O que você quer de mim? What do you want from me? Já parou pra pensar o que eu quero? Eu parei e pensei há muito tempo. Eu quero te comer, te lamber, te fuder muito até você não aguentar mais e desmaiar de tanto tesão. Até você não aguentar mais e deixar vazar todas as secreções do prazer, nós dois molhados um no outro. Eu pensei que o nosso tesão fosse taquicardia um no outro, o peito batendo forte, os mamilos endurecidos, as carnes roçando uma na outra até fazer fechar os olhos e viajar por mil sensações. What do you want from me? Yo te quiero desnuda, dá me tu amor, teu sexo em rosa flor de botões delicados e tão saborosos. Ah, deixa eu navegar na tua pele como se fosse a descoberta do continente desconhecido, como se fosse a primeira primeira vez, e te beijar e namorar e te derramar meu líquido consciente. Eu quero te fuder muito. Eu te quero de amante. Super outro lua cheia sedenta. Eu quero te beijar até você quase se mijar de tanta vontade de sexo. Meu poema, meu verso torto, meu senhor e puta no down by law numa quitinete de Copacabana ou no motel da Cruz Vermelha ou numa casa emprestada em algum lugar da cidade. Eu quero te venerar. Eu quero te chupar sem fim. O que você quer de mim? Saber exatamente o que você está pensando. Sentindo. Gemendo. Gozando. Gozando. Gozando. Eu quero te ver quicando em cima de mim. Eu quero te penetrar até você gritar. Eu quero ser tua perfeita companhia. Eu quero te melar muito, te deixar no suor mais quente. O que você quer de mim? Por que você não diz o que quer de mim? Vamos ser dois animais a serviço do prazer cumprido do outro - e mais nada.
Translate
Saturday, September 15, 2018
Wednesday, August 22, 2018
Friday, August 17, 2018
cão
Eu sou o cão de olhar perdido em noite fria debaixo de uma marquise da Cruz Vermelha, enquanto meu dono desmaia de sofrimento, cansaço e indiferença. Não consigo latir nem brincar, apenas olhar para o nada que chamam de horizonte, enquanto também sou desprezado pelos transeuntes, que me consideram o símbolo de uma derrota. Eu olho para o nada e vejo outros cães noutras calçadas, muitos feito eu e outros tão bem tratados que sequer usam coleira. Eu sou um cão da noite triste e ninguém passa a mão na minha cabeça ou me oferece um nugget. Estou aos pés do sofrimento do meu dono e do meu mesmo, sem latir e pensar, irracional que posso ser. Metros acima, as luzes indicam que as pessoas estão comemorando gols, xingando políticos e rolando em berço esplêndido de cólera. Eu sou um cão sem dono, sem latido, sem futuro e fico tranquilamente apreciando todas as horas do fim, como se coubesse num poema de Torquato Neto. Cão, cachorro, bicho de estimação sem estima, o que me resta é a solidariedade do meu dono desmaiado em cima das frias e cortantes pedras portuguesas. Eu só queria um bife, uma coberta, um dia de vida em busca deste sentimento tão nobre - e vedado aos caninos - chamado de paz. Eu, tão cão da noite e do desalento, posso ser mais humano do que os humanos que me veem com nojo. Eu, cão triste, amigo sincero do homem que passa apressado para fugir da minha miséria. Ele, tão ser gregário, tão hipócrita e eu, contando mais um dia de vida ou de pena cumprida, ou ainda do caminho inevitável para a morte, outro verso de Gil.
@pauloandel
Thursday, August 16, 2018
Por que voto em Elika Takimoto
Por
absoluta sorte, tenho acompanhado a trajetória de Elika Takimoto bem de perto
desde fins do século XX. Perto daquele tempo e pouco depois, ela se esfalfava
para cuidar de duas crianças, seus filhos Hideo e Nara (Yuki, o terceiro, só
viria mais tarde), da casa, do marido, dos estudos, do trabalho como professora
e mantinha sob absoluto sigilo um talento que o tempo tratou de desvelar para o
Brasil: o de uma escritora de mão cheia, uma memorialista de marca maior, digna
de Zélia Gattai (com quem manteve contato, aliás).
De lá para cá, o que já era ótimo só
melhorou: não bastasse se tornar uma autora reconhecida e premiada, Elika avançou
em todos os sentidos. Quando o assunto é formação acadêmica, chegou ao
doutorado em Filosofia. Como professora de física e coordenadora do Cefet-RJ,
percorreu o país como palestrante aclamada e só falta dar autógrafos aos
alunos, de tão querida que é. Conhece tudo sobre escola e universidade, seus
aquários natais e de ofício. Seu livro “Isaac no mundo das partículas”, sucesso
de vendas, baseou uma peça de teatro infantil aclamada por crítica e público.
Mãe, mulher, moradora de Madureira na
divisa com Cascadura (mais Rio de Janeiro raiz, impossível), fiel escudeira da
Educação, filha de japonês, dona de uma risada inconfundível, trabalhadora, nos
últimos anos Elika arrebatou uma legião de fãs nas redes sociais por muitos
motivos, sendo o principal deles a luta pela democracia que existiu um dia no
Brasil, além da sua visão em 360 graus a respeito das mazelas que têm vitimado
o povo brasileiro e, em especial, o do Rio de Janeiro: genocídio, violência
ostensiva, desemprego a granel, demolição econômica, degradação política, saúde
na sarjeta, educação à míngua, desesperança.
E tudo isso com uma coragem que se
espera dos protagonistas da história: justamente em meio ao caos, no mar de
ódio que o golpe de 2016 espalhou pelo Brasil, ela navegou contra o linchamento
midiático que foi meticulosamente instaurado contra o Partido dos Trabalhadores
e, em especial, a figura de Lula – qualquer pessoa minimamente informada percebe
os movimentos das grandes corporações de comunicação quando o assunto é oprimir
e alienar o povo brasileiro, sendo que o Rio de Janeiro sentiu o baque da
implosão a olhos nus da Petrobras como nenhuma outra unidade da federação. Daí
sua indignação contra o golpe, contra o cárcere privado de Lula, contra o
sequestro da democracia brasileira, contra a implosão do Rio, contra a
destruição das políticas de inclusão social que salvaram a vida de milhões de
pessoas desde 2002, contra o entreguismo feroz que só atende aos anseios do
capital rentista e mais nada, enquanto os integrantes de três famílias
controladoras da holding Itaú-Unibanco receberam 9 bilhões de reais em cinco
anos a título de dividendos, sendo três bilhões somente em 2017 com zero
imposto de renda. Tudo em meio a uma crise que, organizada pela vilania, fez
com que no mesmo período fosse dobrado o número de desempregados no país, sem
contar os desalentados (aqueles que desistiram de procurar por uma vaga).
Apesar
de seu extremo bom humor, Elika é naturalmente uma cidadã indignada. Ela sabe
que o Rio e o Brasil podem ser diferentes do que esse arremedo golpista de
agora – e diferentes para muito melhor. É disso que nasce a sua candidatura. E
justamente por ela ter vindo “de fora” do ambiente político convencional, tem
gás de sobra contra os velhos fisiologismos dos quais estamos todos bastante
cansados. Trata-se de uma acadêmica de sucesso, uma intelectual bem-preparada
que vai muito além das salas de pesquisa: por sua formação e vivência, ela sabe
do riscado quando se fala de trem, de subúrbio alijado de política cultural, da
saúde ausente, da segurança esquálida, de colégio abandonado, da cidade tão
partida e injusta que é dividida pelo muro invisível (mas presente) entre o
balneário e os bairros-alojamentos. Além do mais, quem define sobre quem vem “de
dentro” ou “de fora” da política partidária, ou quem “pode” vir ou não? Ela, a
política, é para todos!
Para finalizar, meu voto não é somente
em uma mulher com enorme estofo intelectual, acadêmico, familiar, social e
moral, com fartas realizações em sua vida pessoal. Aqui peço licença para falar de ética, de apreço, de honestidade, de
sinceridade, de decência. Elika é uma das pessoas em quem mais confio nesta
Terra. Eu a vi crescer e se agigantar sem dar um único passo se esquecendo de
sua trajetória e de quem a cerca. Posso falar disso de cadeira: generosamente,
ela é a prefaciadora dos meus dois livros “Cenas do Centro do Rio”, minha primeira
incentivadora literária, minha querida companheira de mesas e lançamentos – e,
para qualquer escritor que se preze, o que modestamente é meu caso, prefácio é
coisa que só se oferece a quem se confia e se admira muito. Falando em
literatura, Elika é novamente um desafio: cansada de ler as negativas mais
estapafúrdias das editoras para a publicação de suas obras (ah, editoras, que
pisam em seus autores sem dó...), ela pôs a mão na massa e lançou seus títulos de
maneira independente, já tendo sido lida por milhares e milhares de pessoas.
Convém não dizer a ela que algo de bom não pode ser feito sem um motivo muito justo
e comprovado, senão...
Elika pensa no próximo e sofre com a
dor do outro. E pensa num mundo mais justo, mais humano, um mundo de inclusão e
participação, de justiça, de democracia. Embora seja jovem e com o mundo pela
frente, ela é uma veterana do ensino e, por isso mesmo, tem a capacidade de dar
a aula magna que o Rio de Janeiro anda precisando tanto: a da política
participativa, plural e democrática, a da política popular. Eu confio e vou com
ela onde estiver. Precisamos de gente com atitude para mudar o mundo, e isso
começa pela nossa cidade, pelo nosso estado, pelo nosso país, e essa atitude
tem que ser exercida no voto, com realizações em prol da população. Que minha amiga tenha toda a sorte do mundo nesta
jornada – e creio plenamente que terá -, porque nela eu tenho a esperança de
ver a política do Rio de Janeiro em seu devido lugar: nas manchetes de grandes realizações populares - e não nas de tragédias policiais, como tem sido ultimamente.
#EuVotoElika
#13021
#RioDeJaneiro
#13021
#RioDeJaneiro
Tuesday, August 14, 2018
Retratos de agosto
(ou os corações solitários no ponto de ônibus
em frente ao prédio com pilotis)
a miséria é
livre é
grátis é
democrática:
todos estamos fudidos
mas há quem aplauda
o que está acontecendo
como se estivesse na fila
dos banheiros em auschwitz
e dissesse: há de ser
uma ducha boa!
todos estamos desempregados
humilhados, escorraçados
enquanto as manchetes da tevê
saúdam o lucro dos bancos
os condomínios de gran luxo
e a balança comercial
a miséria está em todas as calçadas
e marquises
nas praças abandonadas
no vinco dos rostos sofridos
que dormem ao relento gelado
ela, miséria, generosa que é, se espalha
e abraça cada vez mais gente
todos somos mendigos:
se não for das ruas, que seja das almas
do nosso vazio indiferente
do nosso foda-se o outro
existe no ar o misterioso sono da eternidade
quee flutua nos corpos
recolhidos na uerj e nos trilhos
do metrô
e nos restos mortais no iml
somos estúpidos demais
demais!
em frente ao prédio com pilotis)
a miséria é
livre é
grátis é
democrática:
todos estamos fudidos
mas há quem aplauda
o que está acontecendo
como se estivesse na fila
dos banheiros em auschwitz
e dissesse: há de ser
uma ducha boa!
todos estamos desempregados
humilhados, escorraçados
enquanto as manchetes da tevê
saúdam o lucro dos bancos
os condomínios de gran luxo
e a balança comercial
a miséria está em todas as calçadas
e marquises
nas praças abandonadas
no vinco dos rostos sofridos
que dormem ao relento gelado
ela, miséria, generosa que é, se espalha
e abraça cada vez mais gente
todos somos mendigos:
se não for das ruas, que seja das almas
do nosso vazio indiferente
do nosso foda-se o outro
existe no ar o misterioso sono da eternidade
quee flutua nos corpos
recolhidos na uerj e nos trilhos
do metrô
e nos restos mortais no iml
somos estúpidos demais
demais!
Sunday, August 12, 2018
manhãzinha
o silêncio profundo na manhãzinha de domingo. um ônibus corta a cruz vermelha lentamente. os notívagos deixam a boemia da lapa para trás, caminhando lentamente. um ou outro carro passa.
do lado de fora da janela do quarto mora um silêncio. a réstia de luz escapa por dentro da cortina azul.
há mil domingos ou dois mil domingos, eu achava que era mais feliz. pão, presunto, queijo prato, um litro de leite em saco plástico, muitos jornais, a família batendo os talheres no ir e vir da minúscula cozinha. a esperança de um bom jogo no maracanã, de um belo show na praça do arpoador, de uma caminhada pela praia apaixonada de copacabana.
as pessoas sofriam, mas havia uma doce ilusão de futuro, o tal país do futuro, aquele que, ao que tudo indica, jamais chegará. era triste, mas diferente deste silêncio de desalento, de morte em vida. gente que virou número, quadro, objeto a ser descartado, lixo sem reciclagem condenado a morrer sufocado pelo próprio chorume.
onde foram parar os bêbados admiráveis que passavam do lado de fora da janela, cantando e espantando a dor às seis e meia de domingo?
do lado de fora da janela existe uma cidade fantasma, incapaz de impedir a agonia que alimenta seus suicidas miseráveis e tristes. a banca não tem jornais, a padaria não abre, os talheres estão imóveis, existe sofrimento e melancolia. ninguém espera um grande jogo no maracanã, nunca mais o arpoador abrigará um show especial.
ao quase longe, os miseráveis da cruz vermelha começam mais um dia de sofrimento em seus caminhos inevitáveis para a morte. não há nenhuma celebração. não há qualquer motivo para se festejar o que quer que seja. menos mal que, daqui a pouco, crianças vão chutar uma bola velha no asfalto da rua de lazer.
está me faltando coragem física para abrir a caixa do Tom Zé, o duplo do Bob Dylan 1966 e o box do Police. enquanto isso, o sol se torna mais vivo por trás da cortina azul. os filhos vão abraçar os pais, vão chorar por eles ou tentar entender este mundo de incompreensão e tristeza, onde é normal ver as pessoas jogadas na rua feito mascates da vagabundagem - eles estão lá porque querem, diz um comentarista primitivo do cotidiano.
ah, quem me dera pudesse voltar a jogar futebol com meus amigos, sonhar com um domingo feliz, sonhar com um país e um mundo que não são meus e, na verdade, revê-los como eles nunca foram.
às vezes os pais são muito felizes. noutras, eles são abraço e fé. noutras, eles são a lembrança da réstia de sol que penetra pelo meio da cortina azul, fechada. os filhos procuram os pais, o futuro repete o passado por alguns instantes, até que ronca o motor de um ônibus e é o único sinal de oposição numa estranha coalizão de fracassos. o que vem pela frente, ninguém sabe, ninguém.
@pauloandel
do lado de fora da janela do quarto mora um silêncio. a réstia de luz escapa por dentro da cortina azul.
há mil domingos ou dois mil domingos, eu achava que era mais feliz. pão, presunto, queijo prato, um litro de leite em saco plástico, muitos jornais, a família batendo os talheres no ir e vir da minúscula cozinha. a esperança de um bom jogo no maracanã, de um belo show na praça do arpoador, de uma caminhada pela praia apaixonada de copacabana.
as pessoas sofriam, mas havia uma doce ilusão de futuro, o tal país do futuro, aquele que, ao que tudo indica, jamais chegará. era triste, mas diferente deste silêncio de desalento, de morte em vida. gente que virou número, quadro, objeto a ser descartado, lixo sem reciclagem condenado a morrer sufocado pelo próprio chorume.
onde foram parar os bêbados admiráveis que passavam do lado de fora da janela, cantando e espantando a dor às seis e meia de domingo?
do lado de fora da janela existe uma cidade fantasma, incapaz de impedir a agonia que alimenta seus suicidas miseráveis e tristes. a banca não tem jornais, a padaria não abre, os talheres estão imóveis, existe sofrimento e melancolia. ninguém espera um grande jogo no maracanã, nunca mais o arpoador abrigará um show especial.
ao quase longe, os miseráveis da cruz vermelha começam mais um dia de sofrimento em seus caminhos inevitáveis para a morte. não há nenhuma celebração. não há qualquer motivo para se festejar o que quer que seja. menos mal que, daqui a pouco, crianças vão chutar uma bola velha no asfalto da rua de lazer.
está me faltando coragem física para abrir a caixa do Tom Zé, o duplo do Bob Dylan 1966 e o box do Police. enquanto isso, o sol se torna mais vivo por trás da cortina azul. os filhos vão abraçar os pais, vão chorar por eles ou tentar entender este mundo de incompreensão e tristeza, onde é normal ver as pessoas jogadas na rua feito mascates da vagabundagem - eles estão lá porque querem, diz um comentarista primitivo do cotidiano.
ah, quem me dera pudesse voltar a jogar futebol com meus amigos, sonhar com um domingo feliz, sonhar com um país e um mundo que não são meus e, na verdade, revê-los como eles nunca foram.
às vezes os pais são muito felizes. noutras, eles são abraço e fé. noutras, eles são a lembrança da réstia de sol que penetra pelo meio da cortina azul, fechada. os filhos procuram os pais, o futuro repete o passado por alguns instantes, até que ronca o motor de um ônibus e é o único sinal de oposição numa estranha coalizão de fracassos. o que vem pela frente, ninguém sabe, ninguém.
@pauloandel
Friday, August 10, 2018
cortar cortar
vamos cortar vamos?
vamos cortar as gorduras
as despesas
vamos vamos cortar
as divergências e desacertos
vamos!
que tal cortar na própria
carne?
cortar os outros, os baratos
vamos cortar nossos sonhos!
vamos cortar os números
os empregados, os investimentos
cortar postos, ora!
hora de cortar despesas: são
tudo investimento FODA-SE
vamos nos cortar uns aos outros
com belas balas
cortar o caminho, abreviá-lo
cortar, cortar, cortar
cortar as vidas de merda
até que o nada e a destruição sejam
um só: irmãos siameses
namorados de mãos dadas
celebrando uma guerra que só tem
derrotados
suicidas
e corpos putrefatos:
os pedaços podres no
chão atestam o sumo
da nossa ignorância
@pauloandel
vamos cortar as gorduras
as despesas
vamos vamos cortar
as divergências e desacertos
vamos!
que tal cortar na própria
carne?
cortar os outros, os baratos
vamos cortar nossos sonhos!
vamos cortar os números
os empregados, os investimentos
cortar postos, ora!
hora de cortar despesas: são
tudo investimento FODA-SE
vamos nos cortar uns aos outros
com belas balas
cortar o caminho, abreviá-lo
cortar, cortar, cortar
cortar as vidas de merda
até que o nada e a destruição sejam
um só: irmãos siameses
namorados de mãos dadas
celebrando uma guerra que só tem
derrotados
suicidas
e corpos putrefatos:
os pedaços podres no
chão atestam o sumo
da nossa ignorância
@pauloandel
Wednesday, June 20, 2018
Tuesday, June 19, 2018
sido cão
tenho sido um cão sujo e triste abandonado numa calçada respeitável, enquanto outros cães me desprezam e não oferecem um pedaço de carne sequer. ah, os cães que passam tão indiferentes, ocupados com tardes e noites vazias, procurando a vaidade num espelho sujo. nem as pulgas me abraçam. tenho sido um cão sujo e triste, zumbi desnecessário cumprindo adestramentos inúteis porque sou velho, não tenho planos nem futuro, os outros cães não me oferecem solidariedade porque seus instintos estão pervertidos. hum, grande cão inútil sem osso nem casinha, sem vacinas e tosa, um diploma que seja! sem direitos: não tenho maconha para aliviar minhas noites de frio, nem emprego porque os cães são desimportantes no país dos estrumes, nem renda, nem casa, nem qualquer coisa que passe perto de algum conforto. eu, cão, sem pai nem mãe nem irmão, sou apenas um coração inchado à espera de uma chance, de um osso para roer, de uma mísera mão acima da cabeça por consideração e justificativa para estar onde não posso falar, onde nunca serei escutado além dos poucos latidos que tento - eu cansei de latir em vão, os cães não ligam, os animais irracionais gritam e matam e morrem em vão. eu, cão sujo e triste, querendo um banho que não depende de mim, um pacote de guloseimas que passa na TV para a elite - eu sou excluído por excelência -, um pequeno afago que me faça sentir importante no meio de tantos outros cães, coisas grandes, bichos grandes que vão e vêm sem compromisso com qualquer bicho em volta. tenho sido um cão sem sentido, ando à toa, sou insone em qualquer calçada e tenho certeza de que não faço qualquer sentido frente aos bichos de aço, aos bichos de patas redondas de borracha, aos pequenos bichinhos que esticam suas patas tentando alcançar outros bichos apressados. cão, cão, tenho visto a dor e o sofrimento que não sei latir, mas apenas fitar com meus olhos tristes e irracionais. não aguento mais a coleira, a sujeira, o osso que não encontro, a guloseima do pacote que nunca me dão. por favor, não soltem fogos. @pauloandel
Tuesday, June 12, 2018
um homem comum
eis o homem
comum, um cidadão
um número
caminhando sem cantar as dores
tão solitário
no coração de uma grande
cidade
um número
caminhando sem cantar as dores
tão solitário
no coração de uma grande
cidade
um homem sem
nome nem berço
sem ambições e esperança
caminhando sozinho
em silêncio e lágrimas
encolhidas enquanto espera
a hora fatal sem previsão
um homem qualquer, pobre, triste
simples e desprezado
um homem do povo
com seus panfletos ou bugigangas
ou panos de prato ou figurinhas
lutando, lutando
pelo que jamais virá
sem ambições e esperança
caminhando sozinho
em silêncio e lágrimas
encolhidas enquanto espera
a hora fatal sem previsão
um homem qualquer, pobre, triste
simples e desprezado
um homem do povo
com seus panfletos ou bugigangas
ou panos de prato ou figurinhas
lutando, lutando
pelo que jamais virá
um homem no
chão, sem nome
sem pai nem mãe
sem nenhum amigo
sem o respeito do outro
olhando para o céu e tentando
entender o que faz
no coração do inferno
sem pai nem mãe
sem nenhum amigo
sem o respeito do outro
olhando para o céu e tentando
entender o que faz
no coração do inferno
@pauloandel
tristessa
eu não caibo mais
aqui
não era minha
a pena que eu
cumpri
eu não tenho
abraço, afago
apoio, perdão
nunca fui nada
eu não pertenço
a este lugar
não tenho a ver
com ninguém
não aguento mais
a minha dor e
a de outrem
aqui
não era minha
a pena que eu
cumpri
eu não tenho
abraço, afago
apoio, perdão
nunca fui nada
eu não pertenço
a este lugar
não tenho a ver
com ninguém
não aguento mais
a minha dor e
a de outrem
eu não tenho
turma, família
casa, pátria
felicidade
eu não faço
a roda girar:
tenho saudade
até do que
não pude ver
turma, família
casa, pátria
felicidade
eu não faço
a roda girar:
tenho saudade
até do que
não pude ver
eu nunca fui
de caber aqui
não é o meu
lugar
- quem havia
de amparar
a tristeza?
[ninguém mais]
[a morte me cai
tão blue]
um tchau
e voltar do jeito
que vim:
sem rancor
nem vontade:
apenas
a miragem
de caber aqui
não é o meu
lugar
- quem havia
de amparar
a tristeza?
[ninguém mais]
[a morte me cai
tão blue]
um tchau
e voltar do jeito
que vim:
sem rancor
nem vontade:
apenas
a miragem
@pauloandel
Friday, June 08, 2018
O novo single de Mussa: "Eles voltaram de novo"
"Eles voltaram de novo", nova música de trabalho do cantor, compositor e artista Mussa, em parceria com Kiki Marcellos.
FACEBOOK DE MUSSA: CLIQUE AQUI
FACEBOOK DE MUSSA: CLIQUE AQUI
Thursday, June 07, 2018
você precisa ler o mundo
A gente só vai conseguir dar passos à frente quando você ler o mundo de verdade, muito além do óbvio. Você, a gente, todos nós. É preciso ler o sangue nas veias, ler as lágrimas da saudade, a tristeza, o desalento e também a esperança. Ler, ler, ler os versos tortos, os parágrafos sujos, as crônicas enferrujadas, os velhos e-mails arquivados na pastinha. A gente precisa ler uma noite à beira do Atlântico Sul, uma tarde no Imbuí, um dia de procissão. A gente tem que ler a compreensão, porque a afirmação que depende de escorraçar o outro é natimorta na essência. Você tem que ler o abraço, o carinho, as outras palavras neste mundo de imensidão, injustiças e egoísmo. Vamos ler o amor ao outro, a consideração, ler o querer bem, ler nas entrelinhas do apreço. Que tal ler a imagem do velhinho sentado no banco da praça vendo as crianças brincarem? Ou do moço da carrocinha de picolé? Ler a moça das verduras na esquina perto do bar. A gente tem que ler os sonhos das crianças e não botar tudo a perder. Vamos ler amor e sinceridade? Vamos, é preciso! A gente tem que ler a beleza da Roberta cantando samba na televisão à meia-noite. Respeitar o cansaço do vigia na portaria de madrugada. Vamos ler o passado, quando éramos mais gentis sem a Idade Média com smartphone. Ler, ler, ler, chorar, sorrir, tentar entender um pouco deste mundo injusto e breve, cheio de maldade, mas procurando as pequenas brechas e lê-las, exatamente onde alguém escreveu o espírito da paz.
(ao fundo, os tiros de sempre no Catumbi)
@pauloandel
(ao fundo, os tiros de sempre no Catumbi)
@pauloandel
Wednesday, May 30, 2018
Tuesday, May 22, 2018
Os trechos dos livros que ainda não foram escritos
Participação especial de Amanda Rodrigues.
Prefácio de Marcelo Migliaccio.
Direção de Zeh Augusto Catalano.
“O Sr. Robert, 70, desceu à rua. Veio ao Rio de Janeiro por motivos profissionais, mas já conhecia a cidade de outros tempos. Num domingo nem frio, nem quente, com nuvens em Copacabana, ele caminhou vestindo um casaco talvez jeans, uma touca e óculos escuros. Noutros lugares, talvez a indumentária chamasse a atenção, mas não no bairro da praia mais famosa do mundo, onde andar vestido com um uniforme de super-herói ou com uma fantasia de viking não causa qualquer espécie - desde os anos 1940, alguns moradores da região faziam coisas bem piores (ou melhores, dependendo do ponto de vista)."
"Uma vaca preta e solitária caminhando tranquilamente pelo pasto verde e rente, bem rente, numa espécie de mar da tranquilidade esmeraldina, sem ninguém por perto, nenhum tocador ou fazendeiro, nenhuma outra vaca também, simbolizando o tempero de solidão que se sente quando se está numa ilha - e os Açores são assim, deitados elegantemente nos braços do Atlântico, onde não se vê um barco sequer ao longe e, ao fixar os olhos na linha do horizonte, é inevitável sentir o gosto da melancólica reflexão sobre o mundo.
"Mas afinal, onde foram parar os flamboiantes da cidade? E as amêndoas, cada vez mais raras e sem os minicraques da pelota, loucos para chutá-las e marcar lindos gols imaginários no estilo do falecido Maracanã? As jovens normalistas e os pequenos jornaleiros, cadê? Símbolos de charme e juventude, noves fora nada.
"Ah, Thaís, como eu te quis! Desde a primeira vez que te vi passando tão linda no saguão da faculdade, nunca mais te esqueci. Eu pensei em você quando estive em outras cidades, em outros causos e outras mulheres: todas foram traídas por você involuntariamente. Pensei em você nas noites de luxúria e solidão, nas noites de festa e lazer, no gozo de ocasião. Eu encontrei você nos meus sonhos de putarias mais doidas e também nas cenas mais românticas de uma pracinha do interior. Ah, Thaís, eu te quis o tempo inteiro até que fôssemos uma só carne e um abraço."
"Trinta anos depois, Vaz Lobo estava completamente diferente. A Edgard Romero completamente deserta às sete da noite, mesmo em frente da antiga Nuno Lisboa. Do outro lado da rua, o prédio de quitinetes onde morei com meus pais por alguns meses - os antigos moradores eram jovens estudantes comunistas que fizeram lá dentro um mosaico com fotos de jornal, especialmente a de Mussolini de cabeça para baixo. Cheiro de rua triste. A lanchonete Miguelão estava morta."
Friday, May 11, 2018
breve resumo da vida
a vida
é o exercício
das inutilidades:
nascer, crescer
viver, morrer
sem entender
o ir e vir das coidas
sem entender
o estranho amor
o inconsciente
tudo sob demolidora
velocidade - nos
pequenos intervalos
procuramos a paz
é o exercício
das inutilidades:
nascer, crescer
viver, morrer
sem entender
o ir e vir das coidas
sem entender
o estranho amor
o inconsciente
tudo sob demolidora
velocidade - nos
pequenos intervalos
procuramos a paz
fim
O QUE ADIANTA essa
luta estúpida que não vai dar em nada? O ódio das ruas, a opressão, olhar para
trás e estar bem mais perto do fim do que do começo, nada mudou de verdade
exceto o tempo que é cada vez mais exíguo. Temos nossas próprias guerras e o
mundo não vai nos escutar ou acudir. Continuamos chorando pelas ruas sem que
ninguém dê atenção ou sequer perceba. Somos o desalento. E então nos amontoamos
nas cidades em barracos, marquises, três, ônibus e calçadas. Todas as velhas
mãos esmolando e esperando a hora da morte continuam lá. Todos os garotos
negros, humilhados famintos, continuam com suas caixinhas de engraxate à mão,
sentados com os olhos esbugalhados em frente à vitrine da loja de
eletrodomésticos, sonhando com um desenho animado, um lanche, uma noite de paz
que nunca virá. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Os
homens pomposos, cheios de diplomas, mal sabem ler as evidências. E trocamos
nossas livrarias por restaurantes, nossos cinemas por igrejas, nossos centros
culturais por nada. Estamos muito ocupados com os smartphones tocando canções
toscas ou oferecendo joguinhos de passatempo. Ou conversas daquilo que nunca
vão chamar de amor ou atenção, sequer afeto. Passatempo. Estamos cheios de
armas por todos os lados, mortes por todos os lados, as famílias choram
diariamente por alguém que nunca deveria ter ido à toa. As pessoas são
honestas, mas os empregos estão acabando e não há vagas para todos: muitos vão
ser ainda mais humilhados, oprimidos, tratados como lixo na sociedade onde cada
um é um número, um quadro, uma merda qualquer exceto gente. Não somos mais
gente, muita gente não nos considera gente e sequer a si mesma. Somos quadros.
Números. Códigos numa lista de espera. Somos currículos jogados fora numa
agência de empregos. Somos os receptores de “Muito obrigado, a gente te liga”. O
QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Nós seremos sempre
amores desencontrados, portas fechadas, endereços por engano, clichês da
desilusão. Nenhuma droga vai nos salvar; no máximo, tentar minimizar a dor, até
que vem a realidade das próximas horas e tudo volta ao caos de sempre. Ficamos
acostumados a anormalidades em forma de mundo corporativo s.a. – e como você
não inventou o mundo, não tem culpa dos mortos no prédio implodido da
Paissandu, nem do antigo Edifício São Vito – alguém se lembra? NÓS somos o
desprezo ao Morro do Bumba, a indiferença diante de quilômetros de miséria,
ameaças, estupros e humilhação. Nós somos o gado sem rumo dando porrada uns nos
outros para sentar no banco de aço do metrô, porque eles são poucos e o trem é
feito para as pessoas irem apertadas em pé mesmo, porque quem trouxe os trens
acha que pobre tem mais é que se fuder, apoiados até por alguns pobres que não
se consideram pobres, assim como temos os negros que apoiam o racismo, os gays
que acham graça da homofobia, os saudosos da ditadura que não se importam com
os mortos e estuprados por ela – “estavam fazendo merda” – quem diz isso
deveria pagar imposto sobre a própria respiração. A cada dois anos as manchetes
se repetem. Não somos capazes de valorizar quem nos valorizou. Este é o mundo
moderno de 11 de maio de 2018 e, tirando os iphones e as grandes televisões, o
que nos restou foi uma Idade Média com 210 milhões de pessoas, sendo que a
metade delas somada tem menos dinheiro do que seis criaturas deste país, e alguém
ainda vai dizer que esta matemática tem condições de gerar prosperidade. A
verdade é que estamos todos condenados e vamos cumprir penas, alguns com todo o
conforto em casa e as manipulações que já se conhece bem, enquanto outros vão
se arrastar até o nada: a carne podre, dissolvida em caixas mortuárias,
esperando que alguém tenha saudade de seus ossos. As pessoas estão ocupadas
demais porque em muitos casos perderam completamente o senso de humanidade. O
outro não é nada, é só um móvel ou uma vassoura ou uma caixa empilhada.
Aplaudimos os golpes e ficamos em silêncio quando somos empalados por eles.
Ainda somos os mesmos patetas que imitam a novela, que repetem as falas dos
telejornais sem nenhum senso crítico. Talvez toda essa merda também seja culpa
nossa; na verdade, é mesmo. O desencontro, o desprezo, a distância asséptica,
nós inventamos isso em nossos tempos modernos e, em breve, chegaremos ao auge
da vanguarda, quando nossos apartamentos não passarem de cavernas onde
estaremos abrigados por causa do mundo injusto. Tudo que está aí é inaceitável
e, por quarenta anos, do meu jeito, com os meus pobres recursos, eu lutei
contra isso e não passei de um escravo da dignidade do homem. Continuo sendo,
mas agora estou morto, me vejo morto e só assim posso respirar minúsculos
segundos de liberdade em sonho. Finalmente chegou o dia em que, no fundo, somos
todos infelizes demais – e o pior: nós mesmos construímos os diques que,
planejadamente, foram afundados para que todos nos afogássemos sem paz, com
exceção daqueles que, debaixo d’água, com os pulmões alagados, ainda riem e
debocham dos outros, sem perceber que serão tão chicoteados até à morte como
suas vítimas do ódio. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada?
Eu estou morto, não tenho santos, nem paz, e carrego comigo apenas uma sacola
cheia de tristeza porque meu povo nunca será livre.
@pauloandel
Tuesday, May 08, 2018
desire days
humm la noche é tão
longa
eu só te peço mais
uma vez
desire days
desire days
cada passo em falso
é onda
um estrondo no
carnaval
velhas cenas que
atordoam
desire days
desire days
amanhã não sei
da vida
o outro irrita e
ignora
eu carrego minha
mochila
e vou embora
e vou à vida:
desire days!
longa
eu só te peço mais
uma vez
desire days
desire days
cada passo em falso
é onda
um estrondo no
carnaval
velhas cenas que
atordoam
desire days
desire days
amanhã não sei
da vida
o outro irrita e
ignora
eu carrego minha
mochila
e vou embora
e vou à vida:
desire days!
microcausos
I
tudo estava muito claro nas entrelinhas do que eu não disse.
II
nos silêncios que entrecortavam a amigável conversa, habitavam os desejos mais profundos.
III
era melhor beber uma dose miserável de pinga na manhã decadente do que degustar um copo de cólera num dia de falso sucesso.
IV
nunca seremos tão livres quanto nossos próprios sonhos.
tudo estava muito claro nas entrelinhas do que eu não disse.
II
nos silêncios que entrecortavam a amigável conversa, habitavam os desejos mais profundos.
III
era melhor beber uma dose miserável de pinga na manhã decadente do que degustar um copo de cólera num dia de falso sucesso.
IV
nunca seremos tão livres quanto nossos próprios sonhos.
Monday, May 07, 2018
quatro a.m.
São quatro da manhã da madrugada mais chata de se ter insônia em qualquer semana. Despertei, ouvi Herva Doce, Marina e Marillion - pensando nos fãs que discutem as eras H e Fish, quando acho lógico que as duas são muito importantes. Há pouquíssimos ruídos em casa e nas ruas, alguns carros, talvez um caminhão, a madrugada amedronta. O Fluminense venceu, os pela-sacos reclamam, há algo de doentio nisso. Tenho insônia e penso em coisas impublicáveis. Subitamente me recordo de quando eu era um garoto de dezessete anos, e tinha de atravessar Copacabana inteira a pé às cinco da matina para chegar ao quartel - ficar horas e horas em pé à toa, até que fui libertado para sempre. Contas a pagar, contas a fazer, medo, incerteza, reflexão, tudo está insone em cima de uma cama confortável no coração desta cidade linda, mas cruel. Tomo remédios para pressão, falo com minha mulher, dou bom dia e sonho com mais duas horas de sono. Agora um carro buzina perto do aterrorizante prédio abandonado do IML. Agora recebo duas mensagens no computador de mão. Agora tenho dez livros inéditos prontos. Agora penso em mais coisas impublicáveis. Ah, sono, o que te faz tão longe de mim? Eu te queria bem aqui.
Saturday, May 05, 2018
amor em si
amor, um carrossel
uma noite de pés
descalços
aos pés do atlântico sul
azulzinho o amor ou gris
também
amor de parabenizar
e sorver
amor para conquistar
sem saber
amor de silêncios
e discretas entrelinhas
o que não diz seu nome
mas cochicha num verso
ah, o amor enrustido
represado, talvez adiado
ou quem sabe redivivo?
amor que choca e apraz
amor que trai por amor
fugaz
ou imperial no mar da
tranquilidade na
lua
o amor que não vai dar
cris
nem incendiar a tez
o tesão sem chama
acesa
o filme queimado
o recado no vácuo
o amor na doce voz
de dulce quental
nos versos errantes
de clarisse
por um triz
ou num vértice
cheio de perigos
o amor de bossa nova
também pode ser blues
boy ou quem sabe um
beatnik?
na estrada
na farsa recatada
no viço lancinante dos
desejos ou
fresado e triste
um amor em contraste
um errrante
um cavalo de corrida
ou águia solitária
em voo rasante
sem esperar quase
nada
o amor na foto, na letra
no beijo que desaconteceu
nas flores que inexistem
nos olhares enviesados
nos vãos da escada
nas memórias
o amor que não se entende
e sequer tem explicações
mas resiste e impregna
o ar
feito incenso cujo aroma
não se esquece
amor, um colapso
um beijo em terra
batida
coração de hiato
o amor numa palavra
ou até numa frase
sem sentido
o gosto que se sente
o sonho que prevalece
corações a mil por qualquer
romance
o grande lance é o amor em si
@pauloandel
Thursday, May 03, 2018
aranha de vidro
renatinha viu uma aranha - de vidro! - no teto e gritou loucamente enquanto jogávamos mau-mau e e eram servidas duas carreiras de cocaína à mesa - ela não tinha nada a ver com o pó, nem eu -, até que a acudimos e ficou tudo bem entre gargalhadas da pós-adolescência. a casa era muito louca, mas sóbria também. todas as tardes nos encontrávamos e havia turmas diferentes: a do metal, a do pop, a do futebol, a de qualquer coisa. renatinha era muito linda e, por isso, o luiz ficou muito louco por ela também, em todos os sentidos. depois eles saíam no carro em direção a são conrado ou outro bairro com ruas de natureza, conversavam, a paixão não era recíproca e o nosso amigo gordinho voltava um tanto desapontado para o carteado, depois de tê-la deixado em casa, bem perto da gente. luiz fugiu de casa aos oito anos de idade e se escondeu na sala da minha casa, enquanto minha mãe dizia que ele tinha que voltar para não deixar seus pais preocupados. ele a chamava de tia, a adorava e disse que, se pudesse, moraria conosco - não dava. na última vez em que nos encontramos, trocamos um longo abraço e choramos: seu pai havia falecido dias antes. dois anos depois, eu abri a porta de casa e encontrei minha mãe em lágrimas. ela tinha ido a copacabana e soube que o luiz havia sido enterrado na semana anterior. era uma noite de quinta-feira, às sete da noite e eu não consegui dormir até o dia seguinte. às vezes encontro com o luiz em pensamentos, lembranças ou quando escrevo sobre ele. muitas vezes eu penso que aqueles dias da aranha de vidro no teto eram os mais felizes da minha vida e de muitos dos que estavam lá, num velho apartamento que tinha cara de junkie - cuja janela da casa permitia ver a artéria aorta de copacabana -, mas que na verdade exalava amor - nós éramos pobres garotos felizes e sonhávamos com um país completamente diferente de toda essa merda que aí está. queríamos nossos jogos, nossas tardes de conversa, nossos amores que voaram pelo vento, nossas músicas e, sinceramente, ninguém falava de dinheiro: apenas de ingressos e bares.
@pauloandel
Tuesday, May 01, 2018
primeiro de maio
em speito a todos os trabalhadores
e sua avassaladora maioria
de explorados, oprimidos
massacrados
os que choram todas as noites
por não dispor de um salário
mínimo sequer
os que vagam pelas ruas
entre o torpor e a desesperança
os esmagados, sufocados, ignorados
por um golpe vil e leviano
homens e mulheres, jovens e velhos
veteranos e absolutamente
iniciantes
esmaecidos ou brilhantes
amontoados em senzalas modernas
pelo direito supremo de comer
um lanche modesto
por dia
enquanto senhores de engenho
pensam em viagens, piscinas, iates
e veem o outro como um fardo
uma cena desprezível e torta
uma gentalha que devia realizar
trabalhos forçados e só
em memória de milhões de pessoas
mais maltratadas do que o gado
nas gares, nas vias, nas calçadas
enquanto gira a roda da fortuna
que será de muito poucos
em respeito aos milhões de humildes
que tentam vender seu único bem:
a força de trabalho
em troca de moedinhas e pão
e refrescos baratos
e humilhantes ônibus lotados
e enterros em covas rasas
fora do palco central
e dormem em barracos e casas
improvisadas enquanto o fogo do ódio esvazia todas as almas
e os corpos se decompõem
a céu aberto e pátria livre - o quê?
em respeito e memória a todos
os trabalhadores que vivem a dor
a depressão: vassalos
contemporâneos
desesperados ou até alienados
esperando o divino deus
do mercado
e sua generosidade que nunca se viu:
até quando haverá tanta
criminosa ingenuidade?
até quando o fingimento acortinará
a devastação e o rancor?
até quando a morte será celebrada em troca de terrenos livres, investimentos corporativos e pontos em bolsas?
não se pode esquecer dos bons patrões
que vão além de covardes exploradores:
quando existem, são bem-vindos
- o que lhes sabota é a raridade!
em respeito a apreço a milhões de brasileiros que diariamente entregam suas vidas, esforços e saúde
para sobreviver com mínima
dignidade
e se esgueiram
do desprezo
do ódio de classes
da ruindade em carne viva
da desumanidade
da desumanidade
da indiferença
a sociedade é uma grande senzala
enquanto navios negreiros da morte
correm em rios de asfalto
e janelas gradeadas
não há vagas: apenas
cochos
@pauloandel
e sua avassaladora maioria
de explorados, oprimidos
massacrados
os que choram todas as noites
por não dispor de um salário
mínimo sequer
os que vagam pelas ruas
entre o torpor e a desesperança
os esmagados, sufocados, ignorados
por um golpe vil e leviano
homens e mulheres, jovens e velhos
veteranos e absolutamente
iniciantes
esmaecidos ou brilhantes
amontoados em senzalas modernas
pelo direito supremo de comer
um lanche modesto
por dia
enquanto senhores de engenho
pensam em viagens, piscinas, iates
e veem o outro como um fardo
uma cena desprezível e torta
uma gentalha que devia realizar
trabalhos forçados e só
em memória de milhões de pessoas
mais maltratadas do que o gado
nas gares, nas vias, nas calçadas
enquanto gira a roda da fortuna
que será de muito poucos
em respeito aos milhões de humildes
que tentam vender seu único bem:
a força de trabalho
em troca de moedinhas e pão
e refrescos baratos
e humilhantes ônibus lotados
e enterros em covas rasas
fora do palco central
e dormem em barracos e casas
improvisadas enquanto o fogo do ódio esvazia todas as almas
e os corpos se decompõem
a céu aberto e pátria livre - o quê?
em respeito e memória a todos
os trabalhadores que vivem a dor
a depressão: vassalos
contemporâneos
desesperados ou até alienados
esperando o divino deus
do mercado
e sua generosidade que nunca se viu:
até quando haverá tanta
criminosa ingenuidade?
até quando o fingimento acortinará
a devastação e o rancor?
até quando a morte será celebrada em troca de terrenos livres, investimentos corporativos e pontos em bolsas?
não se pode esquecer dos bons patrões
que vão além de covardes exploradores:
quando existem, são bem-vindos
- o que lhes sabota é a raridade!
em respeito a apreço a milhões de brasileiros que diariamente entregam suas vidas, esforços e saúde
para sobreviver com mínima
dignidade
e se esgueiram
do desprezo
do ódio de classes
da ruindade em carne viva
da desumanidade
da desumanidade
da indiferença
a sociedade é uma grande senzala
enquanto navios negreiros da morte
correm em rios de asfalto
e janelas gradeadas
não há vagas: apenas
cochos
@pauloandel
Monday, April 30, 2018
a grande farsa
estes são os dias selvagens
sem esperança
onde os humildes padecem
e os fracos são covardes
sorrisos de solidão
declarações sobre o vazio
sucessos cheios de ninguém
e grandes amores
de aparência
os traidores são a vitória
os mesquinhos falsos, medíocres
celebram a conquista do nada
o desimportante é a celebração
estes são dias terríveis
onde a maldade amedronta
e o egoísmo vil é fascinante:
a república dos hipócritas
ódio e vingança simulam justiça
prepotência quer dizer sucesso
indiferença se faz de elegância
ordem e progresso: a grande farsa!
@pauloandel
Saturday, April 21, 2018
noite de meia lua em gotham city
é fim de tarde no coração da
cidade seviciada
o outono escurece as ruas
cidade seviciada
o outono escurece as ruas
mais cedo do que há
pouco
os carros desapareceram
e nem os homens sofridos
vivem a morte em vida
sobre as pedras
portuguesas nas
calçadas
os bares estão vazios
e nada garante
as próximas
horas
nenhum batsinal no céu
onde está o nosso herói?
o silêncio das vias explica
o óbvio: não temos previsão
para os próximos
dias
os casais adormecem às oito
da noite
a boemia faz brindes no whatsapp
existe tristeza e opressão: tudo é
mais do que assassinatos
mas os verdadeiros presidiários
de gotham city não dão uma
palavra
um pio sequer
vazias, as panelas estão
emudecidas
viva o delivery!
há solidão em cada ilha m
motorizada
motorizada
as crianças não jogam
bola na rua
e quase ninguém conversa
no centro de gotham city
um mendigo em desespero
com o coração ensanguentado
olha a meia lua e pensa
na morte que insiste em
não libertá-lo do
inferno
enquanto
raros transeuntes caminham
apressadamente carregando
a trilha sonora da desolação
em seus fones de
ouvido e nenhuma
atenção
atenção
@pauloandel
Friday, April 20, 2018
Tuesday, April 17, 2018
uma oração para copacabana
estes são dias em que nada supera o cheiro de ruas tristes
enquanto sou um exilado em meu próprio bairro
contando as horas para uma libertação que nunca virá
somos prisioneiros do ódio e da indiferença: o outro é o esgoto!
copacabana, eu sou autópsia!
suspirando pela lembrança da boite bolero e suas doces putas tristes
entorpecidas com cocaína
e sonhando com uma libertação que nunca virá
os mendigos e seus olhares derrotados
vazios e tristes demais
copacabana, eu sou teu suicídio
escondido nas cortinas do passado
em teus romances trágicos de fé
as moças em voo da morte
enquanto a bossa nova explodia
éramos futuro, poema e saudade
agora não passamos da desolação
oh, senzalas de marquise, farmácias lotadas, gente chique escondida
e as favelas do metrô - existe o sol!
estes são dias da indiferença a sangue frio e os derrotados comemoram
a vez é dos nazistas, dos racistas, homofóbicos e principalmente hipócritas:
quem vai resgatar o morto das pedras do leme?
somos tão alheios aos outros, não precisamos de ninguém
minha cabeça é um crânio ensanguentado num quitinete de piso frio e branco no coração de cada
onde está o homem queimado que fazia belos desenhos na grande avenida?
a mão que matou aída curi é a mesma que fuzilou marielle noutro canto da grande cidade
os filhos de porteiros já não namoram as garotas dos prédios de Garbo
e a orla da praia parece tão triste
o ódio é o óleo queimado da nossa tristeza e já não temos para onde ir
somos a grande capital da miséria humana, tão superficial
nunca mais pintaremos as ruas nas copas do mundo
nossos amigos estão mortos e desaparecidos ou trancafiados nas celas dos smartphones
copacabana eata semana morreu: deixou seus órfãos mas nenhum bem material que não seja a beleza
as mais doces putas nunca foram vistas novamente
nem o mendigo cadeirante com sonda de urina em berço de morte na rua siqueira campos
nem os meninos que esmolavam perto das casas da banha
copacabana, meu ventre escravo é tua dor interminável, o rio rumo ao mar infinito até a busca de terra firme e corações abraçados - também órfãos da tempestade
e é preciso chorar pelos irmãos separados, as vidas espatifadas, as vidas em vão feito carne a moer em máquinas do progresso
não é possível crer que todos cantaremos juntos uma grande canção
nunca mais nos encontraremos nos bares, nem beijaremos as belas garotas e nem os rapazes vão se entender
o cirandinha está morto e enterrado
o bonino's está morto e enterrado
e decapitamos nossa classe
sou outono e quero ser inverno, perdição gelada aos pés do atlântico sul, sem minhas tardes de cinema
copacabana pulou da janela e não deu chance de resgate
espatifada na calcada, planeja uma ressurreição alla gotham city
porque fausto fawcett resiste
o bar sniff resiste
e katia frança voltará da flórida para nós redimir - não, não seremos o inferno!
esta semana eu sou minha dor solitária e vejo ao longe as areias que beijam o forte
a morte não resiste à minha tristeza infinita - eu posso derrotá-la
nenhuma bala no crânio há de solicitar o meu fracasso, vendo os meus em descaso, perdidos entre as distâncias e o nunca mais
copacabana, minha eternidade que beija o déjà vu, que abençoa os randez-vous, que amansa e aquece conspirações
se tudo parece perdido, ainda temos nossas ruas e amores, pequenas histórias desimportantes que regamos com risos e lágrimas, nossas pequenas vidas
tudo é efêmero, mas a linda curva de areia está fadada à eternidade - é a beleza que ainda nos serve de resistência enquanto temos forças
copacabana, capital dos sonhos, desilusão dos miseráveis, combustível da imensidão humana, verso e bairro
descanse meu coração em paz
@pauloandel
Tuesday, April 10, 2018
farsa
enquanto caminho pelas
veias de asfalto sangrentos
vejo os corpos em
decomposição
na autópsia das calçadas
frias e indiferentes
vejo os escombros
a miséria e a insensatez
eu caminho pela terra
batida com carcaças
de carros incinerados
e cadáveres insepultos
e meus olhos armazenam
cenas de terror e solidão
eu caminho sem canto
sem prece nem crença
a indiferença é um bem
humano da selva de pedra
o desprezo é o bom dia
eu sigo triste e sozinho
pelo calçadão enquanto
homens e mulheres celebram
a morte e as mortes
as farsas nas prisões:
o que foi feito daquele amor
que trocamos por hipocrisia?
Sunday, April 08, 2018
Funk do PIB
eu sou PIB mermo/ e explano pra geral/ comemorei o golpe/ e aplaudo os general/ queria o Lula preso porque ele é safado/ o corno Bonner disse pros mané teleguiado/ tem que fuder os preto as piranha e os viado/ isso é que eu penso para o bem do meu Estado/ a minha faculdade já foi feita em Facebook/ os livro é pra otário/ quero meus latão e nude/ os meus latão e nude/ os meus latão e nude/ agora finalmente acabou a corrupção/já tem emprego a rodo e segurança de montão/ saúde e transporte e também evolução/ isso tava escrito nas manchetes de jornal/ eu li e acredito, não me chame de boçal/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ é nesse funk doido que eu canto o batidão/ e mostro para o mundo como eu sou um bobalhão/ se depender de mim nem precisa de eleição/ já tenho minha night meu papel e meu latão/ eu vou pra interméti e sou curtido de montão/ eu só escrevo merda mas me acho um fodão/ eu tenho a soluçao para os pobrema da nassão/
sou PIB, sou PIB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro
sou PIB, sou PIB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro
Thursday, April 05, 2018
Wednesday, April 04, 2018
a tempestade em dia solar
a liberdade é utopia quando
os corações estão embebidos em ódio
os corações estão embebidos em ódio
a liberdade é uma farsa
nunca seremos verdadeiramente livres
não existe vitória no fascismo
nem nas síndromes de Estocolmo
ainda somos tão atrasados
quanto há cinquenta anos escorridos
torturaram e fingimos não ver
estupraram e fingimos não ver
a indiferença é a nossa cegueira
a estupidez é nossa esperança
- enquanto isso, contamos nossos mortos
nossas mulheres fuziladas
as mãos de esmola que desprezamos
a nossa ética seletiva
minha voz enternecida só vai gritar palavrões
e frases odiosas
e frases odiosas
canta a tua última canção, Brasil
até a próxima grande farsa!
em nome de deus, da pátria e da família
espalhamos cólera e ignorância demais
depois contamos nossos mortos
e preparamos as malas para o feriado
hipócritas, doces hipócritas que somos
fingimos felicidades mentirosas
ou até sinceras, dependendo do grau
ou até sinceras, dependendo do grau
de escrotidão
gostamos de gente debaixo das marquises
ou sob escombros dos barracos
estes crimes dão sentido às nossas vidas
fúteis
fúteis
celebradas no fascismo do jornal nacional
do café da manhã com frutas e frios
e tiros na lataria blindada
nunca seremos livres
enquanto formos tão boçais
celebrando as mortes, a dor e o caos
até o derradeiro tiro na cabeça
o grande voo da morte pela janela vazia
até o último voto de confiança no ódio
canta, Brasil! canta, canta!
ah, república federativa cheia de árvores
derrubadas em vão
derrubadas em vão
e gente dizendo 'eu não tenho bandido de estimação'
@pauloandel
(contém citações de "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, e de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade)
Friday, March 30, 2018
hey, amor
hey, amor/ as coisas continuam fora do lugar/ o caos é nossa matriarca gentil/ eu continuo sem você/ e tão sem mim/ o brasil precisa amanhecer/ o que será daquele um só mesmo?/ e das manchetes encardidas/ desta selva de pedra nazifascista/ mas ainda existem restos de amor/ my love said never felt him so good/ longe do mar de lágrimas das entranhas da rua/ longe do ódio e dos fuzilamentos/ um milhão de detentos para justiça alguma/ o sol ainda brilha em abril/ mas temos contado mortos demais/ as veias de asfalto estão sangrando demais/ meu coração ainda espera por ti/ nunca estarás morta no que vejo/ não viveremos para sempre no exílio/ nem pediremos esmolas aos que nos veem com nojo/ não precisamos destes bostas para nada/ hey amor/ hoje é uma noite solitária/ de dia santo e mil diabos pelas ruas/ pobres diabos sem rumo nem preço/ ainda choro por ti/ e me desaconteço/ Brasil/ minha voz enternecida/ calou-se à última canção/hey amor/ se eu não te ver nunca mais/ saiba que te carreguei feito os versos de um poema emblemático/ dos dias sofridos da grande metrópole/ onde todos são todos e cada um é ninguém/ só eu sei das esmolas que peço a mim mesmo/ perdido na solidão das ruas/ despencando do décimo andar da tristeza/ até me estraçalhar no chão/ para viver outra vez sem razão/ hey, amor/ a madrugada tem silêncios moles/ a solidão traz poesias de ironia e cores/ queremos pequena fé enquanto degustamos os rumos da desesperança. @pauloandel
Thursday, March 29, 2018
Tuesday, March 27, 2018
A panfleteira
A
GAROTA morena e jovem está na porta da casa de tolerância panfletando a
propaganda de serviços sexuais, enquanto espia o smartphone e usa um fone de
ouvido. Ela parece jovem, é mais jovem do que se pode supor, mas carrega as
marcas do tempo veloz de quem trabalha na prostituição. Ela atende clientes
também. Ela às vezes sorri, enquanto na diagonal da Rua do Senado um
panfleteiro conversa com transeuntes e veste uma camisa de time de futebol. Ela
também é séria e compenetrada em seu trabalho. A Rua do Senado é vazia e quente
perto de uma da tarde, quase sem carros, praticamente sem gentes. Mais adiante,
ouve-se um poderoso som de funk saído de um cortiço. Mais adiante, uma voz em
alto-falante ecoa do Quartel Central do Corpo de Bombeiros. Mais adiante, duas
jovens e belas garotas, elegantemente vestidas, saem do palácio corporativo da
Petrobras rumo ao almoço ou qualquer outra coisa. Elas são bonitas e jovens, bem
jovens, tão jovens quanto a garota morena que panfleta honestamente na porta da
casa de tolerância, jovens demais mas com trajes de sobriedade empresarial bem sucedida. As duas garotas cochicham e riem, do mesmo jeito que a
garota morena fez cento e cinquenta metros atrás ou adiante - conforme o referencial, mas também conversam seriamente
e tudo se resume a uma distância muito pequena quando se pensa em andar, mas
imensa quando o caso é entender o Brasil, as desigualdades, as oportunidades e
o futuro de jovens mulheres que, por incrível que pareça, andam pela mesma
calçada – e nela, podem acontecer os únicos encontros de suas vidas, mas no máximo com um esbarrão e só.
Saturday, March 24, 2018
carne tesa carne
carne tesa carne
inebriada
de desejos e tesões
- ah, perversões!
cantos danças corpos
madrugada
e carnavais de pele
pra quem entende
o sexo em riste
o gozo e o contraste:
há efêmero e eterno
descartável e permanente
os colos trêmulos
os líquidos pulsantes
a vida o êxtase - há cor
e mil estrelas à vista
o abraço do prazer
cumprido e o fim
do gosto proibido
- existe a paz!
@pauloandel
Tuesday, March 20, 2018
bella blú
nenhum poeta escreverá
os versos na toalha de mesa
na última grande noite
da pizzaria - não, nenhum!
copacabana é um peito
cansado e triste, vazio
perdido em lembranças vãs
e memórias em decomposição
a linda prostituta nunca
mais cortejará seu
elegante cafetão na última
grande noite da pizzaria
nunca mais os jovens
famintos à espera do
amigo mais velho e rico
para pagar algum prato
os mafiosos italianos
com elegantes camisas
vermelhas agora são mera
lembrança do longe, longe
copacabana não dorme
e joga fora os armários
de fatos e fotos - a vida
em riste e mil faroestes
as ruas são farmácias
os doentes, empilhados
debaixo da marquises
e de olhares de nojo
a cólera é a covardia
enrustida
somos hipócritas imorais
em nome de Deus
nunca mais dois amantes
darão as mãos à mesa
na última grande noite
da pizzaria
alguém proteja o bar
sniff e a adega pérola
até mesmo o velho pé sujo
da anita garibaldi
antes que o mundo seja
um tarde demais à noite
mais quente do ano - tão fria
para os corações saudosos
@pauloandel
Subscribe to:
Posts (Atom)









