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Thursday, April 05, 2012

LINGUIÇA (UM POEMA CONCRETO E HONESTO)


carne suína
carne mecanicamente

separada

de frango

água
gordura suína
carne de frango
carne mecanicamente

separada

de suíno
sal, sal, sal

proteína de soja
açúcar
pimenta preta
pimenta vermelha
páprica
pimenta calabresa
noz-moscada
coentro, alho, cravo
aromatizantes -
natural de fumaça
e também de carne
(leite, aipo e soja)
estabilizante
tripolifosfato de sódio
glutamato monossódico
corante caramelo
carmim de cochonilha

isoascorbato de sódio
sódio, sodio e sódio

nitrito de sódio
sódio, sódio e sódio

mais
glúten nenhum


Paulo-Roberto Andel 05 04 2012

Thursday, March 22, 2012

PASSAGENS








AMORTECEDORES

e quando foi
que você arrumou
caixinhas de amor
numa prateleira?
e quando mediu
trinta e oito graus
de febre do amor
num termômetro
apraz?
foi você
quem injetou amor
pela bomba
de gasolina?
e quem te disse
do amor estar
numa promoção
de vitrines?
quem mastiga
snacks de amor
que não configurem
a quebra de um
regime?
pois é, eu quase
não percebi
quando estive
empolgado
e fiz minha
jorra de amor -
tragam-me
um cálice de amor
quero tragar
um cigarro de amor
manchetes e fotos
chamadas e vídeos
falando de amor
enquanto *o verme
passeia na lua
cheia e ninguém
percebe o rigor
bíblico
aos pés
do amortecedor

paulorobertoandel 2032012

*Citação de "Flores Astrais", 1973


DOR ELEGANTE

(Itamar Assumpção/ Paulo Leminski)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA

(Itamar Assumpção)

Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando

Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Às vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó Dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto

Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina

Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

Entro em transe se canto às vezes eu choro tanto
Vivo voando voando é pelos palcos que vivo


VERSOS ÍNTIMOS

(Augusto dos Anjos)

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


HIPÓTESE

Nenhuma premissa
Me faz elegante –
Sou um desajeitado
Doidivanas
E isso requer
Desmerecer
O importante

paulorobertoandel 22032012

Wednesday, March 21, 2012

MANOEL DE BARROS & ABUJAMRA

Tuesday, March 20, 2012

CONTRADICÇÃO


enquando eu escorro um drama
você cogita a pose
e não me socorre - 
meu karma num morro
desaparece
porque flana em close
numa calçada de brita,
despreocupado com a tragédia
que mora na porta ao lado
na caixa de correspondência
ou num e-mail qualquer.
enquanto eu vocifero o drama
você não me consola
e navega em tédio,
apaixonada pelas vitrines
e manchetes
e letras marcantes que dizem pouco.
enquanto desaconteço
você se refestela num lençol cheiroso
que não quer dizer cama - 
eu desaconteço
desaconteço
desaconteço
a contento de quem me detesta
mas não me acerta
num ponto final.


paulorobertoandel 20 03 2012

Wednesday, March 14, 2012

HEREDITÁRIO

A cada parto

A cada luto
A cada perda
A cada lucro
O sol que dura, só um dia
A cada dia, o sol diário
Contra o que for hereditário.
Contra o que for hereditário.


Em cada mira
Em cada muro
Em cada fresta
Em cada furo
O sol que nasce, a cada dia
A cada aniversário
Contra o que for hereditário
Contra o que for hereditário
Contra o que for hereditário

Arnaldo Antunes/Tony Bellotto/Nando Reis

Tuesday, March 13, 2012

ÓCIO




o aquilo que não me fascina
é ócio
e fácil
enquanto meu porém
desce em cascatas


sete quedas em cristal d’água
sem remorso
nem repente


é que eu corroboro o poente
que se anuncia ao passo
da noite e seu estrondo:
risos, discos e danças


artifícios contra a tristeza
mendigos em banquete
sem realeza


e a vida, meu amigo,
é aquele aquilo:
o ócio, o fácil, o tátil,
o devoto do conforto –


e eu que não arredo pé
nem mudo de opinião
acho graça:
traço vôo no mais vago
no infinito em desamparo


e nada tem a força
de me fazer arredio:
minha cobiça
é o fracasso!


paulorobertoandel13032012

Tuesday, March 06, 2012

MÁRIO DE ANDRADE

Eu sou trezentos

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos! Ôh, Pirineus! Ôh, caiçaras!
Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

(1922)

Saturday, February 25, 2012

ANOTHER PARK, ANOTHER SUNDAY


I

unidos desapareceremos

II

eu e meus eus/ meus paradigmas exacerbados e conflituosos/ eu mais eu/ eu e meus múltiplos de coisa alguma/ eu vezes três vezes zero/ conjunto unitário/ mais um monte de ideias a flutuar/ por ruas incertas, bares vazios e nenhuma solidão/ eu e meu down-by-law/ karmas questionáveis e uma pureza impossível de se alcançar/ eu e meus desejos/ perdidos, obstruídos, inacessíveis/ debaixo deste sol que range e comove/ eu e meu carnaval ao fim/ nenhuma porta-bandeira me homenageia/ o céu não tem fronteiras quando um café me espera/ minha morena se aproxima/ mas sou covarde demais para me apaixonar outra vez/ eu e minha incerteza/ eu e a profunda lucidez.

III

lucidez é perceber
que as pequenas 
loucuras
são fascinante 
oxigênio
ao que diz respeito
sobre tempos
modernos

IV

lá fora
o verão incendeia
o que sabemos
ser ano-novo:
onde moram
meus janeiros?

V

aquela carne
admirável
agora dorme
noutra 
pradaria
e sou fera
envelhecida
estupefata
frente ao que 
restou
da minha
coragem.

VI

quero ser trezentos 
e quinhentos e quinhões
até voltar um dia
a respirar
feito dez-contos
de réis

VII

vende-se contos e sonhos:
favor tirar ficha no caixa
e abrir qualquer livro
com prazer divino.
 


pauloroberto andel25022012

O RESTO VALE

vale quanto cabe
e pesa
e custa
vale pelo sangue
seco
desperdiçado
no meio-fio
vale pelo sol
o céu
as cores
e todo negrume também
vale pelo seco
e sujo
e denso
e podre mas vivo
vale o seio
o dorso
as ancas
nenhum pecado
comove
vale o que está
escrito
e lido
e sabido
ou até compreendido
vale pelo rico
e limpo
ou pútrido
ou pelo pobre
lívido
e perdido
na mansidão de amor
vale pelo riste
ou traste
ou flerte
enquanto ainda somos
corpos
sedentos um pelo
outro
vale o samba
o gol
o sonho
de toda apoteose
que se transforma
em crepúsculo

paulorobertoandel25022012

Friday, February 24, 2012

AS RETICÊNCIAS

I

Sim, eu devia ter dito o que pensava. Mas não o fiz. Poderia ter contado sobre as vezes em que sonho com você, os desejos, a vontade quase incontida de te puxar para o primeiro canto deserto e refrigerado para dissecar toda uma lascívia há muito cobiçada. Sim, eu devia ter feito isso mas não fiz. Eis que penso nos meus problemas, nos teus anseios, no estúpido medo de errar quando já se passou mais metade da vida esperada. O problema talvez não seja dizer e ser rejeitado e nem mesmo ser acatado mas não corresponder à altura: meu maior medo é querer acordar com você ao lado no dia seguinte e não querer que você vá embora. E agora você beija em outra porta, ri de outra piada, dorme em outra cama enquanto penso estupidamente que tudo poderia ser muito diferente se eu tivesse com você a mesma atitude que tenho com outras - mas simplesmente não consigo. Não devia tê-la visto em dança - foi a minha kriptonita. Queria banhar-lhe em mel, oferecer dois mil beijos inesquecíveis e provocativos, empenhar todas as carícias plausíveis e que isso não significasse uma prisão, uma masmorra, não sei dizer. Sou um idiota e talvez por isso sinto-me tão confortável.

II

acordei
diante de um mundo morto:
as calçadas rompidas
a carne podre nas ruas
o ódio e a miséria solenes
e tudo não parecia tão diferente
de um sábado à tarde
na pujança comercial
de um shopping center

III

morreu um grande cantor
morreu uma grande voz
não prestaram atenção direito
nas palavras
do cantor
nas frases que umedecia em tons
não foram justos
com o brilhante passado
do grande cantor:
somos porquinhos reticentes!

III

o poeta sumiu, fugiu
parecia inebriado
pelo êxtase da morte.
todos ficamos assustados
quando ofereceu adeus
aos pés de uma grande edifício
via internet.
felizmente era só um arroubo:
o poeta vive
e sofre
e dorme
e nos encanta com seu dom
permanente
num preciso monodrama.

V

aquilo que cogito
é muito distinto
da nobreza, dos topos
de qualquer olimpo.
não pretendo ser
um às das letras
um pintor rebuscado
um estupendo escultor:
o que me basta
é a alcunha
de vagabundo iluminado -
modéstia à parte,
qualquer Jack Kerouac
me enobrece.

VI

amar é mordiscar
os seios da bailarina
numa quinta-feira
aprazível
calorenta
mas inesquecível -
seja bendita
toda lascivia sã
beijar-lhe o ventre
o colo
a nuca
e que tudo soe
feito um poema
de Leonard Cohen.


pra 240212

Friday, February 17, 2012

BODY AND SOUL

Agora somos tão estranhos
Que nem a morte me arrebata
Quero ser eterno ao mergulhar
Nas profundezas do efêmero
Gosto de ser desimportante:
O zero à esquerda me apraz
Nada de relevâncias ocas,
Auto-suficiência vadia,
Petulância voraz:
Minha vocação
é a desimportância
É a simplicidade que beira
O piegas -
Meu endereço favorito

 
pra170212

Saturday, February 04, 2012

VALE QUANTO PESA?







I

Duas jovens garotas de programa andam abraçadas pela calçada de pedra da rua do Ouvidor. Parecem felizes e ali não sugere sexo. Pode ser hora da folga, do passeio ou qualquer desimportância. Parece arte. Sim, vivemos e respiramos arte. Fudemos e louvamos arte. Cada canto do planalto sujo ejacula arte. Então duas garotas caminham. A da esquerda, mais voluptuosa, exibe numa coxa farta uma longa tatuagem. o desenho da garota da direita começa na nuca e parece ocupar toda a região das costas, ainda cobertas. Eu carrego no bolso um CD de vanguarda de Beck Hansen, que tocou no Brasil mas ninguém entendeu nada. Daqui a pouco o Fluminense há de me regenerar. As duas garotas são mulatas e oferecem formosura. Ando cansado a caminho do Paço, já passei pelo CCHO e quase chorei com a obra eterna de Franz Weissmann, quase toda produzida nesta cidade que nunca lhe aplaudiu como devido. 



II


O Paço é belo e abriga por mais algum tempo obras riquíssimas das artes plásticas contemporâneas no Brasil. Viver é pensar; pensar é fazer arte. Portinari, Djanira, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Leonilson, Gershmann, tantos mais. Sou ignorante demais para saber como aqueles homens e mulheres construíram tanta coisa condenada à eternidade. Admiro e basta: sei da pequeneza de meu lugar.


III

Os seios arredondados e salientes da turista nacional deixam-me embevecido. Ela me pergunta as horas e só penso em Urano ou Netuno. São impressionantes: instigam, convidam, sugerem mais e mais. Sou um pequeno canalha em poucos segundos de infidelidade. Ela sorri: nunca foi tão fácil ler as matizes do que penso e sonho.

O telefone toca e respondo, ninguém replica.

Got a devil's haircut in my mind!


IV

Nenhuma pátria é poder.


Paulo-Roberto Andel 040212





Thursday, January 19, 2012

ELA CANTA


É o céu que oferta presságios:
sejam de amor
misericórdia
ou desolação
e dele, tão céu,
nossa ingenuidade
espera
cores de esperança
somos crianças
olhando para o céu
e navegando
em esperanças e mistérios
que nossos
olhos à juvenília
são incapazes de decrifrar
mesmo quando a pele
já for
curtida.

paulorobertoandel19012012

Thursday, January 12, 2012

MONSTROS CONTEMPORÂNEOS II



Cogito uma experiência sonora depois de um dia escrevendo sobre jogos e jogos. Minha televisão não sintoniza direito. Não estou preso aos pacotes televisivos que geram muita união e nem tenho imagens cinematográficas à tela; é o que basta para assistir pessoas sem talento num programa popular. Descarto o áudio. Ligo o CD Player e passo a ouvir o discurso de Gil Scott-Heron. Algo me diz que a revolução não vai ser televisionada. Gil brada: "I´m new here!". Interessante notar o contraste entre a fala musical do poeta e as pessoas se esmagando dentro de um automóvel que será o prêmio de uma delas. Longe de tudo isso, outras pessoas choram seus mortos pela chuva, mas nossa estupidez média não permite enxergar o primitivo que ronda tais situações - a mesma estupidez que um homem rico passa com sua gravata italiana por uma calçada e sente nojo do homem pobre que lhe pede uma esmola. A pobreza pede um pão com manteiga apenas, mas é muito para quem tem dinheiro. A mesma estupidez que nos faz ratos escondidos e corredores em shoppings, bares, religiões e computadores, enquanto a vida alaga os córregos. A revolução não vai ser televisionada. Ao fim do disco, substituo-o por outro, da cantora inglesa Beth Gibbons. Ela quase chora ao cantar e isso é bom. Réquiem para a revolução que jamais será televisionada.


monstro contemporâneo II


sim, sou meu monstro: 
rosno-me, ameaço-me
mas não cogito medo
numa espiadela diante
do espelho

eu, meu monstro
não me torturo
pelo que não creio ou tenho:
suturo cortes que atravessam
o pensamento
mas nenhum instante
é tão cinzento
quanto o que se faz lastro
perante meu fim

dia e noite; monstro;
sábado e feriado, monstro;
pátria sem bandeira, denso;
cor de madrugada, traço!

eu, mil vezes frente a mim mesmo:
deus de passatempo,
palácio de areia firme
lutando contra o vento, 
náufrago da cidade 
que nega esmola ou
alento.


paulorobertoandel11012012



Friday, December 02, 2011

CAI

cai a tarde
nasce a noite
e tudo voa rasante
no meio do
castelo
de caras.
somos
pouco
diante do
que tudo poderia ser, mas
assim mesmo
cremos no milagre
das compras de natal,
nas vitrines ricas
e outras futilidades
que parecem nutrir a alma
mas desaquecem
qualquer coração.
tocam os sinos,
fecham-se as portas
e agora é sexta-feira:
estamos ocupados
em viver até a morte,
no próximo dia útil
para depois ressuscitarmos
em novos corredores
de
consumo.




Paulo-Roberto Andel 02122011

Tuesday, November 22, 2011

FINS

Friday, November 18, 2011

NOSOTROS


os outros são
desocupados
sórdidos
enturmados
entediados
e tantos adjetivos
mais
que não lhes sobra
tempo
para exercer
a dignidade humana
em quatro
costados

os outros são
encafifados
malversados
assoberbados
atrapalhados
e mais um calhamaço
de bons e maus
pecados

os outros são normais
os outros somos nós
débeis qualidades
enquanto o mundo
é nosso
mas o fazemos com tanto
nada-de-mais
não-tenho-culpa
aqui-jaz
e mais um punhado
de vãs futilidades -
os outros somos voz.



PauloRobertoAndel19112011

Monday, November 14, 2011

CASA DE PRATA

1
A morte está nos olhos
fatigados

de quem a descrê

2
Uma superfície

de pétalas
não resiste
à sua inerente
delicadeza;
a rijeza de que
carece é
ao mesmo tempo
sua algoz e oxigênio
essencial


3
tatiana não veio
e nem poderia:
está ocupada
em nascer e morrer
de amor barato
numa casa de prata
em férias tchecas,
enquanto drago
o lodo inerte
do rio
que inundou
minha vida


4
nenhum castigo
me dói mais
do que ser estrangeiro
em meu próprio
bairro,
poeta entre
conversas vazias
e humano
em tempos
modernos
que já aboliram
esse obsoleto
modelo.


5
vitória
riqueza e
auto-ajuda:
retratos
de uma alma
inerte
frente ao espelho
sujo
rachado e
cru.




paulorobertoandel141111

ITAMAR ASSUMPÇÃO

Quem Canta Seus Males Espanta

Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Às vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó Dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Entro em transe se canto às vezes eu choro tanto
Vivo voando voando é pelos palcos que vivo

DRAMA

tenho as mãos espalmadas
como se fosse uma reza
mas não tenho talento:
desacreditei de falar
com quem não vejo
não sinto
e que nunca esboçou
qualquer preocupação
por mim.
perdi o talento
em falar com paredes de carne
osso
músculo
e hipocrisia.
desliguei as tomadas
e os telefones.
abdiquei das cartas
por ora, minha catarse
é degustar o nada
o vazio
o fim que floresce
e que nada pode deter.
tambores que rufam
destinatários ausentes
alguma patifaria
e nenhuma emoção barata
no que chamam
vida à carne viva
tesa, lúcida
desenfreada
e, mais do que tudo,
harmonicamente
desiludida.
rejeitei a farsa.


PauloRobertoAndel14112011