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Friday, July 31, 2009

NOITES CARIOCAS














Cabe-me o pensar. As cousas, as gentes.

É uma noite fria, o inverno do Rio que já tinha se tornado incomum, mas que, pelas surpresas da natureza, reapareceu.

Antes, eu gostava mais da chuva, do frio; quando me dei conta de quanta gente sofria por conta disso, abdiquei. Calor arábico não é meu forte, mas me sinto mal em saber dos que padecem – e perecem – nas ruas por falta de roupa, comida e condições minimamente humanas. Certa vez, li em algum jornal vulgar que a preocupação com os outros poderia ser até motivo de cuidado psicológico. Não tenho dúvidas: foi uma das coisas mais idiotas que li em toda a minha vida, talvez só superada pelo bizarro pseudo-mundo literário de Diogo Mainardi, o ex-parajornalista agora alçado a profissional pelas mudanças da lei.

O frio da rua Senador Dantas, e não sei se volto para casa ou se parto para Botafogo. Um garoto descalço, de poucos anos, adolescente, surge à frente. Parece o irmão que não tenho. Não me pede dinheiro, mas que compre para ele uma comida no bar. Lá vamos nós. Merece também uma coca-cola. É o que tenho: dez reais. Ele parece estar diante de um ET; a segunda vez que isso me acontece neste ano. Natural: num planeta onde pessoas quase pisam em mendigos nas calçadas, quando um transeunte oferece dez mangos, pode ser a salvação do dia. Ali, me basto em minha quase incompetência; não posso salvar a vida do garoto, transformá-la para sempre. Não passo de um trabalhador mergulhado na falácia mentirosa do mundo livre, onde o capital promove justiça. Justiça? Garoto de olhos arregalados é para se ler como agradecimento. Sigo em frente. A vida eu não salvei, mas com dez pratas, um belo bife-com-arroz-feijão-e-batata frita mais a suculenta bebida de origem norte-americana, é um bom paliativo.

Lojas Americanas do Passeio Público. Uma cena linda. Uma vez a cada ano, a indústria do entretenimento deixa de lado sua convencional burrice e reedita clássicos, sejam devedês ou cedes. A arte é necessária à vida. Gene Kelly canta seu clássico eterno, “Singing in the rain”. Paro para ver o magistral telão em LCD. Para minha grata surpresa, várias outras pessoas também. O que é bom, prevalece – mesmo que à distância. As pessoas notam Kelly dançando e admiram. Dizer que só gostamos de fânqui e pagódi é mentira da grossa. Imposição.

Táxi a vagar pelo Aterro. Parece um excelente videoclip do Ed Motta. Tudo é tão moderno e, ao mesmo tempo, passado. Vejo o Aterro, a beleza dos prédios cinquentistas, a beleza do preto do céu invadindo o Pão de Açúcar. Nas grandes coberturas, requinte e sofisticação. No chão do jardim monumental, pobreza e dor. Estranha a vida do carioca atento; fitar por todo lado e esbarrar na elegância manchada pelo descaso. Os pobres do Flamengo, os pobres da Praia de Botafogo.

Bonita a Urca como sempre. Bonita e silenciosa. O charme do que parece desconhecido, biscoito fino para poucos. As pessoas estão recolhidas, é o frio. Na Praia Vermelha, basicamente alguns soldados a serviço, mais um ou outro casal corajoso. Continuo tão acompanhado quanto nos tempos em que solidão era necessidade. Mereço uma água de côco, mas não há banheiro por perto. Na cidade, as pessoas não têm direito ao alívio da bexiga sem que paguem por isso, excetuando-se raros casos. Já tomei o Angipress e o Enalapril. Fica para a próxima. Churros cairiam bem. Até hoje não descobri a origem exata: Argentina, Uruguai ou algum outro Mercosur. Seja de onde for, muito gostoso.

O telefone celular toca. Não conheço o número. Não atendo desconhecidos. Aliás, atendo cada vez menos gente. O natural cansaço por tanta ingratidão, desrespeito, falta de consideração. Grandes grupos são para poucos. A sociedade confundiu tudo: amigos não são apenas os que se sentam à mesa de bar ou dividem garotas de aluguel para uma suruba. Ou ainda os que mandam mensagens eletrônicas a cada seis ou doze meses. Amizade é muito mais do que isso. Nada mais mentiroso do que dizer do amigo que é amigo de verdade, que pode ficar longe sempre e continuará amigo. Falácia para justificar omissão e descaso, novamente. Chega de hipocrisia. Sou um velho.

Boteco da Praia, no Flamengo. O caldo verde é delicioso. A carne, também. Estranho que um bar tão qualificado quase sempre esteja com baixa lotação – o que considero ótimo, individualmente falando. Noutra mesa, uma ruiva de arrasar discute com o namorado pelo telefone móvel. Não deixo de notar, com respeito e certa admiração. É que meu amor não dorme, meu amor não sonha e não se fala mais de amor em Gotham City. Um jantar quase silencioso, podemos assim dizer.

Um novo táxi à frente. Não é Leo. Mais uma surpresa: uma motorista. Gosto disso. Abro a porta traseira e cumpro meu papel de cavalheiro com garbo. Voltar a Copacabana, descer a Atlântica em retorno, o Aterro outra vez, o Passeio, a Lapa.

Meu amor não sonha. As pessoas estão recolhidas. A dor do próximo é desimportante. Nossa pátria-mãe gentil é conduzida pela livre iniciativa.

O elevador vermelho, a porta que precisa de reforma.

Ligo a televisão.

Um efeminado âncora da televisão noturna vocifera contra Lula, a quem acusa de proteger José Sarney, o ex-número um, que tem mais de cinqüenta anos de vida pública.

Tornei-me um velho. Não tenho tempo para falácias.


Paulo-Roberto Andel, 31/07/2009

Tuesday, July 28, 2009

PESSOAS



pessoas
tão pessoas
navegam na amenidade
e esperam
o sinal que abre
o trem que pausa
o sol que brilha
até seu fenecer

pessoas
no ir e vir
das grandes ruas
dos velhos bares
tão pessoas
tão felizes e carentes
são avalistas
do sexo vulgaris
da moda cafonália
da amizade banal
sem leme nem pontal*
e fascinam
o turvo da vista
com as vitrines
do centro comercial

pessoas, pessoas
expectadoras
solitárias de tevê
dançarinas
de bate-estaca
e baile funk
esperando
o sucesso acontecer
pessoas, surpresas
com os tropeços
de sarney
saudosas do efeagá
não dá para segurar
pessoas
que pagam impostos
exigem cidadania
mas
parecem tão
impostoras:
escravagistas
pedindo alforria


Paulo-Roberto Andel, 28/07/2009


(contém citação paralela de "Do Leme ao Pontal", Tim Maia)

Friday, July 17, 2009

OUTRA GOTHAM CITY















lá fora, a cena é outra
é muda e provocante

enquanto
meu olhar
se faz contemplação

é o caos e a cidade
com suas vielas
alamedas
uma válvula de escape
a barca, a praça
o paço
um sorriso jogado no chão

alguma aflição

sou turista de minha cidade
meu coração em paixão
tateia sobre o cinza insone
parece que se sente em vão
fustiga um impreciso enorme
num par afável para solidão

cara de cão
açúcar no pão
e um deus de pedra
com o mundo
a seus pés

a cátedra e os quartéis

um cântico de fé
para missionários e fiéis

lá fora, a cena é minha
eu escrevo os personagens
as falas, os papéis
tudo imagina cinema:
o tom e o timbre
a foto e a luz

ninguém me diz o certo
meu estandarte é um porta-retrato
a carregar o que não volta
o que não sente
a imagem que se perdeu

tudo distante do céu de nubla
e a frente que não chega
apenas insinua com seus cúmulos
de prata

um mergulho na noite torta
que desapavora
e se basta
no ir e vir da vida:
ela escorre, sobe
regurgita;
desfaz os planos
da madrugada morta;
acende a vela
para a esperança farta

alguém me lembra martha rocha
num arraial à praia
alguém sussurra alessandra
enquanto não atraco
em meu peito cansado
enquanto o nada
vem me consolar

hoje sou de gotham city
e nenhum sinal no céu
parece digno de me ressuscitar


paulo-roberto andel 17/07/2009

Tuesday, July 14, 2009

O TEMPO NÃO PARA, COM OU SEM ACENTO
















Veio julho, e já chega à sua metade. Os tempos correm.

Dia desses mesmo, eu era um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e naufragado no coração da grande metrópole. O dinheiro continua fugido; os parentes renunciaram. O meu amor virou outro amor, depois outro amor, e agora é outro amor do mesmo nome. Daqueles de um segredo de liquidificador.

Falarei de Cazuza. Um dos grandes poetas de sua geração, que escolheu a música e o canto como forma de expressão. Esqueçam de boemias, homoafetividades e drogas ilícitas – as lícitas, também. A magnitude da obra está acima de tudo, não vê quem não consegue... por conta de alguma grande limitação a ser explicada.

Que prejuízo tê-lo ausente por dezenove anos, completados semana passada. Certamente, teria escrito uma coletânea de canções capazes de reavivar a memória coletiva brasileira, tão perdida para qualquer coisa além de quinze minutos atrás. Quem se lembra do Sivam? Da reeleição de FHC? De Collor? De Marcello Alencar? A chacina da Candelária? Vigário Geral? O caótico tráfego aéreo brasileiro? O apagão? Pois é, cronista urbano que era, Cazuza teria dado conta direitinho do recado. A ponta de sua caneta faz falta.

Meus dez leitores, seis amigos e cem conhecidos bem sabem de minha opinião a respeito da soberba, enorme soberba, exercida por parte da intelligentzia literária brasileira, sempre disposta a exorcizar qualquer poesia que esteja próxima da música. Tamanha barbárie intelectual gera situações patéticas, como a de se analisar a diferença produtiva entre um Vinicius de Moraes “poeta” de um Vinicius “letrista”. Havia um só Vinicius: o gênio. O resto depende de cada manifestação. Rio quando vejo os despautérios propagados por mortos-vivos como Alexei Bueno: desancar a genialidade de Arnaldo Antunes e Caetano Veloso beira o patético. Birra de garoto dono da bola que não é titular na pelada de rua. O principal problema é que os “exclusivamente” literatos morrem de ciúmes da popularidade de alguns poetas da música, e daí vem a indesejável rixa. Uma simples batalha egocêntrica, que nada tem a ver com a qualidade da produção de poesia convencional ou musical.

Como questionar versos de um poeta como “Dias sim, dias não/ Eu vou sobrevivendo sem um arranhão/ Da caridade de quem me detesta”? Ou “Senhoras e senhores/ Trago boas novas/ Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva”? Ou ainda “Porcos num chiqueiro/ São mais dignos que um burguês/ Mas também existe o bom burguês/ Que vive do seu trabalho honestamente/ Mas este quer construir um país/ E não abandoná-lo com uma pasta de dólares”. Cazuza é de uma genialidade agregada a um delicioso deboche, um humor irônico como visto em poucos grandes das nossas letras. Poderia perfeitamente ter publicado seu cancioneiro sob forma poética, exclusivamente – e teria grande sucesso, exceto pelo rancor de meia-dúzia de fanfarrões autoritários, supondo-se alicerces da cultura nacional.

É lamentável ver que deixamos de ter Cazuza vivo em letras há quase vinte anos. Mas é sensacional também ver que, quase duas décadas depois, sua obra permanece com todo o vigor de quando foi lançada: doce, furiosa, provocante e engraçadíssima, entre amores, a cidade e a incontestável pluralidade do ser.


Paulo-Roberto Andel, 14/07/2009

Friday, July 10, 2009

RETICÊNCIAS

I

resto-me
diante do improvável

a incerteza
que se faz tão clara

um retrocesso

exceto pelo sol de fora
tão faroleiro
nave-guia flamejante no vento

o recesso

e um momento

nas horas rudes
onde não caibo
e me afasto

o longe me corteja
por um retrato

o fim já não excita

a mansidão não é pecado

agora sou muito longe
feito o cais que aprecia
a minha vinda –

nenhum murmúrio
ou alarido

apenas o fato


II

nada debaixo do céu
resiste ao pranto

nada debaixo da terra
reveste o conforto

nada no horizonte
é verdadeiro porto,
portanto


paulo-roberto andel 10 07 2009

Thursday, July 09, 2009

Monday, July 06, 2009

DOIS CORAÇÕES SOLITÁRIOS NO CORAÇÃO DA CIDADE



dois corações solitários
fechados com desplicência
andam com mãos dadas
simetricamente entrelaçadas
sob certa inteligência
no leve da flana rasteira:
parecem numa rua do Village
do SoHo
uma Copacabana de happy hour
qualquer
passam ao largo dos transeuntes –
o mendigo, o travesti
a rapariga, o capataz

dois corações solitários
levianos mas sem mágoa
entusiasmados à toa
deleitam-se com sonhos
e dramas e medos –
posso vê-los na fumaça
a verde névoa da ganja
cobiçando um trago de conhaque
e um prato de tremoços:
alforria que não é samba

dois corações
que não tomam partido
não vestem camisa de time
não deliram por métrica
piedade
ou auto-retrato –
tão vastos em seus calores
seus hormônios
o tesão sem medo
que trafega afoito
enquanto os carros engarrafam
enquanto a morte não hesita
e alguma lágrima deságua
de um sorriso lindo qualquer

não passam de meros
corações solitários
furtivos
índios da mesma oca
navegantes fugidios –
o que lhes vale
é o calor das mãos envoltas:
trazem engano em romance
à noite da cidade
enquanto
falsos brilhantes são luzes e piscam
ofegantes
perante o luxo, a miséria
e um falsete sem alarme


paulo-roberto andel, 06/07/2009

Thursday, July 02, 2009

Serenata

um amuleto
em forma de canção

a primavera
tão longe da ação

meu amor à espreita
cândida ilusão

o mar, a maré cheia
a urca sob refrão

o cadafalso
para um caso contente

a lareira
missão da noite quente

mão dada
macia, envolvente

a noite à toa
o desejo inconsequente



paulo-roberto andel, 01/07/2009

Friday, June 26, 2009

O médico, o Bolinha e Michael


I)

Meu amigo Bolinha já esteve comigo em tantos lugares que, desta vez, nem parecia algo inédito. Foram bares, bares, bares, hall da faculdade, viagens, jogos, locais proibidos pela moral e pelos bons costumes, cemitérios, camelódromos, buracos variados. Agora, definitivamente o tempo passou: combinamos de ir juntos ao cardiologista. Cogitei até um adiamento; afinal tinha o sensacional jogo da seleção...quem? Uma gatinha do meu trabalho me disse que o médico era mais importante do que futebol. Não concordei, mas achei melhor ir. Estranhos os caminhos do ser humano.

Não gosto de médicos. Melhor dizendo, não gosto de certa frieza que contamina a classe médica no atendimento ao próximo. Talvez seja algum trauma de tanto ter acompanhado minha mãe a clínicas. Ou meu pai, que passou um ano internado. Ou o Xuru. Ou o Fred. Não gosto. Ironicamente, comecei minha vida profissional em um hospital: o garboso Philippe Pinel, em Botafogo. Já se foram quase vinte anos. O tempo passou.

Simpática a moça do eletrocardiograma. Tinha algo de kraftwerkiano naquilo. Não posso morrer agora: tenho que pagar dívidas, escrever livros, amar uma mulher linda e voltar a ver o Fluminense campeão do mundo. Hoje é dia vinte e cinco de junho, uma data sempre especial, inesquecível e, até bem pouco tempo, cercada somente de alegria: aniversário de uma das mulheres mais bonitas, charmosas e simpáticas que conheci na Terra, Luciene Magnani. E claro, o dia marcado pela maior conquista da história Tricolor no Maracanã, maior até do que o campeonato mundial de 1952 ou o bi de Assis: o título do Centenário, com o gol de Renato. Não morrerei. Estatística serve para isso: ler gráficos. Há estabilidade no eletro. Ufa.

Simpático o Doutor Mário. Parece com alguém que conheço, mas não lembro. Parece jovem para um médico que cuida da mãe do Bola. O primeiro cardiologista que faço rir. Achou engraçado que Bola tivesse marcado minha consulta. Expliquei: somos amigos há vinte anos; não gostamos de médico; não formamos um casal gay; gostamos de mulher, inclusive feia (Bola, muito mais do que eu); achamos bom que dois gordos fossem se consultar seguidamente – isso poderia aplacar a ira do doutor para com os de peso. Ele riu. Passou os exames chatos de sempre. Pulso normal, coração normal, um remedinho. Meu IMC nem está ruim como se poderia imaginar. Raras vezes me senti tão bem em um ambiente tão hostil. Bola também foi bem. O tempo passou.

Há muito não navegávamos pelos bares do Méier, onde não se bobéier. Tem algo ali de Alexandre Machado. Tem algo da Magnani. Algo de Sonia Chrystina. E, claro, do inusitado Alvaro Doria. Algo de Copacabana na Dias da Cruz, da avenida Copacabana entre Figueiredo de Magalhães e Siqueira Campos, para os que me entendem. Fomos felizes. É bom não estar à beira da morte numa consulta hospitalar.

Cabia uma comemoração.

Somos gordos sem-vergonha, irrereventes e suficientemente desajustados para entrar no rodízio de pizzas da Parmê, minutos após termos sido absolvidos pelo Doutor Mário. Poderíamos ter sido salvos se prevalecesse a pão-durice do Bola, reclamando do preço abusivo para se comer trinta fatias de pizza e beber hectolitros de refrigerante de cola. Rapidamente, o empurrei para dentro do restaurante.

Nossa vida tem sempre algo engraçado.

Antes das fatias, rápida passada pelos cedês das Americanas, no shopping. Não resisti a um Led Zeppelin, mesmo com “Stairway to heaven”. Dez pratas. Bola é meu amigo, mas é pão-duro; Seal estava de grátis, ele pegou... mas refutou. Tio Patinhas! A garota no caixa era uma morena bela; quando tentei pagar, ela falava ao telefone e parecia delicadamente sexy; enquanto isso, Bola se abaixava para pegar um DVD de Michael Jackson que estava no chão e que, involuntariamente, havia pisado em cima:

- Que é isso, mano, quer pisar no Michael?

- Pó, cara, ele tá caidinho.

Risos tolos, feito os dos tempos da faculdade. Nem sabíamos do que acontecia do outro lado da América.

Parmê. Uma morena jovem, linda, fofinha e grávida. Uma turma de adolescentes em festa. Gritos, risos, gente. E falamos da vida, do amor, do passado, de como foi bom rever Dino no Orkut. Nem tudo florido: também dizer sobre os que considerávamos amigos, que se afastaram.

Foi divertido. Bom viver os pequenos prazeres da vida. E descobri algo inédito: ir ao médico com um grande amigo pode ser menos incomodativo. Coisas boas acabam cedo. Hora de voltar para casa. Ouvir Jimmy Page. Pensar no dia seguinte.

Veio um 239, o motorista não parou. Eu estava no ponto errado, de forma que o considero absolvido. Mas esperei outro vir. Cinco minutos, chegou. Vazio. Antes disso, falei com um rapaz que estudou Direito comigo, Guilherme. Coisa rápida, um olá, um abraço. O fiscal libera, o coletivo parte rumo à Marechal Rondon, zona de tensão da vida carioca. E tocou o telefone. Eu queria que fosse a Tati, ou saber notícias do Leo, ou alguma palhaçada do Zé. Era o Bolinha, em tom assustado e impactado:

- Cara, Michael Jackson morreu!

Levei um soco.

II)

Mais à tarde, Leo passou lá em casa. Cansado do trabalho, do desgaste. E triste.

Leo tem pouco mais de vinte anos.

Milhões de jovens têm pouco mais de vinte anos. Não viram “Thriller” no auge, mas acusaram o golpe do mesmo jeito.



III)

Talvez a melhor síntese que se possa fazer a respeito de Michael Jackson seja, de alguma forma, na constatação de milhões de pessoas que estão muito tristes em todo o mundo hoje – num mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, a manifestação de luto em todo o planeta é um sinal da importância de Michael Jackson. Preto ou branco, no auge ou no recolhimento, o que Michael deixa é a impressão de que havia um gênio com muito mais coisas ainda a mostrar. Não alinho com os que lhe impingiam a condição de pedófilo – sua trajetória de ações filantrópicas é gigantesca e multimilionária, em total desacordo com as acusações. Com erros e acertos, excentricidades e um talento inigualável, alinha-se com outros gênios desaparecidos precocemente: John Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain, Renato Russo, Cazuza. Uma perda lastimável, injusta e muito antes do razoável.

O tom da voz do Bolinha no telefone me comoveu.

Não tenho crença, mas aquela situação do DVD no chão me comoveu.

Lembrar da minha mãe dizendo que adorava aquele neguinho me comoveu.

Lembrar de “Rock with you” me comoveu.

Chegar no trabalho hoje e ver as pessoas chateadas com o fato me comoveu.

O tempo passou. Hoje é vinte e seis. Meu desaniversário. Estou triste por hoje. A ponto de não escrever o suficiente sobre o rei do pop. Até mesmo porque não há palavras suficientes para descrevê-lo.

Quem viu, viu. E sabe do que estou falando.


Paulo-Roberto Andel, 26/06/2009

Monday, June 22, 2009

TRAVESSIAS


I)

longe de mim

o cultivar realidades

longe de mim

o ofício do concreto

não tenho apreço

pelo óbvio

e sim pelo que mereço

em ócio

o reto não me contempla

nem o berco-esplêndido

de um lugar-comum opaco

longe de mim

disseminar frieza

a beleza está no que me importa

no que me reza amparo

longe de mim

a pureza por decreto

a porta aberta para o descaso

longe de mim a empáfia

para o norte, sou oeste

noite taciturna, túrgida

perante o celeste a fenecer

enquanto gastam o tempo

procurando o neo-moderno

decretando céu e inferno

minha contemporaneidade

é viver


II)

acordo

aborto o sonho

e te vejo nua

nua de um jeito que impressiona

me intumesce

olhar de perto teu dorso

te colo, teu peito

riquezas tão desejáveis

a ponto até

de me fazer pensar em prece

acordo

e te vejo em pêlo

minha

num repouso delicado

me alimento

das delícias

do teu corpo

pequenas porções

de lambida

manjar de cheiro

um beijo

acordo

e me vejo aceso

te vejo nua ao lado

e cobiço

teu desenho

tuas curvas, teu ballet

meu carinho

deitado em teu querer

te namora

ardentemente

sem calma –

paixão em carícia

profana

quase ré


paulo-roberto andel, 22/06/2009

Monday, June 15, 2009

POEMAS CURTOS













I

para o couro cru
há osso

a carne de pescoço
no sopro da miséria

e o mistério
da vida nua
na epopeia
de saber o que
fazer
depois do fim -
cemitério?



II

a prece o terço

a novena o escapulário

onde jorra minha fé
além do abecadário?



III

habitar silêncios
espaços e sussurros
tem resquício
de busca
pelas pequenas
vilanias
da palavra -
a obsessão da
sí la ba tônica
e sua contraditória
átona

no meio do caminho
entre torrentes e caos
ávido
o poema emerge



IV

reluz
aquele olhar diamantino
pedra preciosa
pepita rara
em traje esporte fino
memorial de carne
generosa mulata



V

vive a vida
quem vê o outro
e não quem
vê somente
olhares em cima
olhares sem sina -
olhar em si
é dó
e desafina


paulo-roberto andel, 15/06/2009

Wednesday, June 10, 2009

BASTA

















o que não basta

é o pouco

o ralo

o tênue


o que não basta

é o íngreme


o que não basta

é o raso

o frágil

o difícil


o impossível não entende

é fogueira que não acende


o que debasta o viver

é o ser


paulo-roberto andel, 09/06/09

Friday, June 05, 2009

CAPITAL

















meu coração é a rua

do centro comercial

duma grande capital

no ocaso de domingo -

é o vadio, o vazio

quase aprazível

mas tinindo, tinindo

meu amor não se reflete

mas também não desacata

é só o frio lá de fora

disfarçado na turquesa

horizonte? beleza?

a procissão que não demora

um receio se descontrola –

nem cama, nem mesa

meu coração é da rua

da praça

da viela e o boulevard;

faz a prece para ninguém,

reclama quando lhe convém,

abusa de escutar -

cabe calado numa sentença;

espera lúcido, sereno,

pela glória d’alforria;

disfarça, sentado,

que não chora:

nasceu para além-mar,

não o concreto

dos arranha-céus

arregalados

sem viver

o descansar.


paulo-roberto andel, 05/06/2009

para leonard cohen


Thursday, June 04, 2009

SKY BLUE SKY












o inverno,
fora de hora,
que tira o afago
dos corações solitários

é o mesmo

que galanteia
o rigor da roupa
o calor do chocolate
o cobalto no céu
de lua cheia

o inverno
é distraído
enquanto há morte
nos arredores –
o mote da morte
numa chacina miserável

no abandono dos sofridos

na cor do atlântico
a esconder o sangue

da desgraça
sem abono

o inverno
imerso em cinza

algoz da calçada

parente distante do Rio

ilógico, acredito
na promessa
de bom sonho
à madrugada
por um detalhe
arredio na espera:

ele, inverno,
sem mágoa,
é nesga
da primavera


Paulo-Roberto Andel, 04/06/2009

Tuesday, June 02, 2009

GRANDES POETAS



CACASO

então
senti que o resumo
é de cada um
que todo rumo
deságua em lugar comum
então eu monto num cavalo
que me leva a Teerã
e não me perco jamais
quando desespero vejo muito mais
essa canção me rói, feito um mistério
essa tristeza dói
meu fingimento é sério
como aéreo é sempre todo amor


TORQUATO NETO

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


MANOEL DE BARROS

a poesia,
a poesia está guardada nas palavras
é tudo que eu sei
meu fado é não entender quase tudo
sobre o nada eu tenho profundidades
eu não cultivo conexões com o real
para mim poderoso não é aquele
que descobre o ouro
poderoso pra mim é aquele
que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas
por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil
fiquei emocionado e chorei
sou fraco para elogios.


ARNALDO ANTUNES

alta noite já se ia,
ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia,
ninguém com os pés na água.
nenhuma pessoa sozinha
ia, nenhuma pessoa vinha.
nem a manhãzinha,
nem a madrugada,
alta noite já se ia,
ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia,
ninguém com os pés na água.
nenhuma pessoa sozinha
ia, nenhuma pessoa vinha.
nem a estrela guia,
nem a estrela d'alva,
alta noite já se ia, ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia,
ninguém com os pés na água.


CARLITO AZEVEDO

rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

Friday, May 29, 2009

APOIO AO MOVIMENTO “CADÊ PATRICIA?”
















APOIO AO MOVIMENTO “CADÊ PATRICIA?”

EXISTEM QUESTÕES QUE NÃO PODEM DEIXAR DE SER MENCIONADAS.

SÃO QUESTÕES DE ORDEM PUBLICA E SOCIAIS.

QUESTÕES QUE, QUANDO SE CONSTITUEM EM PREOCUPAÇAO DA SOCIEDADE, QUE COBRA O QUE LHE É DEVIDO, TÊM MUITO MAIS CHANCES DE SER SOLUCIONADAS.

ACREDITAMOS QUE DEVE HAVER SEMPRE RESPEITO DAS AUTORIDADES CONOSCO, CIDADÃOS. POR ISSO, APOIAMOS O ESFORÇO DA FAMILIA AMIEIRO FRANCO EM ESCLARECER O DESAPARECIMENTO DE PATRICIA AMIEIRO FRANCO.

A FAMÍLIA TEM DIREITO A RESPOSTAS.

A SOCIEDADE TEM DIREITO A RESPOSTAS.

CONVIDAMOS A TODOS PARA QUE ACESSEM O SITE WWW.CADEPATRICIA.COM.BR, E VER DE QUE FORMA PODEMOS AJUDAR. SEJA ATRAVES DE E-MAILS, MENSAGENS EM SITES, PARTICIPANDO DA COMUNIDADE NO ORKUT OU COMPARECENDO À MANIFESTAÇÃO QUE SERÁ FEITA NO DIA 07 DE JUNHO, DOMINGO, ÀS 10 HORAS, NA AV. SERNAMBETIBA 4.250, CONDOMINIO VIVENDAS, POSTO SEIS DA BARRA DA TIJUCA.

DIVULGUEM ESSA NOTÍCIA.

ESTAMOS JUNTOS NESSA!

Tuesday, May 26, 2009

A penúltima vox do Brazyl




















Paulo-Roberto Andel, 26/05/2009

Friday, May 22, 2009

SOY LATINO-AMERICANO E NUNCA ME ENGANO
















ZERRODRIX

Era 1976 para 1977. Tempos de horror; minha mãe chorava todo dia por problemas na família. Morávamos em Madureira, ou Vaz Lobo, temporariamente; coisa de uns seis meses, mas não era fácil. Lá fora, a Máquina Tricolor dava shows e ganhava campeonatos, mas eu ainda estava com meus carrinhos e um playmobil.

Perto de casa, uma pequena lanchonete. Uma das melhores coxinhas de galinha que já comi em minha vida. Mãe sempre pedia para buscar um lanche lá. O rádio tocava uma canção:

- Soy latino-americano, e nunca me engano... nunca me engano!

Um dia, até a dor passa. Voltamos para Copacabana.

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Nos últimos dias, uns quinze, talvez sedento por redescobrir intensamente uma das minhas bandas da juventude, ouvi com intensidade o Joelho de Porco – provavelmente a melhor banda de rock-humor do Brazyl em todos os tempos, ainda que o humor esteja sempre presente em qualquer rock.

No YouTube, as delícias de se rever “A última voz do Brasil”, um dos eternos clássicos pop do nosso cancioneiro. Apresentação antológica no Festival dos Festivais, com direito a orquestra e coro.

David Drew Zingg, um dos pilares da fotografia mundial, com nariz de porco, claro, e seu sotaque inconfundível. Tico Terpins, também antológico. Prospero Albanese aos potentes gritos. E Zé Rodrix, com seu timbre ímpar e seu jeito de compor também (o piano de “A última...” é a cara dele).

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Parceiro de Sá e Guarabira, bem-sucedido na carreira solo e nos jingles, inevitável artífice do Joelho de Porco, Zé Rodrix é um dos gênios brasileiros que o povo não escutou direito – e a crítica não entendeu direito.

E mesmo que não fosse nada disso, tá lá tatuado na minha infância e na minha adolescência.

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Ontem, fiquei triste. Aniversário de um ano da morte de meu pai.

Quando nos deparamos com a dor interminável, o jeito é buscar alívio.

Lá estava eu, com obsessão catalânica, diante do computador, para mais uma sessão de “A última voz do Brasil”. Rir é sempre um bom remédio, ainda que o Joelho, sob risos, denunciasse um Brasil bizarro que aí está até hoje.

O vídeo tem quase dez mil acessos no YouTube. Expectadores deixaram seus comentários por lá. Um deles, patético:

- A banda é ótima... pena que o chato do Zé Rodrix apareça o tempo todo.

Perdoai-o, señor; ele não sabe o que diz. Teu Deus do céu, que palpite infeliz.

Último play. Stop. Desativar.

Leo sumiu, Taty estava ocupada, Bola letrou um caô.

Éramos eu, doze pães franceses, queijo cheddar, coca-cola. Hamburgers.

E um pouco de jazz.

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Acabo de chegar ao trabalho.

Zé Rodrix acabou de morrer, no mesmo dia em que meu pai, um ano depois. Poucas horas depois de tê-lo visto mais uma vez em vídeo. Deveria ter sido proibido o seu falecimento, assim como os de Candeia, Tom Jobim, Sivuca e Blecaute e muitos mais. A única hora em que o autoritarismo poderia ter alguma utilidade.

Minha família foi embora.

E a música do rádio, também.

Eu quero um Joelho de Porco para mim!


Paulo-Roberto Andel, 22/05/2009

Wednesday, May 20, 2009

ÁGATA












maio já está no final*
o atlântico, serenamente,
namora a dorsal;
não são só dois, não só casal
por um instante reticente:
muita lenha há para se queimar
sem par e tal

anseia o pano
que navega aquela pele;
atiça o colo
num pecado carinhoso;
inveja a plebe
que não tem tamanha verve;
invade os sonhos
num olhar de fogo aceso

é a lua, tão nova e indiscreta,
mal-disfarçada numa nesga,
que se revela e desnuda -
quem a bem repara
não alimenta rusga,
apenas uma tátil canção
de pólvora:
todo amor no continente,
meu prazer no horizonte,
tom num jazz latente,
certo tesão sem máscara

por ela, querela é pétala;
por ela, rancor é mingua;
meu coração
é uma escola de samba
e tateita, tateia:
ah, lua cheia,
ágata da minha vida!
jóia pequena do meu desejo,
doce licor da lascívia em sina;
negrume aos olhos, aos cabelos,
ao céu rebento,
sem retrocesso:
lua, não me despeço!
teus versos são fonte
que nunca termina.



Paulo-Roberto Andel, 19/05/2009

(Contém trechos de “Maio”, Paula Toller e George Israel, 1998)

Tuesday, May 19, 2009

VOCÊ, VOCÊ!
















você, que me liberta
você, que me acelera
você, que faz da hora e meia
meu viver noutro planeta
você, castelo de sonhos
que não me trai nem desampara -
você me regenera!

é por você que canto,
é por você que sonho,
é com você que vibro
num carnaval fugaz;
você, minha crença;
você, melhor sentença
do meu coração em paz


Sou Tricolor desde que nasci; talvez, antes disso. Nunca deixarei de ser. Quem conhece as cores, as gentes e as moças da minha arquibancada sabe muito bem do que me orgulho.

Paulo-Roberto Andel, 19/05/2009

Monday, May 18, 2009

SHORT CUTS - CENAS HUMANAS E UM BESTALHÃO



Sexta-feira, dezenove horas.

Não escuto a “Voz do Brasil”, mas sim a campainha.

Fernando, meu amigo. Vinte e sete anos sem contato visual não-virtual. Os tempos voam longe.

Trinta segundos de um forte abraço, e tudo volta como era antes.

Jogos de futebol no rádio, com Waldyr Amaral e Jorge Curi. Saldanha comentava, os repórteres de campo eram Kleber Leite e Loureiro Neto. No Botafogo, Borrachinha, China, Ademir Lobo e Mendonça. Fluminense? Wendel, Miranda, o velho Moisés, Edinho, Pintinho. E Nunes.

Amigo é amigo, não importa a pausa. Aperte o botão, e a fita cassete continua do ponto onde parou. Tanto faz se havia Muro de Berlin, Jimmy Carter ou Roberta Close. O mundo gira, a Lusitana roda.

Camarão no Bar do Peixe, coisa fina. Pequenos regalos da vida.

Estamos de volta.

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Sábado nublado pela manhã, deixo a casa de Dória, no Méier. Rimos muito por lá. Não direi o assunto.

Preciso chegar em Niterói, onde Gustavo e Irene me esperam para um almoço. Um grande almoço. Na casa deles, qualquer refeição é monumental.

O Méier é terra das meninas lindas. Sempre. Antes, havia Luciene, Sonia Chris e mais outra, que não merece tamanha audiência. Deixe estar.

Desço a Dias da Cruz, movimentada como lhe convém.

Uma senhora na contramão. Quarenta e poucos anos, talvez mais. Nas mãos, uma caixa de doces. Não está vestida humildemente, não parece uma trabalhadora de rua, uma vendedora de balas. Caminha lenta, mas firmemente. E chora.

Por conta das lágrimas, tento lhe falar algo, mas delicadamente ela faz um aparte, mostrando a palma da mão livre, e segue seu caminho. Outra garota tenta, em vão. A senhora parece numa procissão de dor. O resto da turma segue indiferente, fingindo não ver e, conseqüentemente, se omitido. Preocupação com a dor dos outros, para eles, é comunismo.

Em sua recusa de compartilhar a dor, em sua caminhada serena de morte, em sua tristeza infinita, a moça tem uma dignidade

Vem o 247.

A garota senta perto de mim e me pergunta o que tinha acontecido com a senhora.

Nunca saberemos.

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A casa de Irene é para se ouvir sua risada. Talvez seja um dos únicos lugares na Terra onde ainda me sinto em casa, além de não querer vir para minha própria casa quando chega o fim da atividade. Confesso que já deixei mais de uma namorada na mão só para ficar lá. Confesso também que não me arrependi, exceto num dia em que um louco chato defendia a democracia de Armínio Fraga.

Meu casal de amigos é daqueles para você ficar conversando por horas, horas e horas.

Aproveitei o ensejo para fazer uns golaços no futebol de botão.

Antes, fala-se de tudo: programas trash, esportes, gente bizarra, chatos, canções, biscoitos e até o incrível fato de um sexagenário efeminado sedento por manjar meu “bilau”, como saberemos adiante.

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Domingo era dia de Fred.

Dizem que Fred morreu. Eu vi, mas não acredito. Eu acredito, mas não confio.

Fred é meu pensamento, é minha lembrança e meu arsenal de risadas.

Fizemos um almoço-chope-tributo ao amigo querido. De meio-dia até três ou quatro da tarde, talvez. Delícias da Cobal do Humaitá.

Fechamos conta às oito.

Ri muito com Jorge Pinto. Um dia, eu conto.

Fred vive, do jeito dele e nosso.

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Eu prometi que não ia mais falar de meus três detratores, mas priorizar meus cem fãs do Orkut, meus trezentos amigos e todas as pessoas de bem que visitam meu blog. Dos três apedeutas, dois sossegaram o facho, talvez por traço no Ibope. Restou um.

Peço pausa para uma vezinha. A última. A piada é boa demais para ser verdade. Conversei com uma gata-jornalista sobre o tema e ela me incentivou.

Em quinze anos de vida eletrônica, já vi de tudo em e-mails, listas, sáites e blóguis. Mas a surpresa é sempre uma possibilidade.

Recebi uma mensagem dum sujeito por estes dias. Mensagem, não; um número dois, vindo de um número dois com cérebro de número dois. Da natureza dos covardes, assinou como Anomymous. Compreendo: se eu também fosse um covarde e não tivesse sequer vinte reais para pagar uma conta de luz (quanto mais as custas de um processo judicial), por exemplo, faria o mesmo. Pensando bem, não faria.

Não um leitor, propriamente: na verdade, um borra-botas, vociferando contra mim palavras de baixo calão que, por conta de sua frouxidão, jamais serão repetidas em minha frente, na cara – a marca registrada dos covardes. O dito cujo teria idade para ser meu pai – caráter, não. Mas exerceu o direito democrático de escrever tolices como se fosse um pós-adolescente, repetente incessante no segundo grau. Tudo bem, um idiota a mais, um idiota a menos, está na média. Nem todo mundo tem culpa de ter trinta anos a menos de idade mental. Também não terei, caso o encontre na rua e coloque seu focinho na nuca num estalar de dedos: agirei sob forte emoção, à letra fria da lei. Mas não comemoro: quebrar meia-dúzia de dentes podres de um fracote não é nenhuma vantagem para um boxeur – no caso, o oponente é um bunda-mole que não resiste a dois segundos de luta.

Anonymous, na verdade, é um ser(?) vinculado à espécie Desocupadus Caqueticus Durangus, mais precisamente dentro do gênero Sexagenarius Fracassus Artisticus. Não é catalogado como uma criatura em extinção; na verdade, nem catalogado está. Sua crônica incapacidade de atrair fêmeas para um simples bate-papo não permite a propagação dos genes: efeminado, tenta acasalar por meio virtual, sem nenhum sucesso; confuso, usa Viagra como supositório e acha o comprimido “pequeno”.

Em suma, como diria Catalano... um bestalhão – tudo enquanto exerço minha modesta profissão em minha pequena sala refrigerada (sem riscos de corte de luz por inadimplência), com renda e estabilidade; escrevo, converso, brinco, vejo o Fluzão, ouço música, transo bem, beijo bem, como churrascos e leio Hemingway.

Um invejoso porque mulheres lindas e cultas, camaradas de alto nível moral e intelectual me elogiam aqui.

Tenho culpa?

Duas coisas me chamaram a atenção. Nenhuma por importância, mas pelo ridículo.

A enorme fixação redigida que o "remetente" apresentou por meu órgão sexual e minha barriga, demonstrando ser portador de SIVA.* - deixo claro que o ofensivo baitola não me patolou, embora possa ter desejado contemplar minha ereção (ARGH!).

O fato de um sujeito, em 2009, para parecer “descolado” ou “malandro” utilizar a expressão “sacumé” em seu deprimente “texto” fedendo a chorume. Raras vezes vi algo tão cafona, ultrapassado e fora de tom. Merecia um Troféu Abacaxi no Chacrinha. Nem os hippies de barba-suja-de-macarrão sobreviventes de Woodstock aceitariam tamanha breguice. Sinal completo de coma sexual. Decadência.

No fundo, no fundo, estas linhas finais não passam de uma verdadeira boa-ação; trata-se da única chance de Anonymous ser conhecido ou discutido por trezentas pessoas: sendo mencionado em meu blógui.

Pela última vez.

Este é seu trajeto de vida, velório e enterro. Morreu como viveu: sob indiferença e uma ou outra risada.

No mais, Revertere Ad Locum Tuum.

Pá-de-cal.

Gargalhadas. Muitas.

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Trezentos amigos, eu gosto de vocês.

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* SIVA = Síndrome da Viadagem Adquirida.


Paulo-Roberto Andel, 18/05/2009

Friday, May 15, 2009

RÉQUIEM PARA UM FRACASSADO


Paulo-Roberto Andel, 14/05/2009

Thursday, May 14, 2009

RUAS ESTRANGEIRAS


















nada nestas ruas
ergue os alicerces
das imagens familiares
aos meus sonhos,
nada

esta gente
humílima e sofrida,
de mãos em súplica
e veias saltadas de dor;
essa gente
indiferente e solitária,
com frieza à queima-roupa,
visando vida
com a miopia das vitrines;
aquela gente pusilânime,
hipócrita e covarde,
escória da raça vil e traiçoeira

não tropeço nas banguelas
das pedras portuguesas
que adornam estas calçadas –
elas já não me enganam

não me reconheço
nas praças gradeadas;
nos condomínios de grande luxo
e vida mínima,
entrincheirados,
fazendo vezes de masmorra;
meu rosto não reflete
nos letreiros atônitos
a destrinchar língua importada,
e nem nas esquinas inexistentes.

o toque de recolher,
a mudez do samba
e o sangue derramado
feito leite azedo
não me identificam

estou bem longe destas ruas,
estou farto daquela certa gente
que se proclama decente,
mas carrega um ventre em lodo

não sou daqui

entrevado,
caibo na delícia
de me sentir tão forasteiro;
um estrangeiro bravio,
talvez inútil,
mas nem por isso
menos certeiro
sobre a inércia que nos cerca:
falta pólvora no pavio!


Paulo-Roberto Andel, 26/06/2008

Wednesday, May 13, 2009

TREZE DE MAIO?












Caros amigos,

Já cantava o genial Caymmi: “Vida de nego é difícil, é difícil como o quê”.

Mais um treze de maio à vista: cento e vinte e um anos da chamada abolição da escravatura no Brasil: gesto digno, importante, tardio e que, por má execução, acabou não abolindo quase ninguém. Um século e a desigualdade social está ao alcance das mãos, exceto para parlapatões como Demétrio Magnoli, Ali Kamel e o (sempre necessário dizer) parajornalista Mainardiota – todos, sempre com dados estatísticos às mãos e um arsenal de manipulações, aplaudidos por ignorantes deslumbrados que imaginam um Brasil que só existe na Avenida Paulista e na antiga Sernambetiba. Abolição?

Pelas tabelas, há os que vociferam contra o sistema de cotas, tema polêmico, rico e necessário. Reconheço falhas gritantes no sistema vigente, que precisam ser discutidas e realinhadas; entretanto, os mesmos que latem não apresentam qualquer alternativa plausível para a inserção sócio-educacional dos pobres – quando muito, as falácias tão seculares quanto o maio da princesa Isabel: é preciso criar uma “revolução” no ensino fundamental, dizem. Não fosse a hipocrisia de quem a profere, haveria validade plena: de modo algum as classes mais favorecidas têm interesse em revolucionar o ensino público e permitir incrementos aos mais pobres – muito pelo contrário, não admitem publicamente, mas defendem o status quo. Qualquer sujeito sabe que o sistema educacional brasileiro está em processo de degeneração; entretanto, se uma ansiada grande mudança acontecesse a partir de hoje, o que se faria por exemplo com os jovens entre 17 e 19 anos, potenciais estudantes acessando o ensino superior? Enquadrá-los na famigerada Lei de Odracir? Nossos homens de mídia parecem “conhecer” muito de ensino e desenvolvimento, mas são completamente ignorantes em termos de direitos subjetivos. Negar a exclusão social histórica dos negros e seus descendentes no Brasil é vestir na cabeça um chapéu de cone. Em contraprova, os cotistas de meu berço, a querida UERJ, mostraram recentemente melhor pontuação média nas disciplinas, contrastados com os não-cotistas. Esforço hercúleo, dedicação? Ou a comprovação de que o fato dum sujeito ser abonado, ter feito cursinho e ter passado num vestibular público não o torna “mais preparado” do que outro sujeito que, sem as mesmas condições, tenha ingressado na universidade pelo sistema de cotas?

Morri de rir estes dias, lendo um conhecido em seu blógui: faz campanha contra o Bolsa-Família e a vergonha do desvio de dinheiro público. Retrato típico da nação: é funcionário público, ganha quinze mil por mês por um trabalho que, no setor privado, teria um terço dessa remuneração, e vem jogar o problema nos pobres? Um gesto altruísta cairia bem: simplesmente pedir exoneração para poupar o Estado. Ah, isso não.

Há vinte e um anos, ingressei na UERJ, com boa pontuação vestibular num curso de procura restrita, o de Estatística. A ciência em questão mostrava e mostra que, no âmbito nacional, os cursos públicos de graduação com menor relação candidato-vaga tendem a ter um maior número de alunos não-louros-de-olhos-azuis, justamente porque a classe loura-abastada direciona seu poder de fogo e seu preparo “intelectual”, em cursinhos que podem até custar dois mil réis por mês, para os cursos de “doutores”: Direito, Medicina, Odontologia, Engenharia et cetera. Quando você vai a um consultório médico particular ou clínica, não há porque se surpreender no fato de que o médico/ médica que te atende nunca é preto/ preta, nunca é pardo/ parda, nunca é mulato/ mulata. O enfermeiro enfermeira, pode ser. Ah, sim, minha graduação. Começamos com cento e vinte alunos. Quatro pretos. O Brasil é plural. Há advogados pretos, muitos. A minoria, nos grandes escritórios. Quem não se lembra da comemoração feita quando da nomeação do Ministro Joaquim Barbosa para o STF, por ser o primeiro preto lá? Um século de hipocrisia no país da democracia.

O Brasil é plural e convive bem com isso, dizem. Ô. Mas depende da questão geográfica. Em Ipanema, por exemplo, e tão-somente exemplo, bairro-paradigma do Brasil, há muitos pretos. Podem fazer o censo: os locais moram, em sua maioria, nas comunidades de Pavão-Pavãozinho e Cruzada São Sebastião. Pretos na Vieira Souto? Flanelinhas, seguranças de terno ou porteiros. Alguém sabe dizer de algum síndico da famosa avenida litorânea, que seja afrodescendente? Pois é. Por que o Leblon tem mais louros-de-olhos-azuis do que o Catumbi? Por que em Madureira os nordestinos estão mais próximos do empresariado do que no centro da cidade? Por que Japeri tem uma infra-estrutura pior do que o Méier? Há várias respostas; todas, de alguma forma, esbarram num mesmo item: renda.

Mudemos de bairro: comunidade do Jacarezinho. Tem algum morador louro-de-olhos-azuis que esteja cursando faculdade de algum dos cursos que enunciei noutro parágrafo? Cartas para esta redação.

São apenas citações. Não estou aqui tratando de parametrização estatística, embora meu diploma me permita tal chatice. Apenas coloco em discussão algumas máximas insistentemente repetidas pela mídia, repercutidas pelas maritacas falastronas sem a menor reflexão. Em suma, a coisa não é bem do jeito que tentam pintar.

Cotas e bolsa-família, reitero, são paliativos. Paliativos. É preciso mais do que isso se querem transformar o país de verdade. Mas têm importância fundamental no Brasil de hoje, que é bem menos pior do que aquele feito pelo desgoverno de Fernando Henrique. Há muito o que fazer: extinguir deputados que se lixam para o povo, prender bandidos engravatados multimilionários, fazer do Brasil um verdadeiro Brasil – o que é impossível através da “livre-iniciativa” (que nunca foi livre) tão propagada pelos jornais, revistas e patetas de plantão.

Hoje é treze de maio. Falam tanto dos feriados. O país para. Lorotas. A Alemanha também tem. Deveria ser um dia de reflexão para tudo o que acontece nesta terra.

Kamel, Magnoli e Mainardiota são lacaios da renda. Não o fossem, direcionariam seus impropérios contra o movimento nazista veiculado nestes dias pelos noticiários, que está ramificado em todo o Sul Brasileiro.

Não deram uma palavra.

Logo eles, que deveriam se considerar também “afrodescendentes”, num país justo, plural, miscigenado, eqüitativo e que, por isso mesmo, deveria abrir mão do sistema de cotas e do Bolsa-Família.

Sou do tempo em que preto tinha medo de nazista. E branco também.


Paulo-Roberto Andel, 13/05/2009

Tuesday, May 12, 2009

A ÚLTIMA VOZ DO BRASIL!














São quinze pras sete, tá quase na hora
de ouvir pelo rádio a última voz do Brasil

Calem a boca, cantores do rádio!
Tá quase na hora da última voz do Brasil

Vocês não vão saber de nada mais!

Fechem a porta, apaguem as luzes,
acendam as velas para a última voz do Brasil

Em Brasília, dezenove horas!

Aviso aos navegantes: mar de pequenas praias,
calmaria, bóias de luz!

O preço da soja, o dilúvio no Acre
já foram notícias na última voz do Brasil

Os navegadores perderam o rumo,
sem ter as notícias da última voz do Brasil

Vocês não vão saber de nada mais!

Sete e quarenta, tão todos na sala
ouvindo as notícias da última voz do Brasil

Panela no fogo, ampulheta (barriga) vazia,
e aquela folia da última voz do Brasil

Nunca mais vamos ouvir o Guarani

Já passa das oito, barriga vazia
e aquela folia da última voz do Brasil

De agora em diante, é tudo silêncio
e nós nunca mais ouviremos a voz do Brasil

Nosso consolo é ver a TV
Brazil has no more radio service today

Vamos tentar mais uma vez
a última voz do Brasil

A insensatez que você fez
querer ser burguês no Brasil

Atriz atroz, atrás há três
folias de reis no Brasil

E os carnavais nos hospitais
se ouvem na voz do Brasil


(Prêmio de melhor letra no Festival dos Festivais, 1985)

Monday, May 11, 2009

Fosco



inenarrável
a beleza,
tão sozinha
no fosco da tarde,
tão sozinha
no vazio da fala,
tão sozinha
frente à multidão,
que significa
essencialmente
a própria
consolação

indesculpável
a beleza,
tão formosa
mas tristonha;
tão delicada
mas tenebrosa;
insaciável
medonha,
desamparada,
dadivosa

inconteste
a paixão,
a secura
e a dor –
pois não?
sem par,
nem cor dão


paulo-roberto andel, 11/05/2009

Friday, May 08, 2009

Meu dia de Mainardiota!





















Provei do meu próprio veneno, embora sem as intenções maléficas da maioria.

Não era meu intento, mas cheguei lá.

Tenho inimigos virtuais, tal como Mainardiota, o parajornalista do conhecido e lamentável veículo semanal da Editora Abril. A diferença está nos números, sempre eles: Mdiota tem milhares; eu, três.

Tento analisar as razões. Afinal, meu blógui é desconhecido – embora, sem falsa modéstia, o autor seja de boa cepa. E... não sou capanga de Daniel Dantas ou Gilmar Mendes.

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Tive alguns inimigos na vida. Poucos.

A maioria deles, até a idade adulta, com vocação para a ignorância atroz.

O chefe de escoteiros do grupo ao qual pertenci; uma besta. Um ex-vizinho, que me acusou de ser homoafetivo quando descobriu que algumas de suas namoradas me fizeram muito carinho. Um chato do quarto andar, que fofocava ruindades entre garranchos e monossilábicos.

A maioria da turba gosta de mim. Amigos, garotas, ex-namoradas até. Meu amor. Minha família. Nunca precisei ostentar isso, tal como se faz hoje em dia: já viram a patetada de redes sociais, blóguis e congêneres com fotos de “casais felizes fazendo juras de amor eternas e emanando felicidade às quatro estações”. Pode escrever; alguém nesta história bate com os chifres no topo da porta. Cada um com sua felicidade. E mentira. Há casos piores, até: o sujeito escrever para si mesmo, fingindo ser um fã ou a pessoa amada. Pode parecer demais, mas tem louco para tudo.

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Minha vida era tranqüila, até o dia em que entrei para o Centro Acadêmico.

Aí, a corda roeu. Eu era PDT de Brizola – logo, para a extrema-esquerda do PT e para o PSTU, eu era de “direita”. Não riam com o fato de me acusarem de ser direitista, menos ainda pelo fato do PT ter tido, um dia, uma extrema-esquerda.

Os caras da “oposição” eram um saco. Reclamavam todo dia: “O CA é um antro de corrupção. Há evidentes demonstrações de tráfico de influência: eles usam o dinheiro dos alunos para comer coxinha e beber tubaína! E o escândalo das passagens de trem? Pegam todo dia, de graça! Isto tem que acabar! (Nelson Merru, 1986)"

Manter um governo de CA dentro de uma universidade sem pertencer a um partido político é barra. Duramos três anos. Perdemos na quarta. Seis meses depois, o CA acabou.

Minha bolsa de estagiário naqueles tempos de Itamar Franco era de dois salariominimux. Ainda era preciso descontar a compra de cartolina, pincel atômico e o lanche. Não sobrava nada. Éramos felizes de toda forma.

Peguei o diploma, dei o fora e fui viver minha vida profissional, cheia de modelos parabolóides e outras matemáticas.

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Escrevo para mim e meia-dúzia de amigos, desde a adolescência. Com a modernidade dos blogs, resolvi aderir à causa: expor meu trabalho e minhas opiniões (baseadas em análises de fatos) – não dogmas ou imposições que, vez por outra, algum lunático resolve assumir como senhor da verdade. Aos poucos, fui me aproximando de pessoas simpáticas, intelectualizadas, com talentos em várias áreas do conhecimento. Meu blog na comunidade eletrônica do jornal O Globo passou a receber adeptos. De meia-dúzia, a turba virou cem, duzentos, sei lá. Eu e meu textos, meus poemas e minhas opiniões contra a hipocrisia que reina em Pindorama.

Romário, o filósofo e craque, definiu como ninguém: “Babaca, tem em todo lugar”. Um frasista impecável.

O saldo é positivo até o momento: centenas de mensagens parabenizadoras, vindas de gente que passei a admirar com idolatria – logo eu, um iconoclasta. Os poetas (de verdade) Pedro Du Bois e Ricardo Mainieri estão aí para confirmar, por exemplo.

Gosto do ambiente de blogs. Gosto das trocas.

Você, leitor, perguntará: E os três inimigos?

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Não é minha vocação dar espaço publicitário para pessoas que, comprovadamente, me prejudicaram inclusive cometendo crimes previstos no Código Penal Brasileiro. Logo, citá-los seria perda de tempo e contra-senso. Três bobalhões. Dois palhaços sem graça e uma Cuca do sítio-do-picapau-amarelo.

Mas, contudo, toadavia (assim mesmo), sou uma pessoa justa: afinal, graças a patetas como estes, até mesmo em função das tolices que já disseram a meu respeito, de certa forma ajudaram a divulgar meu trabalho literário, no que lhes sou grato – embora não valham uma gota de secreção mucosa.

Causam-me curiosidade, pelas características em comum: pessoas da terceira idade rumo à fase final (nicho social ao qual sempre dediquei máximo respeito), com enorme disponibilidade de tempo ocioso (fundamental para malversar pessoas que sequer conhecem em termos pessoais ou de obra); pouco ou nenhum conteúdo respeitável nos diários virtuais que publicam; uma necessidade enorme de auto-afirmação como lideranças virtuais; textos impregnados de citações poéticas (sem o devido crédito dos verdadeiros autores, lamentavelmente) e com altos teores de prepotência, mal-ajambrados com referências do pseudo-realismo místico-fantástico (o que pode ser até o caso de tratamento psiquiátrico); auto-exaltação das personalidades próprias (o que deixa até de ser defeito, devendo ser encarado como humorismo) e mais um calhamaço que não cabe aqui. Em suma, poderiam perfeitamente usar dois pares de tênis, em vez de um, a cada caminhada matinal. E andar de quatro. Lentamente.

Não procurei nenhum dos três para relacionamento virtual. Vieram a meu caminho. Carência? Necessidade de afeto? Transtorno bipolar? Inveja? Desconheço as respostas. Tão logo mostraram má-fé, foram alijados dos contatos de meu ex-blog. Então, preocupados com minha pessoa, mais outros amigos queridos meus, têm perdido o tempo ralo de suas vidas na terra a proferir tolices a meu respeito. Por que não descansam em paz, cremados ou putrefatos dentro da caixa mortuária? Por que não tentam o amor e sexo, tão plausíveis depois dos sessenta? Por que não ler um livro, ouvir um disco, ver um filme? Agregar pessoas, defender boas causas, produzir bons conteúdos blogueiros? Em vez disso, futriquinhas, fofoquinhas, maledicências estúpidas e um enorme sentimento de vazio.

Entender o que meus três detratores têm à mente é tarefa árdua. Não há lógica. Mas é sinal de audiência do meu escrito. E qualidade.

Serei bonzinho.

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Na Terra, três pessoas não gostam de mim, do que eu escrevo. Falam de esguelha. De araque. Não sabem de nada.

Curtem-se. Identificam-se. Assemelham-se.

Por que não experimentam as delícias do ménage à trois? A idosa, velha maritaca, de lésbica ativa; os dois senis esquisitões, de veadinhos indefesos*? Quac!

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Assim, me tornei um micro-Mainardiota por um dia. Menos, menos.

Tenho formação superior, formação intelectual e não vendo meu texto para bandidos.

Meu sincero tributo a um dos seres “brasileiros” mais abomináveis.




* Inspirado na crônica "Ano Novo, contas novas", de meu ídolo Ivan Lessa, 2001, JB.

Paulo-Roberto Andel, 08/05/2009