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Friday, September 03, 2010

ALGUÉM SABE DIZER...





















(clique na imagem para ampliá-la)

... o que significa isso?

Bom, então uma linda amizade entre parentes dos Srs. JOSÉ SERRA e DANIEL DANTAS?

É isso?

Infelizmente, quem vota no PSDB em nome da "ética" e da "moral" - e não da "plataforma política" - acaba sendo reduzido a uma expressão vulgar.

Otário.


Paulo-Roberto Andel

Thursday, September 02, 2010

FORA, GOLPISTAS! CADEIA NELES!

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OS HORIZONTES DA ESPERANÇA


Os horizontes da esperança

02/09/2010 - 08:18

Por Mauro Santayana - Jornal do Brasil


Quando os homens se tornaram eretos, a visão dos horizontes os impeliu a caminharem sempre em frente. Adiante, no desconhecido, há surpresas, aventuras, alguma coisa que faz a vida mais agradável ou mais plena. Sendo uma astúcia ótica, a linha, que segue adiante, quando a buscamos, é apenas uma referência no espaço. Nada nos pode garantir que ela nos possa servir a glória, ou a fortuna.

Os campos petrolíferos do Oriente Médio têm sido horizonte norte-americano desde a Primeira Guerra Mundial. Ontem, com a retirada de grande parte das tropas enviadas por Bush ao Iraque, o horizonte se abateu, mas não definitivamente. É certo que os norte-americanos, cerrada a passagem do Iraque, como se vedará, em breve, a do Afeganistão, irão usar outras armas para o domínio da região.

Milhares e milhares de pessoas, entre elas, soldados invasores, morreram e se tornaram inválidas, para que, depois de tantos anos, os estrategistas se convencessem de que o horizonte era ilusório. Enfim, lutaram, mataram, chacinaram, morreram, para nada. Deixam o Iraque levando como troféu a miserável glória de terem mandado enforcar Saddam Hussein, e deixando no país a perspectiva de um acerto de contas brutal entre sunitas, xiitas e curdos.

Na linha do horizonte abrem-se as miragens, com seus lagos sedutores. Nela, como na bela descoberta de El Greco, a perspectiva se altera, para que todas as coisas pareçam maiores. Dois jovens mineiros – se outros não houver entre os mortos de San Fernando – abandonaram os horizontes próximos, mais seguros, e, iludidos pelo sonho americano, ouviram o canto dos traficantes de ilusões. Viram o mundo desabar, antes mesmo de pisarem a terra que lhes prometeram. Talvez não conhecessem a advertência de Vicente de Carvalho, de que a árvore da felicidade deve ser posta onde nós estamos, e não alhures.

Mais triste ainda é a saga dos rapazes do Maranhão, levados a prostituir-se na Espanha. Havia horizontes promissores mais próximos, nas novas fronteiras econômicas de um Brasil que cresce, mesmo no Norte e Nordeste. Eles se deixaram iludir pelas distorções da perspectiva, e viram na Europa o seu futuro. Talvez, ao voltarem ao Brasil, a vergonha os impeça de retornar às suas cidades, às suas famílias, aos seus amigos. É provável que, no regresso, descubram o imenso e fascinante mundo de oportunidades de trabalho, empreendedorismo e aventuras, que a pródiga diversidade do Brasil guarda para os que nele quiserem plantar suas esperanças.

Não se menospreze a grande revolução que o Brasil vive, neste momento. Descobrimos, ainda a tempo, que o mercado mais seguro é o interno, e que, sem empregos e salários, não há o necessário consumo que o crie. Ainda continuamos sendo um dos países de maior desigualdade social no mundo, mas o pouco de renda que se redistribuiu, nos últimos oito anos, já alimenta o processo de revolução social que estamos vivendo.

Ao combater, com êxito, a fome – a partir da política emergencial da ajuda direta aos mais pobres – o Estado abriu o caminho da esperança aos marginalizados em toda a história do país. Como lembrou, há mais de 40 anos, o jornalista Franklin de Oliveira, nascido no Maranhão, não é o desespero que faz as grandes revoluções mas, sim, a esperança. A esperança da dignidade, em primeiro lugar. Essa revolução se encontra em marcha, e ninguém será capaz de interrompê-la, como fizeram em 1954 e em 1964. E em 1995, com a adesão do governo ao famigerado Consenso de Washington.

Friday, August 27, 2010

VIVO















subitamente, me percebo vivo
e isso não quer dizer
contradição/ angústia
nem ausência de bom senso;
capto-me vivo no silêncio
ante celestiais bobagens
dependuradas num jornal de grande
circulação
nos sorrisos cretinos
da televisão
ou ainda
nas fachadas pútridas
calcinadas com botox
que se ostentam nos maiorais
do Leblon no multiplex
mostro-me vivo
quando a música
sem
letra
de damo suzuki
bombadeia meus ouvidos
com doçura
sou vivo porque meu coração batuca
vivo porque o muito ainda me falta:
mesmo num mundo sem cura
viver é escavar
procurar pequenos tesouros
chamados instantes
pequenas riquezas
que significam momento
sou vivo porque o amor me tece
no alto de um pé-direito
à francesa
e nenhum artifício me destrói
pareço tão vivo
quando minhas palavras
tão perfumadas pelo efêmero
ganham vida eletrônica
quero ser vivo porque sou oceano:
namoro a paz
mesmo que ela não me dê tanta atenção
estou vivo
porque os mortos são muito vivos
em meu peito estudantil
e o domingo
é um domingo
embalsamado por futebol
finjo-me vivo por meu sexo
minhas querelas de madre-pérola
meu ir-e-vir sem muita precisão:
o que parece ao léu
na verdade é liberdade –
respiro e ansio,
ansio e regurgito,
cobiço o vivo
o rito
o crivo!


Paulo-Roberto Andel, 27/08/2010
Foto: Aline Massuca












Thursday, August 26, 2010

BASTA UMA IMAGEM, HA, HA, HA, HA!










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Wednesday, August 25, 2010

RECORDANDO 2006...



Por Paulo Henrique Amorim

Fonte:
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/394501-395000/394778/394778_ 1.html
16/out/06 14:07

Um golpe de Estado levou a eleição para o segundo turno.

É o que demonstra de forma irrefutável a reportagem de capa da revista Carta Capital que está nas bancas (“A trama que levou ao segundo turno”), de Raimundo Rodrigues Pereira. E merecia um sub-titulo: “A radiografia da imprensa brasileira”.

Fica ali demonstrado:

1) As equipes de campanha de Alckmin e de Serra chegaram ao prédio da Polícia Federal, em São Paulo, antes dos presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos;

2) O delegado Edmilson Bruno tirou fotos do dinheiro de forma ilegal e a distribuiu a jornalistas da Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, do jornal O Globo e da rádio Jovem Pan;

3) O delegado Bruno contou com a cumplicidade dos jornalistas para fazer de conta que as fotos tinham sido roubadas dele;

4) O delegado Bruno procurou um repórter do Jornal Nacional para entregar as fotos: “Tem de sair à noite na tevê., Tem de sair no Jornal Nacional”;

5) Toda a conversa do delegado com os jornalistas foi gravada;

6) No dia 29, dois dias antes da eleição, dia em que caiu o avião da Gol e morreram 154 pessoas, o Jornal Nacional omitiu a informação e se dedicou à cobertura da foto do dinheiro;

7) Ali Kamel, “uma espécie de guardião da doutrina da fé” da Globo, segundo a reportagem, recebeu a fita de audio e disse: “Não nos interessa ter essa fita. Para todos os efeitos não a temos”, diz Kamel, segundo a reportagem

8) A Globo omitiu a informação sobre a origem da questão: 70% das 891 ambulancias comercializadas pelos Vedoin foram compradas por José Serra e seu homem de confiança, e sucessor no Ministério da Saúde, Barjas Negri.

9) A Globo jamais exibiu a foto ou o vídeo em que aparece Jose Serra, em Cuiabá, numa cerimônia de entrega das ambulâncias com a fina flor dos sanguessugas;

10) A imprensa omitiu a informação de que o procurador da República Mario Lucio Avelar é o mesmo do “caso Lunus”, que detonou a candidatura Roseana Sarney em 2002, para beneficiar José Serra. ( A Justiça, depois, absolveu Roseana de qualquer crime eleitoral. Mas a campanha já tinha morrido.)

11) Que o procurador é o mesmo que mandou prender um diretor do Ibama que depois foi solto e ele, o procurador, admitiu que não deveria ter mandado prender;

12) Que o procurador Avelar mandou prender os suspeitos do caso do dossiê em plena vigência da lei eleitoral, que só deixa prender em flagrante de delito.

13) Que o Procurador Avelar declarou: “Veja bem, estamos falando de um partido político (o PT) que tem o comando do país. Não tem mais nada. Só o País. Pode sair de onde o dinheiro ?”

14) A reportagem de Raimundo Rodrigues Pereira conclui: “Os petistas já foram presos, agora trata-se de achar os crimes que possam ter cometido.”

Na mesma edição da revista Carta Capital, ao analisar uma pesquisa da Vox Populi, que Lula tem 55%, contra 45% de Alckmin, Mauricio Dias diz: “ ... dois fatos tiraram Lula do curso da vitória (no primeiro turno). O escândalo provocado por petistas envolvidos na compra do dossiê da familia Vedoin ... e secundariamente o debate promovido pela TV Globo ao qual o presidente não compareceu.”

Quer dizer: o golpe funcionou.

Mino Carta, o diretor de redação da Carta Capital, diz em seu blog, aqui no IG (http://blogdomino.blig.ig.com.br/), que houve uma reedição do golpe de 89, dado com a mão de gato da Globo, para beneficiar Collor contra Lula. “A trama atual tem sabor igual, é mais sutíl, porém. Mais velhaca,” diz Mino.

Permito-me acrescentar outro exemplo.

Em 1982, no Rio, quase tomaram a eleição para Governador de Leonel Brizola. Os militares, o SNI, e a Policia Federal (como o delegado Bruno, agora, em 2006) escolheram uma empresa de computador para tirar votos de Brizola e dar ao candidato dos militares, Wellington Moreira Franco. O golpe era quase perfeito, porque contava também com a cumplicidade de parte de Justiça Eleitoral e, com quem mais? Quem mais?

O golpe contava com as Organizações Globo (tevê, rádio e jornal, como agora) que coonestaram o resultado fraudulento e preparam a opinião pública para a fraude gigantesca.

Que só não aconteceu, porque Brizola “ganhou a eleição duas vezes: na lei e na marra”, como, modestamente, escrevi no livro “Plim-Plim – a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, editora Conrad, em companhia da jornalista Maria Helena Passos.

Está tudo pronto para o segundo golpe.

O Procurador Avelar está lá.

Quantos outros delegados Bruno há na Policia Federal (de São Paulo, de São Paulo !).

A urna eletrônica no Brasil é um convite à fraude. Depende da vontade do programador. Não tem a contra-prova física do voto do eleitor. Brizola aprendeu a amarga lição de 82 e passou resto da vida a se perguntar: “Cadê o papelzinho?”, que permite a recontagem do voto ?

E se for tudo parar na Justiça Eleitoral? O presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello já deixou luminosamente claro, nas centenas de entrevistas semanais que concede a quem bater à sua porta, que é favor da candidatura Alckmin.

E o segundo golpe? Está a caminho. As peruas da GW já saíram da garagem.

Wednesday, August 18, 2010

MANO BROWN!

Tuesday, August 17, 2010

ESTÁ CHEGANDO A HORA
















Chega dessa gente que se diz de “oposição” mas viveu a vida toda beijando a mão do regime militar e de seus asseclas.

Chega dessa falácia mofada de combate aos “gastos”, pois quando elles estiveram por uma década com o poder nas mãos e o dólar parelho, só souberam entregar a soberania nacional ao capital estrangeiro.

Chega dessa gente que diz “poder mais”, mas tem podido muito pouco em 30 anos na administração paulista.

Chega dessa gente que acha que pode manipular a classe trabalhadora com novelas, revistas e dossiês.

Não somos idiotas. O povo também não é.

Os resultados das pesquisas soam-lhes como atestado de óbito. Nem os institutos que notadamente trabalham para as corporações deles conseguem mais maquiar nada.

Desistam!

Venceremos as eleições de forma ostensiva. O caminho do Brasil voltado para os trabalhadores e miseráveis é IRREVERSÍVEL.

Desistam e descansem em paz.

O Brasil que era nosso em 1964 e foi roubado, agora em 2010 volta definitivamente às nossas mãos. Os primeiros grandes passos foram dados no governo de Lula e agora, com Dilma mais do que presidente, virá a guinada definitiva para a libertação econômica da gente oprimida.

Onde quer que estejam, Brizola, Darcy e Jango estão orgulhosos.

Ainda falta muita coisa, é claro: não havia como consertar 40 anos de atraso em 8.

Mas tudo leva a crer que, finalmente, as classes oprimidas tomam o caminho da dignidade e do respeito. Eu achei que um dia morreria sem ver isso; felizmente, me enganei.

BRIZOLA VIVE!

O BRASIL TAMBÉM!


Paulo-Roberto Andel, 17/08/2010

Monday, August 16, 2010

UMA CARTA PRA CEUMAR















Olá, querida,

Em primeiro lugar, muito prazer. Você não me conhecia, mas eu te conhecia, aha! Anos atrás, tive uma loja de cds usados e nela, também vendia alguns discos de artistas pertencentes a selos independentes, outros fora da opressão midiática e por aí vai. Isso deve ter uns seis anos, acho, 2004. Então, o tempo se foi e, talvez porque nem tudo seja fácil num país de tamanho continental feito o Brasil, a verdade é que nunca tinha visto um show teu. Disco, até sexta, eu tinha o “Achou!”, muito bom por sinal. Agora só falta um!

Nestes dias, uma alegria enorme foi rever a Sala Funarte, palco de shows fantásticos que assisti, sempre a bons preços e no coração da cidade. Fizeram um projeto novo, a produtora é da pesada, as coisas acontecem. Dei uma espiada na programação e vi que tinha o teu nome. Disse “é hoje”, leia-se sexta, mas não era bem assim: ingressos esgotados, em cima do laço consegui uma promoção no Twitter e a sala me ofereceu uma cadeira. Melhor ainda, meu amigo Marcelo é o técnico de som. Mais melhor de bom, meu grande amigo Felício Torres, uma das autoridades musicais desta cidade, também estava presente.

Discos são discos. Os melhores sabem emocionar, cativar, levar o ouvinte para outras atmosferas. Creio que os que conhecem o teu trabalho possam já ter compartilhado de tal experiência. Porém, uma coisa é certa: quem gosta da música do mundo, da música da alegria, liberdade e beleza precisa ter a chance de ver o teu show, precisa estar in loco porque só vendo ele é possível ver como a música chega ao infinito. Meia-hora antes do espetáculo, levei um tombão num desses milhares de buracos nas calçadas do Centro do Rio; quando você começou a cantar, a dor passou e fiquei contente.

Por sorte minha, já pude ver alguns shows de música muito bons, de vários gêneros. O Eric Clapton, os Rolling Stones, Tom Jobim duas vezes (numa delas, para dezoito pessoas num Teatro da UERJ vazio por má-divulgação), Bob Dylan duas vezes, os Cariocas, João Donato, Raphael Rabello, Nana Vasconcellos, Tomás Improta, Maurício Einhorn, Uakti, Makely Ka, Youssou N´Dour, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Ed Motta, Adriana Calcanhotto, Joyce, Leny Andrade, Cássia Eller, muita gente. Agora, fazer um show virar procissão, eu só tinha visto uma vez: em abril de 1990, Paul Mc Cartney cantando “Strawberry Fields Forever”. A segunda foi na sexta-feira, quando você ao final do teu show cantou a espetacular “Oração do Anjo”, que só podia ter uma craque como a Matilda Kovac no meio. Sou agnóstico, mas isso não me impediu de seguir a procissão que se formou nos rostos da Sala Funarte, nem que fosse com o olhar, enquanto você navegava calmamente por entre a platéia, pisando como se estivesse na Lua. Se tivesse saído da Sala e ganho a rua Araújo Porto Alegre, tenho certeza de que todos nós iríamos atrás de você para onde fosse. Um dos momentos mais belos que vi de música em toda a minha vida, no que lhe sou muitíssimo grato.

Não sei se você percebeu, mas o fim a tua apresentação causou um estarrecimento depois dos merecidíssimos aplausos. Acho que a turma percebeu que era hora de voltar ao planeta Terra, onde as coisas definitivamente são menos leves e doces e profundas, menos lindas e intensas. Então, formou-se uma fila para te cumprimentar, que não era somente de fãs, mas de missionários na verdade. O meu amigo Marcelo, que cuidou do som, fazia questão de te cumprimentar e, por isso, eu não entrei na fila: esperamos quase todo mundo ir embora. Assim, eu fiquei vários minutos vendo como você cumprimentava as pessoas com tanta simpatia, tanta dignidade. Foi outro momento fantástico: nós, mortais, sempre nos sentimos bem quando os artistas nos dão os melhores exemplos; somos fãs e, de certa forma, buscamos no ídolo a perfeição que nos falta de alguma forma. Assim, foi por isso que eu preferi não falar na hora e resolvi escrever, até porque a palavra publicada fica. É uma pequena esculturinha.

Poderia falar também dos momentos maravilhosos repartidos com a Jussara Silveira. Ano que vem a gente merece um show das duas, juntas juntinhas!

Gostaria de agradecer imensamente pela oportunidade de ter visto o teu trabalho de perto. Num Rio de Janeiro de pele linda, mas cicatrizado por injustiças, desigualdades, egoísmo, uma hora e meia da tua música nos servem de antídoto, feito aquele que um dia Jards Macalé e Capinam escreveram: “No céu de Gotham City há um sinal/ Sistema elétrico nervoso contra o mal”.

É um imenso orgulho saber que lá nos Países Baixos, na bela e gloriosa Holanda, estamos tão bem-representados por você. Quem te vê por lá só pode imaginar o melhor do Brasil.

Obrigado por teu trabalho maravilhoso, tua música que liberta, tua simpatia, beleza e atenciosidade, tua voz fantástica de dois mil oceanos. Obrigado pela tua presença no coração do Rio. Obrigado por mostrar que, numa hora e meia de música, a vida faz todo o sentido e ela tem beleza, beleza, beleza e poesia. Beleza e canto. Beleza e vida.

Abro o plástico do cedê, bem como antigamente neste tempo de dáumlôadis. Esbarro com Gigante Brasil, Dante Ozzetti, Kleber Albuquerque. Aí lembro do Zeca Baleiro, do Itamar Assumpção, da Rita Ribeiro.

É esse Brasil que eu quero para mim.

Cheguei até aqui para dizer que você é sensacional. Mas isso deve soar repetitivo; não tem como você mesma não saber. A Sala Funarte é testemunha.

Um grande beijo, espero que tenha tido uma boa viagem e, por favor, volte logo.

Nós precisamos!

Paulo-Roberto Andel, 16/08/2010

(Crédito da foto: Fernando Aguiar)

Wednesday, August 11, 2010

MISCELÂNEA DE PEQUENÍSSIMAS HISTÓRIAS



Pequenos desastres de uma sociedade funesta e, para compensar, um grande disco.


1

Não me chamem para qualquer encontro de “velhos amigos que não se veem (ou o fazem uma vez por ano)”. Um horror!

Tenho medo.

Além do mais, velhos amigos que não se veem? Então não são amigos; no máximo, velhos conhecidos. Rechaço essa outra balela de “ah, o verdadeiro amigo pode ficar anos sem ver que continua lá, intacto”: raras vezes houve uma definição tão humana para o que se chama de hipocrisia. Meus amigos hoje não são velhos nem de idade, quanto mais de não-convivência: todos em permanente contato. Sair da lista é opção de cada um, o que respeito e o que também não significa porta sempre aberta a quem bater – vai depender de como ela foi fechada.

Confirmem minha ausência nestes convescotes, por favor. Eu juro!

Nos últimos anos, vivenciei algumas experiências desse porte com tudo o que possa haver de pior nisso. Agora entendo bem porque Ivan Lessa ficou 30 anos sem pisar no Rio de Janeiro: não queria contaminar as memórias. Salvo um ou outro que vale a pena recordar (mesmo) e retomar, o resto é bola fora. Melhor guardar passados amorosos da pureza infantil do que lidar com a escrotidão madura.

A turma do colégio eu até entendia: vivemos a infância-adolescência na ditadura, não havia oxigenação para pesquisas e trocas mais profundas, isso prejudicou toda uma geração. E pensar que idiotas escrevem e falam que a ditadura foi branda! Alguns prosperaram, mas se deixaram levar pela arrogância. Há seis fantásticos, mais o Aloísio que não aparece, Floriano que faz arte de primeiríssimo mundo, mais alguns. Luiz Carlos. Do Vieirinha, falo depois. O segundo grau era Sarney, o que também não significa muita coisa. Deixemos para lá.

Imperdoável é a época da faculdade.

Chego a me assustar que alguns jovens daquele tempo, com grande potencial, tenham se tornado quarentões reacionários (ainda com potencial, mas desperdiçado), sem qualquer compromisso com a sociedade que lhes cerca, o próximo, seja lá quem for. O tempo passa, o sujeito humilde de outrora com seu caderninho na mão e escola quase grátis (não posso esquecer dos impostos que mantiveram e mantém as instituições públicas de ensino superior, ainda que, naquele tempo, tivesse poucos negros, nordestinos e desfavorecidos onde eu estudava), à custa do próprio esforço - e também da generosidade do Estado – se forma, trabalha, passa num concurso público (por exemplo) ou agita um empregão numa grande companhia (por também exemplo), vira um bem-remunerado e... se torna defensor do “Estado Mínimo”, que justamente aniquila a chance das novas gerações terem a mesma oportunidade que ele.

Eu vos pergunto: isso trata de ideologia política ou do caráter?

Me lembra algo perdido noutra década: “O que é bom, a gente mostra; o que é ruim, a gente esconde”.

Deveria ser obrigatória a contrapartida de um sujeito para com a instituição pública que lhe permitiu acumular patrimônio, seja lá de qual forma fosse.

Não enxergar um palmo diante do nariz. Não ver as favelas da linha dois do metrô. Não ver a estranha docilidade dos bandidos “rendidos” pelas UPP. Não ver a patética arquitetura mental proposta pelos “choques de ordem”.

Ternos um ou dois números abaixo do necessário, sorrisos alvares com ar de superioridade tola entre uma ou outra garfada de salada contaminada, a necessidade incontrolável de olhar para o relógio e marcar a hora. O deslumbramento com Miamis e Patagônias. A ostentação barata de “êmebieiz” bem-adquiridos, em detrimento de uma verdadeira capacitação plural que passasse pelo conhecimento real das questões nacionais – ao menos, uma leitura de compensaçãozinha por anos de “curso superior” sem conhecer qualquer outra literatura que não fosse a de seu curso em si. A admiração por verdadeiros quadrúpedes como Mainardiota (este, em fuga iminente do país por conta da atividade parajornalística de capitão-do-mato), Jabor (filósofo oficial adotado nos maconhódromos yuppies e, ao mesmo tempo, o mais medíocre de todos os que se tornaram cineastas no Cinema Novo) e Reinaldo Azevedo (esse é tão imbecil que fica até difícil adjetivá-lo; talvez seja uma versão afetadíssima (?) do falecido Athayde “Isto é um luxo!” Patreze). A preocupação vulgar e patética em ostentar pequenas riquezas, acreditando que se trata de “progresso” diante de um país que entrou nos eixos, mas ainda tem uma enorme massa de miseráveis que formam a maioria do povo. Não comentarei nada sobre quem tenha esse perfil e, aos domingos, vá a missa para “pedir pelo próximo”, ou que comente sobre a "nova" atitude do “conjunto musical” chamado Restart (anos antes, alguém elogiara a "atitude" de LS Jack enquanto eu queria saber de Charles Mingus e Art Blakey...). Contraste.

Será que tanta hipocrisia/miopia tem a ver, de alguma forma, com os anos de fuligem de FHC?

Marquem a festa e imploro: mandem-me o convite para o endereço errado.

Os outros, amigos mesmo, estão muito bem-cuidados.


2)

O pessoal de trinta e quarenta, vá lá. Alguém reclamando por que não chiei a respeito dos cinquentões e sessentões?

Tenho respeito pelos conhecidos mais velhos.

Pelos desconhecidos, não.


3)

O Brazyl que não gosta do Brasil tentou, tentou e tentou.

O desespero é total. Facilmente visto nas “páginas” de O Globo, do Estadão, na tela do JN e outros menos votados.

A cada dia que passa, qualquer brasileiro pensante sabe que os oito anos do Governo Lula poderiam ter sido muito, mas muito melhores do que foram; ainda assim, eles foram muito, mais muito, muitíssimo acima da “Era do frango a um real”.

Não há clima para golpes. A verdadeira revolução está no asfalto. O interesse real das Forças Armadas de hoje é reajustar os soldos.

Não há o que fazer.

Dilma está eleita, muito bem-eleita. A dúvida agora é saber se as composições ainda levarão a um segundo turno ou a fatura é liquidada em outubro. Seu patético rival já entregou os pontos. No debate da semana passada, cerrando os punhos, dizia “eu vou fazer, eu vou inaugurar”. O objetivo era o de ser sério, mas pareceu cômico.

Analisando de forma bem rasteira, qual seria a diferença para o governo neoliberal de outrora e o atual governo neosocial?

Simples.

Emprego e renda para os mais pobres. Como formam a imensa maioria da população, decidem e mexem em toda a cadeia pelo poder de compra, mesmo que menor.

FHC também podia ter feito o mesmo, se tivesse compromisso com a condição de estadista.

Não tinha.

O risco do Brasil desabar já era.

Livres para sempre de FH e seu séqüito.

As viúvas do capitalismo selvagem e fútil tornam-se carpideiras.


4)

O velho JB está morrendo? Talvez.

Porém, enquanto tivermos o prazer de um craque como Mauro Santaynna escrevendo, esta morte do jornal não passará de farsa.

"Réquiem para os “renascentistas”
10/08/2010 - 23:31

Recordemos a queda do muro de Berlim, o desmantelamento do sistema socialista, que pretendia ser o retorno ao liberalismo do século 19. Mais do que a globalização da economia, que continua, tivemos o tripúdio sobre os pobres. Houve quem anunciasse, com obscena soberba, que os incapazes deveriam tornar-se dóceis servos dos competentes. Era essa a lei da vida, a lei da natureza, a essência do sistema de liberdades cimentado pelo capitalismo sem limites.

Em nosso país, um intelectual, que se dizia de esquerda, assumiu a Presidência da República e, sob o efeito de relampejante conversão na maturidade, abraçou o novo e único fundamentalismo, como esplêndida e gloriosa era. “É um novo Renascimento”, proclamou, com a segurança e a autoridade dos profetas ungidos pela graça da Revelação.

Não tínhamos, país abaixo do Equador, povoado de mestiços, que inventar rodas e modas; bastava-nos seguir a corrente, integrarmo-nos na economia novamente liberal, depois do despertar do sonho do socialismo e do fim da “ociosidade” do povo, debitada ao Estado de Bem-Estar Social.

O capital financeiro assenhoreou-se do mundo. Ao aceno de nosso renascentista, ruíram as barreiras alfandegárias, revogaram-se os dispositivos constitucionais que protegiam o sistema financeiro nacional, entregaram-se bancos brasileiros a preços simbólicos a grandes consórcios financeiros internacionais (como foi o caso do Bamerindus, cedido ao HSBC), e o Estado recuou, no mundo inteiro, menos na velha China. Sobretudo nos países ao sul do Equador político, o Estado se viu acuado, envergonhado, enquanto as ONGs assumiam o seu papel. No Brasil, privatizaram-se a toque de caixa, para impedir a reação da cidadania, empresas estatais estratégicas, que geravam recursos e tecnologia de ponta.

Não foram necessárias duas décadas para descobrir que o neoliberalismo era um expediente dos donos do mundo, que, com métodos pavlovianos de gestão (em que se combinam o suborno e a repressão), criaram quadrilhas de executivos financeiros, que roubaram do Estado e de pequenos e médios investidores – sempre com a ajuda de arrogantes acadêmicos, entre eles alguns brasileiros. Os grandes executivos, de salários milionários, não passavam de audaciosos ladrões, que manipularam as finanças internacionais da mesma forma que os old boys de Chicago controlavam o mercado das bebidas, da droga, do lenocínio. Os new boys da Escola Neoliberal de Chicago, e de instituições semelhantes, que os mexicanos chamam los perfumados, se tornaram os executores dessa nova ordem, também contra seus próprios povos.

Contra os ladrões de Wall Street, a nova legislação obtida por Obama (Dodd-Frank Act) prevê premiar os que denunciarem falcatruas no sistema financeiro, com uma porcentagem (de 10 a 30%) das penalidades financeiras que incidirem sobre os culpados. Um dos denunciantes do esquema Madoff recebeu 1 milhão de dólares de recompensa, antes mesmo da aprovação do novo dispositivo legal. O novo Renascimento não está sendo posto à prova somente no caso dos ladrões que, ao contrário dos que se arriscam a assaltar de fora para dentro, atuam de dentro dos próprios bancos. O sistema está em processo de erosão na fragilidade de seus grandes exércitos, diante da resistência dos povos. Não lhes tendo bastado a lição do Vietnã, há mais de 30 anos, os senhores da guerra mordem a poeira no Afeganistão, depois de mordê-la no Iraque. Mas sempre lhes restam as ogivas nucleares, contra o Irã – e outros alvos.”

Para aplaudir de pé.


5)

O rock não morreu, o rock não vai acabar.

Era 1981 e havia um alvoroço na sala de aula. Lembro do Vieirinha comentando que ia ter show do Peter Frampton no Maracanãzinho. Eu tinha doze anos, parecia ter dez, já ia ao futebol, mas sabia muito pouco de música. Ir a show, nem pensar. Anos depois, amizades como as de Kheirallah, Caux, Nascentes, Ivalski e Valença me deram muitos caminhos musicais. Entre idas e vindas, saquei muito de Peter Frampton; vendia muito, depois sumiu. Chegou a emplacar uma boa canção nas rádios dos 80, chamada “Lying”; fez outro discaço ao vivo, que não venceu desta vez. Por uns tempos, foi guitarrista da banda de David Bowie.

Era 2010 e eu flanando pela Saraiva quando me deparo com a capa de um velho Spitfire e um garotinho louro olhando para cima. “Thank you, Mr. Churchill”, seríssimo candidato a disco do ano e um dos discos da década. Rock puro. Baixo, guitarra e a luxuosa bateria de Matt Cameron, titular do Pearl Jam. Aos que curtem o ritual, recomendo não baixar: a emoção da capa vale as vinte pratas.

O mundo está mais egoísta e cretino.

Já não se fazem mais quarentões como antigamente.

Felizmente, há sopros de vida quando Peter Frampton prevalece.

Eu agradeço ao Vieirinha, de coração.

Por ora, vou ouvir também o Valter Franco.



Paulo-Roberto Andel, 11/08/2010

Thursday, August 05, 2010

CCC

















Cenas Contemporâneas de Copacabana

I

Não me venham com balelas: férias são férias e, gigantes pela própria natureza, boas. Pouco importa se duram um mês ou uma semana – só nos resta viver. E discordo daqueles que creem na obrigatoriedade de se viajar para ter boas férias. Ora, se nasci e vivo numa das cidades mais maneiras do mundo, descontadas as hipérboles e todas as mazelas já conhecidas, viajar para quê? Um acréscimo: mais do que nascer e viver numa cidade maneira, melhor ainda ter nascido/vivido no bairro mais maneiro dela.

Assim como todo craque é craque até que volta a ser simples mortal, quando comparado com Pelé, todo bairro nobre é nobre até que alguém fala de Copacabana. Saiam de baixo!


II

Nasci na Rua do Bispo, Casa de Portugal, julho de 1968, definitivamente uma época sem mar para peixes, barcos e sereias. Oito dias depois, já instalado em meu confortável berço na rua Belford Roxo, apoteose do Lido, a ditadura entrou em minha casa e pôs minha amada mãe para correr... comigo no colo, é claro. Escapei do primeiro atentado contra minha vida sem maiores arranhões. Reviraram a casa toda e destruíram livros, para deleite dos imbecis que ainda acreditam que o Brasil não foi tomado pelo fascismo em 1964.

Não tenho maiores lembranças além das sensacionais fotos tiradas pela Bolinha Mãe. Uma festa em casa, talvez dos meus dois anos de idade. Imagens esparsas. E só. Na praça do Lido, brincava com cordão de ouro na chupeta. Sérgio Brito e Clóvis Bornay eram meus fãs, o que muito orgulhava a minha amada mãe e, como se viu a seguir, somente me agregaram valores positivos. Sou modesto.

Descontando seis meses em Cascadura e um ano em Madureira, entre 1968 e o dia 19 de novembro de 1993, eu respirei Copacabana. Isente os acampamentos escoteiros que, somados, devem dar umas noventa noites em campo. Uma ou outra viagem. Assim, oito mil e quatrocentas noites bem-vividas vendo televisão em casa, jogando bola na praia, correndo na orla ou em outros causos íntimos que não vale a pena publicar.

Oito mil e quatrocentas noites depois, atravessar o Túnel Novo, que já não é tão novo (uma galeria, centro e cinco anos; a outra, apenas sessenta e um), Copacabana ainda mexe com meus gordos hormônios. Pobreza e riqueza na mesma quadra, prédio ou até mesmo apartamento. Travestis cumprimentando babás. Lutadores de kung fu conversando sobre o Concretismo. O modelo que usava chifres viking na porta do Centro Comercial. A entrada do Clube Israelita que virou feirinha. A baleia do Parque Peter Pan.

Mais ou menos por aí.


III

Muito legal flanar sem rumo ou compromisso pelas ruas do bairro, feito os tempos de criança.

Antes disso, deliciosos discos na Fnac, quando meu amigo de infância Marco me telefona e combina um encontro no dia seguinte: está de férias, precisará visitar a mãe e, com isso, podemos jogar alguma conversa fora. Segunda-feira foi dia de descanso. Hoje, que foi outro dia, compras de música. Nenhum problema com downloads, eu baixo também. O problema, para quem me entende, é que ler o jornal na internet é diferente de folheá-lo. Já escrevi aqui mais de uma vez sobre as delícias do ritual de ouvir um disco: um bom refrigerante gelado, deitar na cama, abrir o disco, colocar para tocar, ler o encarte, quem tocou quem produziu.

Quarta-feira na estação Arcoverde.


IV

Tá lá o português. Não temos mais a casa do Fred, o carteado com Luiz Magno e o Jorge vive viajando, fato que dificulta a reunião da turba.

- Cara, vamos dar uma caminhada por aí? Depois a gente vai comer alguma coisa.

- Fechado.

Um sebo que fica perto dos fundos do Copacabana Palace. Nenhum disquinho. Da outra vez eu capturei um Fito Paez importado.

Mais duas quadras pelo saboroso caos da avenida Copacabana, número quarenta e três da Siqueira Campos.

CCC. Centro Comercial de Copacabana. Quinze anos que não entrava ali. Da outra vez, eu queria um Doobie Brothers ao vivo. Não rolou.

No subsolo, há uns trinta anos, a loja “Lixo” era um clássico para quem queria, acreditem, comprar calças jeans. O dono se dizia amigo do meu pai, mas nunca lhe deu um tostão ou auxílio quando ele adoeceu e parou de andar... e de ter trabalho e renda. Apareceu no enterro. Grande bosta! A loja faliu. Foi merecido.

Subindo a escada rolante, do lado esquerdo era uma lanchonete que tinha excelentes sucos e misto-quente. Desapareceu. Era tudo tão presente para mim, como pode ter sumido? Descendo pela esquerda até o fundo, era a Disco do Dia. Fred adorava comprar coisas por lá, geralmente mais baratas; o que não era lançado no Brasil, era na Billboard mesmo, da Barata Ribeiro.

Em algum dos corredores comprei jogos de botão. Onde, não lembro mais.

Agência de viagens, loja de souvenirs eróticos, delivery de quentinhas. Loja de conserto de eletrônicos, o velho DJ da Help no batente – com cara de poucos amigos. Marcel. Morava no prédio do Fred, bloco F, Figueiredo Magalhães, 598. Saudade.

Um inegável aroma de trash e elegância que só Copacabana tem. Aquela coisa limítrofe entre o Braga e o admirável. A tangente. Minha casa.

Segundo andar, um sebo cheio de dvds e revistinhas. Marco gostou. Alguns cds, mas não menos bons. Mundo Livre S A, “Manuela Rosário” e um ao vivo do Maurício Pereira, tocando covers de grandes sucessos do rádio e tevê. Maurício foi dos Mulheres Negras, com André Abujamra, e é um dos grandes artistas brasileiros – atualmente pode ser visto/ouvido como o locutor da propaganda da lata vermelha de cerveja. Simpática a dona. Tudo baratinho, segundo ela, para voltar. Voltarei. Noutro andar, a loja que não tinha Doobie Brothers, cheia de metal pesado.

Quando tinha catorze anos, voltando da escola Cícero Penna, caminhar no CCC era uma recorrência. Quase trinta anos depois, não tenho mais como fazer isso regularmente – por isso, um passeio kitsch é extremamente valoroso.

Ainda deu tempo de almoçar um sanduíche no Cafeína, bem ao lado do prédio onde Marco morou por muitos anos. Patrícia passou por mim, não me viu, não me reconheceu, continua linda, acho que é a dona. Tempo também de descer a Cinco de Julho, onde ele, Marco, reviu o velho centro espírita que freqüentava, agora em novo endereço.

Caminhar pela praia deserta em dia nublado e conhecer as maravilhas dos banheiros subterrâneos da orla, limpos, vigiados e, claro, caros.


V

Bar no fim da tarde, rápido. Uma horinha de drinque, falar da vida, dos amores, das pessoas queridas que se foram, dos momentos muito divertidos, de outros nem tanto. Religião, não-religião, política, esse desastre que envolve o goleiro Bruno, efemeridades. O bar se chama Alla Zingara, pleno ítalo, foi todo reformado recentemente, mas o chamamos de Bar da Kátia: nossa amiga lindona e caozeira mora do outro lado da rua e batizou involuntariamente o apelido da taberna. Esquina de Belford Roxo com Ministro Viveiros de Castro. A vinte metros dali, era a minha festa de dois anos de idade. Ou o endereço do qual fugi aos oito dias de vida, porque o Estado Fascista me considerava comunista e, por isso, criminoso. Estamos em 2010. Sou comunista.

Num mundo escroto como o de hoje, repleto de individualismo e valores fúteis, bom olhar para a frente e ter um amigo de mais de trinta anos de batalha.

Hora do Marco ir embora. Trânsito. Barra. Recreio. Não é mais como era antigamente, entendo. Não é só ir ao velho Gordon perto da Figueiredo e andar duas quadras para casa. Hora de fechar conta.

Toca o telefone, Luiz veio do Paraná e está onde as coisas acontecem. Copacabana. Teremos outro encontro breve. Marco levanta, vamos até a Rodolfo Dantas. Dizem que Einstein almoçava, voltava para a faculdade e, quando encontrava um amigo, aluno ou similar, almoçava de novo. Meu dia de Einstein, portanto: deixar Marco, passar na lan house e agradecer os recados de aniversário no Orkut, voltar ao Bar da Kátia.


VI

Eu lembro de ter visto dois jogos de futebol seguidos, dois filmes seguidos, mas não de ter ido a um bar, fechado a conta, saído dele e, vinte minutos depois, voltado. A rapidez se deveu porque os recados orkutianos eram bem comportados, o que deixou minha gata gordinha bem feliz, creio.

Falando em gata gordinha, cinco ou seis telefonemas. Mulher gosta de telefone.

Quase três anos depois, Luiz de volta. Alegria. Falar da vida, dos amores, das pessoas queridas que se foram, dos momentos muito divertidos, de outros nem tanto.Acho que já li isso antes.

Coisa de dez da noite, hora de partir. Eu numa linha do metrô, Luiz na outra. Nos cumprimentamos fraternalmente.

Sete telefonemas.

Em breve, estarei em casa.


VII

Ainda deu tempo de ver o segundo tempo do jogo do Santos. É ataque, é toque de bola. Merecemos isso, ainda mais depois da burrice colossal de Dunga. Dunga? Já era. Que nem Serra, felizmente.

Se eu tivesse um dia por mês para ir a Copacabana fazer essas coisas, seria mais feliz.

Quem disse que eu precisava viajar para me divertir se enganou.

“Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!”

Noel Rosa, 1935.


Paulo-Roberto Andel

Friday, July 23, 2010

VINTE E QUATRO ANOS SEM TÍTULO (ELEITORAL)

I

Qualquer coisa que dure mais de vinte anos e que não seja ditadura, feito essas defendidas por Boçalnaro e seus cupinchas, e que também não seja vida vegetativa, vale a pena. Os vinte e um anos do Botafogo sem título, com minhas respeitosas saudações à massa botafoguense, por exemplo: não fosse a espera, o campeonato de 1989 seria apenas mais um. Mas foi diferente, especial, histórico. Além do mais, piada por piada o Francis Hime fez muito melhor na música – e ele é dos de General Severiano. Dia desses, um conhecido meu, alvinegro em tom de raiva, disse que o Fluminense era lixo; retruquei-lhe, lembrando que o lixo ao menos pode ser reciclado, o que não cabe ao Botafogo. Quem entendeu, riu. E hoje o Fluminense é o líder do Brasileiro.

O que importa dizer é que ontem me dei conta de ter perdido meu título de eleitor há pouco menos de vinte e quatro anos. Na verdade, me dei conta na semana passada, mas só agora é que me veio o tamanho do tempo. Por quê? Simples: não precisava dele para nada. Tem um número, uma assinatura e, até o pleito passado, podia-se votar tranqüilamente com a carteira de identidade. O número do título eu sempre usei apenas para a declaração do imposto de renda; fora isso, nada. Os anos foram passando, continuei votando em Darcy, Brizola, até o ato falho – e reconhecido – de Anthony, o RG resolvia tudo. Então, 2010 chegou com toda a sua modernidade e tecnologia; portanto, o título, que só tem o maldito número e a danada da assinatura, agora passou a ser obrigatório junto de outro documento identificatório com foto. Não discutirei a lógica do procedimento. Fato era precisar comparecer ao Tribunal Regional Eleitoral, o notório TRE, seção Copacabana, numa tarde de quinta-feira, para obter a segunda via, votar em outubro e exorcizar de vez esse fantasma neoliberal chamado peéssidebê.

Uma tarde de quinta-feira em Copacabana. Ah, meus vinte anos.

Quando votei pela primeira vez, o pessoal elegeu Moreira Franco. Como bem se ouvia no jingle, “o nome dele é Moreiraaaaaaaaa...”. Ia acabar com a violência em seis meses, mas não deu muito certo porque Maria Paula - a filha de seu vice, Waldenir Bragança - começou a namorar um dos bandidos mais perigosos do Rio, o traficante “Meio-Quilo” (sugestivo nome), braço-direito da então organização criminosa Comando Vermelho. Destruiu os Cieps. Fez o buracão do metrô na General Osório na marra e, mesmo sendo um querido do presidente Sarney, não conseguiu inaugurar nada. Terminou seu mandato sendo condenado a devolver ao erário estadual uns milhõezinhos, por ter publicado com dinheiro público o livro “Moreira: ele governou para todos”. Hoje, é o vice-presidente de loterias da Caixa.

Uma eleição apertadíssima. Darcy perdeu por milímetros. Tinha o Gabeira no primeiro turno também.

Oitenta e seis, noventa, noventa e quatro, noventa e oito... Recém-dispensado do Exército, eu mal imaginava que o Brasil só ia tomar prumo quando Lula-lá fosse realidade. E ia demorar a valer, como vimos nos capítulos seguintes desta maravilhosa história contemporânea do Brasil.

Oitenta e seis? Zico perdeu o pênalti, as papeletas amarelas ganharam o campeonato, Xuru me fez sair antes do Maracanã. E faculdade em Niterói, na Facen. Carteado na casa do Fred, ouvindo vinis trazidos pelo Caux. E lanches no Gordon com Marco. Só.


II

“Um bom lugar, Copacabanaaaaaaaaa...”

Por um tempo, tomei cisma do metrô. Tenho um bom motivo: anos atrás, o mesmo vagão em que eu viajava foi meio de transporte de uma mala, contendo uma cabeça humana. Sim, amigos, existe violência no Brasil há muito tempo, embora parte da turba hipócrita finja muita preocupação com Chávez e Fidel, sem imaginar que existe uma linha dois no meio do Rio de Janeiro.

Gosto de ver a rua, o mar. Mas o metrô é mais rápido. E mais apinhado também. A estação do Cantagalo, que ia se chamar Pavãozinho, mas a burguesia não deixou, dá uma boa caminhada do trem até a rua. O tribunal é na esquina seguinte, bem pertinho.

Duas seções eleitorais, lado a lado. O pessoal conversa alegremente. É Brasil, é Copa, é eleição. Uma quase jovem simpática vem me atender. Pede a identidade. Drama:

- O senhor tem multa a pagar. Não justificou a ausência em três eleições.

A partir de então, me tornei um apenado pela Justiça Eleitoral. Exatos R$ 3,51 por pleito ausente e não justificado, totalizando R$ 10,53:

- O senhor dá um pulinho no Banco do Brasil e volta aqui com a multa paga.

Por que faltei a três pleitos? Num, tinha disputa entre Conde e Cabral; noutro, Dotô Efeagá já tinha vencido; tem mais um que a história apagou.


III

A loja de cds usados está farta de material; a atendente não é das mais delicadas e nem entende do assunto. O dono da loja é um sujeito que não me conhece, mas já ganhou muito dinheiro às minhas custas. Eu compro cds, eu baixo cdes, eu gosto de música. Sou um extraterrestre.

Rock sem muita inspiração, jazz bastante caro.

Descubro que ali do lado tem uma Banco do Brasil. Boa!

Aos quarenta e cinco do segundo tempo, um disco com nome gigantesco, normalmente abreviado para “When the pawn...”. A charmosa lourinha magricela Fiona Apple, das grandes de sua geração, completamente ignorada em terra brasilis. Dez mangos. Cai! Quem puder, oução enquanto é tempo.

Para minha surpresa, uma agência bancária vazia, um caixa bastante educado e que me dá um desconto de três centavos na multa.

Não sou mais um apenado. Paguei minha dívida com a sociedade. Dez reais e cinqüenta. Sou um eleitor em potencial. Terei um novo título e Serra não vai gostar disso.

Para matar a fome antes do embate eleitoral, Kicê Lanches. Misto, cheeseburger e laranja batida. Por aqui, sairia uns dez contos. Em Copacabana, quinze. Glamour é outro papo. E outro preço.


IV

A moça emite rapidamente o documento. São tempos modernos. O chefe da seção faz alguma piada: viu um gordo de óculos azuis, naturalmente achou engraçado. Agradeço e me despeço.

O charme das ruas de Copacabana é âmbar. Pouco importa se o bairro envelheceu, se a decadência econômica prevaleceu. Nas vias, pessoas alternativas, antenadas; velhos, jovens, bebês, “adultos contemporâneos” (sabe-se lá o que isso significa). Gente diferente e, por isso mesmo, tão homogênea. Copacabana, menino.

A escada rolante do metrô não funciona. Tempos modernos.

À minha frente, na roleta, um jovem de terno, repleto de ternura, parece com dificuldades de ingressar o ticket. Quando passo por ele, percebo que é um viadinho – com tudo de simples que esta expressão não-pejorativa quer dizer. É Copacabana. Força de expressão somente.

Seria melhor ver as ruas, o mar. A pressa na volta para o trabalho exige agilidade.

Copacabana, um bom lugar para se passar, nem que seja por hora e meia veloz.


V

Metrô lotado às três da tarde. Não faço questão do assento.

Honrei minhas dívidas com o Estado Brasileiro.

Vinte e quatro anos sem título eleitoral. Por quê?

O fato é que a escrita acabou.

Oitenta e seis, noventa, noventa e quatro. Meus pais não eram felizes, mas vivos. E eu tentava fazê-los felizes. Eu tinha irmão. Tinha a turma da faculdade. Tinha uma promessa de bom emprego. Tinha um amor-eterno de meia hora de Tatiana. O rádio era Legião Urbana, Paralamas, Black Crowes e programa de jazz do Jô. Eu tinha título. Eu não tinha o maldito certificado de dispensa de incorporação.

Havia vida. Hoje, ainda há.

Apenas diferente.

Coisas morrem, coisas nascem. A vida é num vão.


Paulo-Roberto Andel

Wednesday, July 21, 2010

IMAGENS QUE DIZEM TUDO




















Parabéns ao fundador do futebol brasileiro.

Paulo-Roberto Andel




Wednesday, July 07, 2010

CAJU

















Era um sábado à noite, daqueles que fazem o Rio ficar mais Rio. Ou faziam, talvez. Milhares de jovens pulavam as catracas do tradicional Jockey Club, divisa de Jardim Botânico e Gávea no Rio de Janeiro. A maior banda do rock brasileiro de então, Legião Urbana, tocaria para uma multidão que até hoje, não se sabe precisar em números: pode ter sido quarenta, cinqüenta ou setenta mil pessoas. Na saída, uma confusão generalizada e um engarrafamento que parou a zona sul da cidade. Num dos carros, meu amigo Dino eternizou o momento:

- Cara, Legião Urbana é isso aí! Sexo, drogas e engarrafamento!

Durante o show, em muitos momentos Renato Russo parecia exalar certa solidão em momentos de silêncio contemplativo, diante de um Jockey que mais parecia o Maracanã em dia de decisão. Num outro, repreendeu a molecada que jogava terra à frente do palco. As canções inesquecíveis eram destoadas uma a uma, cantadas como se fosse uma procissão. Entretanto, entre uma e outra canção, um ou outro detalhe, pairava o danado do silêncio. Na verdade, aquela celebração de alegria tinha sido pulverizada logo pela manhã, quando correram rumores de que o esperado show da Legião poderia nem acontecer.

Cazuza tinha morrido.

Será?

”Mas se você achar/ Que eu tou derrotado/ Saiba que ainda estão rolando os dados/ Porque o tempo, o tempo não para”


*******

Sábado de manhã, dia sete de julho, desci de casa para tomar meu guaraná na lanchonete Kiosk da Siqueira Campos. Na banca, obituários viraram manchete. Por conta da doença grave, todos sabiam que a vida de Cazuza estava por um fio. Mas aconteceu que estávamos tão acostumados com aquele poeta sem-regras, que expirava literatura na música e, ao mesmo tempo, bebia e se drogava como nunca que, iludidos, talvez tivéssemos imaginado que ele fosse imortal de carne. Compôs e cantou até poucos dias antes da passagem, mesmo muito debilitado, e ainda pôde ver seu último grande hit tocar nas rádios com a fúria dos que viviam os primeiros meses da Era Collor – a mesma da Era Dunga:

”Vamos acabar com a burguesia/ Vamos dinamitar a burguesia/ Vamos pôr a burguesia na cadeia/ Numa fazenda de trabalhos forçados/ Eu sou burguês, mas eu sou artista/ Estou do lado do povo, do povo”.


*******

Num tempo em que não se entendia a AIDS direito e muitas celebridades morriam de “pneumonia fulminante”, já bastante doente, Cazuza topou fazer a capa da ex-revista Veja e uma entrevista emocionante. Provavelmente, seu gesto ajudou a salvar a vida de milhares de pessoas, mesmo que ele fosse um completo anarquista no bom sentido da palavra. Ninguém me contou. Eu vi. Nas ruas, nas conversas, na faculdade. Vinte anos depois, poucos foram tão corajosos num momento de tamanha fragilidade e risco de vida.

”Eu só peço a Deus/ Um pouco de malandragem/ Pois sou criança e não conheço a verdade/ Eu sou poeta e não aprendi a amar”.


*******

Renato Russo, durante o grande show do Jockey, parecia olhar para um horizonte muito longe e, talvez perdido. Quem lá esteve, entendeu sua tristeza. Mais do que isso, não sei dizer se ele mesmo já estava doente, sabedor ou não de sua situação. Isso pouco importa diante da perda irreparável dos dois grandes poetas contemporâneos da música brasileira. Logo depois, um desastre cala Chico Science, uma bobagem cala Cássia Eller e o prejuízo vira buraco sem fundo.

Sete de julho foi um dia estranho com uma noite estranha. Celebração e torpor ao mesmo tempo.

Os anos passaram e percebi que, muitas vezes, tentou-se priorizar o lado escrachado de Cazuza, principalmente por conta de sua sexualidade exacerbadíssima. A meu ver, o menos importante diante da grandeza do poeta, de seu talento inquestionável e que, hoje, vinte anos depois, continua vivíssimo.

“Eu andando pela neve/ Em pleno Central Park/ Com as estrelas do cinema/ Faço cenas no metrô/ Com meus tênis All Star/ Deixando as louras loucas/ Com meu latin style/ Não sou mais Paraíba/ Sou South American/ Aqui em Manhatã/ Aqui em Manhatã”


*******

Os gênios morrem jovens, não me perguntem o porquê.

Merecíamos bem mais de Cazuza, mais do que toda a sua obra fantástica que aí está, que lhe permite ser tratado com o devido título de poeta, contrariando os atrasados que ainda se recusam em ver o brilho das letras na música popular – como se Chico Buarque, Caetano Veloso, Cartola e Noel Rosa não fossem colossos obrigatórios em língua portuguesa. E Cazuza está nesse time, que fique bem claro.

O que o enfant térrible do Baixo Leblon teria escrito sobre a até hoje nublada deposição de Collor? Os mais afoitos vão falar de mensalão, mas ele iria muito mais fundo na ferida: o Caso Sivam; a reeleição durante o próprio mandato; Rubens Ricupero e seu “O que é bom a gente mostra; o que é ruim, esconde...”; Jader, Arruda, Roriz, Pitta, FHC. O poeta não era um raso.

A morte precoce de Cazuza nos tirou páginas brilhantes da crônica de costumes da vida brasileira.

“Vida louca vida/ Vida breve/ Já que eu não posso te levar/ Quero que você me leve/ Vida louca vida/ Vida imensa/ Ninguém vai nos perdoar/ Nosso crime não compensa”


*******

Ainda temos esperança. Zeca Baleiro tem muito o que dizer e escrever. Makely Ka é espetacular.

No mais, onde estão nossos poetas da música com menos de quarenta anos ou perto disso?

Não sei dizer.

Parece que as pessoas pararam de dar atenção ao que se canta. Vale qualquer coisa. Espero estar enganado. Não quero cair no velho erro de cada geração quando aponta as próximas como “sem brilho”, se comparada com a própria. Mas... cadê os grandes letristas jovens?

Resolvi escrever estas linhas ouvindo “A tempestade”, disco lançado dias antes da passagem de Renato Russo. É minha humilde maneira de homenagear dois sujeitos que foram parte muito importante da minha adolescência e, por isso mesmo, são presenças eternas na minha vida.

“Quando tudo está perdido/ Eu me sinto tão sozinho/ Quando tudo está perdido/ Não quero mais ser quem eu sou/ Mas não me diga isso/ Não me dê atenção/ E obrigado por pensar em mim”


*******

“eu queria que você estivesse aqui/ e me contasse uma longa história/ sem a necessidade de final feliz ou beijo de celebração/ bastaria ser uma história longa e diferente/ que trouxesse uma pequena chama aos corações solitários/ que oferecesse luz aos sentimentos entrevados/ e que fizesse da gente bem mais gente do que hoje somos/ um batalhão de estranhos a esbarrar uns nos outros/ ou matar por divergência de opinião/ enquanto as belas luzes dos grandes edifícios/ pouco alumiam a miopia da mente medíocre/ eu queria que você estivesse aqui/ mesmo que fosse para falar de dor e perda/ dor e morte/ ou pequenas derrotas cotidianas/ por que o melhor não estaria nos fatos/ mas sim na tua admirável narrativa/ eu queria que você estivesse aqui/ porque isso me faria jovem de novo/ com toda a vida pelo caminho e o direito de errar/ de arriscar/ de acreditar que este estranho mundo poderia ser o mesmo com o qual eu sonhei um dia/ talvez você esteja aqui/ talvez eu possa te ouvir/ e pensar/ no que já passou e no que ainda nos resta/ diante tanta indiferença/ e crenças que perseguem/ e ridículos valores que fazem do homem o mais primitivo dos bichos/ quero voltar a reconhecer o meu do eu”

Vinte anos voam.

(Obs: Há instantes, acabou de falecer Ezequiel Neves, o principal parceiro de Cazuza. Ironia do destino...)

Paulo-Roberto Andel, 07/07/2010

Foto: Ana Stewart - Agência Estado

Monday, July 05, 2010

DROUNGA?


I

Sábado à noite, mesa do Boteco da Praia, no bairro entre Botafogo e Catete. A comida é sempre boa, os garçons são sempre apressados em servir novos chopes.

Bruno, que é meu amigo e não é goleiro, longe disso, melhor definiu o que se passou na véspera, a meu ver:

- É bom mesmo que não tenha vencido porque, se conseguissem, iam achar que o certo é isso aí, xingar os outros, ser turrão, convocar mal, mostrar desequilíbrio. Não tinha como isso dar certo.

Não tinha mesmo.



II

Eu era criança quando Coutinho vetou Falcão e levou Chicão para a Copa de 1979. Os dois foram jogadores do meu time de botão. Falcão armava jogadas. Chicão, cabeça de área, jogava de beque improvisado. Talvez qualquer criança de dez anos, como eu era, soubesse que Falcão era melhor que Chicão, mesmo num time de botão.

Telê foi dos maiores de todos os tempos, mas também fez das suas. Quem tinha Adílio e Mário Sérgio voando não poderia ter aberto mão. O time, entretanto, era cheio de craques.

De lá para cá, é natural que todos os times brasileiros nas Copas do Mundo tenham jogadores que não são unanimidade. Como fazer isso com quase duzentos milhões de torcedores? Mas algumas coisas, de tão óbvias, beiram o ridículo. E ultrapassam qualquer barreira de paciência.

Para qualquer zagueiro do mundo, uma coisa é estar marcando o Luis Fabiano e ele ser substituído pelo pentacampeão Ronaldinho Gaúcho, duas vezes melhor do mundo. Outra coisa é se entra o Grafite, com todo respeito ao querido ex-atleta do meu querido São Paulo.

Levar Ganso e Neymar não significa ter personalidade e manter jogadores comprometidos com o “grupo”, mas sim ser suficientemente ignorante em não perceber que, diante de um adversário mais difícil, os dois em campo ao lado de Robinho formariam o entrosado ataque do time-sensação do primeiro semestre no futebol brasileiro, o Santos. Apenas isso.

Alguém na mesa, acho que o Moraes, me lembrou que, pela primeira vez na história, o Brasil entrou em campo e nenhum adversário, nem mesmo a fraquíssima Coréia do Norte, exerceu marcação especial em algum dos nossos jogadores. Isso era um (péssimo) sinal.



III

Qual o principal objetivo de se fazer treinos fechados para a imprensa?

Ensaiar jogadas.

Na Copa de 2010, o Brasil não tinha NENHUMA.



IV

“São jogadores com compromisso com a seleção”.

Michel Bastos é reserva de ponta direita no Lyon. Na seleção, lateral-esquerdo.

O veterano Gilberto é meia do Cruzeiro. Na seleção, lateral-esquerdo.

Kleberson quase foi assassinado pela torcida do Flamengo em seu último jogo no Maracanã, pelo campeonato brasileiro.

Kaká, excepcional jogador, mas claramente contundido e confuso demais com as coisas de Jesus Cristo, não tinha a menor condição de fazer a diferença.

Luis Fabiano não jogou um vigésimo do que quando atuou nas eliminatórias.

Ronaldinho Gaúcho não tinha comprometimento? E quando embarcou na canoa furada que era a seleção olímpica de 2008?

Concordo que Adriano fez demais em termos de tangenciar delitos, mas já que a seleção não é agência de matrimônio para casar a minha filha, não teria sido melhor levar o atacante imperial, deixa-lo treinando um mês e, quando possível, utilizá-lo em circunstâncias do jogo?



V

Sejamos claros: no primeiro tempo da derrota para a Holanda, a seleção brasileira não fez nenhum jogo maravilhoso. Coisa nenhuma! Nos primeiros dez minutos, os holandeses, atônitos, marcavam na defesa com dois zagueiros em linha. Tomaram um gol, poderiam ter tomado três. Passado o susto inicial, aos poucos se recompuseram e aí o Brasil não teve mais espaço. Quando veio o segundo tempo, Bert van Marwijk acertou sua zaga e o Brasil simplesmente acabou em termos de ataque. Como aconteceu muitas vezes em nossa história, quando a coisa estava preta poderia se apelar para a improvisação, o drible, o recurso técnico. Mas nossos melhores jogadores neste aspecto simplesmente não estavam na África. O jogo ficou igual, até que...



VI

... houve um frangaço.

Julio César é bom goleiro. Não é o melhor do mundo, como andaram inventando por aí. É um bom goleiro e só. Tem regularidade. Mas tomou um FRANGAÇO. Não me venham com história de Felipe Melo. Um goleiro de quase dois metros que sobe com as mãos não pode furar um soco na bola. Tendo ou não o tresloucado Felipe na jogada, a bola entraria do mesmo jeito. Foi apenas a cereja no bolo da velha tradição rubro-negra em Copas do Mundo, se é que me entendem. E foi justamente por causa do FRANGAÇO que falhou no segundo gol, ao nem se mexer no escanteio. O time, que já não era grande coisa, desabou com o empate “inesperado”. A vitória holandesa era questão de tempo, e só não se transformou numa goleada ao final porque os laranjas estavam mortos de cansados.

Na zona mista, Julio perdeu uma grande chance de mostrar o boa-praça que é. Bastava ter pedido desculpas aos torcedores por ter sido o principal responsável pelo primeiro gol holandês. Ponto.



VII

A vinte minutos do fim, Dunga, que realmente não entende NADA de futebol, precisando vencer o jogo, tira Luis Fabiano e coloca Nilmar, bom jogador, mas completamente franzino.

Não era hora de pressão na área?

E ele me tira o atacante que tem mais força física?



VIII

Não teve culpa no primeiro gol.

Mas é um completo imbecil.

Felipe Melo. Expulso do Grêmio, expulso do Cruzeiro e - pasmem! - expulso do Flamengo.

Podia servir bem à seleção brasileira com tal histórico?



IX

Poderia aqui listar mais dezenas de atos patéticos. O coerente Dunga zombando de um repórter que questionava o futebol de Robinho quando ele mesmo, Dunga, insistira anos atrás com AFONSO ALVES de camisa nove da seleção. O patetocrata Jorginho dando piti no desembarque na seleção no Rio de Janeiro, ao lado de seu olheiro evangélico. Poderia falar aqui de Julio Baptista, de Josué, da falta de esquema tático, da falta de jogadas ensaiadas, da falta de futebol-arte que ensinamos ao mundo, dos socos psicopatas no banco de reservas, das coletivas fanfarrônicas e debochadas, do neofascismo disfarçado de comprometimento. Do péssimo gosto das camisas de gola rollet. Prefiro continuar meu chope com os amigos.

Qualquer criança de dez anos, como eu fui um dia, sabia que tanto autoritarismo misturado à falta de competência não ia dar certo. Assim como vetar Falcão para levar o saudoso Chicão. Isso não se perdoa nem em time de botão.



X

Dunga? Já foi tarde.


Paulo-Roberto Andel, 03/07/2010

Wednesday, June 23, 2010

O SUJO, O MAL-LAVADO E A PODRE












Quando comecei a freqüentar estádios de futebol duas vezes por semana, ou três, Dunga começava sua brilhante carreira como jogador. Volante com bons recursos, combativo sem ser violento, capaz de dar ótimos passes e dono de um chute fortíssimo, passou por vários clubes no Brasil e no exterior. Tinha tanta raça que certa vez, atuando pelo Corinthians, vomitou no vestiário durante o intervalo de um jogo - excesso de esforço.

Era um cavalo, no bom sentido.

Ficou milionário.

Injustamente, foi execrado na Copa de 1990, apontado como o líder de uma “era” de derrota da seleção brasileira – sonora bobagem se levarmos em conta que, um ano antes, a mesma seleção brasileira tinha vencido a Copa América, título que não conseguia desde 1949 e os mesmos que lhe fuzilariam na imprensa no ano seguinte eram os que lhe teciam loas ali.

Veio 1994 e Dunga conseguiu um título que poucos jogadores têm: mais do que campeão do mundo, mais do que tetracampeão com o Brasil, se tornou campeão mundial nos juniores e nos profissionais. Uma façanha. Poderia se aposentar feliz (sem trocadilhos) e satisfeito. Um vitorioso. Saiu da ruralidade e ganhou o mundo, ganhou títulos, ganhou dinheiro, foi admirado e ainda deu o troco nos que o malversavam. Suficiente, não?

Não.

Ainda houve tempo para salvar o Internacional do rebaixamento em 1999 com um gol heróico de cabeça. Antes disso, o vice-campeonato mundial na França. Sejamos sinceros: por mais que se queira colocar a culpa no episódio envolvendo Ronaldo, nosso time poderia nem ter ido à final. Ou à semifinal. Nos arrastamos contra a Dinamarca, uma via-crucis contra a Holanda e a velha camisa amarela chegou até mais longe do que as pernas permitiam – que não eram as pernas de Romário, maleficamente cortado pelo “Copas-Fora”, claro. E uma imbecilizada cabeçada em Bebeto, os dois jogando pela seleção brasileira. Aí o leite começou a azedar. Garra, raça, disposição, todas características admiráveis. Estupidez e burrice não.

Passou o tempo. Futebol sempre tem um quê de injustiça. Descobriram que Parreira, depois de montar fantásticos times, ser campeão em tudo quanto é lugar e ter sentado praça na galeria dos admiráveis do futebol brasileiro, não servia para comandar porque não gritava na beira do campo – como se isso tivesse alguma utilidade junto aos berros de um Maracanã lotado ou mesmo na Copa atual, onde cinqüenta mil vuvuzelas imperam. Então surgiu a figura do Dunga como a do “grande capitão” (Carlos Alberto Torres seria muito, mas muito melhor, se o caso era esse), a do “moralizador”, a do “chefão”. Então o Brasil ganhou muitos amistosos (a maioria deles contra adversários sofríveis determinados pelo patrocinador da camisa amarela), venceu Copa América, venceu Copa das Confederações (levando sufocos) e venceu a Argentina pelas eliminatórias – o que pouca gente lembra é que, até ter feito o primeiro gol, a seleção passou meia hora sendo dominada pelos portenhos. Então, a massa jornalística atribuiu ao Gran Comandante o título de inquestionável, por conta dos resultados. Contradição? Sim. Ratificaram a velha escrotice de que “não importam os meios, mas sim os resultados”. Eu vos pergunto: conseguem identificar três ou quatro jogadas ensaiadas que esta seleção, mesmo vitoriosa, mostrou nos últimos quatro anos em campo? E por conta daqueles resultados, Dunga se achou no direito de fazer o que bem quer, contando com o aval de seu patrão Ricardo Teixeira (o mesmo que diz que a CBF é uma entidade privada e, por isso, não precisa dar satisfações de seus atos a ninguém – como assim?). O rio desaguou em repetidas ofensas aos jornalistas que cobrem a televisão brasileira a cada nova entrevista coletiva e culminou na mais recente, domingo passado. Antes disso, Dunga, funcionário de uma instituição privada que não deve prestar contas a ninguém, mas pessoa pública que representa o interesse de quase duzentos milhões de brasileiros, já se posicionou de forma patética ao não saber, por exemplo, se a ditadura que assolou o Brasil era boa ou ruim, porque não viveu nela. Um pouco de leitura de livros do ensino fundamental ajudaria bastante.

Deu problema com a plim-plim. Raivosos com o destempero fascista de Dunga, o comando da Vênus da Ditadura resolveu linchá-lo publicamente. Estão sendo prejudicados no preparo de matérias, têm poucas imagens, os jogadores não falam. De certa forma, para qualquer brasileiro bem-escolarizado não há como não rir desta situação, por mais que ela não seja engraçada: a superpoderosa se submetendo aos caprichos pessoais de um chucro. Minha vocação brizolista não perdoa. Porém, que fique bem claro: nada disso está acontecendo por conta de um esclarecimento político-social do “treinador” da seleção brasileira (muito pelo contrário: em várias vezes ele já desfraldou seu oceano de ignorância a respeito do tema); tão-somente, por capricho de um sujeito que teria motivos para viver feliz em todos os dias de sua vida, mas que precisa a todo instante mostrar sua raiva, seu rancor, sua mágoa e sua pequenez em não reconhecer que, embora campeão do mundo, bem-sucedido e vencedor, ele foi bastante inferior a vários outros também campeões do mundo como aqueles de 1958, 1962 e 1970. Foi, é e será, mesmo que consiga a façanha de se tornar campeão mundial como treinador e, com isso, ser o único do mundo a também ter conseguido ser campeão nos juniores e nos profissionais. Tornou-se um cavalo, no mau sentido.

Tudo na Globo tem odor de conspiração. É fato. Considero bastante positivo que sua sede de poder e completo domínio da informação em detrimento das concorrentes estejam sendo prejudicados. Mas não é por causa disso que tecerei loas a Dunga como atual técnico. Se tem obtido vitórias e títulos no futebol, no trato com os seres humanos em público tem agido como se fosse um completo irracional.

Não sou de ficar em cima do muro.

Nem a Globo, nem Dunga.

Cartão vermelho para os dois.

Nenhum dos dois nos representa com dignidade, mesmo que com “excelência” de resultados. Não se trata do Brasil, mas sim a briga do sujo com o mal-lavado.


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Recebo reprodução do blog de Luis Nassif:

“A PRESIDENTE TUCANA DO FLAMENGO

Por Stanley Burburinho

E sabia que um dia isso aconteceria porque ela é filiada ao PSDB. Imagino o que a imprensa e o TSE falariam se o presidente do Corinthians desse ao Lula uma camisa com o número 13.

Patrícia Amorim usa o Flamengo para beneficiar seu partido PSDB

Vergonha inaceitável para a nação rubro-negra

A presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, usando uniforme com a marca oficial do clube, foi a um restaurante do Rio de Janeiro para assistir ao primeiro jogo da seleção brasileira junto com político do seu partido PSDB, o candidato tucano José Serra, apesar do estatuto do clube proibir esse tipo de manifestação.

Em um evento em que deixava transparecer que comparecia como Presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Patrícia Amorim posou para fotos entregando camisa personalizada do clube a José Serra. A camisa, que tinha o número 45 às costas e o nome de Serra (sic), ainda era do terceiro uniforme do Flamengo, que estranhamente ostenta as cores do PSDB: Azul e Amarelo.

Patrícia Amorim, que parece desconhecer o estatuto do próprio clube que dirige, se comportou como se fosse um apoio oficial da instituição Flamengo à candidatura de Serra.

Cabe lembrar à ex-nadadora olímpica que o artigo 24, parágrafo XIII do estatuto do Flamengo diz:

Art. 24 – Ao sócio, além de outros deveres previstos neste Estatuto, impõem- se:

XIII – abster-se de usar ou envolver o nome do FLAMENGO em campanha, de qualquer natureza, estranha aos objetivos do Clube.

Lembrando ainda que o presidente do Flamengo é, sobretudo um sócio, e mais do que ninguém é obrigado a respeitar o estatuto do clube.

Além de desrespeitar o estatuto nesse caso, não é a primeira vez que Patrícia confunde sua vida política pessoal com suas atribuições como presidente do clube com a maior torcida do país, o episódio da escolha da camisa azul e amarela gera muita polêmica na torcida, que é o maior patrimônio do clube. A desculpa de homenagear a origem do remo só faria sentido se o uniforme fosse azul e dourado, afinal essas eram as primeiras cores que os remadores ostentaram a partir de 1895, ano de fundação do clube. Aproximar dourado de amarelo é forçar a barra; ela quis usar as cores que costuma usar em suas campanhas políticas.

Desde as primeiras pesquisas de maior torcida feitas por jornais há décadas, a torcida do Flamengo ficou conhecida por ser um fenômeno de massas; sua composição é na sua maioria de pessoas humildes, de comunidades mais pobres, espalhados por todo o território nacional.

O Flamengo é pluralidade, não pode ser associado a um partido ou uma candidatura, seja lá de quem for. Se fosse definir a ideologia da torcida do Flamengo diria que é majoritariamente de esquerda, no extremo oposto ao caminho que trilha o PSDB - foi uma das primeiras, senão a primeira a usar bandeiras com imagens de Che Guevara, de Cuba, da Palestina. Como associar com o clube uma candidatura que representa um elitismo que em nada tem a ver com a história do clube e com a sua torcida? Lá em São Paulo, a polícia do então governador Serra PROIBIU a torcida do Monte Azul de ostentar bandeira de Che como se ainda estivéssemos na ditadura, alegando que estimula a violência (sic).

Eu espero que o conselho deliberativo coloque um freio nessa tentativa de associar uma instituição centenária como o Flamengo com um partido envolvido com tanta corrupção e que se aliou a tudo que tem de pior na sociedade brasileira. O estatuto é claro: a presidente usou o nome e marca do clube em campanha estranha aos objetivos do club., Talvez não seja caso de impeachment, mas ela deve ser advertida para não usar mais o Flamengo para beneficiar seu partido.”


Precisa dizer mais alguma coisa?

Podre!


Paulo-Roberto Andel, 22/06/2010

Friday, June 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO


Tuesday, June 15, 2010

COISA DE ALGUNS MINUTOS


Daqui a pouco tempo, o país vai parar como sempre a cada quatro anos, ou a cada ano num fevereiro-março qualquer.

A Copa do Mundo é nossa.

Não se trata do título, evidentemente.

Falo da alegria que milhões de pessoas, preferencialmente as mais humildes, podem ter com cada partida do escrete nacional.

Detesto o militarismo amargo de Dunga e de seu papagaio-de-pirata Jorginho. Esperava mais de dois sujeitos que já levantaram o campeonato mundial como juniores e profissionais. Pessoas menos apegadas a rancores e vinganças. Gente mais gente, se é que me entendem.

Detesto Ricardo Teixeira e tudo que lhe cerca. Mas o futebol brasileiro é muito maior do que eles todos. Muito, muito mais.

Nelson Rodrigues, tão grande quanto o nosso futebol, entendeu bem esse fenômeno décadas atrás quando escreveu a "pátria de chuteiras".

Tomara que dê tudo certo. Mesmo que tudo tenha sido feito com empáfia, arrogância e a medida certa para que dê tudo errado.

E se não der certo como mereceríamos, que ao menos por alguns instantes os brasileiros se sintam um pouquinho felizes, sem a ameaça do neoliberalismo que lhes espera no pós-Copa.

Oxalá.


Paulo-Roberto Andel, 15/06/2010

Monday, June 07, 2010

PINGOS NOS IS...



Itamar Franco é dos poucos homens públicos de direita que se pode realmente respeitar.

Abaixo, a entrevista que concedeu ontem a Mauro Santayanna, do JB, onde coloca muitos pingos nos is em relação àqueles que dizem "poder mais", desde os tempos do frango a um real...



Jornal do Brasil, 6/6/2010

ITAMAR FRANCO E O PODER DA SIMPLICIDADE
Mauro Santayana

Quando assumiu a Presidência da República, durante o afastamento compulsório do titular, Fernando Collor – que seria definitivo meses depois, com o impeachment – Itamar Franco surpreendeu as elites, representadas pelos principais veículos de comunicação do país. Seu ministério foi tachado de “governo de compadres”, e “República do Pão de Queijo”. A resposta de Itamar foi uma pergunta, quase inocente: “As pessoas simples não podem governar?”.

Meses depois, o senador Antonio Carlos Magalhães pediu-lhe uma audiência. Queria fazer “graves revelações” contra Jutahy Magalhães Júnior, seu ex-aliado e então desafeto na Bahia, que ocupava o cargo de ministro de Bem-estar Social. Ao ser introduzido no gabinete, na hora marcada, Antonio Carlos encontrou todos os jornalistas credenciados no Planalto, com seus fotógrafos e as câmeras de televisão. Diante do espanto e constrangimento do Senador, Itamar explicou:

– Como o senhor me disse que faria uma denúncia, achei conveniente que a fizesse à nação inteira. O senhor pode apresentá-la diretamente aos jornalistas.

Modéstia

Antonio Carlos engoliu em seco. Seu “dossiê” era constituído de recortes de jornais, que nada provavam contra Jutahy. Ao minimizar a importância do episódio, que alguns atribuíram à sua astúcia de mineiro, Itamar confessou, modesto:

– Eu, astuto? Eu sou até meio bobo.

A República do Pão de Queijo pode ter sido, para o desdém de seus críticos, a república do pão, pão; queijo, queijo; orientada pelo pensamento óbvio, pelo senso comum. Mas é provável que Itamar tenha sido realmente ingênuo, ao deslumbrar-se pela retórica professoral do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e fazer dele seu sucessor. Itamar relembra o episódio:

– O nome de Fernando Henrique surgiu por exclusão. Diante da pressão dos fatos, que me levaram a aceitar a demissão do ministro Eliseu Resende, desloquei Fernando Henrique do ministério de Relações Exteriores e o nomeei para a Fazenda. A partir de então, seu protagonismo foi natural. Mas, naquele momento, eu pensava, e pensava firmemente, em dar a José Aparecido de Oliveira visibilidade que o credenciasse à sucessão. Aparecido – tal como hoje ocorre ao presidente Lula – se revelara excepcional diplomata, à frente de nossa embaixada em Lisboa. Coube-lhe articular, com grande sacrifício pessoal, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Teve que vencer a resistência de certos setores lusitanos, que não queriam dividir, com o Brasil, a influência sobre as suas antigas colônias. Com o apoio de Mário Soares, Aparecido partiu para a segunda etapa: a de convencer os novos países que podiam confiar na CPLP, porque a presença brasileira neutralizava a suspeita, natural, de que a instituição viesse a ser instrumento de novo colonialismo. Foi assim que, sem linhas aéreas regulares, que lhe possibilitassem as viagens sucessivas e rápidas pelo continente africano, Aparecido teve que se deslocar de um país para outro em aviões monomotores. O Brasil deve também ao Aparecido a oportunidade de hoje estar presente na Ásia: ele nos revelou a existência de Timor-Leste e incluiu essa realidade em nossa política externa. Eu não tive dúvida em convidá-lo para ocupar a Secretaria de Estado. Os elitistas do Itamaraty se levantaram contra a indicação, mas eu não recuaria. Quem recuou foi o próprio Aparecido, e com razões ponderáveis: estava enfermo, sujeito a uma cirurgia arriscada e, com sua sensibilidade, entendeu que não teria condições para ocupar o cargo. Foi então que – e mais uma vez eu lhe louvo a perspicácia diplomática – ele me sugeriu o nome do embaixador Celso Amorim. Acatei, com prazer, a sugestão. Em primeiro lugar porque, não podendo contar com Aparecido, era mais razoável que me valesse de um quadro do Itamaraty, para servir-me no curto mandato que me restava. Além da recomendação de Aparecido, tive outras referências que confortaram a minha escolha. Quanto à sucessão, o nome de Aparecido se tornou inviável pela enfermidade. Optei então pelo jornalista Antonio Brito, que se destacara como ministro da Previdência e estava à frente das pesquisas. Brito declinou: era muito jovem, e preferia governar o Rio Grande do Sul. Fernando Henrique era a terceira opção.

ELOGIOS A AMORIM E À POLÍTICA EXTERNA

Já que falamos em diplomacia – e Itamar foi embaixador em Portugal, na OEA e na Itália – conversamos algum tempo sobre a política externa de Lula. Itamar sorri: ele se sente parceiro de seus êxitos, uma vez que lhe coube levar Amorim para a chancelaria.

– Senti-me homenageado quando, na presença do embaixador Amorim, em uma recepção na Embaixada do Brasil no Vaticano, o presidente Lula me disse que o havia convocado para a chefia do Itamaraty por ele ter sido meu chanceler. É claro que Lula me fazia um afago político, e que a razão da escolha não fora só a nomeação de Amorim pelo meu governo, mas, de qualquer forma, eu dera ao diplomata de Santos a chance de revelar-se como um dos mais importantes negociadores internacionais de nosso tempo. Só tenho a lamentar que Amorim tenha ido a Juiz de Fora participar de um comício em favor da candidatura de Nilmário Miranda, do PT, com Lula, e ao lado de Newton Cardoso, contra a reeleição de Aécio. Um ministro de Relações Exteriores não deveria intervir em disputa regional, e muito menos na cidade natal de quem nele confiara a execução da política externa brasileira. Magalhães Pinto, que era político, nunca fez isso. Esse episódio, que me entristeceu profundamente, não diminui a admiração pelo grande diplomata que ele é.

Comento com Itamar curiosa circunstância histórica. Celso Amorim é de Santos, e em Santos nasceram dois dos mais importantes diplomatas brasileiros, decisivos em momentos cruciais da nacionalidade. O primeiro foi Alexandre de Gusmão, que deu ao Brasil os seus limites continentais, com o Tratado de Madri, de 1750, em que se reconheceu o princípio do utis possidetis que legitima a posse de fato. O segundo foi José Bonifácio de Andrada, o primeiro-ministro de Relações Exteriores do Brasil.

Continuando na política externa, Itamar faz pequeno reparo a Celso Amorim:

– O ministro disse que, para não ter direito a um voto independente, é melhor não fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. No meu entendimento, trata-se de falsa questão. A nação que faz parte do Conselho tem a liberdade de votar como quiser, de acordo com seus princípios e interesses e em favor da paz mundial. O que deve ser contestado é o ainda poder de veto exclusivo aos cinco países que são membros permanentes do órgão. O Brasil sempre teve direito, pelas suas dimensões geográficas e pela sua formação histórica, a participar do Conselho de Segurança. Em 1926, com forte presença na Liga das Nações, teve a sua candidatura, como membro efetivo do Conselho das Nações, preterida em favor da Alemanha – da mesma Alemanha que fora derrotada em 1918. Como era nosso presidente o grande estadista mineiro Artur Bernardes, e seu representante na Liga outro invulgar homem de Estado, também mineiro, o embaixador Afrânio de Mello Franco, o Brasil preferiu a honra e abandonou a Liga, que se revelara instrumento dócil do eurocentrismo. Um país que defendera, com Rui, em Haia, a plena igualdade entre as nações, não poderia compactuar com a ditadura dos grandes.

O NACIONALISMO COMO INSTRUMENTO DE DEFESA

A referência ao episódio de há 84 anos e a Artur Bernardes nos leva ao sentimento nacionalista dos mineiros. Itamar não é apologista radical da mineiridade, ainda que sempre se valha de uma frase forte, a de que ninguém nivelará as montanhas de Minas. Ele pondera que o nacionalismo está presente em todos os estados brasileiros, em maior ou menor expressão, mas reconhece que as circunstâncias históricas acentuaram essa consciência de defesa da soberania em Minas.

Falamos durante algum tempo sobre essas circunstâncias. A primeira delas foi a descoberta do ouro, e a promessa de riqueza e potência que o metal sugere. Em um primeiro momento, o ouro atrai a ambição de enriquecimento pessoal. Depois, esse sentimento passa a ser coletivo: para proteger o direito de cada um, é preciso proteger o de todos. Foi assim que os mineiros criaram o Estado dos Emboabas, contra a pretensão dos paulistas de expulsarem os recém-chegados da Bahia, das capitanias do Nordeste e da Europa. Ao expelir os paulistas das minas centrais, os emboabas fundaram o pensamento nacionalista dos mineiros, que se afirmaria contra o Conde de Assumar, em 1720, no martírio de Filipe dos Santos, e na Conjuração de 1789, chefiada por Tiradentes.

Sentimento

– A minha tese é de que coube aos mineiros despertar esse sentimento nos demais brasileiros, o de que o nacionalismo é a união entre a ideia da dignidade e da defesa da riqueza que coube, pela natureza, à geografia de cada nação. É certo que a dignidade dos povos é mais importante do que seus bens: uma nação pode ser honrada, ainda que pobre. Mas a cobiça internacional se dirige aos recursos naturais. O nacionalismo deve ser instrumento de defesa e resistência, jamais estímulo à conquista, como ocorreu com a Alemanha de Hitler.

A conversa nos leva à experiência diplomática de Itamar, e ele acredita que ela foi mais importante na representação do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos. O fato de se tratar de órgão multilateral possibilitou-lhe contato com personalidades de todo o continente e lhe confirmou a divergência de fundo entre a América Latina e os Estados Unidos. Na OEA, Itamar atuou com a independência de sua autoridade política. Foi assim que fez veemente discurso contra a existência do centro de treinamento de militares latino-americanos, que existira antes no Panamá, e fora transferida para os Estados Unidos, a conhecida Escola das Americas. Itamar citou o secretário de Defesa dos Estados Unidos de então, William Perry, que considerou “totalmente inaceitáveis” os manuais de instrução da Escola. O órgão continua funcionando em Fort Benning, nos Estados Unidos, mas sob pressão crescente para seu fechamento. Hoje, a escola quase se limita a treinar militares colombianos.

Críticas

O pronunciamento foi criticado por alguns embaixadores, pelo fato de que o Itamaraty não fora consultado previamente, e porque envolvia as relações bilaterais entre Brasília e Washington. Itamar não se defende, ataca: um ex-presidente da República – e isso já ocorrera a Campos Salles, quando enviado à Argentina – dispõe de mandato ético e político para defender os interesses brasileiros, conforme sua consciência e convicção.

PLANO REAL NADA TINHA DE ORIGINAL

Há uma coisa que aborrece particularmente o ex-presidente: a memória seletiva de alguns homens públicos sobre a sua administração. Ele se refere a pontos importantes, começando pelo Plano Real. O plano nada tinha de original, baseado que foi no Plano Schacht, da Alemanha dos anos 20, e já um pouco adaptado – sem êxito – pelos argentinos, com o Plano Austral. Itamar lembra que só o aprovou depois de conferir os seus números, trabalhando várias horas nisso. Como engenheiro, e bom conhecedor de matemática, corrigiu alguns de seus itens, antes de aprová-lo e correr todos os riscos políticos da decisão. Da mesma forma, Itamar lembra que os medicamentos genéricos foram adotados pelo seu ministro da Saúde, o médico Jamil Haddad, com sua aprovação, apesar da resistência dos laboratórios. Embora fosse reivindicação de médicos brasileiros, o SUS começou a ser implantado pelo médico Carlos Mosconi, presidente do Inamps em seu governo. Hoje – e Itamar usa o advérbio “despudoradamente” – tais êxitos são atribuídos ao governo de seu sucessor.

– Desde que entrei para a política, em Juiz de Fora, sempre entendi que o Estado existe para impor aos poderosos o respeito aos cidadãos, qualquer que seja a sua posição na sociedade. Mais do que isso, sempre acreditei que o poder político deve buscar a igualdade de todos, diante da lei e das oportunidades da vida. Assim agi quando, por duas vezes, fui prefeito de minha cidade. E só fui atraído para a política porque, como engenheiro do DNOS, tomei conhecimento da vida difícil das populações periféricas. Até hoje creio que o saneamento básico é uma das principais tarefas do poder público. Na mesma época, juntamente com meu colega Nicolau Kleijorge, dei aulas de matemática e conhecimentos gerais aos trabalhadores de Juiz de Fora. No Senado, para onde fui eleito pela primeira vez em 1974, naquela memorável manifestação de inconformismo de nosso povo, quando o MDB não era o PMDB de hoje, mantive a mesma postura, a de que o mercado deve estar sob o controle do Estado, servidor da sociedade, e não o contrário. Resisti ao projeto neoliberal que se iniciara no governo Collor, e não concordei com a privatização de setores estratégicos, como os da energia e das telecomunicações. Da mesma forma cortei, pela raiz, o projeto da equipe econômica, de privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Outros fatos foram lembrados na conversa, como a redução da dívida pública e a aprovação excepcional de seu governo, de acordo com pesquisas de opinião, alem de seu plano de combate à fome, dirigido por dom Mauro Morelli.

AÉCIO, COM GENEROSA AMIZADE, CITOU MEU NOME

O ex-presidente lembra a luta que teve, ao assumir o governo de Minas, em 1999, a fim de organizar as finanças do estado. Ao decretar a moratória – uma vez que os presos e os enfermos de alguns hospitais públicos estavam ameaçados de morrer de inanição, por falta de comida – o mundo desabou sobre ele.

Logo depois, coube-lhe resistir, manu militari, à anunciada privatização de Furnas, situada em território mineiro. Isso sem falar na Cemig.

– Não quero lembrar os nomes dos responsáveis, mas estávamos reféns, na administração da Cemig, de investidores estrangeiros, que haviam obtido, por alguns 30 dinheiros, o controle operacional da empresa.

A minha resistência e a atuação do governador Aécio Neves nos libertaram desse conluio dissimulado em acordo de acionistas.

Nestes últimos 10 anos – dois dos quais sob meu governo – a Cemig valorizouse em 400%. Ela se tornou, nesse período, a empresa energética de maior sustentabilidade no mundo, de acordo com a Bolsa de Nova York.

Entramos na atualidade política. Itamar diz que sua prioridade é a sucessão em Minas. Não cita o nome, porque não é necessário cita-lo em Minas, mas se declara disposto a lutar para que o governo não seja entregue a alguém não confiável.

Pergunto-lhe sobre os rumores de que poderia vir a ocupar a chapa da oposição como candidato à Vice-Presidência:

– O governador Aécio Neves, com sua generosa amizade, citou meu nome como apto a compor a chapa da oposição. Pertenço, hoje, ao PPS. Sei que se tratou de homenagem a um amigo. Mesmo assim, rejeitaram essa hipótese, como se fosse postulação minha. Não sou candidato àquele cargo. Não insinuei essa possibilidade, mas a recusa ao meu nome robustece a decisão de agir, no pleito, conforme a minha consciência, sem qualquer constrangimento político.

Não é Itamar que deve influir na sucessão. São as razões de Minas que terão de ser respeitadas. E as razões de Minas são as razões do Brasil. Em qualquer lugar do Brasil há “mineiros”, isto é, honrados patriotas, que colocam, acima dos interesses regionais, a soberania do país e o bem-estar de nosso povo. (M.S.)