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Thursday, May 06, 2010

DOIS TEXTOS, DUAS VISÕES


Gostaria de compartilhar com os amigos dois artigos escritos por duas cabeças coroadas do mundo contemporâneo: Boaventura Sousa Santos e Emir Sader. O primeiro fala do fascismo dos dias atuais, diluido em variadas manifestações na sociedade; o segundo, das verdades do PSDB que, estranhamente, a mídia encobre e faz questão de "esquecer".

O potencial de destruição do fascismo financeiro

Um exemplo para entender esta nova forma de socialbilidade fascista é a resposta do corretor da bolsa de valores quando lhe perguntaram o que era para ele o longo prazo: “longo prazo para mim são os próximos dez minutos”. Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país.


Boaventura Sousa Santos

Há doze anos publiquei, a convite do Dr. Mário Soares, um pequeno texto (Reinventar a Democracia) que, pela sua extrema atualidade, não resisto à tentação de evocar aqui. Nele considero eu que um dos sinais da crise da democracia é a emergência do fascismo social. Não se trata do regresso ao fascismo do século passado. Não se trata de um regime político mas antes de um regime social. Em vez de sacrificar a democracia às exigências do capitalismo, promove uma versão empobrecida de democracia que torna desnecessário e mesmo inconveniente o sacrifício. Trata-se, pois, de um fascismo pluralista e, por isso, de uma forma de fascismo que nunca existiu.

Identificava então cinco formas de sociabilidade fascista, uma das quais era o fascismo financeiro. E sobre este dizia o seguinte:

O fascismo financeiro é talvez o mais virulento. Comanda os mercados financeiros de valores e de moedas, a especulação financeira global, um conjunto hoje designado por economia de casino. Esta forma de fascismo social é a mais pluralista na medida em que os movimentos financeiros são o produto de decisões de investidores individuais ou institucionais espalhados por todo o mundo e, aliás, sem nada em comum senão o desejo de rentabilizar os seus valores. Por ser o fascismo mais pluralista é também o mais agressivo porque o seu espaço-tempo é o mais refratário a qualquer intervenção democrática.

Significativa, a este respeito, é a resposta do corretor da bolsa de valores quando lhe perguntaram o que era para ele o longo prazo: “longo prazo para mim são os próximos dez minutos”. Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país.

A virulência do fascismo financeiro reside em que ele, sendo de todos o mais internacional, está a servir de modelo a instituições de regulação global crescentemente importantes apesar de pouco conhecidas do público. Entre elas, as empresas de rating, as empresas internacionalmente acreditadas para avaliar a situação financeira dos Estados e os consequentes riscos e oportunidades que eles oferecem aos investidores internacionais. As notas atribuídas – que vão de AAA a D – são determinantes para as condições em que um país ou uma empresa de um país pode aceder ao crédito internacional. Quanto mais alta a nota, melhores as condições. Estas empresas têm um poder extraordinário.

Segundo o colunista do New York Times, Thomas Friedman, «o mundo do pós-guerra fria tem duas superpotências, os EUA e a agência Moody’s». Moody’s é uma dessas agências de rating, ao lado da Standard and Poor’s e Fitch Investors Services. Friedman justifica a sua afirmação acrescentando que «se é verdade que os EUA podem aniquilar um inimigo utilizando o seu arsenal militar, a agência de qualificação financeira Moody’s tem poder para estrangular financeiramente um país, atribuindo-lhe uma má nota».

Num momento em que os devedores públicos e privados entram numa batalha mundial para atrair capitais, uma má nota pode significar o colapso financeiro do país. Os critérios adotados pelas empresas de rating são em grande medida arbitrários, reforçam as desigualdades no sistema mundial e dão origem a efeitos perversos: o simples rumor de uma próxima desqualificação pode provocar enorme convulsão no mercado de valores de um país. O poder discricionário destas empresas é tanto maior quanto lhes assiste a prerrogativa de atribuírem qualificações não solicitadas pelos países ou devedores visados. A virulência do fascismo financeiro reside no seu potencial de destruição, na sua capacidade para lançar no abismo da exclusão países pobres inteiros.

Escrevia isto a pensar nos países do chamado Terceiro Mundo. Não podia imaginar que o fosse recuperar a pensar em países da União Européia


05/05/2010

Da série FHC-Serra: ser neoliberal é "nunca pedir perdão" (Veríssimo)

Emir Sader

As campanhas eleitorais estão cada vez mais desvinculadas dos governos que se fazem, caso eleitos. Uma se orienta pelas preferências do eleitor, pelas necessidades de captar seus votos. A outra, pelos interesses reais do bloco de forças em que se apóia o candidato.

Carlos Menem, na Argentina, e Carlos Andrés Perez, na Venezuela, prometiam grandes “choques produtivos” para recuperar as economias combalidas dos seus países. Nem bem triunfaram, anunciaram duríssimos pacotes de ajuste fiscal, revelando os verdadeiros interesses que se escondiam detrás das suas candidaturas. As demagogias dos dois os levaram ao fracasso e à prisão.

FHC anunciava que chegaria ao Brasil o Renascimento que, segundo ele, representava a globalização. Bastava controlar a inflação e estabilizar a moeda. Para isso bastava “apenas”, “virar a página do getulismo no Brasil”, substituir o desenvolvimento pelo ajuste fiscal, diminuir o tamanho do Estado, dando lugar ao mercado. Sabe-se no que deu. Nunca foi retomado o desenvolvimento econômico, o país quebrou duas vezes e duas vezes o FHC-Malan foram, de joelhos, pedir novos empréstimos ao FMI e assinaram as respectivas Cartas de Intenções, jogando o Brasil numa profunda e extensa recessão, de que só saiu no governo Lula.

Aumentaram as desigualdades e a pobreza no país, o patrimônio publico foi doado a grandes empresas privadas, o Estado foi sucateado – com especial ênfase na educação e na saúde –, o país virou uma combinação de Bolsa de Valores e shopping-center, com o governo FHC-Serra governando para uma minoria, da elite branca do centro-sul, somados aos caciques nordestinos.

Foram rejeitados, rechaçados, derrotados. FHC saiu com baixíssimo índice de apoio, Serra foi fragorosamente derrotado por Lula, quando tentava esconder seus vínculos com o governo FHC, sem sucesso, ao defender “um continuísmo sem continuidade” (sic).

Nunca se arrependeram de nada – como consignou Veríssimo -, como atitude típica de neoliberais. Nem poderiam, porque continuam a representar o mesmo bloco de forças que se beneficiaram brutalmente das privatizações e de tantas outras benesses que FHC-Serra lhes brindaram e que financiam agora, de novo, a candidatura do-ex presidente da UNE, ex-prefeito de São Paulo, ex-governador de São Paulo – todos cargos abandonados por ele, por covardia no primeiro caso, por ambição de disputar outros cargos, nos outros.

Ou FHC-Serra se arrependeram de tentar privatizar a Petrobrás, mudando o nome da empresa, para um nome “global”? Ou se arrependeram de ter jogado a maioria dos trabalhadores brasileiros na precariedade, expropriando-lhes as carteiras de trabalho, com FHC declarando que o país tinham milhões de “inimpregáveis”? De terem promovido um brutal processo de privatizações – rejeitado maciçamente pela opinião publica, como as pesquisas de opinião atestam – e de abertura acelerada e irresponsável da economia, levando à intensificação da desnacionalização da economia e da quebra de grande quantidade de empresas, com a correspondente perda de empregos?

Se arrependeram de ter tentado levar o Brasil a promover uma Área de Livre Comércio das Américas, que teria levado o Brasil e todo o continente à penosa e falimentar situação do México hoje, com FHC votando a favor da proposta norteamericana na reunião realizada em 2001 no Canadá? Se arrependeram de ter elevado a taxa de juros a 45% em janeiro de 1999, numa tentativa desesperada de segurar capitais em fuga, elevando ao mesmo tempo a esse nível as taxas de pagamento das próprias dividas do Estado brasileiro, que multiplicaram essas dívidas por 11 no final do governo FHC-Serra, depois de FHC ter dito que “O Estado brasileiro gasta muito e gasta mal”?

Se arrependeram de ter posto em prática uma política totalmente subserviente aos EUA e ter levado a uma eventual liquidação do Mercosul (este que Serra chama agora de “farsa”)? Se arrependeram FHC-Serra de terem reprimido e criminalizado os movimentos sociais, em especial o MST? Se arrependeram de FHC ter chamado os brasileiros de “preguiçosos”? Se arrependeram de ter mudado a Constituição, com votos comprados, em pleno mandato de FHC, para ter um segundo mandato?

Se arrependeram de ter apoiado o golpe militar de Fujimori no Peru? Se arrependeram de ter destinado, fraudulentamente, recursos do governo para salvar os bancos Marka e Fonte Cindam, pelo qual funcionários do Banco Central do governo foram condenados? Se arrependeram de ter jogado o Brasil numa profunda e prolongada recessão, de ter desnacionalizado a economia, de ter promovido a hegemonia do capital financeiro no país?

Passaram-se os anos e nunca manifestaram arrependimento. O que confirma que foram, são e continuarão a ser neoliberais e repetirão essas doses cavalares de recessão, privatização, desemprego e miséria que aplicaram durante oito anos, dispondo de maioria absoluta no Congresso e de apoio unânime na mídia privada e no empresariado nacional e internacional – como veremos no artigo seguinte.

Friday, April 30, 2010

O COLOSSAL MAURÍCIO EINHORN HOJE NA SCM















Maurício Einhorn, um dos maiores gaitistas do mundo, toca hoje na Sala Cecília Meirelles, Lapa, RJ, às 20 horas, com ingressos a R$ 10,00, gravando seu novo CD!


CONCERTO INSTRUMENTAL DE HARMÔNICA DE BOCA E GRAVAÇÃO DE CD

Sex 30 abr SCM 20h

Maurício Einhorn - harmônica
Charles da Costa - violão
Paulão - violão de 7 cordas
Alessandro Cardozo - cavaquinho
Luis Louchard - baixolão
Rodrigo Jesús - percussão
Alberto Chimelli e Dario Galante - piano e keyboard
Luis Alves, Sergio Barroso e Augusto Mattoso - baixo
João Cortez, Paulo Braga e Rafael Barata - bateria
Nelson Ayres - piano
Roberto Sion - sax alto e flauta

Programa

Ternura (Lyrio Panicali e Amaral Gurgel), Pedacinho do Céu (Waldir Azevedo), Meu sonho é você (Altamiro Carrilho e Átila Nunes), Autumn in New York (Wladimir Dukelsky), Pela madrugada, Tempos que não posso esquecer (Chimelli e Einhorn), I concentrate on you, Night and day (Cole Porter)

Wednesday, April 28, 2010

TROUXA É A MÃE!


Passa Páscoa, passa feriado e as viúvas do fascismo de 1964 derramam-se na mídia em prol da máfia peéssidebista (leia-se UDN, Arena, PDS, PFL e DEMO). A velha postura de defesa da "família", do "medo" (eles têm medo de política progressista, mas não sentem absolutamente nada quando os morros do Bumba desabam ou quando veem alguém mexer no lixo em busca de um jantar). Uma gentinha que sente saudades da "ordem" (leia-se tortura) daqueles tempos, mas que hoje em dia não vacila em sonegar um impostinho de renda ou surrupiar o troco dado a mais por engano num caixa de supermercado. Pensam que todo mundo é trouxa, só porque o Brasil ainda tem uma grande parte da sua população mal-escolarizada - e, com isso, caem num erro crasso: a informação é uma coisa, a inteligência é outra. Gentinha ultrapassada que sonha com generais no poder e que, se coragem tivesse, imporia proibições à liberdade de opinião, expressão e sexualidade (com exceção dos padres pedófilos...), tudo preferencialmente numa sociedade sem pobres por perto (todos devidamente removidos e jogados em grotões distantes, tudo em "nome de Deus", tal como se fazia na Reforma, ou mesmo hoje, quando o "destino" queima o Camelódromo da Central). Falam de corrupção, mas aplaudiram as "obras monumentais" da ditadura, cujos lucros estão muito bem aplicados em bancos norte-americanos. Defendem pena de morte, já que seus parentes têm dinheiro, mesmo que roubado, e não passaram pela decadência social que os levariam às penitenciárias. Falam de Lula com a boca suja, gosmenta ainda pelos gritos de saudação à República de Collor, verdadeira ode do banditismo político brasileiro, talvez só superado por Adhemar de Barros e Paulo Maluf - talvez. Foram os mesmos que vibraram quando o Estado dos Generais estuprava, torturava e matava pessoas cujos "crimes" estavam em lutar por uma pátria livre.

Em suma, uma gentinha hipócrita que se julga superior aos outros mas tem tanta mobilidade de cultura, leitura e pensamento crítico quanto um elefante preso numa gaiola. Em geral, gostam de se esconder, se esgueirar, evitando usar o próprio nome para o cometimento de verdadeiros crimes de lesa-pátria, que não sabem ter cometido porque, claro, são extremamente ignorantes - embora tenham a marca da prepotência ostentatória de "garbo" intelectual, da sisudez e da racionalidade que, na verdade, é oca por conta dos cupins. Nestas horas, vê-se a pior face de um Brasil de muitas qualidades, mas um defeito gravíssimo: a megalomania neofascista de uma (felizmente) pequena parte da população votante, disposta a tudo para fazer valer seus direitos individuais acima de qualquer coisa - traduzindo, foda-se os outros. Como tempero, um sorriso alvar para simular um verdadeiro porta-estandarte da estupidez. Leem a cartilha de parajornalistas como D. Mainardi, S. Castanhede, M. Pereira e outros asseclas - com isso, acreditam ser as potências intelectuais da nação. Muitas vezes, utilizam os parcos textos destes parajornalistas como verdadeira Enciclopédia Barsa.

Há instantes, muito me irritou mais uma conduta fascistóide do PSDB (leia-se Arena, UDN, PFL, DEMO, é tudo a mesma porcaria), respaldada por seus pares, em termos da campanha eleitoral deste ano, que deve ser marcada pelo estilo "rolo compressor" (a velha direita não aguenta mais uma década sem ter o poder máximo nas mãos; São Paulo não é suficiente). Antes disso, como todo mundo sabe, a Rede Globo de Televisão precisou "retirar do ar" a propaganda explícita que fazia do candidato José Serra, através da comemoração do "aniversário de 45 anos" (PSDB = 45). O mesmo jeito nojento de usurpar, subtrair, malversar e distorcer a realidade, tão bem-engendrado como nos anos de tortura.

As denúncias contra o jeito mussoliniano de fazer o que eles entendem por "política" foram extremamente bem-feitas pelo Deputado Brizola Neto, que faz pleno jus ao brilhante nome que carrega. Aos amigos que se interessarem pela causa, eis os links:

http://www.tijolaco.com/?p=13364

http://www.tijolaco.com/?p=13326

No mais, para os neofascistas que pensam que todo mundo é trouxa, um simples lembrete:

TROUXA É A MÃE!


Paulo-Roberto Andel, 28/04/2010

Monday, April 19, 2010

SOBRE O GRANDE CAMPEÃO












Digam o que disserem, morda-se a “imprensa oficial”. O Botafogo é o grande campeão.

O futebol é fascinante como esporte e espetáculo justamente por supostas surpresas que possa proporcionar. Falo da suposição porque quando há um campeonato no Rio de Janeiro, não pode ser surpresa que o Botafogo o vença, assim como o Vasco, o meu amado Fluminense e o time da Gávea. Trata-se de uma disputa centenária, com ao menos quatro grandes forças, não apenas uma como a esmagadora maioria da imprensa esportiva local tenta impor diariamente em sua comunicação.

Ninguém pode tratar o Botafogo como um pedinte.

Nunca.

Quem acompanha futebol sabe muito bem que, quando os clássicos acontecem, por mais que um pontual favoritismo possa ser cogitado, no campo isso não conta. Botinudos podem virar heróis, craques podem sumir do jogo, desconhecidos podem se consagrar. Mais do que tudo, as camisas se digladiam incessantemente pelo gol e pela vitória.

O Botafogo perdeu para o Vasco no primeiro turno por seis a zero. Foi uma derrota horrível, sem dúvida, mas o campeonato permitia uma reação. Lembro do “Kaiser”, o grande craque alemão Franz Beckembauer, quando trabalhou como treinador do Bayern de Munich e, ao enfrentar o Real Madrid num amistoso, perdeu por oito ou nove a um; indagado sobre o desastre, limitou-se a dizer que, diante da hecatombe, era melhor ter perdido aquela, por mais doloroso que fosse, do que perder nove partidas por um a zero, o que geraria uma crise no time e a sua inevitável demissão. Beckembauer, símbolo de talento no futebol e dos poucos humanos a ser campeão do mundo por uma seleção como jogador, capitão e, posteriormente, treinador. O exemplo valeu esplendidamente para Joel Santana: depois de sua chegada, o Botafogo venceu dignamente a Guanabara e só voltou a perder no campeonato quando podia, justamente para o meu amado Fluminense, para depois impor-lhe uma grande virada nas semifinais do returno, vencido ontem com tanta justiça e mérito pelos de General Severiano – e quem vira um jogo contra nós num momento decisivo sabe que o título é mais do que uma promessa. Mais do tudo, esse título mostra a todos que o Rio não tem só um time; relembra que, em anos anteriores, o Botafogo foi até melhor nas finais, mas tropeçou na amarga disputa de pênaltis – e o triunfo praticamente se consolidou ontem justamente num pênalti, cobrado pelo badalado Adriano e muito bem-defendido pelo goleiro Jefferson que, a meu ver, é hoje o melhor goleiro em atuação no país: sóbrio, tranqüilo, sem poses para câmeras ou declarações estrambóticas. Antes disso, a força platina de Herrera e Loco Abreu já tinha sinalizado o retrato em branco e preto que iria tomar as ruas da cidade.

Nas últimas décadas, conta-se nos dedos os times do Rio que conseguiram a façanha de liquidar a competição antes de uma final contra algum rival, ao vencerem os turnos disputados num mesmo ano. O Botafogo fez isso ontem e, portanto, é o merecido campeão. Falem o que quiserem, chorem os maiorais.

Como Tricolor, estou acostumado a títulos e triunfos, ao contrário do que a imprensa insiste em falsear, mesmo que os últimos anos não me tenham sido tão favoráveis. Mas a minha história está escrita, desimportando as falácias e fantasias de bicampeonatos num mesmo ano ou hexa sem penta. Nesta hora, a de ontem, foi bom invejar o Botafogo. Ressalto que a nós, das Laranjeiras, só cabe uma inveja que tenda ao positivo: a inveja de estar no lugar do grande campeão, que mereceu a conquista e que, tal como nós estamos acostumados a viver em nossa arquibancada, também não conta com as loas dos jornalistas.

Não há mais Garrincha nem Nilton Santos nem Didi em campo. Nem para o Botafogo, nem para nenhum outro time. São deuses que fazem parte do Olimpo da Bola. Isso, no entanto, não quer dizer que não se possa ganhar novos títulos, desafiar novos paradigmas ou contestar definições. Aí está o Botafogo que não nos deixa mentir. Aí está o grande campeão e isso é um fato. Às favas com o deboche de considerá-lo fraco; não nos cabe a cegueira da burrice teimosa e nem da idiotice da objetividade, como nos ensinou Mestre Nelson Rodrigues. Quem vence a Gávea com a autoridade de dois jogos decisivos e, antes, tira o Fluminense do páreo, merece o certame.

Todos os parabéns aos alvinegros. Poucos times no mundo saberiam superar uma goleada estrondosa com tamanha galhardia e superação, descritas nos números da competição. A resposta colossal foi o título, mais do que merecido e capaz de devastar até impérios.

A estrela solitária continua com multidões a seu lado. Sempre será assim. Sempre, nunca menos do que sempre.


Paulo-Roberto Andel, 19/04/2010

Tuesday, April 13, 2010

É SÓ UM OUTONO LÁ FORA















É só um outono lá fora. Talvez. Muitos choram seus mortos, outros subvertem a verdade e alguns cogitam encenar o raso teatro do meu-mundo-sou-eu-mesmo-e-ponto. A temperatura, nem quente de fazer suar, nem fria de agasalhar, segue seu destino entre uma e outra nuvem. Nenhuma ameaça visual iminente da tragédia de uma semana atrás, quando minha principal preocupação era evitar o molhar da roupa, depois de sair da sessão de fisioterapia. As autoridades garantem que tudo está sob controle, mas sabemos que esta verdade não tem cor. É só um outono lá fora, parecendo ter mãos vazias, mas insinuando a alguém que dias melhores estão por nascer. É só um outono lá fora, que precede um grande feriado e, com este, a inevitável promessa de morte sacramentada nas estradas rodoviárias. Dor e calmaria convivendo na mesma sala de espera. Um carnaval sem barulho, exceto nos gritos das torcidas no Maracanã, se jogo houver lá. Os bares serão mais bares e não faltará quem precise afogar as mágoas com drogas legalizadas ou mesmo as “proibidas”. Na televisão, faremos galhofas de nós mesmos: nossas idéias mal-concebidas; nosso preconceito escancarado que, por vezes, aflora; nossa eterna dúvida em relação aos nossos semelhantes, que talvez não sejam tão semelhantes assim, mas que nos fazem insistir que a nossa semelhança é superior à deles – pode ser a diferença também. Dinheiro, ah, dinheiro: faltante nos bolsos, abundante nas vitrines; fundamental para diminuir as mazelas do mundo, até que um míope mental pergunte quem vai pagar a conta, sem saber que o que se faz para o bem comum não tem preço. É só um outono lá fora, e o cinza se confunde com o azul. É só um outono lá fora e a mansidão parece algo tão distante. Risos precisam ser mais risos. Pobres precisam ser mais gente aos olhos neoliberais. Gente precisa ter mais apreço à gente. Quem me dera deixássemos de lado a eterna busca pela juventude, pela beleza, pelo corpo perfeito que não passa de falácia para se vender produtos – é que a perfeição não existe e, em busca dela, sacrificamos nossas próprias vidas em vão. É só um outono lá fora e desejo que vivamos com menos belicismo, menos hipocrisia, menos indiferença. Uma tardinha que se avizinha e as horas a se contar para nova fisioterapia. Longe daqui, os flamboyants ditam as regras. Um cinema me fará bem quando a noite vier, ou um som de jazz ou uma canção que heróis africanos entoam com rigor. É só um outono lá fora, e leio que Manoel de Barros nos brinda novamente aos noventa e três anos, assim como Carlito Azevedo nos brindou com seu Monodrama no verão que se foi. Os poetas insistem; não são fáceis de derrotar, não são acostumados ao licor da inércia. Os poetas fazem seus versos e, com eles, ajudam o mundo a ficar menos poluído do racionalismo oco dos articulistas políticos, ainda mais quando estes articulistas se diziam homens de teatro e cinema – em suma, falsos poetas. Há um outono lá fora, e ele se faz poema de versos livres, com certo toque de melancolia pelos mortos sofridos que temos chorado nesta cidade. Outro toque também lhe cabe: o de certa elegância, cujos mares freqüentei, mas sou ignorante o suficiente para não saber explicar. Há um outono lá fora, e isso me basta.


Paulo-Roberto Andel, 13/04/2010

Thursday, April 08, 2010

ÍDOLOS DE BARRO


















Dia desses, recebi de uma querida amiga um texto reproduzido em blogs, daqueles tradicionalmente encharcados com as eternas besteiradas, repetidas de forma papagaiante, sobre as “ameaças de democracia no Brasil” promovidas pelo Governo Lula. O texto, supostamente assinado por um ator, desancava o governo e trazia termos pessoais que, uma vez comprovada a autoria, permitem claro ajuizamento. Forma papagaiante é um neologismo que propõe a repetição incessante de ditos sem que necessariamente tenha que se raciocinar a respeito, tal como fazem as simpaticíssimas aves. Por favor, não tomem isso como uma crítica à PPB (população papagaial brasileira).

Há uma confusão enorme no Brasil de hoje sobre a questão política. Confusão misturada à má-fe, ignorância e um sentimento agudo de ambição neofascista como se viu no banditismo do golpe de 1964. Tentam construir ídolos de barro, frágeis, “bons administradores” que não se sustentam diante de críticas ao “Estado Mínimo”, o “Neoliberalismo” e o porque de terem conseguido resultados nacionais pífios ao fim de sua gestão, já que eram os responsáveis pelo reordenamento do Brasil. Falam em democracia, mas governam São Paulo há vinte anos.

Primeiro, as velhas “viúvas da ditadura” a preconizarem uma ameaça comunista que não existe. Depois, a total cegueira em não se admitir que, nas realizações, o Governo Lula é o único que permitiu mobilidade social às camadas mais sofridas da população desde os planos de João Goulart, que naufragaram com tanques, mortes e os piores atos de desumanidade. Terceiro, a estúpida adesão que os descontentes com Lula tomam ao aderirem ao PSDB, que representa a escória política do Brasil, o sub-PDS, o almoxarivado da Arena, a clara representação do “alto” capitalismo que pretende se sustentar com aplicações e não geração de empregos. Qualquer assalariado, pequeno empresário ou detentor de baixa remuneração que empunhe esta bandeira só pode fazê-lo por completa ignorância histórico-sócio-política do país onde vive. Ao fazerem isso, as “viúvas” não somente desfilam seu raso conhecimento das cousas, mas também agem com “raciocínio” análogo àqueles que, não muito tempo atrás, viam as milícias como uma boa solução contra os traficantes. Ou seja, o sujo querendo criticar o mal-lavado, se mal-lavado fosse. Como “solução” para o “atraso” do Brasil (????) e a “enorme corrupção” (?????) pretendem simplesmente reabilitar o partido que entregou lucrativas empresas como a Vale do Rio Doce a troco de banana, que “modernizou” as telecomunicações às custas das maiores taxas de telefonia do mundo e que mudou as regras eleitorais durante seu próprio governo, permitindo que um presidente se reelegesse com um mandato em curso. Quando aconteceu fato parecido em Honduras, defenderam a deposição de Zelaya. Lá, ao contrário daqui, havia regularidade de plebiscitos. Pode haver algo mais hipócrita ou acéfalo? Sim. “Estabilidade” da economia com seiscentos mil empregos em oito anos, numa país com cento e setenta milhões de habitantes.

Embora o jogo eleitoral esteja apenas começando, há indícios fortes que os neofascistas estão condenados ao fracasso: a todo momento, nos jornais prostituídos e nos blogs tendenciosos, a falácia contra a ditadura mostra-se mofada e encardida. Com toda a humildade e limitação educacional que ainda tem, o grosso da população não é tolo e percebe claramente que não se pode confiar nos anseios democráticos de quem olha somente para o próprio umbigo, o próprio bairro e o próprio bolso.

O golpe final acontecerá quando Ciro Gomes, sábio dissidente da máfia empresarial travestida de partido, manifestar-se na campanha.

Hoje, o Rio passa por um luto profundo. Milhares de desempregados, morte, dor, caos. Nada disso interessa para as “viúvas”: danem-se os pobres. Querem o poder, mesmo que sejam apenas meros bonecos nas mãos do capital especulativo que, brevemente, os descartará. O “paraíba” que preside o país, para eles, deveria era estar sob os escombros da tragédia carioca-fluminense. Muitos orgulham-se de seus diplomas, muitas vezes conseguido porque papai e mamãe tinha posses e lhes abriram caminhos facilitadores. Outros, em total caos mental, suspiram pelos tempos de “ordem” do golpe militar: decerto, não pensariam o mesmo se tivessem tido uma mãe, irmã ou namorada estuprada nos quartéis. Mais outros acreditam mesmo serem intelectualmente superiores aos demais, e aí é que escorregam numa casca de banana rumo a um monumental espatifar com a bunda no chão – ainda tontos e machucados, mesmo assim não voltam à realidade: vivem um sonho de perversidade, maligno e deturpado que, felizmente, não há de prosperar. A miséria, uma pena, ainda persiste; contudo, a ditadura já morreu e, se não pudemos enterrar nossos dignos militantes contra o nazismo no Brasil, estes mesmos que vociferam e sonham com a volta dos dias de chumbo só podem, na melhor hipótese, esperar do limiar da vida o aroma do ocaso.


Paulo-Roberto Andel, 08/04/2010

Wednesday, March 31, 2010

01 DE ABRIL DE 1964























































Institucionalizado como o dia da mentira, 01 de abril era a data perfeita para deflagrar o período de maior horror da república do Brasil - mais ainda, um dos piores períodos desde que Pindorama nasceu. Com a tradicional hipocrisia que sempre lhes cercou, os artífices do criminoso golpe de 1964, em suas obsessões doentias, chegaram até a "antecipar" a data do fato, para que o mesmo não fosse tratado eternamente com a galhofa cabível.

Grandes proprietários rurais, financistas norte-americanos, inescrupulosos empresários de comunicação, militares traidores da pátria, políticos escroques, religiosos intolerantes e outros segmentos menores, reunidos, conspiraram para derrubar o governo constitucional de João Goulart e, frente à "ameaça comunista" que se desenhava (leia-se a possibilidade de que a elite econômica deixasse de lucrar exorbitantemente para que a maioria miserável do Brasil tivesse acesso a alguns meios sociais), não pouparam esforços no sentido de passarem por cima das leis nos piores sentidos dos actos em si. O que começou como uma simples "ditadura" (com toda a ironia aqui contida, pois nenhuma ditadura é simples de se viver) se transformou em um período macabro, pavoroso e de assassínio em massa - e se você, nobre leitor, hoje se horroriza com as barbaridades cometidas por traficantes, não custa lembrar que práticas como arrastar pessoas no asfalto amarradas em carros até que padecessem respirando gás carbônico eram comuns em quarteis e áreas de "segurança nacional".

Os inimigos da tabuada, em sua colossal ignorância, tentam utilizar o patético argumento de que "se o regime não endurecesse, os comunistas iriam continuar matando e torturando". Só a estupidez permite comparar os métodos de tortura praticados por experientes militares treinados para a guerra com a luta abraçada por trabalhadores, estudantes e jovens intelectuais. O nazifascismo implementado no Brasil chegou a tal ponto de barbárie que até mesmo adeptos direitistas do golpe de 1964, relativamente arrependidos com o horror que ajudaram a implementar indiretamente, passaram a acolher refugiados e clandestinos cujo maior crime era o de não concordar com a ditadura. Quarenta e seis anos depois, o Brasil não possui registro de famílias reclamando os corpos de generais, majores, capitães ou tenentes desaparecidos na guerra urbana. Mas são inúmeras as famílias que jamais voltaram a ver seus filhos, sobrinhos, tios, pais e outros parentes, tais como os Paiva, os Herzog e os Angel, para exemplificar.

Se hoje, em contraste com os visíveis progressos vistos a olho nu pelo Brasil, principalmente pelas políticas públicas aqui implementadas desde 2002, temos uma sociedade que, em muitas vezes, prima pelo individualismo e até mesmo pela perversidade, 01 de abril de 1964 foi um infeliz marco desta nova trajetória brasileira. Se hoje o grosso da classe estudantil urbana, com exceção da respeitável militância, trata as questões nacionais com absoluta indiferença, priorizando apenas o bem-estar pessoal e o acúmulo de riqueza, a semente desta estupidez nasceu em 01 de abril de 1964. Se o crime organizado é cada vez mais opressor e organizado, idem. Se reclamamos de políticos marcados pelo mau-caratismo, flagrados em evidente delito, não custa lembrar que, naquele dia distante, nasceu a semente do "você sabe com quem está falando?" e da "carteirada" - em suma, ter o poder circunstancial passou a ser sinônimo de se poder fazer o que quiser, sem respeito a nada. O que é um político corrupto senão um sujeito que acredita ser acima dos homens e acima das leis?

Um pequeno texto não é suficiente para destrinchar o desastre que foi o golpe na vida brasileira, um incêndio que até hoje nos rende rescaldo. Livros e livros foram e são escritos a respeito, mas muito há para se fazer, principalmente em termos do resgate da dignidade daqueles que foram vítimas de crimes de Estado, bem como seus parentes - terrível abuso que contraria qualquer constituição no planeta.

Para aqueles que vagam nas ruas como fantasmas, defendendo a "lei (que lei?) e a ordem" dos tempos da cruel ditadura e persistindo em defender o nazifascismo, resta esperar para que o tempo seja senhor da razão e os faça desaparecer com dignidade - a mesma dignidade que não foi oferecida aos desaparecidos, torturados, estuprados, seviciados e mortos em nome de ideologias como a da "Marcha da Família com Deus pela liberdade", nome caricato e perfeito para um 01 de abril. De toda forma, felizmente os viúvos de 1964 são poucos e hão de escorrer pelo ralo.

Em memória do massacre ocorrido no Brasil, as fotos acima, sim, dizem tudo.


Paulo-Roberto Andel, 31/03/2010

Monday, March 29, 2010

CASTELOS D'AREIA




















copacabana é uma procissão

a minha religião mora num mês,
numa semana:
faz-se dor amena
que os castelos d'areia,
efêmeros de natureza,
talvez não saibam expressar
frente ao monumento
que é a beleza do mar

copacabana,
a minha procissão se agiganta:
os santos são os mesmos,
os diabos trocam cores,
as ruas vestem deserto na fadiga -
a fé que morre, é o pranto,
são volúpias e amores

a cada esquina, há um livro
e a procissão despe sua vida
numa biblioteca
a instigar o mais ávido leitor
até que seu coração,
navegante da incerteza,
venha a se tornar
uma delicada e preta
pedra portuguesa.


Paulo-Roberto Andel, 29/03/2010

Thursday, March 25, 2010

FRED















Era hora da noite, era calor e frio ao mesmo tempo neste outono desenfreado e lembrei de meu velho amigo Fred.

Lembrei e relembrei tanto num momento que, subitamente, apanhei um CD da velha banda que escutávamos quando tínhamos uns nove ou dez anos, talvez. Naquela outra época, era LP, de capa grande e um desenho do qual eu tinha medo; faz muito tempo, o tempo que eu tinha medo de um desenho. Ninguém conhecia aquilo e nem sei de onde o Fred tirava aqueles coelhos se não usava cartola. Na capa, gnomos, gente decadente, um unicórnio. Eu tinha medo, mas achava as músicas legais, mesmo que parecessem um pouco tristes. Era nossa diversão da tarde, entre um e outro jogo de botão. Também tinha a pizza quadrada, inventada por ele; nós mesmos fazíamos a massa. Para beber, suco de caju. Sábado era dia de Chacrinha; mais tarde, viramos escoteiros e o mundo mudou. Durante a semana, pós-escola, futebol de botão na sala, dupla de praia na areia. Na volta do escotismo, coisa de garotos: vinho Cantina São Roque com biscoitos de travesseirinho de queijo. Tudo muito antes de um conhecido nosso virar transex. Debaixo da cama, um gavetão com todas as Playboys do mundo. Certa vez, Fred cogitou reclamar no Procon porque comprou uma revista sem título cuja modelo de capa parecia muito com a Natália do Vale; claro, no conteúdo, era outra coisa. O porteiro Ailton, irmão de Agnaldo, nos infernizava e ria: acho que gostava da gente.

Com o passar dos anos, veio adolescência. Fred embarcou na direita, eu era da extrema-esquerda. Era, não: sou. Serei. No fundo, tudo cristianismo: pensar no próximo, no mais pobre, na miséria do mundo que nos cerca. Juntamos uma turma da pesada: surgiu Gustavo, Jorge Pinto passou a freqüentar, Luiz Magno direto, o Marco já era nosso, assim como Ricardinho, cuja casa era uma espécie de clube de campo, filial do Fred. Uma enxurrada de meninas também. Dona Magda trabalhava praticamente o dia inteiro, de modo que a casa do Fred virou nosso quartel-general. Em tempos de poucos telefones e nenhum celular, o da casa era para recados de todo mundo: “Fulano, te ligaram confirmando o futebol mais tarde nos Bombeiros”. Muitos discos, alguns livros, um show de televisão, muita conversa fiada de alto nível e o jogo de botão (que nunca abandonei) foi trocado por rodadas de carteado, mais precisamente “mau-mau”. Entrei para faculdade, a casa era minha sala de estudos, entre canções do Kraftwerk, Alan Parsons e uma novidade juvenil chamada Guns n’ Roses (numa tarde de competição baralhística, a mesa de jogadores foi à loucura quando Gustavo quis debater Estatística comigo). Não tinha muito jogo na televisão, mas víamos alguns. A estupenda série “Grande sertão: veredas”, vimos toda. Um luxo ter Guimarães Rosa na tevê. Também tinha Flávio Cavalcanti, antes de ser tachado de fascista ou de protetor de comunistas: a verdade sempre tem dois gumes, no mínimo.

Colocando na tabuada, uns treze, catorze anos. Uma vida.

Um belo dia, Fred se mudou. Foi num sopetão. Um golpe. Passei tantas horas dentro daquele apartamento 1346 do Bloco F que, pensei, ele nos pertencia por direito. Ledo engano. Tudo tênue e rápido, feito a própria vida. Depois, mudou para um prédio e outro prédio e outro prédio. Eu também me mudei, Copacabana virou lembrança. Fomos trabalhar, tocar a vida e a distância numa vida sem internet ou outras modernidades nos custou treze anos de exílio. Perdemos o contato, até que um dia, graças aos e-mails e orkuts da vida, fizemos um almoço de domingo na Cobal da Humaitá. As amizades estavam intactas, faltava reatar a intensidade.

No pior dia de toda a minha vida, após o enterro de minha mãe, o Fred estava lá, atordoado. Segundo os que testemunharam minha tristeza, ele parecia mais transtornado do que eu. Acredito. Minha tristeza é infinita, mas eu estava completamente entorpecido pela dor. Ele, mais lúcido, via naquilo o horror que era um marco do fim da nossa juventude. Dia desses, éramos garotos fazendo pizza quadrada e esperando a sessão da tarde. Ali, éramos garotos, garotos mesmo, com os vincos da vida e de frente para a morte. Uma quinta-feira.

Sábado, toca o telefone. Do jeito que podia, lá estava o velho Fred preocupado comigo e querendo me convidar para sair – logo ele, a pessoa mais caseira que conheci. “Vamos no Rio Sul, cara, ver as gatinhas”. Era o jeito amigo dele de tentar me consolar. E esse consolo durou dois anos seguidos, semanalmente, com inúmeras preocupações dele por eu ter me tornado “alcoólatra” (com dois chopes por quinzena); minha réplica era nos maços de cigarros que ele consumia incessantemente. Havia um novo apartamento na Figueiredo Magalhães; não sei explicar como, a casa até podia ser outra, mas o ambiente, o clima, era literalmente o mesmo. Agora com uma gataria danada e Dona Magda, digna e merecidamente aposentada. Não havia mais o mau-mau das tardes, mas os lanches e a conversa fiada resistiram bravamente. Deu tempo de ver as tragédias aéreas, o Pan e lá estava de novo, firme e forte o velho Fred quando perdi meu pai, um ano e pouco depois. Se eu tivesse crença, iria achar que estava tudo programado: as dores surgiriam no meu caminho, e caberia ao Fred estar do meu lado, do jeito que era naquela já distante infância. Veio o fim do ano e mais uma mudança: enchi o saco dele para que comprasse um imóvel. Fiz as simulações eletrônicas, mostrei os planos, ele se animou, embora visse com maus olhos se tornar um tijucano depois dos quarenta anos, coisa que bem entendo. Fiz uma viagem ridícula perto do Natal, me despedi para sempre de uma mulher ridícula, virou o ano e, depois de dois meses, finalmente fui conhecer a nova casa que viria a ser a minha velha casa de sempre, a casa do meu amigo, uma casa tijucana. Que fosse noutro bairro, com a vista de outro morro, desimporta: era o quarto, o computador ligado no simulador de vôo, a televisão fincada no History Channel. E muita fumaça de cigarros convencionais. Rimos, rimos, falamos de coisa séria, Fred agora defenestrando o PT.

- Cara, tou com uma dor no braço que ta ródia.

- Pois é, eu que sou alcoólatra, né? Que tal ver isso no médico logo? Pode ser alguma coisa do coração.

Mais tarde, descemos para lanchar no Bob’s. Meu amigo Leo, que muitas vezes me traz de volta a alegria da juventude, estava contente: acabara de pegar um táxi novinho em folha para trabalhar, era seu primeiro dia. Me ofereceu uma carona, chamei-o para o sanduíche. Leo e Fred fanáticos por aviação, bom papo na certa. Durou uma hora de conversa e ainda fizemos pilhéria de nós mesmos quando demos carona ao Fred, que estava a cinqüenta metros de casa. Eu não tinha a menor noção de que era a última vez na vida em que estava compartilhando lazer com meu velho amigo de infância.

A dor no braço exigiu uma internação que durou quinze ou vinte dias, até que os malditos cigarros nos derrotaram para sempre. Nossa despedida foi muda: nem adeus, nem até breve. Derrota injusta, muito antes da hora e imperdoável para quem já tinha ficado sem família e sem Xuru.

Daqui a pouco isso, o nocaute, vai fazer um ano. Os trinta anos de antes eu lembro como nunca. São muito maiores do que a derrota recente.

O disco da velha banda com gnomos na capa não para de tocar no pensamento.


Paulo-Roberto Andel, 25/03/2010

Friday, March 19, 2010

SERRA? NÃO. PSDB? JAMAIS!













A pouco mais de seis meses das eleições presidenciais brasileiras, ainda não tenho a certeza absoluta de meu voto, pela primeira vez deste que esta república democrática me permitiu a condição de eleitor.

Ele está encaminhado, muito bem-encaminhado até, mas não absolutamente decidido.

O que sei é que será um voto progressista, voltado para a maioria da população, que é humílima (quando não, miserável), ignara (contra a vontade íntima, ressalte-se) com uma trajetória de muitos anos abandonada à própria sorte (os menos letrados diriam que é o “destino”). Nem poderia ser de outra forma: parente de comunistas, criado por mais humildes que transitaram entre pobreza e riqueza, fugitivo da polícia nazista do AI-5 aos oito DIAS de idade por conta de “crime de associação ao socialismo”. O tempo passou, assumi minha não-religião e meu ateísmo, “crimes” considerados “inafiançáveis” em pleno 2010, tempo onde é normal que famosos convivam muito bem com traficantes armados; parlamentares escondam dinheiro público nas meias e digam que “não é bem o que você viu”; a pansexualidade seja vista como algo altamente elogioso e quase uma imposição, quando deveria se tratar apenas de uma opção pessoal. Temos celular, computador e tuíter: falta agora que se aprenda a ler. Bom, lá daqueles tempos de criança, eu ainda trouxe uma única lembrança do que poderia ter sido minha vida cristã: a danada mania de não se negar as origens, o passado e o respeito às memórias dos meus – tudo coisa que, hoje em dia, frente a executivos apressados que pisoteiam mendigos na Rio Branco, neofascistas de raso conhecimento que se tornam “colunistas” de revistas de “opinião” e fanáticos pela monocultura (um só time, um só canal de tevê, um só gênero musical), parece datado, mofado. Eu gosto de velharias.

Não traio os meus e meu passado. Lembro bem quando os militares ficaram chocados comigo quando perguntei a uma professora, numa visita da escola à Urca, porque a praia se chamava “Vermelha”. Era 1974, eu tinha seis anos de idade e quase passei pelo meu segundo B.O., com todo o ridículo contido nesta situação. Dez anos antes disso, o Brasil começava a ser incendiado pelo mar de estupidez que foi o golpe militar de 1964. Contra a ditadura, os mais esclarecidos, os grandes homens da esquerda e os estudantes. A UNE foi incendiada. Seu presidente era o jovem José Serra. Eram tempos de dor e morte, eram tempos de exílio ou prisão. Muitos anos depois, houve a “anistia”: todos os perseguidos livres para voltar à pátria amada (menos João Goulart, claro); todos os militares que fizeram papel de criminosos estavam absolvidos; todos os cadáveres dos torturados estavam desaparecidos. Desse jeito torto, o Brasil entrou na partida preliminar da “democracia”. Não perderei meu tempo com aqueles que ousam afirmar que “houve mortes dos dois lados na ditadura”: não polemizo com imbecis. Em caso de dúvida, a tabuada resolve a questão.

Acabou o bipartidarismo, tudo virou quase festa. A Nova República de Sarney. Tempos depois, nasceu o PSDB, fruto da insatisfação com os cinco anos de mandato do então presidente, mais a expectativa de implementação do regime parlamentarista. Lá estavam os respeitáveis Mário Covas, José Serra e Ciro Gomes. Nem tão respeitável assim, FHC. Num prazo de cinco anos, o PSDB perdeu a liderança de Covas, Ciro pulou e o partido, conhecido durante anos pela política “em cima do muro”, que consistia em não fechar alianças com progressistas e conservadores, ao descer dele, juntou-se ao que havia de pior na política do país: o PFL, ex-PDS, ex-ARENA, ex-UDN e, hoje, com toda a ironia possível, chamado de “Democratas”. O partido dos oligopólios, da tirania ruralista, da TFP e de tantas mazelas para o Brasil tornou-se o braço direito dos “neoliberais”. Governaram juntos, enamorados de mãos dadas.

Veio a euforia do frango a um real (com salários congelados em 20 de junho e preços congelados em 30 de junho, com cinqüenta por cento de inflação ao mês), da estabilidade econômica, do fim da inflação... e, em paralelo, a Teoria do Estado Mínimo: doação das estatais, o caso Proer, o SIVAM, a destruição das universidades públicas e dos serviços de Estado, com reajuste zero aos servidores por quase uma década, culminando com o escândalo da reeleição de FHC FAZENDO CAMPANHA DURANTE O PRÓPRIO MANDATO E MUDANDO A CONSTITUIÇÃO EM PRÓPRIO BENEFÍCIO (hoje, falam de Lula fazendo campanha para Dilma? Ah, ah, ah!). Sob tirania política, o plano de reeleição deu certo; contudo, o fôlego era curto e as pessoas se cansaram. Em 2002, Lula venceu mais pelo desastre dos últimos anos de PSDB do que propriamente pela grande euforia popular; cansada dos engodos do partido dos “intelectuais”, a população que sempre negou a figura do “paraíba” resolveu aceitá-lo. Dos poucos bons momentos do segundo mandato de FHC, neles estava José Serra, em um partido já estraçalhado, dividido entre o alto empresariado e velhos coronelismos, representados pelos nomes de Tasso Jereissati e Arthur Virgílio. A figura de Covas era passado.

Lula ganhou com facilidade, foi reeleito contra planos de golpismo barato às vésperas do pleito (ora, ora, o grande “mensalão” era ou não era, na prática, o “rolo compressor” do governo anterior?) e a resposta veio nos números: o Brasil é, hoje, ainda muito longe do que os brasileiros de bem gostariam, mas é bem distante do atraso do desemprego a um real. Discutir política não é torcer num Fla-Flu; precisa-se mais do que isso. Trata-se de ver números, enxergar o óbvio: a diminuição da miséria, a inserção na escola de uma população infantil ignorada; a geração de emprego e renda nas regiões miseráveis que foram priorizadas pelo Bolsa-Familia. Falta muita, muita coisa. Mas o Brasil caminhou em frente sim.

Entendo que se o jovem José Serra, presidente da UNE, tivesse caminhado junto aos seus velhos companheiros no rumo de um Brasil progressista, inevitavelmente teria que ter deixado o PSDB, tal como fez (corajosamente) Ciro Gomes, que, ao não compactuar com os desmandos de FHC, disputou duas eleições por partidos minoritários, perdeu força, mas não abdicou de combater a doação do Estado feita pelo “presidente dotô” e sua bancada moderna. Tal como parece fazer agora, Serra se calou. Acatou o PFL, acatou ACM, acatou os desmandos. Então, pergunto: se quem cala consente e, por tabela, mantém a situação vigente, o Brasil tem condição de caminhar para o futuro com um presidente de caráter conservador? Foi com conservadorismos e "estadomínimo" que conseguimos decuplicar nossos níveis de emprego? NÃO!

O PSDB foi tão abalroado pela popularidade de Lula que está completamente perdido, só encontrando repercussão na boca de eventuais papagaios repetidores de “textos” da “revista” Veja (mas não leia...) – em suma, palavrões, ataques, deboches vulgares e nada de discussão política. Serra, sem caminho, sem coragem para ter rompido com o conservadorismo e sem coragem para abrir mão de uma campanha fadada ao fracasso, se mantém calado. Seria uma saída digna. Se pretende realmente mudar o Brasil, que deixe este partido nefasto e busque noutra legenda os caminhos que o levaram a ser um bom Ministro da Saúde, à época perdido por ser minoria num partido controlado pelos “democratas” de outrora.

Ainda não tenho certeza se votarei em Dilma. É um caminho natural e o mais viável.

Considero Ciro um excelente candidato. É preciso observar as alianças.

Marina Silva, também, apesar de o PV estar mais “endireitado” do que deveria. Bem mais.

A convicção é uma só: hoje, JAMAIS votarei em José Serra porque NUNCA, NUNCA, votarei no PSDB. Do sangue de onde vim, não cabe ficar em cima do muro para, ao descê-lo, pisar no pântano da direita de 1964 travestida de democrata. Nenhum desgoverno que doe a Petrobrás e o Banco do Brasil pode ser melhor do que o pior momento de um governo do PT, por exemplo.

Não perderia tempo em escrever sobre política xingando José Serra, pessoa a quem considero até admirável sob certos (e poucos) pontos de vista. Isso fica para os cães que ladram enquanto a caravana de Lula passa. Não voto no atraso enrustido de modernidade do PSDB. Jamais votarei. Não jogaria fora trinta e cinco anos de estudos, nem o passado recente do Brasil. Apenas isso.

Brizola vive!


Paulo-Roberto Andel

Friday, March 12, 2010

GLAUCO E OS CEGOS DO CASTELO










Há pouco, sem chance de defesa, Glauco foi fuzilado junto a seu filho.

Muito antes da hora, o Brasil, involuntariamente estúpido pela própria natureza de uma sociedade que preserva o individual em detrimento do coletivo, perdeu um de seus maiores artistas em todos os tempos. Artista na acepção da palavra, sem relação com acéfalos sexistas ou especialistas de PONE que borbulham em televisões, rádios, jornais e Veja (esta, uma ex-revista que só agrada aos endinheirados mais ignorantes da nação).

Quem matou Glauco? O imponderável? Ou um bandido armado, o mesmo bandido que por algum fator exógeno (uso de drogas, sede de riqueza etc) praticou tal barbárie, mas que, naturalmente, não nasceu com o ímpeto assassino?

Ainda estou impactado por ter visto ontem o desespero da mãe de um dos bandidos que matou o lutador Marco Jara, ao se encontrar com a mãe da vítima que, de tão lúcida, chega a nos comover: sabe que a mãe do bandido não tem culpa do que aconteceu. Ou a reprise sobre as adolescentes que são mantidas em cárcere privado pelo traficante sob a alcunha de "Berola": torturadas, seviciadas e estupradas diariamente, todas estão grávidas. Não falo do que ocorre em Paraopeba, Jaguariúna, Nazaré das Farinhas ou qualquer respeitável cidade brasileira. "Berola" é um criminoso em atividade na Tijuca, divisa com o Rio Comprido, a 5 minutos de carro do quartel-general da Polícia Militar e da Adademia de Polícia Civil.

Enquanto somos cercados por todo tipo de violência - que seria infinitamente pior se tivéssemos nas veias o sangue da vingança - os cegos do castelo, em seu deliberado ofício de desocupação, pregam a "sociedade liberal", o "mercado livre", a "competição acima de tudo" e o resultado aí está: num país esmigalhado pela brutal desigualdade econômica e que, somente em anos recentes, teve do governo um mínimo de atenção para com os miseráveis, a todo momento o que se vê nas peças de publicidade é a sugestão do "seja rico", "seja bonito", seja um vencedor". Milhões de jovens ainda nascem sem a menor expectativa de conforto, educação e progresso - a diferença é que, em cado canto do Brasil, tem alguma propaganda praticamente obrigando o minisujeito a ser alguém importante na vida, e qualquer ser dotado de raciocínio sabe que um modelo de "Estado Mínimo" é a cruel antítese desta possibilidade. Algum boçal há de dizer que uma sociedade progressista é bonitinha mas alguém tem que pagar a conta, e quem vai ser? Obviamente, os sonegadores e a iniciativa privada. Quem mais seria? Em suma, temos uma verdadeira máquina de propaganda que impõe o sucesso absoluto para milhões de brasileirinhos que vivem nas piores condições: eles vêem tudo, pouco ou nada podem fazer. Misture-se um coquetel de miséria, maus tratos e, principalmente, desagregação familiar e uso de entorpecentes. Qual o resultado? Gente que mata e nem sabe por quê. Gente que mata e acha normal. Gente que estupra e acha normal. Não é gente, assim como não é gente quem passa na rua e trata morador de rua como se fosse lixo.

Nossa sociedade sofre um processo de mediocrização, exacerbação do individualismo, auto-suficiência e descaso desde décadas. O resultado disso está numa classe oprimida que, de alguma forma, reage e causa muito, mas muito mal. Felizmente, a índole pacífica do brasileiro faz com que estes índices de violência sejam muito menores do que se poderia supor – basta imaginar quarenta milhões de miseráveis famintos, violentos e armados, fosse o caso. Não é assim.

Sempre haverá um idiota capaz de defender a opressão, o nazi-fascismo, a pena de morte e outras aberrações como alicerces de uma “sociedade de respeito”. Estamos condenados a viver a piora desta situação até que o último imbecil totalitário esteja vivo.

O que vemos nas ruas, nos tiros, nos estupros, nos “fornos de microondas”, nas favelas dominadas pelo tráfico, nas grandes vias, no interior é a germinação de uma semente maligna que foi plantada no Brasil e que, mesmo governos moderados de natureza progressista, como o atual, não conseguiram eliminar.

A malignidade de 1968, quarenta e dois anos depois, ainda prolifera nas ruas. A desagregação de nossa sociedade, o fascismo de parte dela, a indiferença de outra parte, a ignorância da maioria, tudo isso foi macabramente arquitetado pelos traidores da pátria em 1968, 1964 ou que data queiram. A junção desses fatores e a maldita herança do caos social desceu rio e desaguou no que vemos hoje: a vida que nada vale nas ruas, seja das vítimas de crimes ou de mendigos com as mãos estendidas no vento, esperando o último suspiro. E então, mata-se por nada, dane-se o outro, o que importa é vencer a competição, mesmo que seja preciso sonegar, burlar, prostituir: os mais abonados, bem-nascidos, lêem a sentença como sinal de constituição de riqueza; os desprezíveis, das classes mais baixas, muitas vezes cansados de lutar por uma oportunidade digna, deixam-se levar pela vida marginal. O resultado aí está: João Hélio, Lia Friendbach e mais oitocentos mil nomes de ricos e pobres que padeceram com a violência estúpida, brutal.

Não é possível crer que todos os jovens bandidos sanguinários deste país sejam vocacionados para o mal, o crime e a podridão desde a nascença. Há algo de errado não somente neles, mas na nossa sociedade. E muito. Um mar de hipocrisia que, se quisermos evitar que se transforme num tsunami, precisamos agir desde já. Tolos os que acham que mudanças nas leis resolvem o problema; mais ainda, os eternos repetentes do raciocínio que defendem o Estado totalitário: o que se precisa é de um choque no comportamento da sociedade.

O Brasil é maravilhoso sob vários aspectos.

Noutros, chega a assustar, dada a cegueira mental de parte da dita “classe média”, que pensa no seu conforto particular e dá uma banana para o resto.

Todos os dias, brasileiros são mortos por tolices, crimes imbecis, estúpidos, sem nexo.

Ontem, perdemos um de nossos grandes artistas por nada.

As ruas cheias de drogas, o tráfico financiado por grandes empresários e partidos políticos que se dizem moralizadores e democratas.

Não há outra palavra a dizer. Puto. O bárbaro assassinato de Glauco me deixou muito puto. Não há um sujeito que conheça o trabalho do espetacular cartunista e nunca tenha dado gargalhadas com seus personagens ou reconhecido seu traço fantástico.

Glauco, Laearte, Angeli, Adão e outros tantos antecessores como Jaguar e Ziraldo formam um imenso grupo que, com seu talento e humor, tem uma característica comum: a de, através da arte, apontar as mazelas do Brasil. Fazer o Brasil olhar para o próprio rabo e, se for, o caso, rir. Só que boa parte do Brasil hoje não olha para o próprio rabo: enquanto viúvas lacerdistas celebram a “ditadura” de Cuba, fingem não olhar a ditadura que nós mesmos nos metemos – a da violência cozida na miséria, regada a drogas baratíssimas com alto poder de auto-destruição, que passou a ser organizada com todo rigor a partir daquela outra ditadura imbecil, a de 1968, que nos pôs na lona e até hoje engessa a nossa mobilização... que precisa ser muito, mas muito maior do que meia-dúzia nas manhãs da Delfim Moreira.

Hoje à noite vai ter baile funk. Vai ter estupro e assalto.

Algum pateta na Guanabara vai suspirar com a “inteligência” de Diogo Mainardiota (oxímoro), a “crítica” de Jabor, antes de chamar Lula de “analfabeto” para, somente mais tarde, deitar no berço esplêndido da imbecilidade burguesa. E não vai enxergar que ele mesmo, pateta, ajudou a alimentar o mar de violência e hipocrisia onde estamos à deriva.

Glauco, descanse em paz. Uma pena que a burrice do Brasil tenha sido co-autora do crime contra você.

Paulo-Roberto Andel, 12/03/2010

Tuesday, March 09, 2010

PROFECIA TITÂNICA



















O fato de ter levado o concretismo para o pop-rock brasileiro já seria suficiente para canonizar os Titãs. Mas eles foram bem além disso. "Miséria" é um retrato de 1989 que ainda não se apagou da memória do Brasil, ainda mais num momento de ano eleitoral em que vivemos - os cegos daquela época ainda acreditam, em sua total falta de acuidade, que a justiça social se faça com demissões, livre mercado, remoções e controle de natalidade, sem levar em conta educação e estado democrático de direito (o que se torna ainda mais rídículo quando se sabe que aquelas idéias de cunho nazifascista são defendidas por assalariados - os primeiros a naufragar em qualquer sociedade "né-ô!-liberal"). A burrice, infelizmente, é democrata, plural e heterogênea. A música dos Titãs, tão infelizmente quanto, ainda é para poucos.

Paulo-Roberto Andel, 08/03/2010


miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
índio, mulato, preto, branco
miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
miséria é miséria em qualquer canto
filhos, amigos, amantes, parentes
riquezas são diferentes
ninguém sabe falar esperanto
miséria é miséria em qualquer canto
todos sabem usar os dentes

riquezas são diferentes

miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
miséria é miséria em qualquer canto
fracos, doentes, aflitos, carentes
riquezas são diferentes
o sol não causa mais espanto
miséria é miséria em qualquer canto
cores, raças, castas, crenças

riquezas são diferenças

a morte não causa mais espanto
o sol não causa mais espanto
a morte não causa mais espanto
o sol não causa mais espanto
miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
cores, raças, castas, crenças

riquezas são diferenças

índio, mulato, preto, branco
filhos, amigos, amantes, parentes
fracos, doentes, aflitos, carentes
cores, raças, castas, crenças
em qualquer canto miséria
riquezas são miséria
em qualquer canto miséria

(paulo miklos/ sergio britto/ arnaldo antunes)

Friday, March 05, 2010

A MISÉRIA MORAL DE EX-ESQUERDISTAS


EMIR SADER

Do site Agência Carta Maior.

"Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita – como se dissessem: “Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade – em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.

O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais – e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.

O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam – às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele “veneno” que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”, sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.

Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do “socialismo”, do “totalitarismo”, do “stalinismo”.

Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.

Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o “totalitarismo”, em cada política social a “mão corruptora do Estado”, do “chavismo”, do “populismo”.

Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a “democracia” contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o “perigo comunista” – sem o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás do PAC, do Minha casa, minha vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma – “uma vez terrorista, sempre terrorista”.

Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.

Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandando no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro."

O FIM DO MUNDO (A APOTEOSE DA IDIOTIA)



Por mais que seja conservadora, perversa, míope e anti-social, a meu ver, a ojeriza ao sistema de cotas deve fazer parte do jogo democrático e da dialética. Entretanto, INCONCEBÍVEL é Demósthenes Torres - que aqui sequer merece o tratamento de Senador - manifestar-se com brandura diante de centenas de crimes e covardias, especialmente os cometidos contra os escravos. Ora, bolas, então se os estupros foram consensuais na visão de um líder do DEM, então porque prender traficantes? Vão acabar dizendo que as jovens moradoras de comunidades carentes gostam de ser estupradas... e as pessoas são assaltadas e mortas nas ruas porque agem consensualmente com o crime - quem manda saíremr de casa?

Os eleitores negros que vierem a reeleger este político não podem receber outra pecha que não a de IDIOTAS. O mesmo vale para qualquer eleitor branco que se diga progressista e empenhe seu voto para este tipo de argumento. Aliás, qualquer pessoa de bem, minimamente informada, não votará num sujeito que afirma tal sandice. Nem todo mundo se deixa levar por imbecis capatazes das grandes corporações como Mainardiota, Reinaldérrimo Azevedo e outrem. Felizmente, a apoteose da idiotia e o nazismo enrustido de políticos brasileiros não hão de triunfar.

Paulo-Roberto Andel

******************


DEM corresponsabiliza negros pela escravidão

Escravo foi principal item de exportação na África, diz senador na 1ª audiência no STF sobre cotas / Democrata considera inconstitucional sistema de cotas raciais; audiência, que vai até 6ª, decidirá se sistema continuará em vigor no país

LAURA CAPRIGLIONE - ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA
LUCAS FERRAZ - DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Para uma discussão que sempre convoca emoções e discursos inflamados, como é a das cotas raciais ou reserva de vagas nas universidades públicas para negros, a audiência pública que se iniciou ontem no Supremo Tribunal Federal transcorreu em calma na maior parte do tempo. Até que um óóóóóóó atravessou a sala. Quem falava, então, era o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que se esforçava para demonstrar a corresponsabilidade de negros no sistema escravista vigente no Brasil durante quatro séculos.

Disse Demóstenes sobre o tráfico negreiro: “Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (…) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da pauta econômica africana.”

Sobre a miscigenação: “Nós temos uma história tão bonita de miscigenação… [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual.”

As referências à história “tão bonita” da miscigenação brasileira, ao negro traficante de mão de obra negra, o democrata usou para argumentar contra as cotas raciais, já adotadas em 68 instituições de ensino superior em todo o país, estaduais e federais. Desde 2003, cerca de 52 mil alunos já se formaram tendo ingressado na faculdade como cotistas.

O partido de Demóstenes considera que as cotas raciais são inconstitucionais porque, ao reservar vagas para negros e afrodescendentes, contrariariam o princípio da igualdade dos candidatos no vestibular.

Na condição de relator de dois processos sobre o tema (também há um recurso extraordinário interposto por um candidato que se sentiu prejudicado pelo sistema de cotas adotado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, decidiu convocar a audiência pública, que se estenderá até sexta-feira, com intervenções pró e anticotas.

A audiência pública é uma forma de as partes interessadas levarem seus pontos de vista ao STF. Segundo Lewandowski, o assunto será votado ainda neste ano. Se considerar que as cotas ferem preceito fundamental, acaba essa modalidade de ingresso no sistema universitário. Se considerar que são ok, a decisão sobre adotar ou não uma política de cotas continuará a ser dos conselhos universitários.

No primeiro dia, falou uma maioria de favoráveis às cotas, em um placar de 10 a 3. Falaram representantes de ministérios e de universidades favoráveis às cotas, e os advogados do DEM e do estudante gaúcho, além de Demóstenes.”


Discussão e acusações de racismo marcam primeiro dia

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA SP

Uma quente discussão sobre o sistema de cotas e acusações de racismo marcaram o primeiro dos três dias de audiências.

Natália Maria, 22, negra, é aluna cotista de ciências sociais da UnB. Ela acusou um cinegrafista da TV Justiça e uma moça do cerimonial do Supremo de tratamento racista após pedir que não fosse filmada.

“Falaram que estava fazendo showzinho. Foi um caso clássico do que enfrentamos no dia a dia, espécie de racismo velado.”

A causa foi uma discussão entre ela e Marcel Van Hatten, 24. Loiro de olhos verdes - é filho de holandês e descende de alemão -, Marcel, formado em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é contra o sistema.

“Por que o branco pobre não tem o direito de usar as cotas? A nós, brancos, não pode ser imputada uma dívida que é histórica. Temos de olhar para a frente”, disse ele.

“O racismo impede as pessoas de disputarem postos de poder”, rebateu Natália. “Numa seleção de emprego entre uma colega branca e eu, negra e pobre, não tenho a menor dúvida de que ela será escolhida.”

Para Van Hatten, racistas são as cotas, que “dividem a sociedade e beneficiam só os negros”.

O STF não recebeu queixa.

Wednesday, March 03, 2010

A BATALHA FINAL (CONFRONTO)




cérebros e fronteiras
fitam-se como ateus:
um descrê do outro,
um diante do outro.
ambos, tão humanos,
ao se esbarrarem
celebram o estranho

conjugar da vida -
e tudo tão longe,

o longe de se verem
com nenhum vestígio
da existência de deus.

ainda assim, rezam.

paulorobertoandel03032010

Friday, February 26, 2010

AUTÓGRAFO

(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)













paulorobertoandel25022010

Wednesday, February 10, 2010

CÉU (unreleased) / DESPISSE (review)

I

é céu
e nem por
isso
quer dizer
que
seja seu:
é céu,
somente céu;
mora longe,
no alto,
quase
inalcançável
que não seja
pela
imaginação
do homem.
é céu
e dizem ser lindo,
promessa do bom
do dia,
mas também é lindo
quando se perde,
se adoece
e morre –
daí, talvez
a estranha
sensação
de que beleza
e felicidade
nem sempre
andem de mãos dadas
flanando
numa calçada
florida.
é céu,
é longe;
admiremos
a beleza
que estampa
sob respeitável
distância:
colírio
à primeira vista,
mistério
que não cabe
decifrar.


II

que se despisse da mágoa

que se despisse da perda
do encanto
sem deixar o espírito
se dissipar
em qualquer lufada-
nem mesmo uma rajada

que se despisse do vazio
da vida inventada,
sem perseverar
fantasias vulgares,
nem permitir
a insensatez da falácia

que se despisse
do desejo não-recíproco,
doentio e apático,
incapaz de recobrar
velhas imagens
caleidoscópicas,
lunares,
num ritual estrambótico

que se despisse de si,
sem ardor nem amém,
sem jamais ou porém;
que se libertasse,
que progredisse;
que, de vez, amasse!


Paulo-Roberto Andel, 10/02/2010

Tuesday, February 09, 2010

PROSA DO CANSAÇO (OU OTTO MAXIMILIANO)



Estou cansado. Otto me oferece uma trilha sonora para esta terça de verão arábico. Lá fora, um mundo cheio de fantasias e desgraças, entre céu lindo e esgotos nas veias de concreto abertas. O corre-corre e o clingue-clangue das ruas cansam. O egoísmo e a indiferença dos outros uns para com os outros me cansam. A verborragia oca dos que proclamam o fim do Brasil, em prol de ressuscitar um cadáver como o de Fernando Henrique Cardoso me cansa, absolutamente. É a cegueira, a miopia, a falta de acuidade desfraldando a apoteose da ignorância, e isso me cansa. A mofada notícia sobre os perigos da dengue; a insistência em se impor a Zona Sul como a única face do Rio; o tráfico que estupra e corrompe no Turano; a falta de profundidade em se discutir as questões; a previsibilidade da opinião dos capangas do grande capital; tudo celebra meu cansaço. Janelas, não há. Temperatura ambiente, travestida com um velho circulador e um ar-refrigerado longe de seu auge. Juliana não me sorri. As canções de Otto são doces e pesadas, capazes de atenuar parte da fadiga. Um Carnaval à vista com seus baticuns, um Ano-Novo que começa a seguir. Querem um mesmo velho campeão novamente, para que o dinheiro impere com amor. Ao menos, em algum lugar desta cidade, que é recheada de mulheres bonitas, alguém se refestela com o brilho de estrelas entrangeiras: Beyoncè, Madonna, Alicia. Porém, o resto me cansa. Noutros tempos, éramos mais profundos e dedicados e solidários, sem acharmos que toda a nossa compaixão e fidalguia pudessem ser limitadas ao MSN, ao celular e outras eletromídias; hoje, o que nos resta é a inevitável solidão humana de joelhos diante da fraternidade tecnológica. Nem os loucos não-tratados escapam: usam falsas identidades para mostrarem as piores faces do quase-ser humano. Que dizer dos bobos que se dizem liberais? Basta pensar no Haiti; aliás, país já varrido dos interesses noticiários: deu o que tinha que dar; lucraram e, agora, que os miseráveis se virem. O que dizer dos que leitores que não sabem explicar o que leram, ou os que leram numa linguagem particular hermética, incompatível com o que tinha sido escrito? Estou cansado. Otto canta que, para morrer, é preciso existir. Estamos diante de um invencível verão em seu apogeu, se é o que sei dizer. Talvez cem mil pessoas se divirtam na beira-mar, enquanto alguns milhões trabalham e trabalham e trabalham até que o sol seja pouco. Soube que três trabalhadores foram assassinados por bandidos durante o expediente; a empresa empregadora limitou-se aos pêsames, e isso quer dizer bem o que somos hoje: um batalhão de estranhos, num salve-se-quem-puder e o-que-importa-sou-eu-mesmo. Estou cansado. O Banco Itaú lucrou com o nunca no último quadrimestre. Parece ordem e progresso, para poucos. O telefone toca, não posso atender. Mensagens inúteis estampadas no computador – não vou responder. É preciso ter amigos, mas poucos – quem diz ter muitos, na hora da verdade não tem nenhum. Recordo dos tempos de bar, quando tudo se aprendia com os mais velhos, sábios de rua, que faziam questão de compartilharem suas experiências. Recordo Copacabana numa terça à tarde, quando eu corria dedicadamente e me sentia tão bem. O Lido, o Leme, o Bairro, tudo tão perto, vivo, mas ao mesmo tempo tão distante. Certa manhã, acordei de sonhos intranqüilos – era Kafka. Hoje, numa tarde que não sabe dizer o futuro, Otto alivia meu viver. Nem é tão relevante o fato de que ainda estou cansado. Não é relevante lembrar da estupidez humana que se manifesta a cada expiração. Quero apenas lembrar desta tarde de cansaço como algo que me fez pensar nos meus, nos outros e no todo, coisa que cada vez vejo mais rara fora de mim mesmo, e isso não é bom. Talvez seja de meu eterno inconformismo com o dar-de-ombros daquele todo contra os que precisam esmolar. Talvez seja humanidade, nem no melhor e nem no pior sentido da palavra. Talvez seja somente uma tarde de céu romanticamente lindo para meia-dúzia e sacrifício para a enorme plebe. Isso me torna cansado. O que me resta é a diferença. O outro lado da tarde ensolarada. Uma canção de Otto.

Paulo-Roberto Andel, 09/02/2009

Friday, February 05, 2010

TRATADO GERAL DOS IDIOTAS - PARTE I


(ou... por que Diogo Mainardiota honra seu nome?)

Neste Brasilzão de anticomunistas nazistas, neoliberais que ganham salário mínimo, estelionatários que protestam contra corruptos, moralistas que sonegam impostos, analfabetos que votam em seus algozes e outras tantas categorias exóticas, vale a pena reviver um verdadeiro esplendor da idiotice como verdadeira faca afiada contra nosso individualismo, nossa falta de senso crítico e, principalmente, contra nossa eterna insistência em mitificar seres medíocres com a medalha (de lata) da intelectualidade.

Fazia tempo que o grotesco personagem não dava as caras por aqui. Entretanto, nunca é demais lembrá-lo: é recordar de como o Brasil é manipulado, subvertido e, principalmente, trucidado por gente sem-caráter que só vê nos benefícios próprios o que se chama de "progresso". Além do mais, como o nazifascismo do dito cujo só aumentou com o tempo...

O texto fala por si. Melhor dizendo, late.

Cada um com as devidas conclusões.


http://veja.abril.com.br/131102/mainardi.html



Chega de Drummond
por Diogo Mainardi

"João Cabral me alivia da pieguice
de Drummond, de seu sentimentalismo
ginasiano, de seu lirismo kitsch. Mas não
há o que fazer contra sua prosa. Ali ele
aparece em toda a sua constrangedora
banalidade, com aquelas historinhas jecas"

"Drummond, Drummond, Drummond. Para onde quer que se olhe, Drummond e mais Drummond. Em Copacabana, celebraram seu centenário com uma estátua. Em Piracicaba, roubaram uma sua caricatura. Em Itabira, sua cidade natal, crianças foram obrigadas a declamar seus versos para os turistas. Pelé gravou um CD com suas poesias. Luiz Felipe Scolari citou-o em suas memórias. Uma moeda foi cunhada com sua efígie. Ele inspirou espetáculos de dança e foi mencionado em receitas de tutu à mineira. Até Lula apareceu com seus livros debaixo do braço. Com ar doutoral, disse que ajudavam a prepará-lo "espiritualmente" para a Presidência.

Foi tanto Drummond que acabei enjoando dele. Basta ouvir seu nome que começo a tremer e a suar frio. O antídoto mais eficaz contra essa ressaca de Drummond é uma dose maciça de João Cabral de Melo Neto. Leio-o todos os dias. Alivia-me da pieguice de Drummond, de seu sentimentalismo ginasiano, de seu lirismo kitsch: "Amor é estado de graça", "Amor foge a dicionários", "Amor é primo da morte". Quer mais? "O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar", "Quem tem amor tem coragem", "O amor bate na aorta". Ainda mais? "Amar é o sumo da vida", "Amar se aprende amando", "Vamos conjugar o verbo sempreamar".

Se João Cabral de Melo Neto atenua os efeitos nocivos da poesia de Drummond, não há o que fazer contra sua prosa. Ali ele aparece em toda a sua constrangedora banalidade, com aquelas historinhas jecas sobre o Dia das Mães, sobre o Dia dos Namorados ou sobre os velhos bares no interior de Minas Gerais. Numa crônica de Natal, ele sonha com o dia em que o "mundo será governado exclusivamente por crianças". Numa crônica em homenagem a Chico Buarque, escrita em 1966, ele proclama que nunca foi da Arena ou do MDB, mas "desse partido congregacional que encontra na banda o remédio". Quando convinha ser de esquerda, porque todos os poetas o eram, Drummond fazia poesia de esquerda. Quando o clima piorou, e os esquerdistas começaram a ser perseguidos pela ditadura, ele achou melhor pular fora, escrevendo sobre minúsculos acontecimentos do dia-a-dia. Aquilo que foi pomposamente apelidado de metafísica do cotidiano. Ou seja: nem Arena, nem MDB.

Nos manuais de literatura, Drummond é louvado por sua ironia. É uma ironia amável, benévola, cúmplice, que se esforça para confortar e apaziguar, sem jamais correr o risco de ferir o leitor. De fato, ele é prevalentemente auto-irônico. Ironizando a si mesmo, Drummond evita atacar o próximo. A auto-ironia, porém, é sempre um exercício de falsa ironia. Em 1930, quando se define um "gauche", ele demonstra ser tudo menos um "gauche", usando muita astúcia e habilidade para conquistar seu espaço no ambiente literário nacional. Mais tarde, quando julga "insignificante" seu poema mais famoso, "No meio do caminho", ele tem a certeza de que ninguém irá concordar. A seguir, quando ironiza sua frivolidade, seu provincianismo, sua teimosia em tratar de assuntos menores, ele sabe que está num terreno seguro, tendo sido aclamado por causa disso pelos maiores críticos do país.

Chega de Drummond. Pelos próximos dez ou quinze anos, é melhor ficar longe dele."

Minha opinião senta praça numa única palavra: bizarro.

Monday, February 01, 2010

Uns pretos



um preto
não é filho de um preto

e somente
um preto é tão preto
como também é branco e vinho
é cinza e roxo
ou gris
um preto é tudo da gente
que respira e quase ri
trabalha mas não têm
padece e ferve o crer -
água de fé na outra vida!
a que não é toda azul
nem rosinha
e que pode ser um tanto preta
mas, na verdade,
tem a mais evidente
e translúcida
das cores que sabemos ver:
por ora, nenhuma.



paulo roberto andel 01/02/2010

Wednesday, January 13, 2010

CORTES


1

Quem há de alimentar nuances românticas
Diante da aponevrose siamesa da carne especulada
Em seu vermelho vivo de morte, sob a égide de um gancho
Banhado em mar-de-prata?
Os que celebram féretro feito banquet.


2

ao riso que não souber
ser
pranto
por um dia,
resta que se faça espanto
que se veja estreito -
nobre recruta à nostalgia
nem que seja
por um
momento


3

daquilo
que não fira a pátria
pode suceder
um fruto carnoso
e aprazível
disfarçado
de sociedade.
quem irá cortá-lo?


4

não sou nau
de beira-mar
a navegar no raso –
um passo em falso
rumo ao fútil

só oceanos
têm meu anseio,
todos à profundeza
extrema
que só se vê
no volátil


5

minha melhor definição é dizer
que não sei decifrar a cabeça
que me pertence:
mais fácil é sempre tentar desenhar
o engano do outro
da outra cabeça
que pode ou não desacontecer


6

Mausoléu

Abro o álbum e Tatiana parece tão linda como sempre, com seu sorriso de mistério inglês, olhar de pedra preciosa e nariz romano, devidamente disfarçada com certo chapeuzinho que lhe dei. Há um carnaval e um Brasil cheio de velhas novidades, a desfraldar as bandeiras do futuro, muito distante do logro que se vê. E Tatiana parece linda e jovial, linda e delicada, mais-que-linda a ponto de me fazer esquecer, por uma fagulha de momento, que está morta. A realidade a saltitar nas veias é arma lancinante contra meu peito. A beleza de sua voz nunca mais ecoará em meus ouvidos, com as frases curtas, estudadas e temperadamente poéticas. Os arredores não sinalizarão o corpo pequeno e farto de predicados. Sejam abraços, carinhos ou pequenos gestos de amor, tudo se faz e fará milimetricamente desintegrado. A doçura das mãos tímidas, envoltas em pele sedosa e tão confortantes, capazes de massagens santas, será apenas ausência. Nada por perto, longe ou do outro mundo me permite a esperança de sua existência e, se estivesse em outros lençóis, oferecendo dádivas de paixão, continuaria sob a plenitude da morte. E mesmo que fosse ainda mais linda, bem-sucedida, exata e permanentemente feliz, não disponho dos meios de resgatá-la da condição morta. E mesmo que as flores estivessem mais escarlates e vívidas do que nunca, o perfume exalado me lembraria de que está morta. Penso na injustiça de não mais vê-la, escutá-la sequer num bom-dia fugaz. Penso num coração que já não sonha e nem decora estrofes; penso nos seios dionisíacos que não mais ousam intumescer, nos cabelos de metal nobre e camomila que não mais sugerem afago e mais: meu lamento é saber que este momento não sugere mágoa, torpor, desrespeito ou desejos quaisquer que estejam mal-resolvidos – o que ele diz, na verdade, é de toda a fragilidade que ronda nossa carne e nossos pensamentos neste intervalo chamado vida. Seria mais fácil viver um rancor do que a insanidade cotidiana desenhada nas agruras do mundo, que simplesmente o é. Também não cabe esculpir uma saudade. Afinal, os livros vão nascer e cada um de seus poemas voará por corações solitários às brisas. Aos vivos, caberá o sofrer; aos ricos, um milionário licor de gosto vazio. Haverá risos nas tabernas, enquanto a injustiça semeará ruas. Haverá vida. Entretanto, Tatiana está morta, e só lhe cabe a ressurreição em pequenos escritos e lembranças esparsas, todas de tamanho equivalente às que findam o momento espalmado de visar esta fotografia. Tatiana está morta e seu mausoléu é um retrato. Quero apenas um troféu, feito de ver a dança de Juliana.


paulorobertoandel13012010

Monday, January 11, 2010

CARNE BAILE



é o calor de veraneio

à madrugada
que me deflora
enquanto cobiço
tua carne
teus lábios de Estocolmo
teus cabelos de cereja nova
e os seios
a me adormecer em êxtase
a carne que me inebria à dança
o corpo que meu sonho
persegue à sede peregrina
mesmo que outros lençóis
te façam cortejo
flama da paixão que tinge o sexo
o calor que me deflora
é almejar o gosto da tua pele
do teu beijo
e beijo
e carne e baile à lascívia
o calor
é teu ventre liso
que meu olhar fulmina
feito horizonte
do oceano
é tudo carne e baile!

paulorobertoandel11012010

Friday, January 08, 2010

ESTRICNINA 2010


ligeira, a moça
com seus firmes passos
de juventude

ao sabor da lida

atravessa o boulevard
enquanto
olhares de lascívia
e doçura, atrozes,
escorrem
nas pedras portuguesas

alguns denotam-lhe
tesão, prazer, perdão,
mas nenhum tem

o macete da rima -
tão-somente

uma empolgação
de sugerir
certo clima

outros, rejeitados,
sorvem o gosto amargo
da vã desilusão -
é a contramão,
fel à vista,
ametista

temperada com
estricnina


paulorobertoandel08012010remix



Thursday, January 07, 2010

UMA TAREFA DO POEMA



o poema pode

ser
patético
ou
lunático
ou mesmo
intrépido,
desde que
olhe sempre
para o novo
à frente,

o rebuscado
mesmo que
simplificado.
o que
não cabe
ao poema
é ser
caquético
ou
prático.
o poema
não merece
nascer
com sabor
de café
passado.
o que
o poema
deseja
nas entranhas
é despir
e revelar
o inusitado.


paulo
roberto
andel
07012010

Wednesday, January 06, 2010

A GROTESCA IMAGEM DO NEOFASCISMO NO BRASIL



Não precisamos de neofascistas na televisão e em nenhum outro lugar do Brasil ou do mundo.

Não precisamos de gente que ridiculariza os pobres.

Não precisamos de lacaios da direita nazista que torturou e matou civis no Brasil durante a ditadura militar.

Não precisamos de verborragia rasteira temperada com efeminação senil.

Não precisamos de Boris Casoy para nada. NADA!

Este blog reitera sua solidariedade aos garis, camelôs, biscateiros e outros milhões de brasileiros que lutam com suas forças de trabalho diariamente para o próprio sustento e o de suas famílias. E despreza com rigor pseudo-gente que se julga superior por ter vendido a própria alma a benesses e imundícies.

O pior dos garis de todo o Brasil é cem vezes mais digno do que Boris Casoy.

O lixo que qualquer gari recolhe nas ruas e vielas do Brasil é muito mais digno do que Boris Casoy.

Que o inferno lhe seja aprazível.


Tuesday, January 05, 2010

ARTE MÃE





















Poucos têm a sorte de ter a própria mãe retratada numa obra de arte.

Eu tive.

Ao pintor, cabe todo o agradecimento. Contudo, uma ressalva: perto da imagem real, a pintura da minha mãe chega a estar feia...

Paulo-Roberto Andel, 05/01/2010