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Monday, September 06, 2021

trinta anos depois

Onde eu estava há trinta anos? Em Copacabana e na UERJ. Tinha o Maracanã também. Tudo isso era importante para mim, mas não significa exatamente saudade, exceto ter meus pais e o Fluminense. Depois de alguns tropeços, lutava para estabilizar as matérias (o que nem sempre era fácil pelas condições precárias em que vivia) e sonhava com um estágio que pagasse pelo menos a passagem e a conta de luz. Em casa nada era fácil, nada, nem mesmo quando eu só ia para dormir. Na UERJ era bom, tinha os colegas e toda aquela efervescência da vida universitária. Estágio era algo mais difícil do que algo que preste vindo do Bozo: esmagados pela era Collor, sem grandes perspectivas. Pelo menos consegui comprar uma calculadora científica. 

O Fluminense não ganhava nada há seis anos, mas como era bom ir ao Maracanã e às Laranjeiras. Ao contrário do que muitos pensam, embora estivesse há tempos sem um título, o Fluminense os disputava e era um protagonista, não um figurante. Tínhamos um bandeirão, a torcida era linda e não havia os pelassacos da internet. Quarta e domingo estávamos lá, mesmo com o dinheirinho contado. Eu descia com meu caderno preso numa prancheta de acrílico laranja, atravessava a rua, comprava um suculento ingresso de geral e pronto. Meu time, meu amor. 

Estudar de manhã e de noite não era fácil. Procurar emprego, idem. Quando dava uma folga, jogar botão ou uma dupla de praia. Eu tinha deixado os escoteiros e me afastei de vários colegas. Bom, compensava no fim de semana com ótimos shows gratuitos no Parque Garota de Ipanema. Passou uma turma da pesada por lá. 

Se não voltasse para casa de tarde, a saída era almoçar no restaurante de comida vegetariana na Sousa Franco (delicioso e barato, mas você ficava com fone de novo uma hora depois) e dar uma de Ivan Lessa: seguir cachorros pelas ruas de Vila Isabel. Espiar as ruas, as casas restantes, passar no que sobrou do campo do America. Gatas indo e vindo do prédio da Medicina. Não era fácil, mas tínhamos dois componentes essenciais a nosso favor: o futuro e a esperança. De manhã, matando alguma aula ou com falta mesmo, não podíamos reclamar: nossas amigas eram lindas, sempre havia um colo amigo num par de coxas estonteantes e, de certa forma, a retribuição era com as risadas que provocávamos no meio da conversa.

São cinco da manhã, eu só dormi de meia noite às duas, eu preciso falar com a Marina, eu preciso transcrever vinte minutos de um vídeo, eu preciso pagar contas e vender discos, vender livros, vender. Hoje eu sei quem eu era há trinta anos, mas não sei se saberei daqui a trinta anos sobre o agora. Não é saudade, mas reconhecer que é justo revisitar nossos momentos mais divertidos, enquanto lá fora vozes ameaçadoras cortam o silêncio da alvorada que se avizinha. 

Eu devia estar contente porque estou trabalhando mais, porque lentamente os resultados estão vindo, porque há luz no fim da estação de trem. Mas não estou. Provavelmente é porque vejo gente sofrendo demais, demais. Na verdade são cinco e vinte. 

@pauloandel.

Tuesday, August 31, 2021

Any colour you like

Sete e meia da manhã na escola, 1977. Terceira série. Éramos eu, minha lancheira e minha mochilinha. Eu não lembro da turma, dos alunos, mas lembro do Seu Zé na portaria. Estudou comigo um menino de sobrenome Calegari. A professora se chamava Élida - me reservo ao direito de não chamá-la de "tia". Por alguma razão que não sei dizer, faz tempo demais, de repente ela começou a gritar na sala. Aquilo me apavorou, porque remetia imediatamente aos gritos de meu pai por embriaguez. Então chorei. 

Para quê? Eu no fundo da sala e a professora num acesso de fúria, dizendo que detestava crianças choronas e mimadas, que não aceitava aquilo. Eu tinha oito anos de idade. Foi minha última aula com Élida, felizmente: troquei de turma, na verdade pulei de turma, e também de endereço: a escola era a mesma, mas em vez da Rua Tonelero passei para a Rua Tenreiro Aranha. Muitos anos depois é que percebi não ter feito a primeira e a terceira séries, cursando apenas um bimestre da segunda. Precisei sair e voltar da escola, eu estudava sozinho. 

Desde criança chorei muito e quase diariamente. Geralmente sozinho, sem incomodar ninguém. Onze anos depois do faniquito de Élida, 1988, chorei de alegria pela primeira vez quando vi meu número cheio de algarismos no Jornal dos Sports, em março de 1988. Finalmente eu chegava à UERJ. Foi uma dureza: sem dinheiro, sem cursinho, sem trabalho, passei na prova e anularam o vestibular por fraude. Refiz e passei de novo. Meu choro foi na antiga sede do grupo de escoteiros, ao lado da Paróquia de Santa Cruz de Copacabana. Ia ter um almoço com bingo lá. Minha mãe apareceu, nos abraçamos e senti um orgulho enorme. Foi um domingo feliz e cheio de esperanças pelo que viria. 

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Mais de quarenta anos depois, quem se lembra da escola? Difícil dizer. Os garotos viraram cinquentões, os quarentões têm quase 90. 

O prédio de três andares teve outras finalidades e, mais recentemente, abrigou um hostel. Sobrou a fachada colorida, que lembra a capa de um livro meu, e uma faixa de anúncio comercial. E só. 

Ao lado, parece ser o Edifício Brilhante. Se for, ali morou a Gisela, que era uma graça. Na esquina tem o Big Bi, que sucedeu um pé sujo e a Casa do Pão de Queijo, inaugurada por Georgia Wortmann, musa do bairro e das passarelas. 

Uma da manhã de quarta. Se quiser, posso chorar à vontade. Tomei um milk shake de Ovomaltine, trabalhei até meia noite. Estou cansado. Bem cansado, mas o sol nascerá. 

Ao longe, estouram fogos em Santa Teresa 

@pauloandel

Friday, August 27, 2021

Aeroporto 19h

Jocemar Barros foi na direção das barcas e resolvi dar uma volta rápida. Parei no VLT da Carioca, vi que o cartão tinha um saldo favorável - pelo menos esse - e embarquei no sentido Santos Dumont, depois de ter desistido de ir ao Boulevard Olímpico. É um passeio maravilhoso. Meu ídolo Fausto Fawcett odeia o VLT mas eu amo de coração, falei disso hoje com o Lucas Bueno - você navega a cidade com todo o conforto, limpeza e um visual fantástico, exceto pelas lojas fechadas no Centro, imunes às pantomimas de recuperação sem um plano de emprego e renda. 

O SDU é ideal para pessoas como eu, que gostam de lugares vazios e pouca gente. Bom, na verdade tem muita gente mas desembarcando e se mandando, muitos aliviados porque têm dinheiro na conta mas passaram uma semana dos diabos na escrotidão lancinante do mundo corporativo. Sei do que falo: estive nele e algumas das pessoas mais falsas e abomináveis que conheci na vida estavam lá, às vezes rindo na sala ao lado. Que morram. Antigamente eu andava ali cheio de tensão, com medo de perder o voo, indo para reuniões nem sempre produtivas, com dor na coluna da viagem bate-e-volta. Perdi dinheiro mas ganhei minha liberdade, o que não tem preço. 

Já que não tem discos e livros, fui para a praça de alimentação deserta. Pensei em comer num restaurante a quilo, muito bom, mas a força do hamburguer me atraiu. Parei no caixa e vi que não havia funcionários, era interagir com o computador e fazer o pedido. Menos postos de trabalho, a apoteose da impessoalidade. A máquina pediu que colocasse meu nome e, por ele, aí sim uma funcionária me chamaria para entregar o lanche.

Minutos depois, "Paulo Roberto". Eu não pareço com um passageiro de voo. Ando de chinelos, bermudão velho, camisa preta rasgada e carrego dois pacotes de plástico preto. É divertido: ninguém imagina quem sou pelo que aparento. Pego a bandeja com o sanduíche, a batata frita e o copo para que eu mesmo pegue minha Pepsi. Sou um vitorioso: mesmo pobre, posso garantir meu lanche noturno num país onde  cento e dez milhões de pessoas provavelmente estão com fome agora à noite, o que é inaceitável exceto para alienados que ainda acham que está tudo bem. Inaceitável. 

Na mesa à noroeste, quatro caras bebem chope no quiosque da Brahma e ajeitam suas malas de rodinha, provavelmente se mandando do Rio no fim de semana, talvez voltando no próximo dia útil

Na mesa quase noroeste, uma garota tão bonita que me lembra Juliana, ou Larissa, que faz aniversário hoje. Bom, essas duas não se parecem em nada, exceto pelas belezas diferentes.

No balcão da lanchonete, a jovem bonita e com certo ar triste, que talvez seja cansaço pela maldita exploração capitalista. 

Lancho, vejo mensagens, fico feliz com comentários e olho para a frente. Quatro caras, uma garota e um vazio enorme. Gasto dez minutos e resolvo partir para o Uber Lounge. Esqueci de jogar na Loteria e perdi o horário, droga. 

Marina sai do trabalho cansada, trocamos mensagens, quero que ela chegue bem à casa da mãe. Eu a amo. Será um longo percurso. Queria que ela estivesse no lanche. Precisamos ter paciência. 

No meio do caminho até a saída, um garotinho bem pequeninho correndo, as irmãs um pouco mais velhas vindo atrás, ele cai no chão, ri e o pai logo o pega no colo, aí ele ri mais. As crianças nem sabem o bem que fazem a desconhecidos que nunca mais irão vê-las, só pela paz e felicidade que emanam. 

O Uber Lounge está lotado, cheio de gente impaciente. Não há carros disponíveis. A estupidez da inflação da gasolina está quebrando muitos motoristas. Tento por dez minutos e não consigo, então desisto e resolvo sair de VLT. Delícia. Uma breve corrida até a Carioca, salto e vejo a inacreditável loja da lanchonete na esquina de Almirante Barroso com Rio Branco fechada. Bom, do outro lado saiu a Caixa, é inacreditável. Antes disso, a dor é ver a Cinelândia às escuras, só o Verdinho funcionando, uma dor no peito ver o Amarelinho de portas cerradas. Parece o fim de uma era. Outro dia mesmo estávamos vendo filmes no Odeon e agora tudo é miséria. 

No ponto do táxi, um dos motoristas mais simpáticos de todos os tempos. Na breve corrida até a Cruz Vermelha, ele fala de sua jovem esposa, de não trabalhar mais no final de semana por cansaço e, apesar da aparência jovial para cerca de 60 anos, ele pretende aplicar botox em breve. Trabalhou na área de cosméticos por muitos anos. Me mostra uma foto com a esposa. Ela é bonita. Agradeço a viagem, um taxista realmente diferente. 

Na portaria converso com Davi, sempre educado. Pego o elevador vermelho, o mesmo em que desceram um dia os corpos de meus pais, mas nem ligo porque eles estão comigo de alguma forma. Mais mensagens da Marina, do Catalano, da turma tricolor. Por dez segundos, penso nas contas atrasadas e mando-as à merda: meus ídolos também estão duros. Acho que vou ler alguma coisa, porque ninguém pode levar a sério um escritor que não seja um leitor caudaloso. 

Oitavo andar, dez passos até a porta, silêncio pleno, estou em casa. 

@pauloandel.

Monday, August 23, 2021

Charlie, o mercenário da praia

Ele devia ter uns sessenta anos em meados da década de 1980. Ficou conhecido no Bar Sniff's do Shopping dos Antiquários, onde não ficava muito tempo no balcão, mas fazia graça com os clientes, especialmente os escoteiros, que ele de longe chamava com seu vozeirão e sotaque estadunidense temperado por soul e blues: "OHHH, SCOUTEIRSSSS". 

Talvez um metro e sessenta, boné e óculos escuros permanentes, barba às vezes. Camisa social, sunga e chinelos de dedo sempre. Rádio na mão para ouvir à beira-mar. Era um entusiasta da new wave do pagode: Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Fundo de Quintal.

Charlie sem dúvidas era um ser da praia. Seu ritual era diário: invariavelmente passava com sua cadeira perto de uma da tarde, voltando perto de oito da noite. Mantinha o bronze permanente na pele. Volta e meia era visto com garotas, muitas vezes negras fantásticas com vinte e poucos anos de idade, geralmente no Rondinella, esquina de Siqueira Campos com Atlântica, cujo dono era o ator Percy Aires, com muito sucesso na época. Enfim, um bom vivant. Sua vida praiana não indicava que tivesse algum emprego regular. 

Guardava um enigma: a cada três ou quatro meses, viajava para o Paraguai e voltava. Nunca falou nada sobre as viagens. É claro que os roteiristas do botequim já viram Charlie como um mercenário ou algo ligado ao "Guarani Way of Life". A grana vinha de algum lugar para tanta cerveja, praia, mulheres apetitosas e viagens. Alguém sugeriu que fosse um traficante de armas ou pedras preciosas, mas não dava pra levar a sério o coroa queimadaço de sol, apenas com camisa de botão e sunga diários, enfurnado em altos crimes. Ele ia e vinha, sempre pela Siqueira Campos, onde também sentava praça na areia.

Jamais falava de política, de suas viagens ou das maravilhosas garotas. Vinha, fazia uma piada, ria, bebia uma cerveja e se mandava. Na única vez em que se manifestou num debate político no Sniff's, deu pinta sobre as suspeitas no Paraguai; enquanto a turma do bar queria a cabeça do então presidente José Sarney, esperou os ânimos se acalmarem e cunhou sua frase definitiva quebrando o silêncio: "Sárnei is bon pessoa". Sabe-se lá o que quis dizer com isso. 

No bar e em toda a Siqueira Campos, ninguém sabia dizer como Charlie surgiu, e o mesmo aconteceu quando ele simplesmente sumiu. Nenhuma das garotas fantásticas reclamou nada. Muitos acharam que ele foi para o Paraguai de vez, sem qualquer comprovação. Mais de trinta anos depois, sua figura ainda é muito lembrada.

eus

eu mil vezes eu andando pelos escombros da cidade eu chorando pelos que choram e rindo muito sozinho eu sem grandes nostalgias mas vivendo o passado que vale eu com meus músicos muito mortos artistas e escritores muito mortos homens do jazz e do blues eu que não tenho grandes títulos nem patrimônios nem grande fama ou notoriedade mas vou me escorando ao lado das veias de asfalto cheias de automóveis eu que sou copacabana e centro sou candelária madureira eu sou 434 e 521 eu sou fawcett e caymmi e peter gabriel e bjork eu mil vezes eu do parque guinle ao parque lage do bangu shopping à orensana eu que escrevo versos tortos e desconhecidos e livros desordenados eu que gritei com rush rolling stones e joe cocker e paul eu cansado estropiado apaixonado pela mesma esposa há oito anos eu com meus discos e livros o resto não importa eu de agosto abril e qualquer mês eu de amor

@pauloandel

Sunday, August 22, 2021

Inca

Entre maio de 2004 e abril de 2005, estive diariamente no INCA como visitante, acompanhando meu amigo Xuru. Não foram dias fáceis, mas deixaram algumas lembranças alegres e tristes. 

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Alicia (pseudônimo) era enfermeira do Russo. Uma gatona: baixinha, morena, aparelho nos dentes, cabelos pretos longos. Ela vinha e já tinha graça do Xuru: "Ahhh, Alicia, se terminar esse noivado eu te peço em casamento" (ele era casado). Ela ria muito. 

Numa noite chego em cima da hora dos acompanhantes (consegui um crachá especial). Era tão em cima da hora que resolvi subir as escadas até o quarto do Xuru, em vez de esperar o elevador. Logo na segunda virada para o segundo andar, involuntariamente corto uma tremenda pegação perto da porta que levava ao corredor. Alicia, linda, com um dos médicos que atendia meu amigo mas não sei dizer o nome. Dei boa noite e tchau. 

Chegando ao quarto, contei o acontecido. Franquinho, o Xuru só riu e disse "Peço em casamento assim mesmo". Era linda a Alicia. Continuou como uma excelente enfermeira. Sorria para mim nas visitas, com a devida distância regulamentar. 

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Visitar a UTI do INCA é uma experiência forte, que exige frieza. Pior de tudo era ouvir o médico dizendo antes "Vocês, que são parentes, precisam ter todas as agilidades funerárias à mão". 

Entrei. No box ao lado do Xuru, havia uma mulher linda, cheia de aparelhos ao corpo que faziam a contradição de seu lindo rosto. Algo terrível. 

Entrei no box e, sei lá como, o Xuru me disse "Que chato a gatona aqui do lado". Se ele estava no leito e não levantava, como conseguiu vê-la? Ou se baseou em relatos de visitas? Não sei dizer. 

No dia seguinte, o box ao lado estava vazio. O ballet da morte já tinha se apresentado. Conversei com o Xuru, mas não falamos disso. 

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Certa vez, o Xuru parecia melhor e ficamos andando pelo andar, até entramos em um espaço que dava para a varanda - e de lá víamos toda a praça da Cruz Vermelha e arredores. 

De cima, com o belo desenho circular e à distância da sofrida população de rua, tinhamos uma vista inédita muito bonita e rara. 

Xuru vibrou com aquele panorama. E fazia doces planos de alta que nos ajudaram a sonhar por algumas semanas. Do alto, navegamos.

Tuesday, August 17, 2021

copacabana no elevador

Quinta-feira, talvez perto das 15h. Bloco E, Shopping de Copacabana, aka Shopping dos Antiquários

Você abre a porta e dá de cara com um paletó de lantejoulas azuis, uma cabeleira black e o bigode que, juntos, formam uma das estampas mais famosas do Brasil: a de Cauby Peixoto. Então dá boa tarde, recebe a réplica em voz de trovão e finge que está tudo bem porque em Copacabana ninguém se emociona com celebridades - só louvam Clóvis Bornay e Rogéria nesta terra. Fica em silêncio, o grande cantor não diz nada também porque não puxaria conversa com um garoto de catorze anos. Dois minutos depois, o elevador está no térreo, vocês saltam, Cauby passa na porta dos famosos Supermercados Leão e ninguém fala nada também (embora, claro, todos estejam diante de uma lenda da música popular brasileiras - e com um paletó de lantejoulas azuis!

Qualquer noite, depois das 23h

Você espera o elevador no térreo e, de repente, está a seu lado um dos grandes jogadores do futebol brasileiro: Rodrigues Neto, Flamengo, Fluminense, Botafogo, internacional, Seleção Brasileira, também no Ferrocarril Oeste da Argentina, onde ganhou o apelido de "El Negro Neto". 

Abre a porta e ele faz um cumprimento respeitoso sem dizer nada. Só que o cheiro não engana ninguém: rolou um pileque poderoso. Rodrigues Neto tem encarado dias difíceis: além de jogar, é o treinador da famosa Cooperativa do São Cristóvão. Deve ter afogado às mágoas porque não está fácil para ninguém. 

Quarta-feira, 11 da manhã 

Desce Dona Estela. Una oitenta anos talvez, com seu marido de uns trinta e cinco, Marcos. Um amor daqueles que não tinha tanta probabilidade assim. Ela vai lentamente a caminho dos Supermercados Leão, ele fica na portaria. 

O porteiro não perdoa: "Seu Marcos, a Dona Estela já ficou viúva sete vezes. O senhor não tem medo não?"

"Não, cada um tem um destino".

[mentira, tá se cagando de medo

Marcos dá tchau, vai para a Siqueira Campos e se manda. Por via das dúvidas, pegou o contato de uma mãe de santo, para calcular os novos tempos e, no pior cenário, fica de olho nas proximidades e desdobramentos plausíveis.

O GRANDE ATOR, 23:45h de qualquer noite

Carregando uma sacola de compras das Casas da Banha, jornais e um livro, o ator Walmor Chagas entra no elevador do Bloco E e sobe tranquilo para o 13° andar, sozinho e anônimo porque o porteiro, embora o conheça há tempos do prédio, não tem a menor ideia de quem se trata. 

Página eterna do cinema, teatro e TV, ali Walmor é apenas um condômino chegando em casa, num andar que possui 16 apartamentos. Cada um deles possui histórias, dramas, loucuras e contradições que cabem em Copacabana, porque é no bairro que tudo se mistura e contradiz o tempo inteiro. Walmor se alimenta delas para oferecer a sua grande arte aos brasileiros. 

O ator abre a porta do terceiro apartamento à esquerda do hall dos elevadores, larga as coisas em cima do sofá e vai para a janela. Vê a igreja em forma de cúpula lunar no terceiro andar do shopping, o quartel da PM e o posto de saúde. Carros passam em alta velocidade na Rua Tonelero, um ou outro 433, com certeza um 415, todos a caminho da beleza da Lagoa Rodrigo de Freitas. Há quase silêncio no bairro que nunca se cala.

Sunday, August 15, 2021

Copacabana Mon Amour 1998

2:25 p.m: no Sindicato do Leme em tarde nublada, alguns nacionais bebem chope pacificamente. Numa das mesas, Bolinha fica encantado com a beleza de Aline. No fundo do bar, em pé, encolhido com sua tulipa à mão, está um vizinho da casa: Zeca Pagodinho. 

4:15 p.m: o bicho pega no clássico de futebol de areia da Figueiredo Magalhães: Juventus e Bairro Peixoto jogam pelo campeonato com casa cheia no calçadão. Júnior, craque consagrado e símbolo do Juventus, acompanha o jogo e ouve piadinhas de torcedores do Bairro, cujas cores remetem ao Fluminense, amor do ex-jogador na juventude. 

6:30 p.m: uma turma conversa na areia perto da rede de vôlei no Othon, quando alguém recorda do frenesi na praia por causa do verão da lata - as pessoas loucas para conseguir o fumo do bom, algumas recorrendo até a olheiros para localizar as latas de ganja boiando no mar do Posto Seis. 

9:15 p.m: Xuru e Cler estão num carro nas imediações da praia com a Souza Lima, quando trocam ideias com Sharon, uma gata travesti do trottoir. A negociação parece que vai dar pé. Cler está confiante no amor de ocasião, a ser executado num muquifo qualquer da região. 

11:30 p.m: numa bela e espaçosa sala de jantar de um prédio garboso da Avenida Atlântica, o uruguaio Molina aprecia a vista da praia de Copacabana, mas sente certa melancolia porque lhe vem à mente a filha desaparecida anos atrás, depois de uma doença súbita e inesperada.

01:15 a.m: a vinte metros do grande apartamento de Molina, Ciano se vira como pode no banco de praça do calçadão. Está  em situação de rua. Não conheceu seu pai e sua mãe morreu quando ele tinha dez anos de idade. É uma vida de extremo sofrimento, que humilha, agride e dói. A madrugada é fria e cruel. Copacabana é um peito que precisa de muito, mas muito leite para resgatar sua enorme contradição entre o luxo e a miséria.

Saturday, August 07, 2021

copacabana é um peito

Cinco para as duas da manhã de domingo do Dia dos Pais e faz um frio do caralho já no Túnel Novo, preparando o viajante para ingressar na máquina do tempo e cair dentro de Copacabana. É impossível virar pela diagonal à direita e, na esquina, sacar o Cervantes fechado - ninguém em pé tomando chope ou comendo sanduíches honrados. Não se sabe quando, mas o Cervantes precisa voltar porque é um patrimônio não apenas do bairro, mas do país. 

Quem seguiu em frente pela Barata Ribeiro não se tocou em passar pelo espólio erótico da Prado Júnior, que mantém sua luta pela sobrevivência num mundo cada vez mais retrógrado. O certo é que, numa das quadras da Barata está Katia França, eterno símbolo de beleza do bairro, provavelmente fazendo nebulização devido ao frio barra pesada. Katia, que não é Kátia Flávia e nem precisava ser, imperou nas ruas de Copacabana entre os anos 1990 a 2000 - agora está em casa descansando e se recuperando. 

Perto dela, outra referência de Copacabana está em casa porque os heróis do bairro agora não estão mais nas ruas, mas sim fazendo arte em iPhones respeitáveis. Fausto Fawcett, o Fausto Borel, poeta maior do pedaço e tradutor da língua downbeat copacabanense - ou seria cobacabanista? Nense no sufixo, é Fawcett, é Fluminense das três cores imortais cheirando as veias de asfalto de Copacabana. Fausto disse recentemente numa live que entende a saudável decadência de Copacabana, mas que ela jamais superará a vocação multifacetada do bairro - e, lógico, ele tem sempre razão. 

Passa Katia e passa Fausto, perto da esquina com a Rodolfo Dantas - será? - ou era Ronald de Carvalho? - ninguém vai se lembrar da maravilhosa pizza Capri. Faz quase cinquenta anos, assim como do outro lado ninguém vai se lembrar de que o famoso Edifício 200 agora - melhor, há muito tempo! - é 194 e ninguém vê mais seringas nas calçadas em tempos de festinhas down by law. Tudo mudou. 

Um único botequim solitário com a TV ligada e os sobreviventes da boemia gelada esticam seus pescoços, torcendo pelo Brasil na final olímpica de vôlei feminino, enquanto os EUA nos castigam mas nós temos Fernanda Garay, gata negra voando e batendo incessantemente - Garay tem o quê das gatas das redes da praia de Copacabana de alguma forma. 

Seguindo em frente, depois do deserto da praça Cardeal Arcoverde, uma família inteira deitada na rua com um frio do cacete perto da Caixa Econômica Federal. As ruas de Copacabana têm a dolorosa verdade crua da escrotidão social, cuja equação nunca fecha. 

Três quadras depois, os moderninhos ocupam a esquina da Hilário de Gouveia no complexo etílico Pavão Azul, com suas pataniscas imperdíveis, chopes de alívio e a pequena sensação de que a vida pode ser melhor. Ok, estão indevidamente aglomerados, sabemos o que isso significa. Vamos em frente. 

Barata Ribeiro, 450, Parada de Copa. Os funcionários do Cervantes fazem os sanduíches viverem ali. São iguaizinhos. Se a entrada de Copacabana agora causa tristeza imediata com o bar fechado, pelo menos o lanche é capaz de resgatar a identidade da parada. 

Depois da esquina com a Figueiredo Magalhães, alguém é capaz de jurar que tem um carro parado com som alto, tocando "Babilônia Rock", o clássico de Lincoln Olivetti e Robson Jorge na trilha do filme "Rio Babilônia", também uma representação do bairro. O roteiro do filme é do escritor João Carlos Rodrigues, também uma cobra criada da Avenida Copacabana. Tudo em "Rio Babilônia" tem um certo aroma mofado e duradouro de Copacabana. Mesmo que o som do carro fosse apenas um exercício de imaginação ou sonho, não importa: ele é possível, porque mesmo que Copacabana viva a decadência, ela jamais será capaz de superar a tradição de bares e lojas que já morreram, de gente que deu o fora e de histórias que são muito maiores do que seus personagens. 

Então aparece na tela a Galeria Menescal dormindo em silêncio no primeiro sábado de agosto, bem gelado e, do outro lado da rua, os mais jovens sequer desconfiam o que foram ali a Modern Sound, a Billboard e o Bruno Copacabana. Uma quadra de sons e imagens que se perdeu. Não se pode vencer todas, talvez nem a metade.

Numa janelinha de apartamento quase na Santa Clara, o Brasil continua brigando com os EUA pela medalha de ouro no vôlei feminino. Estamos perdendo por dois a zero. Na quadra toca Kiss, com "I was made for loving you" e, se alguns cinquentões estiverem atentos, podem se lembrar do show que sacudiu o Maracanã em 1983 e que, claro, na saída lotou todos os poros notívagos de Copacabana. Afinal, o Kiss é a cara da Prado Júnior. 

Cinco a quatro para o Brasil no terceiro set. O pulso ainda pulsa. Agora vem a esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro, o cadáver insepulto da Sorveteria Bolonha, nenhum resto mortal da Farmácia Piauí e nenhum vestígio na calçada elevada de um dos personagens mais famosos do bairro: o mendigo Mister Éter. Quinze para as três da manhã, Dia dos Pais, as gatas do vôlei seguem na luta, Copacabana é um peito. 

Wednesday, August 04, 2021

5:40 da manhã

eu poderia ligar a TV e ver as olimpíadas ou completar meu texto no livro sobre Copacabana. finalizar o da Portuguesa, assim espero logo. mas a verdade é que eu não tou a fim de nada, praticamente nada, exceto ouvir canções no YouTube e respirar bem baixinho aqui para não romper o silêncio das quinze para as seis da manhã. 

eu poderia dizer que estou nervoso, triste, chateado, preocupado, ansioso, esperançoso e muito mais, mas estou é insone mesmo, ouvindo músicas de trinta anos atrás, pensando nas pessoas maravilhosas com quem convivi, em outras palavras, outro Rio, outro Fluminense, outras tantas coisas. tudo é rápido demais. 

eu gostaria de ligar o rádio, mas só tem a Cidade na internet agora. ou de pegar um livro do Ivan Lessa ou do Carlito Azevedo para ler, só que isso destruiria qualquer possibilidade de sono, com a luz em riste. 

em algum lugar de 1989, exatamente à essa hora, eu estava correndo do banho para o ponto do 434 na Figueiredo Magalhães, de modo a chegar às sete da manhã na UERJ - e nem sei porque a pressa, já que nunca tive uma aula por lá começando às sete, exceto com o saudoso professor Moisés - que adorava as garotas e dava aula em ponto falando e escrevendo sozinho, acreditem. nossas amigas eram lindas e a gente ria o tempo todo sem um tostão furado no bolso. hoje só restou o furo. 

em algum lugar entre 2008 e 2018 eu poderia estar suando frio porque precisava pegar um avião para Brasília, São Paulo ou Belo Horizonte, mas odiava fazer isso obrigado com todas as minhas forças. hoje iria tranquilo, mas não é algo que me apeteça. 

em algum lugar do começo ou suposto meio da Pandemia, eu estaria desesperado  porque estava trancado em casa e os dias pareciam pena privativa de liberdade. agora estou só preocupado. 

[ajeitar o tempo todo o carregador do celular para que cumpra sua função

talvez seja o seguinte: sinto saudade de coisas e pessoas que já não existem em meu cotidiano - embora as ame -, com saudade de um bairro que já não existe e, ainda por cima, com a covardia de sonhar aos 53 anos com o tempo dos 23. ou tudo isso só seja o pavor do silêncio lá fora em pleno início de dia sem pregar os olhos. ok, eu cochilei até umas três, mas foi pouco. 

também penso no quanto estamos mal parados: Sarney e Collor eram muito menos piores do que esse bosta que aí está, e isso é incrível. 

seis da manhã, quatro de agosto, bora ligar a TV e saber do museu de grandes novidades. julho já era, gastei doente. as contas estão arrombadas, as pessoas estão distantes demais, o velho boa noite foi trocado por um polegar desenhado. 

justiça seja feita: essa quarta-feira precisa fazer jus a um de nossos maiores medalhistas da história. Mutley, o fantástico assistente de Dick Vigarista. é um injustiçado. 

@pauloandel

Tuesday, July 06, 2021

COPACABANA 129 ANOS

Somente duas coisas têm a vocação da eternidade: o Fluminense, que faz aniversário no próximo dia 21 de julho, 119 anos, e Copacabana, que completa 129 anos nessa discreta terça-feira fria. O Flu vai chegar lá, mesmo com dirigentes atrapalhando, e Copa também, apesar dos políticos. 

O bairro que nunca termina, e que é conhecido no mundo inteiro pelo seu verão, faz aniversário em pleno inverso. Parece deboche, mas na verdade é um retrato da pluralidade da região sagrada mundialmente. 

Falando nisso, acabou de ter uma coletiva do governador bem em frente a um dos símbolos do bairro. Cláudio Castro, uma espécie de revival de Nelson Gonçalves - cantor e gago - sem a mesma extensão vocal, lá esteve para prometer a retomada das obras do MIS, o maravilhoso Museu da Imagem e do Som, visando inaugurar o prédio em 2023, depois de longo impasse. CC aproveitou e se vacinou no Corpo de Bombeiros da Xavier da Silveira, palco de grandes peladas de futebol de salão nos anos 1980 que não voltam mais: a quadra de esportes virou estacionamento de caminhões para salvar a vida dos cariocas, quando necessário. 

O prédio do MIS é cercado por certa urucubaca e talvez o governador, um fervoroso evangélico, possa desfazer o ebó lá estabelecido quando a physys de Copacabana foi vilipendiada exatamente no terreno do Museu. Afinal, por muitos anos ali nasceu e viveu a legendária Help, a princípio uma inocente danceteria para adolescentes ávidos por Big Mag e McGiver, para depois se tornar a maior casa de tolerância do Brasil, com seu exército de bem fornidas garotas de programa. Por quase duas décadas ali se estabeleceu o Maracanã do sexo com dez Copas do Mundo diárias, mas aí o poder público quebrou a firma na Justiça e tchoinghsrs: o sonho acabou. As garotas revoaram em bandos para o outro lado da praia, na Balcony do Lido, mas aí foi a vez de Duda Paes, chegado a um choque de ordem, detonar o novo estádio do amor de ocasião em Copacabana. A praia ficou sem uma referência oficial de putaria discreta, romântica e de acordo com as tradições da família brasileira. O fato é que o MIS tá cercado pela maldição erótica, mas todos precisam torcer para que dê certo. Deixem o mito musical trabalhar. 

Quem se lembra da Boite Bolero? 

Sinceramente, a julgar por quantas celebridades, acontecimentos e convivências Copacabana reúne, é certo que hoje deveria ser feriado nacional no bairro. Claro, não será possível por vários motivos, mas o principal deles é que todo mundo está duro e não dá para parar. Mesmo assim, o que não falta em Copacabana são lojas, salas e apartamentos fechados, muitos. Outra contradição para o bairro que já foi o conceito superlativo de população. Ok, a pandemia está sendo cruel, dizimando patrimônios como a maravilhosa Sorveteria Bolonha, o antológico Bar Sniff's e paralisando catedrais como o Cervantes, mas antes disso Copa vinha sofrendo na pele as perdas da Suprema, do Cirandinha e da Bella Blú, um verdadeiro clássico da Siqueira Campos - por lá, nos anos 1980, italianos com vistosas camisas vermelhas e verdes discutiam negócios em voz alta, brindando taças de vinho, mas nunca se desconfiou de que fosse a Máfia. 

Um dia, Copacabana foi um arealzinho que depois se encheu de casinhas e, no meio delas, surgiu a imponência alva do Copacabana Palace. Ele continua lá. Bem perto, o Beco das Garrafas espera sobreviver. 

Fausto Fawcett, o embaixador literário do bairro, sabe que Copa encaretou: as ruas estão mais vazias à noite, os batalhões de velhinhos estão vendo o Jornal da Record e a velha Prado Júnior luta contra a morte da alegria das boates. Contudo, o escritor vê no bairro a capacidade de reinvenção.

Seus prédios abrigam anônimos e famosos, humildes e celebridades, gente de todo jeito entre quitinetes, palacetes, barracos e marquises. Paredes que já abrigaram os Rolling Stones, Dorival Caymmi, Bob Dylan, Madonna, Naomi Campbell, Cat Stevens e George Michael. Telê Santana e Zeca Pagodinho também. Carlos Alberto Torres. Eliana Pittmann e Terezinha Sodré continuam por lá, felizmente. Fernando Reski também. O espírito de Nelson Rodrigues sobrevoa Copacabana e se materializa numa estátua na Inhangá. Carlos Drummond de Andrade fica no Posto Seis. 

As ruas estão barra pesada com o crack. É preciso atenção. 

Na altura da rua Francisco Sá, poucos jovens desconfiam da efervescência da Galeria Alaska, o Maracanã gay dos anos 1950 a 1990. Não há um único vestígio daqueles tempos de glamour e glória, com exceção do Bar Bico na esquina. Os devotos do trottoir homoerótico devem ir à esquina da Souza Lima com Atlântica, onde a volúpia das travestis é recomendada até por um policial civil que mantém um casamento de fachada, frequentador da região há quase 30 anos. 

Falando em travestis, uma delas pode estar neste momento num elevador do bairro, celebrando a vitória do Fluminense no Fla x Flu de domingo passado com seu vizinho, coronel reformado do Exército. Chegando à portaria, a dupla zoa os funcionários e vai à rua, quando o funcionário da banca de jornais da esquina - e que realmente vende jornais - comenta "Sai pra lá! Aqui é Botafogo! Nilton Santos vinha aqui" e alguém ao lado balança a cabeça em tom de concordância, porque é tudo verdade. 

@pauloandel

Friday, July 02, 2021

RUIVA (ou o Fry Chicken em chamas)

Ela era linda. Volta e meia estava de vestido curto preto, que contrastava com sua pele clara e os cabelos from hell - as mulheres são belas de todos os jeitos, mas as ruivas têm um charme à parte. 

Era batata. Mesmo. Frita. O bar ficava na Siqueira Campos, embaixo da casa de um amigo meu da faculdade, então volta e meia marcávamos lá para comer e beber algo, às vezes voltando da aula. Chamava-se Fry Chicken e, de acordo com o nome, sua especialidade era frango frito - delicioso, aliás. Ótimo atendimento, preço justo. Ali perto ficava o Let It Be, lendário bar de shows da Copacabana mais underground, digamos assim, quase na esquina com a Travessa Santa Margarida. 

Quando o amigo marcava para que eu o esperasse lá, invariavelmente eu chegava e lá estava a ruiva dos sonhos. Isso aconteceu muitas vezes e ela estava sempre sozinha à mesa, algo não tão comum no começo dos anos 1990. 

Ai, minha maldita timidez: às vezes parecia que ela olhava para a gente ou para mim, mas até aí nenhuma surpresa porque o bar estava quase sempre vazio, embora fosse ótimo. Claro que eu jamais iria à sua mesa: perdi a conta das garotas que me beijaram e depois me perguntaram porque eu não tinha tomado a iniciativa. Bom, o que importa é que ela era linda demais, charmosa demais e misteriosa. Vinha, sentava, bebia um pouco, quase não comia. Em algumas ocasiões escutava o walkman - que sons a encantavam? Naquele tempo eu ouvia de tudo, feito hoje: Alice in Chains, Stone Temple Pilots, Tom Jobim, Candeia. 

É, é verdade: ela olhava sim, mas acho que era por curiosidade em saber quem estava na outra mesa. Nunca sorria. O ar severo deixava seu rosto delicado ainda mais belo. Frequentemente parecia escrever coisas. 

Na outra mesa, eu falava bobagens desinteressantes por meses com meu amigo ou ficava mudo, sozinho. Sonhando com a carteira assinada no estágio e o diploma ainda distante - dois anos depois ele veio. 

Depois de umas vinte vezes, o platonismo acabou: parei de frequentar o bar porque me mudei, ele próprio fechou depois de algum tempo - uma tremenda injustiça, porque era ótimo - e ficou por isso mesmo. Anos depois, meu amigo fez chacota: "Lembra daquela gata que ficava te olhando? Agora está na novela". Fez sucesso, ficou mais linda, continua por aí. O tempo só lhe fez bem. 

Oh, bares de Copacabana onde um jovem e desconhecido candidato a cronista admirava uma linda jovem branquinha de cabelos cor de fogo, num vestidinho preto - ou de camiseta branca simples - enquanto ela parecia fitar o horizonte enquanto ouvia sons secretos e escrevia num diário. Era o começo dos anos 1990, onde os jovens de vinte e poucos anos de idade sentiam-se invencíveis, mas na verdade eram mesmo uns românticos enrustidos. 

Se fosse hoje, chamariam a linda jovem ruiva de crush. 

@pauloandel

Wednesday, June 30, 2021

PIB x DESEMPREGO, UMA CONTRADIÇÃO?

Não. 

Mais uma lenda vai ao chão. 

A soma das riquezas do Brasil é também fruto de grandes conglomerados que proporcionalmente contratam poucos trabalhadores, ou já os demitiram em massa. Ou ainda os que simplesmente não precisam deles, caso do mercado financeiro. 

Para as finalidades matemáticas e contas nacionais, o PIB reage e oferece uma luz no fim do túnel. Para a realidade prática, a tal luz não existe hoje. 

As micro e pequenas empresas são responsáveis por mais de 95% do volume de negócios do país. Em geral, elas criam em torno de 70 a 75% dos empregos formais. Hoje, ou melhor, há anos, mas especialmente a partir deste desgoverno, elas estão esmigalhadas. Muitas foram fechadas e não vão reabrir. Outras operam com nenhum funcionário contratado ou muito poucos, e aí está o problema: o dinheiro se concentra na elite e não circula. Se você tem renda de 10 mil reais e eu nenhuma, a nossa renda per capita é de 5 mil reais, mas eu continuo passando fome. Multiplique esse cálculo por milhões e aí se entende o drama. 

Nada é feito no Brasil em termos de geração de emprego e renda reais. Com e sem pandemia, o Governo Federal vai terminar o terceiro ano em total estagnação sobre a questão do emprego, repetindo falácias tão estúpidas e mentirosas como as célebres "a reforma trabalhista vai gerar mais empregos" ou "a reforma da previdência vai gerar mais empregos". O máximo que o desgoverno produziu foi jogar para a informalidade milhões de pessoas em aplicativos de entrega e transporte, sem garantias, com imensas jornadas de trabalho e cada vez mais longe de seus trabalhos e formações de origem, em muitos casos. 

É claro que a crise energética tende a piorar as coisas, com a população economicamente enforcada tendo que pagar tarifas cada vez mais altas de luz.

Bem-vindos a 1921.

@pauloandel 

Nota: Informação da jornalista Miriam Leitão aponta que, apesar do empate percentual de 14,7% no gráfico abaixo, o desemprego aumentou em mais de 500 mil postos na última medição...

Friday, June 25, 2021

SDU

Acabou o expediente, a teórica semana útil e fomos para a Pastelaria Chic's lanchar pastéis com laranjada. Eu já tinha almoçado muito bem com a turma e Seu Jurandir, que agora é meu amigo e personagem de meu novo livro, incrível. 

Tivemos um bom dia de trabalho. 

Antes de chegar à Chic's, passamos no Guedes e pegamos alguns discos. Ele mesmo disse que já havia tomado uns tragos, mas que voltássemos na segunda para encontrar grandes CDs - não nos basta vender, nós colecionamos e municiamos colecionadores, então a arte do garimpo é interminável.

Pastelaria Chic's, 51 anos de vida, nasceu em pleno Médici, um desafio. Estive lá pela primeira vez em 1973, quando meu pai me puxava pela mão e um copinho de 300 ml parecia um balde. O ambiente é simples, pequeno e come-se velozmente em pé, mas uma coisa é certa: é o melhor pastel de toda a cidade. Seco, sequíssimo. A laranjada é alucinante.

Lanchamos, nos sentimos bem e fomos caminhando até o Largo da Carioca, onde CH pegou o metrô, Jocemar foi para as barcas e então fiquei só, na velha Avenida Central. 

Em vez de me trancar em casa, resolvi pegar o VLT. Sou fã do veículo, ao contrário de meu ídolo Fausto Fawcett. Rapidamente embarquei na Carioca e fui para o Santos Dumont.

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Poderia lanchar alguma coisa - eu estou sempre lanchando - eu tenho fome -, sacar dinheiro, tentar jogar na loteria ou utilizar ótimos banheiros, mas queria mesmo era fazer um breve passeio e espiar o que resiste da minha linda cidade. 

Se você nunca andou de VLT, vá. É um passeio maravilhoso pelo coração do Rio, um metrô com paisagens maravilhosas. 

Saltei no SDU, entrei no aeroporto e logo me deparei com o ir e vir de gentes, a maioria chegando apressada, louca para se  mandar pra casa. Eu, não: não estou indo nem vindo, apenas flanando num lugar bonito do Rio. Paro no corredor, há uma cadeira confortável e espeto o carregador no celular. Então Catalano me manda mensagens pelo WhatsApp e falamos de criaturas grotescas. O corredor está bem vazio. 

Descanso alguns minutos e vou para o Uber Lounge. As pessoas estão sempre apressadas mas ali tem uma das vistas mais bonitas do Brasil - e os aviões saem de um jeito que dá até medo, mas tudo dá certo.

Adoro exibir o meu lado punk nessas ocasiões: pessoas com roupas e malas de grife, falando em iPhones e desfilo com minha camisa preta rasgada, chinelos e bermuda batidíssima. Sempre me olham, esperando que eu peça alguma esmola e rio de tanta ignorância estampada nos olhares. 

Pertinho, um funcionário do local fala com sotaque nordestino carregadíssimo e rápido com seu filho pequeno, que diz ter apanhado de alguém na cara em cada. Nervoso, o pai começa a falar cada vez mais rápido, speed metal. Paro de prestar atenção, mas ele interrompe a ligação e repete "Gordim" dez vezes, até que um segurança lhe dá atenção. 

Antônio chega com seu carro para me levar para casa. Quando faz a curva perto da estação do VLT, a imagem é belíssima: os grandes prédios da Cinelândia e Glória, os da Avenida Beira Mar, elegância e mistério nas ruas silenciosas, luzes ao longe e tudo aquilo me remete a mais de quarenta anos, quando eu e Adão Lamenza Salama éramos levados pela Dona Célia de Copacabana até o Aterro do Flamengo para lanchar cachorro quente. 

O Rio sofre, tem varizes e cicatrizes, mas é bonito pacarai. 

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Araújo Porto Alegre deserta, o maravilhoso prédio da ABI vazio. Por enquanto. Ali é uma casa de lutas. 

Olhar a Cinelândia e sonhar com a volta do Amarelinho. Na outra quadra, o breve sonho da Livraria Cultura que se desfez. Muita injustiça. Nunca mais vi o Matheus, que me atendia muito bem por lá. Uma menina, acho que Natália, linda. 

Logo aparecem os Arcos da Lapa, iluminados com belas cores. O entorno está vazio porque não há Circo Voador nem Fundição, mas as barraquinhas de petiscos e bebidas seguem na luta. E depois dos Arcos os bares tentam reagir. Há movimento, claro. Não como antes, mas há. Parece até que dá uma pontinha de esperança e até o velho Capela tem gente entrando. Fui feliz ali muitas vezes, noutras muito admirei. Distraído que sou, certa vez cedi meu lugar no lavabo para uma gata sorridente e, só depois que ela saiu e riu de novo, é que percebi se tratar de Alessandra Negrini. Almocei lá com Elika e uma turma da pesada há uns dois anos, o Zê também estava, a Socialista Morena idem. 

Quando o carro passa da Inválidos, pelo menos os bares perto da minha casa sobrevivem: Galeto, Bar das Quengas, Gambino. Algumas pessoas nas mesas. É uma promessa. Na esquina, a Droga Raia melhorou a quadra, ficou mais espaçosa, limpa. Antônio fala alguma coisa do tempo que não para, do qual somos reféns e ele tem toda razão. Somos pedacinhos de água e carne indo e vindo na mão do tempo - arrogância para quê? 

Metros depois, me despeço do Antônio, prometo postar cinco estrelas para ele, leio boas mensagens da Marina, pego o elevador vermelho vazio, me dou conta que faço isso há mais de vinte anos. Foi outro dia, quando nem sonhava em publicar um livro. Vamos ao banho, à janta, a algum trabalho e a colocar sentido neste eterno presente em que vivemos. 

@pauloandel

Wednesday, June 23, 2021

João do Rio, 100 anos depois

Gomes Freire, Lavradio, Inválidos e arredores, duas da tarde de quarta-feira. Há exatos cem anos, esta região e a capital da República pararam, porque morrera João do Rio enquanto as ruas fervilhavam pela perda. Hoje, o Centro mal tem trânsito, as lojas morreram pela decadência econômica que já vinha antes da covid19 e piorou. Outro brilhante escritor, Jack Kerouac, veria aqui o mesmo cheiro de rua triste que encontrou ao escrever "Cenas de Nova York". 

Pelas ruas do Centro, o progresso e a miséria se esbarravam naquele tempo. Os cafés abarrotados, o ir e vir das gentes, enquanto ao largo dos caminhos os excluídos pediam socorro. A história se repete em 2021, mas não se sabe ainda do progresso que abraçará o Rio devastado. Acabaram de votar o projeto que faria o Centro renascer, mas por enquanto é só um disfarce para que as construtoras possam operar de novo em Copacabana, Ipanema e Tijuca. 

João do Rio viveu apenas 39 anos, mas que valeram por 80. De forma avassaladora, ele não apenas inventou o jornalismo formal carioca, mas foi o grande cronista fotográfico da cidade, do céu ao inferno, escrevendo de forma avassaladora e perene - seus textos continuam atualíssimos . E foi ele quem abriu o mundo para Ipanema numa crônica (que pode ter sido encomendada) sobre as maravilhas lunares do então areal. Como se sabe, deu certo. 

Estima-se que a morte de João do Rio tenha levado mais de 100 mil pessoas às ruas para seu cortejo fúnebre. Até hoje está no rol das grandes comoções cariocas, só não batendo a do Barão do Rio Branco, ocorrida antes. O próprio Barão vetou as pretensões de João do Rio em integrar a diplomacia, pois o candidato incorporava três vertentes que o preconceito não perdoa: obeso, negro e homossexual. Todas continuam em voga, horrorizado e humilhando a alma brasileira, mas os planos do Barão em ter um corpo diplomático 100% heterossexual já foram abaixo há tempos...

Ao mesmo tempo, não há como não pensar: há cem anos, um homem gordo, negro e gay parou a capital do Brasil pela força de sua importância, de seu talento, independentemente de suas relações com o poder constituído. João do Rio ganhou o país com seu texto e, depois deles, muitos foram os craques que se consagraram por seus escritos em jornais. Ok, nenhum deles teve um velório com cem mil pessoas, mas não se pode ganhar todas. 

Cem anos depois, o Rio agoniza e estende as mãos nas calçadas, dorme debaixo das marquises e revira latas vazias de lixo desesperadamente. Não há vagas. Os ricos estão mais ricos, enquanto os pobres estão cada vez mais humilhados. A busca pelas manchetes nas bancas foi trocada por vídeos de dancinhas no celular. Ainda estão rolando os dados, mas é difícil crer que todos caiam com a face seis para cima. Resta sonhar com uma reconstrução que não faz parte dos planos do empresariado, mais preocupado com o próprio bolso. 

Em algum lugar do imaginário, João do Rio desce a Gomes Freire saudando os transeuntes. Depois vira na Senado e, a seguir, na Lavradio, onde para para almoçar no Mangue Seco lotado, cheio de cavalheiros e damas elegantes, que ele aprecia de esguelha. Quando terminar a refeição, ele caminhará pela Praça Tiradentes em busca do esplendor perdido da região, aproveitando para pescar alguns livros nos sebos da região e especialmente  em um, que funciona no Edifício Riqueza e é cheio de livros sobre a cidade. No sexto andar há uma loja pequenina, humílima e abarrotada, onde ele pode tomar um café, conversar com os livreiros, apreciar a chegada de um famoso cineasta, escutar a fala rouca de um jornalista e, finalmente, ficar a par das novidades musicais pós-Pixinguinha, tudo enquanto espia a bela vista da praça à janela. Estamos em 2021, o que nos resta é sonhar.

@pauloandel

Wednesday, June 02, 2021

cuidado com as palavras

cuidado com as palavras. muito cuidado. 

as palavras são cristal: uma vez espatifadas, não são recuperadas. 

cuidado com as palavras que você escreve e diz. nada a ver com grafias e eventuais equívocos, pois o que importa é a qualidade da mensagem, mas com o teor delas. não perca seu tempo com a perfeição gramatical acima do que realmente importa. 

palavras podem destruir sentimentos. destruir amizades. afastar pessoas para sempre. 

palavras mal empregadas podem humilhar, deprimir, criminalizar e até levar ao suicídio. podem levar à morte, ao caos. 

não entender o significado das palavras, também. 

as palavras surgiram da necessidade de entender o outro e descrever o mundo. 

cuidado com as palavras. com o outro, com o próximo. todo mundo merece palavras dignas. 

ah, que ninguém se confunda: boas palavras não andam de mãos dadas com falso moralismo. palavrões podem ser muito mais saborosos do que formalismos flácidos.

essa terra já está lotada de gente que despreza o outro, o próximo. isso vai contra os princípios da humanidade elementar. as palavras podem ajudar na aproximação das pessoas, talvez colaborando para que os seres voltem a ser humanos coletivamente falando. 

cuidado com as palavras é cuidado com o próximo, com a vida, com o mundo. 

veemência não precisa ser truculência. incisivo não quer ser estúpido. firme não precisa ser escroto. energia não deve significar grosseria. elegância não é falsidade. 

se nada disso tiver utilidade, talvez uma breve reflexão a tenha: quando alguém usa palavras agressivas, dificilmente deixa de se incomodar quando elas voltam contra si. 

cuidar das palavras é combater a cólera, o ódio, a injustiça, a desigualdade. tentar deixar essa terra um pouco melhor antes de morrer. 

só. 

@pauloandel

Thursday, May 27, 2021

Seu Nelson Sargento

Entre 2002 e 2004, invariavelmente eu conversava com Seu Nelson. À época, eu tinha um sebo de CDs e LPs chamado Seboteca, que funcionava numa galeria da rua Gomes Carneiro, bem em frente ao edifício Majestic, onde um dia moraram Ivan Lessa e Lila Bôscoli - se você não sabe quem são, é melhor procurar saber. 

Na galeria funcionava uma videolocadora badaladíssima. Um dos entregadores tinha o apelido de Tim Maia. Uma funcionária chamada Patrícia, gata fofinha, causava suspiros no corredor. Seu Nelson estava lá sempre em busca de filmes. Na volta, vinha à Seboteca e conversávamos sobre muitas coisas, até samba. 

Certa vez, ele lamentou comigo por ter centenas de LPs em casa de um mesmo álbum. Ele não sabia como distribuir, a gravadora deu como pagamento, peguei uns poucos, minha loja era pequena. Era um assunto recorrente. 

Pintura, cinema, teatro, Seu Nelson era uma potência. Às vésperas de viajar para a cerimônia do Grammy, ele apareceu na loja e brincamos: "Agora o caixa tá cheio".

- Meu filho, só deram a passagem e a estadia. Lá não tem churrasco nem feijoada. 

Rimos. 

O que nunca vou esquecer é de um dia em que ele entrou na loja quando eu ouvia o álbum clássico de Dave Brubeck, "Time Out". Seu Nelson vibrou, começou a contar a história da arte na capa e daí passamos a falar sobre Paul Desmond e Joe Morello. Desse dia em diante, em pelo menos uma dezena de sábados, o mestre do samba brasileiro papeava comigo sobre Charles Mingus, John Coltrane, Lee Konitz, Thelonious Monk, Lee Morgan, Chet Baker e muitos outros. Seu Nelson me deu aulas grátis de jazz, mas nunca o vi falar disso em entrevistas por motivos óbvios, e não sei dizer se os jornalistas sabiam da faceta do multi artista. 

Seu Nelson passou pela pobreza, pela guerra, pelos golpes, pelas crises e todos esperávamos que, de tão presente e ativo, ele batesse os 100 anos. Foi perto. Teve uma grande vida, lutou e foi um orgulho do Brasil. Vê-lo era como ver a chegada de um príncipe desta terra. Até a luta contra o câncer ele encarou de frente, mas não deu para superar a gripezinha do calhorda. Para muitos, ele era um dos heróis do Olimpo do samba, mas para mim era mais: meu amigo de conversas de jazz, o som da liberdade que, tal como o samba, agoniza mas não morre. 

@pauloandel

Wednesday, May 26, 2021

UERJ

Entre maio de 1988 e março de 1996, vivi mais tempo na UERJ do que em minha casa e meus ambientes de trabalho. 

Foram anos incríveis, que mudaram minha vida para sempre. Não somente pela minha formação acadêmica - até hoje tento entender como consegui aprender aquilo -, mas pela formação de vida, de cidadão, de politização, de tudo. 

Na UERJ, você vive o conceito de universidade como nunca: está na Matemática, sobe uma rampa e lancha com os futuros advogados; desce outra e debate com os futuros engenheiros. Entra no elevador e encontra o camarada da História, a gata da Educação Física, a gataça da Psicologia, os caras maneiros da Física. É tudo junto e misturado. Nos tempos das Olimpíadas era um barato total. 

Num segundo, foi na UERJ que conheci direito David Lynch, Hector Babenco, Tunga, Hemingway, João Antônio, Gerald Thomas, Plínio Marcos, João do Rio, Alan Parker, Tom Waits, Nick Cave, Jack Kerouac, Neil Young, Leonard Cohen, Basquiat e todo o jazz. 

Sentado no banco da concha, vi Paulinho da Viola, Victor Biglione, Gilberto Gil, Ed Motta, a imortal Cássia Eller. Assisti "Veludo Azul" e "Ironweed". Dei beijos também, faz parte do jogo. 

No Teatrão, ainda inacabado, aplaudi a Cássia também (dois shows dela!), o Ney Matogrosso, a Leila Pinheiro (quase compramos um buquê de flores pra ela, mas as garotas do CA não se conformaram e desistimos), Fernanda Abreu, Vinícius Cantuária, Raphael Rabello e um certo Tom Jobim. 

No auditório, fiquei cara a cara com Luiz Carlos Prestes. Só. 

Eu já conhecia a Tijuca, mas a proximidade da UERJ me levou a seus cinemas, ao Café Palheta (onde celebrei minha colação de grau com a Diniz e a fantástica Conceição), às ruas e aquilo se multiplicou pelo Grajaú e Vila Isabel. Atravessei tardes e noites em suas calçadas. Virei freguês do Capelinha, outrora frequentado por um certo Noel Rosa. 

Meu amor morava ao lado: o Maracanã, aquele velho Maracanã de gente simples e jogos imortais. Descer o elevador com caderno e prancheta, atravessar a rua, comprar o ingresso e entrar no mundo dos sonhos.

A convivência e os amigos da UERJ me levaram a outros shows fora de lá, do Oingo Boingo a Bob Dylan! Senhor, eu tinha 21 anos e estava lá. 

Eu era um garoto pobre e desesperado, queria estudar e conseguir um emprego para ajudar minha família. O governo fazia de tudo para não passar os recursos para UERJ. Sabotavam tudo. Ficamos nervosos, fomos à Alerj e rolaram as pedras. Faz parte do jogo. Um dia eu vou fazer um lançamento de livro lá. 

Saí da UERJ como um profissional formado e um jovem homem muito melhor do que entrei. Nunca fui doutrinado por ninguém e nem precisava: a política eu aprendi em casa. É claro que a esquerda predominava: onde tem intelectualidade de verdade, ela está, queiram ou não. 

Tive professores maravilhosos. Outros, competentes. Outros, não. É universidade, é parte do processo. 

Quando me formei, me senti tão órfão que, depois de desistir do mestrado, passei para Matemática só para ter um vínculo, prolongar o bis de um lindo show que estava no final. Um dia tive que sair, mas a UERJ nunca mais saiu de mim e ela está nos meus atos, falas e textos. Ela vive. 

Conheci jovens homens e mulheres da pesada, que carrego comigo até hoje. Vivi situações hilárias e dramas. Aprendi coisas demais. Não saí apenas como um estatístico, mas também como um escritor que se consolidaria mais tarde. Talvez a UERJ seja o melhor livro que ainda não escrevi, mas estão rolando os dados. Sem ela, eu jamais teria conseguido melhorar o padrão de vida da minha saudosa família. 

A minha pequena história é a história de milhares e milhares e milhares de jovens que, um dia, perseguiram um sonho e conseguiram: o de estar numa das melhores escolas do país, dentro e fora de sala, intensamente. Isso, nenhum babaca fascista vai destruir. Tenho certeza de que, muitas décadas depois da minha morte, a UERJ seguirá firme, ajudando a combater a injustiça social por meio da Educação. 

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P. R. Andel, 52 anos, estatístico formado em 1994, autor de 31 livros, comerciante, editor, colaborador regular de jornais e sites. Brasileiro. Carioca. Passou pela UERJ e pela UFRJ.

Monday, May 24, 2021

Sobre o Fla x Flu 2021

Em 45 anos acompanhando o Fluminense, nunca tinha visto uma participação tão ridícula do meu time numa final como essa de 2021. Nem parecia um adversário, mas um convidado para a festa do outro. E pela primeira vez em 15 anos, não escrevi imediatamente uma crônica sobre a atuação, o que farei hoje ou amanhã. 

Agora, pior do que isso foi ver as verdadeiras trevas que viraram qualquer debate no Brasil, ainda mais sobre futebol. 

De tricolores, li e ouvi de tudo. Pode ser que a dor da derrota explique até certos arroubos e sandices, mas o que me preocupa é ver tanta gente boa conformada com tudo, como se o Fluminense fosse um clube pequeno, onde é bom ser vice-campeão ou quinto, sexto, sétimo, sei lá que diabos, depois de quase dez anos sem conquistas relevantes. Quem achar que está bom, que siga com isso mas conte com minha total ojeriza a respeito. Não sou obrigado a aderir pela campanha da mediocridade. 

De rubro-negros, sandices a granel, ao cúmulo de sugerir racismo tricolor em seu mosaico, apenas para suavizar a escrotidão de seus dirigentes, que deram um show explícito de irresponsabilidade no tocante à Covid19, chegando ao cúmulo da especulação de uma partida com público em Brasília depois de quase 500 mil mortos em nossas vistas - porque esse foi o único motivo da decoração. Até o início da pandemia, basta olhar no YouTube, a única torcida no Maracanã que era predominantemente de população negra e foi substituída por uma massa nitidamente branca não é a tricolor... Agora, se preferirem outra interpretação para os dizeres do mosaico, sugiro um pequeno lote: Serra Dourada/ ladrilheiro/ Papeletas Amarelas/ Roubado é mais gostoso/ Flamenguesa etc. 

Pior ainda é mais uma manipulação covarde de certa imprensa esportiva, querendo igualar números centenários na marra. Patético. O Flamengo foi infinitamente superior ao Fluminense nas últimas três decisões, mesmo com os já tradicionais erros de arbitragem que predominam para um lado. Nada disso era necessário. Do jeito que jogou sábado, o Fluminense não seria campeão nem com 24 horas de partida. 

Agora, ninguém tem culpa de que a pandemia impediu o Maracanã cheio, a festa etc que se vê em decisões passadas feito a de 1995, que aparece diariamente na TV ou tantas outras em que o Fluminense foi superior e campeão. Ou melhor, culpa tem, mas é alguém que não tem nada a ver com o futebol, embora bajulado por dirigentes da Gávea...

E antes que alguém fale alguma besteira, procure saber o que eu escrevo e falo sobre os dirigentes do meu clube há anos. Nada feito com ódio ou pessoalidade, nada. Tudo apenas no campo da divergência de ideias e conceitos. Se não gostam de mim por isso, dane-se: não sou tiete de dirigente, tenho mais o que escrever. Amar meu time não pode me transformar numa besta subserviente a sistemas no mínimo espúrios. 

Nada pode ser pior do que a ética seletiva, de conveniência, de circunstância. O sujeito ético por ocasião é tão calhorda quanto o anti-ético. 

Sunday, May 23, 2021

Bob Dylan, 80 anos

Cada um conheceu Bob Dylan de um jeito. Eu me lembro da primeira vez que ouvi seu nome e vi seu rosto: foi em 1977, em Vicente de Carvalho, quando ele tinha 36 anos e já era um ícone mundial. Eu tinha de oito para nove, e estava comprando figurinhas com meu pai numa banca de jornais, para um álbum de nome Multicolor. Chegando em casa, abri o pacote e saiu a figurinha de Bob Dylan. Achei o nome muito diferente. Meu pai disse apenas "é um grande artista", ele não falava muito. 

Seis anos depois, eu já ouvia Bob Dylan quase todo dia, já que as rádios o tinham como presença obrigatória tanto nos programas de flashback ("Lay, Lady, lay") quanto na programação habitual - Dylan tocava o tempo todo com "Jokerman", sua volta ao sucesso e que ganhou bela releitura de Caetano Veloso. E de lá para cá, nunca mais o larguei. Em 1990, eu estava com meu amigo Zé Luiz na Apoteose em noite histórica e, oito anos mais tarde, no incrível show de Cássia Eller, Bob Dylan e os Rolling Stones. 

Em 1994, Bob Dylan lançou o "Acústico MTV", que o levou a um novo e renomado público. Foi o primeiro passo de uma recuperação definitiva: desde então, todos os seus álbuns foram aclamados pela crítica a partir de "Time out of mind" (1997) e, se não possuem hits semelhantes aos primeiros dez anos de carreira - quando literalmente mudou o mundo, sendo um digno sucessor da literatura beat, além de mudar o curso de ninguém menos do que os Beatles -, são obras de grande esmero daquele que é o maior artista estadunidense vivo. Uma pérola atrás da outra. 

Escritor, pintor, poeta, compositor, Bob Dylan é a única pessoa no mundo a ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio Pulitzer, o Oscar, o Grammy e o Globo de Ouro. Dificilmente alguém conseguirá igualar tal façanha. 

Eu fui um garoto que cheguei à literatura beat graças a Bob Dylan, e fico pensando em quanta gente no mundo teve a mesma experiência definitiva. Ele mesmo saiu de casa quando leu Jack Kerouac, e uma de suas fotos mais famosas é dele com Allen Ginsberg, ambos sentados de pernas cruzadas, aos pés do túmulo de Jack com Allen lendo. Desde o dia em que deixou sua casa para sempre, mesmo sem ter planejado, Bob Dylan mexeu com os alicerces da cultura ocidental. Fez tudo de seu próprio jeito, encarou vaias, trocou de religião e nunca parou de tocar, exceto quando veio a pandemia. Isso não o impediu de lançar seu mais recente álbum, "Rough and Rowdy Ways" em 2020, que encerra com a espetacular "Murder Most Foul", faixa épica e crítica de 16 minutos baseada no assassinato de John Kennedy. 

Dylan há muitos anos iniciou a "Neverending Tour" e se espera que, na volta à normalidade, ela prossiga. Não é possível prever até quando, mas uma coisa é certa: ver Bob Dylan em ação num palco é uma das mais avassaladoras experiências que uma pessoa pode ter com arte. O referido é verdade e dou fé. A maravilhosa Chrissie Hynde, dos Pretenders, concorda: ela acaba de gravar um LP de covers  do poeta. Bob Dylan é uma fonte inesgotável, assim como seu ídolo Woody Guthrie foi para ele. 

@pauloandel

caramelo

um cachorrinho cor de caramelo trotando e flanando pelas ruas da cidade. ora corre, ora para. sem coleira, sem dono, sem nada. 

espiando os homens coléricos em suas motocicletas numa passeata suspeita, gritando violências e ostentando armas. 

os transeuntes que vêm e vão com suas vidas para seus destinos. 

sem entender mas sentir, o cãozinho fita a frangueira na padaria da esquina, os frangos indo e vindo até ficarem assados e prontos, com farofa e batata frita, para o almoço de quem tem dinheiro. 

ele pode voltar e se abrigar debaixo da marquise, sem precisar ficar perto de tanta gente que mora ali, com fome, sem casa, sem nada.

pode atravessar a rua e chegar à praça, onde outros cachorros bem cuidados estão com seus donos, com ou sem coleira dependendo da ocasião. perto deles, empregadas uniformizadas tomam conta de crianças vindas dos lares abonados, e estas adoram brincar com cachorros. 

um cachorrinho caramelo magro, miúdo, olhando para o mundo que não entende mas sente, sente tanto que é capaz de ficar parado perto de um garoto chorando sentado num banco da praia, ouvindo canções no walkman sem saber como será o dia seguinte.

quem sabe parar perto de um canteiro florido? 

onde conseguir uma tigela d'água? 

alguém faria a caridade de uma bolinha de borracha para brincar? 

o cachorrinho caramelo late ao longe bem alto para que alguém lhe dê atenção, mas as pessoas estão muito apressadas ou ocupadas para prestar atenção.

com suas patinhas, ele vaga em busca da vida numa manhã nublada de domingo, sonhando com uma ração suculenta, um bife, uma tigela de água e algum carinho, mas a cidade não é fácil e pouca gente consegue encontrar felicidade de verdade. é que as ruas estão lotadas de indiferença e os cemitérios, cheios de empáfia nas tumbas. 

um cachorrinho caramelo magrinho, miúdo, tentando viver em paz neste lugar tão orientado para a guerra e o ódio, mas que ainda pode ter chance. 

sozinho. sozinho. 

caramelo. um cachorrinho. 

@pauloandel

Tuesday, May 18, 2021

Lou & Patti

Quando Lou Reed morreu, Patti Smith escreveu uma linda e comovente carta. Num dos trechos, disse: 

"Ele era nossa ligação com o ar infame da Factory. Ele fez Edie Sedwick dançar. Andy Warhol sussurava em seu ouvido. Lou trouxe as sensibilidades da arte e literatura para a sua música. Ele era o poeta de Nova Iorque da nossa geração, defendendo os desajustados como Whitman havia defendido os trabalhadores e Lorca os perseguidos."

Eu conheci Lou Reed aos 13 anos, em 1982, quando ele já era uma referência mundial. Foi de maneira insólita: meu amigo Fred, que já era grandão e gordinho, pediu para que eu fosse com ele buscar duas calças jeans que havia encomendado no Rey das Calças, no coração de Copacabana. Fred estava com um disco do Judas Priest na mão. Ao chegarmos lá, rolou um papo de rock com o vendedor, entrou o Judas e no fim ele disse que Lou era uma "bicha maravilhosa". Tempos depois, é claro que aquela informação não fazia a menor importância: éramos de Copacabana, os gays estavam por toda parte e nunca sofri qualquer assédio. Ok, um vizinho tinha a mania de ficar piscando para mim no corredor, mas depois que me viu de mãos dadas com Patrícia, sossegou. Tudo bem. 

Anos depois, quando pude, comprei CDs de Lou Reed, li suas histórias loucas e ótimas, sua poesia rascante e crua - como deve ser. Mais de meio século depois, toda banda de rock alternativo tem um quê do Velvet Underground, nome e referência eterna. 

Lembro que estive numa exposição do CCBB sobre a soturna Nova York que atravessou as décadas de 1960 e 1970, temperadas pela desilusão e drogas pesadaças. Muitas fotos da época, várias de Robert Mapplethorpe, artista genial por quem Patti Smith era apaixonada. Outras tantas do Velvet com Nico, a charmosa cantora, Andy Warhol com sua divertida bitchness, e ainda outras de ninguém: ruas desertas, sombrias, tudo em delicado preto e branco. 

Ainda o Velvet Underground: sobreviveram apenas a baterista Mo Tucker e o incansável John Cale. Sterling Morrison se foi cedo, Lou Reed ainda aguentou o tranco e fez grandes álbuns. Gosto até do que ele fez com o Metallica, odiado por quase todo mundo. Já Patti Smith eu consegui ver ao vivo no Tim Festival em 2006, graças ao ingresso que meu amigo Bruno Saraceni me deu. Também vimos juntos os fabulosos Beastie Boys num show demolidor. 

Alguma coisa da noite atual do Centro do Rio me remete àquela exposição sobre Nova York. Temos ruas desertas, decadência, violência, desesperança. Fica faltando descobrir onde estão nosso Velvet Underground, nossa Patti Smith e, claro, Robert Mapplethorpe. Eles saíram de uma enrascada enorme, servem de bom presságio para nós. Lou Reed continua sendo uma força da natureza, com sua poesia de nocautes. 

@pauloandel

Monday, May 17, 2021

segunda

então começa mais uma semana nesta terra cheia de dor, desprezo e arrogância, mas nós, grandes corporações de água e carne, caminhamos para atravessá-la. é preciso, não resta outro caminho. sim, somos bolas gordas e magras de água e carne, preparadas para apodrecer a qualquer momento. 

isolados dentro de casa, nos deparamos com o museu de grandes novidades, um verso de cazuza, o maravilhoso poeta dos anos 1980: crianças desaparecidas, personalidades mortas, violência, fome, solidão. no ar uma peste que mata e atordoa. não é preciso estar nas ruas para saber de sua agonia. há quem enxergue o progresso, mas de maneira muito peculiar.

na janela fechada do quarto, uma cortina azul-escuro deixa escapar uma réstia de sol nublado. 

em algum lugar que não sei dizer, nós nos perdemos de vez. deve ter sido quando alguns sujeitos passaram a acreditar que eram as únicas pessoas importantes num mundo com bilhões de habitantes. ou quando o imaginário coletivo passou a entender que o outro não tem importância para a satisfação individual. a era do descartável devia ser limitada aos objetos, mas chegou às pessoas e assim estamos. bem mal.

o trânsito está tão devagar que o barulho do ônibus é menor do que o de um cachorrinho esperto latindo nas imediações. precisamos escutar mais os latidos, porque a desumanidade leva muitos a confundir os sons caninos com os choros humanos, desprezando ambos. é isso: nós viramos a capital mundial do desprezo. 

mantendo a rotina, o restaurante vizinho liga seus grandes aparelhos de operação, que lembram o som de turbinas de avião defeituosas. ninguém liga, nem os donos. 

na tv, uma matéria fala sobre o número de moradores na rua, que certamente é quatro ou cinco vezes maior do que qualquer estatística oficial. 

hora do home office em breve: banho, café, lágrimas, fracassos e postagens, postagens para vender, postagens para divulgar, revisões, cálculos e dinheiro algum. ainda são oito da manhã e há uma longa segunda-feira pela frente. isso para os que têm home office, porque a maioria não tem nada. 

mensagens inúteis, áudios inúteis, posts inúteis - aqui estamos! - enquanto a maioria celebra práticas nazifascistas acreditando se tratar de defesas da pátria e da família. pior ainda: a da liberdade. o direito de pisar na cara das outras pessoas para não sujar as próprias botas. o que isso tem a ver com a evolução humana? 

[eis a idade média com iPhone e iFood

cidade alta, parada de lucas, são josé operário, fé, tiroteios intensos em nome de uma guerra surda que estupra, humilha e mata pobres enquanto enche o bolso de empresários escroques. mais do mesmo a cada segunda-feira. 

[um jovem de cerca de trinta anos chamado andré, vestido com a bela camisa de 1902 do fluminense, mais uma máscara tricolor, sentado na calçada gelada e sonhando em sair do inferno das ruas. 

[trinta ovos por quinze reais. ovos são ótimos, mas não eram a base alimentar dos tempos da ditadura, com inflação mensal a 70%? deve ter algo errado.

lá fora o terceiro ônibus freia e para. é provável que o motorista não tenha visto o único passageiro à espera do serviço no sentido centro-estácio.

bom dia. boa semana. boa morte. 

Friday, May 14, 2021

short cuts 1

Sentado à mesa do velho bar da Cruz Vermelha um freguês chamado Mário. Sozinho no salão em tempos de pandemia, já com alguns tragos na cachola, dispara uma pérola interessante para o único interlocutor ali possível: ele mesmo. 

[O garçom está atendendo outro freguês, numa mesa do lado de fora do botequim, pouco importando a irregularidade do fato e o sereno da primeira noite fria do outono

"Por que ninguém mais abrevia seus nomes?"

"Lembram do guitarrista G. E. Smith, que tocou nos tempos áureos com Daryl Hall & John Oates e até com Bob Dylan? Smith acompanhou Dylan na Apoteose em 1990? Não tenho certeza."

"Poemas alucinantes de e. e. cummings, tudo realmente minúsculo como a elegância pede, Edward Estlin Cummings, um dos pais da poesia moderna para o terror de críticos e poetas conservadores."

"Por que precisamos de nomes pomposos por extenso? Bora abreviar!"

Uma voz imaginária ganha o salão do veterano botequim: 

- T. M. Stevens, lendário contrabaixista que já tocou com meio mundo americano, de Cindy Lauper a Joe Cocker! Fará 70 anos em breve. 

[É inaceitável que Cindy já tenha 70 anos, assim como aquela gata do B52's cujo nome esqueci

E continua:

- J. G. de. Araújo Jorge, poeta lidíssimo, consagrado no Rio de Janeiro mas tendo a infância passada no Acre. 

- O Acre é um mistério saboroso. De lá vieram Fernanda Takai, João Donato, Mitya Ghidini e outros. 

- Ainda sobre abreviações, não se esqueça do obscuro escritor e poeta p. r. andel, minúsculo também como e. e. cummings. 

Mário vê a solidão no salão do botequim por todos os lados, ri para não chorar, espera o garçom que não volta para um último trago e faz nova reflexão: "Tínhamos o J. Silvestre, o J. Jr. está por aí numa boa, mas é possível pensar que a decadência da abreviação de nomes no Brasil seja simbolizada por R. R. Soares." 

[Amanhã é uma sexta-feira fria do meio de maio, sem grandes expectativas e com um enorme passado pela frente

"Garçom, a conta por favor."

[Este bar está cheio de ninguém

@pauloandel

Friday, May 07, 2021

Copacabana

copacabana, uma semana de quinze dias

da graça de deus e o diabo


juntando o novo e o velho, o pobre e o rico, 

o avant-garde e a cafonália


[o excêntrico e o pop rock


deusas do sexo, velhinhas moralistas, 

maduros sacanas e garotos nerds


[quase todos se encontram na praia


respeitáveis condomínios orgiásticos

e barracos imperiais na favela


machistas musculosos dando pinta na 

caserna mas odiando as liberdades


e lindas putas tristes com seus collants 

coloridos jantando ao meio dia


ao contrário dos crackers da rua siqueira 

campos perto das casas da banha


copacabana, onda a igreja aluga lojas para o 

bas-fond sem pecado ou rancor


e garotos espertos atravessam a boca do 

lobo à madrugada no Bairro Peixoto


lindas gatas roteiristas escrevem 

barbaridades divertidas para a TV


e os veteranos do posto seis esperam a hora 

dos clássicos de peteca


pode ser Gerald Thomas ou Jorge Ileli ou 

Júlio Bressane numa nova arte


ou Nelson Sargento a caminho da loja de 

DVDs


pode ser João Roberto Kelly navegando a 

noite


ou Paulo Amaral batendo papo com Orlando 

Fantoni perto do Marimbás


ai de ti, Copacabana: bela e faiscante, 

devassa e lúcida


teus escritores e poetas, teus cineastas e 

pianistas, tuas nobres cantoras


teus moleques da areia caçando cola ou 

jogando bola à luz dos refletores


traga à tona as vedetes, os boêmios e os 

admiráveis inferninhos perdidos


e quitinetes lotadas de sonhos e ingênua 

busca da prosperidade


a fantasia, o medo e a aventura num 

ménage a trois dos sentidos


copacabana dos encantos doidivanas, dos 

malucos geniais e dos engomadinhos


o mar vadio e um exército de edifícios 

fazendo sentinela na terra 


o Atlântico Sul de tantos amores e 

folguedos, sempre renovado


Copacabana da Prado Júnior, um caldeirão 

de gentes e cores


o carnavalesco Clóvis Bornay ajeitando o 

cavanhaque na porta do Coruja Bar


os jovens Luiz Carlos Lacerda e Leila Diniz a 

caminho do Beco da Fome


o árbitro Armando Marques descendo a 

Figueiredo Magalhães todo prosa


a espetacular modelo Georgia Wortmann na 

caixa da loja de pão de queijo


batalhões de estranhos lutando por um 

lugar ao sol e o pão nosso de cada dia


Copacabana, musa decana, garota dourada, 

império de céu e mar


[dai-nos a paz


("Nada vira do avesso II", Caio Lima e Paulo-Roberto Andel, Vilarejo Metaeditora, 2020)

sexta-feira sete

ACORDEI muito antes do razoável em mais um dia nessa terra de angústias. Dormi um pouco antes do normal, desabado, depois de ver meu time desperdiçar a chance de uma vitória - foi uma das únicas coisas legais do dia, além do aniversário da Marina. De resto, mais um dia difícil. Não que eles não existissem, mas é que tem sido cada vez mais difícil ser brasileiro. Dor por toda parte. Dor. Indiferença. Intolerância. Incompreensão. Escrotidão, até mesmo de quem se diz consciente das questões sociais. Errar é humano, mas o brasileiro médio tem exagerado. 

LÁ FORA tem o silêncio. Enjoy the silence. Eu adorava o silêncio em noites no campo, quando era escoteiro. Todos estavam dormindo e eu de prontidão. Gostava. Tinha quinze, dezesseis anos, acreditava no mundo e nas pessoas. A ingenuidade é um tesouro.

Agora tenho medo do silêncio. Ele sugere abandono, ausência, alvorada decadente. Ligo a TV para não me sentir tão sozinho. Bem ao longe passa um ônibus lentamente, freando. As ruas já são vazias de dia, imagine à madrugada. Quando fui um garoto de Copacabana passando hora na rua, perto da portaria, até meu pai adormecer do inferno e poder ir para casa, eu via um certo silêncio na madrugada, só que naquele tempo o bairro era cheio de gente transitando à uma ou duas da manhã, cheio de carros e luzes no asfalto, como se fosse Nova York tropical. Havia silêncio na praia noturna também, mas os gritos do futebol cortavam a mudez, além dos risos dos casais que transavam à beira-mar.

Sinto saudades das sextas-feiras. Às vezes marcávamos um chope num bar preferido. Sempre preferi os mais vazios, onde se possa conversar. Escutar o interlocutor é puro respeito. Antigamente eu tinha colegas para isso, mas acabou muito antes da pandemia, é que as pessoas precisam pensar em si mesmas e isso não costuma contemplar o outro. Seria bom tomar uma cerveja depois do expediente, ter algum alívio, fingir por alguns instantes que a vida é boa, mas passou. Os poucos bares sobreviventes estão vazios. Perdemos o que havia de melhor. 

Seis da manhã. Estou suado. Vou tomar um banho. Na TV passam os gols da rodada com uma pressa imensa, mal dá para ver direito. O gol precisa ser respeitado. Quase ninguém liga. 

Estou cansado. A padaria ainda não abriu. Vou comprar três pães e comer antes de ir para o trabalho, sonhando com clientes que não sejam muquiranas. Sonhando com a vida digna que perdi, com um país que minimamente existia. Tudo isso é real, mas não passo de uma personagem. Pessoas vão curtir com lágrimas, desejar força e manter distância. Outras, muito poucas, vão tentar ajudar. Só os mais sensíveis vão entender que a prosa não é uma autobiografia. A dor existe mas somente os mais sensíveis irão entender. 

É sexta-feira de manhã. Os bares morrem numa quarta-feira. Ontem foi dia de chacina. Até quando seremos uma república federativa cheia de gente estúpida, desprezando o próximo e se entorpecendo com um falso amém cheio de ódio, uma falsa dancinha no reels, um inútil textão lacrador até que venha uma nova chacina, um novo crime hediondo, uma nova chacina, uma nova chacina, o sonho da redenção do próximo jogo, a próxima sexta-feira nublada com cheiro de ruas tristes? 

Estou cansado. São seis e treze da manhã. Nenhum ônibus passa. Um rapaz chora na televisão, contando de muitos tiros na porta de um bar. Tudo é inútil: corpos empilhados, vinte e quatro suspeitos mortos, um policial morto, barões do tráfico e da milícia sorriem, não faz diferença. Corpos empilhados garantem o sucesso dos negócios. 

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. 

É quase tudo verdade. 

@pauloandel

Sunday, May 02, 2021

hamburguer

Queria comer um hamburguer. Tou com fome. Comecei a olhar o iFood e tudo é caro demais. Então resolvi desabafar um pouco e depois volto para lá. Aqui praticamente é meu único canal de troca e diálogo, enquanto ainda é possível.  

Lembrei de quando era garoto e ficava contente quando meus pais me davam algum dinheiro, suado, e eu economizava tudo para lanchar no Sumol ou na grande lanchonete que ficava na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, cujo nome já não recordo. Ou ainda o Bolonha, que o bozismo acabou de sepultar. Todas essas lanchonetes estão mortas. Todas tinham bifes próprios, suculentos. 

Por metade da década de 1980, o Gordon foi minha lanchonete oficial. Cheguei até a lanchar lá em pleno ano novo: eu e Fred comemos bastante, porque as garotas não aguentaram os sanduichões e faturamos. Havia um balconista educadíssimo chamado Misaque, homônimo de uma vítima da máfia carioca naquele tempo. O Gordon tinha crepe e sundae divinos, mas era impossível não pensar no Big Gordon, no Goleiro, no Angélico, no Toreador e no simpático Tudo. 

O Bob's da Domingos Ferreira era maravilhoso. Xuru morava bem em frente. 

O hamburguer da UERJ não era espetacular, mas quebrava um galhão em noites de muita fome e pouco dinheiro. Tenho saudade. Ando com saudades demais, não é saudosismo, não é oco, mas saber que era muito bom apesar das dificuldades - nunca é fácil quando você tem vinte anos de idade e precisa arrumar um emprego com urgência para ajudar seus pais, num país governado por Collor (claro que hoje é incrivelmente pior). 

(Enquanto penso, Noel Gallagher toca no programa de Jools Holland).

Falei de hamburgueres porque gosto. Pode ser de carne, pode ser vegetariano, pode tudo. 

(Lá fora começa o maldito silêncio sepulcral das noites de domingo).

Antes dos artesanais, eu ia sempre com Marina no Burger King do Barra Shopping, na verdade um pretexto para irmos à Livraria da Travessa e FNAC. Passávamos o dia lá. E pensar que o Brasil já teve FNAC...

Antigamente não se vendia caixas de hamburguer no supermercado. Quando a Sadia começou, minha mãe comprou uma com doze bifes, mais pão redondo com gergelim e queijo Chisi. Foi uma festa em casa. Tomate, cebola, maionese. Ela ficava contente demais quando me via lanchando porque sabia que eu estava contente. Quantas pessoas ficam felizes por saber que você está contente? Já se permitiu pensar a respeito?

Eu não sou egoísta porque estou falando de hamburgueres num país onde 110 milhões de pessoas não têm garantia das refeições diárias. Na verdade eu queria era que todas elas tivessem acesso aos pratos saborosos e aos hamburgueres também. Quantas pessoas você conhece que se preocupam DE VERDADE com a fome dos desconhecidos?

(Noel Gallagher sente saudades de David Bowie enquanto conversa com Jools Holland. Aimee Mann canta. Você se lembra dela fazendo vocais para o Rush?)

Vou escolher um hamburguer modesto mas não consigo pensar na garota que sumiu em Niterói, torcendo para que ela esteja bem, é irmã da amiga de um amigo meu e gostaria que ela estivesse bem. É tão jovem, bonita, tem o mundo pela frente, não pode desistir. 

Quando o sanduíche chegar, vou caminhar sozinho pela memória e saudar a velha Copacabana que me deu tantas coisas boas. Um bom sanduíche era o mundo. Estou deitado em casa. Espero ser vacinado e ficar mais alguns anos por aí, procurando esmolas de bondade cada vez mais escassas, já que meu país é na verdade um depósito de crueldade semeada em shopping centers - eles têm bons hamburgueres, é um alívio. 

(Algumas das piores pessoas que já conheci me abraçavam, me beijavam e me chamavam de querido, tudo muito pior do que no tempo em que eu comia um sanduíche sozinho, mas feliz, num balcão simples). 

@pauloandel