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Thursday, September 29, 2022

três historietas

ABÍLIO: FÉ NA LOTO 

Onde foi parar o meu amigo Abílio? Ele era um dos caras mais legais e educados que conheci na vida. Estudamos juntos no Pedro Álvares Cabral em Copacabana, 1983 e 1984, turno da noite. Se eu não estiver enganado, ele trabalhava como almoxarife na Construção Civil. Era irmão da Soninha, que era linda demais. 

O que mais lembro dele é que me remete a um modelo de cidadão carioca que parece ter chegado à extinção: o sujeito que pode até não saber teu nome, mas te cumprimenta com simpatia mesmo que você passe do outro lado da rua. O homem gentil, que por isso mesmo colhe gentileza e bons sentimentos. 

Naquele tempo nem existia a Mega Sena. Era só a Loto, que hoje é chamada de quina. Volta e meia o Abílio tinha uns volantes à mão, ora anotando, ora dando um pulo na loteria antes da aula. Várias vezes eu o cumprimentava com os jogos e ele dizia "É, Paulinho, fé na loto!". Certamente apostei mais por causa dele. 

Nem sempre consegui, mas fiz tudo para imitar o Abílio no trato com as pessoas. Sua educação e gentileza eram supremas. Não nos vemos há quase 40 anos, mas nunca me esqueci dele. Continuo jogando, apostando, tentando. Já ganhei vários prêmios pequenos. Agora mesmo a Mega Sena acumulou em 300 milhões e estou organizando um bolão com amigos, aí me vem à mente aquela sentença inesquecível: fé na loto. 

Na turma da noite, eu era dos mais novos, entrei com 14 anos, era uma criança. Alguns alunos mais velhos ou desprezavam ou caçoavam dos mais jovens - e não é à toa que eu tenho tantos colegas mais jovens. O Abílio não: ele tratava todo mundo bem. Emanava simplicidade. Quarenta anos depois, ele ainda é uma referência para mim. Fé na loto, é o que resta.

[Com 300 milhões eu mudo a vida de muita gente, muita 


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PAMPEIRO, RUA TONELERO, 1990

(repost 2019)

Em algum momento perto de onze da noite, a fome apertava depois que terminávamos o campeonato de botão. Então fazíamos a vaquinha - não era crowdfunding - e dois de nós geralmente eram os responsáveis por descer a Siqueira Campos até a Barata Ribeiro para fazer a compra do lanche nas Casas da Banha. Geralmente pão e frios. Depois da volta, montávamos os sanduíches, mais coca-cola e a festa estava pronta. Quase todo dia, toda noite sempre. 

Num dos quartos, uma poderosa guitarra não parava de tocar riffs. O outro, só usávamos para ver TV à noite ou eventualmente algum jogo. A mesa de botão ficava armada na sala. 

Ríamos, ríamos muito. Muitas vezes o Xuru chegava de ressaca e deitava no sofá, sem condições de jogar. Ao ser perturbado com cosquinhas e cutucões, imediatamente ria e disparava vários palavrões. 

Eram tempos do Hollywood Rock, de Terence Trent D'arby, de Bob Dylan finalmente no Brasil, de Marina encantando os corações cariocas, da apoteose dos Paralamas e da Legião Urbana. No carnaval, espiávamos os bailes até a madrugada. Tinha também Documento Especial. Não, o país não era bom, mas no fim dos anos 1980 a gente era muito jovem, tinha esperança, sonhava com o futuro, a faculdade, o emprego. A Holanda de Gullit e Van Basten, o Brasil incrivelmente derrotado pela Argentina na jogadaça de Maradona que Caniggia finalizou - o Xuru falou muitos palavrões. 

Quando havia mais tempo e gente, jogávamos War. Tinha sobremesa de bolo de chocolate com sorvete de creme. Às vezes o Dória vinha de pijamas do quinto andar.

Somando tudo, não convivemos lá por mais de quatro anos, mas pareceu uma vida inteira. Na verdade, foi. Trinta anos depois, aquele tempo parece mais saboroso: era uma escola de convivência de grandes jovens camaradas, que nunca mais se repetiu.


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COOLIO

Em fins dos anos 1990, a minha curiosidade musical aumentava cada vez mais. Você ouvia muitas coisas legais na MTV. Eu virei habituê da Livraria Berinjela, onde rolavam sons espetaculares: música de Cuba, progressivos italianos, o underground carioca etc. E os novos nomes da cena black norte americana. Um dos primeiros foi Coolio. Ele era divertido, tinha estilo. Atitude. 

Coolio foi trilha sonora de várias viagens que fiz naquele tempo, muitas com Bola a Itatiaia. Levávamos quilos de CDs e ficávamos ouvindo o dia inteiro - era divertido. Sem maconha, sem álcool, só o som. Ríamos. Eram viagens quase que exclusivamente musicais. 

O tempo passou, as coisas ficaram para trás e, nos sons, foi o caso de Coolio. Tudo guardado em local de carinho. Até que chegou esta noite e a notícia de sua morte. Tinha 59 anos, era novo demais. Muito antes da hora.




Sunday, September 25, 2022

um poema sujo...

UM POEMA SUJO A UMA SEMANA DO FIM DO FIM DO MUNDO

Falta uma semana para acabar o fim do mundo e isso me traz algum alívio, pequeno diante de tantas dores e tanta gente falsa, hipócrita, covarde e desumana. Por isso sinto dores e não durmo, e quando desmaio de sono posso ter sonhos loucos como o de ontem, quando tentava tirar minha mãe das montanhas da URSS em plena tempestade, trocando de aeroportos como se fossem baldeações  - é tudo verdade. Minha pobre e amada mãe, morta há quinze anos, parece viva demais em meu sonho confuso. Falta uma semana para acabar o fim do mundo, mas a minha cidade está destroçada, humilhada, caída no meio-fio e será preciso um trabalho descomunal para ressuscitá-la: todo santo dia ela é cheia de pessoas famintas chorando nas ruas, sem casa, nem comida nem futuro. Será preciso reconstruir tudo, excerto para a confortável e acomodada burguesia que, de seus apartamentos esnobes, ou finge solidariedade ou estampa a bandeira da escrotidão repugnante. Minha cidade respira por aparelhos, e é cheia de lojas fechadas, apartamentos e salas vazias, tão apavorantes que nem o fantasma de meu querido pai, um fanático pelo Centro onde cresceu e viveu, dará as caras - e continuarei sozinho porque esse é o destino de todos nós, mesmo que finjamos o contrário - a profunda solidão do ser humano, que nasce e morre sozinho, que chora sozinho nos muitos dias tristes e procura um improvável espírito da paz. 

Falta uma semana para acabar o fim do mundo e na TV Bob Dylan está cantando alto para espantar os escroques e traidores das pátrias, o que ele tem feito ao longo de décadas - ao mesmo passo que FDPS daqui desprezam heróis da cultura como Gil e Chico. Bob Dylan é também um trovador solitário - desde o dia em que leu Jack Kerouac, saiu de casa e nunca mais voltou - vejam, ele ganhou o mundo, ficou milionário, tem fama mundial e prêmios inquestionáveis mas nem isso o libertou da solidão. 

Uma única semana para que voltemos aos leves tempos do golpe parlamentar, com as cidades recheadas de quadrilhas violentas e sedentas de crânios esfacelados, e por incrível que pareça este cenário de horror é bem menos pior do que tudo que temos vivido - nós, os mortais, que ganham moedas e sofrem risco de demissão, despejo e miséria, tudo certamente desprezado por nossos falsos amigos que fazem cara de paisagem, porque o ser humano é realmente assim: oportunista, egoísta e pilantra, salvo honrosas exceções. 

O céu pode esperar, já o inferno é aqui, doloroso, desumano, mas ainda assim temos o que comemorar: falta uma semana para nos livrarmos do fim do mundo, do cheiro do ralo, do esgoto podre que advém do ideário de gente má, perversa e que comemora a dor alheia. Por isso, nosso inferno será menos infernal do que antes. Ainda há muito o que sofrer, mas existe uma luz no fim do túnel e devemos persegui-la. O ódio é a estupidez, ele não é parte natural do nosso corpo - devemos eliminá-lo. Se conseguirmos olhar para o lado e ajudar minimamente o próximo em lágrimas, seremos menos inúteis do que lacradores ou estúpidos fiscais de redes sociais, ansiosos não pelo progresso mas pela opressão covarde, pela humilhação barata do outro - os mesmos que discursam pelo moralismo são os mais escroques, e não estão nem aí para os milhares e milhares de cariocas desesperados, carregando balas de açúcar para vender enquanto não encontram a dor das balas perdidas. 

O certo é que falta uma semana para se festejar o fim do fim do mundo. Ainda virá uma longa e tortuosa estrada pela frente, mas a sensação de se eliminar a máquina de ódio que sequestrou o Brasil é um alento. Não será fácil remover a falsidade e a hipocrisia, porque elas estão consagradas, mas se for possível ter dias menos coléricos, será um alívio imediato. É o que precisamos, na verdade vocês, porque eu já estou morto há muito tempo e, por aqui, apenas cumpro a insuportável pena de lidar diariamente com a indiferença humana. Mas pouco me importa: eu não preciso ser feliz para ser um bom fantasma em carne e osso. O que me move é a minúscula probabilidade de luz no fim do túnel. O que me basta é que, daqui a uma semana, mesmo ferido de tanta morte, eu possa dizer: "Como eu festejei o fim do fim do mundo".

#otraspalabras

#andelbooks

Wednesday, September 21, 2022

palavras outras palavras

Palavras exigem prudência. Prudência.

Favor não confundir com medo. 

Prudência é sempre uma qualidade. O medo, nem sempre. 

Palavras exigem cuidado. Apreço. 

Quem as profere embebidas em fel e cólera tende a depois passar vergonha pelo que disse ou escreveu, claro, se vergonha tiver ou, no mínimo, apreço pela própria imagem.

Palavras são coisa séria quando há gente decente em campo. Merecem ser respeitadas. As pessoas também, em sua maioria. 

Pobre daquele que pensa dominar as palavras apenas com estudo formal. A linguagem popular, além de muito rica, costuma carregar sinceridade e precisão. Duas ou três palavras mal colocadas e o arrogante erudito vira um pateta, um bocó desprezado por todos aqueles que considera inferiores no jogo da palavra. A erudição vira verborragia oca. 

Quantas vezes um pretenso polemista não passa de um anônimo em busca da fama, sem horizontes mais profundos? Não lhe importa a estrada pelas melhores palavras e ideias, o caminho da fraternidade, mas apenas os holofotes de brilho efêmero na plumagem de um pavão. 

As palavras merecem andar de mãos dadas com o carinho e o apreço. Quando saem disso, se o motivo não for deveras justo, podem acabar levando o orador ao seu pior habitat: o da mediocridade.


Sunday, September 11, 2022

Xuru, Russunes, Russ

Parece incrível, mas meu amigo Xuru (Russ, Russunes, Russinho da Atlântica e outros codinomes) completa 17 anos de sua morte hoje. Às vezes, nossa turma de Copacabana fala no WhatsApp como se ele estivesse apenas dando um tempo e vá reaparecer. Não há semana em que não falamos das situações engraçadíssimas que sempre o cercaram. 

Éramos seus colegas, três mais velhos e três mais novos, juntados pelo jogo de botão. Gomão era o "pai" do Raul, Xuru o da Cler e eu do Luiz. Hoje essa configuração está diferente, mas seguimos rindo no WhatsApp, é o que resta. 

Nem sempre é justo falar quem é o melhor amigo, até porque isso muda e nem sempre pra melhor, mas o que eu posso dizer é que o Xuru foi a única pessoa que jamais deixou de me estender a mão na hora da barra pesada e, se ele estiver em algum lugar, deve pensar que a recíproca foi verdadeira. Foi mesmo. Um tirou o outro de cada roubada... Jamais nos omitimos. Sabe aquela coisa de "depois eu te ligo" e a ligação nunca viria? Com a gente isso não existia. 

Ele chamava minha mãe de mãe e só eu vi o que ela sentiu quando soube de sua morte. Eles brincavam no telefone de um passar trote para o outro, telefone fixo, imagina? Ela fingia que era uma ficante grávida e ligava pra ele exigindo o reconhecimento. Resposta: "Rãrãrãrã, você é a décima. Mãe, seu trote não engana ninguém". E riam, riam. 

Fomos em um monte de acampamentos, jogamos muito futebol, muito botão e fomos muitas vezes ao Maracanã, desde os tempos em que chegávamos mais cedo porque tinha um tal de Romário que jogava muito. Engraçado que saímos pouco à noite: ele era da pá virada, eu não. Contudo, isso não nos impediu de beber chopes gloriosos e viver situações engraçadíssimas. 

Fiz um livro sobre ele. Não gostei do resultado final. Parecia triste, nada a ver com um sujeito que vivia rindo. Tive bom senso e joguei fora, depois farei outro bem melhor. 

Quando passamos no vestibular, ele caiu comigo na UERJ, mas com chances de reclassificação na UFRJ. Ficou torcendo para ir: achava que, se ficássemos na mesma universidade, os dois se ferrariam. Ok, tinha razão, mas ele foi pro Fundão e ficou na sacanagem do mesmo jeito. Menos mal que trouxe Pepsi pra gente. 

São muitas e muitas lembranças, mas uma definitiva se deu quando fomos barrados no prédio do apartamento de seus padrinhos, que ele frequentava desde criança. O casal havia morrido há pouco tempo e ele fez um réveillon de arromba por lá. Parentes (que nunca tinham dado sinal de vida) mandaram trocar a fechadura da porta. Olhando pro prédio serenamente, ele disse:

"Quer saber? PhodaC esse apartamento. A única importância disso aí era ter meus padrinhos, e eles não estão mais aí. RAT! Vamos tomar um chope!"

Demos meia volta, fomos para o galeto da Domingos Ferreira e deixamos uns quatro milhões de reais para trás. 

[RAT é uma corruptela que inventamos para o desabafo "ratomanoku". Deve ser pronunciada bem alta, com forte sotaque nordestino. 

Então, falar do meu amigo Xuru é falar do Maracanã, de São Januário que ele tanto amava, de botões Brianezi, da UFRJ, do seu famoso carro apelidado de "travecomóvel", do CAP, do Bernardão, do cheiro da pizza do Caravelle, de Vale do Sol, Serra dos Órgãos, dos escoteiros, do antológico Bar Sniff's (ele é personagem do livro), de Arraial do Cabo, do M Ninn, do Pedro, do ex-Coruja, de uma fila de mulheres, de golaços na quadra do Corpo de Bombeiros na Xavier da Silveira (hoje um estacionamento), de gatas alucinantes da UERJ num torneio de pingue-pongue, do professor Serra Costa, da Sorveteria Bolonha, do Bonino's, da Pepsi, do Sasso, do jogo de War com cartas marcadas, do PCB, da casa do Henrique no Flamengo, do show do A-ha, do James Taylor, da Cássia Eller e de noites quase desertas na Praia de Copacabana, onde bastava uma bola razoavelmente cheia e uma trave livre para nos sentirmos imortais.

Nossa última conversa foi três dias antes de sua morte. Eu ia pra uma rápida viagem maluca, ele não queria que eu fosse, eu prometi que voltaria para vermos o jogo de domingo juntos, ele sorriu. Sabia que não daria, mas não me disse nada. Ingenuamente, eu não percebi que era a despedida - pra mim, aquilo ia durar uns dois ou três anos, não três dias. Quando voltei, ele já estava morto. Percebi na estrada, quando comecei a telefonar para os amigos e ninguém atendia: não queriam me dizer. 

Não podia esquecer: nos dois anos finais do Russo, Zé Capixaba foi muito sinistro no apoio. Respeito eterno. 

Depois do enterro, numa segunda-feira à tarde, fomos almoçar no Cosmopolita. Foi a última vez que estive no tradicional restaurante, hoje desaparecido.

Dezessete anos depois, não há como negar: meu amigo deixou uma lacuna irrecuperável. Irrecuperável. 

@pauloandel 

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#comentecomeducação

Tuesday, September 06, 2022

monstro urbano

Eu sou o monstro urbano, e por isso sou fagocitado por mim mesmo noite e dia, misturando a canção imortalizada por Frank Sinatra ao cheiro de ruas tristes que exala das grandes metrópoles. 

Ninguém abre os braços para me oferecer afago, a revolução continuará não sendo televisionada porque o grande capital não tem interesse em exibir a voz das ruas. 

Eu sou o monstro urbano e minha carne adveio da indiferença alheia. O meu sangue tem os coliformes fecais dos valões das favelas; a minha pele é tatuada pelos estilhaços das balas cruéis; os meus olhos são tristes e tortos de tanto ver a miséria subindo morros, balançando em trens e se arrastando no chão das marquises. 

Eu sou o monstro urbano inerte diante de Soraia, uma jovem e linda menina fuzilada com um tiro na cabeça por causa de um iPhone. Eu sou o monstro urbano nocauteado quando debocham de Marielle, Anderson, Amarildo, dos cinco meninos do Chapadão, do sargento Robert, do soldado e dos batalhões de anônimos tendo suas vidas ceifadas por bosta. 

Eu sou o monstro urbano que se atira dentro de latões de lixo para ter o que comer; sou o monstro urbano tão ameaçador para os ETs quando penduro minhas balas de açúcar no retrovisor do motorista. Monstro, monstro, monstro urbano com minha pele negra, meu cabelo duro, minha cara de paraíba e o nojo que os xenófobos sentem de mim. 

Eu moro numa cidade sem Comissário Gordon, sem Homem-Morcego, sem Menino Prodígio e sem a Mulher-Gato; por isso, Jards Macalé não há de me redimir. 

Eu sou o monstro urbano doidaço de crack debaixo de um plástico da Avenida Brasil. Eu sou o monstro urbano abominável que desce a Automóvel Clube em direção ao Morro do Juramento. Eu sou a selva de pedra e, disfarçado, ando pela Avenida Rio Branco, perto da Livraria Berinjela e do prédio que o BTG tarrou da Caixa, até chegar à Leiteria Mineira, pedir um misto quente com chocolate gelado, observando a rapidez dos garçons e um grupo de advogados reacionários gritando por uma intervenção militar, enquanto espero por Carlito Azevedo e Rubens Figueiredo. 

Sim, eu sou o monstro urbano parido na Baía, indigno das pedras pisadas no cais da Praça XV, mas também poderia ser o horror nas famílias sofridas e abandonadas no Largo do Paissandu quando aconteceu aquele incêndio devastador, calcinando vidas humílimas.

"Os trechos dos livros que ainda não foram escritos", Paulo-Roberto Andel, Vilarejo Metaeditora, 2018, página 35

Saturday, August 06, 2022

agosto copacabana - short cuts

A esquina da Siqueira com Tonelero é sempre tumultuada. Com o metrô, ficou mais acentuada. Tudo bem. Na estação, tem uma loja que só vende ovos de galinha. Nada pode ser mais Copacabana.

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Cinco e quinze da tarde, chego à porta do shopping, vejo o fliperama que já não existe, nem o Bradesco. Por um instante, me vem à tona uma cena muito triste em 1993: uma família em situação de rua à calçada, o pai tinha uma perna amputada, ficava numa cadeira de rodas e usava uma sonda. O homem não tem direito de esquecer das cenas de guerra. 

Dez passos adiante, o antiquário continua no mesmo lugar, mas não há o menor vestígio de Patrícia porque agora ela é uma empresária de sucesso no Leblon, acho. 

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L.O. Matta. Compro bons discos para revenda. Posso ficar até 18:20 e depois pegar um táxi para o Caravelle, mas tudo é rápido demais e, por isso, antes das seis tudo já acabou. 

Os blocos continuam iguaizinhos. É insuportável ver o Sniff's fechado. 

Meia hora antes, melhor uma caminhada pelas únicas ruas do mundo onde verdadeiramente me sinto em casa. 

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Na esquina da Figueiredo com Tonelero fica o Solar. Jogamos muitos campeonatos de botão ali, rimos, fomos efemeramente felizes e tudo acabou. Ou não. Ficam as memórias. Elas sempre vão nos perseguir. 

Botão acalma a alma. Já comemorei gols no botão que jamais se igualaram aos do Maracanã. Só entende quem vive isso. 

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Parece incrível não ter a Academia Gracie, nem a Kayat Esportes nem o Sumol na esquina. Certos estabelecimentos deveriam ser eternos, mas aí está o capitalismo para arrasar tudo. 

Já na Barata Ribeiro, eu ia comprar um chaveiro do Fluminense na loja, mas estava muito cheia. Tudo bem. 

E o CIB? Está tão diferente com a fachada azul. O vizinho, Costinha, nunca mais. A Modern Sound virou o Supermarketing. A Billboard está fechada para sempre. 

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A Santa Clara tem movimento. Onde foi parar a loja de esportes? Lá atrás tinha a Suprema, com pasteizinhos alucinantes. Senhor! 

Ok, os tempos mudam, mas será que o destino do Cirandinha era virar um hortifruti? Nem estou falando dos rococós da Casa Barbosa Freitas ou da Sloper. 

[O Metro Copacabana tinha um ar condicionado de arrepiar, literalmente 

Quando você entra na Domingos Ferreira, logo vem a arrumada e ordeira portaria do Edifício Master. Tudo está bem, o documentário foi maravilhoso, mas quem veio dos anos 1980 lembra do balacobaco. A gente tinha medo da gangue, agora tem medo das grades e do silêncio.

Antes, esqueci o nome da loja de esportes que durou muito tempo na esquina de DF com Santa Clara. O letreiro era vermelho, com fonte vintage. Por ali rolava a Tele Rio Times Square, ou era perto da Figueiredo? Ninguém liga. 

Prédio do Sesc Copa, sem movimento. 

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Durante muito tempo, o prédio da esquina com a Constante ficou abandonado. No térreo, a lanchonete Top Top (será que o nome veio da canção?). Agora é uma espécie de apart hotel para a terceira idade. Eu tinha medo do prédio abandonado, com o portão acorrentado e um vigia. A Top Top tinha um excelente misto quente. 

[Meu joelho dói. Sofro calado. Muitas vezes calado. 

De cada lado da rua, a Domingos Ferreira é bem servida por dois excelentes galetos com balcão francês, conforme mandava o figurino. Também tem a filial do Caravelle, que tinha outro nome, mas a gente só se liga no original. 

Há tempos não paro ali. Preciso voltar. 

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Passo pela Barão de Ipanema e finalmente chego à quadra tão familiar, que frequentei de 1984 a 2005. 

Por um instante, eu queria ter dez anos de idade em 1979, para que minha mãe me puxasse pela mão e fôssemos lanchar no Bob's. Nós éramos felizes, mesmo com todas as dificuldades, e ainda ficaríamos em Copacabana até 1993. Uma senhora experiência. Sempre demos muito valor aos lanches, era um luxo para nós. 

Por um instante eu queria passar do Caravelle, interfonar para o Xuru descer e ele reclamar, porque não aguenta mais o cheiro da melhor pizza do mundo invadindo sua casa. 

Mãe, nunca mais. Xuru, também não. Mais do que mãe e amigo, taí duas pessoas que nunca me deixaram na mão. 

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Entro no Caravelle e me sinto em 1985, mesmo que as dores, a tristeza, as dívidas e as pressões digam o contrário. Peço uma Coca-Cola gelada, garrafa de vidro 290 ml, e espero por meus amigos. Nós nos conhecemos na casa de um deles, ainda criança, e nossa amizade se firmou em campeonatos de botão quase diários. De lá para cá, todos crescemos, vivemos, morremos um pouco e agora usamos o WhatsApp para nos sentirmos pós-adolescentes, com velhas brincadeiras ridículas que ajudam a disfarçar a realidade da vida e a marcha atlética do tempo, que sempre vence. 

Em cinco minutos, Raul chega e, por qualquer motivo, começamos a rir. Melhor assim: risos são a melhor morfina. 

Mais dez minutos e cinco jovens senhores respeitáveis pedem pizza, chopes e, pelas próximas horas, vão celebrar muitos dos melhores momentos de suas vidas. 

Não há mais nenhum dos grandes garçons do passado no Caravelle. 

O Bob's faleceu. 

A vida escorre. 

@pauloandel

Sunday, July 24, 2022

Janjão

Há muitos anos, mais de vinte, eu saía do trabalho a pé para casa e Seu Janjão me cumprimentava com um oi, um aceno de mão ou algo simples. Ele morava com a família num sobrado a metros do meu prédio, e lá ficava com sua cadeira na porta. Praticamente de segunda a sexta, todas as semanas, todos os meses em fins dos anos 1990. Nunca falamos nada além dos cumprimentos, mas eu achava legal que um vizinho me reconhecesse e se preocupasse em dar um oi. Parecia coisa boa das cidades do interior. Ele me lembrava o Seu Madruga, ahaha.

Era uma época difícil: meu pai parou de andar, o mundo desabou mais uma vez e lá estava eu sob os escombros. Amigos deram as costas, a injustiça era a sina. Ia e voltava do trabalho para casa. Tudo era racionado para que pudéssemos sobreviver (nada diferente de agora, exceto por não ter mais família). A internet estava começando e ainda viria muito ódio pelo caminho. 

Muitas e muitas vezes eu vinha pelo caminho amargurado, triste, mas perto da portaria o Seu Janjão acenava e eu me sentia melhor. Eram dias em que as pessoas basicamente só falavam comigo por motivo de trabalho. Pelo menos eu tinha a MTV para me distrair. Dureza. 

Em algum feriado em casa ou folga repentina, alguém bateu à porta numa tarde de sol. Não esperava ninguém, achei estranho, fui espiar. Era um garoto, pedindo colaborações para o velório do Seu Janjão, que morrera de manhã. Fiquei paralisado. Peguei a carteira, dei o que tinha, o rapaz agradeceu e foi batendo em outros apartamentos. Passei o resto da tarde pensando naquele senhor educado, que nunca soube meu nome mas fazia questão de me cumprimentar. Aquilo me entristeceu profundamente.  

Dias depois, voltei à rotina de trabalho. Vinha da Rua do Senado, pegava o último trecho da Mem de Sá e logo o começo da Rua de Santana. Perto de casa, nenhum aceno ou oi. Não havia um cumprimento. Perdi para sempre o amigo que se preocupava comigo, mesmo que sequer tenhamos sido amigos de ofício, claro. O que importava era a generosidade, o apreço, o velho sentimento de fraternidade. 

@p.r.andel

Saturday, June 18, 2022

Paul McCartney 80

Há pouco mais de 30 anos, 32 precisamente, Paul McCartney parou o Rio de Janeiro com dois grandes shows no Maracanã. Os Beatles já tinham encerrado seus trabalhos há duas décadas, mas Paul se mantinha como a grande representação ativa do grupo - o que se mantém. E o então maior estádio do mundo ficou abarrotado, alternando momentos de coro e festa com outros que pareciam de uma procissão silenciosa: dezenas de milhares de pessoas hipnotizadas com "Something" e "The fool on the hill". 

Desde então, a caravana não para. Paul McCartney completa 80 anos neste sábado. Continuou fazendo muitas turnês de sucesso mundial e, semana passada, realizou shows com sets que chegaram a três horas de duração. Ele é, de maneira individual, um vetor de eterna juventude tal qual seus contemporâneos dos Rolling Stones - a banda, mesmo tendo perdido o baterista Charlie Watts, segue firme em seu propósito de tocar bem até o fim, e Paul não fica atrás. 

Meio século depois do fim dos Beatles, não há como Paul McCartney deixar de executar os clássicos da maior banda de rock de todos os tempos, mas nunca é demais lembrar: sua carreira de frontman é muito, mas muito maior do que a de um eventual cover de si mesmo. Paul lançou dezenas de hits solo que, uma vez reunidos, dão tranquilamente um show inteiro sem as composições dos Beatles, mesmo que isso seja impensável, isso quando não faz álbuns inteiros de grande impacto, caso de "McCartney III", lançado em 2020 e testemunho pleno da vitalidade do artista. Para quem tiver dúvidas disso, é só procurar no YouTube o batidão funk no meio de "Coming up", a força juvenil de "Jet" e os coros de "My brave face". Não importa que não sejam pérolas como as do quarteto de Liverpool: elas têm seus próprios poderes. 

É sempre difícil prever o futuro, ainda mais quando a vida está mais perto do fim do que do começo, mas uma coisa é certa: a julgar pelo momento atual, meio século depois dos Beatles, Paul McCartney ainda tem muito a fazer, dizer e tocar. Sua aposentadoria hoje é simplesmente impensável e não há como duvidar de que se mantenha em plena atividade por vários anos, esbanjando energia e até constrangendo talentos com metade de sua idade ou menos, tamanha a sua disposição física. A longa e larga estrada parece interminável, o que nos oferece a doce ilusão da imortalidade. Vivamos, pois, para saboreá-la. 

Viva Paul McCartney! Viva os Beatles! A caravana não para. 

@pauloandel

Monday, May 30, 2022

Eles não sabem nada de Copacabana

Domingo à noite, perto das nove, nove e pouca, deixo a casa de Katia na Barata Ribeiro e peço um Uber na portaria do prédio. Enquanto o carro não vem, espio a calçada onde tricolores e flamenguistas vêm e vão, voltando do Maracanã ou dos bares. É o futebol, nosso ópio admirável que faz apaixonar. 

A um minuto do embarque, o motorista cancela a corrida. Já na rua, com mais gente do que eu esperava, resolvi não pedir outro carro imediatamente e, mais do que isso, andar sobre os paralelepípedos da minha infância por alguns instantes. 

Metros adiante, o Edifício Richard, número 194, um respeitável condomínio que ganhou muitas manchetes no passado, quando era simplesmente o 200. Era um microcosmo do bairro, ou melhor, ainda é. Detestado pela burguesia barroca, admirado pelo underground, teatro do submundo, hoje casa de grandes intelectuais, escritores, professores e também de algum pecadinho, porque ninguém é perfeito. 

Desde o golpe de 2016, Copacabana ganhou uma estranha pecha, a de capital do nazifascismo tupiniquim, tudo porque os amantes da terra plana e do milicianismo político resolveram fazer suas passeatas na Avenida Atlântica, aos domingos. É certo que muitos simpatizantes da arminha ainda moram por ali, e não se pode descontar apartes históricos de um bairro cheio de elevadores de serviço por toda parte, mas na essência Copacabana nunca foi uma aldeia reacionária. Eles, os que insistem em depreciar a Princesinha do Mar, não sabem absolutamente nada de Copacabana, talvez um dos únicos lugares do mundo onde ricos e pobres ainda compartilham os mesmos espaços públicos. 

Tudo começa pela praia, que possui sua geografia política própria mas incorpora todas as tribos: gatinhas, marombeiros, craques da pelota, bonecas e muita gente que vem da cidade inteira, mas que ao chegar à terra copacabanense age como se fosse local - quantas musas do bairro não iam embora da praia via 434, 474, 415 e outras linhas de ônibus?

Se a população envelheceu e a boemia encolheu, paciência, mas não há como apagar a história de bares e boates memoráveis, dos inferninhos aos templos da bossa nova, chegando até aos botecos sobreviventes - os catedráticos de Copacabana sabem muito bem que o Pavão Azul, antes de se tornar uma potência, era um botequim humílimo mas sempre de iguarias inesquecíveis. Recém-chegado, o Parada de Copa já é um digno herdeiro da tradição do Cervantes. O Sniff's não resistiu depois da pandemia, mas acumulou histórias em meio século no Shopping dos Antiquários - deu até livro. 

Copacabana não é para amadores e calhordas, nem para ressentidos com o bairro mais famoso do Brasil, tão plural que abrigava golpistas e ditadores junto a revolucionários, democratas, estudantes, camelôs, artistas, desocupados e quem mais viesse. Palco plenamente possível da festa de "A rainha diaba", filme protagonizado pelo brilhante Milton Gonçalves, que acaba de nos deixar. 

Os detratores de Copacabana nunca viram o goleiro Renato voando em defesas para o time de praia do Lá Vai Bola, nem Tião Macalé reclamando da arbitragem numa outra partida de areia. Nunca viram o esplendor de Rogéria sendo saudada por populares à rua como verdadeira personalidade do bairro. Nunca souberam de Lina, a moradora de rua que lia o New York Times na calçada com excelente pronúncia. Nunca lancharam hambúrguer com mate na Sorveteria Bolonha, nem pizza no Sumol às duas da manhã, esquina de Barata com Figueiredo. 

Nunca viram os garotos jogando botão debaixo da escada rolante fajuta do shopping, nem Clóvis Bornay cumprimentando a todos gentilmente na porta do Coruja Bar. Não sabem sequer que o Parque Peter Pan tinha uma linda e maravilhosa baleia na entrada, por onde as crianças entravam e se encantavam. E nunca poderiam uma imaginar uma bicha maravilhosa discutindo um Fla x Flu de antigamente com um general aposentado no elevador - isso, até chegar à portaria, onde o funcionário do prédio, vascaíno, se mete no debate esportivo. 

Depois de um pequeno lapso de razão, lembro que preciso ir embora, que amanhã é um novo dia e a segunda-feira não perdoa. Aperto os botões e um carro me levará dentro de três minutos. Eu não moro mais em Copacabana, mas ela não sai de mim. 

@pauloandel

Saturday, May 14, 2022

Cenas do Centro do Rio 2022

Depois de comermos pastéis com laranjada na Chic's da rua dos Andradas - estamos sempre comendo -, resolvemos caminhar até o Largo da Carioca, eu, Vitor S Barros e Jocemar Barros . Não levou mais do que dez minutos. Nos despedimos, eles foram a caminho da Praça XV e eu pensei em fazer minha velha visita ao Santos Dumont para tomar um sundae de morango em meio ao silêncio da praça de alimentação do aeroporto - quem chega ao Rio quer se mandar para casa ou hotel. Então peguei meu VLT favorito e fui. 

Uns vinte metros depois da entrada e você fica inebriado com o som de jazz e bossa nova do conjunto que se apresenta no SDU às sextas, das seis da tarde às oito da noite. Logo você está perto do palco e já conheço quase todos os músicos de vista, com exceção de um que conheço desde sempre: Sérgio Barrozo, contrabaixista com quase 60 anos de carreira, já tocou com os gigantes da música brasileira. Sérgio é nosso Ron Carter, nosso Charles Mingus e deveria ter uma estátua sua em praça pública. Seis ou sete pessoas aplaudem o conjunto. Outras acabam celebrando a apresentação de passagem. 

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Subo uma pequena escada rolante e desisto do sundae. A loja de mate promete sanduíches  da pesada num cartaz promocional. Ao mesmo tempo, dali dá para ouvir o belo som do conjunto lá fora. E por falar em música, carrego quatro CDs comigo: um, raro, de Paulo Lepetit ao lado do saudoso Gigante Brazil, um de Herbie Hancock - The Joni Letters, um tributo a Joni Mitchell, afora outros dois que ainda vou me lembrar. No mais, sigo com meus confortáveis chinelos, meu bermudão azul e reparando no clima tenso que alguns passageiros exibem em seus semblantes de desembarque, loucos para se mandar porque querem ou aproveitar o que o Rio tem de bom, ou escapar da ruindade. 

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Dois sujeitos estão com seus notebooks em ação nas mesas da lanchonete. Aguardo pacientemente pelo atendimento. Quando a moça vem, penso que já são quase sete da noite e ela já deve estar morta de cansada pelo trabalho extenuante. 

Peço o lanche, vou para a mesa de fundo e, quase ao mesmo tempo, os dois clientes se mandam. Meus sais: acabei de lanchar com Jocemar, sou um esfomeado irresponsável. Não, não, longe disso: engordei por excessos mas me cabe o perdão de já ter passado fome algumas vezes na vida, inclusive quando supostos amigos faziam vista grossa para o acontecimento. Vida que segue. Já falei algumas vezes que, no passado e com saúde, fui atleta em treinamento para a São Silvestre - sonhava romper o ano correndo na madrugada urbana de São Paulo. 

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Há anos que ouço falar desse disco de Paulo Lepetit com Gigante Brazil. Finalmente está em minhas mãos. Sou fã de Paulo como músico e facebooker. A Isca de Polícia é um negócio sério demais. Saudade de vê-los em ação. A última vez foi no CCBB. Já Gigante é saudade. 

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O sanduíche é bom, tecnicamente bom, o pão é gostoso mas o recheio deixa a desejar. Sou cliente do Paladino e do Parada de Copa, acostumado a recheios generosos, de matar a fome. 

O mate estava uma porcaria. 

Pelo menos carreguei um pouco o celular. 

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Ao descer, passo novamente pelo palco dos shows de sexta, agora com música ambiente porque é intervalo. 

Numa mesa na lanchonete ou restaurante à esquerda do palco, Sérgio Barrozo traça um sanduíche e parece feliz da vida. Não nos esqueçamos: ele é nosso Mingus, nosso Ron Carter, e merece todas as reverências. 

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A sexta-feira à noite do Aeroporto Santos Dumont é fria e vazia. Sexta-feira, 13 de maio, dia de superstições. E reflexões. 

Uma breve espiada e logo se percebe o quanto precisamos evoluir em termos de inclusão negra por ali. 

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Deveria ter pego um Uber, mas simplesmente esqueci, então logo chego ao VLT e fico apreciando a beleza noturna da região, as árvores, os prédios da Beira-Mar. Troco mensagens com Marina, o Fabiano Soares - que é um tremendo escritor - diz que virá ao sebo na terça.

As curvas do percurso me lembram o Tivoli Park por algum motivo. O trecho do Aeroporto à Cinelândia é imperdível pela bela arquitetura ali reunida. 

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Bem ao lado do acesso do metrô na Santa Luzia tem uma turma comendo churrasquinhos e bebendo cerveja. Jovens mulheres bonitas e seus pares. Por um instante, parece até que a pandemia não nos abateu. 

O Rio é a cidade de cidades misturadas, versou o poeta Fausto Fawcett. Nada parece ser tão preciso para descrever a Cinelândia atual. Do Starbucks na esquina até o Amarelinho, o MC Donald's se salva aberto e cheio. Nas marquises e bancos, muita gente em situação de rua e, na amostra local, a população negra é de 100%. As reflexões sobre 13 de maio são inevitáveis e dolorosas. Somos uma sociedade muito atrasada e desigual. 

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No tempo que me resta, olho para cima e o relógio do Edifício Mesbla me oferece um tom de Gotham City, não apenas a cidade dark de Batman mas também a letra profunda de Macalé e Capinam. 

Perto de mim, pessoas descem delicada mas  apressadamente pelas escadas do metrô. Taxistas caçam passageiros. Os últimos clientes das Lojas Americanas deliciam-se com suas sacolas cheias de promoções. Garotos e jovens perdidos carregam suas caixas de Mentos para vender aos transeuntes, muitos deles sem um níquel sequer. Há um burburinho na entrada do Teatro Riachuelo e, bem em frente, na fila do ônibus 247. A miséria, a indiferença e o consumo dividem o mesmo espaço à rua, como se tudo parecesse normal. 

O leão e o tigre andando lado a lado na mesma calçada, assim disse Jack Kerouac em "Crônicas de Nova York" em alusão a Tom Wolfe. 

@p.r.andel

(continua algum dia)

Thursday, May 12, 2022

o final de um livro breve

 "...e chegava a ser incrível que o senhor J. J. Johnson continuasse tão calmo diante de seu cenário de penúria, pensando que tudo iria dar certo de repente, talvez misturando realidade e delírio, talvez tão chocado que sequer percebesse a gravidade do momento, ou talvez porque não tivesse a menor preocupação com o que pode significar sucesso ou fracasso, ambos menores do que a vida, a sucessão dos dias, o ir e vir de dias e noites que muitas vezes nenhum de nós percebe porque estamos ocupados demais, focados em nossa individualidade e pouco afeitos ao próximo, ao verdadeiro amor, à delicadeza e o entendimento necessário de que a passagem por esta terra não pode nem deve ser um processo egoísta, mesquinho, laureado pela escrotidão. 

Calmo, lúcido, atravessando os dias mesmo com uma bala de revólver apontada para a própria cabeça, o senhor J. J. Johnson é um nobre cidadão e pouco importam suas roupas poídas, sua falência, sua incapacidade de se adaptar ao mundo dos vencedores com ternos de cor neutra, sua aversão ao estilo de vila do mundo corporativo, geralmente desprezível e alheio aos mendigos que sofrem debaixo da fachada de uma grande corporação capitalista. A nobreza não vem das grandes posses e sim da gentileza, da amabilidade e da ética, esse verdadeiro elixir da vida que se esconde em pequenos abrigos e nos livros, nos versos e até nas cenas de um filme qualquer na TV à madrugada, quando a muito jovem Scarlett Johansson contracena com o veterano John Travolta em um ambiente de pobreza, solidão e poesia. 

Em certo momento, o que parece fragilidade em J. J. é, na verdade, um pouco de todos nós. Onde está o que é realmente sucesso ou fracasso? Quem sabe definir exatamente esses conceitos? São números ou vivências? 

Os grandes salões do high society estão cheios de fracassos, as longas noites estão cheias de lágrimas silenciosas e, sem qualquer exagero ou arroubo, são muitas as lápides luxuosas que hospedam o silêncio permanente da empáfia e da arrogância."

Sunday, May 01, 2022

trabalho

o trabalho. eu trabalho há muitos anos. fiz coisas fáceis e difíceis. vi muito desrespeito, assédio moral, humilhação, maldade. muito. algumas das piores pessoas que conheci na vida foi em ditos ambientes de trabalho, ou de projetos, tanto faz. 

em trabalhos voluntários e remunerados, testemunhei uma reação bizarra diversas vezes: num grupo onde alguém se destaca a ponto de melhorar a coletividade, integrantes passam a boicotá-lo justamente para que não ganhe mais espaço. o coletivo sabota em nome do particular. 

a imagem que carrego do trabalho é o moço lavando o chão da pastelaria ao término do expediente, a senhora carregando as bolsas de roupa no trem, o rapaz esmagado no ônibus tentando ouvir música no fone. o moço que traz a comida, o moço que cuida da portaria, a moça que registra a compra, a moça que vem ao balcão. vi tudo isso muitas vezes, em paralelo ao chamado mundo corporativo, onde é comum pessoas grosseiras fingirem educação ou extremamente ignorantes fingirem erudição. 

o mundo só poderia ter dignidade se todos tivessem um trabalho e dele pudessem sobreviver. todo mundo precisa de um trabalho, ter uma casa, uma cama, comida, fogão, rádio, tv. só que isso não existe. no exato momento em que escrevo aqui, cerca de 70 milhões de pessoas são humilhadas no brasil: não têm emprego ou têm ocupações tão precarizadas que arriscam a própria sobrevivência diariamente. 

há 40 anos eu sonhava em ter um trabalho para ajudar meus pais em casa. recebi nãos e humilhações. depois estudei, cresci, trabalhei, trabalhei, fiz coisas demais. escrevi milhares e milhares de páginas, fiz milhares e milhares de contas, viajei milhares de quilômetros de ônibus e avião, participei de centenas de reuniões. mesmo depois de tudo isso, ainda me falta encontrar a dignidade.

Thursday, April 21, 2022

Na Carioca

DEPOIS de bater um misto quente com suco de laranja na Senador Dantas, desci pela escada da Estação Carioca e, num súbito, espiei o quiosque de empadinhas e pão de queijo.

Foi quando lembrei de uma história de anos. Exatamente ali funcionava um outro quiosque, de chope. Eu bebericava e espiava um livro de Kerouac. Foi em plena Copa do Mundo, talvez depois de um jogo do Brasil. A Estação estava cheia de ir e vir, mas no quiosque eu era o único cliente. 

Em certo momento chegou um casal. Quero dizer, um homem e uma mulher que pareciam ter marcado um encontro ali. Num olho eu espiava as loucuras de Kerouac; noutro, o casal ou a dupla. 

A mulher era jovem e muito bonita. Parecia ter olhos claros, cabelos também. O homem parecia mais velho, embora nem tanto. Não era bonito, mas devia ter charme - a jovem não parava de olhá-lo enquanto conversavam. 

Houve uma hora em que ele pegou na mão da moça, mas a mesa fazia a distância regulamentar da idade. E eu feito um boboca, espiando a vida dos outros enquanto Kerouac falava da bondade na Terra e das alucinantes festas beat. Será que eram amantes? Sou um boboca. 

De repente, a conversa ficou escassa. Parecia haver um mal entendido. A mulher ficou séria, calada. O homem falava, falava e também sorvia um chope. Eu, que não sou fofoqueiro mas curioso, pedi mais uma tulipa. 

Ele pediu a conta, pagou e os dois se levantaram. Mais à frente, pararam na mureta da Estação. Ela falou algo, ele a puxou, ficaram abraçados e plaft, pensei: o cara se deu bem, porque a garota era um espetáculo. Beijo, beijo? Não, não teve. Ela foi em direção à catraca eletrônica, ele voltou lentamente a caminho da escada, a mesma que desci só lembrar de tudo isso. Seu charme tinha virado uma impressão triste. 

Até aqui eu poderia parecer apenas um bisbilhoteiro, mas não era o caso e sim apenas um simpatizante daquele casal que não aconteceu. Fui um torcedor do amor, aquele que nasce e morre nas conversas, nos quiosques, nas festas e shows, na velha conversa de portão, em qualquer lugar. Torcer para que terceiros sejam felizes. Nunca mais os verei, mas acho que mereciam trocar um beijo que talvez só tenha existido na minha cabeça.

No palco do amor fracassado, restam empadinhas saborosas. Ninguém desconfia de nada. Só eu sei e isso é engraçado, mas tem tristeza também. 

@pauloandel

Sunday, April 17, 2022

em nome do pai

Hoje meu pai faria 81 anos. Por si só, já seria uma data difícil mas, nos últimos tempos, todos os dias têm sido muito difíceis. Ninguém tem ideia. 

Vivemos quase 40 anos juntos. Houve muita dificuldade mas alegria também. Por diversas razões, dialogamos muito menos do que o devido, mas o saldo foi positivo. 

Minutos antes de morrer, ele me chamou para me devolver uma grana que eu havia emprestado. Era pouca coisa, mas seu último gesto descreve exatamente quem ele foi. Um cara que teve muitas dificuldades, que sofreu paca e, involuntariamente, fez outras pessoas sofrerem, mas que sempre foi de uma dignidade enorme. 

Desde então, tenho tentado fazer coisas boas, praticado o bem (discurso sem ação não passa de falácia) e sobreviver. Espalhei o Andel por vários lugares, na internet, na TV, no rádio, em livrarias e bibliotecas. Certamente li e ouvi mais Andel nos últimos 12 anos do que nos 42 anteriores. Enquanto isso, vi o amor e o ódio, as raras amizades e muita falsidade, a escassa generosidade e os múltiplos jogos de interesses. A praxe do ser humano, enfim. 

Apesar de ser naturalmente o meu sobrenome, quando falam Andel eu penso no meu pai. Quando leio as capas dos livros eu penso no meu pai. Quando falam o sobrenome, a ele ergo o pensamento. Enquanto ainda estiver por aqui, sigo buscando a valorização do Andel, não a mim, mas a meu pai, meu avô que não conheci, a uma longa história que fala de dor, de amor e de coisas simples, mas sinceras demais. 

@pauloandel

Wednesday, April 13, 2022

Altinho, altinha, celebração do futebol

Antigamente era altinho. O pessoal brincava antes de qualquer pelada, em qualquer lugar. O único objetivo era manter a bola no ar, numa espécie de frescobol coletivo – outro esporte solidário, sem vencedor ou vencido.

Na praia, o altinho se consagrou. Às vezes durava mais do que a própria pelada em si. Nos velhos tempos do futebol de praia em Copacabana, enquanto os dois times disputavam a peleja, atrás do gol ficava a turma na disputa de equilibro: a bola era a peteca e não podia cair. Ainda que seja uma prática muito ligada à praia, não é exagero dizer que o altinho fez parte da imensa faculdade de formação de boleiros Brasil afora, aprimorando o domínio de bola dos craques, outrora players.

O tempo passou, as garotas aderiram à prática trazendo ainda mais graça e beleza ao jogo, o altinho virou altinha – que valham as duas formas! – e se tornou patrimônio imaterial do Rio. A disputa oficial agora tem regras e pontuações, mas nada a afasta de seu curso natural, que é a beleza da solidariedade, um jogando pelo outro, cada um tentando um toque mais bonito e a bola no ar, voando alta ou um pouco mais baixa, prendendo todos os olhares ao redor. Talvez a busca por outra beleza, a do futebol que um dia tivemos no Brasil e deixava todo mundo louco de paixão. Talvez seja jazz tocado com os pés na esfera. Se os campinhos foram sendo apagados no Rio, pelo menos ninguém mexe ainda na orla e, com isso, não há dia em que, num passeio pela calçada, não se possa ver um grupo de artistas fazendo arte da própria brincadeira antes do jogo.

Neste 2022 a altinha ganhou até uma bela trilha sonora. “Espelho Solar” traz a parceria entre Rodrigo Lima, Ithamara Koorax e João Cavalcanti, com produção de Arnaldo DeSouteiro. Na letra, há uma linda passagem que captou o espírito da altinha em cheio: “Nosso espelho solar/ Onde põe-se a voar/ Nossa infância outra vez”. Nada pode ser melhor do que a junção entre os tempos de criança e uma bola para, mesmo que por alguns instantes, deixar a opressão do mundo lá fora e revolver a infância. O mundo precisa disso.

Os veteranos dos anos 1950 e 1960 agradecem.


OUÇA "ESPELHO SOLAR", COM RODRIGO LIMA E ITHAMARA KOORAX

Wednesday, March 02, 2022

Rio 457 Rio

A cidade fez aniversário. Na verdade, ela é um país, um pequeno país cheio de contradições, problemas seríssimos, confusões, mas também de uma beleza que remete à expressão cunhada por um dos seus famosos habitantes do passado, Ibrahim Sued: "linda de morrer". Nem mesmo seus inúmeros detratores contestam a beleza, exceto quando não querem ser levados a sério. 

Embora o Rio seja mundialmente conhecido pela sua geografia à beira-mar, a cidade está longe de se resumir a isso. Pense num lugar como a Portuguesa de Olaria - se você não conhece é melhor ir logo - e caminhando por lá você se depara com lindas casas e gentes, sem contar os grandes músicos de chorinho ao vivo no domingo à tarde. Festa boa é festa de subúrbio, com comida, bebida e terraço a valer. A trilha pode ser samba, pode ser funk e pode ser rock, você vai se surpreender. E tome Olaria, Ramos, Madureira, Honório, muita coisa boa mas escondida. E o trinômio Méier + Todos os Santos + Cachambi que se estica até Del Castilho e põe todo mundo para se refrescar no grande shopping? 

O mesmo trem da Central que une a cidade partida e desenha as desigualdades é também uma verdadeira aula de marketing, com os camelôs a plenos pulmões vendendo tudo o que podem - tudo é tudo mesmo. Tem conversa, turma, purrinha e adjacências. A concessionária precisa tratar melhor seus clientes, mas ali você compreende melhor a cidade múltipla. 

Pode ser na Praça da Harmonia também, já perto do Centro, onde o clássico e o novo se encontram da janela do VLT.

Ou numa birosca perto da Praça da Apoteose, do velho Estácio dos bambas, construindo uma história secular desde os tempos de Tia Ciata. 

Pode ser no ir e vir da turba na Carvalho de Souza em Madureira, perto do Viaduto Negrão de Lima - calma, é só o sobrenome! - e, se você der um pulo até Edgard Romero, pode se esbaldar a valer no Mercadão, patrimônio da terra. O Miguelão não existe mais, não se pode vencer todas. 

Outro polinômio faiscante é Maracanã + Vila Isabel + Tijuca + Andaraí + Grajaú. Em certos pedaços, ninguém sabe ao certo que bairro é, mas está garantido um universo de gênios da raça: artistas, intelectuais, personagens botequinescos e próceres locais, num caldo cultural que vai de Noel Rosa a Aldir Blanc e deságua na mais carioca das universidades, a UERJ - que, claro, é do Estado, com suas bibliotecas de frente para o Morro de Mangueira. 

Há muitos Rios num só, e desde sempre a dor e a alegria andaram juntas. Tivemos e temos muitos erros, mas a quantidade de gente boa sempre será maior do que a ruim, o que garante a sobrevivência até em destruições econômicas - como a que vivemos desde 2016 - e a maldita pandemia, que botou nosso sorriso no armário por um bom tempo. Ah, e temos nossos próprios condados, verdadeiros bairros-cidade a gosto do freguês, vide Campo Grande, Bangu, Jacarepaguá e Ilha do Governador. 

"Do Leme ao Pontal não há nada igual", assim cantou um dos nossos maiores símbolos, Tim Maia, com seu vocal inesquecível. "Sem contar Calabouço, Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha". Quer fazer um passeio inesquecível? Pegue um frescão no Santos Dumont em direção à Barra: antes de chegar à lindeza do Atlântico Sul carioca, você vai cortar e olhar uma das maiores criações do homem: o Aterro, com jardins de Burle Marx - calma, é só o sobrenome! A visão da estrada com as árvores, o gramado, e o Pão de Açúcar - este, por conta de Deus - deixa uma visão única na mente de qualquer turista. Em mais de quarenta anos, não conheço um que não tenha dito "Lindo!". 

Quer comer uma sardinha inesquecível? Beco da Sardinha, lá na ponta do Centro. Um sanduíche antológico? Paladino, inaugurado em 1907 e fincado na Marechal Floriano com o pedacinho da Uruguaiana. Batata frita, 1, 2, 3? Marechal Hermes! 

Que cidade do mundo tem o Aterro, o Campo de Santana, a Quinta da Boa Vista e o Parque de Madureira? Já ouviu falar do Parque Guinle? E da Travessa dos Poetas de Calçada? Pegue o trem, cruze a cidade e rememore Candeia, Alvaiade, Paulo, Mano Décio. Turiaçu, você lembra? Sampaio? Bonsucesso com certeza. E Anchieta? 

Permita-me o desafogo. Tirar o nó da garganta. Essa cidade tem coisas demais. Se "só" tivesse Machado de Assis e João do Rio, valeria por um milênio, mas a quantidade de poetas, escritores, artistas plásticos, atores, cineastas e profissionais da arte em geral é tão grande, mas tão grande, que fica impossível listar. Todo o Brasil e boa parte do mundo já passou por aqui ou ficou de vez, juntando-se aos craques locais. O baiano Glauber Rocha é Rio, o baiano Caetano Veloso também. Dorival Caymmi e Gilberto Gil. João Gilberto. O mineiro Ary Barroso. O mineiro Darcy Ribeiro. Percebem como a lista é interminável? 

As garotas do Rio, lindas de morrer como dizia Ibrahim, que esticam suas cangas na areia e alimentam poemas imediatos - elas vêm de todos os bairros. A garota de Ipanema muitas vezes mora na Cruz Vermelha, em Vigário Geral, Guadalupe, Paciência ou Boiúna. São esquadrões e esquadrões. Tem Tatiana, Alessandra, Ana Cláudia, Vanessa, Gabriella, Marina, Juliana, Renata e o resto fica por conta do cartório. 

Esse não é um discurso ufanista, é apenas uma humilde tentativa de falar da vida como ela é. O Rio é cheio de problemas, miséria, violência, fanatismos, mas ele não se resume a isso. A cidade é partida e precisa derrubar o muro, mas há tanta vida lá fora, mesmo que precisemos de máscaras e vacina quádrupla - questão de ciência -, e, por isso, sonhar é preciso. 

Temos coisas demais, todas muito importantes. 

Não deu tempo para falar dos grandes cinemas e teatros que perdemos, dos bares inesquecíveis e das coisas que acabam porque, no fim, tudo passa e precisa mudar. 

A luta é árdua e a cidade precisa se unificar, dando uma banana para os limitadores xiitas, sejam eles quais forem. Realidade possível ou utopia, o Rio de Janeiro merece um lugar no topo do mundo. Cá entre nós, muito cá entre nós: quem fala muito mal ou não conhece a cidade ou carrega aquele apêndice desagradável que, muitas vezes, resumimos: inveja de não poder estar aqui. 

Agora me dá licença que eu vou pegar meu VLT, espiar a Cinelândia, a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes e, se bobear, vou até o Edifício A Noite, primeiro arranha-céu da América Latina. No percurso, dá para lembrar das decorações de carnavais inesquecíveis. 

Copacabana? Ah, meu amigo, eu já escrevi um livro. Esse ano eu lanço.

Um viva à Casa de Portugal: foi de lá, no Rio Comprido, que eu caminhei até aqui. Faz muito tempo. 

@pauloandel

Monday, February 28, 2022

Brincadeira

Por um momento tive saudades de brincar feito criança. Isso não tem nada a ver com imaturidade - muitas vezes ligada a certa postura sisuda - nem com voltar no tempo, nem saudosismo. A vida é uma estrada que devemos atravessar. Tudo tem seu tempo. Ok, mas desconfio que as pessoas capazes de manter a chama da infância no coração têm mais lapsos de felicidade. 

Brincar, brincar, eu brinquei muitas vezes sozinho. Acho que até menos do que deveria. Não que não tivesse colegas, é algo que não sei explicar ao certo, mas brinquei pouco em grupo. Embora seja divertido demais, eu não via botão como brincadeira, era algo muito sério no começo, ficando mais divertido e galhofeiro com o tempo. E o futebol era a mais séria das brincadeiras, na praia, na quadra, no playground e na vila. 

Brinquei muito com carrinhos Matchbox sozinho. Não tive muitos, eram caros nos anos 1970, mas tive. Lembro de uns bonecos pequenos de borracha que eu adorava, o Hulk, o Capitão América, eram muito legais. E as miniaturas de plástico que meus pais compravam nas Lojas Americanas e Brasileiras. 

Uma vez fiquei louco de alegria. Morávamos no alto da rua Santa Clara, num prédio que não existe mais, quando meu pai chegou cedo da loja num sábado e me falou para que eu tomasse banho porque íamos sair. Foi um passeio dos deuses: descer a rua toda até a esquina com Avenida Copacabana, virar à direita e tum: Lojas Brasileiras. Certamente eu ia ganhar algum brinquedo e, de quebra, fazer o melhor lanche daqueles tempos: fatia de pizza de mussarela maravilhosa, que hoje só o BB Coliseu no das Massas tem. Que delícia! Isso tem 47 anos e eu nunca esqueci o gosto. Ainda ganhei um bonequinho do Zorro, pequenininho, devia ter menos de dez centímetros de altura mas era o poderoso Zorro, todo de preto. Uma grande tarde. 

Brincar é criatividade. Noutra ocasião, meu pai chegou em casa e trouxe um pneuzinho para mim. Uma rodinha de borracha que bem lembrava um pneu e só. Como brinquei com aquilo. Girava, dava voltas, inclinava. Talvez me lembrasse uma bola de futebol, minha paixão. Talvez fosse algo diferente, mas eu gostava muito. 

Anos mais tarde, quando já era adolescente, lembro também que já sentia falta de brincar nos tempos em que era escoteiro. Muitas vezes, a ronda noturna ficou comigo. Em meio ao silêncio profundo das noites no campo, às vezes cortado pelos bichos da região ou o vento, tudo sugeria seriedade e uma certa solidão, mesmo com 50 ou 60 jovens dormindo nas barracas ali ao lado. E em todas aquelas noites quase solitárias eu sempre senti falta de ser criança, de estar brincando mesmo sendo ainda muito jovem. É um outro tempo que merece muito carinho. 

Assim sendo, em meio ao Carnaval só para alguns, eu viajo meio século no tempo, recordo aquela rodinha - tanto faz se o brinquedo é cariou baratísssimo -, os velhos botões, aquele cheiro da pizza e minha pequena emoção é mais pela felicidade dos pequenos momentos. Sem pai nem mãe, com a corda no pescoço e num país de mil guerras, meu brinquedo agora é o debate sobre futebol na TV. Há várias guerras, por toda parte, mas o pessoal só se comove com o discurso da metrópole. Deixa estar. 

Vejo os bonequinhos como se estivessem todos ao meu lado. Doce ilusão. 

Lojas Brasileiras? Nunca mais. 

Ah, a rodinha! 


@pauloandel 

Sunday, February 27, 2022

estranho carnaval

UM

Há tempos, as coisas andam fora da ordem. Não que o mundo fosse grande coisa antes da pandemia, mas o ruim piorou bastante. E se o caso é Pindorama, multiplique por quatro ou seis.

De berda em berda, de galho em galho, chegamos a 2022. Há guerra no mundo, nenhuma novidade e nenhuma exclusividade do confronto Rússia versus Ucrânia - nesta semana vários países foram bombardeados mas no Brasil ninguém sabe, a não ser o mais badalado. O resto a gente varre para debaixo do tapete. 

O espetáculo da morte estrangeira na TV é tão grande que os mais distraídos se esquecem das nossas desgraças cotidianas. Afinal, continuam caindo três aviões lotados de covid-19 por dia no Brasil. E a nossa guerra urbana de décadas envolvendo o tráfico, a milícia e a polícia? Tem bomba, fuzil, escopeta e carnificina, mas uma parte da turma finge que nem tá aí. Fazemos cara de paisagem, choramos (justamente) pelos mortos do outro lado do mundo e desprezamos a nossa pilha de cadáveres no morro ao lado. 

Por incrível que pareça é Carnaval. Ou quase, adiado que foi. Foi proibido no Sambódromo, furaram a fila na Zona Sul e a folia comeu solta. Parece que no Porto Maravilha também. Adiamento? Pra norueguês ver. As fotos do Facebook e do Instagram e do Facebook não deixam dúvidas. Infelizmente é a sina: como sociedade, somos bagunçados e indiferentes a tudo. A velha história do homem cordial do pro espaço. 

Nao que eu seja um folião, longe disso, mas é legal ver os desfiles na TV. E para quem mora perto do Sambódromo, faz falta ouvir o foguetório de hora em hora anunciando as novas escolas na avenida. E os bailes de antigamente transmitidos ao vivo? Tudo acabou. 

Por um instante tudo fica para trás no fim da noite de domingo. Na TV Senado toca o excepcional pianista Gilson Peranzetta, acompanhando ninguém menos do que a mitológica cantora Leny Andrade. Dois monstros da música brasileira soando como o bom e velho jazz, capaz de unir a todos. Ok, carnajazz que a gente merece. Quando cantam "Saigon", vira Seleção Brasileira: Paulo Cesar Feital na letra, a lembrança inevitável de Emílio Santiago na voz. Leny Andrade é a maior cantora de jazz do Brasil, Gilson Peranzetta é um dos maiores arranjadores da Terra. 

Num instante a terça-feira desaparece, a quarta-feira de Cinzas não tem cinzas. A vida volta ao novo normal, com toneladas de miséria em cada esquina. Não há empregos nem dinheiro, mas navegar é preciso. Não tem desfile das campeãs, ficou tudo para abril. O que está à frente são as águas de março, românticas e perigosíssimas - mal saímos da tragédia de Petrópolis. O problema é que não memorizamos nada direito, tudo passa rápido demais e vamos esquecendo a cada 15 dias os 15 dias anteriores. 

Sigamos em busca da sobrevivência, torcendo ardorosamente para todo mundo aguentar o rojão até outubro. Entendedores entenderão. 

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DOIS

São seis horas da manhã e nada tenho a ver com a velha e boa canção da Gang 90. Seu criador, o poeta Júlio Barroso, morreu há quase trinta anos. Ele faz falta. 

Não acordei. Na verdade não dormi. Cochilei. Despertei às três e meia, revi a reprise de Leny Andrade, revi Afogados x Náutico e, quando me dei conta, o céu já era alaranjado, prestes a explodir o sol nas vistas sensíveis e tirando de vez a chance de descanso para pessoas feito eu. 

Por vários motivos sou uma das pessoas mais tristes do mundo e pode ser que isso me leve à morte, mas não agora. Meu país me dá muita tristeza, as pessoas boas, as muitas ruins, as falsas, a minha família extinta. Eu sou o último grão de areia de nomes que desapareceram, absolutamente desimportante para mudar as coisas na Terra e lutando por uma sobrevivência que parece inútil. Isso não me impede de trabalhar nem de produzir coisas legais, mas me instiga a uma pergunta permanente: o que é que eu ainda estou fazendo nesse lugar cheio de escrotidão? Não sei. Sinceramente não sei. 

Queria ouvir um disco, mas estou sem aparelho. Ler um livro, mas está me faltando paciência. Queria comer menos, dormir mais, ter alguma diversão. O mais incrível nesse lugar é que sou um privilegiado, mesmo sem dinheiro, casa própria, carro, plano de saúde e direitos trabalhistas, logo eu que, por mais de 20 anos, trabalhei para que muitos profissionais tivessem seus salários devidamente corrigidos. 

Por incrível que pareça, hoje é segunda-feira de um Carnaval pela metade. Era para as pessoas não aglomerarem, mas se elas não ligam para si próprias, o que fariam pelos outros numa hora dessas? 

Na TV está passando um gol da Portuguesa. Eu escrevi o livro do time. Um idiota disse que o livro foi um fracasso, eu entendo que idiotas devem ser desprezados. 

Meu joelho direito está doendo. Estou muito pesado. É um problema de saúde, mas sempre tem uma besta para me chamar de preguiçoso sem saber o que acontece. São esses que votam em milicianos. 

O BRT voltou. O Circo Voador foi interditado. Para quem conseguir, feliz ano novo.







Thursday, February 24, 2022

a tempestade

São quase seis da manhã e a cidade acorda lentamente, com bem menos gente do que de costume - estão quase todos desempregados, muitos não saem do que sobrou de suas casas, há um clima permanente de que está faltando alguma coisa.

Perto de dois anos de pandemia, morrem quase mil pessoas por dia mas a maioria não está nem aí. Naturalizaram o processo de carnificina, o que não é de hoje. Se não ligávamos para os esfomeados, os sem teto e os junkies, por que nos comoveríamos com COVID-19? No fim, o que ficou valendo foi o discurso da besta-fera: "todo mundo vai morrer". Na terra da indiferença, o outro que se dane. É o jeitinho. 

A guerra prevalece do outro lado da Terra, mas quem disse que não a temos bem diante de nossos belos narizes? Ela está por toda parte, e não adianta fingir que não se trata da ganância capitalista. Lembra uma doce canção pop dos anos 1980: "proliferando ódio e destruição". 

Somos cruéis, muito cruéis. Capazes de matarmos uns aos outros por causa do futebol. Na primeira estupidez dita numa live qualquer, despejamos rancores na cara de todos. Em nome da justiça e da moral, humilhamos, ofendemos, agredimos verbalmente e aproveitamos para vomitar nossos recalques nem sempre enrustidos. Nós somos os cavaleiros da verdade haja o que houver, mesmo que esteja em campo a hipocrisia - condenar nos outros a escrotidão que desfraldamos com nossas bandeirinhas de mão. 

Muitos de nós ainda acreditam em verdadeiros estelionatos. Qualquer arminha basta para que a negligência desfile em seu carnaval particular. Quem nunca teve um dito amigo a dizer "A culpa não é minha, eu não vou mudar o mundo, ele já era assim quando nasci"? Não é de hoje. "Biado tem que morrer!", "Tem que tacar uma bomba na cavela e matar tudo". A solução simplista está nos discursos por toda parte: o outro que se phoda e pronto. 

Coitado de Deus. Em nome dele, homens podres e hipócritas promovem os discursos mais bárbaros e cínicos, debochados. Gente enganando gente com discursos baratos que não se sustentam. 

E ficamos a esperar o novo problema na linha do trem, o reconhecimento das vítimas apenas no IML na hora da desgraça, a corrupção gigantesca com a desculpa do combate à corrupção. A nova tempestade com suas vítimas fatais. A nova guerra mundial que vai gerar lucro para poucos e tragédia para muitos.

"A próxima versão vai solucionar todos os problemas anteriores". É muita vontade de acreditar. 

Quinta-feira, um lindo dia de sol mas pode chover a qualquer momento. Tanta gente desmaiada debaixo das marquises porque simplesmente não consegue dormir por medo de assassinato e/ou estupro, mas é muito mais fácil chamar todo mundo de vagabundo, especialmente se você tem papai e mamãe bancando suas contas.

Nunca se leu tanto no Brasil. Nunca foram produzidos tantos livros. Nunca se publicou tanta berdha. 

Calhordas ditos liberais comemoram o empreendedorismo das grandes caixas de isopor nas costas, da bicicleta alugada e das 14 horas diárias em subempregos, até que o nobre trabalhador atravesse 50 quilômetros da cidade e descanse na paz de seu barraco - na verdade desmaie e desperte com o relógio tremulando. 

O que importa é lacrar. Aparecer. Por likes, tem quem alugue a mãe morta, não importa. Somos os cavaleiros da verdade irrefutável. Mentimos na Justiça, na Polícia e na Receita Federal. Vamos vencer!

Uma em cada sete pessoas da Terra não tem sequer água, mas muitos de nós afirmam que o mundo é desenvolvido. Afinal, que diferença faz se dois bilhões de pessoas mal respiram? 

A culpa é sempre do outro. O pênalti roubado a nosso favor a gente esquece. O troco a mais também. 

"Bom dia. Afaste-se de toda negatividade e seja firme em seus objetivos".

Enquanto isso, os sonhos são destruídos.

Felizmente a arte resiste.

@pauloandel

Tuesday, February 15, 2022

Um dia de fevereiro

Acordei, tomei café e soube da morte de Arnaldo Jabor. Ele era muitos num só. O cineasta era sua faceta que eu mais admirava, ao contrário da de cronista, mas isso não tem nenhuma importância porque é apenas a minha opinião. Fato é que a figura de Jabor esteve sempre em minha vida desde pequeno, de modo que é lamentável sua perda. Aos poucos, aqueles adultos que eu tentava compreender quando era criança vão se despedindo, porque o tempo é implacável e vence todas as batalhas. 

Foi embora o cineasta, deixei pra lá o artículista. Acabei o café e fui para o trabalho presencial. No dia que o lucro for bom, será a melhor ocupação do mundo: ouvir música, pesquisar discos, arrumar livros. Levei John Coltrane e Ruben Gonzalez para ouvir. Estou de olho no fabuloso CD do Tenório Jr, que ninguém comprou ainda. A tarde foi rápida, vendi Iron Maiden, Bill Evans, mais alguma coisa boa.

Saí às cinco, atravessei a Praça Tiradentes e peguei o VLT só para me divertir - é bom demais. Num minuto eu já estava na Casas Pedro, onde comprei uma suculenta pasta de grão de bico e champignons para fazer um sanduíche árabe em casa. Na volta, caminhei por cinco quadras silenciosas até chegar em casa e descansar um pouco. Banho, lanche, Marina, celular carregando e a tragédia de Petrópolis. Há muito tempo o Brasil humilha pessoas, especialmente as mais pobres. Ok, choveu muito, é a natureza mas não dá para culpar exclusivamente o imponderável: todo ano vemos N tragédias acontecendo em chuvas de verão. 

Fiz uma live sobre o Fluzão, depois fui trabalhar postando CDs e LPs nas redes sociais da loja. Fizemos algumas vendas. Marina dormiu. O silêncio completo ganhou as ruas da Cruz Vermelha.

Meia noite. A terça-feira acabou. No telejornal, Jabor aparece novamente. Silvio Tendler o define com maestria: "É uma perda muito grande, porque a gente perde o contraditório". Meu amigo Bigode, outro prócer do cinema, o homenageou no Facebook. Gerald Thomas também (e ainda não acredito que ele topou colaborar com meu livro sobre Copacabana). Ricardo Soares, autoridade literária, destacou bem o papel de Jabor. 

A tragédia de Petrópolis ocupa a tela da televisão. Há muito sofrimento. Que venha a cura. 

Para tentar me distrair, recordo a conversa à tarde com uma amiga querida, tudo pelo WhatsApp e suas brevidades. Falávamos de recalques alheios e ela me contou que uma colega havia reprovado uma foto sua exclusivamente por causa do decote, que era normal, respeitável e admirável. A única coisa que me veio à cabeça foi uma certa frase, do único personagem possível para costurar todo o roteiro escrito até aqui, com perda, tragédia, o cinema de Jabor, o Fluminense e uma sugestão de belo decote: Nelson Rodrigues. 

A frase? "Toda nudez será castigada".

Monday, February 14, 2022

Copacabana no elevador

QUINTA-FEIRA, PERTO DAS 15 HORAS 

Bloco E, Shopping de Copacabana, aka Shopping dos Antiquários

Você abre a porta e dá de cara com um paletó de lantejoulas azuis, uma cabeleira black e o bigode que, juntos, formam uma das estampas mais famosas do Brasil: a de Cauby Peixoto. Então dá boa tarde, recebe a réplica em voz de trovão e finge que está tudo bem porque em Copacabana ninguém se emociona com celebridades - só louvam Clóvis Bornay e Rogéria nesta terra. Fica em silêncio, o grande cantor não diz nada também porque não puxaria conversa com um garoto de catorze anos. Dois minutos depois, o elevador está no térreo, vocês saltam, Cauby passa na porta dos famosos Supermercados Leão e ninguém fala nada também (embora, claro, todos estejam diante de uma lenda da música popular brasileiras - e com um paletó de lantejoulas azuis!


QUALQUER NOITE, DEPOIS DAS 23 HORAS

Você espera o elevador no térreo e, de repente, está a seu lado um dos grandes jogadores do futebol brasileiro: Rodrigues Neto, Flamengo, Fluminense, Botafogo, internacional, Seleção Brasileira, também no Ferrocarril Oeste da Argentina, onde ganhou o apelido de "El Negro Neto". 

Abre a porta e ele faz um cumprimento respeitoso sem dizer nada. Só que o cheiro não engana ninguém: rolou um pileque poderoso. Rodrigues Neto tem encarado dias difíceis: além de jogar, é o treinador da famosa Cooperativa do São Cristóvão. Deve ter afogado as mágoas porque não está fácil para ninguém. 


QUARTA-FEIRA, 11 DA MANHà

Desce Dona Estela. Una oitenta anos talvez, com seu marido de uns trinta e cinco, Marcos. Um amor daqueles que não tinha tanta probabilidade assim. Ela vai lentamente a caminho dos Supermercados Leão, ele fica na portaria. 

O porteiro não perdoa: "Seu Marcos, a Dona Estela já ficou viúva sete vezes. O senhor não tem medo não?"

"Não, cada um tem um destino".

[mentira, tá se cagando de medo

Marcos dá tchau, vai para a Siqueira Campos e se manda. Por via das dúvidas, pegou o contato de uma mãe de santo, para calcular os novos tempos e, no pior cenário, fica de olho nas proximidades e desdobramentos plausíveis.


O GRANDE ATOR, 23:45 HORAS DE QUALQUER NOITE

Carregando uma sacola de compras das Casas da Banha, jornais e um livro, o ator Walmor Chagas entra no elevador do Bloco E e sobe tranquilo para o 13° andar, sozinho e anônimo porque o porteiro, embora o conheça há tempos do prédio, não tem a menor ideia de quem se trata. 

Página eterna do cinema, teatro e TV, ali Walmor é apenas um condômino chegando em casa, num andar que possui 16 apartamentos. Cada um deles possui histórias, dramas, loucuras e contradições que cabem em Copacabana, porque é no bairro que tudo se mistura e contradiz o tempo inteiro. Walmor se alimenta delas para oferecer a sua grande arte aos brasileiros. 

O ator abre a porta do terceiro apartamento à esquerda do hall dos elevadores, larga as coisas em cima do sofá e vai para a janela. Vê a igreja em forma de cúpula lunar no terceiro andar do shopping, o quartel da PM e o posto de saúde. Carros passam em alta velocidade na Rua Tonelero, um ou outro 433, com certeza um 415, todos a caminho da beleza da Lagoa Rodrigo de Freitas. Há quase silêncio no bairro que nunca se cala.

palcos cariocas

ANDANDO pelo Centro e sonhando com grandes shows que sempre dominaram o pedaço. Eu trabalho na praça Tiradentes e, da janela da minha loja, vejo de frente a beleza perdida do Teatro João Caetano, quando muito funcionando à meia boca. Saindo da portaria, na primeira esquina à esquerda fica o Teatro Carlos Gomes, que desde 2020 só funcionou temporariamente como posto de vacinação na pandemia. E pensar que, em na ambos,assisti João Donato, Altamiro Carrilho, Jarda Macalé, Jorge Mautner, Quarteto do Rio e outros. 

Onde foi parar a maravilhosa Sala Sidney Miller? Lá por 2007, 2008, era parada obrigatória dos fãs da boa música, com shows de alta qualidade, conforto e preços populares. Antes da entrada você podia fazer um lanche esperto no Itahy, delicioso joelho com refresco. Na saída, os CDs dos artistas eram disputados a tapa pelos fãs e colecionadores. O Estado Maior da sofisticação musical brasileira passou pela Sidney, e até mesmo craques da música internacional como o jazzman Gabrielle Mirabassi. 


Duas quadras depois, é de doer a visão da antiga sede da Caixa Econômica fechada. Além da imponência do prédio, o século XXI foi brindado com a Caixa Cultural, que por vários anos foi uma potência de teatro, música, cinema e artes em geral. Hoje, a entrada se resume a tapumes e mais nada. 


Dezenas de metros adiante, ainda existe esperança na volta do Teatro do BNDES, com grandes shows musicais às quartas e quintas, misturando nomes consagrados e alternativos. Espero que o novo Governo reative o palco em 2023.


Isso tudo sem contar a efervescência dos shows nas ruas. Ângela Rô Rô e Totonho já tocaram em pleno Largo da Carioca. Na Praça XV, Boca Livre, Jair Rodrigues e tanta gente boa.


O Boulevard Olímpico teve grandes artistas no palco. Antes de partir, Elza Soares fez uma grande apresentação por lá, Tom Zé também.


Por enquanto o que ainda se vê é tristeza, ruas vazias e palcos fechados. É preciso derrotar o COVID e também os inimigos da arte. Há muito a ser feito.


Wednesday, February 09, 2022

o estrangeiro

Cai a noite no coração da melancólica Guanabara, que perdeu até suas papelarias tão encantadoras para o poeta Carlito Azevedo. 

A Leiteria Mineira quase sucumbiu mas resistiu, para a alegria do cineasta Luiz Carlos Lacerda. 

O Copacabana Palace abre suas portas para uma noite de latin jazz, bem perto do Beco das Garrafas, palco de histórias da arte. 

E eu escuto Albert Ayler, vejo Leandra Leal na TV em silêncio e penso nas derrotas do dia. 

Um garoto preto pobre preso com um pacote de mão e uma camisa do Flamengo. 

Um garoto triste e sofrido dormindo na estação Sete de Setembro do VLT. 

Olho para o WhatsApp e leio as falas cínicas de um homem de Deus.

Que ora, jejua, sobe montes e mente também. 

Troco Ayler por Prince e lamento sua morte tão precoce. 

Lendo Ruy Castro e Assunção, apoiando o embate. 

A linda baiana Emily há muito se foi da vizinhança. 

E Dona Marina está longe, bem longe em Paciência. 

Então revejo haicais do poeta Jocemar Barros e cartões postais de Ana Klein também. 

Onde está Keith Jarrett? Onde está Joe Jackson? Onde está Ben Harper? O mago Wayne Shorter se recolhe muito bem. 

Penso no pré-sal que roubaram do povo triste e usaram em bel prazer. 

Os hipócritas são felizes demais e não se importam com o mal que criam. 

Eu quero a baleia do Parque Peter Pan de volta ou pelo menos a minha prancha de isopor para turistas. 

Eu quero meus doze ou quinze anos de idade numa terra com bem menos ódio. 

Eu quero o fim das guerras, da escrotidão contemporânea. 

O maestro Gerald Thomas redime minhas tardes com seu contrabaixo arisco. 

E penso em gente amontoada debaixo de marquises vizinhas. 

Choro pela minha pátria mãe em prantos diante de tanta covardia. 

O poeta Allen Ginsberg ainda está vivo por sua obra tão devastadora. 

Deus não está desatento dos pastores covardes, nem pretende baixar na esquina. 

A TV num súbito encerra a série e pouco se tem a dizer de Leandra tão linda. 


@pauloandel