado a lado. O pessoal conversa alegremente. É Brasil, é Copa, é eleição. Uma quase jovem simpática vem me atender. Pede a identidade. Drama:

- O senhor tem multa a pagar. Não justificou a ausência em três eleições.

A partir de então, me tornei um apenado pela Justiça Eleitoral. Exatos R$ 3,51 por pleito ausente e não justificado, totalizando R$ 10,53:

- O senhor dá um pulinho no Banco do Brasil e volta aqui com a multa paga.

Por que faltei a três pleitos? Num, tinha disputa entre Conde e Cabral; noutro, Dotô Efeagá já tinha vencido; tem mais um que a história apagou.


III

A loja de cds usados está farta de material; a atendente não é das mais delicadas e nem entende do assunto. O dono da loja é um sujeito que não me conhece, mas já ganhou muito dinheiro às minhas custas. Eu compro cds, eu baixo cdes, eu gosto de música. Sou um extraterrestre.

Rock sem muita inspiração, jazz bastante caro.

Descubro que ali do lado tem uma Banco do Brasil. Boa!

Aos quarenta e cinco do segundo tempo, um disco com nome gigantesco, normalmente abreviado para “When the pawn...”. A charmosa lourinha magricela Fiona Apple, das grandes de sua geração, completamente ignorada em terra brasilis. Dez mangos. Cai! Quem puder, oução enquanto é tempo.

Para minha surpresa, uma agência bancária vazia, um caixa bastante educado e que me dá um desconto de três centavos na multa.

Não sou mais um apenado. Paguei minha dívida com a sociedade. Dez reais e cinqüenta. Sou um eleitor em potencial. Terei um novo título e Serra não vai gostar disso.

Para matar a fome antes do embate eleitoral, Kicê Lanches. Misto, cheeseburger e laranja batida. Por aqui, sairia uns dez contos. Em Copacabana, quinze. Glamour é outro papo. E outro preço.


IV

A moça emite rapidamente o documento. São tempos modernos. O chefe da seção faz alguma piada: viu um gordo de óculos azuis, naturalmente achou engraçado. Agradeço e me despeço.

O charme das ruas de Copacabana é âmbar. Pouco importa se o bairro envelheceu, se a decadência econômica prevaleceu. Nas vias, pessoas alternativas, antenadas; velhos, jovens, bebês, “adultos contemporâneos” (sabe-se lá o que isso significa). Gente diferente e, por isso mesmo, tão homogênea. Copacabana, menino.

A escada rolante do metrô não funciona. Tempos modernos.

À minha frente, na roleta, um jovem de terno, repleto de ternura, parece com dificuldades de ingressar o ticket. Quando passo por ele, percebo que é um viadinho – com tudo de simples que esta expressão não-pejorativa quer dizer. É Copacabana. Força de expressão somente.

Seria melhor ver as ruas, o mar. A pressa na volta para o trabalho exige agilidade.

Copacabana, um bom lugar para se passar, nem que seja por hora e meia veloz.


V

Metrô lotado às três da tarde. Não faço questão do assento.

Honrei minhas dívidas com o Estado Brasileiro.

Vinte e quatro anos sem título eleitoral. Por quê?

O fato é que a escrita acabou.

Oitenta e seis, noventa, noventa e quatro. Meus pais não eram felizes, mas vivos. E eu tentava fazê-los felizes. Eu tinha irmão. Tinha a turma da faculdade. Tinha uma promessa de bom emprego. Tinha um amor-eterno de meia hora de Tatiana. O rádio era Legião Urbana, Paralamas, Black Crowes e programa de jazz do Jô. Eu tinha título. Eu não tinha o maldito certificado de dispensa de incorporação.

Havia vida. Hoje, ainda há.

Apenas diferente.

Coisas morrem, coisas nascem. A vida é num vão.


Paulo-Roberto Andel

Wednesday, July 21, 2010

IMAGENS QUE DIZEM TUDO




















Parabéns ao fundador do futebol brasileiro.

Paulo-Roberto Andel




Wednesday, July 07, 2010

CAJU

















Era um sábado à noite, daqueles que fazem o Rio ficar mais Rio. Ou faziam, talvez. Milhares de jovens pulavam as catracas do tradicional Jockey Club, divisa de Jardim Botânico e Gávea no Rio de Janeiro. A maior banda do rock brasileiro de então, Legião Urbana, tocaria para uma multidão que até hoje, não se sabe precisar em números: pode ter sido quarenta, cinqüenta ou setenta mil pessoas. Na saída, uma confusão generalizada e um engarrafamento que parou a zona sul da cidade. Num dos carros, meu amigo Dino eternizou o momento:

- Cara, Legião Urbana é isso aí! Sexo, drogas e engarrafamento!

Durante o show, em muitos momentos Renato Russo parecia exalar certa solidão em momentos de silêncio contemplativo, diante de um Jockey que mais parecia o Maracanã em dia de decisão. Num outro, repreendeu a molecada que jogava terra à frente do palco. As canções inesquecíveis eram destoadas uma a uma, cantadas como se fosse uma procissão. Entretanto, entre uma e outra canção, um ou outro detalhe, pairava o danado do silêncio. Na verdade, aquela celebração de alegria tinha sido pulverizada logo pela manhã, quando correram rumores de que o esperado show da Legião poderia nem acontecer.

Cazuza tinha morrido.

Será?

”Mas se você achar/ Que eu tou derrotado/ Saiba que ainda estão rolando os dados/ Porque o tempo, o tempo não para”


*******

Sábado de manhã, dia sete de julho, desci de casa para tomar meu guaraná na lanchonete Kiosk da Siqueira Campos. Na banca, obituários viraram manchete. Por conta da doença grave, todos sabiam que a vida de Cazuza estava por um fio. Mas aconteceu que estávamos tão acostumados com aquele poeta sem-regras, que expirava literatura na música e, ao mesmo tempo, bebia e se drogava como nunca que, iludidos, talvez tivéssemos imaginado que ele fosse imortal de carne. Compôs e cantou até poucos dias antes da passagem, mesmo muito debilitado, e ainda pôde ver seu último grande hit tocar nas rádios com a fúria dos que viviam os primeiros meses da Era Collor – a mesma da Era Dunga:

”Vamos acabar com a burguesia/ Vamos dinamitar a burguesia/ Vamos pôr a burguesia na cadeia/ Numa fazenda de trabalhos forçados/ Eu sou burguês, mas eu sou artista/ Estou do lado do povo, do povo”.


*******

Num tempo em que não se entendia a AIDS direito e muitas celebridades morriam de “pneumonia fulminante”, já bastante doente, Cazuza topou fazer a capa da ex-revista Veja e uma entrevista emocionante. Provavelmente, seu gesto ajudou a salvar a vida de milhares de pessoas, mesmo que ele fosse um completo anarquista no bom sentido da palavra. Ninguém me contou. Eu vi. Nas ruas, nas conversas, na faculdade. Vinte anos depois, poucos foram tão corajosos num momento de tamanha fragilidade e risco de vida.

”Eu só peço a Deus/ Um pouco de malandragem/ Pois sou criança e não conheço a verdade/ Eu sou poeta e não aprendi a amar”.


*******

Renato Russo, durante o grande show do Jockey, parecia olhar para um horizonte muito longe e, talvez perdido. Quem lá esteve, entendeu sua tristeza. Mais do que isso, não sei dizer se ele mesmo já estava doente, sabedor ou não de sua situação. Isso pouco importa diante da perda irreparável dos dois grandes poetas contemporâneos da música brasileira. Logo depois, um desastre cala Chico Science, uma bobagem cala Cássia Eller e o prejuízo vira buraco sem fundo.

Sete de julho foi um dia estranho com uma noite estranha. Celebração e torpor ao mesmo tempo.

Os anos passaram e percebi que, muitas vezes, tentou-se priorizar o lado escrachado de Cazuza, principalmente por conta de sua sexualidade exacerbadíssima. A meu ver, o menos importante diante da grandeza do poeta, de seu talento inquestionável e que, hoje, vinte anos depois, continua vivíssimo.

“Eu andando pela neve/ Em pleno Central Park/ Com as estrelas do cinema/ Faço cenas no metrô/ Com meus tênis All Star/ Deixando as louras loucas/ Com meu latin style/ Não sou mais Paraíba/ Sou South American/ Aqui em Manhatã/ Aqui em Manhatã”


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Os gênios morrem jovens, não me perguntem o porquê.

Merecíamos bem mais de Cazuza, mais do que toda a sua obra fantástica que aí está, que lhe permite ser tratado com o devido título de poeta, contrariando os atrasados que ainda se recusam em ver o brilho das letras na música popular – como se Chico Buarque, Caetano Veloso, Cartola e Noel Rosa não fossem colossos obrigatórios em língua portuguesa. E Cazuza está nesse time, que fique bem claro.

O que o enfant térrible do Baixo Leblon teria escrito sobre a até hoje nublada deposição de Collor? Os mais afoitos vão falar de mensalão, mas ele iria muito mais fundo na ferida: o Caso Sivam; a reeleição durante o próprio mandato; Rubens Ricupero e seu “O que é bom a gente mostra; o que é ruim, esconde...”; Jader, Arruda, Roriz, Pitta, FHC. O poeta não era um raso.

A morte precoce de Cazuza nos tirou páginas brilhantes da crônica de costumes da vida brasileira.

“Vida louca vida/ Vida breve/ Já que eu não posso te levar/ Quero que você me leve/ Vida louca vida/ Vida imensa/ Ninguém vai nos perdoar/ Nosso crime não compensa”


*******

Ainda temos esperança. Zeca Baleiro tem muito o que dizer e escrever. Makely Ka é espetacular.

No mais, onde estão nossos poetas da música com menos de quarenta anos ou perto disso?

Não sei dizer.

Parece que as pessoas pararam de dar atenção ao que se canta. Vale qualquer coisa. Espero estar enganado. Não quero cair no velho erro de cada geração quando aponta as próximas como “sem brilho”, se comparada com a própria. Mas... cadê os grandes letristas jovens?

Resolvi escrever estas linhas ouvindo “A tempestade”, disco lançado dias antes da passagem de Renato Russo. É minha humilde maneira de homenagear dois sujeitos que foram parte muito importante da minha adolescência e, por isso mesmo, são presenças eternas na minha vida.

“Quando tudo está perdido/ Eu me sinto tão sozinho/ Quando tudo está perdido/ Não quero mais ser quem eu sou/ Mas não me diga isso/ Não me dê atenção/ E obrigado por pensar em mim”


*******

“eu queria que você estivesse aqui/ e me contasse uma longa história/ sem a necessidade de final feliz ou beijo de celebração/ bastaria ser uma história longa e diferente/ que trouxesse uma pequena chama aos corações solitários/ que oferecesse luz aos sentimentos entrevados/ e que fizesse da gente bem mais gente do que hoje somos/ um batalhão de estranhos a esbarrar uns nos outros/ ou matar por divergência de opinião/ enquanto as belas luzes dos grandes edifícios/ pouco alumiam a miopia da mente medíocre/ eu queria que você estivesse aqui/ mesmo que fosse para falar de dor e perda/ dor e morte/ ou pequenas derrotas cotidianas/ por que o melhor não estaria nos fatos/ mas sim na tua admirável narrativa/ eu queria que você estivesse aqui/ porque isso me faria jovem de novo/ com toda a vida pelo caminho e o direito de errar/ de arriscar/ de acreditar que este estranho mundo poderia ser o mesmo com o qual eu sonhei um dia/ talvez você esteja aqui/ talvez eu possa te ouvir/ e pensar/ no que já passou e no que ainda nos resta/ diante tanta indiferença/ e crenças que perseguem/ e ridículos valores que fazem do homem o mais primitivo dos bichos/ quero voltar a reconhecer o meu do eu”

Vinte anos voam.

(Obs: Há instantes, acabou de falecer Ezequiel Neves, o principal parceiro de Cazuza. Ironia do destino...)

Paulo-Roberto Andel, 07/07/2010

Foto: Ana Stewart - Agência Estado

Monday, July 05, 2010

DROUNGA?


I

Sábado à noite, mesa do Boteco da Praia, no bairro entre Botafogo e Catete. A comida é sempre boa, os garçons são sempre apressados em servir novos chopes.

Bruno, que é meu amigo e não é goleiro, longe disso, melhor definiu o que se passou na véspera, a meu ver:

- É bom mesmo que não tenha vencido porque, se conseguissem, iam achar que o certo é isso aí, xingar os outros, ser turrão, convocar mal, mostrar desequilíbrio. Não tinha como isso dar certo.

Não tinha mesmo.



II

Eu era criança quando Coutinho vetou Falcão e levou Chicão para a Copa de 1979. Os dois foram jogadores do meu time de botão. Falcão armava jogadas. Chicão, cabeça de área, jogava de beque improvisado. Talvez qualquer criança de dez anos, como eu era, soubesse que Falcão era melhor que Chicão, mesmo num time de botão.

Telê foi dos maiores de todos os tempos, mas também fez das suas. Quem tinha Adílio e Mário Sérgio voando não poderia ter aberto mão. O time, entretanto, era cheio de craques.

De lá para cá, é natural que todos os times brasileiros nas Copas do Mundo tenham jogadores que não são unanimidade. Como fazer isso com quase duzentos milhões de torcedores? Mas algumas coisas, de tão óbvias, beiram o ridículo. E ultrapassam qualquer barreira de paciência.

Para qualquer zagueiro do mundo, uma coisa é estar marcando o Luis Fabiano e ele ser substituído pelo pentacampeão Ronaldinho Gaúcho, duas vezes melhor do mundo. Outra coisa é se entra o Grafite, com todo respeito ao querido ex-atleta do meu querido São Paulo.

Levar Ganso e Neymar não significa ter personalidade e manter jogadores comprometidos com o “grupo”, mas sim ser suficientemente ignorante em não perceber que, diante de um adversário mais difícil, os dois em campo ao lado de Robinho formariam o entrosado ataque do time-sensação do primeiro semestre no futebol brasileiro, o Santos. Apenas isso.

Alguém na mesa, acho que o Moraes, me lembrou que, pela primeira vez na história, o Brasil entrou em campo e nenhum adversário, nem mesmo a fraquíssima Coréia do Norte, exerceu marcação especial em algum dos nossos jogadores. Isso era um (péssimo) sinal.



III

Qual o principal objetivo de se fazer treinos fechados para a imprensa?

Ensaiar jogadas.

Na Copa de 2010, o Brasil não tinha NENHUMA.



IV

“São jogadores com compromisso com a seleção”.

Michel Bastos é reserva de ponta direita no Lyon. Na seleção, lateral-esquerdo.

O veterano Gilberto é meia do Cruzeiro. Na seleção, lateral-esquerdo.

Kleberson quase foi assassinado pela torcida do Flamengo em seu último jogo no Maracanã, pelo campeonato brasileiro.

Kaká, excepcional jogador, mas claramente contundido e confuso demais com as coisas de Jesus Cristo, não tinha a menor condição de fazer a diferença.

Luis Fabiano não jogou um vigésimo do que quando atuou nas eliminatórias.

Ronaldinho Gaúcho não tinha comprometimento? E quando embarcou na canoa furada que era a seleção olímpica de 2008?

Concordo que Adriano fez demais em termos de tangenciar delitos, mas já que a seleção não é agência de matrimônio para casar a minha filha, não teria sido melhor levar o atacante imperial, deixa-lo treinando um mês e, quando possível, utilizá-lo em circunstâncias do jogo?



V

Sejamos claros: no primeiro tempo da derrota para a Holanda, a seleção brasileira não fez nenhum jogo maravilhoso. Coisa nenhuma! Nos primeiros dez minutos, os holandeses, atônitos, marcavam na defesa com dois zagueiros em linha. Tomaram um gol, poderiam ter tomado três. Passado o susto inicial, aos poucos se recompuseram e aí o Brasil não teve mais espaço. Quando veio o segundo tempo, Bert van Marwijk acertou sua zaga e o Brasil simplesmente acabou em termos de ataque. Como aconteceu muitas vezes em nossa história, quando a coisa estava preta poderia se apelar para a improvisação, o drible, o recurso técnico. Mas nossos melhores jogadores neste aspecto simplesmente não estavam na África. O jogo ficou igual, até que...



VI

... houve um frangaço.

Julio César é bom goleiro. Não é o melhor do mundo, como andaram inventando por aí. É um bom goleiro e só. Tem regularidade. Mas tomou um FRANGAÇO. Não me venham com história de Felipe Melo. Um goleiro de quase dois metros que sobe com as mãos não pode furar um soco na bola. Tendo ou não o tresloucado Felipe na jogada, a bola entraria do mesmo jeito. Foi apenas a cereja no bolo da velha tradição rubro-negra em Copas do Mundo, se é que me entendem. E foi justamente por causa do FRANGAÇO que falhou no segundo gol, ao nem se mexer no escanteio. O time, que já não era grande coisa, desabou com o empate “inesperado”. A vitória holandesa era questão de tempo, e só não se transformou numa goleada ao final porque os laranjas estavam mortos de cansados.

Na zona mista, Julio perdeu uma grande chance de mostrar o boa-praça que é. Bastava ter pedido desculpas aos torcedores por ter sido o principal responsável pelo primeiro gol holandês. Ponto.



VII

A vinte minutos do fim, Dunga, que realmente não entende NADA de futebol, precisando vencer o jogo, tira Luis Fabiano e coloca Nilmar, bom jogador, mas completamente franzino.

Não era hora de pressão na área?

E ele me tira o atacante que tem mais força física?



VIII

Não teve culpa no primeiro gol.

Mas é um completo imbecil.

Felipe Melo. Expulso do Grêmio, expulso do Cruzeiro e - pasmem! - expulso do Flamengo.

Podia servir bem à seleção brasileira com tal histórico?



IX

Poderia aqui listar mais dezenas de atos patéticos. O coerente Dunga zombando de um repórter que questionava o futebol de Robinho quando ele mesmo, Dunga, insistira anos atrás com AFONSO ALVES de camisa nove da seleção. O patetocrata Jorginho dando piti no desembarque na seleção no Rio de Janeiro, ao lado de seu olheiro evangélico. Poderia falar aqui de Julio Baptista, de Josué, da falta de esquema tático, da falta de jogadas ensaiadas, da falta de futebol-arte que ensinamos ao mundo, dos socos psicopatas no banco de reservas, das coletivas fanfarrônicas e debochadas, do neofascismo disfarçado de comprometimento. Do péssimo gosto das camisas de gola rollet. Prefiro continuar meu chope com os amigos.

Qualquer criança de dez anos, como eu fui um dia, sabia que tanto autoritarismo misturado à falta de competência não ia dar certo. Assim como vetar Falcão para levar o saudoso Chicão. Isso não se perdoa nem em time de botão.



X

Dunga? Já foi tarde.


Paulo-Roberto Andel, 03/07/2010

Wednesday, June 23, 2010

O SUJO, O MAL-LAVADO E A PODRE












Quando comecei a freqüentar estádios de futebol duas vezes por semana, ou três, Dunga começava sua brilhante carreira como jogador. Volante com bons recursos, combativo sem ser violento, capaz de dar ótimos passes e dono de um chute fortíssimo, passou por vários clubes no Brasil e no exterior. Tinha tanta raça que certa vez, atuando pelo Corinthians, vomitou no vestiário durante o intervalo de um jogo - excesso de esforço.

Era um cavalo, no bom sentido.

Ficou milionário.

Injustamente, foi execrado na Copa de 1990, apontado como o líder de uma “era” de derrota da seleção brasileira – sonora bobagem se levarmos em conta que, um ano antes, a mesma seleção brasileira tinha vencido a Copa América, título que não conseguia desde 1949 e os mesmos que lhe fuzilariam na imprensa no ano seguinte eram os que lhe teciam loas ali.

Veio 1994 e Dunga conseguiu um título que poucos jogadores têm: mais do que campeão do mundo, mais do que tetracampeão com o Brasil, se tornou campeão mundial nos juniores e nos profissionais. Uma façanha. Poderia se aposentar feliz (sem trocadilhos) e satisfeito. Um vitorioso. Saiu da ruralidade e ganhou o mundo, ganhou títulos, ganhou dinheiro, foi admirado e ainda deu o troco nos que o malversavam. Suficiente, não?

Não.

Ainda houve tempo para salvar o Internacional do rebaixamento em 1999 com um gol heróico de cabeça. Antes disso, o vice-campeonato mundial na França. Sejamos sinceros: por mais que se queira colocar a culpa no episódio envolvendo Ronaldo, nosso time poderia nem ter ido à final. Ou à semifinal. Nos arrastamos contra a Dinamarca, uma via-crucis contra a Holanda e a velha camisa amarela chegou até mais longe do que as pernas permitiam – que não eram as pernas de Romário, maleficamente cortado pelo “Copas-Fora”, claro. E uma imbecilizada cabeçada em Bebeto, os dois jogando pela seleção brasileira. Aí o leite começou a azedar. Garra, raça, disposição, todas características admiráveis. Estupidez e burrice não.

Passou o tempo. Futebol sempre tem um quê de injustiça. Descobriram que Parreira, depois de montar fantásticos times, ser campeão em tudo quanto é lugar e ter sentado praça na galeria dos admiráveis do futebol brasileiro, não servia para comandar porque não gritava na beira do campo – como se isso tivesse alguma utilidade junto aos berros de um Maracanã lotado ou mesmo na Copa atual, onde cinqüenta mil vuvuzelas imperam. Então surgiu a figura do Dunga como a do “grande capitão” (Carlos Alberto Torres seria muito, mas muito melhor, se o caso era esse), a do “moralizador”, a do “chefão”. Então o Brasil ganhou muitos amistosos (a maioria deles contra adversários sofríveis determinados pelo patrocinador da camisa amarela), venceu Copa América, venceu Copa das Confederações (levando sufocos) e venceu a Argentina pelas eliminatórias – o que pouca gente lembra é que, até ter feito o primeiro gol, a seleção passou meia hora sendo dominada pelos portenhos. Então, a massa jornalística atribuiu ao Gran Comandante o título de inquestionável, por conta dos resultados. Contradição? Sim. Ratificaram a velha escrotice de que “não importam os meios, mas sim os resultados”. Eu vos pergunto: conseguem identificar três ou quatro jogadas ensaiadas que esta seleção, mesmo vitoriosa, mostrou nos últimos quatro anos em campo? E por conta daqueles resultados, Dunga se achou no direito de fazer o que bem quer, contando com o aval de seu patrão Ricardo Teixeira (o mesmo que diz que a CBF é uma entidade privada e, por isso, não precisa dar satisfações de seus atos a ninguém – como assim?). O rio desaguou em repetidas ofensas aos jornalistas que cobrem a televisão brasileira a cada nova entrevista coletiva e culminou na mais recente, domingo passado. Antes disso, Dunga, funcionário de uma instituição privada que não deve prestar contas a ninguém, mas pessoa pública que representa o interesse de quase duzentos milhões de brasileiros, já se posicionou de forma patética ao não saber, por exemplo, se a ditadura que assolou o Brasil era boa ou ruim, porque não viveu nela. Um pouco de leitura de livros do ensino fundamental ajudaria bastante.

Deu problema com a plim-plim. Raivosos com o destempero fascista de Dunga, o comando da Vênus da Ditadura resolveu linchá-lo publicamente. Estão sendo prejudicados no preparo de matérias, têm poucas imagens, os jogadores não falam. De certa forma, para qualquer brasileiro bem-escolarizado não há como não rir desta situação, por mais que ela não seja engraçada: a superpoderosa se submetendo aos caprichos pessoais de um chucro. Minha vocação brizolista não perdoa. Porém, que fique bem claro: nada disso está acontecendo por conta de um esclarecimento político-social do “treinador” da seleção brasileira (muito pelo contrário: em várias vezes ele já desfraldou seu oceano de ignorância a respeito do tema); tão-somente, por capricho de um sujeito que teria motivos para viver feliz em todos os dias de sua vida, mas que precisa a todo instante mostrar sua raiva, seu rancor, sua mágoa e sua pequenez em não reconhecer que, embora campeão do mundo, bem-sucedido e vencedor, ele foi bastante inferior a vários outros também campeões do mundo como aqueles de 1958, 1962 e 1970. Foi, é e será, mesmo que consiga a façanha de se tornar campeão mundial como treinador e, com isso, ser o único do mundo a também ter conseguido ser campeão nos juniores e nos profissionais. Tornou-se um cavalo, no mau sentido.

Tudo na Globo tem odor de conspiração. É fato. Considero bastante positivo que sua sede de poder e completo domínio da informação em detrimento das concorrentes estejam sendo prejudicados. Mas não é por causa disso que tecerei loas a Dunga como atual técnico. Se tem obtido vitórias e títulos no futebol, no trato com os seres humanos em público tem agido como se fosse um completo irracional.

Não sou de ficar em cima do muro.

Nem a Globo, nem Dunga.

Cartão vermelho para os dois.

Nenhum dos dois nos representa com dignidade, mesmo que com “excelência” de resultados. Não se trata do Brasil, mas sim a briga do sujo com o mal-lavado.


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Recebo reprodução do blog de Luis Nassif:

“A PRESIDENTE TUCANA DO FLAMENGO

Por Stanley Burburinho

E sabia que um dia isso aconteceria porque ela é filiada ao PSDB. Imagino o que a imprensa e o TSE falariam se o presidente do Corinthians desse ao Lula uma camisa com o número 13.

Patrícia Amorim usa o Flamengo para beneficiar seu partido PSDB

Vergonha inaceitável para a nação rubro-negra

A presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, usando uniforme com a marca oficial do clube, foi a um restaurante do Rio de Janeiro para assistir ao primeiro jogo da seleção brasileira junto com político do seu partido PSDB, o candidato tucano José Serra, apesar do estatuto do clube proibir esse tipo de manifestação.

Em um evento em que deixava transparecer que comparecia como Presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Patrícia Amorim posou para fotos entregando camisa personalizada do clube a José Serra. A camisa, que tinha o número 45 às costas e o nome de Serra (sic), ainda era do terceiro uniforme do Flamengo, que estranhamente ostenta as cores do PSDB: Azul e Amarelo.

Patrícia Amorim, que parece desconhecer o estatuto do próprio clube que dirige, se comportou como se fosse um apoio oficial da instituição Flamengo à candidatura de Serra.

Cabe lembrar à ex-nadadora olímpica que o artigo 24, parágrafo XIII do estatuto do Flamengo diz:

Art. 24 – Ao sócio, além de outros deveres previstos neste Estatuto, impõem- se:

XIII – abster-se de usar ou envolver o nome do FLAMENGO em campanha, de qualquer natureza, estranha aos objetivos do Clube.

Lembrando ainda que o presidente do Flamengo é, sobretudo um sócio, e mais do que ninguém é obrigado a respeitar o estatuto do clube.

Além de desrespeitar o estatuto nesse caso, não é a primeira vez que Patrícia confunde sua vida política pessoal com suas atribuições como presidente do clube com a maior torcida do país, o episódio da escolha da camisa azul e amarela gera muita polêmica na torcida, que é o maior patrimônio do clube. A desculpa de homenagear a origem do remo só faria sentido se o uniforme fosse azul e dourado, afinal essas eram as primeiras cores que os remadores ostentaram a partir de 1895, ano de fundação do clube. Aproximar dourado de amarelo é forçar a barra; ela quis usar as cores que costuma usar em suas campanhas políticas.

Desde as primeiras pesquisas de maior torcida feitas por jornais há décadas, a torcida do Flamengo ficou conhecida por ser um fenômeno de massas; sua composição é na sua maioria de pessoas humildes, de comunidades mais pobres, espalhados por todo o território nacional.

O Flamengo é pluralidade, não pode ser associado a um partido ou uma candidatura, seja lá de quem for. Se fosse definir a ideologia da torcida do Flamengo diria que é majoritariamente de esquerda, no extremo oposto ao caminho que trilha o PSDB - foi uma das primeiras, senão a primeira a usar bandeiras com imagens de Che Guevara, de Cuba, da Palestina. Como associar com o clube uma candidatura que representa um elitismo que em nada tem a ver com a história do clube e com a sua torcida? Lá em São Paulo, a polícia do então governador Serra PROIBIU a torcida do Monte Azul de ostentar bandeira de Che como se ainda estivéssemos na ditadura, alegando que estimula a violência (sic).

Eu espero que o conselho deliberativo coloque um freio nessa tentativa de associar uma instituição centenária como o Flamengo com um partido envolvido com tanta corrupção e que se aliou a tudo que tem de pior na sociedade brasileira. O estatuto é claro: a presidente usou o nome e marca do clube em campanha estranha aos objetivos do club., Talvez não seja caso de impeachment, mas ela deve ser advertida para não usar mais o Flamengo para beneficiar seu partido.”


Precisa dizer mais alguma coisa?

Podre!


Paulo-Roberto Andel, 22/06/2010

Friday, June 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO


Tuesday, June 15, 2010

COISA DE ALGUNS MINUTOS


Daqui a pouco tempo, o país vai parar como sempre a cada quatro anos, ou a cada ano num fevereiro-março qualquer.

A Copa do Mundo é nossa.

Não se trata do título, evidentemente.

Falo da alegria que milhões de pessoas, preferencialmente as mais humildes, podem ter com cada partida do escrete nacional.

Detesto o militarismo amargo de Dunga e de seu papagaio-de-pirata Jorginho. Esperava mais de dois sujeitos que já levantaram o campeonato mundial como juniores e profissionais. Pessoas menos apegadas a rancores e vinganças. Gente mais gente, se é que me entendem.

Detesto Ricardo Teixeira e tudo que lhe cerca. Mas o futebol brasileiro é muito maior do que eles todos. Muito, muito mais.

Nelson Rodrigues, tão grande quanto o nosso futebol, entendeu bem esse fenômeno décadas atrás quando escreveu a "pátria de chuteiras".

Tomara que dê tudo certo. Mesmo que tudo tenha sido feito com empáfia, arrogância e a medida certa para que dê tudo errado.

E se não der certo como mereceríamos, que ao menos por alguns instantes os brasileiros se sintam um pouquinho felizes, sem a ameaça do neoliberalismo que lhes espera no pós-Copa.

Oxalá.


Paulo-Roberto Andel, 15/06/2010

Monday, June 07, 2010

PINGOS NOS IS...



Itamar Franco é dos poucos homens públicos de direita que se pode realmente respeitar.

Abaixo, a entrevista que concedeu ontem a Mauro Santayanna, do JB, onde coloca muitos pingos nos is em relação àqueles que dizem "poder mais", desde os tempos do frango a um real...



Jornal do Brasil, 6/6/2010

ITAMAR FRANCO E O PODER DA SIMPLICIDADE
Mauro Santayana

Quando assumiu a Presidência da República, durante o afastamento compulsório do titular, Fernando Collor – que seria definitivo meses depois, com o impeachment – Itamar Franco surpreendeu as elites, representadas pelos principais veículos de comunicação do país. Seu ministério foi tachado de “governo de compadres”, e “República do Pão de Queijo”. A resposta de Itamar foi uma pergunta, quase inocente: “As pessoas simples não podem governar?”.

Meses depois, o senador Antonio Carlos Magalhães pediu-lhe uma audiência. Queria fazer “graves revelações” contra Jutahy Magalhães Júnior, seu ex-aliado e então desafeto na Bahia, que ocupava o cargo de ministro de Bem-estar Social. Ao ser introduzido no gabinete, na hora marcada, Antonio Carlos encontrou todos os jornalistas credenciados no Planalto, com seus fotógrafos e as câmeras de televisão. Diante do espanto e constrangimento do Senador, Itamar explicou:

– Como o senhor me disse que faria uma denúncia, achei conveniente que a fizesse à nação inteira. O senhor pode apresentá-la diretamente aos jornalistas.

Modéstia

Antonio Carlos engoliu em seco. Seu “dossiê” era constituído de recortes de jornais, que nada provavam contra Jutahy. Ao minimizar a importância do episódio, que alguns atribuíram à sua astúcia de mineiro, Itamar confessou, modesto:

– Eu, astuto? Eu sou até meio bobo.

A República do Pão de Queijo pode ter sido, para o desdém de seus críticos, a república do pão, pão; queijo, queijo; orientada pelo pensamento óbvio, pelo senso comum. Mas é provável que Itamar tenha sido realmente ingênuo, ao deslumbrar-se pela retórica professoral do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e fazer dele seu sucessor. Itamar relembra o episódio:

– O nome de Fernando Henrique surgiu por exclusão. Diante da pressão dos fatos, que me levaram a aceitar a demissão do ministro Eliseu Resende, desloquei Fernando Henrique do ministério de Relações Exteriores e o nomeei para a Fazenda. A partir de então, seu protagonismo foi natural. Mas, naquele momento, eu pensava, e pensava firmemente, em dar a José Aparecido de Oliveira visibilidade que o credenciasse à sucessão. Aparecido – tal como hoje ocorre ao presidente Lula – se revelara excepcional diplomata, à frente de nossa embaixada em Lisboa. Coube-lhe articular, com grande sacrifício pessoal, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Teve que vencer a resistência de certos setores lusitanos, que não queriam dividir, com o Brasil, a influência sobre as suas antigas colônias. Com o apoio de Mário Soares, Aparecido partiu para a segunda etapa: a de convencer os novos países que podiam confiar na CPLP, porque a presença brasileira neutralizava a suspeita, natural, de que a instituição viesse a ser instrumento de novo colonialismo. Foi assim que, sem linhas aéreas regulares, que lhe possibilitassem as viagens sucessivas e rápidas pelo continente africano, Aparecido teve que se deslocar de um país para outro em aviões monomotores. O Brasil deve também ao Aparecido a oportunidade de hoje estar presente na Ásia: ele nos revelou a existência de Timor-Leste e incluiu essa realidade em nossa política externa. Eu não tive dúvida em convidá-lo para ocupar a Secretaria de Estado. Os elitistas do Itamaraty se levantaram contra a indicação, mas eu não recuaria. Quem recuou foi o próprio Aparecido, e com razões ponderáveis: estava enfermo, sujeito a uma cirurgia arriscada e, com sua sensibilidade, entendeu que não teria condições para ocupar o cargo. Foi então que – e mais uma vez eu lhe louvo a perspicácia diplomática – ele me sugeriu o nome do embaixador Celso Amorim. Acatei, com prazer, a sugestão. Em primeiro lugar porque, não podendo contar com Aparecido, era mais razoável que me valesse de um quadro do Itamaraty, para servir-me no curto mandato que me restava. Além da recomendação de Aparecido, tive outras referências que confortaram a minha escolha. Quanto à sucessão, o nome de Aparecido se tornou inviável pela enfermidade. Optei então pelo jornalista Antonio Brito, que se destacara como ministro da Previdência e estava à frente das pesquisas. Brito declinou: era muito jovem, e preferia governar o Rio Grande do Sul. Fernando Henrique era a terceira opção.

ELOGIOS A AMORIM E À POLÍTICA EXTERNA

Já que falamos em diplomacia – e Itamar foi embaixador em Portugal, na OEA e na Itália – conversamos algum tempo sobre a política externa de Lula. Itamar sorri: ele se sente parceiro de seus êxitos, uma vez que lhe coube levar Amorim para a chancelaria.

– Senti-me homenageado quando, na presença do embaixador Amorim, em uma recepção na Embaixada do Brasil no Vaticano, o presidente Lula me disse que o havia convocado para a chefia do Itamaraty por ele ter sido meu chanceler. É claro que Lula me fazia um afago político, e que a razão da escolha não fora só a nomeação de Amorim pelo meu governo, mas, de qualquer forma, eu dera ao diplomata de Santos a chance de revelar-se como um dos mais importantes negociadores internacionais de nosso tempo. Só tenho a lamentar que Amorim tenha ido a Juiz de Fora participar de um comício em favor da candidatura de Nilmário Miranda, do PT, com Lula, e ao lado de Newton Cardoso, contra a reeleição de Aécio. Um ministro de Relações Exteriores não deveria intervir em disputa regional, e muito menos na cidade natal de quem nele confiara a execução da política externa brasileira. Magalhães Pinto, que era político, nunca fez isso. Esse episódio, que me entristeceu profundamente, não diminui a admiração pelo grande diplomata que ele é.

Comento com Itamar curiosa circunstância histórica. Celso Amorim é de Santos, e em Santos nasceram dois dos mais importantes diplomatas brasileiros, decisivos em momentos cruciais da nacionalidade. O primeiro foi Alexandre de Gusmão, que deu ao Brasil os seus limites continentais, com o Tratado de Madri, de 1750, em que se reconheceu o princípio do utis possidetis que legitima a posse de fato. O segundo foi José Bonifácio de Andrada, o primeiro-ministro de Relações Exteriores do Brasil.

Continuando na política externa, Itamar faz pequeno reparo a Celso Amorim:

– O ministro disse que, para não ter direito a um voto independente, é melhor não fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. No meu entendimento, trata-se de falsa questão. A nação que faz parte do Conselho tem a liberdade de votar como quiser, de acordo com seus princípios e interesses e em favor da paz mundial. O que deve ser contestado é o ainda poder de veto exclusivo aos cinco países que são membros permanentes do órgão. O Brasil sempre teve direito, pelas suas dimensões geográficas e pela sua formação histórica, a participar do Conselho de Segurança. Em 1926, com forte presença na Liga das Nações, teve a sua candidatura, como membro efetivo do Conselho das Nações, preterida em favor da Alemanha – da mesma Alemanha que fora derrotada em 1918. Como era nosso presidente o grande estadista mineiro Artur Bernardes, e seu representante na Liga outro invulgar homem de Estado, também mineiro, o embaixador Afrânio de Mello Franco, o Brasil preferiu a honra e abandonou a Liga, que se revelara instrumento dócil do eurocentrismo. Um país que defendera, com Rui, em Haia, a plena igualdade entre as nações, não poderia compactuar com a ditadura dos grandes.

O NACIONALISMO COMO INSTRUMENTO DE DEFESA

A referência ao episódio de há 84 anos e a Artur Bernardes nos leva ao sentimento nacionalista dos mineiros. Itamar não é apologista radical da mineiridade, ainda que sempre se valha de uma frase forte, a de que ninguém nivelará as montanhas de Minas. Ele pondera que o nacionalismo está presente em todos os estados brasileiros, em maior ou menor expressão, mas reconhece que as circunstâncias históricas acentuaram essa consciência de defesa da soberania em Minas.

Falamos durante algum tempo sobre essas circunstâncias. A primeira delas foi a descoberta do ouro, e a promessa de riqueza e potência que o metal sugere. Em um primeiro momento, o ouro atrai a ambição de enriquecimento pessoal. Depois, esse sentimento passa a ser coletivo: para proteger o direito de cada um, é preciso proteger o de todos. Foi assim que os mineiros criaram o Estado dos Emboabas, contra a pretensão dos paulistas de expulsarem os recém-chegados da Bahia, das capitanias do Nordeste e da Europa. Ao expelir os paulistas das minas centrais, os emboabas fundaram o pensamento nacionalista dos mineiros, que se afirmaria contra o Conde de Assumar, em 1720, no martírio de Filipe dos Santos, e na Conjuração de 1789, chefiada por Tiradentes.

Sentimento

– A minha tese é de que coube aos mineiros despertar esse sentimento nos demais brasileiros, o de que o nacionalismo é a união entre a ideia da dignidade e da defesa da riqueza que coube, pela natureza, à geografia de cada nação. É certo que a dignidade dos povos é mais importante do que seus bens: uma nação pode ser honrada, ainda que pobre. Mas a cobiça internacional se dirige aos recursos naturais. O nacionalismo deve ser instrumento de defesa e resistência, jamais estímulo à conquista, como ocorreu com a Alemanha de Hitler.

A conversa nos leva à experiência diplomática de Itamar, e ele acredita que ela foi mais importante na representação do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos. O fato de se tratar de órgão multilateral possibilitou-lhe contato com personalidades de todo o continente e lhe confirmou a divergência de fundo entre a América Latina e os Estados Unidos. Na OEA, Itamar atuou com a independência de sua autoridade política. Foi assim que fez veemente discurso contra a existência do centro de treinamento de militares latino-americanos, que existira antes no Panamá, e fora transferida para os Estados Unidos, a conhecida Escola das Americas. Itamar citou o secretário de Defesa dos Estados Unidos de então, William Perry, que considerou “totalmente inaceitáveis” os manuais de instrução da Escola. O órgão continua funcionando em Fort Benning, nos Estados Unidos, mas sob pressão crescente para seu fechamento. Hoje, a escola quase se limita a treinar militares colombianos.

Críticas

O pronunciamento foi criticado por alguns embaixadores, pelo fato de que o Itamaraty não fora consultado previamente, e porque envolvia as relações bilaterais entre Brasília e Washington. Itamar não se defende, ataca: um ex-presidente da República – e isso já ocorrera a Campos Salles, quando enviado à Argentina – dispõe de mandato ético e político para defender os interesses brasileiros, conforme sua consciência e convicção.

PLANO REAL NADA TINHA DE ORIGINAL

Há uma coisa que aborrece particularmente o ex-presidente: a memória seletiva de alguns homens públicos sobre a sua administração. Ele se refere a pontos importantes, começando pelo Plano Real. O plano nada tinha de original, baseado que foi no Plano Schacht, da Alemanha dos anos 20, e já um pouco adaptado – sem êxito – pelos argentinos, com o Plano Austral. Itamar lembra que só o aprovou depois de conferir os seus números, trabalhando várias horas nisso. Como engenheiro, e bom conhecedor de matemática, corrigiu alguns de seus itens, antes de aprová-lo e correr todos os riscos políticos da decisão. Da mesma forma, Itamar lembra que os medicamentos genéricos foram adotados pelo seu ministro da Saúde, o médico Jamil Haddad, com sua aprovação, apesar da resistência dos laboratórios. Embora fosse reivindicação de médicos brasileiros, o SUS começou a ser implantado pelo médico Carlos Mosconi, presidente do Inamps em seu governo. Hoje – e Itamar usa o advérbio “despudoradamente” – tais êxitos são atribuídos ao governo de seu sucessor.

– Desde que entrei para a política, em Juiz de Fora, sempre entendi que o Estado existe para impor aos poderosos o respeito aos cidadãos, qualquer que seja a sua posição na sociedade. Mais do que isso, sempre acreditei que o poder político deve buscar a igualdade de todos, diante da lei e das oportunidades da vida. Assim agi quando, por duas vezes, fui prefeito de minha cidade. E só fui atraído para a política porque, como engenheiro do DNOS, tomei conhecimento da vida difícil das populações periféricas. Até hoje creio que o saneamento básico é uma das principais tarefas do poder público. Na mesma época, juntamente com meu colega Nicolau Kleijorge, dei aulas de matemática e conhecimentos gerais aos trabalhadores de Juiz de Fora. No Senado, para onde fui eleito pela primeira vez em 1974, naquela memorável manifestação de inconformismo de nosso povo, quando o MDB não era o PMDB de hoje, mantive a mesma postura, a de que o mercado deve estar sob o controle do Estado, servidor da sociedade, e não o contrário. Resisti ao projeto neoliberal que se iniciara no governo Collor, e não concordei com a privatização de setores estratégicos, como os da energia e das telecomunicações. Da mesma forma cortei, pela raiz, o projeto da equipe econômica, de privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Outros fatos foram lembrados na conversa, como a redução da dívida pública e a aprovação excepcional de seu governo, de acordo com pesquisas de opinião, alem de seu plano de combate à fome, dirigido por dom Mauro Morelli.

AÉCIO, COM GENEROSA AMIZADE, CITOU MEU NOME

O ex-presidente lembra a luta que teve, ao assumir o governo de Minas, em 1999, a fim de organizar as finanças do estado. Ao decretar a moratória – uma vez que os presos e os enfermos de alguns hospitais públicos estavam ameaçados de morrer de inanição, por falta de comida – o mundo desabou sobre ele.

Logo depois, coube-lhe resistir, manu militari, à anunciada privatização de Furnas, situada em território mineiro. Isso sem falar na Cemig.

– Não quero lembrar os nomes dos responsáveis, mas estávamos reféns, na administração da Cemig, de investidores estrangeiros, que haviam obtido, por alguns 30 dinheiros, o controle operacional da empresa.

A minha resistência e a atuação do governador Aécio Neves nos libertaram desse conluio dissimulado em acordo de acionistas.

Nestes últimos 10 anos – dois dos quais sob meu governo – a Cemig valorizouse em 400%. Ela se tornou, nesse período, a empresa energética de maior sustentabilidade no mundo, de acordo com a Bolsa de Nova York.

Entramos na atualidade política. Itamar diz que sua prioridade é a sucessão em Minas. Não cita o nome, porque não é necessário cita-lo em Minas, mas se declara disposto a lutar para que o governo não seja entregue a alguém não confiável.

Pergunto-lhe sobre os rumores de que poderia vir a ocupar a chapa da oposição como candidato à Vice-Presidência:

– O governador Aécio Neves, com sua generosa amizade, citou meu nome como apto a compor a chapa da oposição. Pertenço, hoje, ao PPS. Sei que se tratou de homenagem a um amigo. Mesmo assim, rejeitaram essa hipótese, como se fosse postulação minha. Não sou candidato àquele cargo. Não insinuei essa possibilidade, mas a recusa ao meu nome robustece a decisão de agir, no pleito, conforme a minha consciência, sem qualquer constrangimento político.

Não é Itamar que deve influir na sucessão. São as razões de Minas que terão de ser respeitadas. E as razões de Minas são as razões do Brasil. Em qualquer lugar do Brasil há “mineiros”, isto é, honrados patriotas, que colocam, acima dos interesses regionais, a soberania do país e o bem-estar de nosso povo. (M.S.)

Wednesday, May 26, 2010

ASSIM É, SE LHE PARECE...


PELA LEGALIDADE!


A VIOLÊNCIA (É?) TÃO FASCINANTE...


Uma grande canção de outra geração versava sobre o fato da violência ser tão fascinante. O que poderia parecer non sense virou lugar comum – assim não fosse, como justificar o carnaval de maldades que vejo ao ligar uma televisão, ouço ao ligar um rádio ou leio ao folhear qualquer jornal, desses de papel, com sabor de antigamente? Um fascínio em prol da loucura ou da desordem que hoje vivemos, que jamais deve ser confundida com ausência de ditadura, pois. O que sei é que penso na canção e em seu grande compositor, falecido muito antes da hora por conta dessa mesma violência fascinante que habita a terra, ritualizada em mídias, decantada a quatro cantos. A violência das síndromes e outras doenças. A violência que floresce no olhar dos que têm dignidade, quando se deparam com jovens remexendo lixo em busca de comida. A violência que espanta qualquer pessoa normal quando, num rompante, se sabe que um avô estuprou a neta. A violência de um sistema tido como liberal mas que, na verdade, é o principal elemento opressor da sociedade, colocando muitas vezes a grande maioria da população sob total penúria, impossibilidade de ascensão social e a real liberdade de expressão – tudo longe, mas muito longe de qualquer Cuba; não me venham com falácias mofadas. A violência fascinante do poeta era outra, claro; se vivo, hoje, ele diria outras coisas, escreveria outros poemas e talvez parecesse mais aturdido ainda diante de tanta cegueira, tanta insensatez, tanto egoísmo e indiferença para com o outro – tudo longe, mas muito longe de qualquer necessidade de crença religiosa: todas me fazem um indigente da fé. Nossas ruas celebram a violência, mas finge-se não fazer isso. A indiferença não é uma violência? Cinqüenta centavos de esmola por quatro horas de pedidos não é uma violência? A remoção das favelas, o choque de ordem, os hospitais superlotados, as colossais filas de desempregados à busca de uma única vaga, não são tudo a constituição da violência? A distorção das informações, a não-democratização dos acessos, a opressão do capital, a prática de monoculturas também não formam um abominável conjunto de violência? Alguém há de dizer que tudo isso é uma sonora bobagem diante dos assassinos cruéis, traficantes vis, estupradores e outros marginais, mas não seriam praticamente todos frutos da violência onde vivemos, em vez de agentes causadores? Do covarde assassino de hoje, quanto restou do menino maltrapilho e sem perspectivas de ontem? Não, a violência não é fascinante à vista, embora isso em nada diminua a monumental obra do grande poeta, que poderá ser entendida com mais clareza; ela, na verdade, é chocante, é assustadora, é temida e, principalmente, quando a vemos, estamos diante de nossas próprias falhas. Dentro de instantes, minha televisão ligada oferecerá um novo telejornal; é fácil prever que o hediondo estará presente de alguma forma, em maior ou menor escala. Em nome deste mesmo hediondo, pessoas falarão que, se vivêssemos numa ditadura, teríamos ordem e progresso; que seria tudo belo e perfeito e melhor. Nada poderia soar mais patife e leviano; mais cego, surdo, mas não mudo, dotado apenas de palavras rudes e de rasa essência no pensamento. E chega a hora de dar razão ao poeta: momentos como este é que desvelam o fascínio pela violência, entranhado na estranha contradição de que o agente violento de hoje nada mais é do que a vítima, direta ou indiretamente, da violência de ontem. E também porque aquele que parece não-violento, mas não ajuda a combater a violência em sua gênese é, involuntariamente, um agente propagador dela. Duro é rever as palavras do poeta e saber que, vinte e cinco anos depois, não fomos capazes de mudar uma vírgula do que já estava previsto nos versos. A violência escrota, ignara e pútrida é, ao mesmo tempo, para alguns, a violência tão fascinante; para outros, a verdadeira ordem vigente a ser mantida.


Inspirado em "Baader-Meinhof Blues", de Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá


Paulo-Roberto Andel, 26/05/2010

Tuesday, May 18, 2010

RETICÊNCIAS






reticências à mostra
numa sala de espera
silêncios tensos
reminiscências de guerra

reticências numa carta
num telegrama
numa folha presa
com fita adesiva vulgar
frente à porta da secretaria:
tudo é reverência
ao calendário

reticências
frente ao cimento
que lambe a lápide
reticências
rumo a um passo
da eternidade
referências
do que somos
vemos
e pouco
sabemos explicar

reticências
para adiar
uma aflição
céu e terra
diante de um vão
e a contemplação
inenarrável
do atlântico:
outras reticências
em tons de beleza
de mar que não
termina –
cântico
apreciável contra
toda angústia
divina
natureza em quebrantos
e um mundo que
não se sabe quando é
abominável
ou fantástico

nas entrelinhas
ou nos doravantes
há re ti cên ci as.


Paulo-Roberto Andel, 18/05/2010

Monday, May 17, 2010

DIO COMO TE AMO

Quem foi garoto nos meus tempos bem sabe do que vou falar.

A vida passa. Navegando contra a implacável - e também incansável - corrente de imposições fabricadas diariamente pela gran mídia, percorremos outros caminhos: outros livros, outros discos, outras letras, terras diferentes. Comigo também aconteceu.

Desde pequeno, me interessei por música, sem me prender muito a rótulos nem nacionalismos baratos. Comecei no rock, depois fui para o resto. Resto? É uma busca inesgotável para quem é um entusiasta do assunto. Música brasileira de todas as épocas, jazz, blues, folk, estilos regionais, continentais, todo o ocidente, a busca pelos tesouros do oriente. Meus amigos sempre me elogiaram como bom conhecedor/ouvinte, mas somente depois de me tornar um usuário da internet, década atrás, é que pude ter toda a noção da minha ignorância: há um mundo enorme lá fora que nunca chegará às rádios, televisões e lojas de música - estas, aliás, estão escasseando e refletindo a ignorância mundial.

Quando o Kiss pisou no Brasil, eu estava lá. Uma velhinha não queria me deixar entrar no Maracanã lotado: era palco do demo. Tomara que ela esteja no céu. Assim foi, com um monte de gente boa, a seguir: James Taylor, Cure, Metallica, Bob Dylan, outros mais.

Qualquer pirralho que gostou de rock com seus quinze anos em 1982 ou 1983 já ouviu falar de Ronnie James Dio. Deus do metal. Aríete do rock. O inventor/popularizador dos chifrinhos na mão para saudar as plateias, que virou esperanto no heavy metal. Cantor espetacular de bandas como Rainbow, Black Sabbath e, por muito tempo, tendo o seu próprio nome, Dio, como sinônimo de música pesada, pulsante. Mais do que uma grande - e talentosíssima - estrela de megaespetáculos, um sujeito carismático, simpático e extremamente afável com todos os fãs - ou seja, tudo na contramão das estrelinhas efêmeras (e opacas) do mundo da diversão de hoje.

Vida louca, vida. Breve.

Outro dia era 1982. Trinta anos correm rápido. A vida não espera. O Fred, que me deixava ouvir os discos, foi cedo. Meus pais também. O Magno, idem. Derrubaram minha escola do primário, a vila onde joguei bola. Tudo ordem e progresso. A vida pode ter algum conforto agora, mas ela drasticamente melhora quando, em algum momento, busco algum elixir da juventude lá atrás. Ouvir um bom disquinho é uma saída, um pequeno alento. Aqueles anos incríveis, mesmo com muita dificuldade mas com todo o futuro pela frente. Muitos me ajudam nessa viagem no tempo. Dio é um deles.

Soube que ele foi embora hoje. Me senti bem mal.

Estas coisas são previsíveis; inevitáveis, sabemos.

Só que, quando um sujeito passa a vida deixando milhões de pessoas felizes com seu trabalho, ele deveria merecer ao menos uns cento e cinquenta anos por aqui.

Minha adolescência está de luto. Consequentemente, minha vida inteira.

Obrigado por tudo, Dio.

Ronnie James Dio.

De toda forma, fica claro que você continua conosco.

E daí que a tua carne cansou, se a tua voz há de ecoar pelos anos e anos toda vez que um grupo de jovens, em sua maioria com camisetas pretas, se reunir para ouvir o bom e velho rock?

Quem mandou ser um gigante?

Podemos chorar hoje, mas você está condenado à eternidade.

Os chifrinhos estão em minha mão. E vão continuar. Conto contigo.

Um grande abraço.


Paulo-Roberto Andel, 17/05/2010

Thursday, May 13, 2010

IMAGENS QUE DIZEM TUDO


Monday, May 10, 2010

RUSH














(Foto: Luiz Alan)


consternado,
empenho os olhos
para assistir
ao desfile de uma grande
legião
a desfilar com garbo
numa avenida central
que se faz marco
permentente
da capital e seu parco
entendimento
do ser

não falo de pátria
desejo
perdão
não penso em torcida
platéia
procissão

[isso não vai dar repercussão]

nenhum rancor me tinge
denigre
ou me sequestra

quero apenas ver a legião:
são apenas ocupados
apressados
diluídos em chopes devassos
e tempo cronometrado -
apertados nas filas de espera;
querem ser modernos
com todo poder, sem pecado –
hot money, good for fun
e outros versos vulgares
que não me pertencem aqui

uma legião de estranhos
onde poucos percebem
a valia do outro
o sangue inestancável do outro
a dor que doeu noutro
descrente dessa terra

não façam de mim um julgador
um meritíssimo de nada
o que descrevo não tem verniz
de ódio:
o máximo que me permito agora
é parecer testemunha
sem importância
frente a uma legião de apressados:
se cabe algum humor,
está no breve fato
de que nunca os coletivos
foram tão apinhados
de solidão
individualismo
indiferença
alguém atende um celular
alguém recebe um sms:
pequenos resquícios
de vida humana
lá
fora
enquanto não chega
a próxima
estação




paulorobertoandel10052010

Thursday, May 06, 2010

AGORAS (OU O SAMBA DO CAVALO)



o que nos faz crer
sermos
impávidos colossos
gigantes pela própria
natureza?

uma beleza que não
sabemos
enxergar

perdida

nas ruas lotadas, apinhadas
num corre-corre
enquanto mãos indigentes
se estendem
num adiar da morte?

delas, fugimos feito cavalos
chucros e indomáveis

somos tão modernos
elegantes na fineza
de nossos ternos
até que um segundo
da era também moderna
nos trasforme
em brechós humanos

capachos
do desengano

lacaios da insensatez –
felizmente
não somos eternos:
muito, muito menos do que cavalos
nobres e dignos cavalos

um escritório é coleira
home banking é morfina
blackberry, cadafalso;
os livros mastigam poeira
as canções dispensam encarte
foto, drama, paixão;
cada miami, um paraíso
cada falácia, um engano

somos impávidos colossos
apenas por consolação:
o papel que nos resta
é [ode] de
flácidos

cavalos

cavalos de tróia
diante de uma guerra surda
onde a derrota
significa vida –

vida?

que vida e dor?

gigantes
pela própria natureza
são os sábios
que riem de nós,
riem de nosso rancor
encardido
nossa ânsia de posse
do intangível:
planos infalíveis
com tintura acre

somos tão cavalos para o nada:
falsos cavalos
a mostrar beleza
cobrindo uma carne vazia

temos pêlos cuidados
por nada melhor a fazer

e nossos coices, coitados
apenas denunciam
toda verdade:

parecemos os melhores
mas nossa sabedoria oca
nos delata –
por isso, não somos
verdadeiros cavalos;
é a dignidade que não
nos abençoa
e faz eco
somente nos asfalto

nada de areia ou grama

somos tão vencedores
mas perdemos
o primeiro
o segundo
e o terceiro
páreos


Paulo-Roberto Andel, 06/05/2010

DOIS TEXTOS, DUAS VISÕES


Gostaria de compartilhar com os amigos dois artigos escritos por duas cabeças coroadas do mundo contemporâneo: Boaventura Sousa Santos e Emir Sader. O primeiro fala do fascismo dos dias atuais, diluido em variadas manifestações na sociedade; o segundo, das verdades do PSDB que, estranhamente, a mídia encobre e faz questão de "esquecer".

O potencial de destruição do fascismo financeiro

Um exemplo para entender esta nova forma de socialbilidade fascista é a resposta do corretor da bolsa de valores quando lhe perguntaram o que era para ele o longo prazo: “longo prazo para mim são os próximos dez minutos”. Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país.


Boaventura Sousa Santos

Há doze anos publiquei, a convite do Dr. Mário Soares, um pequeno texto (Reinventar a Democracia) que, pela sua extrema atualidade, não resisto à tentação de evocar aqui. Nele considero eu que um dos sinais da crise da democracia é a emergência do fascismo social. Não se trata do regresso ao fascismo do século passado. Não se trata de um regime político mas antes de um regime social. Em vez de sacrificar a democracia às exigências do capitalismo, promove uma versão empobrecida de democracia que torna desnecessário e mesmo inconveniente o sacrifício. Trata-se, pois, de um fascismo pluralista e, por isso, de uma forma de fascismo que nunca existiu.

Identificava então cinco formas de sociabilidade fascista, uma das quais era o fascismo financeiro. E sobre este dizia o seguinte:

O fascismo financeiro é talvez o mais virulento. Comanda os mercados financeiros de valores e de moedas, a especulação financeira global, um conjunto hoje designado por economia de casino. Esta forma de fascismo social é a mais pluralista na medida em que os movimentos financeiros são o produto de decisões de investidores individuais ou institucionais espalhados por todo o mundo e, aliás, sem nada em comum senão o desejo de rentabilizar os seus valores. Por ser o fascismo mais pluralista é também o mais agressivo porque o seu espaço-tempo é o mais refratário a qualquer intervenção democrática.

Significativa, a este respeito, é a resposta do corretor da bolsa de valores quando lhe perguntaram o que era para ele o longo prazo: “longo prazo para mim são os próximos dez minutos”. Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país.

A virulência do fascismo financeiro reside em que ele, sendo de todos o mais internacional, está a servir de modelo a instituições de regulação global crescentemente importantes apesar de pouco conhecidas do público. Entre elas, as empresas de rating, as empresas internacionalmente acreditadas para avaliar a situação financeira dos Estados e os consequentes riscos e oportunidades que eles oferecem aos investidores internacionais. As notas atribuídas – que vão de AAA a D – são determinantes para as condições em que um país ou uma empresa de um país pode aceder ao crédito internacional. Quanto mais alta a nota, melhores as condições. Estas empresas têm um poder extraordinário.

Segundo o colunista do New York Times, Thomas Friedman, «o mundo do pós-guerra fria tem duas superpotências, os EUA e a agência Moody’s». Moody’s é uma dessas agências de rating, ao lado da Standard and Poor’s e Fitch Investors Services. Friedman justifica a sua afirmação acrescentando que «se é verdade que os EUA podem aniquilar um inimigo utilizando o seu arsenal militar, a agência de qualificação financeira Moody’s tem poder para estrangular financeiramente um país, atribuindo-lhe uma má nota».

Num momento em que os devedores públicos e privados entram numa batalha mundial para atrair capitais, uma má nota pode significar o colapso financeiro do país. Os critérios adotados pelas empresas de rating são em grande medida arbitrários, reforçam as desigualdades no sistema mundial e dão origem a efeitos perversos: o simples rumor de uma próxima desqualificação pode provocar enorme convulsão no mercado de valores de um país. O poder discricionário destas empresas é tanto maior quanto lhes assiste a prerrogativa de atribuírem qualificações não solicitadas pelos países ou devedores visados. A virulência do fascismo financeiro reside no seu potencial de destruição, na sua capacidade para lançar no abismo da exclusão países pobres inteiros.

Escrevia isto a pensar nos países do chamado Terceiro Mundo. Não podia imaginar que o fosse recuperar a pensar em países da União Européia


05/05/2010

Da série FHC-Serra: ser neoliberal é "nunca pedir perdão" (Veríssimo)

Emir Sader

As campanhas eleitorais estão cada vez mais desvinculadas dos governos que se fazem, caso eleitos. Uma se orienta pelas preferências do eleitor, pelas necessidades de captar seus votos. A outra, pelos interesses reais do bloco de forças em que se apóia o candidato.

Carlos Menem, na Argentina, e Carlos Andrés Perez, na Venezuela, prometiam grandes “choques produtivos” para recuperar as economias combalidas dos seus países. Nem bem triunfaram, anunciaram duríssimos pacotes de ajuste fiscal, revelando os verdadeiros interesses que se escondiam detrás das suas candidaturas. As demagogias dos dois os levaram ao fracasso e à prisão.

FHC anunciava que chegaria ao Brasil o Renascimento que, segundo ele, representava a globalização. Bastava controlar a inflação e estabilizar a moeda. Para isso bastava “apenas”, “virar a página do getulismo no Brasil”, substituir o desenvolvimento pelo ajuste fiscal, diminuir o tamanho do Estado, dando lugar ao mercado. Sabe-se no que deu. Nunca foi retomado o desenvolvimento econômico, o país quebrou duas vezes e duas vezes o FHC-Malan foram, de joelhos, pedir novos empréstimos ao FMI e assinaram as respectivas Cartas de Intenções, jogando o Brasil numa profunda e extensa recessão, de que só saiu no governo Lula.

Aumentaram as desigualdades e a pobreza no país, o patrimônio publico foi doado a grandes empresas privadas, o Estado foi sucateado – com especial ênfase na educação e na saúde –, o país virou uma combinação de Bolsa de Valores e shopping-center, com o governo FHC-Serra governando para uma minoria, da elite branca do centro-sul, somados aos caciques nordestinos.

Foram rejeitados, rechaçados, derrotados. FHC saiu com baixíssimo índice de apoio, Serra foi fragorosamente derrotado por Lula, quando tentava esconder seus vínculos com o governo FHC, sem sucesso, ao defender “um continuísmo sem continuidade” (sic).

Nunca se arrependeram de nada – como consignou Veríssimo -, como atitude típica de neoliberais. Nem poderiam, porque continuam a representar o mesmo bloco de forças que se beneficiaram brutalmente das privatizações e de tantas outras benesses que FHC-Serra lhes brindaram e que financiam agora, de novo, a candidatura do-ex presidente da UNE, ex-prefeito de São Paulo, ex-governador de São Paulo – todos cargos abandonados por ele, por covardia no primeiro caso, por ambição de disputar outros cargos, nos outros.

Ou FHC-Serra se arrependeram de tentar privatizar a Petrobrás, mudando o nome da empresa, para um nome “global”? Ou se arrependeram de ter jogado a maioria dos trabalhadores brasileiros na precariedade, expropriando-lhes as carteiras de trabalho, com FHC declarando que o país tinham milhões de “inimpregáveis”? De terem promovido um brutal processo de privatizações – rejeitado maciçamente pela opinião publica, como as pesquisas de opinião atestam – e de abertura acelerada e irresponsável da economia, levando à intensificação da desnacionalização da economia e da quebra de grande quantidade de empresas, com a correspondente perda de empregos?

Se arrependeram de ter tentado levar o Brasil a promover uma Área de Livre Comércio das Américas, que teria levado o Brasil e todo o continente à penosa e falimentar situação do México hoje, com FHC votando a favor da proposta norteamericana na reunião realizada em 2001 no Canadá? Se arrependeram de ter elevado a taxa de juros a 45% em janeiro de 1999, numa tentativa desesperada de segurar capitais em fuga, elevando ao mesmo tempo a esse nível as taxas de pagamento das próprias dividas do Estado brasileiro, que multiplicaram essas dívidas por 11 no final do governo FHC-Serra, depois de FHC ter dito que “O Estado brasileiro gasta muito e gasta mal”?

Se arrependeram de ter posto em prática uma política totalmente subserviente aos EUA e ter levado a uma eventual liquidação do Mercosul (este que Serra chama agora de “farsa”)? Se arrependeram FHC-Serra de terem reprimido e criminalizado os movimentos sociais, em especial o MST? Se arrependeram de FHC ter chamado os brasileiros de “preguiçosos”? Se arrependeram de ter mudado a Constituição, com votos comprados, em pleno mandato de FHC, para ter um segundo mandato?

Se arrependeram de ter apoiado o golpe militar de Fujimori no Peru? Se arrependeram de ter destinado, fraudulentamente, recursos do governo para salvar os bancos Marka e Fonte Cindam, pelo qual funcionários do Banco Central do governo foram condenados? Se arrependeram de ter jogado o Brasil numa profunda e prolongada recessão, de ter desnacionalizado a economia, de ter promovido a hegemonia do capital financeiro no país?

Passaram-se os anos e nunca manifestaram arrependimento. O que confirma que foram, são e continuarão a ser neoliberais e repetirão essas doses cavalares de recessão, privatização, desemprego e miséria que aplicaram durante oito anos, dispondo de maioria absoluta no Congresso e de apoio unânime na mídia privada e no empresariado nacional e internacional – como veremos no artigo seguinte.

Friday, April 30, 2010

O COLOSSAL MAURÍCIO EINHORN HOJE NA SCM















Maurício Einhorn, um dos maiores gaitistas do mundo, toca hoje na Sala Cecília Meirelles, Lapa, RJ, às 20 horas, com ingressos a R$ 10,00, gravando seu novo CD!


CONCERTO INSTRUMENTAL DE HARMÔNICA DE BOCA E GRAVAÇÃO DE CD

Sex 30 abr SCM 20h

Maurício Einhorn - harmônica
Charles da Costa - violão
Paulão - violão de 7 cordas
Alessandro Cardozo - cavaquinho
Luis Louchard - baixolão
Rodrigo Jesús - percussão
Alberto Chimelli e Dario Galante - piano e keyboard
Luis Alves, Sergio Barroso e Augusto Mattoso - baixo
João Cortez, Paulo Braga e Rafael Barata - bateria
Nelson Ayres - piano
Roberto Sion - sax alto e flauta

Programa

Ternura (Lyrio Panicali e Amaral Gurgel), Pedacinho do Céu (Waldir Azevedo), Meu sonho é você (Altamiro Carrilho e Átila Nunes), Autumn in New York (Wladimir Dukelsky), Pela madrugada, Tempos que não posso esquecer (Chimelli e Einhorn), I concentrate on you, Night and day (Cole Porter)

Wednesday, April 28, 2010

TROUXA É A MÃE!


Passa Páscoa, passa feriado e as viúvas do fascismo de 1964 derramam-se na mídia em prol da máfia peéssidebista (leia-se UDN, Arena, PDS, PFL e DEMO). A velha postura de defesa da "família", do "medo" (eles têm medo de política progressista, mas não sentem absolutamente nada quando os morros do Bumba desabam ou quando veem alguém mexer no lixo em busca de um jantar). Uma gentinha que sente saudades da "ordem" (leia-se tortura) daqueles tempos, mas que hoje em dia não vacila em sonegar um impostinho de renda ou surrupiar o troco dado a mais por engano num caixa de supermercado. Pensam que todo mundo é trouxa, só porque o Brasil ainda tem uma grande parte da sua população mal-escolarizada - e, com isso, caem num erro crasso: a informação é uma coisa, a inteligência é outra. Gentinha ultrapassada que sonha com generais no poder e que, se coragem tivesse, imporia proibições à liberdade de opinião, expressão e sexualidade (com exceção dos padres pedófilos...), tudo preferencialmente numa sociedade sem pobres por perto (todos devidamente removidos e jogados em grotões distantes, tudo em "nome de Deus", tal como se fazia na Reforma, ou mesmo hoje, quando o "destino" queima o Camelódromo da Central). Falam de corrupção, mas aplaudiram as "obras monumentais" da ditadura, cujos lucros estão muito bem aplicados em bancos norte-americanos. Defendem pena de morte, já que seus parentes têm dinheiro, mesmo que roubado, e não passaram pela decadência social que os levariam às penitenciárias. Falam de Lula com a boca suja, gosmenta ainda pelos gritos de saudação à República de Collor, verdadeira ode do banditismo político brasileiro, talvez só superado por Adhemar de Barros e Paulo Maluf - talvez. Foram os mesmos que vibraram quando o Estado dos Generais estuprava, torturava e matava pessoas cujos "crimes" estavam em lutar por uma pátria livre.

Em suma, uma gentinha hipócrita que se julga superior aos outros mas tem tanta mobilidade de cultura, leitura e pensamento crítico quanto um elefante preso numa gaiola. Em geral, gostam de se esconder, se esgueirar, evitando usar o próprio nome para o cometimento de verdadeiros crimes de lesa-pátria, que não sabem ter cometido porque, claro, são extremamente ignorantes - embora tenham a marca da prepotência ostentatória de "garbo" intelectual, da sisudez e da racionalidade que, na verdade, é oca por conta dos cupins. Nestas horas, vê-se a pior face de um Brasil de muitas qualidades, mas um defeito gravíssimo: a megalomania neofascista de uma (felizmente) pequena parte da população votante, disposta a tudo para fazer valer seus direitos individuais acima de qualquer coisa - traduzindo, foda-se os outros. Como tempero, um sorriso alvar para simular um verdadeiro porta-estandarte da estupidez. Leem a cartilha de parajornalistas como D. Mainardi, S. Castanhede, M. Pereira e outros asseclas - com isso, acreditam ser as potências intelectuais da nação. Muitas vezes, utilizam os parcos textos destes parajornalistas como verdadeira Enciclopédia Barsa.

Há instantes, muito me irritou mais uma conduta fascistóide do PSDB (leia-se Arena, UDN, PFL, DEMO, é tudo a mesma porcaria), respaldada por seus pares, em termos da campanha eleitoral deste ano, que deve ser marcada pelo estilo "rolo compressor" (a velha direita não aguenta mais uma década sem ter o poder máximo nas mãos; São Paulo não é suficiente). Antes disso, como todo mundo sabe, a Rede Globo de Televisão precisou "retirar do ar" a propaganda explícita que fazia do candidato José Serra, através da comemoração do "aniversário de 45 anos" (PSDB = 45). O mesmo jeito nojento de usurpar, subtrair, malversar e distorcer a realidade, tão bem-engendrado como nos anos de tortura.

As denúncias contra o jeito mussoliniano de fazer o que eles entendem por "política" foram extremamente bem-feitas pelo Deputado Brizola Neto, que faz pleno jus ao brilhante nome que carrega. Aos amigos que se interessarem pela causa, eis os links:

http://www.tijolaco.com/?p=13364

http://www.tijolaco.com/?p=13326

No mais, para os neofascistas que pensam que todo mundo é trouxa, um simples lembrete:

TROUXA É A MÃE!


Paulo-Roberto Andel, 28/04/2010

Monday, April 19, 2010

SOBRE O GRANDE CAMPEÃO












Digam o que disserem, morda-se a “imprensa oficial”. O Botafogo é o grande campeão.

O futebol é fascinante como esporte e espetáculo justamente por supostas surpresas que possa proporcionar. Falo da suposição porque quando há um campeonato no Rio de Janeiro, não pode ser surpresa que o Botafogo o vença, assim como o Vasco, o meu amado Fluminense e o time da Gávea. Trata-se de uma disputa centenária, com ao menos quatro grandes forças, não apenas uma como a esmagadora maioria da imprensa esportiva local tenta impor diariamente em sua comunicação.

Ninguém pode tratar o Botafogo como um pedinte.

Nunca.

Quem acompanha futebol sabe muito bem que, quando os clássicos acontecem, por mais que um pontual favoritismo possa ser cogitado, no campo isso não conta. Botinudos podem virar heróis, craques podem sumir do jogo, desconhecidos podem se consagrar. Mais do que tudo, as camisas se digladiam incessantemente pelo gol e pela vitória.

O Botafogo perdeu para o Vasco no primeiro turno por seis a zero. Foi uma derrota horrível, sem dúvida, mas o campeonato permitia uma reação. Lembro do “Kaiser”, o grande craque alemão Franz Beckembauer, quando trabalhou como treinador do Bayern de Munich e, ao enfrentar o Real Madrid num amistoso, perdeu por oito ou nove a um; indagado sobre o desastre, limitou-se a dizer que, diante da hecatombe, era melhor ter perdido aquela, por mais doloroso que fosse, do que perder nove partidas por um a zero, o que geraria uma crise no time e a sua inevitável demissão. Beckembauer, símbolo de talento no futebol e dos poucos humanos a ser campeão do mundo por uma seleção como jogador, capitão e, posteriormente, treinador. O exemplo valeu esplendidamente para Joel Santana: depois de sua chegada, o Botafogo venceu dignamente a Guanabara e só voltou a perder no campeonato quando podia, justamente para o meu amado Fluminense, para depois impor-lhe uma grande virada nas semifinais do returno, vencido ontem com tanta justiça e mérito pelos de General Severiano – e quem vira um jogo contra nós num momento decisivo sabe que o título é mais do que uma promessa. Mais do tudo, esse título mostra a todos que o Rio não tem só um time; relembra que, em anos anteriores, o Botafogo foi até melhor nas finais, mas tropeçou na amarga disputa de pênaltis – e o triunfo praticamente se consolidou ontem justamente num pênalti, cobrado pelo badalado Adriano e muito bem-defendido pelo goleiro Jefferson que, a meu ver, é hoje o melhor goleiro em atuação no país: sóbrio, tranqüilo, sem poses para câmeras ou declarações estrambóticas. Antes disso, a força platina de Herrera e Loco Abreu já tinha sinalizado o retrato em branco e preto que iria tomar as ruas da cidade.

Nas últimas décadas, conta-se nos dedos os times do Rio que conseguiram a façanha de liquidar a competição antes de uma final contra algum rival, ao vencerem os turnos disputados num mesmo ano. O Botafogo fez isso ontem e, portanto, é o merecido campeão. Falem o que quiserem, chorem os maiorais.

Como Tricolor, estou acostumado a títulos e triunfos, ao contrário do que a imprensa insiste em falsear, mesmo que os últimos anos não me tenham sido tão favoráveis. Mas a minha história está escrita, desimportando as falácias e fantasias de bicampeonatos num mesmo ano ou hexa sem penta. Nesta hora, a de ontem, foi bom invejar o Botafogo. Ressalto que a nós, das Laranjeiras, só cabe uma inveja que tenda ao positivo: a inveja de estar no lugar do grande campeão, que mereceu a conquista e que, tal como nós estamos acostumados a viver em nossa arquibancada, também não conta com as loas dos jornalistas.

Não há mais Garrincha nem Nilton Santos nem Didi em campo. Nem para o Botafogo, nem para nenhum outro time. São deuses que fazem parte do Olimpo da Bola. Isso, no entanto, não quer dizer que não se possa ganhar novos títulos, desafiar novos paradigmas ou contestar definições. Aí está o Botafogo que não nos deixa mentir. Aí está o grande campeão e isso é um fato. Às favas com o deboche de considerá-lo fraco; não nos cabe a cegueira da burrice teimosa e nem da idiotice da objetividade, como nos ensinou Mestre Nelson Rodrigues. Quem vence a Gávea com a autoridade de dois jogos decisivos e, antes, tira o Fluminense do páreo, merece o certame.

Todos os parabéns aos alvinegros. Poucos times no mundo saberiam superar uma goleada estrondosa com tamanha galhardia e superação, descritas nos números da competição. A resposta colossal foi o título, mais do que merecido e capaz de devastar até impérios.

A estrela solitária continua com multidões a seu lado. Sempre será assim. Sempre, nunca menos do que sempre.


Paulo-Roberto Andel, 19/04/2010

Tuesday, April 13, 2010

É SÓ UM OUTONO LÁ FORA















É só um outono lá fora. Talvez. Muitos choram seus mortos, outros subvertem a verdade e alguns cogitam encenar o raso teatro do meu-mundo-sou-eu-mesmo-e-ponto. A temperatura, nem quente de fazer suar, nem fria de agasalhar, segue seu destino entre uma e outra nuvem. Nenhuma ameaça visual iminente da tragédia de uma semana atrás, quando minha principal preocupação era evitar o molhar da roupa, depois de sair da sessão de fisioterapia. As autoridades garantem que tudo está sob controle, mas sabemos que esta verdade não tem cor. É só um outono lá fora, parecendo ter mãos vazias, mas insinuando a alguém que dias melhores estão por nascer. É só um outono lá fora, que precede um grande feriado e, com este, a inevitável promessa de morte sacramentada nas estradas rodoviárias. Dor e calmaria convivendo na mesma sala de espera. Um carnaval sem barulho, exceto nos gritos das torcidas no Maracanã, se jogo houver lá. Os bares serão mais bares e não faltará quem precise afogar as mágoas com drogas legalizadas ou mesmo as “proibidas”. Na televisão, faremos galhofas de nós mesmos: nossas idéias mal-concebidas; nosso preconceito escancarado que, por vezes, aflora; nossa eterna dúvida em relação aos nossos semelhantes, que talvez não sejam tão semelhantes assim, mas que nos fazem insistir que a nossa semelhança é superior à deles – pode ser a diferença também. Dinheiro, ah, dinheiro: faltante nos bolsos, abundante nas vitrines; fundamental para diminuir as mazelas do mundo, até que um míope mental pergunte quem vai pagar a conta, sem saber que o que se faz para o bem comum não tem preço. É só um outono lá fora, e o cinza se confunde com o azul. É só um outono lá fora e a mansidão parece algo tão distante. Risos precisam ser mais risos. Pobres precisam ser mais gente aos olhos neoliberais. Gente precisa ter mais apreço à gente. Quem me dera deixássemos de lado a eterna busca pela juventude, pela beleza, pelo corpo perfeito que não passa de falácia para se vender produtos – é que a perfeição não existe e, em busca dela, sacrificamos nossas próprias vidas em vão. É só um outono lá fora e desejo que vivamos com menos belicismo, menos hipocrisia, menos indiferença. Uma tardinha que se avizinha e as horas a se contar para nova fisioterapia. Longe daqui, os flamboyants ditam as regras. Um cinema me fará bem quando a noite vier, ou um som de jazz ou uma canção que heróis africanos entoam com rigor. É só um outono lá fora, e leio que Manoel de Barros nos brinda novamente aos noventa e três anos, assim como Carlito Azevedo nos brindou com seu Monodrama no verão que se foi. Os poetas insistem; não são fáceis de derrotar, não são acostumados ao licor da inércia. Os poetas fazem seus versos e, com eles, ajudam o mundo a ficar menos poluído do racionalismo oco dos articulistas políticos, ainda mais quando estes articulistas se diziam homens de teatro e cinema – em suma, falsos poetas. Há um outono lá fora, e ele se faz poema de versos livres, com certo toque de melancolia pelos mortos sofridos que temos chorado nesta cidade. Outro toque também lhe cabe: o de certa elegância, cujos mares freqüentei, mas sou ignorante o suficiente para não saber explicar. Há um outono lá fora, e isso me basta.


Paulo-Roberto Andel, 13/04/2010

Thursday, April 08, 2010

ÍDOLOS DE BARRO


















Dia desses, recebi de uma querida amiga um texto reproduzido em blogs, daqueles tradicionalmente encharcados com as eternas besteiradas, repetidas de forma papagaiante, sobre as “ameaças de democracia no Brasil” promovidas pelo Governo Lula. O texto, supostamente assinado por um ator, desancava o governo e trazia termos pessoais que, uma vez comprovada a autoria, permitem claro ajuizamento. Forma papagaiante é um neologismo que propõe a repetição incessante de ditos sem que necessariamente tenha que se raciocinar a respeito, tal como fazem as simpaticíssimas aves. Por favor, não tomem isso como uma crítica à PPB (população papagaial brasileira).

Há uma confusão enorme no Brasil de hoje sobre a questão política. Confusão misturada à má-fe, ignorância e um sentimento agudo de ambição neofascista como se viu no banditismo do golpe de 1964. Tentam construir ídolos de barro, frágeis, “bons administradores” que não se sustentam diante de críticas ao “Estado Mínimo”, o “Neoliberalismo” e o porque de terem conseguido resultados nacionais pífios ao fim de sua gestão, já que eram os responsáveis pelo reordenamento do Brasil. Falam em democracia, mas governam São Paulo há vinte anos.

Primeiro, as velhas “viúvas da ditadura” a preconizarem uma ameaça comunista que não existe. Depois, a total cegueira em não se admitir que, nas realizações, o Governo Lula é o único que permitiu mobilidade social às camadas mais sofridas da população desde os planos de João Goulart, que naufragaram com tanques, mortes e os piores atos de desumanidade. Terceiro, a estúpida adesão que os descontentes com Lula tomam ao aderirem ao PSDB, que representa a escória política do Brasil, o sub-PDS, o almoxarivado da Arena, a clara representação do “alto” capitalismo que pretende se sustentar com aplicações e não geração de empregos. Qualquer assalariado, pequeno empresário ou detentor de baixa remuneração que empunhe esta bandeira só pode fazê-lo por completa ignorância histórico-sócio-política do país onde vive. Ao fazerem isso, as “viúvas” não somente desfilam seu raso conhecimento das cousas, mas também agem com “raciocínio” análogo àqueles que, não muito tempo atrás, viam as milícias como uma boa solução contra os traficantes. Ou seja, o sujo querendo criticar o mal-lavado, se mal-lavado fosse. Como “solução” para o “atraso” do Brasil (????) e a “enorme corrupção” (?????) pretendem simplesmente reabilitar o partido que entregou lucrativas empresas como a Vale do Rio Doce a troco de banana, que “modernizou” as telecomunicações às custas das maiores taxas de telefonia do mundo e que mudou as regras eleitorais durante seu próprio governo, permitindo que um presidente se reelegesse com um mandato em curso. Quando aconteceu fato parecido em Honduras, defenderam a deposição de Zelaya. Lá, ao contrário daqui, havia regularidade de plebiscitos. Pode haver algo mais hipócrita ou acéfalo? Sim. “Estabilidade” da economia com seiscentos mil empregos em oito anos, numa país com cento e setenta milhões de habitantes.

Embora o jogo eleitoral esteja apenas começando, há indícios fortes que os neofascistas estão condenados ao fracasso: a todo momento, nos jornais prostituídos e nos blogs tendenciosos, a falácia contra a ditadura mostra-se mofada e encardida. Com toda a humildade e limitação educacional que ainda tem, o grosso da população não é tolo e percebe claramente que não se pode confiar nos anseios democráticos de quem olha somente para o próprio umbigo, o próprio bairro e o próprio bolso.

O golpe final acontecerá quando Ciro Gomes, sábio dissidente da máfia empresarial travestida de partido, manifestar-se na campanha.

Hoje, o Rio passa por um luto profundo. Milhares de desempregados, morte, dor, caos. Nada disso interessa para as “viúvas”: danem-se os pobres. Querem o poder, mesmo que sejam apenas meros bonecos nas mãos do capital especulativo que, brevemente, os descartará. O “paraíba” que preside o país, para eles, deveria era estar sob os escombros da tragédia carioca-fluminense. Muitos orgulham-se de seus diplomas, muitas vezes conseguido porque papai e mamãe tinha posses e lhes abriram caminhos facilitadores. Outros, em total caos mental, suspiram pelos tempos de “ordem” do golpe militar: decerto, não pensariam o mesmo se tivessem tido uma mãe, irmã ou namorada estuprada nos quartéis. Mais outros acreditam mesmo serem intelectualmente superiores aos demais, e aí é que escorregam numa casca de banana rumo a um monumental espatifar com a bunda no chão – ainda tontos e machucados, mesmo assim não voltam à realidade: vivem um sonho de perversidade, maligno e deturpado que, felizmente, não há de prosperar. A miséria, uma pena, ainda persiste; contudo, a ditadura já morreu e, se não pudemos enterrar nossos dignos militantes contra o nazismo no Brasil, estes mesmos que vociferam e sonham com a volta dos dias de chumbo só podem, na melhor hipótese, esperar do limiar da vida o aroma do ocaso.


Paulo-Roberto Andel, 08/04/2010