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Wednesday, June 30, 2021

PIB x DESEMPREGO, UMA CONTRADIÇÃO?

Não. 

Mais uma lenda vai ao chão. 

A soma das riquezas do Brasil é também fruto de grandes conglomerados que proporcionalmente contratam poucos trabalhadores, ou já os demitiram em massa. Ou ainda os que simplesmente não precisam deles, caso do mercado financeiro. 

Para as finalidades matemáticas e contas nacionais, o PIB reage e oferece uma luz no fim do túnel. Para a realidade prática, a tal luz não existe hoje. 

As micro e pequenas empresas são responsáveis por mais de 95% do volume de negócios do país. Em geral, elas criam em torno de 70 a 75% dos empregos formais. Hoje, ou melhor, há anos, mas especialmente a partir deste desgoverno, elas estão esmigalhadas. Muitas foram fechadas e não vão reabrir. Outras operam com nenhum funcionário contratado ou muito poucos, e aí está o problema: o dinheiro se concentra na elite e não circula. Se você tem renda de 10 mil reais e eu nenhuma, a nossa renda per capita é de 5 mil reais, mas eu continuo passando fome. Multiplique esse cálculo por milhões e aí se entende o drama. 

Nada é feito no Brasil em termos de geração de emprego e renda reais. Com e sem pandemia, o Governo Federal vai terminar o terceiro ano em total estagnação sobre a questão do emprego, repetindo falácias tão estúpidas e mentirosas como as célebres "a reforma trabalhista vai gerar mais empregos" ou "a reforma da previdência vai gerar mais empregos". O máximo que o desgoverno produziu foi jogar para a informalidade milhões de pessoas em aplicativos de entrega e transporte, sem garantias, com imensas jornadas de trabalho e cada vez mais longe de seus trabalhos e formações de origem, em muitos casos. 

É claro que a crise energética tende a piorar as coisas, com a população economicamente enforcada tendo que pagar tarifas cada vez mais altas de luz.

Bem-vindos a 1921.

@pauloandel 

Nota: Informação da jornalista Miriam Leitão aponta que, apesar do empate percentual de 14,7% no gráfico abaixo, o desemprego aumentou em mais de 500 mil postos na última medição...

Friday, June 25, 2021

SDU

Acabou o expediente, a teórica semana útil e fomos para a Pastelaria Chic's lanchar pastéis com laranjada. Eu já tinha almoçado muito bem com a turma e Seu Jurandir, que agora é meu amigo e personagem de meu novo livro, incrível. 

Tivemos um bom dia de trabalho. 

Antes de chegar à Chic's, passamos no Guedes e pegamos alguns discos. Ele mesmo disse que já havia tomado uns tragos, mas que voltássemos na segunda para encontrar grandes CDs - não nos basta vender, nós colecionamos e municiamos colecionadores, então a arte do garimpo é interminável.

Pastelaria Chic's, 51 anos de vida, nasceu em pleno Médici, um desafio. Estive lá pela primeira vez em 1973, quando meu pai me puxava pela mão e um copinho de 300 ml parecia um balde. O ambiente é simples, pequeno e come-se velozmente em pé, mas uma coisa é certa: é o melhor pastel de toda a cidade. Seco, sequíssimo. A laranjada é alucinante.

Lanchamos, nos sentimos bem e fomos caminhando até o Largo da Carioca, onde CH pegou o metrô, Jocemar foi para as barcas e então fiquei só, na velha Avenida Central. 

Em vez de me trancar em casa, resolvi pegar o VLT. Sou fã do veículo, ao contrário de meu ídolo Fausto Fawcett. Rapidamente embarquei na Carioca e fui para o Santos Dumont.

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Poderia lanchar alguma coisa - eu estou sempre lanchando - eu tenho fome -, sacar dinheiro, tentar jogar na loteria ou utilizar ótimos banheiros, mas queria mesmo era fazer um breve passeio e espiar o que resiste da minha linda cidade. 

Se você nunca andou de VLT, vá. É um passeio maravilhoso pelo coração do Rio, um metrô com paisagens maravilhosas. 

Saltei no SDU, entrei no aeroporto e logo me deparei com o ir e vir de gentes, a maioria chegando apressada, louca para se  mandar pra casa. Eu, não: não estou indo nem vindo, apenas flanando num lugar bonito do Rio. Paro no corredor, há uma cadeira confortável e espeto o carregador no celular. Então Catalano me manda mensagens pelo WhatsApp e falamos de criaturas grotescas. O corredor está bem vazio. 

Descanso alguns minutos e vou para o Uber Lounge. As pessoas estão sempre apressadas mas ali tem uma das vistas mais bonitas do Brasil - e os aviões saem de um jeito que dá até medo, mas tudo dá certo.

Adoro exibir o meu lado punk nessas ocasiões: pessoas com roupas e malas de grife, falando em iPhones e desfilo com minha camisa preta rasgada, chinelos e bermuda batidíssima. Sempre me olham, esperando que eu peça alguma esmola e rio de tanta ignorância estampada nos olhares. 

Pertinho, um funcionário do local fala com sotaque nordestino carregadíssimo e rápido com seu filho pequeno, que diz ter apanhado de alguém na cara em cada. Nervoso, o pai começa a falar cada vez mais rápido, speed metal. Paro de prestar atenção, mas ele interrompe a ligação e repete "Gordim" dez vezes, até que um segurança lhe dá atenção. 

Antônio chega com seu carro para me levar para casa. Quando faz a curva perto da estação do VLT, a imagem é belíssima: os grandes prédios da Cinelândia e Glória, os da Avenida Beira Mar, elegância e mistério nas ruas silenciosas, luzes ao longe e tudo aquilo me remete a mais de quarenta anos, quando eu e Adão Lamenza Salama éramos levados pela Dona Célia de Copacabana até o Aterro do Flamengo para lanchar cachorro quente. 

O Rio sofre, tem varizes e cicatrizes, mas é bonito pacarai. 

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Araújo Porto Alegre deserta, o maravilhoso prédio da ABI vazio. Por enquanto. Ali é uma casa de lutas. 

Olhar a Cinelândia e sonhar com a volta do Amarelinho. Na outra quadra, o breve sonho da Livraria Cultura que se desfez. Muita injustiça. Nunca mais vi o Matheus, que me atendia muito bem por lá. Uma menina, acho que Natália, linda. 

Logo aparecem os Arcos da Lapa, iluminados com belas cores. O entorno está vazio porque não há Circo Voador nem Fundição, mas as barraquinhas de petiscos e bebidas seguem na luta. E depois dos Arcos os bares tentam reagir. Há movimento, claro. Não como antes, mas há. Parece até que dá uma pontinha de esperança e até o velho Capela tem gente entrando. Fui feliz ali muitas vezes, noutras muito admirei. Distraído que sou, certa vez cedi meu lugar no lavabo para uma gata sorridente e, só depois que ela saiu e riu de novo, é que percebi se tratar de Alessandra Negrini. Almocei lá com Elika e uma turma da pesada há uns dois anos, o Zê também estava, a Socialista Morena idem. 

Quando o carro passa da Inválidos, pelo menos os bares perto da minha casa sobrevivem: Galeto, Bar das Quengas, Gambino. Algumas pessoas nas mesas. É uma promessa. Na esquina, a Droga Raia melhorou a quadra, ficou mais espaçosa, limpa. Antônio fala alguma coisa do tempo que não para, do qual somos reféns e ele tem toda razão. Somos pedacinhos de água e carne indo e vindo na mão do tempo - arrogância para quê? 

Metros depois, me despeço do Antônio, prometo postar cinco estrelas para ele, leio boas mensagens da Marina, pego o elevador vermelho vazio, me dou conta que faço isso há mais de vinte anos. Foi outro dia, quando nem sonhava em publicar um livro. Vamos ao banho, à janta, a algum trabalho e a colocar sentido neste eterno presente em que vivemos. 

@pauloandel

Wednesday, June 23, 2021

João do Rio, 100 anos depois

Gomes Freire, Lavradio, Inválidos e arredores, duas da tarde de quarta-feira. Há exatos cem anos, esta região e a capital da República pararam, porque morrera João do Rio enquanto as ruas fervilhavam pela perda. Hoje, o Centro mal tem trânsito, as lojas morreram pela decadência econômica que já vinha antes da covid19 e piorou. Outro brilhante escritor, Jack Kerouac, veria aqui o mesmo cheiro de rua triste que encontrou ao escrever "Cenas de Nova York". 

Pelas ruas do Centro, o progresso e a miséria se esbarravam naquele tempo. Os cafés abarrotados, o ir e vir das gentes, enquanto ao largo dos caminhos os excluídos pediam socorro. A história se repete em 2021, mas não se sabe ainda do progresso que abraçará o Rio devastado. Acabaram de votar o projeto que faria o Centro renascer, mas por enquanto é só um disfarce para que as construtoras possam operar de novo em Copacabana, Ipanema e Tijuca. 

João do Rio viveu apenas 39 anos, mas que valeram por 80. De forma avassaladora, ele não apenas inventou o jornalismo formal carioca, mas foi o grande cronista fotográfico da cidade, do céu ao inferno, escrevendo de forma avassaladora e perene - seus textos continuam atualíssimos . E foi ele quem abriu o mundo para Ipanema numa crônica (que pode ter sido encomendada) sobre as maravilhas lunares do então areal. Como se sabe, deu certo. 

Estima-se que a morte de João do Rio tenha levado mais de 100 mil pessoas às ruas para seu cortejo fúnebre. Até hoje está no rol das grandes comoções cariocas, só não batendo a do Barão do Rio Branco, ocorrida antes. O próprio Barão vetou as pretensões de João do Rio em integrar a diplomacia, pois o candidato incorporava três vertentes que o preconceito não perdoa: obeso, negro e homossexual. Todas continuam em voga, horrorizado e humilhando a alma brasileira, mas os planos do Barão em ter um corpo diplomático 100% heterossexual já foram abaixo há tempos...

Ao mesmo tempo, não há como não pensar: há cem anos, um homem gordo, negro e gay parou a capital do Brasil pela força de sua importância, de seu talento, independentemente de suas relações com o poder constituído. João do Rio ganhou o país com seu texto e, depois deles, muitos foram os craques que se consagraram por seus escritos em jornais. Ok, nenhum deles teve um velório com cem mil pessoas, mas não se pode ganhar todas. 

Cem anos depois, o Rio agoniza e estende as mãos nas calçadas, dorme debaixo das marquises e revira latas vazias de lixo desesperadamente. Não há vagas. Os ricos estão mais ricos, enquanto os pobres estão cada vez mais humilhados. A busca pelas manchetes nas bancas foi trocada por vídeos de dancinhas no celular. Ainda estão rolando os dados, mas é difícil crer que todos caiam com a face seis para cima. Resta sonhar com uma reconstrução que não faz parte dos planos do empresariado, mais preocupado com o próprio bolso. 

Em algum lugar do imaginário, João do Rio desce a Gomes Freire saudando os transeuntes. Depois vira na Senado e, a seguir, na Lavradio, onde para para almoçar no Mangue Seco lotado, cheio de cavalheiros e damas elegantes, que ele aprecia de esguelha. Quando terminar a refeição, ele caminhará pela Praça Tiradentes em busca do esplendor perdido da região, aproveitando para pescar alguns livros nos sebos da região e especialmente  em um, que funciona no Edifício Riqueza e é cheio de livros sobre a cidade. No sexto andar há uma loja pequenina, humílima e abarrotada, onde ele pode tomar um café, conversar com os livreiros, apreciar a chegada de um famoso cineasta, escutar a fala rouca de um jornalista e, finalmente, ficar a par das novidades musicais pós-Pixinguinha, tudo enquanto espia a bela vista da praça à janela. Estamos em 2021, o que nos resta é sonhar.

@pauloandel

Wednesday, June 02, 2021

cuidado com as palavras

cuidado com as palavras. muito cuidado. 

as palavras são cristal: uma vez espatifadas, não são recuperadas. 

cuidado com as palavras que você escreve e diz. nada a ver com grafias e eventuais equívocos, pois o que importa é a qualidade da mensagem, mas com o teor delas. não perca seu tempo com a perfeição gramatical acima do que realmente importa. 

palavras podem destruir sentimentos. destruir amizades. afastar pessoas para sempre. 

palavras mal empregadas podem humilhar, deprimir, criminalizar e até levar ao suicídio. podem levar à morte, ao caos. 

não entender o significado das palavras, também. 

as palavras surgiram da necessidade de entender o outro e descrever o mundo. 

cuidado com as palavras. com o outro, com o próximo. todo mundo merece palavras dignas. 

ah, que ninguém se confunda: boas palavras não andam de mãos dadas com falso moralismo. palavrões podem ser muito mais saborosos do que formalismos flácidos.

essa terra já está lotada de gente que despreza o outro, o próximo. isso vai contra os princípios da humanidade elementar. as palavras podem ajudar na aproximação das pessoas, talvez colaborando para que os seres voltem a ser humanos coletivamente falando. 

cuidado com as palavras é cuidado com o próximo, com a vida, com o mundo. 

veemência não precisa ser truculência. incisivo não quer ser estúpido. firme não precisa ser escroto. energia não deve significar grosseria. elegância não é falsidade. 

se nada disso tiver utilidade, talvez uma breve reflexão a tenha: quando alguém usa palavras agressivas, dificilmente deixa de se incomodar quando elas voltam contra si. 

cuidar das palavras é combater a cólera, o ódio, a injustiça, a desigualdade. tentar deixar essa terra um pouco melhor antes de morrer. 

só. 

@pauloandel

Thursday, May 27, 2021

Seu Nelson Sargento

Entre 2002 e 2004, invariavelmente eu conversava com Seu Nelson. À época, eu tinha um sebo de CDs e LPs chamado Seboteca, que funcionava numa galeria da rua Gomes Carneiro, bem em frente ao edifício Majestic, onde um dia moraram Ivan Lessa e Lila Bôscoli - se você não sabe quem são, é melhor procurar saber. 

Na galeria funcionava uma videolocadora badaladíssima. Um dos entregadores tinha o apelido de Tim Maia. Uma funcionária chamada Patrícia, gata fofinha, causava suspiros no corredor. Seu Nelson estava lá sempre em busca de filmes. Na volta, vinha à Seboteca e conversávamos sobre muitas coisas, até samba. 

Certa vez, ele lamentou comigo por ter centenas de LPs em casa de um mesmo álbum. Ele não sabia como distribuir, a gravadora deu como pagamento, peguei uns poucos, minha loja era pequena. Era um assunto recorrente. 

Pintura, cinema, teatro, Seu Nelson era uma potência. Às vésperas de viajar para a cerimônia do Grammy, ele apareceu na loja e brincamos: "Agora o caixa tá cheio".

- Meu filho, só deram a passagem e a estadia. Lá não tem churrasco nem feijoada. 

Rimos. 

O que nunca vou esquecer é de um dia em que ele entrou na loja quando eu ouvia o álbum clássico de Dave Brubeck, "Time Out". Seu Nelson vibrou, começou a contar a história da arte na capa e daí passamos a falar sobre Paul Desmond e Joe Morello. Desse dia em diante, em pelo menos uma dezena de sábados, o mestre do samba brasileiro papeava comigo sobre Charles Mingus, John Coltrane, Lee Konitz, Thelonious Monk, Lee Morgan, Chet Baker e muitos outros. Seu Nelson me deu aulas grátis de jazz, mas nunca o vi falar disso em entrevistas por motivos óbvios, e não sei dizer se os jornalistas sabiam da faceta do multi artista. 

Seu Nelson passou pela pobreza, pela guerra, pelos golpes, pelas crises e todos esperávamos que, de tão presente e ativo, ele batesse os 100 anos. Foi perto. Teve uma grande vida, lutou e foi um orgulho do Brasil. Vê-lo era como ver a chegada de um príncipe desta terra. Até a luta contra o câncer ele encarou de frente, mas não deu para superar a gripezinha do calhorda. Para muitos, ele era um dos heróis do Olimpo do samba, mas para mim era mais: meu amigo de conversas de jazz, o som da liberdade que, tal como o samba, agoniza mas não morre. 

@pauloandel

Wednesday, May 26, 2021

UERJ

Entre maio de 1988 e março de 1996, vivi mais tempo na UERJ do que em minha casa e meus ambientes de trabalho. 

Foram anos incríveis, que mudaram minha vida para sempre. Não somente pela minha formação acadêmica - até hoje tento entender como consegui aprender aquilo -, mas pela formação de vida, de cidadão, de politização, de tudo. 

Na UERJ, você vive o conceito de universidade como nunca: está na Matemática, sobe uma rampa e lancha com os futuros advogados; desce outra e debate com os futuros engenheiros. Entra no elevador e encontra o camarada da História, a gata da Educação Física, a gataça da Psicologia, os caras maneiros da Física. É tudo junto e misturado. Nos tempos das Olimpíadas era um barato total. 

Num segundo, foi na UERJ que conheci direito David Lynch, Hector Babenco, Tunga, Hemingway, João Antônio, Gerald Thomas, Plínio Marcos, João do Rio, Alan Parker, Tom Waits, Nick Cave, Jack Kerouac, Neil Young, Leonard Cohen, Basquiat e todo o jazz. 

Sentado no banco da concha, vi Paulinho da Viola, Victor Biglione, Gilberto Gil, Ed Motta, a imortal Cássia Eller. Assisti "Veludo Azul" e "Ironweed". Dei beijos também, faz parte do jogo. 

No Teatrão, ainda inacabado, aplaudi a Cássia também (dois shows dela!), o Ney Matogrosso, a Leila Pinheiro (quase compramos um buquê de flores pra ela, mas as garotas do CA não se conformaram e desistimos), Fernanda Abreu, Vinícius Cantuária, Raphael Rabello e um certo Tom Jobim. 

No auditório, fiquei cara a cara com Luiz Carlos Prestes. Só. 

Eu já conhecia a Tijuca, mas a proximidade da UERJ me levou a seus cinemas, ao Café Palheta (onde celebrei minha colação de grau com a Diniz e a fantástica Conceição), às ruas e aquilo se multiplicou pelo Grajaú e Vila Isabel. Atravessei tardes e noites em suas calçadas. Virei freguês do Capelinha, outrora frequentado por um certo Noel Rosa. 

Meu amor morava ao lado: o Maracanã, aquele velho Maracanã de gente simples e jogos imortais. Descer o elevador com caderno e prancheta, atravessar a rua, comprar o ingresso e entrar no mundo dos sonhos.

A convivência e os amigos da UERJ me levaram a outros shows fora de lá, do Oingo Boingo a Bob Dylan! Senhor, eu tinha 21 anos e estava lá. 

Eu era um garoto pobre e desesperado, queria estudar e conseguir um emprego para ajudar minha família. O governo fazia de tudo para não passar os recursos para UERJ. Sabotavam tudo. Ficamos nervosos, fomos à Alerj e rolaram as pedras. Faz parte do jogo. Um dia eu vou fazer um lançamento de livro lá. 

Saí da UERJ como um profissional formado e um jovem homem muito melhor do que entrei. Nunca fui doutrinado por ninguém e nem precisava: a política eu aprendi em casa. É claro que a esquerda predominava: onde tem intelectualidade de verdade, ela está, queiram ou não. 

Tive professores maravilhosos. Outros, competentes. Outros, não. É universidade, é parte do processo. 

Quando me formei, me senti tão órfão que, depois de desistir do mestrado, passei para Matemática só para ter um vínculo, prolongar o bis de um lindo show que estava no final. Um dia tive que sair, mas a UERJ nunca mais saiu de mim e ela está nos meus atos, falas e textos. Ela vive. 

Conheci jovens homens e mulheres da pesada, que carrego comigo até hoje. Vivi situações hilárias e dramas. Aprendi coisas demais. Não saí apenas como um estatístico, mas também como um escritor que se consolidaria mais tarde. Talvez a UERJ seja o melhor livro que ainda não escrevi, mas estão rolando os dados. Sem ela, eu jamais teria conseguido melhorar o padrão de vida da minha saudosa família. 

A minha pequena história é a história de milhares e milhares e milhares de jovens que, um dia, perseguiram um sonho e conseguiram: o de estar numa das melhores escolas do país, dentro e fora de sala, intensamente. Isso, nenhum babaca fascista vai destruir. Tenho certeza de que, muitas décadas depois da minha morte, a UERJ seguirá firme, ajudando a combater a injustiça social por meio da Educação. 

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P. R. Andel, 52 anos, estatístico formado em 1994, autor de 31 livros, comerciante, editor, colaborador regular de jornais e sites. Brasileiro. Carioca. Passou pela UERJ e pela UFRJ.

Monday, May 24, 2021

Sobre o Fla x Flu 2021

Em 45 anos acompanhando o Fluminense, nunca tinha visto uma participação tão ridícula do meu time numa final como essa de 2021. Nem parecia um adversário, mas um convidado para a festa do outro. E pela primeira vez em 15 anos, não escrevi imediatamente uma crônica sobre a atuação, o que farei hoje ou amanhã. 

Agora, pior do que isso foi ver as verdadeiras trevas que viraram qualquer debate no Brasil, ainda mais sobre futebol. 

De tricolores, li e ouvi de tudo. Pode ser que a dor da derrota explique até certos arroubos e sandices, mas o que me preocupa é ver tanta gente boa conformada com tudo, como se o Fluminense fosse um clube pequeno, onde é bom ser vice-campeão ou quinto, sexto, sétimo, sei lá que diabos, depois de quase dez anos sem conquistas relevantes. Quem achar que está bom, que siga com isso mas conte com minha total ojeriza a respeito. Não sou obrigado a aderir pela campanha da mediocridade. 

De rubro-negros, sandices a granel, ao cúmulo de sugerir racismo tricolor em seu mosaico, apenas para suavizar a escrotidão de seus dirigentes, que deram um show explícito de irresponsabilidade no tocante à Covid19, chegando ao cúmulo da especulação de uma partida com público em Brasília depois de quase 500 mil mortos em nossas vistas - porque esse foi o único motivo da decoração. Até o início da pandemia, basta olhar no YouTube, a única torcida no Maracanã que era predominantemente de população negra e foi substituída por uma massa nitidamente branca não é a tricolor... Agora, se preferirem outra interpretação para os dizeres do mosaico, sugiro um pequeno lote: Serra Dourada/ ladrilheiro/ Papeletas Amarelas/ Roubado é mais gostoso/ Flamenguesa etc. 

Pior ainda é mais uma manipulação covarde de certa imprensa esportiva, querendo igualar números centenários na marra. Patético. O Flamengo foi infinitamente superior ao Fluminense nas últimas três decisões, mesmo com os já tradicionais erros de arbitragem que predominam para um lado. Nada disso era necessário. Do jeito que jogou sábado, o Fluminense não seria campeão nem com 24 horas de partida. 

Agora, ninguém tem culpa de que a pandemia impediu o Maracanã cheio, a festa etc que se vê em decisões passadas feito a de 1995, que aparece diariamente na TV ou tantas outras em que o Fluminense foi superior e campeão. Ou melhor, culpa tem, mas é alguém que não tem nada a ver com o futebol, embora bajulado por dirigentes da Gávea...

E antes que alguém fale alguma besteira, procure saber o que eu escrevo e falo sobre os dirigentes do meu clube há anos. Nada feito com ódio ou pessoalidade, nada. Tudo apenas no campo da divergência de ideias e conceitos. Se não gostam de mim por isso, dane-se: não sou tiete de dirigente, tenho mais o que escrever. Amar meu time não pode me transformar numa besta subserviente a sistemas no mínimo espúrios. 

Nada pode ser pior do que a ética seletiva, de conveniência, de circunstância. O sujeito ético por ocasião é tão calhorda quanto o anti-ético. 

Sunday, May 23, 2021

Bob Dylan, 80 anos

Cada um conheceu Bob Dylan de um jeito. Eu me lembro da primeira vez que ouvi seu nome e vi seu rosto: foi em 1977, em Vicente de Carvalho, quando ele tinha 36 anos e já era um ícone mundial. Eu tinha de oito para nove, e estava comprando figurinhas com meu pai numa banca de jornais, para um álbum de nome Multicolor. Chegando em casa, abri o pacote e saiu a figurinha de Bob Dylan. Achei o nome muito diferente. Meu pai disse apenas "é um grande artista", ele não falava muito. 

Seis anos depois, eu já ouvia Bob Dylan quase todo dia, já que as rádios o tinham como presença obrigatória tanto nos programas de flashback ("Lay, Lady, lay") quanto na programação habitual - Dylan tocava o tempo todo com "Jokerman", sua volta ao sucesso e que ganhou bela releitura de Caetano Veloso. E de lá para cá, nunca mais o larguei. Em 1990, eu estava com meu amigo Zé Luiz na Apoteose em noite histórica e, oito anos mais tarde, no incrível show de Cássia Eller, Bob Dylan e os Rolling Stones. 

Em 1994, Bob Dylan lançou o "Acústico MTV", que o levou a um novo e renomado público. Foi o primeiro passo de uma recuperação definitiva: desde então, todos os seus álbuns foram aclamados pela crítica a partir de "Time out of mind" (1997) e, se não possuem hits semelhantes aos primeiros dez anos de carreira - quando literalmente mudou o mundo, sendo um digno sucessor da literatura beat, além de mudar o curso de ninguém menos do que os Beatles -, são obras de grande esmero daquele que é o maior artista estadunidense vivo. Uma pérola atrás da outra. 

Escritor, pintor, poeta, compositor, Bob Dylan é a única pessoa no mundo a ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio Pulitzer, o Oscar, o Grammy e o Globo de Ouro. Dificilmente alguém conseguirá igualar tal façanha. 

Eu fui um garoto que cheguei à literatura beat graças a Bob Dylan, e fico pensando em quanta gente no mundo teve a mesma experiência definitiva. Ele mesmo saiu de casa quando leu Jack Kerouac, e uma de suas fotos mais famosas é dele com Allen Ginsberg, ambos sentados de pernas cruzadas, aos pés do túmulo de Jack com Allen lendo. Desde o dia em que deixou sua casa para sempre, mesmo sem ter planejado, Bob Dylan mexeu com os alicerces da cultura ocidental. Fez tudo de seu próprio jeito, encarou vaias, trocou de religião e nunca parou de tocar, exceto quando veio a pandemia. Isso não o impediu de lançar seu mais recente álbum, "Rough and Rowdy Ways" em 2020, que encerra com a espetacular "Murder Most Foul", faixa épica e crítica de 16 minutos baseada no assassinato de John Kennedy. 

Dylan há muitos anos iniciou a "Neverending Tour" e se espera que, na volta à normalidade, ela prossiga. Não é possível prever até quando, mas uma coisa é certa: ver Bob Dylan em ação num palco é uma das mais avassaladoras experiências que uma pessoa pode ter com arte. O referido é verdade e dou fé. A maravilhosa Chrissie Hynde, dos Pretenders, concorda: ela acaba de gravar um LP de covers  do poeta. Bob Dylan é uma fonte inesgotável, assim como seu ídolo Woody Guthrie foi para ele. 

@pauloandel

caramelo

um cachorrinho cor de caramelo trotando e flanando pelas ruas da cidade. ora corre, ora para. sem coleira, sem dono, sem nada. 

espiando os homens coléricos em suas motocicletas numa passeata suspeita, gritando violências e ostentando armas. 

os transeuntes que vêm e vão com suas vidas para seus destinos. 

sem entender mas sentir, o cãozinho fita a frangueira na padaria da esquina, os frangos indo e vindo até ficarem assados e prontos, com farofa e batata frita, para o almoço de quem tem dinheiro. 

ele pode voltar e se abrigar debaixo da marquise, sem precisar ficar perto de tanta gente que mora ali, com fome, sem casa, sem nada.

pode atravessar a rua e chegar à praça, onde outros cachorros bem cuidados estão com seus donos, com ou sem coleira dependendo da ocasião. perto deles, empregadas uniformizadas tomam conta de crianças vindas dos lares abonados, e estas adoram brincar com cachorros. 

um cachorrinho caramelo magro, miúdo, olhando para o mundo que não entende mas sente, sente tanto que é capaz de ficar parado perto de um garoto chorando sentado num banco da praia, ouvindo canções no walkman sem saber como será o dia seguinte.

quem sabe parar perto de um canteiro florido? 

onde conseguir uma tigela d'água? 

alguém faria a caridade de uma bolinha de borracha para brincar? 

o cachorrinho caramelo late ao longe bem alto para que alguém lhe dê atenção, mas as pessoas estão muito apressadas ou ocupadas para prestar atenção.

com suas patinhas, ele vaga em busca da vida numa manhã nublada de domingo, sonhando com uma ração suculenta, um bife, uma tigela de água e algum carinho, mas a cidade não é fácil e pouca gente consegue encontrar felicidade de verdade. é que as ruas estão lotadas de indiferença e os cemitérios, cheios de empáfia nas tumbas. 

um cachorrinho caramelo magrinho, miúdo, tentando viver em paz neste lugar tão orientado para a guerra e o ódio, mas que ainda pode ter chance. 

sozinho. sozinho. 

caramelo. um cachorrinho. 

@pauloandel

Tuesday, May 18, 2021

Lou & Patti

Quando Lou Reed morreu, Patti Smith escreveu uma linda e comovente carta. Num dos trechos, disse: 

"Ele era nossa ligação com o ar infame da Factory. Ele fez Edie Sedwick dançar. Andy Warhol sussurava em seu ouvido. Lou trouxe as sensibilidades da arte e literatura para a sua música. Ele era o poeta de Nova Iorque da nossa geração, defendendo os desajustados como Whitman havia defendido os trabalhadores e Lorca os perseguidos."

Eu conheci Lou Reed aos 13 anos, em 1982, quando ele já era uma referência mundial. Foi de maneira insólita: meu amigo Fred, que já era grandão e gordinho, pediu para que eu fosse com ele buscar duas calças jeans que havia encomendado no Rey das Calças, no coração de Copacabana. Fred estava com um disco do Judas Priest na mão. Ao chegarmos lá, rolou um papo de rock com o vendedor, entrou o Judas e no fim ele disse que Lou era uma "bicha maravilhosa". Tempos depois, é claro que aquela informação não fazia a menor importância: éramos de Copacabana, os gays estavam por toda parte e nunca sofri qualquer assédio. Ok, um vizinho tinha a mania de ficar piscando para mim no corredor, mas depois que me viu de mãos dadas com Patrícia, sossegou. Tudo bem. 

Anos depois, quando pude, comprei CDs de Lou Reed, li suas histórias loucas e ótimas, sua poesia rascante e crua - como deve ser. Mais de meio século depois, toda banda de rock alternativo tem um quê do Velvet Underground, nome e referência eterna. 

Lembro que estive numa exposição do CCBB sobre a soturna Nova York que atravessou as décadas de 1960 e 1970, temperadas pela desilusão e drogas pesadaças. Muitas fotos da época, várias de Robert Mapplethorpe, artista genial por quem Patti Smith era apaixonada. Outras tantas do Velvet com Nico, a charmosa cantora, Andy Warhol com sua divertida bitchness, e ainda outras de ninguém: ruas desertas, sombrias, tudo em delicado preto e branco. 

Ainda o Velvet Underground: sobreviveram apenas a baterista Mo Tucker e o incansável John Cale. Sterling Morrison se foi cedo, Lou Reed ainda aguentou o tranco e fez grandes álbuns. Gosto até do que ele fez com o Metallica, odiado por quase todo mundo. Já Patti Smith eu consegui ver ao vivo no Tim Festival em 2006, graças ao ingresso que meu amigo Bruno Saraceni me deu. Também vimos juntos os fabulosos Beastie Boys num show demolidor. 

Alguma coisa da noite atual do Centro do Rio me remete àquela exposição sobre Nova York. Temos ruas desertas, decadência, violência, desesperança. Fica faltando descobrir onde estão nosso Velvet Underground, nossa Patti Smith e, claro, Robert Mapplethorpe. Eles saíram de uma enrascada enorme, servem de bom presságio para nós. Lou Reed continua sendo uma força da natureza, com sua poesia de nocautes. 

@pauloandel

Monday, May 17, 2021

segunda

então começa mais uma semana nesta terra cheia de dor, desprezo e arrogância, mas nós, grandes corporações de água e carne, caminhamos para atravessá-la. é preciso, não resta outro caminho. sim, somos bolas gordas e magras de água e carne, preparadas para apodrecer a qualquer momento. 

isolados dentro de casa, nos deparamos com o museu de grandes novidades, um verso de cazuza, o maravilhoso poeta dos anos 1980: crianças desaparecidas, personalidades mortas, violência, fome, solidão. no ar uma peste que mata e atordoa. não é preciso estar nas ruas para saber de sua agonia. há quem enxergue o progresso, mas de maneira muito peculiar.

na janela fechada do quarto, uma cortina azul-escuro deixa escapar uma réstia de sol nublado. 

em algum lugar que não sei dizer, nós nos perdemos de vez. deve ter sido quando alguns sujeitos passaram a acreditar que eram as únicas pessoas importantes num mundo com bilhões de habitantes. ou quando o imaginário coletivo passou a entender que o outro não tem importância para a satisfação individual. a era do descartável devia ser limitada aos objetos, mas chegou às pessoas e assim estamos. bem mal.

o trânsito está tão devagar que o barulho do ônibus é menor do que o de um cachorrinho esperto latindo nas imediações. precisamos escutar mais os latidos, porque a desumanidade leva muitos a confundir os sons caninos com os choros humanos, desprezando ambos. é isso: nós viramos a capital mundial do desprezo. 

mantendo a rotina, o restaurante vizinho liga seus grandes aparelhos de operação, que lembram o som de turbinas de avião defeituosas. ninguém liga, nem os donos. 

na tv, uma matéria fala sobre o número de moradores na rua, que certamente é quatro ou cinco vezes maior do que qualquer estatística oficial. 

hora do home office em breve: banho, café, lágrimas, fracassos e postagens, postagens para vender, postagens para divulgar, revisões, cálculos e dinheiro algum. ainda são oito da manhã e há uma longa segunda-feira pela frente. isso para os que têm home office, porque a maioria não tem nada. 

mensagens inúteis, áudios inúteis, posts inúteis - aqui estamos! - enquanto a maioria celebra práticas nazifascistas acreditando se tratar de defesas da pátria e da família. pior ainda: a da liberdade. o direito de pisar na cara das outras pessoas para não sujar as próprias botas. o que isso tem a ver com a evolução humana? 

[eis a idade média com iPhone e iFood

cidade alta, parada de lucas, são josé operário, fé, tiroteios intensos em nome de uma guerra surda que estupra, humilha e mata pobres enquanto enche o bolso de empresários escroques. mais do mesmo a cada segunda-feira. 

[um jovem de cerca de trinta anos chamado andré, vestido com a bela camisa de 1902 do fluminense, mais uma máscara tricolor, sentado na calçada gelada e sonhando em sair do inferno das ruas. 

[trinta ovos por quinze reais. ovos são ótimos, mas não eram a base alimentar dos tempos da ditadura, com inflação mensal a 70%? deve ter algo errado.

lá fora o terceiro ônibus freia e para. é provável que o motorista não tenha visto o único passageiro à espera do serviço no sentido centro-estácio.

bom dia. boa semana. boa morte. 

Friday, May 14, 2021

short cuts 1

Sentado à mesa do velho bar da Cruz Vermelha um freguês chamado Mário. Sozinho no salão em tempos de pandemia, já com alguns tragos na cachola, dispara uma pérola interessante para o único interlocutor ali possível: ele mesmo. 

[O garçom está atendendo outro freguês, numa mesa do lado de fora do botequim, pouco importando a irregularidade do fato e o sereno da primeira noite fria do outono

"Por que ninguém mais abrevia seus nomes?"

"Lembram do guitarrista G. E. Smith, que tocou nos tempos áureos com Daryl Hall & John Oates e até com Bob Dylan? Smith acompanhou Dylan na Apoteose em 1990? Não tenho certeza."

"Poemas alucinantes de e. e. cummings, tudo realmente minúsculo como a elegância pede, Edward Estlin Cummings, um dos pais da poesia moderna para o terror de críticos e poetas conservadores."

"Por que precisamos de nomes pomposos por extenso? Bora abreviar!"

Uma voz imaginária ganha o salão do veterano botequim: 

- T. M. Stevens, lendário contrabaixista que já tocou com meio mundo americano, de Cindy Lauper a Joe Cocker! Fará 70 anos em breve. 

[É inaceitável que Cindy já tenha 70 anos, assim como aquela gata do B52's cujo nome esqueci

E continua:

- J. G. de. Araújo Jorge, poeta lidíssimo, consagrado no Rio de Janeiro mas tendo a infância passada no Acre. 

- O Acre é um mistério saboroso. De lá vieram Fernanda Takai, João Donato, Mitya Ghidini e outros. 

- Ainda sobre abreviações, não se esqueça do obscuro escritor e poeta p. r. andel, minúsculo também como e. e. cummings. 

Mário vê a solidão no salão do botequim por todos os lados, ri para não chorar, espera o garçom que não volta para um último trago e faz nova reflexão: "Tínhamos o J. Silvestre, o J. Jr. está por aí numa boa, mas é possível pensar que a decadência da abreviação de nomes no Brasil seja simbolizada por R. R. Soares." 

[Amanhã é uma sexta-feira fria do meio de maio, sem grandes expectativas e com um enorme passado pela frente

"Garçom, a conta por favor."

[Este bar está cheio de ninguém

@pauloandel

Friday, May 07, 2021

Copacabana

copacabana, uma semana de quinze dias

da graça de deus e o diabo


juntando o novo e o velho, o pobre e o rico, 

o avant-garde e a cafonália


[o excêntrico e o pop rock


deusas do sexo, velhinhas moralistas, 

maduros sacanas e garotos nerds


[quase todos se encontram na praia


respeitáveis condomínios orgiásticos

e barracos imperiais na favela


machistas musculosos dando pinta na 

caserna mas odiando as liberdades


e lindas putas tristes com seus collants 

coloridos jantando ao meio dia


ao contrário dos crackers da rua siqueira 

campos perto das casas da banha


copacabana, onda a igreja aluga lojas para o 

bas-fond sem pecado ou rancor


e garotos espertos atravessam a boca do 

lobo à madrugada no Bairro Peixoto


lindas gatas roteiristas escrevem 

barbaridades divertidas para a TV


e os veteranos do posto seis esperam a hora 

dos clássicos de peteca


pode ser Gerald Thomas ou Jorge Ileli ou 

Júlio Bressane numa nova arte


ou Nelson Sargento a caminho da loja de 

DVDs


pode ser João Roberto Kelly navegando a 

noite


ou Paulo Amaral batendo papo com Orlando 

Fantoni perto do Marimbás


ai de ti, Copacabana: bela e faiscante, 

devassa e lúcida


teus escritores e poetas, teus cineastas e 

pianistas, tuas nobres cantoras


teus moleques da areia caçando cola ou 

jogando bola à luz dos refletores


traga à tona as vedetes, os boêmios e os 

admiráveis inferninhos perdidos


e quitinetes lotadas de sonhos e ingênua 

busca da prosperidade


a fantasia, o medo e a aventura num 

ménage a trois dos sentidos


copacabana dos encantos doidivanas, dos 

malucos geniais e dos engomadinhos


o mar vadio e um exército de edifícios 

fazendo sentinela na terra 


o Atlântico Sul de tantos amores e 

folguedos, sempre renovado


Copacabana da Prado Júnior, um caldeirão 

de gentes e cores


o carnavalesco Clóvis Bornay ajeitando o 

cavanhaque na porta do Coruja Bar


os jovens Luiz Carlos Lacerda e Leila Diniz a 

caminho do Beco da Fome


o árbitro Armando Marques descendo a 

Figueiredo Magalhães todo prosa


a espetacular modelo Georgia Wortmann na 

caixa da loja de pão de queijo


batalhões de estranhos lutando por um 

lugar ao sol e o pão nosso de cada dia


Copacabana, musa decana, garota dourada, 

império de céu e mar


[dai-nos a paz


("Nada vira do avesso II", Caio Lima e Paulo-Roberto Andel, Vilarejo Metaeditora, 2020)

sexta-feira sete

ACORDEI muito antes do razoável em mais um dia nessa terra de angústias. Dormi um pouco antes do normal, desabado, depois de ver meu time desperdiçar a chance de uma vitória - foi uma das únicas coisas legais do dia, além do aniversário da Marina. De resto, mais um dia difícil. Não que eles não existissem, mas é que tem sido cada vez mais difícil ser brasileiro. Dor por toda parte. Dor. Indiferença. Intolerância. Incompreensão. Escrotidão, até mesmo de quem se diz consciente das questões sociais. Errar é humano, mas o brasileiro médio tem exagerado. 

LÁ FORA tem o silêncio. Enjoy the silence. Eu adorava o silêncio em noites no campo, quando era escoteiro. Todos estavam dormindo e eu de prontidão. Gostava. Tinha quinze, dezesseis anos, acreditava no mundo e nas pessoas. A ingenuidade é um tesouro.

Agora tenho medo do silêncio. Ele sugere abandono, ausência, alvorada decadente. Ligo a TV para não me sentir tão sozinho. Bem ao longe passa um ônibus lentamente, freando. As ruas já são vazias de dia, imagine à madrugada. Quando fui um garoto de Copacabana passando hora na rua, perto da portaria, até meu pai adormecer do inferno e poder ir para casa, eu via um certo silêncio na madrugada, só que naquele tempo o bairro era cheio de gente transitando à uma ou duas da manhã, cheio de carros e luzes no asfalto, como se fosse Nova York tropical. Havia silêncio na praia noturna também, mas os gritos do futebol cortavam a mudez, além dos risos dos casais que transavam à beira-mar.

Sinto saudades das sextas-feiras. Às vezes marcávamos um chope num bar preferido. Sempre preferi os mais vazios, onde se possa conversar. Escutar o interlocutor é puro respeito. Antigamente eu tinha colegas para isso, mas acabou muito antes da pandemia, é que as pessoas precisam pensar em si mesmas e isso não costuma contemplar o outro. Seria bom tomar uma cerveja depois do expediente, ter algum alívio, fingir por alguns instantes que a vida é boa, mas passou. Os poucos bares sobreviventes estão vazios. Perdemos o que havia de melhor. 

Seis da manhã. Estou suado. Vou tomar um banho. Na TV passam os gols da rodada com uma pressa imensa, mal dá para ver direito. O gol precisa ser respeitado. Quase ninguém liga. 

Estou cansado. A padaria ainda não abriu. Vou comprar três pães e comer antes de ir para o trabalho, sonhando com clientes que não sejam muquiranas. Sonhando com a vida digna que perdi, com um país que minimamente existia. Tudo isso é real, mas não passo de uma personagem. Pessoas vão curtir com lágrimas, desejar força e manter distância. Outras, muito poucas, vão tentar ajudar. Só os mais sensíveis vão entender que a prosa não é uma autobiografia. A dor existe mas somente os mais sensíveis irão entender. 

É sexta-feira de manhã. Os bares morrem numa quarta-feira. Ontem foi dia de chacina. Até quando seremos uma república federativa cheia de gente estúpida, desprezando o próximo e se entorpecendo com um falso amém cheio de ódio, uma falsa dancinha no reels, um inútil textão lacrador até que venha uma nova chacina, um novo crime hediondo, uma nova chacina, uma nova chacina, o sonho da redenção do próximo jogo, a próxima sexta-feira nublada com cheiro de ruas tristes? 

Estou cansado. São seis e treze da manhã. Nenhum ônibus passa. Um rapaz chora na televisão, contando de muitos tiros na porta de um bar. Tudo é inútil: corpos empilhados, vinte e quatro suspeitos mortos, um policial morto, barões do tráfico e da milícia sorriem, não faz diferença. Corpos empilhados garantem o sucesso dos negócios. 

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. 

É quase tudo verdade. 

@pauloandel

Sunday, May 02, 2021

hamburguer

Queria comer um hamburguer. Tou com fome. Comecei a olhar o iFood e tudo é caro demais. Então resolvi desabafar um pouco e depois volto para lá. Aqui praticamente é meu único canal de troca e diálogo, enquanto ainda é possível.  

Lembrei de quando era garoto e ficava contente quando meus pais me davam algum dinheiro, suado, e eu economizava tudo para lanchar no Sumol ou na grande lanchonete que ficava na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, cujo nome já não recordo. Ou ainda o Bolonha, que o bozismo acabou de sepultar. Todas essas lanchonetes estão mortas. Todas tinham bifes próprios, suculentos. 

Por metade da década de 1980, o Gordon foi minha lanchonete oficial. Cheguei até a lanchar lá em pleno ano novo: eu e Fred comemos bastante, porque as garotas não aguentaram os sanduichões e faturamos. Havia um balconista educadíssimo chamado Misaque, homônimo de uma vítima da máfia carioca naquele tempo. O Gordon tinha crepe e sundae divinos, mas era impossível não pensar no Big Gordon, no Goleiro, no Angélico, no Toreador e no simpático Tudo. 

O Bob's da Domingos Ferreira era maravilhoso. Xuru morava bem em frente. 

O hamburguer da UERJ não era espetacular, mas quebrava um galhão em noites de muita fome e pouco dinheiro. Tenho saudade. Ando com saudades demais, não é saudosismo, não é oco, mas saber que era muito bom apesar das dificuldades - nunca é fácil quando você tem vinte anos de idade e precisa arrumar um emprego com urgência para ajudar seus pais, num país governado por Collor (claro que hoje é incrivelmente pior). 

(Enquanto penso, Noel Gallagher toca no programa de Jools Holland).

Falei de hamburgueres porque gosto. Pode ser de carne, pode ser vegetariano, pode tudo. 

(Lá fora começa o maldito silêncio sepulcral das noites de domingo).

Antes dos artesanais, eu ia sempre com Marina no Burger King do Barra Shopping, na verdade um pretexto para irmos à Livraria da Travessa e FNAC. Passávamos o dia lá. E pensar que o Brasil já teve FNAC...

Antigamente não se vendia caixas de hamburguer no supermercado. Quando a Sadia começou, minha mãe comprou uma com doze bifes, mais pão redondo com gergelim e queijo Chisi. Foi uma festa em casa. Tomate, cebola, maionese. Ela ficava contente demais quando me via lanchando porque sabia que eu estava contente. Quantas pessoas ficam felizes por saber que você está contente? Já se permitiu pensar a respeito?

Eu não sou egoísta porque estou falando de hamburgueres num país onde 110 milhões de pessoas não têm garantia das refeições diárias. Na verdade eu queria era que todas elas tivessem acesso aos pratos saborosos e aos hamburgueres também. Quantas pessoas você conhece que se preocupam DE VERDADE com a fome dos desconhecidos?

(Noel Gallagher sente saudades de David Bowie enquanto conversa com Jools Holland. Aimee Mann canta. Você se lembra dela fazendo vocais para o Rush?)

Vou escolher um hamburguer modesto mas não consigo pensar na garota que sumiu em Niterói, torcendo para que ela esteja bem, é irmã da amiga de um amigo meu e gostaria que ela estivesse bem. É tão jovem, bonita, tem o mundo pela frente, não pode desistir. 

Quando o sanduíche chegar, vou caminhar sozinho pela memória e saudar a velha Copacabana que me deu tantas coisas boas. Um bom sanduíche era o mundo. Estou deitado em casa. Espero ser vacinado e ficar mais alguns anos por aí, procurando esmolas de bondade cada vez mais escassas, já que meu país é na verdade um depósito de crueldade semeada em shopping centers - eles têm bons hamburgueres, é um alívio. 

(Algumas das piores pessoas que já conheci me abraçavam, me beijavam e me chamavam de querido, tudo muito pior do que no tempo em que eu comia um sanduíche sozinho, mas feliz, num balcão simples). 

@pauloandel

Friday, April 23, 2021

dia do escoteiro

Aconteceu que a turma saiu cedo como sempre - marcado às sete para partir às oito da manhã - na quinta-feira, mas eu tinha um compromisso à tarde e só poderia viajar à noite. De toda forma, ajudei no embarque; depois, voltei para casa. Nem precisamos acordar Macedo, um fato raro. 

Estudei um pouco de Matemática, almocei e sai para resolver pendências. Perto das quatro da tarde, estava de volta. Um banho rápido, a mochila estava pronta, vesti o uniforme e desci a caminho do ônibus 136. Em pouco mais de meia hora, com a cidade esvaziada, cheguei à rodoviária. Não havia muito movimento para véspera do feriado, culpa da inflação galopante de 70% ao mês, suponho. 

O 1001 estava ocupado pela metade. Bem confortável. Peguei um livro para me distrair durante a viagem, mas a leitura foi entrecortada pela paisagem: eu gosto de janela, de estrada, de ver o que se passa pelo caminho ou o que quase se vê no percurso escuro. Não havia ninguém ao meu lado, de modo que pude me espreguiçar com as duas poltronas. Entre campos e casas, comércios de beira de estrada, postos de gasolina e supermercados, uma hora e meia depois eu estava à porta do acampamento nas Chácaras Vale do Sol. 

Mal deu tempo de me apresentar ou abraçar os camaradas, quando fui chamado para uma emergência: salvar o arroz do jantar dos lobinhos, numa panela gigantesca que exigia cuidados diversos. Dois anos antes, eu não cozinhava, mas a péssima comida de alguns acampamentos me fez estudar os caminhos e fiquei bom de massa.

Imediatamente fui para a cozinha montada e preparei as colheres para a operação anti papa de arroz. Dividi com outra panela para controlar melhor o processo - quando se cozinha praticamente ao relento com um pequeno fogareiro, é necessário - e tudo corria bem. Dois escoteiros me acompanhavam, tentando pegar de olho o procedimento para uma ocasião qualquer.

Em três segundos, alguém gritou "Que marimbondo GRANDÃO!" e só deu tempo de me desvencilhar sem mexer as pernas - as queimaria na certa com a panela. Um esbarrou no outro, susto na cozinha e o inacreditável: o marimbondo caiu na panela de arroz fervente. 

Ninguém viu, só eu. De qualquer maneira, tinha que tirar o corpo da panela. Mexi, remexi, voltei e não havia um pedacinho do bicho. Morreu no fundo, coitado, no calor do inferno que os fascistas merecem. Depois de minutos e minutos sem a localização do corpo, decidi ficar na cozinha para também servir à Alcateia. Não queria nenhuma criança assustada e ninguém melhor do que eu mesmo para achar o pobre maribondo desnorteado. 

A fila indiana se fez. Todo mundo estava com fome, já passava de oito horas. Vinte e quatro crianças entre sete e dez anos. Eu, adultíssimo, com quinze. 

A carne moída com pomarola e cebola ficou ótima, as batatas cozidas também. Alguns lobinhos adoraram o arroz, chegando a elogiar - e nada é mais sincero do que um elogio de criança. Sorri também, mas a cada colherada servida eu procurava o cadáver para remoção e nada, sob tensão. Doze, quinze, vinte e quatro pratos. Os assistentes. Os chefes. Eu. Nada de marimbondo. Cheguei ao final da panela, raspando o arroz que todos adoraram, inclusive eu mesmo. Não havia um milímetro inteiro daquele corpo. Desintegrou-se na panela. 

Uma hora depois da janta, os escoteiros me convidaram para a guerrilha deles. Agradeci. Os lobinhos já tinham ido dormir. Preferi ficar sozinho, de frente para o campo, em silêncio, com a noite fazendo as vezes de telhado. Sentado num tonel, liguei meu rádio FM e quase todas as estações estavam tocando Stevie Wonder, estouradaço com a trilha sonora de um filme.

Cinco ou seis metros adiante, Patrícia me olhava e quase ria. Ela também jantou. 

@pauloandel

Wednesday, April 21, 2021

pequenininho

Amoçando com meu amigo Leo e, na mesa em frente, um jovem casal em apuros gastronômicos: o pequeno herdeiro, de meses, não podia ficar parado no colo da mãe ou do pai - imediatamente chorava bem alto, banguelinha, com enorme potência vocal infantil. 

Achei graça da cena. Leo também. A mãe balançava, o bebê ficava no mar da tranquilidade. Parou um segundo, buááááá! Depois o pai o pegou no colo e foi caminhar pelo salão, ele se acalmou. 

Ri também ao me lembrar que minha mãe me chamou de pequenininho até meus 38 anos, quando ela morreu. Raul me disse que Marô o chama de bebê, ele tem 44 anos e também me assusto porque, para mim, sempre será um garoto. Os referenciais mudam. Somos todos pequenininhos para os pais e mães. Meu pai não era de falar muito, mas devia me achar pequenininho também. 

É claro que a vida é como sabemos, e naturalmente todos vamos morrer. Mas tinha que ter um jeito dos filhos não terem que sofrer com a morte dos pais e vice-versa. É um delírio, é surrealismo, não dá mas deveria dar. A orfandade é algo tão doloroso que basta algum amigo sofrê-la e você sofre duas vezes, pela solidariedade e pelas próprias lembranças. 

Às vezes rio quando lembro da minha mãe. Ela detestava que eu a chamasse de Garfield porque o achava muito feio. Nem de pinguim, porque era muito baixinho. Minha mãe sofreu demais mas foi muito boa para mim. Pouco tempo antes de morrer, ela me disse que tinha orgulho de mim porque eu fazia o bem, e que se não fosse minha mãe queria ter sido minha amiga. É um dos poucos orgulhos que carrego. 

Hoje morreu a mãe do Silvio. Senti o velho soco duas vezes, o da dor dele e da minha, que carrego para sempre. Não tem jeito. Você segue em frente, há muito a ser feito, mas em algum lugar da sala fica um vazio desértico. 

Foi o Thiago, foi a Gisele outro dia por aqui. Tudo o que estamos vivendo acentua as perdas: quem não vê uma notícia de óbito por aqui? Vamos em frente, vamos em frente. 

Na TV passa um jogo, acho que é da Inter de Limeira. Estou deitado na mesma cama em que praticamente nasci. 

Já faz tempo. O tempo.

@pauloandel

Monday, March 01, 2021

o aniversário mais triste do Rio

Você vê na televisão as festas piratas, a boemia jovem da Zona Sul, os tumultos localizados e a confusão no transporte de massa, mas acredite: afora isso, a cidade do Rio em sua maioria mais parece um feriado interminável, nublado, de gris tristonha. 

Lojas fechadas, calçadas vazias, prédios que parecem abandonados. Dor, miséria, sofrimento. Perto da Praça Tiradentes, mendigos choram de fome - não há restos sequer na lata de lixo. O que já era uma injustiça social desumana ficou bem pior. 

De outros bairros, parece que sequer existem: não aparecem nos noticiários, não recebem qualquer amparo, são ignorados. Mídia, só quando há um crime. Lembremos do Rocha, de Sampaio, do Jacaré, de Todos os Santos, Quintino, Pilates. Ricardo de Albuquerque. Jardim América. Inhaúma. São muitos. 

Há anos, desde o golpe, o projeto subliminar de esmagar o Rio teve êxito. Afinal, aqui sempre residiu a voz crítica do país e o impulsionamento cultural - com todo respeito às outras localidades. Curiosamente, parte da população apoiou o projeto de destruição, elegendo em 2016 o pior prefeito do Rio e, em 2018, o pior presidente da República em todos os tempos. Deu no que deu. 

A cidade agora conta suas moedas e tenta se reinventar. Com a tragédia da Covid19 em pleno ar, precisa se reinventar, ocupar os espaços, resgatar as pessoas, refazer o comércio e semear empregos. Uma tarefa muito dura. Seguimos torcendo. Junto a tudo isso, é preciso reavivar a cordialidade dos cariocas, a empatia, a solidariedade. Não temos a vocação do mal, precisamos derrotar a desumanidade. 

Talvez o melhor caminho seja se apegar ao passado quase recente. Há exatos trinta anos, aconteceu o show histórico de Tom Jobim no Arpoador, tocando com sua Banda Nova para uma multidão em Ipanema. Não havia Covid19, o país era um caos - nada se comparado com agora - e os problemas eram muitos, mas um dos maiores cariocas de todos os tempos - Brasileiro em seu próprio nome - cantou as belezas - e as mazelas - da cidade para dezenas de milhares de pessoas. Foi uma noite histórica para o Rio e tomara que um dia algo semelhante volte a acontecer. 

Uma das pérolas do cancioneiro de Tom é "O morro não tem vez" (quando derem vez ao morro/toda a cidade vai cantar). É de 1964, um ano difícil para se defender os oprimidos. A foto abaixo é de 1961. Sessenta anos depois, o morro ainda não teve vez, mas a luta continua nas redes de relacionamento, na conscientização, no debate, no aprendizado e na constatação de que, apesar de hoje ser o aniversário mais triste do Rio, é possível reverter a tragédia em que nos metemos - ou que nos meteram. 

O Rio de Janeiro precisa dos cariocas, cariocas mesmo. 










@pauloandel

Tuesday, February 16, 2021

os tempos

os tempos, os tempos

e as mãos estendidas à espera 

do nada

quase perto de algazarras 

inconsequentes

em nome da liberdade


sorrisos de um carnaval natimorto

à procura do agora sem amanhã


[os outros que se fodam


a manhãzinha de silêncios cruéis

e mais um dia que parece em vão


carros cheios de sofrência sertaneja

buscando vagas e corações no leblon


sempre em frente, sem sentido

sempre em desprezo ao bem 

comum

sempre em desperdícios

sempre a indiferença


numa terça-feira gorda e indigente

com céu de raios de sol em fevereiro

esperamos o ano que não começa

a promessa que não se cumpre

o afeto despedaçado em estilhaços

e lágrimas que não atenuam a dor


oh, cidade maravilhosa: rogai por nós

teus braços abertos já não abraçam

são os tempos, tempos modernos

onde somos primitivos ao extremo


os primeiros motores barulhentos

cortam as grandes avenidas à beira-mar

enquanto bailes de rua semeiam o fim: 

nunca fomos tão cariocas da gema! 


os mortos vivos do coração da cidade

estão desmaiados sobre as calçadas

- ninguém lhes dará bom dia ou tudo bem

- estamos muito ocupados, deixe-me em paz!


as esquinas estão cheias de ausência


@pauloandel

Sunday, January 24, 2021

domingo em copacabana

SEPAREI O DINHEIRO para um picolé e um copo de mate, botei meu par de chinelos e desci. Todo mundo ainda estava dormindo em casa, algo perto de seis e meia da manhã. 

A Figueiredo praticamente não tinha carros nem gente, ao contrário de 99% do tempo. É que o domingo de manhã tem certo gosto de ressaca, de noite por dormir.

Quase na esquina com Barata Ribeiro, jovens vindos da Lapa, o underground carioca, saltam do ônibus no ponto e há quem cogite um lanche no Sumol, um suco e sanduíche, talvez uma fatia de pizza napolitana que eles vendem toda hora.  

Caminhe menos de cem metros e, na porta da galeria, dá para saber as próximas atrações do Cine Condor Copacabana. Bem na porta fica meu ponto de ônibus preferido para ir ao Maracanã. Na pequena galeria tem uma loja que vende camisas bem confortáveis.

[Avenida Copacabana versus Figueiredo Magalhães, a esquina mais barulhenta do mundo. Marcelo Conde e Hermínio moravam ali. Garotos extenuados pela noite virada deixam o Gordon, lendária lanchonete famosa pelas partidas de mau-mau e truco disputadas no segundo andar da loja. Os sanduíches eram imperdíveis.

O símbolo da drogaria na Figueiredo é um dos colossos de Copacabana: Pepe Corta Zeros, um tucano - ou arara? - combatente da inflação de 70% ao mês, porque a vida é assim na Era Sarney. É um tucano bem grande na logomarca, antes de chegar a agência do Banco Econômico. 

Na transversal, tem a loja da Gênova com os melhores salgados e a melhor pizza brotinho do mundo, senhor! Gostosa demais. A Domingos Ferreira é uma rua discreta, de pouco movimento. Uma quadra antes do temível Edifício Master - eu e Xuru passamos sempre do outro lado da rua. 

Na quadra do Camões é fácil ver Júnior, um dos melhores jogadores brasileiros. Volta e meia está por ali com seus ex-vizinhos, apaixonado que é pelo Juventus, o time mais popular de futebol de areia do Rio. 

Atravesso a Atlântica, desço a escadinha de dois degraus e meu par de chinelos Katina Surf protege meus pés do calor da areia. A praia ainda está deserta. Manhãzinha de domingo, todo mundo tem um pouco de ressaca, seja etílica, seja sentimental. 

Um garotinho sentado mais adiante mexe com a pá num balde, brincando com a areia. Sua mãe o observa atenta e orgulhosa. São uma linda e pequena família. Noves fora, estou sozinho bem aos pés do Atlântico Sul, então me sento, olho para um lado e outro, escuto o breve som do mar e nem quero pensar no vestibular, nos problemas e nas soluções que ainda não tenho. Por enquanto é tentar sair do quartel, passar na prova, estudar e arrumar um emprego. Os raios solares parecem mais fortes, já deve estar perto de oito da manhã. Daqui a pouco eu compro um picolé de limão ou côco.

O mate fica para depois. A praia ainda está deserta, mas ao longe já tem um senhor vendendo o Dragão Chinês e outro com a chamada inesquecível: "É Maria Teresa Weiss!"

@pauloandel

Saturday, January 09, 2021

miami peep show

Com anos de atraso, o Rio de Janeiro passou a sediar um velho costume estadunidense e europeu: o peep show, a casa de espetáculos eróticos onde os clientes, dentro de cabines apreciam as garotas numa arena de vidro simultaneamente ou não. Cada ficha dá direito a dois minutos de show. Num espaço anexo, funcionam as famosas cabines solo: nelas, o cliente tem um show exclusivo de sua modelo preferida, com mais tempo, mas precisa gastar pelo menos cinco fichas, sendo que a cabine não é 100% isolada entre cliente e modelo. Ou seja, passa a mão boba, as pequenas brincadeiras, um cachê a mais e, claro, os telefones de contato para futuros encontros de amor. 

E se alguma coisa vai começar no Rio de Janeiro, evidentemente a plataforma de lançamentos só pode ser num lugar: Copacabana. 

Miami Peep Show. Esquina de Hilário de Gouveia com Avenida Copacabana, bem perto do primeiro McDonald's do Brasil, do Banco Real, do Supermercado Pão de Açúcar (antigo Peg-Pag) e da locadora: a igreja católica. Sim! A Igreja de Nossa Senhora de Copacabana é a dona dos imóveis de parte daquela quadra e celebrou um contrato de locação honesto, sério. 

No térreo, a Miami vende produtos eróticos e fitas VHS. Subindo uma escada vermelha, logo você chega ao palácio erótico do bairro, que abre às onze da manhã e vai até meia noite, de domingo a domingo. Numa parede, tem o elenco de modelos da casa, cada uma com uma lâmpada acima da foto: as acesas indicam as titulares do dia, todas alucinantes. E é possível assistir a vídeos eróticos também, em cabines com TV, sem modelos.  

O ambiente está sempre limpo e quase ninguém repara que os supostos rapazes que cuidam de higienizar as cabines permanentemente na verdade são garotas homoafetivas, todas com cabelos muito curtos e roupas largas que enganam os olhares desatentos. Elas também mantém o semblante muito sério, regras da casa e também para evitar machismos e até mesmo assédios, num ambiente marcado pela intensa libido provocada pelas modelos. Eficientes, as funcionárias da limpeza deixam as cabines impecáveis, sem vestígios da excitação da clientela mais afobada. 

A Miami tem um locutor que anuncia as atrações na arena, as modelos disponíveis para a cabine solo e também para saudar os habituês e heróis da casa. O guitarrista John Avila não sai de lá: é tão conhecido que chega a comparecer nas festas de aniversários das modelos, churrascos com os frequentadores e mesas redondas, onde se faz a resenha da semana e as melhores performances das meninas. O comerciante Eduardo Eddie é um verdadeiro obcecado pela Miami: frequenta pelo menos duas vezes por semana e não aceita jogar menos de 20 fichas cada vez. Embora more do outro lado da cidade e trabalhe no Centro, ele faz tudo para que possa ir a Copacabana e, mesmo num intervalo de meia hora, tenha condições de apreciar as beldades - inclusive já convidou uma delas para saborear um cachorro-quente enquanto a modelo lhe contava sobre um livro erótico que pretende escrever. Perto dali, o estudante LC organiza campeonatos regulares de futebol de botão em sua casa, mas evita ao máximo que os participantes se ofereçam para ir comprar pizzas na Bella Blú, patrimônio gastronômico do bairro: os voluntários acabam esticando quatro quadras adiante e, dependendo das gatas do dia, podem parafrasear o ator Joel Barcelos no antológico filme "Rio Babilônia", conversando com sua namorada estadunidense: "No money, no pizza". Resumindo: torrando a grana do lanche em fichas de tesão.

Garotos imberbes, coroas, marombeiros, estudantes, profissionais liberais, todo mundo passa pela Miami em busca das emoções visuais. De conhecidos repórteres esportivos da Globo até parlamentares respeitáveis. Noutro dia, quem apareceu foi Paulo Sérgio, jovem goleiro reserva do Fluminense que acabou de ser campeão com o antológico gol de barriga de Renato Gaúcho - um sex symbol das garotas da casa. Entrevistado pela revista Placar, Paulo considera o ambiente bastante excitante. Depois de conferir a performance da modelo Samantha, Paulo não se fez de rogado: "Tive vontade de quebrar o vidro da cabine e agarrá-la. O poeta maior do bairro na era contemporânea, Fausto Fawcett, tem na Miami uma de suas fontes de inspiração literária. Um de seus versos cabe perfeitamente na arena: "Purgatório da beleza e do caos".


@pauloandel

Saturday, January 02, 2021

quando peguei cássia eller

(Baseado em fatos reais e imaginários

Numa noite de quinta-feira de novembro de 1998, eu estava com meu amigo Bolinha em Copacabana. Resolvemos beber chopes. Estávamos fudidos emocionalmente por vários motivos mas estávamos lá, juntos, um dando força para o outro. 

Chegamos tarde ao Sindicato do Chope no Posto Seis. Pedimos frango à passarinho, caldo de feijão e chopes. Já passava de meia noite e tínhamos trabalho cedo, mas não estávamos nem aí - lembrando que nosso estado emocional era péssimo - parece até as minhas últimas seiscentas noites. Não bebemos de cair, éramos quase responsáveis, mas dava para rolar umas tropeçadas e até se machucar no calçadão. 

Uma da manhã, bar vazio, o garçom esperando que pedíssemos a conta, eu pedi foi uma empolgante caipirinha - beber liberta! -, e subitamente chega ao bar ninguém menos do que Cássia Eller, acompanhada de dois brous. Enchi meu peito de emoção e o Bolinha logo inflou a ideia: "Porra, cara, Cássia é foda demais, você tem que ir lá falar com ela!". E a vergonha? E o risco do toco? A gente nunca sabe. 

Comemos, bebemos, Cássia estava na dela e a gente na nossa, claro, só que era impossível não olhar porque ela já era uma celebridade nacional, uma super ídola e nossas mesas eram as duas únicas com gente no bar. 

O Bolinha sussurrando que nem o Diabo: "Cara,  quando ela for no banheiro, você vai em seguida e cerca ela no corredor". Os dois banheiros eram um de frente para o outro. Mas eu já tinha ido umas cinco vezes de tantos drinques. 

Um chope, dois, três, cinco, deliciosos, eu já tinha aliviado toda a tristeza daquele dia mas o destino foi implacável: Cássia se levantou, Bolinha me deu um cutucão, ela foi para o banheiro, contei até três, fiz o mesmo mas o tanque já estava vazio. Então fiquei lá dentro num silêncio típico de minhas noites de ronda escoteira, ouvindo os ventos, as folhas e o horizonte livre no campo, esperando que, no outro compartimento, surgisse um som de torneira aberta - sinal de que ela estava prestes a sair. 

Segundos, segundos. Tchoook. 

[A água da torneira batendo no dorso da pia.

Estou pronto, conto três segundos e abro a porta do banheiro. 

Dou de cara com Cássia Eller. Ela olha e quase ri. Eu paro e digo "Cássia...". Ela para, eu me aproximo e aí um dos pares de olhos mais expressivos da música brasileira se arregalou: provavelmente ela pensou que eu a agarraria, mas não foi nada disso. Não. Eu coloquei minhas mãos nos ombros dela, peguei firme e disse "Tu é foda pra caralho. Eu cantei muito lá na UERJ quando você fez um show no Teatrão. Meu amigo Rubens estava lá mas não desceu quando você sorteou a caixa de Brahma (patrocinadora do evento) - ficou com vergonha de ser a bicha da letra. Só sei que tu é foda. Teu show na Apoteose foi demais, você, Bob Dylan e Rolling Stones. Caceta!". 

[Nós dois, cara a cara, olho no olho, a poderosa rockstar encolhidinha com medo de um gigante gentil. 

[A baixinha tremeu. 

Ela, pequenininha, já calma quando tirei as mãos de seus ombros, olhões quase arregalados. "Pô, cara, brigado pela força. Valeu mesmo.". Cássia realmente se assustou com a possibilidade de um beijo roubado, mas a um verdadeiro cavalheiro bêbado só interesssam as causas amorosamente perdidas. 

Té mais. Té mais. Valeu. 

Saímos rindo pelo hall, os amigos dela me espiaram estranho, voltei para a mesa e comemorei o feito gloriosamente com Bolinha. Logo depois, pedimos a conta: não havia mais nada a fazer. Na hora de irmos embora, dei um tchau pra ela.

Fizemos o caminho de sempre: Atlântica, Aterro, Arcos. Bolinha gostava de dirigir. Era um tempo de dificuldades - quase nada se compararmos a hoje - mas ainda era possível você tomar um trago na madrugada e se deparar com Cássia Eller no banheiro do bar, muito tempo depois da velha Galeria Alaska ter encaretado por completo, antecipando as trevas de 2020 - ou pós-2018, permitam-me.

Três anos depois, Cássia Eller morreu. Por ironia do destino e sem saber, eu estava a 100 metros do hospital onde ela faleceu. Antes disso, ainda a vi ao vivo um showzaço que ela fez, para variar, na Concha Acústica da UERJ. Ela era demais. Meu amigo Rubens também morreu tempos depois. O Bolinha está bem vivo, falamos pelo whatsapp. 

Não vou mais a bares como gostaria. Talvez não vá mais. Talvez vá às vezes com Henrique, com Isys, com o Leo agora é tudo light. Ele está certo. 

Só dez por cento é mentira. O resto é a maravilhosa Copacabana dos anos 1990, puríssima, da boa. 

@pauloandel

Thursday, December 31, 2020

pilar

há um um lindo sol

de tarde - o sol da 

última tarde -

e a gente amanhecendo

sem filas de trem

ônibus ou barcas

- a cidade é um feriado


[são vários sóis


vão-se as horas

por entre ruas desertas

e sombras de árvores

incansáveis - 

às vezes pequenas 

frutas se espatifam 

nas calçadas


a gata do vizinho está

derramada à cama e 

nua de doer - ela sabe

quem vê ao longe e ri

e debocha da própria

beleza em pêlo e riste


[ao longe, gentes reviram lixo

para ter o que viver


[ao longe gritam num pagode

bastante empolgante 


eis um carnaval sem 

desfile nem torcida

sem apoteose e fantasia

- a última tarde 

- o sol da última tarde


[casais que não trocam 

bom dia


[mensagens secas que 

não chegam 


[peitos estufados com vã

valentia e rostos nus


é melhor deixar a 

cortina fechada

o som bem mais baixo

a campainha desligada

pequenas esmolas de

paz em tarde ensolarada

- o sol da tarde

- o sol da última tarde 

do ano que desaconteceu


[talvez o som de ornette coleman

seja uma pequena liberdade


[ou a fúria juvenil de albert ayler

em sopros tortuosos


do outro lado da cidade

a pequenina figura de 

um menino caminhando

pela calçada perto da baía

de guanabara sem camisa

nem horário e nem família

de chegada


[tão pequeno e novo 


as pessoas amanhecem 

numa linda tarde de sol

- o último sol da tarde

- a tarde do último dia


alguém assobia uma canção 

popular nos arredores da 

central do brasil, perto de 

onde joão goulart fez seu

último discurso antes de 

sequestrarem o país


[são sóis demais 


@pauloandel

Thursday, December 17, 2020

Jason et Louise

ELA estava nua, de costas, e com a mesma beleza de tantos outros anos e oportunidades. Sua nudez esplêndida parece inesquecível mas era apenas uma imagem de três segundos, antes do sono virar despertar para mais um dia de trabalho na terra do cumprimento de penas, a poucos dias do Natal mais triste do Rio e de um Ano Novo sem festa.  

Ela é a mulher que lhe despertou o maior número de sonhos eróticos na vida. Foram muitos e nenhum deles chegou à unha de se tornar realidade. Parece estranho para quem só vê a sexualidade e o desejo em fatos concretos realizados, desprezando a fantasia. O desejo continua de alguma forma, mas sua realização é impossível: não tiveram os momentos de intimidade que mereciam ter tido, não souberam viver o que talvez lhes coubesse e nunca mais se viram. Têm vidas diferentes, moram em locais diferentes, não possuem mais nada em comum. O que faz então com que um senhor de meia idade, que já deveria ter tomado tenência na vida, volta e meia acorde quase liquefeito pelo tesão que a balzaquiana distante lhe desperta? É difícil entender pelos meios convencionais, mas parece óbvio que o erotismo não possui limites e convenções, nem lógica ou histórico. 

Louise está nua, perto de uma parede, de costas. Seu lindo e desejado corpo está em perfeito alinhamento com o romance carnal, a volúpia, a troca de toques inesquecíveis, mas tudo não passa de uma emoção adolescente nos últimos segundos de um sonho, prestes a terminar em plena alvorada de dezembro, quente e também provocante. Jason desperta em clara excitação, algo que já lhe aconteceu dezenas de vezes, mas não com suas namoradas e esposas, nem com suas admirações românticas, nem as belas garotas de ocasião. Das entranhas do pensamento, a apaixonante diva ressurge como princípio do prazer, possível apenas na imaginação. 

Ele acorda meio tonto, olha para o teto, para o lado. Procura Britney e ela não está. Pode ser que tenha saído mais cedo ou sequer vindo. Jason pensa no delicioso corpo nu de Louise, enquanto ri ao celebrar o beijo que nunca aconteceu, o namoro que foi nada, o relacionamento que só possui lembranças do que não aconteceu. 

Louise permanece perto da parede, esplêndida e completamente nua. Sua pele alva não tem as marcas de sol das roupas íntimas. Seus longos cabelos chegam ao meio das costas e provocam pelo pouco que escondem. Ela é um sonho, somente um sonho, uma fantasia impossível. E é a impossibilidade que faz Jason abraçá-la pelas costas, então se roçam ao mesmo tempo que trocam um beijo de tirar o fôlego, como se aquela preliminar de relação sexual fosse o sentido do mundo. 

É um sonho jamais realizado e, por isso mesmo, é tudo verdade. Louise tem as mais belas costas femininas do mundo, é impossível não desejá-la. Jason sabe o que perdeu. Sabe. 

@pauloandel

Sunday, December 13, 2020

Download gratuito do livro "Nada vira do avesso sozinho 2"

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Wednesday, November 25, 2020

panqueca

Acabei de comer uma quentinha. Chamam de prato executivo. Frango, arroz, batata frita, feijão, tomate, alface e, sei lá por que, molho à campanha. Comi sozinho enquanto vi o jogo do Botafogo. Lembrei de quase 40 anos atrás.

Minha mãe teve que fazer uma cirurgia. Estávamos muito pobres mas, não sei como, meu pai conseguiu interná-la num hospital particular que ficava na Alameda São Boaventura. Era para ser uma coisa rápida mas acabou levando dois ou três meses porque contraiu infecção hospitalar. 

Eu só podia ir visitá-la aos domingos. Durante a semana, ficava sozinho. Meu pai só chegava à noite. Eles brigavam, ele bebia muito, mas naquele momento ele ficou bem preocupado. 

Eu já sabia fazer alguma comida, mas meu pai preferiu deixar dinheiro comigo em dias alternados, para que eu comprasse uma refeição pronta. De noite lanchava. Já estava de férias, tinha passado em tudo, o que me restava era esperar o Fred chegar da recuperação e ir pra casa dele até meu pai chegar. Às vezes ficava em casa lendo e pensando no Fluminense: Afonsinho, Deley e Mário. 

Tinha um restaurante perto da minha casa, dentro do shopping dos antiquários, chamado Afonjá. Seu dono se chamava João Pedro, era um cabeleireiro respeitado em Copacabana pelo estilo afro, também tocava o restaurante. Na primeira vez em que fui lá, tinha um prato chamado panqueca e gostei do nome, então pedi para viagem. Três panquecas de carne, arroz, feijão, batata frita e tomate. Quando cheguei em casa e comi, gostei para sempre. Panqueca é muito gostoso. Voltei no restaurante várias vezes e pedi panqueca. 

Nos domingos em Niterói, antes de entrar na visita, eu tomava um Mineirinho no bar com meu pai. Era perto do hospital. A Alameda estava cheia de cartazes do cantor Marcelo, lançando sua música "Abre coração". Minha mãe demorou um tempo mas ficou boa. Ela nunca recuperou integralmente a saúde mas ainda viveu 25 anos. Sofremos muito mas também nos amamos e rimos bastante. 

Hoje não tinha panqueca, mas a quentinha me lembrou aquele tempo. Eu sonhava em ser jogador de futebol, ou trabalhar na lanchonete vendendo misto quente. Eu queria ter uma casa pra morar com minha família. Queria ficar adulto logo pra ajudar em casa. Eu jogava botão, estudava polinômios, desenhava escudinhos de time, ia à praia, jogava bola. A gente ouvia discos na casa do Fred. 

Maradona já era um cracaço em 1981. Agora na TV Fernando Vanucci narra uma crônica de Armando Nogueira sobre Maradona. Muito tempo depois, um psicopata de redes sociais ia dizer que eu fazia imitação barata do Armando Nogueira, mas era tão estúpido que não percebeu minha imitação do Ivan Lessa. 

Joguei a quentinha vazia fora. Vai dar meia noite. Como acontece todo dia há muitos anos, tenho saudade dos meus pais. Tenho saudades do Mineirinho gelado na Alameda São Boaventura. O Marcelo eu vi há dez anos, no show do Youssou N'Dour. Tenho saudades de ser um garoto, ou de ter tempo, talvez eu seja garoto até com rugas e cansaço. 

Agora Maradona dá um passe espetacular na TV para Caniggia liquidar o Brasil. Estávamos na casa do Luizinho. Xuru falou muitos palavrões. Eu já tinha mais de 20 anos mas continuava um garoto. 

Tenho saudades da panqueca. 

Quase todos os personagens desta pequena história desimportante estão mortos. 

@pauloandel