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Tuesday, May 24, 2011

OS CLÁSSICOS SÃO ETERNOS



Hoje, Bob Dylan faz 70 anos.

Não se trata de dizer apenas que é um dos aniversários do rock n' roll, ou da música norte-americana.

Trata-se de um dos aniversários mais esperados da Terra. Para muitos, Bob Dylan é o artista norte-americano mais influente de todos os tempos em qualquer área.

Há quase 50 anos, Bob Dylan dá as cartas na cultura mundial, com sua poesia fantástica, sua reverência ao passado, seu sem-par de temas que serviram (muitas vezes, sem a intenção dele) como música de fundo para protestos, questionamentos e novos paradigmas a partir dos anos 60. Sem Dylan, os pais e quase-avôs de hoje seriam mais pobres do ponto de vista intelectual. E o que dizer de quem influenciou diretamente a ninguém menos do que os Beatles?

Quando tudo parecia perdido e Bob fingia sugerir que tinha perdido a mão, em 1997 ele grava "Time out of mind", um de seus grandes clássicos e, desde então, uma retomada com discos maravilhosos como "Love and Theft" e o magistral "Modern Times". Sim, depois de incendiar toda uma geração do ocidente, já depois dos cinquenta anos ele ainda tinha fôlego para trabalhos espetaculares. Sua "The Neverending Tour" começou em 1988, passando por grandes palcos e ginásios até cabarés do Velho Oeste. Incansável, Dylan é pau para toda obra.

Incansável. Questionador. Provocador. Menestrel. Influência decisiva no pensamento mundial das últimas décadas. Tudo é pouco para descrever o gênio de Bob Dylan.

Quem me dera estes setenta anos pudessem ser cento e cinquenta.

Abraço de sempre e obrigado por tudo, Bob. "The times they are a-changin'"

Paulo-Roberto Andel, 24/05/2011 


Tuesday, May 17, 2011

TARDE NUBLADA

por vezes
me esqueço
das intempéries -
não as da natureza,
feito a tempestade lá fora,
mas as que falam da dor
do ódio, o rancor
a pobreza d'alma humana
que faz tão mal
a certos corações.


por vezes,
desapareço
de meus próprios dramas -
busco exílio
em meu próprio peito
e navego velhos mares
imaginários
ao olhar para o teto
enquanto o silêncio
se faz de cais


por ora,
caminho em minha própria
e emocionante
perdição
quando me deparo
com as tolices da vida-
o que para muitos,
significa fascinação!


Paulo-Roberto Andel, 16/05/2011

Wednesday, May 11, 2011

EXUMAÇÃO DA INFÂNCIA



"Lar doce lar" (para Maurício Maestro), de Cacaso:

"Minha pátria é minha infância: por isso vivo no exílio"

Tuesday, May 10, 2011

CHEGA!

Monday, May 09, 2011

SOMOS ESTRANHOS

Alguns dos melhores livros já escritos não tiveram leitores em demasia; alguns, sequer leitores.

O mesmo vale para discos de música e peças e quadros e telas.

Excelentes - embora poucos - programas de televisão não têm audiência alguma.

Dentre os anônimos na Terra, há alguns dos melhores exemplares de bons humanos, vivos ou mortos.

Somos estranhos.

Estranha a natureza do homem que se basta em poder e dinheiro, fingindo não ver as mazelas do mundo e do próximo, inevitavelmente condenado à apoteose da mediocridade em todos os sentidos.

Não podemos saber todas as coisas do planeta, é evidente. Mas isso não deveria fazer de nossa maioria um perdido entre robôs consumistas, analfabetos com sede de luxo ou um bando de zumbis, esperando uma nova ordem do Jabor, do Mainardi ou do Obama. Não deveria. Mas infelizmente faz.

A parte que nos cabia neste mundo contemporâneo era muito maior do que viver falando sobre o nada nas redes sociais, buscar especialização em fofocas, gastar o tempo com temas e teses comprovadamente inúteis.

Deveríamos ser bem mais do que isso.

O que resta é a dor e o que venha a seguir, nem que seja o fim.

E nada de recomeços.

Reprisar a mediocridade é, em qualquer estágio, abominável.


Paulo-Roberto Andel, 09/05/2011

Wednesday, May 04, 2011

DESANOITECE



desanoitece
quando tento
entender as mazelas
do mundo

e vem
certa alvorada
trôpega
trocando passos
flácidos
entre a esperança
e a ilusão:
ampulheta contra o tempo,
uno frente à multidão


desanoitece
quando me vejo
bicho-homem,
permissivo diante do caos
que se tornou
a extinta fraternidade:
havia uma cidade
em meu bairro, ela
encolheu e calou
para agora, agora,
viver em solene angústia –
a dúvida sob fissão.


longe do antes,
exilado no futuro,
por onde navego à vida?




Paulo-Roberto Andel, 04/05/2011

Friday, April 29, 2011

QUANDO NEUSINHA ME LIGOU




Tardinha de 1986, perto de novembro. Era o cinza, sem chuva e sem perspectiva de celeste. Acho que tinha lanchado alguma coisa, pois estava escovando os dentes, coisa de garoto de dezoito anos sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, mas alojado em Copacabana. Morávamos no 143 da Siqueira Campos ou o 598 da Figueiredo Magalhães, conforme o gosto do freguês. Super Shopping Center de Copacabana, construído por Collor pai, berço da minha juventude.O telefone tocou, minha amada mãe atendeu e, com preocupação, me chamou para que eu assumisse os vocais:


- Paulo-Robeeeeeerrrrrrtoooooooo, não tou entendendo, é alguém do Brizola. Veja aqui por favor.

Tadinha da minha mãe, tinha razão para se preocupar. Por conta dos nazifascistas de 1964, ela teve que correr comigo dos bandidos fardados de soldados em pleno AI-5, noutro novembro bem mais pesado: o de 1968. Nunca mais se esqueceu disso. Imagine uma garota de 23 anos fugindo da própria casa com seu filho de oito dias no colo porque, “em nome da moral, da pátria e da família”, estavam à caça de um comunista: meu tio Mendel, posteriormente expulso do Brasil, para onde jamais voltou. E depois os idiotas viriam latir que não existiu ditadura, tortura ou falta de respeito para com a cidadania. Piada. Em minha casa sempre votamos em Leonel Brizola. Contudo, minha mãe, pessoa de formação humílima, mas de grande sagacidade, bom-humor e inteligência, não tocava nestes assuntos, ainda mais se tinha alguém no telefone falando de política ou do Brizola – nome que causava calafrios nos representantes da miopia político-intelectual do país.

Peguei o telefone.

Segue aqui uma breve lembrança do que conversamos.

- Alô?

- Oi, tudo bem, com que estou falando?

- É o Paulo. Eu sou o filho da Dona Lourdes.

- Oi, Paulo. Eu falei com a tua mãe, mas acho que ela ficou com medo de falar alguma coisa e te chamou. Muito prazer. Eu sou a Neusinha.

- (Silêncio).

- Acho que você já ouviu falar de mim, por causa de uma música que tocava muito na rádio, mas enfim, bem... eu sou Neusinha Brizola. Peguei o telefone de vocês em uma lista. Deixa eu explicar: tou ligando porque, como você sabe, está chegando o momento das eleições e eu estou pedindo votos para o melhor candidato, Darcy Ribeiro. Bom, você também deve conhecer o meu pai, Leonel Brizola. Essa luta é muito importante porque precisamos manter uma resistência no Rio de Janeiro: tem esse Plano Cruzado enganando todo mundo e a gente sabe que, depois das eleições, eles vão fazer tudo o que não prometeram. Darcy é um intelectual, é uma pessoa séria, tem um passado de trabalho (...), eu queria pedir o teu voto se você for eleitor, e se puder chamar mais pessoas para ajudar na nossa campanha.

- Sim, claro. (A seguir, silêncio total de quem tinha reconhecido que a voz era dela mesma, Neusinha, e que estava embasbacado com a situação em si, não com os propósitos dela).

- Olha, Paulo, avisa pra sua mãe que isso é muito importante para todos nós. Com certeza o Rio de Janeiro precisa disso.

- Eu vou falar sim (voz de vergonha).

- Ah, e se você quiser, pode aparecer qualquer hora aqui em casa, venha falar disso com a gente.

- Tá, mas ir na sua casa? (Voz de quem tinha vergonha de ir à casa de alguém que não conhecia pessoalmente e que poderia não saber o endereço, embora eu soubesse que era na Avenida Atlântica).

- Sim, claro, é aqui na Avenida Atlântica (ela não imaginou mesmo que eu soubesse); venha que vai ser legal, muita gente boa, Brizola pra frente. Apareça! Beijo.

Quando encerrou a ligação, é claro que minha mãe espiava de rabo de olho, querendo saber o que era aquilo. Tentei explicar com calma para que ela entendesse. Minha mãe tinha sido tão fuzilada pela ditadura que não lhe parecia “normal” que pessoas telefonassem para pedir votos.

Mais tarde, fui jogar bola na praia, trave do Juventus. Contei pros amigos. Alguns se espantaram, outros riram. “Essa é maluca mesmo”, “Vai lá, cara, vai que tem uma festa maneira?” e outras pérolas típicas dos jovens daquele ano de Copa do Mundo, criados para “não se envolverem politicamente”. Mais à noite, meu pai ouviu a história e riu baixinho.

Quando lembro desse esboço de diálogo, que deve ter durado uns dez minutos se muito, acho graça.

Vejam.

Semanas depois, naquele mesmo ano, o Rio de Janeiro perdeu uma oportunidade histórica, que era a de eleger um craque como Darcy Ribeiro para governador. Imaginem se poderíamos nos dar ao luxo de uma situação dessas hoje.

Iria entrar Moreira Franco, com a opulência do governo federal.

Depois, noutro âmbito, viriam o Collor e o FHC.

Dia desses mesmo, e isso já vai para 25 anos, a filha do governador (e meu eterno candidato) me telefonava para pedir voto de maneira bem-humorada e límpida, bem diferente das redes sociais impregnadas por ódio, vistas ano passado na disputa presidencial, as “redes do Zé”. E o que dizer do medo da atriz aterrorizando o horário nobre, tentando vender uma farsa contra Lula?

Dia desses mesmo, a gente tinha chance de ter um Darcy Ribeiro como governador!

Fui eleitor de Brizola durante o resto de sua vida, tal como meus pais fizeram também até o fim. Sou eleitor de seu neto.

Talvez a Neusinha não saiba, mas os cinco minutos que conversamos no telefone quando eu mal tinha dezoito anos foram um reforço definitivo para toda a minha vida política que, naquela época, já se desenhava.

Nesta semana, ela faleceu. Neste momento, está sendo enterrada em São Borja, cidade gaúcha, ao lado de seus pais.

Pensando naquele telefonema, tudo me fez sentir um baque.

Mas certas coisas não mudam.

Porque o sobrenome Brizola está mais vivo do que nunca.

 

Paulo-Roberto Andel, 29/04/2011

Wednesday, April 20, 2011

NOVES FORA

I

Um bate-papo de rua com um companheiro de trabalho, até deixá-lo no ponto de ônibus em frente ao Iaserj. A despedida, o até-segunda e resolvo voltar para casa. Passo pela porta do Inca e lembro do Xuru, como quase sempre. Fico estupefato: uma família se abraça e chora muito. Acabaram de perder alguém querido. Uma menina jovem e bonita explode em lágrimas. Penso que minhas pequenas dívidas, minha saudade, meus conflitos e tristezas são insignificantes perto da dor da morte, sempre a corroer quem fica. Passo em silêncio, como se fosse um réquiem ou minuto de condolências. A dor dói, bem escreveu o poeta. Somos pequenos e, às vezes, queremos ser muito maiores do que o mundo; ostentamos, subvertemos, vociferamos e não vamos a lugar nenhum. Que milhão ou bilhão de reais pode pagar a dor da perda de alguém querido? Nem em sonho. É que a vida não se resume a dinheiro ou poder. Existe sentimento, atitude, respeito e amor. O rsto é falácia para que o ser humano, em sua pobreza d'alma, tente justificar os  muitos erros que comete. A família chora na porta do hospital. Eu choro por eles e meus pais, mas sigo em frente. Vivo meu drama. São quatro da tarde.

II

Bonitas as garotas que disputam espaço na próxima barca. Uma morena baixinha e graciosa de blusa vermelha, calça jeans e um chinelinho que permite ver a formosura de seus pés, com uhnas delicadíssimas. Uma loura com expressões sensuais. Talvez cinco jovens a caminho da UFF. Comentam sobre o que não pode ser consumido por ora: o podrão, a cachaça. Uma delas parece estar medicada. A juventude é uma multidão bebendo e gritando na porta de uma faculdade qualquer. A quarta-feira vira sexta, enquanto as pessoas se apertam no transporte marítimo das seis e meia, o famoso rush.


III

Eu e Bola na sala bem-refrigerada, falando de nossos sonhos. O que se perdeu e jamais voltará, o que renasce das cinzas, o que sempre ficou guardado numa caixinha da memória. Não sei se Irene vem lanchar conosco. Mais tarde verei o jogo com Leo, esperando o impossível virar fácil. Telefonar para Malu. Tentar resolver problemas meus e de outrem. É só mais um feriado. No fundo, estou ferido pela dor de morte daquela família. É que a dor dói. Não quero saber de virtualidades.


Paulo-Roberto Andel 

Monday, April 18, 2011

HOMO SAPIENS


Admirável talvez seja enxergar na multidão a mais evidente forma de solidão humana. Estar em um milhão é estar plenamente sozinho diante de avassaladores números, entre respirações e corações em movimento. Cada vez mais enxergo o ser humano em coletivo com certa estranheza; fazem coisas que não fariam sozinhos, geralmente contra a moral e o respeito ao próximo, haja vista a baderna de torcedores ditos organizados pelas ruas do mundo. Somos estranhos na condição de grupo: falamos de paz mas não a praticamos, fingimos fraternidade entre falsas conversas, sugerimos uma perfeição que não existe. Temos caprichado na solidariedade por computador, muito distante da vida real: diante de uma tela, fazemos amigos, batemos papos furados e outros positivos, às vezes trabalhamos. Existe um sol lá fora que serve como lazer de muito poucos: ai daqueles que batem pino carregando caixas e pesos e dores por conta de uma moedinha, um trocado, um pão com manteiga. Somos estranhos quando vemos os defeitos os outros mas somos incapazes de nos enxergar frente ao espelho de nossa suposta alma. Somos estranhos quando criticamos a tudo e não tomamos consciência dos nossos próprios defeitos. Muitas vezes, queremos o mais e mais por nada, o simples prazer de ter que, no fundo, remete a nenhum sentido. O fato é que o mundo tem muito mais dor do que cor, muito mais dor do que amor e uma pequena parcelinha pode viver com certas regalias e tecnologias, mais alguma felicidade social próxima enquanto a maioria despe suas vidas em sacrifícios que vão levar do nada ao lugar nenhum. O mesmo homem, tão admirável que conquista, cria e faz o progresso, é também o homem que corrompe, destroi e mata. O mesmo homem, tão apegado às crenças e à vida depois da vida é o homem que se esquece de praticar o bem durante a própria vida. Por vezes, mais ávido por auto-afirmação do que por sede de conhecimento, dinheiro ou poder, o homem tropeça em sua própria limitação humana: a de não perceber, respeitar e tentar colaborar. Quantas vezes elefantes e formigas já nos deram tais lições? Muitas, muitas. Da roda ao tablet, é certo que viramos o mundo, inventamos muito e avançamos muito. Agora, dentro de nós mesmos, não há como espantar a inevitável aragem da mediocridade.

Paulo-Roberto Andel


Monday, April 11, 2011

USE YOUR ILLUSION


(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA)

Tuesday, April 05, 2011

ONTEM


Wednesday, March 30, 2011

COLAGENS

I


mergulhado no fundo



de

um




poço


cardiológico



II


e então rimos sem qualquer sentido/ das tragédias à tela de elétrons/ ou ficamos inertes/ diante do enfartado na avenida central/ e achamos lindeza no céu/ enquanto a terra é cinza e crua e vocifera cadáveres/ a terra é linda e seus mortos e famintos sofrem, sofrem/ nunca terão a dignidade devida/ nem mesmo a garota gordinha que frita bifes numa loja de lanches/ ou o garoto que entrega panfletos rejeitados/ rimos pela nossa própria estupidez/ enquanto o agiota explora/ o golpista falsifica e senhor nenhum perdoa nossas dívidas/ a natureza é bela e nossa ganância sabe destrui-la como ninguém/ o estranho mundo onde vivemos quase sem sentido e toda vã recordação morre sem destino algum/ por estas palavras os egoístam me chamarão de tolo e cego e comunista/ sempre sabem o que melhor dizer, eu reconheço.



III


dói em mim

o doce lancinante

da tua voz

juvenil

sempre tão longe

e longe

que me parece lenda:

beleza efêmera

para ansiar

meu coração



IV


a única coisa

relevante,

frente ao caos urbano

é a desconstrução -

começar de novo,

viver a modéstia

e assumir a culpa

da nossa fragorosa

solidão. Paulo-Roberto Andel, 30/03/2011

Tuesday, March 29, 2011

DA AGÊNCIA CARTA MAIOR - EMIR SADER



(Reprodução de artigo) 1964: data incômoda para a direita A cada ano, quando nos aproximamos da data do golpe de 1964, uma sensação incômoda se apossa da direita – dos partidos, políticos e dos seus meios de comunicação. O que fazer? Que atitude tomar? Fingir que não acontece nada, abordar de maneira “objetiva”, como se eles não tivessem estado comprometidos com a brutal ruptura da democracia no momento mais negativo da história brasileira ou abordar como se tivessem sido vítimas do regime que ajudaram a criar? Difícil e incômoda a situação, porque a imprensa participou ativamente, como militância politica, da preparação do golpe, ajudando a criar um falso clima tanto de que o Brasil estivesse sob risco iminente de uma ruptura da democracia por parte da esquerda, como do falso isolamento do governo Jango. Pregaram o golpe, mobilizaram para as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, convocadas pela Igreja, tentaram passar a ideia de que se tratava de um movimento democrático contra riscos de ditadura e promoveram a maior ruptura da democracia que o Brasil conheceu e a chegada ao poder da pior ditadura que conhecemos. Na guerra fria, a imprensa brasileira esteve plenamente alinhada com a politica norteamericana da luta contra a “subversão” contra o “comunismo”, isto é, com o radicalismo de direita, com as posições obscurantistas e contrárias à democracia, estabelecida com grande esforço no Brasil. Estiveram em todas as tentativas de golpe contra Getúlio e contra JK. Em suma, a posição golpista da imprensa brasileira em 1964 não foi um erro ocasional, um acidente de percurso, mas a decorrência natural do alinhamento na guerra fria com as forças pró-EUA e que se opuseram com todo empenho ao processo de democratização que o Brasil viveu na década de 1950. Deve prevalecer um misto de atitude envergonhada de não dar muito destaque ao tema, com matérias que pretendam renovar a ideia equivocada de que a imprensa foi vitima da ditadura – quando foi algoz, aliado, fator no desencadeamento do golpe e da ditadura. (O livro de Beatriz Kushnir, Cães de guarda, da Boitempo, continua a ser leitura indispensável para uma visão real do papel da mídia no golpe e na ditadura.) Promoveu o golpe, saudou a instalação da ditadura e a ruptura da democracia, tratou de acobertar isso como se tivesse sido um movimento democrático, encobriu a repressão fazendo circular as versões falsas da ditadura, elogiou os ditadores, escondeu a resistência democrática, classificou as ações desta resistência como terroristas – em suma, foi instrumento do regime de terror contra a democracia. Por isso a data é incômoda para a direita, mas especialmente para a imprensa, que quer passar por arauto da democracia, por ombudsman das liberdades politicas. Quem são os Mesquitas, os Frias, os Marinhos, os Civitas, para falar em nome da democracia? Por isso escondem, envergonhados, seu passado, buscam a falta de memória do povo, para que não saibam seu papel a favor da ditadura e contra a democracia, no momento mais importante da história brasileira. Por isso tem que ressoar sempre nos ouvidos de todos a pergunta: Onde você estava no golpe de 1964?

Tuesday, March 22, 2011

AO QUARTETO NOVO


Ontem, perdido na mediocridade da televisão, esbarrei numa ilha de excelência: a SESC TV. Nela, mais um dos maravilhosos shows de música instrumental que só se pode ver por lá: uma apresentação de Theo de Barros, um dos mais completos músicos brasileiros da história. E, claro, onde tem o nome de Theo, não poderia faltar a menção ao Quarteto Novo.

Era originariamente não um quarteto, mas sim trio - o Trio Novo. Nasceu para acompanhar ninguém menos do que Geraldo Vandré, que fazia a terra tremer com sua música colossal e brasileiríssima em plena ditadura militar. Além de Theo, formavam o Trio os jovens Airto Moreira na percussão e Heraldo do Monte na viola. Tempos depois receberam um quarto integrante, jovem nordestino que já mostrava muita habilidade com piano e sanfona, mas que marcaria o grupo ao tocar flauta: ninguém menos do que Hermeto Pascoal, o maior músico que Miles Davis viu tocar. E, com essa formação musical que lembra no futebol o ataque da seleção brasileira tricampeã no México, o Quarteto Novo seguiu solo para um único disco, que levou seu nome e foi lançado em 1967, com oito extraordinárias faixas que poderiam soar como o melhor do jazz, mas que não eram "apenas" jazz - na verdade, a música instrumental brasileira levada ao Olimpo pela força da temática nordestina. É um disco que, ouvido 44 anos depois, ainda tira o fôlego dos apreciadores da boa música, tamanha a sofisticação e exuberância dos arranjos e sonoridades ali presentes. Um momento histórico e uno: jamais se repetiu. Antes da despedida, ainda fizeram parte da histórica vitória de "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, no Terceiro Festival de MPB.





Décadas depois, os integrantes do Quarteto Novo estão vivíssimos, hiperativos e com carreiras internacionais respeitadíssimas. Seu rol de fans, dentre os quais ardorosamente me incluo, bem mereciam uma apresentação ao vivo do disco de 1967, marco raro de um Brasil inquestionável e maravilhoso do ponto de vista artístico.


Paulo-Roberto Andel

Wednesday, March 16, 2011

SOBRE RICHARD ASHCROFT


A noite de sexta-feira não tem calor ou frio, apenas Richard Ashcroft está ao meu lado com sua voz marcante, berrando em plenos pulmões uma frase que me parece emblemática: "Are you ready?". Não creio. Não creio mais. Não acredito no ser humano preparado, em permanente estado de alerta, buscando uma perfeição impossível; somos tão falíveis que qualquer sopro pode cerrar a porta de nossas vidas. "I'm not ready so!", diria a um conhecido qualquer que aqui estivesse enquanto contemplo as cenas televisivas: a destruidora imponência do terremoto e seu tsunami promovendo o mau espetáculo de dor e morte na Ásia. Não estou pronto, talvez nunca esteja, mesmo que seja frente a um simples café no centro da capital trocando prosa com outro conhecido. Não estou pronto para os horrores do verão, os maus-lençóis de agosto, a rijeza de um maio qualquer. A mutação constante não é fortaleza frente às mazelas da vida; a cada momento, eis que uma fagulha possa se tornar vulcão e, assim, nos tragar como o nada que somos frente à grandeza do universo. A música não para de tocar; Richard Ashcroft já fez canções mais pesadas e instigantes, já fez a casa cair sem que alguém sucumbisse, tudo muito diferente da televisão muda e aterrorizante. Era música, talvez aquela que pontuasse meu rápido bate-papo com o Moraes nos subterrâneos da estação Carioca ou, noutro caminho, me inebriasse numa tarde de amor com uma mulher proibida. É a dor: o tsunami segue firme em sua obsessão pela morte. Não estou preparado; quando estiver, serei tão frio e indiferente que nada será mais importante do que o fim de uma canção, e não é o que quero. A força do Japão há de renascer dos escombros, tal como foi contra uma bomba atômica; Richard Ashcroft insiste numa negativa. Noutra vizinhaça, os casais e combos se preparam para a dança do sexo de sexta-feira. As cinzas do carnaval navegam delicadamente pelo ar noturno. Meu bloco-do-eu-sozinho é um coro de multidão; é um bloco, é um blog. Isso é música? Quem sabe?


Paulo-Roberto Andel, 11/03/2011

Wednesday, March 02, 2011

PONTE


um caminho
sem prece
nem armistício
é o que me parece
sina,
o que me conforta
à sombra,
um caminho
sem mistério:
tempero
candura
recato
e a certeza inevitável
de que a vida busca fim,
tão certo quanto é
o último suspiro
do poema.


Paulo-Roberto Andel, 02/03/2011

Wednesday, February 23, 2011

PEQUENOS MURMÚRIOS FRENTE À MULTIDÃO



















II
fácil, tão fácil a paixão
sem biunívocos
ou reciprocidade:
eis você por aí
num romance
numa carícia
ou outra guloseima
qualquer,
enquanto aqui
me liquefaço;
deságuo no mar
imaginário
dos teus seios
cobiçados
ou o colo ansiado.
meu resumo
é te sorver
completa
numa tarde sem vulgares -
a paixão é tão simples!
você e um sonho,
eu e meu tesão de ardor,
nós diante de um abismo
enquanto o mundo
gira perfeito
para hospedar
a nobre decadência humana.


III

quero apenas desacontecer:
assim
minha falácia fenece
e ninguém
perde seu tempo em perceber.


IV

relíquia minha
é o sabor molhado
do teu ventre
no meu desejo
incendiário:
palato em chamas!

e quem acha inconsistente
o fogo aceso no molhado
tem órbita de sobra e pouca prosa,
nem voa rasante
no calor do feriado.


Paulo-Roberto Andel, 23/02/2011

Tuesday, February 22, 2011

PENTA EM PENCAS (REPRISE)



Amigos,
Em 07 de novembro de 2007, publiquei este artigo no OTRASPALABRAS!; nesta data, o Flamengo ainda não tinha conquistado - de forma brilhante e NO CAMPO - o título nacional de 2010, nem o Sport a Copa do Brasil de 2008. Como o tema "está na moda" e para manter a máxima de que vale o que está escrito, esta foi - e É - a minha OPINIÃO. Obrigado pela visita.



Penta em pencas (07/11/2007)

O que não faltam no futebol brasileiro são equívocos das mais variadas naturezas, e a recente discussão sobre o propalado pentacampeonato dos flamengos contra os são-paulinos vem bem a calhar como reforço de tese.

Primeiro ponto, a bobagem de se discutir a origem do que se chama de “campeonato brasileiro” – o que, para alguns, data de 1971. Levando-se em conta, por exemplo, que a Taça Libertadores começou em 1960, tendo como participantes os representantes nacionais dos países sul-americanos, é claro que havia um meio de representação para tal acontecimento. E assim foi: em 1960, o E.C. Bahia, campeão brasileiro de 1959, disputou a Libertadores, na condição de campeão da Taça Brasil. Dali em diante, o campeão da Copa Brasil foi sempre o representante oficial. A Taça era disputada pelos campeões estaduais de todo o país, com a diferença de que os times do Rio de Janeiro e de São Paulo entravam automaticamente na fase final do certame, em modelo muito parecido das primeiras disputas da Copa do Brasil, torneio criado em 1989.

A Taça Brasil teve dez edições, com a seguinte distribuição de títulos: Santos, 5 (1961 a 1965); Palmeiras, 2 (1962 e 1967); Bahia, 1 (1959); Botafogo, 1 (1968); Cruzeiro, 1 (1966).

No mesmo ano de 1967, o então Torneio Rio-São Paulo recebeu uma ampliação, com o convite de times das regiões Sul e Nordeste, como Grêmio, Inter, Atlético Paranaense e Santa Cruz, passando-se a se chamar Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o popular “Robertão”. A Taça Brasil permaneceu como torneio paralelo até o fim de 1968 – a partir de então, o Robertão tornou-se a única competição nacional do Brasil Em 1969, o torneio passou a ser denominado Taça de Prata. Em suas quatro edições, os campeões foram: Palmeiras (1967/1969); Santos (1968) e Fluminense (1970). Até aqui, já tínhamos 11 anos de competições nacionais, inclusive com anos em que um time havia ganho duas competições nacionais (Palmeiras em 1967) e que havia dois campeões no mesmo ano (Santos e Botafogo, 1968).

Então, em 1971, criou-se o chamado “Campeonato Brasileiro”, que já existia de fato há mais de uma década. E deveria ser chamado de torneio ou copa, pois o campeonato pressupõe jogos de ida e volta entre todos os participantes, com acesso e descenso, e isso jamais ocorreu de forma correta entre 1971 e 2003 – mesmo depois, como veremos a seguir. A dita nomenclatura de “Campeonato” Brasileiro nem era unânime à época; álbuns antigos de figurinhas daqueles podem mostrar os nomes de “Taça Brasil” ou “Copa Brasil” em seus títulos. Posteriormente, “Taça de Ouro”.

A cada ano, houve uma fórmula de disputa do torneio. A cada temporada, o inchaço provocado pelos interesses políticos da ditadura militar, num princípio de se “integrar” o Brasil. Depois de anos incríveis, como 1979 (com 96 clubes e os times paulistas entrando automaticamente na fase final de disputa) e 1982 (onde o Corinthians, advindo da “Taça de Prata, espécie de segunda divisão, chegou às semifinais do torneio no mesmo ano), a campanha pela ética e a moralidade no futebol brasileiro foi deflagrada em 1987, logo após o torneio de 1986, vencido pelo São Paulo, em março do ano seguinte – o atropelo deveu-se a confusões administrativas e a continuação da fase final deu-se após o carnaval. Os times de maior apelo popular reuniram-se e resolveram bancar um campeonato por conta própria, a chamada (corretamente) de Copa União. Importante dizer que tudo isso começou porque a CBF resolveu reduzir o número de clubes de oitenta para vinte e oito e, com isso, Botafogo (co-campeão em 1968) e Coritiba (campeão em 1985) corriam risco de serem alijados da competição. Ambos os clubes interpelaram a CBF judicialmente e, com isso, surgiu o Clube dos 13 (Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco). O América, terceiro colocado da competição de 1986, foi alijado da competição por decreto, recusou-se a jogar qualquer torneio que não fosse o de elite (com absoluta razão, já que a chamada Copa NÃO foi elaborada com base em critérios técnicos) e, daí, iniciou longa jornada de dificuldades até hoje. O mesmo aconteceu com o Guarani, campeão em 1978 e vice-campeão do torneio de 1986 – porém, os de Campinas concordaram em disputar o que se convencionou chamar de Módulo Amarelo.

Dado o impasse, pois certamente o formato da Copa União contrariava os interesses dos clubes que, em tese, conquistaram suas vagas nos critérios supostamente técnicos (classificação no ano anterior), a CBF interveio com a decisão de cruzar o chamado Módulo Verde (Clube dos 13 mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz) com o Módulo Amarelo, composto pelos demais times alijados da disputa pela chamada elite. Esta intervenção deu-se meses antes da fase final da Copa União – que, embora com um discurso renovador, permitiu situações curiosas como a de um time que não tivesse ganho nenhum dos turnos de classificação chegasse às semifinais, que foi exatamente o caso do Flamengo (o Atlético Mineiro foi o primeiro colocado nos dois turnos de classificação, e o time da Gávea entrou como o melhor segundo). Recorde-se que, dez anos depois, uma final de Taça Guanabara previu uma partida final entre o primeiro e o segundo colocados e muitos gargalharam, atribuindo um ar grotesco ao método de disputa. Certamente, se eram rubro-negros, deviam ser para lá de esquecidos.

Particularmente, não tenho dúvidas de que, naquele ano e com aquela fórmula de disputa, o Flamengo seria o grande favorito ao título nacional e a uma das vagas da Libertadores em 1988 – ainda que de forma estranha, alijou o Atlético da conquista da Copa União e bateu um limitado Inter na final do Módulo (este sim, o time gaúcho, tinha todo interesse em “melar” o cruzamento de módulos, pois temia o confronto contra Sport e Guarani, devido ao péssimo momento em que se encontrava tecnicamente). Sport e Guarani nem chegaram a decidir quem seria o campeão do Módulo Amarelo, tamanha era a importância maior de se ir para o quadrangular final – embora isso não diminua a aberração da decisão em aberto após um incontável empate nos pênaltis.

O que atrapalhou os da Gávea foi o gigantismo e a prepotência. O mesmo que se revela de forma agressiva na mídia ainda hoje, que vende a idéia de um time somente no Brasil, o que sabemos há muito ser uma balela. O mesmo que faz uma auto-exaltação diária, como se futebol pudesse ser jogado sem adversários e sem outras torcidas, outras diferenças. Recusaram-se a disputar o quadrangular final e deixaram que a competição começasse, não comparecendo aos jogos e perdendo por W.O. Tinham a certeza de que seriam nomeados por decreto para a disputa da Taça Libertadores. Mas não foi o que aconteceu. E perderam a vaga para a competição sul-americana mais fácil de sua história.

De lá para cá, passaram vinte anos, desordens e muita confusão no futebol brasileiro. O Flamengo viria ainda a conquistar duas Copas do Brasil, em 1990 e 2006, competições nos mesmos moldes que seus antecessores nos anos sessenta o fizeram – e que a chamada massa rubro-negra insiste ingenuamente em não reconhecer, como se o Santos de Pelé, bicampeão mundial em 1962-1963, por exemplo, tivesse chegado à Libertadores por acaso ou convite – e não há um brasileiro vivo ou morto que conheça futebol e não saiba do Santos de Pelé. E ganhou um torneio brasileiro também, em 1992 – cujo sucessor inauguraria uma nova era de ascensões, promovendo doze times à chamada divisão principal.

Anos depois, por motivos até parecidos, em 2000, foi instituída a Copa João Havelange, vencida pelo Vasco, na final contra o São Caetano. Os times vieram de módulos diferentes e, teoricamente, o Vasco poderia sentir-se prejudicado por chegar à final contra um time que enfrentou adversários de nível técnico menos apurado. Mas nem mesmo Eurico Miranda cogitou de não realizar os jogos de cruzamento, ainda que a partida final em São Januário tenha sido suspensa. E o que dizer do Cruzeiro, que terminou o Módulo Azul daquele ano com 45 pontos, seis à frente do Vasco? Imaginem se os oito times que classificaram-se na divisão de elite recusassem-se a disputar a fase final com os demais das outras chaves? Teríamos perdido a oportunidade histórica de ver um time como o do São Caetano, que eliminou em casa Fluminense, Palmeiras e Grêmio, até chegar à grande final.

Patético ainda imaginar que o Flamengo possa “apresentar” protestos por um título que não requereu durante quinze anos. E sabedor que a Conmebol e a FIFA não lhe dariam amparo em tal reivindicação.

O São Paulo, se olharmos bem a história, nem é o primeiro pentacampeão brasileiro. Basta olhar o passado. Mas pode comemorar que ganhou cinco títulos no campo, no que merece absolutos parabéns.

Para finalizar, lamento que Zico, jogador de grande categoria, mas içado ao pantheon de maior de todos os tempos por critérios mais do que discutíveis, tenha expressado o sentimento de que a comemoração são-paulina pelos cinco títulos possa ter sido uma “palhaçada”. Vi Zico jogar, e testemunhei muitas vezes sua categoria em campo, embora tenha presenciado falhas também. O sentimento de comemoração de uma torcida por um título é sempre nobre. E, queira ele ou não, o São Paulo venceu os cinco títulos no campo, sem tapetões ou tentativas frustradas de demonstração de força. E que o Flamengo comemore os quatro títulos, mais as duas Copas do Brasil, porque a competição de 1987, mesmo que para alguns de forma imerecida, foi do Sport - e ele foi reconhecidamente o representante nacional do Brasil em competições, junto com o Guarani.

Zico ressaltou que “quem ganha títulos é o time em campo, e não os dirigentes”. Teria toda razão, não tivesse omitido sua opinião num lamentável episódio da Taça Libertadores da América em 1981, quando o árbitro José Roberto Wright encerrou o jogo decisivo contra o Atlético-MG, após ter expulsado mais da metade do time alvinegro com meia hora de partida. Queira ou não Zico, a trajetória de gala de seu time tem remendos rasteiros, da mesma maneira que todos os chamados grandes times brasileiros. E trata-se apenas de um exemplo.


Paulo-Roberto Andel, 07/11/2007

Monday, February 21, 2011

CANÇÃO DA FRUTA ESCARLATE
















fruta escarlate,
madura mas tão juvenil,
tão pronta de sorver
aos

p o u c o s,

calma e consistente,
na lascívia da gula
vespertina;
ponha teu gosto
em minha boca,
roçando ao leve,
como se fosse a prévia
de um beijo quente

ponha teu suco
na minha saliva,
tão sôfrega por tua carne,
namorada da tua doçura
incipiente

fruta escarlate,
intensa e chamativa,
invoque teu pecado
sobre a mesa, numa louça,
num despreocupar aviltante:
não há nesga de recato –
apenas formosura,
delícia e ardor

penso em morder-te aos poucos,
sem pausa larga;
comer-te viva, desejada -
e cada um a seu suor

sugar-te desnuda, liberta,
lânguida em teu seio;
fisgar tua pele branda,
até que me suje
os novos pêlos do queixo,
em prol da causa válida
no voraz sabor.


(reprise)

Para Sterling Morrison, Maureen Tucker, John Cale e Lou Reed: The Velvet Undergroud.

Paulo-Roberto Andel, 30/01/2008

Friday, February 18, 2011

A SOCIEDADE DA FARSA


















Pela manhãzinha, lembrei de certa passagem do maravilhoso livro de Ruy Castro, “Ela é carioca”, quando Cacá Diegues (este sim, cineasta de verdade) polemizou com os críticos de seu filme “Orfeu”, acusando-os de nunca terem visto “Aurora”, de Friedrich Murnau, clássico cinematográfico do ano de 1927. Muitos dos críticos, claro, ao se depararem com a trajetória oceânica de suas ignorâncias, simplesmente calaram: como enfrentariam Cacá? Para mim, este pequeno episódio é um marco exemplar de como funciona em muitos casos a ânsia debatedora do brasileiro mediano: baseado no “já ouviu falar” ou “eu li no Globo” ou ainda “o Jabor me disse”. De certa forma este comportamento é compreensível porque ainda temos muito a cumprir em educação e cultura (lembrando que a escolarização é um paralelo). Eu perdoo o jovem menino magriço, desnutrido, que padece nos bolsões de miséria que ainda perduram no país, mesmo com a verdadeira revolução neste sentido que se tentou de 2002 para cá. Toda forma, ainda falta muito. Eu perdoo os desassistidos que não tiveram a chance de ler bons livros, aprender a ciência social, que não acessaram as artes porque simplesmente viveram num caos econômico que os alijava destas oportunidades. O que acho imperdoável vem daqueles que tiveram acesso aos meios educacionais, escolares e sócio-culturais e, mesmo depois de ganharam dinheiro e até algum status em suas vidas profissionais, continuam tão ignorantes quanto nos tempos idos. É dessa classe que surgem incensados novos “grandes gênios” da vida cotidiana brasileira – a maioria sem genialidade alguma que não tenha sido obtida sem penhor. Falo dos Mainardis, Jabores e Olavosdecarvalhos, apenas para citar alguns exemplos de fracasso intelectual que é vendido feito “oro”. Sujeitos como estes ganham visibilidade não pela profundidade de suas produções – a de Mainardi, propriamente, é nula – mas porque a classe ignara intelectualmente e bem-disposta financeiramente os elege como “heróis”, para assim poderem abrir mão da discussão, da troca de experiências intelectuais, da visão em trezentos e sessenta graus da sociedade, do entendimento do outro. Fica mais cômodo e fácil repetir abobrinhas como “o Mainardi disse”, “o Jabor falou”. Beira o ridículo, tão ridículo quando, em certa oportunidade, um sujeito que estudou comigo, advindo de classe economicamente carente, mas hoje vivendo com um excelente salário estatal (e poucas horas de empenho profissional), vir me dizer que só o capitalismo constrói e o resto que se dane; ora, todo o direito de crer nisso, mas fazer discurso com o dinheiro do contribuinte no bolso? Faça-me o favor, é não olhar para o próprio espelho e passado, é não se enxergar como monstro. Mesmo um leitor de Fitzgerald ou Hemingway pode ser um idiota se não olhar para o lado, o outro, o próximo. Acabo me perguntando se tenho chance ainda de conviver suma sociedade dominada por verdadeiros picaretas da intelectualidade, que tentam prevalecer com suas falácias mofadas porque a maioria da população ainda está escravizada pelos pagodinhos, pelos jornais sem texto de cinqüenta centavos, pela mentiras editadas do casal global, pelo fascismo esportivo de Prado, pelos escombros mentais de Kamel. É isso: não tenho como tolerar qualquer sujeito que, ao se formar quase gratuitamente (não me venham com conversinha de grandes impostos pra a universidade pública) e ganhar muito dinheiro a posteriori às custas do Estado que o formou, ser porta-voz de raciocínios que já eram considerados excludentes há cinqüenta anos. Não se trata de desrespeito intelectual, mas sim revolta contra um aviltante mau-caratismo. O país está cheio de geniozinhos auto-declarados, confiantes nos argumentos fascistas das pseudo-revistas, assim como de críticos de Orfeu que nunca viram a Aurora de Murnau. Li que alguns mais sóbrios começaram a perceber que os Estados Unidos, com sua “sede” de democracia e liberdade no mundo (vide milhões de mortos no Iraq), sempre apoiaram a ditadura de Mubarak por trinta anos, sem nunca terem movido uma palha sequer contra o eterno país aliado. Por outro lado, os bobos-alegres hão de vibrar com o “apoio norte-americano à libertação do povo egípcio”. Ha, ha, ha! Felizmente ainda sou um democrata: li num sítio qualquer que Olavo de Carvalho considera “Aurora” um dos grandes filmes de todos os tempos. Isso talvez queira dizer que nem tudo está perdido ainda. Mas somente ainda.


Paulo-Roberto Andel, 18/02/2011

Wednesday, February 16, 2011

AMOR SOB ESCOMBROS
















A belíssima (e triste idem) foto de André Durão, do Globo Esporte, me soa como uma poesia seca, rascante, tirada a fórceps de um ventre doente.

Durante trinta e dois anos eu frequentei esse lugar como se fosse a minha própria casa. Sonhei com ele. Coisas que vi acima destas pedras estão intactas em minha memória.

Quantas vezes não cheguei bem mais cedo do que o necessário, apenas para espiar o gigante de concreto que é (ou foi) uma verdadeira bandeira da pátria brasileira? Muitas e muitas. Mil partidas.

Foi no Maracanã que andei de mão dada com meu pai pela última vez.

Bola dente-de-leite e os amigos do Cìcero Penna para bater uma pelada na geral. As traves eram feitas com caixinhas de leite CCPL.

Geraldo fez um golaço em Mazzaropi, a massa botafoguense ajoelhou e chorou. Eu estava com eles.

O gol de bicicleta de Romário. O pênalti que Paulo Goulart defendeu de Zico, muito antes de 1986. O maior três a dois de todos os tempos. Os risos do Xuru. O maravilhoso pó-de-arroz jogado pelo Careca. Cachorro-quente Geneal e refrigerante na máquina que os vendedores traziam nas costas. O bandeirão Tricolor que minha mãe costurou para mim. a massa flamenga em êxtase, muitas vezes antes de uma grande derrota. A força vascaína. A minha pátria amada das Laranjeiras. Alvaro Doria em claros delitos. Mil histórias.
Será que, em nome da modernidade e do futuro, era preciso fazer isso com o Coliseu do futebol?

A copa do mundo dura um mês. O Maracanã tinha sessenta anos.

Fluminense, Botafogo e Gávea têm mais de cem.

Foi uma morte lenta. Várias obras que nunca levaram em conta o verdadeiro espírito do lugar. Aos poucos, tiraram os pobres de dentro do estádio, ao menos como pagantes ou puladores de grades. Agora reclamam que as pessoas não têm ido ao Engenhão; como esperar um banimento de hábito e uma mudança a seguir tão rápidos? Agora, mais agora, uma demolição disfarçada. Não entendem que o Maracanã era o templo sagrado, intocável. Há palácios mais modernos do que o Taj Mahal, mas quem seria louco de pô-lo abaixo por isso?

Cristóvão deu um grande drible e Manguito desabou. Mendonça nos trucidou. Assis e Romerito foram a redenção. Roberto e suas precisas finalizações. Leandro e seu toque de bola inconfundível. Edinho, o craque da defesa. Luizinho, rei dos gols. Paulo Victor, discípulo de Castilho. Não é preciso falar de Didi, Garrincha, Pelé - todos sabem o que isso quer dizer.

Neste lugar, vivi grandes dias dos melhores anos de minha vida.

Colocaram minha infância e adolescência em destroços.

Ingenuamente, espero que não tenha sido em vão.


Paulo-Roberto Andel, 16/02/2011


Tuesday, February 15, 2011

A PAREDE PRETA


Paulo-Roberto Andel, 15/02/2011

Monday, February 14, 2011

UM FENÔMENO



















Acompanho futebol regularmente desde 1978, o que totaliza praticamente trinta e três anos, dependendo do mês de referência. Nos últimos dezessete ou dezoito, invariavelmente alguma conversa sobre o esporte fazia surgir o nome do então Ronaldinho, depois Fenômeno e, mais à frente, Ronaldo; para finalizar, o acréscimo do sobrenome: Nazário.

Diga-se o que disser, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos.

O maior artilheiro da história das Copas.

O jogador que, com seu talento, fez rever a imposição de um estilo europeizado ao nosso futebol. Em alguns momentos, fez com que lembrássemos de outros craques do passado e de como era bom quando nosso futebol era diferente dos outros: talento, técnica, apuro.

Um sujeito que desafiou definições e paradigmas, conseguindo dar a volta por cima depois de situações que beiravam o impossível. Quem podia imaginar que, depois da rótula solta atuando pela Internazionale de Milano, ele ainda faria a diferença, seria artilheiro de um campeonato mundial e pentacampeão?

No limiar da carreira, a vontade de jogar pelo Flamengo não se materializou. Culpa da dirigência da Gávea, que fique bem claro. O Corinthians era uma despedida à altura e ainda houve lampejos de genialidade absoluta, alguns contra o meu amado Fluminense, outros como naquele golaço contra o Santos pelo campeonato paulista, encobrindo Fábio Costa.

Todos temos vivido ao vivo a trajetória de Ronaldo, com seus inúmeros acertos e alguns erros, muitos prós e alguns contra. Uma vida humana, de um garoto que saiu da miséria para dominar o mundo com sua profissão. É certo que queríamos dele uma perfeição impossível em nosso imaginário popular. Há como imaginar um garoto de 25 ou 28 anos multimilionário e com todos os títulos possíveis no esporte que pratica? Ninguém fica impune a isso, o que ajuda de certa forma a busca pelos prazeres da noite, alguns incompatíveis com a vida atlética. Mas aqui não sou um juiz.

Muitas vezes Ronaldo fez rir e chorar. Sofremos com aquela derrota de 1998, mas vibramos muito com 2002. Os europeus o chamaram de fenômeno, com razão. E as poucas – mas fantásticas – vezes que Ronaldo tabelou com Romário? Outras mais, com Rivaldo (mesmo que talvez contra a vontade) e o Ronaldinho, que lhe tirou o diminutivo? Os deuses da arte e do futebol agradecem.

Aos trinta e quatro anos, é bastante provável que, dentro de uma hora, Ronaldo dê adeus ao esporte mais amado e consumido em todo o planeta. Não sejamos tolos de olhar um único ponto numa reta enorme: a história desse garoto dá filme e livro. E digo garoto porque eu gostaria de ter trinta e quatro anos e olhar tudo o que ainda teria pela frente. Maravilhoso, provocante e apaixonante, o futebol também é ardiloso: ainda em idade curta, os profissionais precisam parar de jogar; é a lei do processo físico. Ele deixará os gramados onde fez uma história inesquecível para sempre, mas ainda é um garoto com tudo o que terá para fazer daqui por diante. Eu fico agradecido com todos os ótimos momentos que ele proporcionou a mim e a milhões de brasileiros que, muitas vezes, tiveram num golaço dele as suas únicas alegrias de um dia ou semana.

Obrigado por tudo, Fenômeno.


Paulo-Roberto Andel, 14/02/2011


PS: Este artigo de hoje serve de homenagem não somente ao Ronaldo, mas também ao Wal - que há se recuperar no hospital – e ao time do América, que há se recuperar de tudo.

Monday, February 07, 2011

(DES)(RE)CONSTRUÇÃO E LASCÍVIA














II


Eu não queria ir fundo até o Leme
para recordar o que já não volta -
é que agora sou outra bossa, outro
samba de piano malandrinho
e o que parece tão seguro em mim
choca ligeiro feito mar às pedras:
tudo saudade sem fé.

III

eu e o cedo
cedo
cedo
nem t ã o
breve
que me desvele
eu e o tema
amor de pranto
que não fere:
apenas unguenta.

IV

eis que meço uma assimetria
enquanto alguém remexe
num lixo.
um louva-a-deus?
um deus-dará?
para florescer o céu celeste
da tristeza,
tanto faz.

V

quero mostrar felicidade
enquanto me divirto
ouvindo Nick Cave.
definitivamente
não careço de oposição.

VI

aquela mulher
que me leva às nuvens
e sequer desconfia.
quase sempre surge nua,
lúcida e saborosa
em meu sonho-poema:
um delírio psicodélico
sem sustento
por mais de hora e meia
e gozo lancinante.
aquela mulher
que me oferece desinteresse
não cogita que,
ao pouco longe,
ambiciono sua carne livre
e perfumada,
sua secreção de prazer
líquido e abundante -
eu cogito seu mar de tesão
que não me traz à tona
e, por isso mesmo,
basta ejacular o só!

paulorobertoandel07022011

Thursday, February 03, 2011

FUTEBOL EM TRÊS ACTOS


I

O futebol não existe sem o outro, por mais que seja um jogo e, dentro dele, haja um oponente. Não existe Flamengo sem Vasco, Fluminense sem Bangu, Botafogo sem Olaria, uns sem os outros. O que move o futebol como tradição secular mundial é exatamente isso: os outros.

Vejam o jogo de ontem: não tinha nada para lotar um Engenhão, exceto a estréia de um dos últimos representantes daquele futebol que, segundo Álvaro Doria, era “outro esporte” se comparado com o hoje, menos técnico e muito mais dependente da questão física. E justamente na exceção é que se justifica o estádio apinhado, com gente saindo pelo ladrão (sem nenhum trocadilho). E então estreou Ronaldinho no Flamengo, e então a cidade parou: uma multidão a favor, outra contra e todos querendo ver o velho e grande futebol de antigamente na figura do rapaz dentuço, multimilionário e amante das coisas boas da noite.

Não foi uma partida de brilho intenso, embora com momentos muito interessantes. Descontemos as hipérboles intergalácticas que cercam a Gávea a todo instante. Quero falar de um dos momentos mais bonitos que vi no futebol dos últimos tempos: terminada a partida com a vitória rubro-negra, o extenuado Ronaldinho fez questão de cumprimentar os milhares de torcedores que pagaram (caro) para vê-lo. Via-se no jogador uma profunda emoção, misturada a agradecimento, que ficou evidente quando ele passou a saudar à massa presente curvando o corpo para, a seguir, com a voz quase embargada, falar com a imprensa ainda no gramado.

Ronaldinho ganhou tudo. Aos trinta anos ou perto deles, já ganhou o mundo com suas jogadas fantásticas, grandes gols e grandes títulos. Foi o melhor de sua geração, ainda que tivesse rivais à altura que jamais confirmaram o muito que deles se esperava, exceto por lampejos: Felipe, Roger e, num plano acima - mas com poucos degraus a mais - Alex. Muitos afirmam que sua opção em jogar no Rio foi por conta da imensa vida noturna da cidade. Será que só isso o faria deixar a belíssima Milano? Não creio.

Muitas vezes, meu texto exige piadas contra a Gávea, bem-absorvidas pelos meus amigos que a ela dedicam amor; noutras, nem sempre. Hoje, é diferente. Ronaldinho teve uma atuação modesta, mas o fim do jogo reservou uma emoção incrível não somente para ele ou os presentes às arquibancadas, mas para todo mundo que teve a oportunidade de assistir via televisão ou internet. A maneira como se dirigiu aos torcedores mostrou humildade, respeito, dignidade e, por um instante, isso transcendeu às paixões clubísticas. Muitas vezes, em vídeos, quem vi fazer coisa assim foi Pelé, não por acaso o maior de todos os tempos. Não era preciso ser um flamengo para aplaudir e se emocionar com o final do jogo de ontem, mas sim digno e confiante na esperança que ainda pode resgatar o ser humano, muitas vezes somente vista numa partida de futebol.

O meu amado Fluminense volta a campo hoje, luta pela Guanabara e torcerei com todas as forças pelo almejado título estadual. O Fluminense me basta, o Fluminense é minha cobiça incessante. Independentemente do que aconteça, um dos grandes momentos deste campeonato e deste ano foi visto ontem no Engenhão, num lindo gol de Ronaldinho que não balançou redes, mas corações.


II

Ricardo Gomes é o novo técnico do Vasco.

Quem era criança ou adolescente Tricolor como eu, no começo dos anos oitenta, não tem como não reverenciar Ricardo. Era o paradigma do zagueiro: clássico, elegante, firme sem ser violento, impecável no senso de colocação, com enorme disponibilidade técnica, bom cabeceador, excelente chutador. Perto dele, de trinta anos para cá, só Thiago Silva. Ricardo era o grande capitão dos Tricampeões daqueles tempos. Mais tarde, pela incontestável força do capital no futebol, ganhou o mundo: Portugal e França. Teria sido o grande capitão da vitória em 1994, não fosse uma contusão às vésperas da Copa – era o homem de confiança de Parreira.

Como treinador, jamais conseguiu resultados à altura de seus feitos em campo. Trabalhou aqui e ali, passou pelo meu amado Fluminense e foi até constestado – o que sempre me incomodou. Ele é botão do meu time, isso diz tudo. É claro que entendo o fato: muitas vezes, fora de campo, grandes craques não conseguem repetir êxito como treinadores – até nisso, Pelé foi sábio, pois nunca arriscou o pescoço à beira do gramado.

O Vasco é meu rival, não meu inimigo. Ele é o outro, é um dos outros; sem ele, o Fluminense não existe.

De um ano para cá, por causa de um torcedor imbecil da Colina (que, evidentemente, não reflete nada da gigantesca e apaixonada torcida cruzmaltina) que quase me fez perder a cabeça e fuzilá-lo, por conta de seu baixo nível contra meus amigos num trem de Metrô, cheguei até a deixar um pouco de lado minha simpatia pela Colina, casa de meu inesquecível amigo Xuru. Deixar somente um pouco, diga-se de passagem: o respeito ao time que inventou o negro e o pobre no futebol brasileiro não poderia parar por conta de um imbecil drogado e com ares de malandro calça-frouxa. Com Ricardo Gomes, a coisa muda de figura. São Januário está desfraldando uma verdadeira bandeira Tricolor no gramado, justamente num momento de pavorosa crise.

Meus olhos estão no Tricampeão, mas uma bela lembrança agora veste a camisa cruzmaltina. Título não, claro e com risos, mas tomara que Ricardo finalmente mostre à beira do campo ao menos parte do colossal talento que me ofereceu um dia, nos gramados e mesas de futebol de botão, quando era um dos maiores craques do futebol brasileiro de todos os tempos.

Oxalá.


III

Ver o Maracanã do lado de fora me angustia quando passo pela Radial Oeste.

A troco de quinze dias com partidas a quinhentos reais de ingresso, espatifaram tudo.

Para fazer o que estão fazendo, mesmo com a dor que me custaria, era melhor terem derrubado o templo sagrado do futebol mundial. Pior: o Maracanã nunca mais vai ser como antigamente: democrático, pluralista, com ingressos para todas as classes sociais e suas disponibilidades de renda.

Ronaldinho Gaúcho merecia um Maracanã lotado ontem, e isso não quer dizer qualquer depreciação ao Engenhão. Apenas questão de tamanho, tradição e festa.

Tenho medo de como o Maracanã será depois da Copa.

Paulo-Roberto Andel, 03/02/2011

Friday, January 28, 2011

IRONWEED
















A esquina da rua do Senado com Mem de Sá continua com o mesmo abandono de anos à trás, ou talvez décadas. Quando havia Maracanã e, posteriormente, UERJ, todo dia era dia de passar por ali, muitas vezes num romântico 434 ou seu primo menos requintado, o 464. Mais tarde, quando meu pai era vivo e já não tinha plena motilidade, coisa do fim do século, uma cena não saiu mais de minha vista: certa moradora de rua ficava sobre seu colchão de casal, com molas, em frente às portas do finado supermercado Nova Olinda, ali vitimado por um incêndio e, noutros lugares, por alguma crise econômica ou interesse similar. Ela parecia sorridente por vários dias, embora não andasse mais e precisasse se arrastar para os movimentos corporais mais simples. Diante do sofrimento daquela mulher, em contradição ao seu sorriso, padeci muitas vezes em poucas dezenas de horas: lembrava de meu pai, era triste com sua aposentadoria compulsória, mas tinha certo alívio em saber que ele poderia contar comigo, como aconteceu pelos oitos anos a seguir. Uma dia, ela sumiu - e o colchão também. Ver a dor e a miséria do mundo me traz um doloroso sentimento de impotência; não aceitar nem compactuar com nada daquilo, mas nada poder fazer de verdade para atenuar ou melhorar a situação. Ter exata consciência do quanto somos pequenos e passageiros diante do mundo, utilizando o intervalo entre as horas de dor para beber, comemorar gols ou até mesmo sorrir. Somos pequenos e isso é um fato, mesmo que muitos insistam em não ver o óbvio. Tão contundente em ver o sofrimento dos comuns pelo mundo talvez seja, com mínima importância, rever um grande ex-amor ao vivo e atestar que o ex é realmente ex e nada mais, com total desprovimento de tudo o que um dia significou. O nada é assustador. A dor dos outros só não é assustadora para os medíocres, os individualistas, os que mergulharam na decadência do próprio umbigo sujo enquanto pensam na próxima vitrine. Alguma coisa daquela esquina me apavorou por hoje de manhã: saber que nunca mais a mendiga se recuperou, saber que meu pai é uma lembrança, tal como o velho letreiro do Nova Olinda que parece querer beijar o chão imundo. Havia também um restaurante num sobrado, a peso, com bons salgados; o dono era um velhinho simpático, hoje a porta está lacrada. Tudo parece fim. Mais à frente, muitos trabalhadores são apenas corpos cansados numa fila para comprar biscoitos Globo, como reza a tradição do verão. Não sei dizer ao certo, mas alguma coisa me traz “Ironweed”, de Babenco, à cabeça. Talvez “Blue Velvet”, de David Lynch. Talvez o fato de rever a UERJ depois de tantos anos, talvez começar de novo. A esquina continua abandonada e, agora, agravada pelo vazio. Sigo meu caminho debaixo do violento sol que nos atordoa. Faltam poucos passos para entrar em minha sala de trabalho, começar mais um dia de atendimentos, deixar as dores de lado e me vestir como um robô, alheio ao mundo que não seja estritamente profissional, científico. Ouvir The Vails lembra realmente algo de Tom Waits com Thom Yorke, também tem algo de “Ironweed” e isso me leva aos vinte anos longe daqui, aos afagos da Ana, a sessões de cinema gratuitas tendo o imortal Maracanã ao fundo. Uma esquisita e ilógica sensação de que algo bom virá, temperado pelo que já foi longe. O aniversário da Patrícia reforça as lembranças do muito ontem. Janeiro se despede em quase silêncio. Os tempos voam rasantes. Antes da esquina abandonada, noutra rua vi um senhor que tinha certo jeito de meu pai ao sentar à cadeira. Não tinham a menor semelhança física, apenas a postura era a referência. Por um detalhe, parei e quase chorei. É preciso caminhar em frente, mesmo que o nunca mais seja a maior das realidades e a vida pós-vida não me pareça nada além de uma promessa. “Ironweed” é a vida real, ou melhor como ela deveria não ser.


Paulo-Roberto Andel, 28/01/2011

Wednesday, January 26, 2011

Monday, January 24, 2011

RESUMO DA ÓPERA II

RESUMO DA ÓPERA I

Friday, January 14, 2011

O OUTRO LADO DO RIO
















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Foto: Ricardo Valença Ferreira, Parque da Cidade de Niterói, 1997. Câmera descartável.

Friday, January 07, 2011

PARA ALEX E SHARON














queria saber
e dizer
onde vocês moram
agora
afora a sentença
que me atormenta
à cabeça
por ora
o mundo escorre
do lado de fora
são grãos e vãos
num renascendo
enquanto a promessa
não aflora
e algum sentimento
me apavora
mas também conforta
porque o dado rola
e ele sempre oferece
uma chance
de tentar saber
onde vocês se meteram
nessa hora
e uma lágrima que
não demora
é também
alegria amiga
que não se apaga
e revigora


Paulo-Roberto Andel, 07/01/2011

Thursday, January 06, 2011

LÁ FORA
















Lá fora, o sol fosco se avizinha ao gris do céu enquanto os janeiros de longe e perto me provocam sensações diferentes, mas também associáveis: a dor, a perda, a morte, a esperança e uma inexplicável tranqüilidade. Talvez a tempestade pareça uma estrangeira frente às multidões que povoam o verão. Pode ser que seja breve ou não, intensa ou não. Lá fora, os mortos adentram gavetas, jazigos e covas, enquanto felizmente as crianças nascem e soltam suas delicadas lagrimas calouras. Lá fora, as pessoas passam apressadas dentro do ir e vir que não explica bem o sentido da vida. E também lá fora somos dinheiro, lascívia, compulsão, carência, fraqueza, tormenta, egoísmo, solidão, fama, ingenuidade, angústia e tantos outros subjetivos e adjetivos que mostram, ao mesmo tempo, a complexidade do ser humano e a impossibilidade de um único rótulo, uma classificação. As grandes cidades, o subúrbio, a periferia, as comunidades carentes, o sertão indigente, a terra perdida – tudo temperado a misturado com pequenos sentimentos de alegria e prazer efêmeros, não menos efêmeros do que aquela mesma esperança, aquele mesmo jeito de pensar nos outros por um momento e não se sentir apenas um indivíduo. Lá fora é um janeiro, não tão janeiro quanto outros mais. Eu não sei mais onde meus pais dormem, sequer se dormem ou apenas pulam e dançam incessantemente dentro da minha cabeça. Eu não sei mais onde o Buja dorme, onde o Xuru dorme; João Carlos, Cláudio e Luiz Magno também. Há uma nova ordem, um novo governo e tudo o que é novo necessariamente traz um pequeno temor, mesmo que a confiança seja total: meu tio Mendel, que também não sei mais onde dorme, de algum jeito chegou ao poder que tanto mereceu. Lá fora, os brasileiros rezam, urram, choram e se apertam dentro da ingratidão dos transportes populares. Lá fora, um carnaval se espalha em chamas de samba e, num abrir e cerrar de cortinas, as pessoas vão esquecer de suas dores e mazelas para se deliciarem com o samba retumbante no peito, feito os que meu amigo Nelson escreve e canta, escreve mas não mostra. Lá fora, um campeonato de futebol se aproxima e isso é bom: saudável cachaça, paixão inebriante que ajuda a passar horas quase confortáveis enquanto a vida mostra seu desfile non sense. Quero reler o monodrama do grande poeta até encontrar H. Quero rever John Coltrane solando como se pudesse ser Deus. O barulho do circulador de ar me conforta, enquanto o som de antigamente ecoa na sala como se fosse de agora: a Califórnia do Oingo Boingo. Mais tarde, quero rever meus velhos amigos que nunca vejo como gostaria, porque os desejos são sempre escassos: compromissos, compromissos e compromissos que, somados, mal dão chance ao binômio inspiração-expiração. Lá fora, antes de bebericar o chope do fim da tarde, hei de passar pelos congestionamentos de carros, ônibus e gentes como nunca se imaginou um dia, agora tão comuns que chegam a ser vulgares. O telefone mudo me agrada, por ora. A caixa de correio vazia me apraz. Duas mulheres bonitas conversam num corredor, mas não me atenho a detalhes. Lá fora, feito aqui, existe vida, do jeito que tem que ser, com dissabores e palitadas de alegria. Os humanos são feitos para o erro; nós, feito bobos, um dia ensaiamos o que deveria ser perfeição que, quando perfeita é, vira perversão. Mais tarde, um show de realidades será a grande ficção que a tevê nos oferece a olhos e anseios nus. Mais tarde, notícias sobre um mesmo fato serão contadas de maneiras diferentes, conforme o gosto de cada freguês. E lá fora? Mendigos farão das marquises seus solares, casais hão de namorar aos pés da areia, famílias vão chorar nos necrotérios dos hospitais; enquanto isso, estaremos incansavelmente dedicados ao amanhã, ao depois, ao daqui a pouco, sob impecável obsessão, às vezes nos esquecendo que deveríamos ser mais solidários, mais humanos e poderíamos deixar um pouco de lado essa coisa de futuro que, num certo lance, faz a vida virar um cheque pré-datado. Lá fora é aqui dentro ou o avesso, tanto faz.


Paulo-Roberto Andel, 06/01/2011