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Tuesday, September 08, 2009

FERIADO



Trata-se de um feriado.

Um esticadão.

A sexta que vai até segunda, num só pacote, ainda que eu tenha de trabalhar “unplugged” no período.

Muitos dizem que nós, brasileiros (com relativa ênfase a cariocas e soteropolitanos), gostamos por demais de um feriado – a maioria dos críticos, na verdade, tem suprema ânsia de cooptar o Posto Nove, a erva-doce e a maresia somente para si. São uns egoistões. Melhor dizendo, uns bobalhões. Permitam-me os superlativos mal-empregados.

Depois de um mês com a coluna em abalo sísmico – o que significa dor até para respirar -, há indícios de que voltei. Sim, eu e o tricolor do Morumbi estamos de volta. Não digo o mesmo do meu amado Fluminense; enquanto isso, ainda rolam os dados. Uma semana de muito trabalhão, o que significa dizer a travessia de quilômetros pela cidade-luz do Brasil, em busca de reuniões nem sempre infrutíferas. Agüentei um blazer arábico no primeiro dia; camisão no segundo. Tênis? Claro. Não desgrudo de minha mania rebelde.

A noite de quinta tinha sido um ufa! Não consegui encontrar Alessandra no meio da Miami carioca: Barra da Tijuca, com suas towers, deliveries, offs e uma só estátua da... Liberdade (entre as grades do condomínio, ou do corredor do prédio). Meu mano Raul. Raras vezes um chope bléqui da Brahma caiu tão bem, a ponto de afugentar a conhecida cafonice do shopping-center. Mais tarde, um delicioso hamburger King. Nestas horas, o império da liberdade americano serve para alguma coisa, e só. Queríamos falar de mil coisas em duas ou três horas, se muito. Assunto não faltava. O que nos atordoava – e continua – era o Fluminense. Sim: a imprensa quer matar o Fluminense, quer usá-lo como mártir para a ressurreição do futebol brasileiro nas mãos do Bispo Ricardo Teixeira. Amém. Não sei a conta corrente para depósito. O abraço de sempre, o tempo escasso de sempre, a solidão do táxi por ruas lindas do Rio, hoje esvaziadas por medo de comboios, fuzis, bombas e outros artefatos de, digamos, “diálogo”. Cidade Maravilhosa!

Sexta-feira era para dar um tempo. O trabalho mais calmo, não fosse ainda a danada da coluna. Cairia bem um chope gelado na beirola do mar. Lanchinho em casa, uma ou outra Skol. O Bola não aparece, por conta de seu realismo fantástico. Taty não me liga e sinto falta. Leo trabalha. Doria some. Bom ver os cadernos de cultura dos jornais: show e filme bom é que não faltam. São Paulo também: fosse uns trezentos quilômetros mais perto, já valeria a visita para navegar nas músicas e nas artes. Gosto de ver os discos novos e os velhos. Há quem ache loucura em tempos de internéti, dáumlôdi: basta baixar a música preferida. Reitero: quem manja de música e literatura sabe que não é bem assim. Sentar-se para devorar um livro, assim como abrir um cedê é um ritual; é mais do que somente o ler ou ouvir.

Sábado com certo sol. Manhã de certa pachorra. A fome pede massas, muitas massas, talvez um pouco. O velho Vulcão da Evaristo da Veiga. Simpático o último dos garçons remanescentes de 1989, quando estive lá pela primeira vez. Boa gente, sempre me cumprimenta e serve bem. Diz para eu não esquecer daquele lá de cima. Juro que tento, mas o céu azul só faz com que eu procure meus pais, o Xuru, o Fred – e tudo com um azedo sabor de fracasso marcial. À frente, uma moça bonita, com voluptuosidades a saber. Na diagonal, duas amigas gordinhas e lindas, do curso preparatório que funciona ao lado. Ficam à minha frente na hora do caixa. São Tricolores: descobri pelos chinelos de uma e do toque de celular da outra. Não digo nada. Por quê?

Poderia ter assistido “Coração Vagabundo”, apoteótico documentário sobre recente turnê de Caetano Veloso, na maravilha do Cine Glória, pertinho. Contudo, gosto de desafios. Pegar o metrô até Vicente de Carvalho, adentrar o Cinemark e faturar “Confissões de uma garota de programa”, com a belíssima (porém, magrinha) pornostar Sasha Grey. Taty me faz falta de novo, mais ainda. Dura a vida. Para conseguir chegar cronometrado, a saída teria que ser feita em um minuto da estação Cinelândia. Deu certo. É Opportrans – leia-se Daniel Dantas. Preciso rir.

Bom o filme. Não era o que eu esperava, ainda mais de Soderbergh. Boa diversão. Em algum momento, me dei conta que não ia ao Cinemark de lá há sete anos. Na última, com um amor que se foi, vi a refilmagem de “Onze homens e um segredo”, na sala sete, George Clooney e tal. Adivinhem qual era a sala de “Confissões”? Sete. Não havia me tocado antes, mas o diretor também era Soderbergh. O que mais me parece sensato? Antes só do que mal-acompanhado. Alguns amores são ótimos de recordar; outros, melhores ainda quando estão banidos de nós.

Há uma lenda lendária que afirma sobre as fracas vendas de discos de rock na zona norte. Bom, hoje em dia as vendas são fracas em qualquer lugar da terra. Menos mal: Dire Straits, “Love over gold” a cinco mangos. James Taylor eu já tinha. Hoje de voltar. Adeus, Vicente de Carvalho; adeus, rua Caroen. Que tal comprar com desconto um bom ingresso para o sensacional show de Itiberê Zwarg, o líder da Orquestra Família e baixo alucinante de ninguém menos do que Hermeto Pascoal? Vambora. Teatro da Caixa na avenida Chile. Meu feriado que começou sexta não descansa.

Rápida espiadinha no jogo do Vasco. Eles vão voltar. E nós não vamos cair.

Sete da noite, que show! Que show. Uma garotada da pesada, só craques. Como pode, ainda se ouve música de altíssima qualidade no centro do Rio a cinco reais! Quem quiser aprender sobre a estupenda qualidade da (boa) música brasileira, precisa ouvir e ver a Itiberê Orquestra Família. Pelas tabelas, um bom Hermeto e seu discípulo Carlos Malta, dos maiores do mundo. E pensar que isso era apenas a preliminar...

Saio em êxtase do Nelson Rodrigues. Encaro o silêncio da avenida Chile. As luzes, as grandes torres do capital. A imponência verde-amarela da Petrobrás.

Dez minutos de caminhada, e lá vem o Brasil subindo a ladeira, atropelando os argentinos com a sutileza de um aríete à porta.

E o domingo, agora que o final de semana já foi bem vivido? Pernas para o ar, Maracanã com os amigos pela frente. Não importa a pontuação, a crise, a tragédia. É uma procissão. Empatamos. Droga! Vai melhorar. Pelo menos vejo Marô e Raul. E Tiba.

E a segunda? Dez cedês para ouvir, um calor do cão lá fora. A Taty longe. O Leo trabalha. O Bola mergulhado no berço esplêndido de seu realismo fantástico. Dória fora. Três poemas esperando feitura.

Comida. Bebida. Nudez respeitosa.

Descansar para compensar a maratona desde quinta.

Contar nos dedos as horas que faltam para o futuro. Procuramos independência.

Amanhã tem cálculos e cálculos desde as oito da manhã. Fisioterapia.

A vida segue. É normal.

E gosto disso.



Paulo-Roberto Andel, 08/09/2009

Friday, July 31, 2009

NOITES CARIOCAS














Cabe-me o pensar. As cousas, as gentes.

É uma noite fria, o inverno do Rio que já tinha se tornado incomum, mas que, pelas surpresas da natureza, reapareceu.

Antes, eu gostava mais da chuva, do frio; quando me dei conta de quanta gente sofria por conta disso, abdiquei. Calor arábico não é meu forte, mas me sinto mal em saber dos que padecem – e perecem – nas ruas por falta de roupa, comida e condições minimamente humanas. Certa vez, li em algum jornal vulgar que a preocupação com os outros poderia ser até motivo de cuidado psicológico. Não tenho dúvidas: foi uma das coisas mais idiotas que li em toda a minha vida, talvez só superada pelo bizarro pseudo-mundo literário de Diogo Mainardi, o ex-parajornalista agora alçado a profissional pelas mudanças da lei.

O frio da rua Senador Dantas, e não sei se volto para casa ou se parto para Botafogo. Um garoto descalço, de poucos anos, adolescente, surge à frente. Parece o irmão que não tenho. Não me pede dinheiro, mas que compre para ele uma comida no bar. Lá vamos nós. Merece também uma coca-cola. É o que tenho: dez reais. Ele parece estar diante de um ET; a segunda vez que isso me acontece neste ano. Natural: num planeta onde pessoas quase pisam em mendigos nas calçadas, quando um transeunte oferece dez mangos, pode ser a salvação do dia. Ali, me basto em minha quase incompetência; não posso salvar a vida do garoto, transformá-la para sempre. Não passo de um trabalhador mergulhado na falácia mentirosa do mundo livre, onde o capital promove justiça. Justiça? Garoto de olhos arregalados é para se ler como agradecimento. Sigo em frente. A vida eu não salvei, mas com dez pratas, um belo bife-com-arroz-feijão-e-batata frita mais a suculenta bebida de origem norte-americana, é um bom paliativo.

Lojas Americanas do Passeio Público. Uma cena linda. Uma vez a cada ano, a indústria do entretenimento deixa de lado sua convencional burrice e reedita clássicos, sejam devedês ou cedes. A arte é necessária à vida. Gene Kelly canta seu clássico eterno, “Singing in the rain”. Paro para ver o magistral telão em LCD. Para minha grata surpresa, várias outras pessoas também. O que é bom, prevalece – mesmo que à distância. As pessoas notam Kelly dançando e admiram. Dizer que só gostamos de fânqui e pagódi é mentira da grossa. Imposição.

Táxi a vagar pelo Aterro. Parece um excelente videoclip do Ed Motta. Tudo é tão moderno e, ao mesmo tempo, passado. Vejo o Aterro, a beleza dos prédios cinquentistas, a beleza do preto do céu invadindo o Pão de Açúcar. Nas grandes coberturas, requinte e sofisticação. No chão do jardim monumental, pobreza e dor. Estranha a vida do carioca atento; fitar por todo lado e esbarrar na elegância manchada pelo descaso. Os pobres do Flamengo, os pobres da Praia de Botafogo.

Bonita a Urca como sempre. Bonita e silenciosa. O charme do que parece desconhecido, biscoito fino para poucos. As pessoas estão recolhidas, é o frio. Na Praia Vermelha, basicamente alguns soldados a serviço, mais um ou outro casal corajoso. Continuo tão acompanhado quanto nos tempos em que solidão era necessidade. Mereço uma água de côco, mas não há banheiro por perto. Na cidade, as pessoas não têm direito ao alívio da bexiga sem que paguem por isso, excetuando-se raros casos. Já tomei o Angipress e o Enalapril. Fica para a próxima. Churros cairiam bem. Até hoje não descobri a origem exata: Argentina, Uruguai ou algum outro Mercosur. Seja de onde for, muito gostoso.

O telefone celular toca. Não conheço o número. Não atendo desconhecidos. Aliás, atendo cada vez menos gente. O natural cansaço por tanta ingratidão, desrespeito, falta de consideração. Grandes grupos são para poucos. A sociedade confundiu tudo: amigos não são apenas os que se sentam à mesa de bar ou dividem garotas de aluguel para uma suruba. Ou ainda os que mandam mensagens eletrônicas a cada seis ou doze meses. Amizade é muito mais do que isso. Nada mais mentiroso do que dizer do amigo que é amigo de verdade, que pode ficar longe sempre e continuará amigo. Falácia para justificar omissão e descaso, novamente. Chega de hipocrisia. Sou um velho.

Boteco da Praia, no Flamengo. O caldo verde é delicioso. A carne, também. Estranho que um bar tão qualificado quase sempre esteja com baixa lotação – o que considero ótimo, individualmente falando. Noutra mesa, uma ruiva de arrasar discute com o namorado pelo telefone móvel. Não deixo de notar, com respeito e certa admiração. É que meu amor não dorme, meu amor não sonha e não se fala mais de amor em Gotham City. Um jantar quase silencioso, podemos assim dizer.

Um novo táxi à frente. Não é Leo. Mais uma surpresa: uma motorista. Gosto disso. Abro a porta traseira e cumpro meu papel de cavalheiro com garbo. Voltar a Copacabana, descer a Atlântica em retorno, o Aterro outra vez, o Passeio, a Lapa.

Meu amor não sonha. As pessoas estão recolhidas. A dor do próximo é desimportante. Nossa pátria-mãe gentil é conduzida pela livre iniciativa.

O elevador vermelho, a porta que precisa de reforma.

Ligo a televisão.

Um efeminado âncora da televisão noturna vocifera contra Lula, a quem acusa de proteger José Sarney, o ex-número um, que tem mais de cinqüenta anos de vida pública.

Tornei-me um velho. Não tenho tempo para falácias.


Paulo-Roberto Andel, 31/07/2009