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Thursday, March 25, 2010

FRED















Era hora da noite, era calor e frio ao mesmo tempo neste outono desenfreado e lembrei de meu velho amigo Fred.

Lembrei e relembrei tanto num momento que, subitamente, apanhei um CD da velha banda que escutávamos quando tínhamos uns nove ou dez anos, talvez. Naquela outra época, era LP, de capa grande e um desenho do qual eu tinha medo; faz muito tempo, o tempo que eu tinha medo de um desenho. Ninguém conhecia aquilo e nem sei de onde o Fred tirava aqueles coelhos se não usava cartola. Na capa, gnomos, gente decadente, um unicórnio. Eu tinha medo, mas achava as músicas legais, mesmo que parecessem um pouco tristes. Era nossa diversão da tarde, entre um e outro jogo de botão. Também tinha a pizza quadrada, inventada por ele; nós mesmos fazíamos a massa. Para beber, suco de caju. Sábado era dia de Chacrinha; mais tarde, viramos escoteiros e o mundo mudou. Durante a semana, pós-escola, futebol de botão na sala, dupla de praia na areia. Na volta do escotismo, coisa de garotos: vinho Cantina São Roque com biscoitos de travesseirinho de queijo. Tudo muito antes de um conhecido nosso virar transex. Debaixo da cama, um gavetão com todas as Playboys do mundo. Certa vez, Fred cogitou reclamar no Procon porque comprou uma revista sem título cuja modelo de capa parecia muito com a Natália do Vale; claro, no conteúdo, era outra coisa. O porteiro Ailton, irmão de Agnaldo, nos infernizava e ria: acho que gostava da gente.

Com o passar dos anos, veio adolescência. Fred embarcou na direita, eu era da extrema-esquerda. Era, não: sou. Serei. No fundo, tudo cristianismo: pensar no próximo, no mais pobre, na miséria do mundo que nos cerca. Juntamos uma turma da pesada: surgiu Gustavo, Jorge Pinto passou a freqüentar, Luiz Magno direto, o Marco já era nosso, assim como Ricardinho, cuja casa era uma espécie de clube de campo, filial do Fred. Uma enxurrada de meninas também. Dona Magda trabalhava praticamente o dia inteiro, de modo que a casa do Fred virou nosso quartel-general. Em tempos de poucos telefones e nenhum celular, o da casa era para recados de todo mundo: “Fulano, te ligaram confirmando o futebol mais tarde nos Bombeiros”. Muitos discos, alguns livros, um show de televisão, muita conversa fiada de alto nível e o jogo de botão (que nunca abandonei) foi trocado por rodadas de carteado, mais precisamente “mau-mau”. Entrei para faculdade, a casa era minha sala de estudos, entre canções do Kraftwerk, Alan Parsons e uma novidade juvenil chamada Guns n’ Roses (numa tarde de competição baralhística, a mesa de jogadores foi à loucura quando Gustavo quis debater Estatística comigo). Não tinha muito jogo na televisão, mas víamos alguns. A estupenda série “Grande sertão: veredas”, vimos toda. Um luxo ter Guimarães Rosa na tevê. Também tinha Flávio Cavalcanti, antes de ser tachado de fascista ou de protetor de comunistas: a verdade sempre tem dois gumes, no mínimo.

Colocando na tabuada, uns treze, catorze anos. Uma vida.

Um belo dia, Fred se mudou. Foi num sopetão. Um golpe. Passei tantas horas dentro daquele apartamento 1346 do Bloco F que, pensei, ele nos pertencia por direito. Ledo engano. Tudo tênue e rápido, feito a própria vida. Depois, mudou para um prédio e outro prédio e outro prédio. Eu também me mudei, Copacabana virou lembrança. Fomos trabalhar, tocar a vida e a distância numa vida sem internet ou outras modernidades nos custou treze anos de exílio. Perdemos o contato, até que um dia, graças aos e-mails e orkuts da vida, fizemos um almoço de domingo na Cobal da Humaitá. As amizades estavam intactas, faltava reatar a intensidade.

No pior dia de toda a minha vida, após o enterro de minha mãe, o Fred estava lá, atordoado. Segundo os que testemunharam minha tristeza, ele parecia mais transtornado do que eu. Acredito. Minha tristeza é infinita, mas eu estava completamente entorpecido pela dor. Ele, mais lúcido, via naquilo o horror que era um marco do fim da nossa juventude. Dia desses, éramos garotos fazendo pizza quadrada e esperando a sessão da tarde. Ali, éramos garotos, garotos mesmo, com os vincos da vida e de frente para a morte. Uma quinta-feira.

Sábado, toca o telefone. Do jeito que podia, lá estava o velho Fred preocupado comigo e querendo me convidar para sair – logo ele, a pessoa mais caseira que conheci. “Vamos no Rio Sul, cara, ver as gatinhas”. Era o jeito amigo dele de tentar me consolar. E esse consolo durou dois anos seguidos, semanalmente, com inúmeras preocupações dele por eu ter me tornado “alcoólatra” (com dois chopes por quinzena); minha réplica era nos maços de cigarros que ele consumia incessantemente. Havia um novo apartamento na Figueiredo Magalhães; não sei explicar como, a casa até podia ser outra, mas o ambiente, o clima, era literalmente o mesmo. Agora com uma gataria danada e Dona Magda, digna e merecidamente aposentada. Não havia mais o mau-mau das tardes, mas os lanches e a conversa fiada resistiram bravamente. Deu tempo de ver as tragédias aéreas, o Pan e lá estava de novo, firme e forte o velho Fred quando perdi meu pai, um ano e pouco depois. Se eu tivesse crença, iria achar que estava tudo programado: as dores surgiriam no meu caminho, e caberia ao Fred estar do meu lado, do jeito que era naquela já distante infância. Veio o fim do ano e mais uma mudança: enchi o saco dele para que comprasse um imóvel. Fiz as simulações eletrônicas, mostrei os planos, ele se animou, embora visse com maus olhos se tornar um tijucano depois dos quarenta anos, coisa que bem entendo. Fiz uma viagem ridícula perto do Natal, me despedi para sempre de uma mulher ridícula, virou o ano e, depois de dois meses, finalmente fui conhecer a nova casa que viria a ser a minha velha casa de sempre, a casa do meu amigo, uma casa tijucana. Que fosse noutro bairro, com a vista de outro morro, desimporta: era o quarto, o computador ligado no simulador de vôo, a televisão fincada no History Channel. E muita fumaça de cigarros convencionais. Rimos, rimos, falamos de coisa séria, Fred agora defenestrando o PT.

- Cara, tou com uma dor no braço que ta ródia.

- Pois é, eu que sou alcoólatra, né? Que tal ver isso no médico logo? Pode ser alguma coisa do coração.

Mais tarde, descemos para lanchar no Bob’s. Meu amigo Leo, que muitas vezes me traz de volta a alegria da juventude, estava contente: acabara de pegar um táxi novinho em folha para trabalhar, era seu primeiro dia. Me ofereceu uma carona, chamei-o para o sanduíche. Leo e Fred fanáticos por aviação, bom papo na certa. Durou uma hora de conversa e ainda fizemos pilhéria de nós mesmos quando demos carona ao Fred, que estava a cinqüenta metros de casa. Eu não tinha a menor noção de que era a última vez na vida em que estava compartilhando lazer com meu velho amigo de infância.

A dor no braço exigiu uma internação que durou quinze ou vinte dias, até que os malditos cigarros nos derrotaram para sempre. Nossa despedida foi muda: nem adeus, nem até breve. Derrota injusta, muito antes da hora e imperdoável para quem já tinha ficado sem família e sem Xuru.

Daqui a pouco isso, o nocaute, vai fazer um ano. Os trinta anos de antes eu lembro como nunca. São muito maiores do que a derrota recente.

O disco da velha banda com gnomos na capa não para de tocar no pensamento.


Paulo-Roberto Andel, 25/03/2010

Friday, March 19, 2010

SERRA? NÃO. PSDB? JAMAIS!













A pouco mais de seis meses das eleições presidenciais brasileiras, ainda não tenho a certeza absoluta de meu voto, pela primeira vez deste que esta república democrática me permitiu a condição de eleitor.

Ele está encaminhado, muito bem-encaminhado até, mas não absolutamente decidido.

O que sei é que será um voto progressista, voltado para a maioria da população, que é humílima (quando não, miserável), ignara (contra a vontade íntima, ressalte-se) com uma trajetória de muitos anos abandonada à própria sorte (os menos letrados diriam que é o “destino”). Nem poderia ser de outra forma: parente de comunistas, criado por mais humildes que transitaram entre pobreza e riqueza, fugitivo da polícia nazista do AI-5 aos oito DIAS de idade por conta de “crime de associação ao socialismo”. O tempo passou, assumi minha não-religião e meu ateísmo, “crimes” considerados “inafiançáveis” em pleno 2010, tempo onde é normal que famosos convivam muito bem com traficantes armados; parlamentares escondam dinheiro público nas meias e digam que “não é bem o que você viu”; a pansexualidade seja vista como algo altamente elogioso e quase uma imposição, quando deveria se tratar apenas de uma opção pessoal. Temos celular, computador e tuíter: falta agora que se aprenda a ler. Bom, lá daqueles tempos de criança, eu ainda trouxe uma única lembrança do que poderia ter sido minha vida cristã: a danada mania de não se negar as origens, o passado e o respeito às memórias dos meus – tudo coisa que, hoje em dia, frente a executivos apressados que pisoteiam mendigos na Rio Branco, neofascistas de raso conhecimento que se tornam “colunistas” de revistas de “opinião” e fanáticos pela monocultura (um só time, um só canal de tevê, um só gênero musical), parece datado, mofado. Eu gosto de velharias.

Não traio os meus e meu passado. Lembro bem quando os militares ficaram chocados comigo quando perguntei a uma professora, numa visita da escola à Urca, porque a praia se chamava “Vermelha”. Era 1974, eu tinha seis anos de idade e quase passei pelo meu segundo B.O., com todo o ridículo contido nesta situação. Dez anos antes disso, o Brasil começava a ser incendiado pelo mar de estupidez que foi o golpe militar de 1964. Contra a ditadura, os mais esclarecidos, os grandes homens da esquerda e os estudantes. A UNE foi incendiada. Seu presidente era o jovem José Serra. Eram tempos de dor e morte, eram tempos de exílio ou prisão. Muitos anos depois, houve a “anistia”: todos os perseguidos livres para voltar à pátria amada (menos João Goulart, claro); todos os militares que fizeram papel de criminosos estavam absolvidos; todos os cadáveres dos torturados estavam desaparecidos. Desse jeito torto, o Brasil entrou na partida preliminar da “democracia”. Não perderei meu tempo com aqueles que ousam afirmar que “houve mortes dos dois lados na ditadura”: não polemizo com imbecis. Em caso de dúvida, a tabuada resolve a questão.

Acabou o bipartidarismo, tudo virou quase festa. A Nova República de Sarney. Tempos depois, nasceu o PSDB, fruto da insatisfação com os cinco anos de mandato do então presidente, mais a expectativa de implementação do regime parlamentarista. Lá estavam os respeitáveis Mário Covas, José Serra e Ciro Gomes. Nem tão respeitável assim, FHC. Num prazo de cinco anos, o PSDB perdeu a liderança de Covas, Ciro pulou e o partido, conhecido durante anos pela política “em cima do muro”, que consistia em não fechar alianças com progressistas e conservadores, ao descer dele, juntou-se ao que havia de pior na política do país: o PFL, ex-PDS, ex-ARENA, ex-UDN e, hoje, com toda a ironia possível, chamado de “Democratas”. O partido dos oligopólios, da tirania ruralista, da TFP e de tantas mazelas para o Brasil tornou-se o braço direito dos “neoliberais”. Governaram juntos, enamorados de mãos dadas.

Veio a euforia do frango a um real (com salários congelados em 20 de junho e preços congelados em 30 de junho, com cinqüenta por cento de inflação ao mês), da estabilidade econômica, do fim da inflação... e, em paralelo, a Teoria do Estado Mínimo: doação das estatais, o caso Proer, o SIVAM, a destruição das universidades públicas e dos serviços de Estado, com reajuste zero aos servidores por quase uma década, culminando com o escândalo da reeleição de FHC FAZENDO CAMPANHA DURANTE O PRÓPRIO MANDATO E MUDANDO A CONSTITUIÇÃO EM PRÓPRIO BENEFÍCIO (hoje, falam de Lula fazendo campanha para Dilma? Ah, ah, ah!). Sob tirania política, o plano de reeleição deu certo; contudo, o fôlego era curto e as pessoas se cansaram. Em 2002, Lula venceu mais pelo desastre dos últimos anos de PSDB do que propriamente pela grande euforia popular; cansada dos engodos do partido dos “intelectuais”, a população que sempre negou a figura do “paraíba” resolveu aceitá-lo. Dos poucos bons momentos do segundo mandato de FHC, neles estava José Serra, em um partido já estraçalhado, dividido entre o alto empresariado e velhos coronelismos, representados pelos nomes de Tasso Jereissati e Arthur Virgílio. A figura de Covas era passado.

Lula ganhou com facilidade, foi reeleito contra planos de golpismo barato às vésperas do pleito (ora, ora, o grande “mensalão” era ou não era, na prática, o “rolo compressor” do governo anterior?) e a resposta veio nos números: o Brasil é, hoje, ainda muito longe do que os brasileiros de bem gostariam, mas é bem distante do atraso do desemprego a um real. Discutir política não é torcer num Fla-Flu; precisa-se mais do que isso. Trata-se de ver números, enxergar o óbvio: a diminuição da miséria, a inserção na escola de uma população infantil ignorada; a geração de emprego e renda nas regiões miseráveis que foram priorizadas pelo Bolsa-Familia. Falta muita, muita coisa. Mas o Brasil caminhou em frente sim.

Entendo que se o jovem José Serra, presidente da UNE, tivesse caminhado junto aos seus velhos companheiros no rumo de um Brasil progressista, inevitavelmente teria que ter deixado o PSDB, tal como fez (corajosamente) Ciro Gomes, que, ao não compactuar com os desmandos de FHC, disputou duas eleições por partidos minoritários, perdeu força, mas não abdicou de combater a doação do Estado feita pelo “presidente dotô” e sua bancada moderna. Tal como parece fazer agora, Serra se calou. Acatou o PFL, acatou ACM, acatou os desmandos. Então, pergunto: se quem cala consente e, por tabela, mantém a situação vigente, o Brasil tem condição de caminhar para o futuro com um presidente de caráter conservador? Foi com conservadorismos e "estadomínimo" que conseguimos decuplicar nossos níveis de emprego? NÃO!

O PSDB foi tão abalroado pela popularidade de Lula que está completamente perdido, só encontrando repercussão na boca de eventuais papagaios repetidores de “textos” da “revista” Veja (mas não leia...) – em suma, palavrões, ataques, deboches vulgares e nada de discussão política. Serra, sem caminho, sem coragem para ter rompido com o conservadorismo e sem coragem para abrir mão de uma campanha fadada ao fracasso, se mantém calado. Seria uma saída digna. Se pretende realmente mudar o Brasil, que deixe este partido nefasto e busque noutra legenda os caminhos que o levaram a ser um bom Ministro da Saúde, à época perdido por ser minoria num partido controlado pelos “democratas” de outrora.

Ainda não tenho certeza se votarei em Dilma. É um caminho natural e o mais viável.

Considero Ciro um excelente candidato. É preciso observar as alianças.

Marina Silva, também, apesar de o PV estar mais “endireitado” do que deveria. Bem mais.

A convicção é uma só: hoje, JAMAIS votarei em José Serra porque NUNCA, NUNCA, votarei no PSDB. Do sangue de onde vim, não cabe ficar em cima do muro para, ao descê-lo, pisar no pântano da direita de 1964 travestida de democrata. Nenhum desgoverno que doe a Petrobrás e o Banco do Brasil pode ser melhor do que o pior momento de um governo do PT, por exemplo.

Não perderia tempo em escrever sobre política xingando José Serra, pessoa a quem considero até admirável sob certos (e poucos) pontos de vista. Isso fica para os cães que ladram enquanto a caravana de Lula passa. Não voto no atraso enrustido de modernidade do PSDB. Jamais votarei. Não jogaria fora trinta e cinco anos de estudos, nem o passado recente do Brasil. Apenas isso.

Brizola vive!


Paulo-Roberto Andel

Friday, March 12, 2010

GLAUCO E OS CEGOS DO CASTELO










Há pouco, sem chance de defesa, Glauco foi fuzilado junto a seu filho.

Muito antes da hora, o Brasil, involuntariamente estúpido pela própria natureza de uma sociedade que preserva o individual em detrimento do coletivo, perdeu um de seus maiores artistas em todos os tempos. Artista na acepção da palavra, sem relação com acéfalos sexistas ou especialistas de PONE que borbulham em televisões, rádios, jornais e Veja (esta, uma ex-revista que só agrada aos endinheirados mais ignorantes da nação).

Quem matou Glauco? O imponderável? Ou um bandido armado, o mesmo bandido que por algum fator exógeno (uso de drogas, sede de riqueza etc) praticou tal barbárie, mas que, naturalmente, não nasceu com o ímpeto assassino?

Ainda estou impactado por ter visto ontem o desespero da mãe de um dos bandidos que matou o lutador Marco Jara, ao se encontrar com a mãe da vítima que, de tão lúcida, chega a nos comover: sabe que a mãe do bandido não tem culpa do que aconteceu. Ou a reprise sobre as adolescentes que são mantidas em cárcere privado pelo traficante sob a alcunha de "Berola": torturadas, seviciadas e estupradas diariamente, todas estão grávidas. Não falo do que ocorre em Paraopeba, Jaguariúna, Nazaré das Farinhas ou qualquer respeitável cidade brasileira. "Berola" é um criminoso em atividade na Tijuca, divisa com o Rio Comprido, a 5 minutos de carro do quartel-general da Polícia Militar e da Adademia de Polícia Civil.

Enquanto somos cercados por todo tipo de violência - que seria infinitamente pior se tivéssemos nas veias o sangue da vingança - os cegos do castelo, em seu deliberado ofício de desocupação, pregam a "sociedade liberal", o "mercado livre", a "competição acima de tudo" e o resultado aí está: num país esmigalhado pela brutal desigualdade econômica e que, somente em anos recentes, teve do governo um mínimo de atenção para com os miseráveis, a todo momento o que se vê nas peças de publicidade é a sugestão do "seja rico", "seja bonito", seja um vencedor". Milhões de jovens ainda nascem sem a menor expectativa de conforto, educação e progresso - a diferença é que, em cado canto do Brasil, tem alguma propaganda praticamente obrigando o minisujeito a ser alguém importante na vida, e qualquer ser dotado de raciocínio sabe que um modelo de "Estado Mínimo" é a cruel antítese desta possibilidade. Algum boçal há de dizer que uma sociedade progressista é bonitinha mas alguém tem que pagar a conta, e quem vai ser? Obviamente, os sonegadores e a iniciativa privada. Quem mais seria? Em suma, temos uma verdadeira máquina de propaganda que impõe o sucesso absoluto para milhões de brasileirinhos que vivem nas piores condições: eles vêem tudo, pouco ou nada podem fazer. Misture-se um coquetel de miséria, maus tratos e, principalmente, desagregação familiar e uso de entorpecentes. Qual o resultado? Gente que mata e nem sabe por quê. Gente que mata e acha normal. Gente que estupra e acha normal. Não é gente, assim como não é gente quem passa na rua e trata morador de rua como se fosse lixo.

Nossa sociedade sofre um processo de mediocrização, exacerbação do individualismo, auto-suficiência e descaso desde décadas. O resultado disso está numa classe oprimida que, de alguma forma, reage e causa muito, mas muito mal. Felizmente, a índole pacífica do brasileiro faz com que estes índices de violência sejam muito menores do que se poderia supor – basta imaginar quarenta milhões de miseráveis famintos, violentos e armados, fosse o caso. Não é assim.

Sempre haverá um idiota capaz de defender a opressão, o nazi-fascismo, a pena de morte e outras aberrações como alicerces de uma “sociedade de respeito”. Estamos condenados a viver a piora desta situação até que o último imbecil totalitário esteja vivo.

O que vemos nas ruas, nos tiros, nos estupros, nos “fornos de microondas”, nas favelas dominadas pelo tráfico, nas grandes vias, no interior é a germinação de uma semente maligna que foi plantada no Brasil e que, mesmo governos moderados de natureza progressista, como o atual, não conseguiram eliminar.

A malignidade de 1968, quarenta e dois anos depois, ainda prolifera nas ruas. A desagregação de nossa sociedade, o fascismo de parte dela, a indiferença de outra parte, a ignorância da maioria, tudo isso foi macabramente arquitetado pelos traidores da pátria em 1968, 1964 ou que data queiram. A junção desses fatores e a maldita herança do caos social desceu rio e desaguou no que vemos hoje: a vida que nada vale nas ruas, seja das vítimas de crimes ou de mendigos com as mãos estendidas no vento, esperando o último suspiro. E então, mata-se por nada, dane-se o outro, o que importa é vencer a competição, mesmo que seja preciso sonegar, burlar, prostituir: os mais abonados, bem-nascidos, lêem a sentença como sinal de constituição de riqueza; os desprezíveis, das classes mais baixas, muitas vezes cansados de lutar por uma oportunidade digna, deixam-se levar pela vida marginal. O resultado aí está: João Hélio, Lia Friendbach e mais oitocentos mil nomes de ricos e pobres que padeceram com a violência estúpida, brutal.

Não é possível crer que todos os jovens bandidos sanguinários deste país sejam vocacionados para o mal, o crime e a podridão desde a nascença. Há algo de errado não somente neles, mas na nossa sociedade. E muito. Um mar de hipocrisia que, se quisermos evitar que se transforme num tsunami, precisamos agir desde já. Tolos os que acham que mudanças nas leis resolvem o problema; mais ainda, os eternos repetentes do raciocínio que defendem o Estado totalitário: o que se precisa é de um choque no comportamento da sociedade.

O Brasil é maravilhoso sob vários aspectos.

Noutros, chega a assustar, dada a cegueira mental de parte da dita “classe média”, que pensa no seu conforto particular e dá uma banana para o resto.

Todos os dias, brasileiros são mortos por tolices, crimes imbecis, estúpidos, sem nexo.

Ontem, perdemos um de nossos grandes artistas por nada.

As ruas cheias de drogas, o tráfico financiado por grandes empresários e partidos políticos que se dizem moralizadores e democratas.

Não há outra palavra a dizer. Puto. O bárbaro assassinato de Glauco me deixou muito puto. Não há um sujeito que conheça o trabalho do espetacular cartunista e nunca tenha dado gargalhadas com seus personagens ou reconhecido seu traço fantástico.

Glauco, Laearte, Angeli, Adão e outros tantos antecessores como Jaguar e Ziraldo formam um imenso grupo que, com seu talento e humor, tem uma característica comum: a de, através da arte, apontar as mazelas do Brasil. Fazer o Brasil olhar para o próprio rabo e, se for, o caso, rir. Só que boa parte do Brasil hoje não olha para o próprio rabo: enquanto viúvas lacerdistas celebram a “ditadura” de Cuba, fingem não olhar a ditadura que nós mesmos nos metemos – a da violência cozida na miséria, regada a drogas baratíssimas com alto poder de auto-destruição, que passou a ser organizada com todo rigor a partir daquela outra ditadura imbecil, a de 1968, que nos pôs na lona e até hoje engessa a nossa mobilização... que precisa ser muito, mas muito maior do que meia-dúzia nas manhãs da Delfim Moreira.

Hoje à noite vai ter baile funk. Vai ter estupro e assalto.

Algum pateta na Guanabara vai suspirar com a “inteligência” de Diogo Mainardiota (oxímoro), a “crítica” de Jabor, antes de chamar Lula de “analfabeto” para, somente mais tarde, deitar no berço esplêndido da imbecilidade burguesa. E não vai enxergar que ele mesmo, pateta, ajudou a alimentar o mar de violência e hipocrisia onde estamos à deriva.

Glauco, descanse em paz. Uma pena que a burrice do Brasil tenha sido co-autora do crime contra você.

Paulo-Roberto Andel, 12/03/2010

Tuesday, March 09, 2010

PROFECIA TITÂNICA



















O fato de ter levado o concretismo para o pop-rock brasileiro já seria suficiente para canonizar os Titãs. Mas eles foram bem além disso. "Miséria" é um retrato de 1989 que ainda não se apagou da memória do Brasil, ainda mais num momento de ano eleitoral em que vivemos - os cegos daquela época ainda acreditam, em sua total falta de acuidade, que a justiça social se faça com demissões, livre mercado, remoções e controle de natalidade, sem levar em conta educação e estado democrático de direito (o que se torna ainda mais rídículo quando se sabe que aquelas idéias de cunho nazifascista são defendidas por assalariados - os primeiros a naufragar em qualquer sociedade "né-ô!-liberal"). A burrice, infelizmente, é democrata, plural e heterogênea. A música dos Titãs, tão infelizmente quanto, ainda é para poucos.

Paulo-Roberto Andel, 08/03/2010


miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
índio, mulato, preto, branco
miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
miséria é miséria em qualquer canto
filhos, amigos, amantes, parentes
riquezas são diferentes
ninguém sabe falar esperanto
miséria é miséria em qualquer canto
todos sabem usar os dentes

riquezas são diferentes

miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
miséria é miséria em qualquer canto
fracos, doentes, aflitos, carentes
riquezas são diferentes
o sol não causa mais espanto
miséria é miséria em qualquer canto
cores, raças, castas, crenças

riquezas são diferenças

a morte não causa mais espanto
o sol não causa mais espanto
a morte não causa mais espanto
o sol não causa mais espanto
miséria é miséria em qualquer canto
riquezas são diferentes
cores, raças, castas, crenças

riquezas são diferenças

índio, mulato, preto, branco
filhos, amigos, amantes, parentes
fracos, doentes, aflitos, carentes
cores, raças, castas, crenças
em qualquer canto miséria
riquezas são miséria
em qualquer canto miséria

(paulo miklos/ sergio britto/ arnaldo antunes)

Friday, March 05, 2010

A MISÉRIA MORAL DE EX-ESQUERDISTAS


EMIR SADER

Do site Agência Carta Maior.

"Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita – como se dissessem: “Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade – em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.

O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais – e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.

O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam – às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele “veneno” que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”, sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.

Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do “socialismo”, do “totalitarismo”, do “stalinismo”.

Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.

Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o “totalitarismo”, em cada política social a “mão corruptora do Estado”, do “chavismo”, do “populismo”.

Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a “democracia” contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o “perigo comunista” – sem o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás do PAC, do Minha casa, minha vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma – “uma vez terrorista, sempre terrorista”.

Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.

Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandando no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro."

O FIM DO MUNDO (A APOTEOSE DA IDIOTIA)



Por mais que seja conservadora, perversa, míope e anti-social, a meu ver, a ojeriza ao sistema de cotas deve fazer parte do jogo democrático e da dialética. Entretanto, INCONCEBÍVEL é Demósthenes Torres - que aqui sequer merece o tratamento de Senador - manifestar-se com brandura diante de centenas de crimes e covardias, especialmente os cometidos contra os escravos. Ora, bolas, então se os estupros foram consensuais na visão de um líder do DEM, então porque prender traficantes? Vão acabar dizendo que as jovens moradoras de comunidades carentes gostam de ser estupradas... e as pessoas são assaltadas e mortas nas ruas porque agem consensualmente com o crime - quem manda saíremr de casa?

Os eleitores negros que vierem a reeleger este político não podem receber outra pecha que não a de IDIOTAS. O mesmo vale para qualquer eleitor branco que se diga progressista e empenhe seu voto para este tipo de argumento. Aliás, qualquer pessoa de bem, minimamente informada, não votará num sujeito que afirma tal sandice. Nem todo mundo se deixa levar por imbecis capatazes das grandes corporações como Mainardiota, Reinaldérrimo Azevedo e outrem. Felizmente, a apoteose da idiotia e o nazismo enrustido de políticos brasileiros não hão de triunfar.

Paulo-Roberto Andel

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DEM corresponsabiliza negros pela escravidão

Escravo foi principal item de exportação na África, diz senador na 1ª audiência no STF sobre cotas / Democrata considera inconstitucional sistema de cotas raciais; audiência, que vai até 6ª, decidirá se sistema continuará em vigor no país

LAURA CAPRIGLIONE - ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA
LUCAS FERRAZ - DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Para uma discussão que sempre convoca emoções e discursos inflamados, como é a das cotas raciais ou reserva de vagas nas universidades públicas para negros, a audiência pública que se iniciou ontem no Supremo Tribunal Federal transcorreu em calma na maior parte do tempo. Até que um óóóóóóó atravessou a sala. Quem falava, então, era o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que se esforçava para demonstrar a corresponsabilidade de negros no sistema escravista vigente no Brasil durante quatro séculos.

Disse Demóstenes sobre o tráfico negreiro: “Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (…) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da pauta econômica africana.”

Sobre a miscigenação: “Nós temos uma história tão bonita de miscigenação… [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual.”

As referências à história “tão bonita” da miscigenação brasileira, ao negro traficante de mão de obra negra, o democrata usou para argumentar contra as cotas raciais, já adotadas em 68 instituições de ensino superior em todo o país, estaduais e federais. Desde 2003, cerca de 52 mil alunos já se formaram tendo ingressado na faculdade como cotistas.

O partido de Demóstenes considera que as cotas raciais são inconstitucionais porque, ao reservar vagas para negros e afrodescendentes, contrariariam o princípio da igualdade dos candidatos no vestibular.

Na condição de relator de dois processos sobre o tema (também há um recurso extraordinário interposto por um candidato que se sentiu prejudicado pelo sistema de cotas adotado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, decidiu convocar a audiência pública, que se estenderá até sexta-feira, com intervenções pró e anticotas.

A audiência pública é uma forma de as partes interessadas levarem seus pontos de vista ao STF. Segundo Lewandowski, o assunto será votado ainda neste ano. Se considerar que as cotas ferem preceito fundamental, acaba essa modalidade de ingresso no sistema universitário. Se considerar que são ok, a decisão sobre adotar ou não uma política de cotas continuará a ser dos conselhos universitários.

No primeiro dia, falou uma maioria de favoráveis às cotas, em um placar de 10 a 3. Falaram representantes de ministérios e de universidades favoráveis às cotas, e os advogados do DEM e do estudante gaúcho, além de Demóstenes.”


Discussão e acusações de racismo marcam primeiro dia

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA SP

Uma quente discussão sobre o sistema de cotas e acusações de racismo marcaram o primeiro dos três dias de audiências.

Natália Maria, 22, negra, é aluna cotista de ciências sociais da UnB. Ela acusou um cinegrafista da TV Justiça e uma moça do cerimonial do Supremo de tratamento racista após pedir que não fosse filmada.

“Falaram que estava fazendo showzinho. Foi um caso clássico do que enfrentamos no dia a dia, espécie de racismo velado.”

A causa foi uma discussão entre ela e Marcel Van Hatten, 24. Loiro de olhos verdes - é filho de holandês e descende de alemão -, Marcel, formado em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é contra o sistema.

“Por que o branco pobre não tem o direito de usar as cotas? A nós, brancos, não pode ser imputada uma dívida que é histórica. Temos de olhar para a frente”, disse ele.

“O racismo impede as pessoas de disputarem postos de poder”, rebateu Natália. “Numa seleção de emprego entre uma colega branca e eu, negra e pobre, não tenho a menor dúvida de que ela será escolhida.”

Para Van Hatten, racistas são as cotas, que “dividem a sociedade e beneficiam só os negros”.

O STF não recebeu queixa.

Wednesday, March 03, 2010

A BATALHA FINAL (CONFRONTO)




cérebros e fronteiras
fitam-se como ateus:
um descrê do outro,
um diante do outro.
ambos, tão humanos,
ao se esbarrarem
celebram o estranho

conjugar da vida -
e tudo tão longe,

o longe de se verem
com nenhum vestígio
da existência de deus.

ainda assim, rezam.

paulorobertoandel03032010

Friday, February 26, 2010

AUTÓGRAFO

(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)













paulorobertoandel25022010

Wednesday, February 10, 2010

CÉU (unreleased) / DESPISSE (review)

I

é céu
e nem por
isso
quer dizer
que
seja seu:
é céu,
somente céu;
mora longe,
no alto,
quase
inalcançável
que não seja
pela
imaginação
do homem.
é céu
e dizem ser lindo,
promessa do bom
do dia,
mas também é lindo
quando se perde,
se adoece
e morre –
daí, talvez
a estranha
sensação
de que beleza
e felicidade
nem sempre
andem de mãos dadas
flanando
numa calçada
florida.
é céu,
é longe;
admiremos
a beleza
que estampa
sob respeitável
distância:
colírio
à primeira vista,
mistério
que não cabe
decifrar.


II

que se despisse da mágoa

que se despisse da perda
do encanto
sem deixar o espírito
se dissipar
em qualquer lufada-
nem mesmo uma rajada

que se despisse do vazio
da vida inventada,
sem perseverar
fantasias vulgares,
nem permitir
a insensatez da falácia

que se despisse
do desejo não-recíproco,
doentio e apático,
incapaz de recobrar
velhas imagens
caleidoscópicas,
lunares,
num ritual estrambótico

que se despisse de si,
sem ardor nem amém,
sem jamais ou porém;
que se libertasse,
que progredisse;
que, de vez, amasse!


Paulo-Roberto Andel, 10/02/2010

Tuesday, February 09, 2010

PROSA DO CANSAÇO (OU OTTO MAXIMILIANO)



Estou cansado. Otto me oferece uma trilha sonora para esta terça de verão arábico. Lá fora, um mundo cheio de fantasias e desgraças, entre céu lindo e esgotos nas veias de concreto abertas. O corre-corre e o clingue-clangue das ruas cansam. O egoísmo e a indiferença dos outros uns para com os outros me cansam. A verborragia oca dos que proclamam o fim do Brasil, em prol de ressuscitar um cadáver como o de Fernando Henrique Cardoso me cansa, absolutamente. É a cegueira, a miopia, a falta de acuidade desfraldando a apoteose da ignorância, e isso me cansa. A mofada notícia sobre os perigos da dengue; a insistência em se impor a Zona Sul como a única face do Rio; o tráfico que estupra e corrompe no Turano; a falta de profundidade em se discutir as questões; a previsibilidade da opinião dos capangas do grande capital; tudo celebra meu cansaço. Janelas, não há. Temperatura ambiente, travestida com um velho circulador e um ar-refrigerado longe de seu auge. Juliana não me sorri. As canções de Otto são doces e pesadas, capazes de atenuar parte da fadiga. Um Carnaval à vista com seus baticuns, um Ano-Novo que começa a seguir. Querem um mesmo velho campeão novamente, para que o dinheiro impere com amor. Ao menos, em algum lugar desta cidade, que é recheada de mulheres bonitas, alguém se refestela com o brilho de estrelas entrangeiras: Beyoncè, Madonna, Alicia. Porém, o resto me cansa. Noutros tempos, éramos mais profundos e dedicados e solidários, sem acharmos que toda a nossa compaixão e fidalguia pudessem ser limitadas ao MSN, ao celular e outras eletromídias; hoje, o que nos resta é a inevitável solidão humana de joelhos diante da fraternidade tecnológica. Nem os loucos não-tratados escapam: usam falsas identidades para mostrarem as piores faces do quase-ser humano. Que dizer dos bobos que se dizem liberais? Basta pensar no Haiti; aliás, país já varrido dos interesses noticiários: deu o que tinha que dar; lucraram e, agora, que os miseráveis se virem. O que dizer dos que leitores que não sabem explicar o que leram, ou os que leram numa linguagem particular hermética, incompatível com o que tinha sido escrito? Estou cansado. Otto canta que, para morrer, é preciso existir. Estamos diante de um invencível verão em seu apogeu, se é o que sei dizer. Talvez cem mil pessoas se divirtam na beira-mar, enquanto alguns milhões trabalham e trabalham e trabalham até que o sol seja pouco. Soube que três trabalhadores foram assassinados por bandidos durante o expediente; a empresa empregadora limitou-se aos pêsames, e isso quer dizer bem o que somos hoje: um batalhão de estranhos, num salve-se-quem-puder e o-que-importa-sou-eu-mesmo. Estou cansado. O Banco Itaú lucrou com o nunca no último quadrimestre. Parece ordem e progresso, para poucos. O telefone toca, não posso atender. Mensagens inúteis estampadas no computador – não vou responder. É preciso ter amigos, mas poucos – quem diz ter muitos, na hora da verdade não tem nenhum. Recordo dos tempos de bar, quando tudo se aprendia com os mais velhos, sábios de rua, que faziam questão de compartilharem suas experiências. Recordo Copacabana numa terça à tarde, quando eu corria dedicadamente e me sentia tão bem. O Lido, o Leme, o Bairro, tudo tão perto, vivo, mas ao mesmo tempo tão distante. Certa manhã, acordei de sonhos intranqüilos – era Kafka. Hoje, numa tarde que não sabe dizer o futuro, Otto alivia meu viver. Nem é tão relevante o fato de que ainda estou cansado. Não é relevante lembrar da estupidez humana que se manifesta a cada expiração. Quero apenas lembrar desta tarde de cansaço como algo que me fez pensar nos meus, nos outros e no todo, coisa que cada vez vejo mais rara fora de mim mesmo, e isso não é bom. Talvez seja de meu eterno inconformismo com o dar-de-ombros daquele todo contra os que precisam esmolar. Talvez seja humanidade, nem no melhor e nem no pior sentido da palavra. Talvez seja somente uma tarde de céu romanticamente lindo para meia-dúzia e sacrifício para a enorme plebe. Isso me torna cansado. O que me resta é a diferença. O outro lado da tarde ensolarada. Uma canção de Otto.

Paulo-Roberto Andel, 09/02/2009

Friday, February 05, 2010

TRATADO GERAL DOS IDIOTAS - PARTE I


(ou... por que Diogo Mainardiota honra seu nome?)

Neste Brasilzão de anticomunistas nazistas, neoliberais que ganham salário mínimo, estelionatários que protestam contra corruptos, moralistas que sonegam impostos, analfabetos que votam em seus algozes e outras tantas categorias exóticas, vale a pena reviver um verdadeiro esplendor da idiotice como verdadeira faca afiada contra nosso individualismo, nossa falta de senso crítico e, principalmente, contra nossa eterna insistência em mitificar seres medíocres com a medalha (de lata) da intelectualidade.

Fazia tempo que o grotesco personagem não dava as caras por aqui. Entretanto, nunca é demais lembrá-lo: é recordar de como o Brasil é manipulado, subvertido e, principalmente, trucidado por gente sem-caráter que só vê nos benefícios próprios o que se chama de "progresso". Além do mais, como o nazifascismo do dito cujo só aumentou com o tempo...

O texto fala por si. Melhor dizendo, late.

Cada um com as devidas conclusões.


http://veja.abril.com.br/131102/mainardi.html



Chega de Drummond
por Diogo Mainardi

"João Cabral me alivia da pieguice
de Drummond, de seu sentimentalismo
ginasiano, de seu lirismo kitsch. Mas não
há o que fazer contra sua prosa. Ali ele
aparece em toda a sua constrangedora
banalidade, com aquelas historinhas jecas"

"Drummond, Drummond, Drummond. Para onde quer que se olhe, Drummond e mais Drummond. Em Copacabana, celebraram seu centenário com uma estátua. Em Piracicaba, roubaram uma sua caricatura. Em Itabira, sua cidade natal, crianças foram obrigadas a declamar seus versos para os turistas. Pelé gravou um CD com suas poesias. Luiz Felipe Scolari citou-o em suas memórias. Uma moeda foi cunhada com sua efígie. Ele inspirou espetáculos de dança e foi mencionado em receitas de tutu à mineira. Até Lula apareceu com seus livros debaixo do braço. Com ar doutoral, disse que ajudavam a prepará-lo "espiritualmente" para a Presidência.

Foi tanto Drummond que acabei enjoando dele. Basta ouvir seu nome que começo a tremer e a suar frio. O antídoto mais eficaz contra essa ressaca de Drummond é uma dose maciça de João Cabral de Melo Neto. Leio-o todos os dias. Alivia-me da pieguice de Drummond, de seu sentimentalismo ginasiano, de seu lirismo kitsch: "Amor é estado de graça", "Amor foge a dicionários", "Amor é primo da morte". Quer mais? "O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar", "Quem tem amor tem coragem", "O amor bate na aorta". Ainda mais? "Amar é o sumo da vida", "Amar se aprende amando", "Vamos conjugar o verbo sempreamar".

Se João Cabral de Melo Neto atenua os efeitos nocivos da poesia de Drummond, não há o que fazer contra sua prosa. Ali ele aparece em toda a sua constrangedora banalidade, com aquelas historinhas jecas sobre o Dia das Mães, sobre o Dia dos Namorados ou sobre os velhos bares no interior de Minas Gerais. Numa crônica de Natal, ele sonha com o dia em que o "mundo será governado exclusivamente por crianças". Numa crônica em homenagem a Chico Buarque, escrita em 1966, ele proclama que nunca foi da Arena ou do MDB, mas "desse partido congregacional que encontra na banda o remédio". Quando convinha ser de esquerda, porque todos os poetas o eram, Drummond fazia poesia de esquerda. Quando o clima piorou, e os esquerdistas começaram a ser perseguidos pela ditadura, ele achou melhor pular fora, escrevendo sobre minúsculos acontecimentos do dia-a-dia. Aquilo que foi pomposamente apelidado de metafísica do cotidiano. Ou seja: nem Arena, nem MDB.

Nos manuais de literatura, Drummond é louvado por sua ironia. É uma ironia amável, benévola, cúmplice, que se esforça para confortar e apaziguar, sem jamais correr o risco de ferir o leitor. De fato, ele é prevalentemente auto-irônico. Ironizando a si mesmo, Drummond evita atacar o próximo. A auto-ironia, porém, é sempre um exercício de falsa ironia. Em 1930, quando se define um "gauche", ele demonstra ser tudo menos um "gauche", usando muita astúcia e habilidade para conquistar seu espaço no ambiente literário nacional. Mais tarde, quando julga "insignificante" seu poema mais famoso, "No meio do caminho", ele tem a certeza de que ninguém irá concordar. A seguir, quando ironiza sua frivolidade, seu provincianismo, sua teimosia em tratar de assuntos menores, ele sabe que está num terreno seguro, tendo sido aclamado por causa disso pelos maiores críticos do país.

Chega de Drummond. Pelos próximos dez ou quinze anos, é melhor ficar longe dele."

Minha opinião senta praça numa única palavra: bizarro.

Monday, February 01, 2010

Uns pretos



um preto
não é filho de um preto

e somente
um preto é tão preto
como também é branco e vinho
é cinza e roxo
ou gris
um preto é tudo da gente
que respira e quase ri
trabalha mas não têm
padece e ferve o crer -
água de fé na outra vida!
a que não é toda azul
nem rosinha
e que pode ser um tanto preta
mas, na verdade,
tem a mais evidente
e translúcida
das cores que sabemos ver:
por ora, nenhuma.



paulo roberto andel 01/02/2010

Wednesday, January 13, 2010

CORTES


1

Quem há de alimentar nuances românticas
Diante da aponevrose siamesa da carne especulada
Em seu vermelho vivo de morte, sob a égide de um gancho
Banhado em mar-de-prata?
Os que celebram féretro feito banquet.


2

ao riso que não souber
ser
pranto
por um dia,
resta que se faça espanto
que se veja estreito -
nobre recruta à nostalgia
nem que seja
por um
momento


3

daquilo
que não fira a pátria
pode suceder
um fruto carnoso
e aprazível
disfarçado
de sociedade.
quem irá cortá-lo?


4

não sou nau
de beira-mar
a navegar no raso –
um passo em falso
rumo ao fútil

só oceanos
têm meu anseio,
todos à profundeza
extrema
que só se vê
no volátil


5

minha melhor definição é dizer
que não sei decifrar a cabeça
que me pertence:
mais fácil é sempre tentar desenhar
o engano do outro
da outra cabeça
que pode ou não desacontecer


6

Mausoléu

Abro o álbum e Tatiana parece tão linda como sempre, com seu sorriso de mistério inglês, olhar de pedra preciosa e nariz romano, devidamente disfarçada com certo chapeuzinho que lhe dei. Há um carnaval e um Brasil cheio de velhas novidades, a desfraldar as bandeiras do futuro, muito distante do logro que se vê. E Tatiana parece linda e jovial, linda e delicada, mais-que-linda a ponto de me fazer esquecer, por uma fagulha de momento, que está morta. A realidade a saltitar nas veias é arma lancinante contra meu peito. A beleza de sua voz nunca mais ecoará em meus ouvidos, com as frases curtas, estudadas e temperadamente poéticas. Os arredores não sinalizarão o corpo pequeno e farto de predicados. Sejam abraços, carinhos ou pequenos gestos de amor, tudo se faz e fará milimetricamente desintegrado. A doçura das mãos tímidas, envoltas em pele sedosa e tão confortantes, capazes de massagens santas, será apenas ausência. Nada por perto, longe ou do outro mundo me permite a esperança de sua existência e, se estivesse em outros lençóis, oferecendo dádivas de paixão, continuaria sob a plenitude da morte. E mesmo que fosse ainda mais linda, bem-sucedida, exata e permanentemente feliz, não disponho dos meios de resgatá-la da condição morta. E mesmo que as flores estivessem mais escarlates e vívidas do que nunca, o perfume exalado me lembraria de que está morta. Penso na injustiça de não mais vê-la, escutá-la sequer num bom-dia fugaz. Penso num coração que já não sonha e nem decora estrofes; penso nos seios dionisíacos que não mais ousam intumescer, nos cabelos de metal nobre e camomila que não mais sugerem afago e mais: meu lamento é saber que este momento não sugere mágoa, torpor, desrespeito ou desejos quaisquer que estejam mal-resolvidos – o que ele diz, na verdade, é de toda a fragilidade que ronda nossa carne e nossos pensamentos neste intervalo chamado vida. Seria mais fácil viver um rancor do que a insanidade cotidiana desenhada nas agruras do mundo, que simplesmente o é. Também não cabe esculpir uma saudade. Afinal, os livros vão nascer e cada um de seus poemas voará por corações solitários às brisas. Aos vivos, caberá o sofrer; aos ricos, um milionário licor de gosto vazio. Haverá risos nas tabernas, enquanto a injustiça semeará ruas. Haverá vida. Entretanto, Tatiana está morta, e só lhe cabe a ressurreição em pequenos escritos e lembranças esparsas, todas de tamanho equivalente às que findam o momento espalmado de visar esta fotografia. Tatiana está morta e seu mausoléu é um retrato. Quero apenas um troféu, feito de ver a dança de Juliana.


paulorobertoandel13012010

Monday, January 11, 2010

CARNE BAILE



é o calor de veraneio

à madrugada
que me deflora
enquanto cobiço
tua carne
teus lábios de Estocolmo
teus cabelos de cereja nova
e os seios
a me adormecer em êxtase
a carne que me inebria à dança
o corpo que meu sonho
persegue à sede peregrina
mesmo que outros lençóis
te façam cortejo
flama da paixão que tinge o sexo
o calor que me deflora
é almejar o gosto da tua pele
do teu beijo
e beijo
e carne e baile à lascívia
o calor
é teu ventre liso
que meu olhar fulmina
feito horizonte
do oceano
é tudo carne e baile!

paulorobertoandel11012010

Friday, January 08, 2010

ESTRICNINA 2010


ligeira, a moça
com seus firmes passos
de juventude

ao sabor da lida

atravessa o boulevard
enquanto
olhares de lascívia
e doçura, atrozes,
escorrem
nas pedras portuguesas

alguns denotam-lhe
tesão, prazer, perdão,
mas nenhum tem

o macete da rima -
tão-somente

uma empolgação
de sugerir
certo clima

outros, rejeitados,
sorvem o gosto amargo
da vã desilusão -
é a contramão,
fel à vista,
ametista

temperada com
estricnina


paulorobertoandel08012010remix



Thursday, January 07, 2010

UMA TAREFA DO POEMA



o poema pode

ser
patético
ou
lunático
ou mesmo
intrépido,
desde que
olhe sempre
para o novo
à frente,

o rebuscado
mesmo que
simplificado.
o que
não cabe
ao poema
é ser
caquético
ou
prático.
o poema
não merece
nascer
com sabor
de café
passado.
o que
o poema
deseja
nas entranhas
é despir
e revelar
o inusitado.


paulo
roberto
andel
07012010

Wednesday, January 06, 2010

A GROTESCA IMAGEM DO NEOFASCISMO NO BRASIL



Não precisamos de neofascistas na televisão e em nenhum outro lugar do Brasil ou do mundo.

Não precisamos de gente que ridiculariza os pobres.

Não precisamos de lacaios da direita nazista que torturou e matou civis no Brasil durante a ditadura militar.

Não precisamos de verborragia rasteira temperada com efeminação senil.

Não precisamos de Boris Casoy para nada. NADA!

Este blog reitera sua solidariedade aos garis, camelôs, biscateiros e outros milhões de brasileiros que lutam com suas forças de trabalho diariamente para o próprio sustento e o de suas famílias. E despreza com rigor pseudo-gente que se julga superior por ter vendido a própria alma a benesses e imundícies.

O pior dos garis de todo o Brasil é cem vezes mais digno do que Boris Casoy.

O lixo que qualquer gari recolhe nas ruas e vielas do Brasil é muito mais digno do que Boris Casoy.

Que o inferno lhe seja aprazível.


Tuesday, January 05, 2010

ARTE MÃE





















Poucos têm a sorte de ter a própria mãe retratada numa obra de arte.

Eu tive.

Ao pintor, cabe todo o agradecimento. Contudo, uma ressalva: perto da imagem real, a pintura da minha mãe chega a estar feia...

Paulo-Roberto Andel, 05/01/2010


Monday, December 28, 2009

OUTRAS PROCISSÕES



RASANTE

depois que ficou
rasante
sugeriu a morte
num rompante
para o belo
virar traste
no estalar de um
instante
depois que ficou
rasante
porque a chapa era
quente
há fúria de um fuzil
estridente
depois que ficou
rasante
é que se entende
o estúpido da luta
onde todos vivem
derrota –
mesmo a vida
fugitiva
doravante


SÃO

não me espere
pois vou embora
já passou do ponto
e da hora
quero a gíria preferida
que me faça
dar o fora:
a noite já virou
senhora
a moça que amei
é folha morta
e o bom daqui
se fez coisa tão rara
que fadiga à demora
não desespere
porque vou embora:
qualquer vida desses
eu volto;
basta que a pena de valer
seja
clara


DRIVE-THRU

transito
pelo vaivém do ar
que freqüenta
meu peito

cada segundo, uma rua
cada suspiro, uma via

entre a poeira
e o engarrafamento
a tristeza
é um atropelamento
a saudade
é a morte no acidente
que aborta a mocidade
um rompante me namora –
é o ostracismo!
basta somente
o carro vazio
perdido
no estacionamento.


TRANSPARÊNCIA

o primeiro fonema
e mais dez minutos
de prosa barata
forjam prazo
suficiente
para você me desvelar
até o fim
dos
nossos
dias


MANIPULAÇÃO

men
in pool:
action!


RELICARIUM

saudade:
o nunca-mais
repousado
em lençol esplêndido
insone e ansioso
pelo até-breve
que não tilinta
o telefone
pela madrugada


CENA COTIDIANA

Casa vazia. Um berimbau adorna certa canção popular que milita à sala. Olhos de gula saboreiam a bela mulher estampada numa cena de televisão muda. E telefones adormecem. Todos estão muito ocupados para conversar; precisam viver suas televisões mudas, cada um de modo distinto e todos crus. O justo é invadir cada um dos canais pagos, sem maiores intimidades, sem fincar raízes, feito um voyeur contemporâneo. O jeito é postergar as louças em débito e roupas na fila. O jeito é contemplar o passarinho que ladeia a janela, para depois voar ao longe, onde todos estão mortos. O óbvio é um corpo cansado que mendiga descanso, longe dos indigentes em penitência nos arredores. E os braços ficam abertos para o coração da capital – o teto. A fé que não transforma reluz numa parede mal-caiada. As cortinas cerradas, de tom azul-cobalto, velam o mundo. O prazer do repouso à cama escorre pelo horizonte que lhe cabe.


DIALÉTICA MODERNA

não me cabe
regar rancores
por conta de meu
destempero
e este papel já não me serve:
certas vezes, ou muitas,
desenhei tatuagens perversas
nos olhos dos que me
opuseram
e vieram ódio, mágoa, tristeza.
vieram lágrimas sensatas
em sabor de alecrim
que lhes emprestou
alguma beleza.
hoje, deitado no recato,
o máximo que me permito
é replicar
tolices conservadoras
a mim cuspidas
no século do twitter:
palavras rápidas,
nem tão ácidas,
mas limitadas em número
a tal ponto
de tentarem somente
fustigar
tamanha cegueira
de um todo


COR

a paixão da minha cor
só faz todo sentido
quando se despe do púrpura
que alumia
um vestido fino
quando se despe
em meu desejo
e intento o sono profundo
que não se interrompa
no sonho
é que a paixão do meu sono
é branca
e quase loura
e quase doce
quando dança aos mares
e pouco fala
entre um riso raso
e outro aos goles
a cada mal, ela me reza
a canta canto, faz-se voz-guia
e o desejo de meu desejo
é que seja infinita
feito o tesão que me arrebata:
uma covardia!
a paixão da minha cor
é bem mais que uma procissão
uma religião
é maior do que a rebeldia
nas calçadas
e mesmo com tudo isso
me desampara
porque dorme tão

longe

de
mim


LEITE E MEL

não é preciso ser um gênio
um ivalski
um catalano
tibúrcio
ou qualquer takimoto
para ver com alegria
o semblante firme de john lennon
no filme de penny lane
e perceber que o bardo
também é um gênio
basta
respirar
e ver.
não há importância alguma
no estúpido assassino
que lhe ceifou a vida
frente ao edifício dakota:
o inferno católico servir-lhe-á
de penitência quando for a hora
da fogueira acesa.
fato posto, nem convém
reiterar o amargo desgosto
na orfandade de minha eletrovitrola:
penny lane a namora.


RUBRO CINZA

na uva pisada
exala o cheiro doce
do sangue tinto
a vinho

na pedra polida
o pó de brita flutua
até fazer no céu
o cinza

no cimento da lápide
a pá escorre a pasta
que trancafia
a morte
na urna

no bustier escarlate
moram seios de encanto
mamilos intumescidos
e vida


TRADIÇÃO

Quiseram me perguntar a respeito do que rezava minha tradição, como se isso dissesse de alguma relevância na insensatez desta terra. E perguntaram, pedindo uma resposta sucinta, com sabor de drive-thru. Respirei e falei: sou Copacabana, menino. Resposta exata para um bom entendedor: dizer de um pouco de tudo, um pouco de todos nós. Quiseram me perguntar de minha tradição e isso vem de longe, feito a história que cada um de nós carrega no ventre. Eu era criança do Lido, com chupeta de cordão de ouro e minha mãe com riso de menina toda vez que me cortejavam, especialmente um Sérgio Brito ou um Bornay, para ciúmes de alguma tia da praça. Eu brinquei de bola na beira do Atlântico Sul e visei o Copacabana Palace com entediado, mas respeitoso, olhar de déja-vu. E fui criança do Bairro Peixoto e da Figueiredo Magalhães, mais precisamente no coração da rua Tenreiro Aranha, que o progresso assassinou junto com minha escolinha. E vi a mendiga Lina falando francês na calçada de Siqueira Campos enquanto esmolava. Depois, aprendi o Leme, o Posto Seis, o Arpoador e todas as fronteiras d’água. O Fernando me ensinou do Botafogo no Edifício Keats; do Fluminense, já nasci sabendo. E morei muitos anos num prédio cheio de personalidades e anônimos, num esbaforido entra-e-sai típico daquele bairro-mundo, num apartamento que não fazia jus ao que meu pai possuiu no passado. Ele chorava o rancor nos bares, enquanto envelhecia e empobrecia. Minha mãe chorava e sofria, chorava e trabalhava porque Deus era bom e ia extirpar nosso sofrimento. Nossa turma era pule de dez nos jogos de praia, de futebol de botão e nos acampamentos dos escoteiros – e também nas reuniões vespertinas na casa do Fred. Eu passava na porta do São Sebastião para fitar Eliane e ela continua linda. Eu fitava Kátia na galeria do Cine Condor e ela continua linda. A Vera pagava meu picolé depois da aula de basquete no quartel, eu suspirava por aquela mulher perfeita e sei que o tempo lhe foi inerte. Estudei muitas coisas, aprendi muitas músicas com o Gustavo, bebi cerveja com o Jorge e me iludi pensando ser adulto. Entrei para a faculdade e o pessoal desconfiava das minhas camisas de manga comprida, só por eu ser Copacabana. Alguém me ensinou o caminho dos mafuás e puteiros, eu ensinei aos demais. Escutei com atenção qualquer palavra que os mais velhos me diziam na porta dos botequins. E o tempo e o tempo são tempos. Aos poucos, Copacabana deixou de ser a minha vida para ser a minha grande paixão: virei da Vila, do Méier, do Grajaú e Bangu, eram outras palavras. Um dia a sirene tocou; faltava derrubar o muro, somente. Dezenove de novembro de mil, novecentos e noventa e três, seis e meia da manhã. Tranquei a porta sem saber meu novo endereço; parecia a guerra. Nunca mais voltei. Copacabana mora dentro de mim. Meus pais continuaram sofrendo, tiveram dias felizes e ficaram comigo até outro dia, eu com eles porque lealdade sempre foi a nossa sina. Foram embora sem se despedirem e creio que preferiram assim. Eis minha tradição e seu próprio jazigo.


Paulo-Roberto Andel, 28/12/2009



Tuesday, December 22, 2009

DIAS DE DEZEMBRO



(ou porque as coisas não dão certo coletivamente)

I

Chegou o verão. A estação dos sonhos cariocas, quero dizer, daqueles que têm disponibilidade para freqüentar praias e outros regalos da vida. A maioria se espreme nos coletivos e trens apinhados. Certa turma, com mais de dez salários-mínimos no bolso, também reclama: queriam as vias livres para desfilarem com seus “0kms”. Não há espaço. É coisa do mundo. Carro nunca deveria ter sido caro; agora que é mais fácil para assalariados, todos têm. Eu não. E acho ótimo.

A três dias do Natal, são ruas calorentas, as classes média e alta se engalfinhando por presentes para alcançar a bênção de Deus, a classe oprimida esperando a mesma ajuda do tímido Deus. Dizem que nesta época, nos dias finais do ano, as pessoas tendem a ficar mais sensíveis. Procuro, procuro, mas não acho.

O Natal, o Ano-Novo, o Carnaval, a Copa do Mundo. O resto é de intervalos para dor. Dor dos que sofrem, dor dos que se incomodam com a presença dos sofridos. Parece incrível, mas não é.


II

Meu amigo Marco, apressado por conta das atribuições e nós, sentados numa mesa de lanchonete. Posso dizer: Bob’s. Não sou pago para escrever. Faço porque gosto. Não riam com a simulação de certa propaganda. Antigamente nossa lanchonete oficial era o Gordon, mas o Plano Collor acabou com tudo.

Falávamos da dor do mundo e das pessoas, da falta de capacidade do próximo e dividir. Os apressadinhos querem falar de demagogia e paternalismo. Eu quero falar de baixa acuidade social. Ele me conta que, baseado em experiências pessoais, sabe de casos dos moradores de condomínios que, ao verem suas vizinhanças sendo ocupadas por moradores de rua que vêm buscar comida doada por instituições de caridade, reclamam com as mesmas: “Bota esse pessoal noutro lugar”.

Para alguns, isso parece o medo de encarar a realidade dura de que o mundo é cheio de infelicidade, por mais beleza plástica e natural que possua. Sempre vivemos em guerra, essa é a verdade. Mas, sinceramente, acho que é coisa bem pior.

Nazismo.


III

Já se foi a primeira década do século XXI e ainda me surpreendo com os seres humanos.

Impedir alguém de receber uma esmola, um prato de comida, parece coisa de Auschwitz.
Mas acontece.

Depois de tudo o que temos vivido nessa cidade, com direito a gente carbonizada e helicópteros derrubados por bazucas, há quem seja capaz de acreditar que a segregação e a remoção de pobres das favelas/ ruas seja solução.

Há quem creia que o que está aí é imutável, sempre foi assim, não tem o que mudar e será assim sempre. O que me parece o ponto de inflexão entre a humanidade do ser e seu avesso. Se você perdeu o senso de humanidade, babau! Não adianta rezar, não adianta fazer amigo-culto nem pedir para Papai do Céu (sem deboche). Não sendo capaz de valorizar o próximo na Terra, na vida real, onde o fará?


IV

Se você não é capaz de pensar e valorizar o próximo, como pode esperar de quem sempre foi criado como selvagem um comportamento de lorde?


V

Discurso hipotético:

“A culpa é do governo. É do Lula. Por que eu vou dar meu dinheiro para estes salafrários que não fazem nada? Sonego imposto mesmo. Se tiver que usar nota fria, eu uso. É a lei da vida. O dinheiro é meu! É muito bonito ter casa para todo mundo, ter emprego para todo mundo e hospital, mas quem vai pagar por isso? Eu? Na-na-ni-na-nã!”

Alguma vez você já ouviu alguém dizendo algo parecido com isso?

Se ouviu, uma coisa é certa: antes de estar à frente de um idiota, você está à frente de um brasileiro. O típico brasileiro que faz o país andar para trás.


VI

Dizem que capitalismo move o mundo. A julgar pelos números, atravanca. Livre iniciativa é uma das maiores mentiras da Terra, repetida por papagaios cheios de opinião e vazios de argumentos consistentes. O mais incrível disso tudo é que os sistemas liberais se sustentam defendidos justamente por quem mais é explorado por eles: trabalhadores assalariados, clientes de banco com água na garganta dos juros do “chequespecial”. Um contra-senso admirável.

Outra coisa que me chama atenção é como jornais, revistas e noticiários de televisão passaram a ser verdadeiras autoridades da verdade. “O Mainardi escreveu”, “O Jabor falou”. Os famosos “quem?”, notoriamente conhecidos por força da propaganda massiva (outra característica herdada do Reich) que os torna “gênios” de uma hora para outra, mesmo que a formação intelectual e acadêmica passem longe de qualquer graduação. Se algum desses sujeitos vociferar que estrume de cavalo é bom para a pele, imagino a orla do Leblon num domingo, em campanha para a “saúde” das pessoas. Inevitável imaginar o fedor da merda.

Depois de uma boa campanha ou passeata, nada melhor do que uma relaxadinha.

A probabilidade de alguém não telefonar para o Disk-Junkie é zero. Mas convém ressaltar: eles são contra a violência, ao menos entre a estátua do Zózimo e o costão do Leme. Fora disso, não tem “lugar bonito para passar na tevê”.


VII

Ano que vem tem eleição.

Ano que vem tem mil eventos.

O país tem mudado – e muito – para milhões de miseráveis que vivem fora das zonas televisivas. Mas ainda é pouco.

Enquanto não impulsionarmos uma verdadeira revolução supra-partidária, supra-religiosa, supra-econômica, nada mudará de vez para melhor.

Enquanto se ignorar o próximo, o humilde, o desassistido, o indigente, tratando-os como se fossem lixo, entulho de remoção, nosso caos não cessará.

Qualquer garoto de dez anos que domine bem a tabuada sabe que o modelo de “liberdade” vigente no Brasil não liberta ninguém além dos abonados: inescrupulosos, herdeiros, coça-sacos, parasitas e outros que, por terem o “seu dinheiro”, jogam titica de pombo na cabeça dos pobres e riem.

Onde está o espírito de Natal destas pessoas?

No shopping!

Há que se olhar para a cidade, o país e o mundo. Mas, sinceramente, eu gostaria que em 2009 a hipocrisia fosse menor.

No Morro dos Macacos, os direitos humanos são dez mil vezes mais desrespeitados do que em Cuba, Honduras, Venezuela e – pasmem – Irã. Macacos, Adeus, Alemão, Juramento, Borel, Providência. Al outro lado del Rio.

Nas favelas cariocas, mata-se mais do que na eterna guerra em Bagdad.

Não sejamos tolos de comparar a dificuldade financeira do artista plástico do Leblon com o sertanejo de Paraopeba. A dureza de um é não ir ao Antonio’s. A do outro é sobreviver à fome.

Não sejamos patéticos em achar que as dificuldades são iguais se bem sabemos que as oportunidades não são.

Ainda há tempo em se acordar. E isso não depende do governo, do Lula, do Cabral, de ninguém. Só nós mesmos, e nossa solidariedade que hoje mora no Rio Sul ou no Barrashópi.


VIII

Para enxergar melhor o Rio sombrio, o Brasil que se perdeu, o mundo com o dar de ombros ao próximo, vale uma dica.

“Monodrama”, de Carlito Azevedo.

Á boca-pequena, podemos confabular: um dos livros de poesia em língua portuguesa da década. Desde já, condenado a ser página eterna das nossas melhores letras em todos os tempos.

A quem ler, repare no poema que trata da junkie se espetando no Aterro do Flamengo.

Zona Sul não é só beleza e alegria da bossanova.

Por boas festas e um ano de menos cegueira coletiva.


Paulo-Roberto Andel, 22/12/2009

Friday, December 18, 2009

PROCISSÃO MENDIGA















choram
porque a fome lhes esmaga o ventre,
porque a chuva é cruel
e faz dilúvio nas camas de pedra,
despidas de lençóis e fronhas
ou qualquer conforto
que não seja
o entorpecente capaz de inebriar
aquela mesma fome de esmagar,
o frio, a dor
e tantas mazelas que ninguém
há de descrever ao certo

choram porque sofrem
e são esquecidos,
sem direito a vitrines “sold out”,
marcas importadas,
lanches coloridos
ou alguma futilidade qualquer:
choram sem janelas ou paredes,
choram sem anistia,
choram enquanto as estrelas,
brilhantes e já tão mortas,
fazem vezes de telhado
numa terra de covardia

cá fora, o mundo tão bonito
com suas ruas apinhadas
e o corre-corre das compras,
o clingue-clangue do metrô
e outros veículos modernos;
o fascinante mundo a crédito,
a fatura, a prestações,
a cheque sem limite –
do outro lado da calçada,
do lado de fora das grades,
aqueles choram;
vivem um sofrer
que nunca dorme,
um pesadelo que não fenece:
a humilhação de milhões
e milhões
para tudo se tornar um corpo inerte,
abandonado e decomposto à maca
de uma casa médico-legal:
a casa que sempre lhes faltou
agora é um berço de carne pútrida -
horror de morte na celebração
insensata da indiferença


antes disso, choram e choram
por que o mundo lhes despreza,
dá de ombros e desconversa:
o mal que lhes atinge
é problema de deus!
é problema do outro,
sempre o outro –
somos inquestionáveis,
infalíveis e dotados da mais
pura isenção:
quando viemos para cá,
já era assim;
o que nos traz culpa então?
eles choram e choram
porque falamos de deus,
de amor ao próximo,
de boas festas e prosperidade,
mas achamos que eles
não são de deus,
não são da terra,
não são gente feito nós –
e é assim que floresce
todo crepúsculo
da indignidade da gente
que se diz humana:
como se fosse possível
sermos mais gente
do que a gente.
eles choram
por água e pão, somente:
isso me lembra
a beleza de um livro
que não conseguiu nos mudar,
nem transformar
o mundo abominável
que nos cerca,
o qual disfarçamos
com as mesmas vitrines,
as mesmas cores e sacolas
para tentarmos mascarar
nossos piores sentimentos.


Em homenagem ao bilhão de miseráveis na Terra, desprezados pelos governos, pela “livre-iniciativa” e que não terão Natal, Ano Novo, Carnaval, aniversário...

Paulo-Roberto Andel, 18/12/2009

Thursday, December 17, 2009

POEMAS DO SER - PARTE II



GAFE


houve um amanhã,
um mais-à-frente
e me deparei
com a réstia de lembrança
do meu amor,
numa lista de casamento
chique
estampada num computador:
a lembrança
do que já não é amor
nem chique,
nem sequer está à venda.
quando
o amanhã chegou,
o que se imaginaria
era meu vale de mágoas,
minha praia em lágrimas;
porém, meu choro não sucedeu.
não sou mais eu mesmo,
nem meu outro.
o que devia ser rancor
floresceu-se estranheza.
o que merecia ser espanto
tomou praça de lugar-comum.
a saudade quase colidiu
com a indiferença.
resta-me outro amanhã
que ainda não veio.
o mais distante de tudo
é ser adulto:
tempero a fogo
de sobriedade,
tatuagens de serenidade
e um até-breve
que desfoca todo amor
da nossa vã
juventude.


NUA

nua nos meus anseios,
nos desejos mais lascivos
e intimistas,
de modo que me cultiva
à alma:

nua de tão encantadora,
tão romântica e rascante
que só a vejo minha e nua,
numa obsessão catalânica
que me foge à vida.

uma estátua de carne tenra
e fino aroma:
botões de flor à mostra,
receita de lascívia
que me enche o peito,
os sonhos,
me acende na alvorada
e mora no meu pecado:
baila meu ventre,
minha boca seca,
faz meu sexo viver.


GRITO URBANO I

paralelas de concreto,
nacos de ferro,
pedra e néon.
paralelas às ruas
e passarelas:
látex no asfalto,
fumaça liberta no ar
e tudo é um formigueiro
claustrofóbico, cinemático,
que nos logra
a miraculosa
maldição do progresso.


Paulo-Roberto Andel, 17/12/2009

Monday, December 14, 2009

UMA VERGONHA PARA A ETERNIDADE!


Clique no cartaz para melhor visualização!

























Em memória de Mendel Andel, jovem formando de Medicina da Universidade do Brasil que, por não concordar com o nazismo imposto ao Brasil pelos militares, a elite econômica e as multinacionais de origem norte-americana, foi condenado à expulsão do país em 1970.

Nunca mais retornou à terra natal.

Faleceu em julho de 1987, em Israel, onde foi enterrado.

Mendel, meu tio.



Paulo-Roberto Andel, 14/12/2009


JINGOMBÉU


I

Então, o Natal se aproxima. Aquele sujeito que falou mal de você o ano inteiro no emprego quer se mostrar um pouco mais afável. A vizinha de andar, fofoqueira de sempre, dá “bom-dia” com maior intensidade. Um real para o Natal. Vamos dar comida às criancinhas (ao menos) na Noite Feliz. Prosperidade (?), saúde (?), amor (!!!!?). Algum desavisado lembra que precisamos ter mais (?) consciência social. Mais?

Era 1973, corria o fim dos dias e eu andava de mãos dadas com minha mãe na rua Figueiredo de Magalhães, lugar onde vivi boa parte da minha história. Antes, um refresco de côco (com o devido acento) na lanchonete das Lojas Americanas, que ficava na porta de entrada. Algum filme no Condor, o Metro era ali perto, com seu hiper-ar-refrigerado (ou seria condicionado?). O tempo que se foi e não volta mais. Eu vi um mendigo dormindo perto da sensacional Lanchonete Akay, onde hoje reside um Bob´s. Tive medo. Nunca entendi por que pessoas tinham que dormir na rua, no relento, sujas e com fome. Antes que os tresloucados de plantão empunhem armas, atesto que isso foi muito antes de me tornar comunista. Para os mesmos, não custa lembrar que o mesmo comunismo tem mais pontos em comum com a doutrina católica do que se gostaria – aí está Dom Helder Câmara, centenário, para confirmar os alfarrábios.

Tempos depois, muito tempo depois, me apaixonei por uma menina linda chamada Patrícia. Amor de garoto, de menino que sonha com coisas que, quando a gente cresce, não vê jamais, de acordo com o canto maravilhoso de Roberto Ribeiro. No primeiro dia que a levei em casa, olhei para o outro lado da rua. A Akay em grande forma, com seu misto-quente de arrastar multidões; no entanto, a imagem que me atormentava era do mendigo de uma década antes.

As ruas vêm e vão, lá estão os mendigos, os párias que criamos na hipocrisia da sociedade em que vivemos. Achamos Cuba uma ditadura (eu, não!); achamos que Honduras segue um caminho de legalidade (eu, também não!) – e não somos capazes de enxergar a perversidade que se desfolha em nossas calçadas e marquises. Dia desses, assassinos derrubaram um helicóptero policial, em verdadeira ação terrorista, tudo culpa da guerra em que vivemos por conta de porcarias que só servem para destruir famílias, amizades e laços. A polícia, bem sabemos, tem gente de bem mas infiltrados idem. Matamos e morremos mais do que no Iraque, mais do que no Vietnam. É isso que chamamos de democracia?

Ninguém melhor do que um gênio comunista feito Oscar Niemeyer para definir solução de favelas, sempre embonecadas com “humanização” por governos. Perguntado sobre o tema, disse o mestre: “Nenhuma. O importante teria sido não invadir os espaços vazios, respeitar a natureza e conter o poder imobiliário”.

Tapar o sol com a peneira, fingir que não se vê o mendigo de mão estendida, fingir que não se vê o favelado morando na palafita entre ratos, tiros e tristeza. “Eu pago meus impostos e pronto (leia-se “O Estado é meu serviçal”)”. Fingir a velha e mofada falácia de que "é tudo vagabundo que não quer nada". Mas no Natal tudo vai ser diferente.

Quanto a mim, jamais tolerarei um sistema de livre iniciativa que mantém pessoas em favelas e no abandono das ruas. Estou há trinta e cinco anos com esse pensamento e, conseqüentemente, velho demais para mudá-lo. Acredito, piamente, que todos os que se posicionam de forma cruel contra essas pessoas, seja através do desprezo e descaso, seja através de raciocínios ainda mais espúrios como a remoção delas para lugares onde não sejam vistas, são cúmplices do Estado quanto à esta verdadeira atrocidade.

É muito cômodo falar de livre iniciativa com a bunda na poltrona, a tv a cabo ligada e o jantar multivariado assegurado. A realidade da esmagadora maioria não é essa.


II

Houve um tempo em que César Maia, esse mesmo que pode ter forte ligação com os panetones milionários do Governo Arruda, era sucesso no Rio de Janeiro. Gostavam de sua admiração por ordem e autoridade, sem perceber que o ex-prefeito recheava seus discursos com teses e frases claramente emprestadas da doutrina de Mussolini. O pessoal da orla gostava, sim, e muito. E a turma do outro lado do túnel a ver navios – na fotografia. Sujeito que é metido a mandatário sempre faz sucesso. Lembram do Collor? E de Sandra Cavalcanti, braço-direito de Carlos Lacerda nas remoções criminosas de moradores de favelas na Guanabara, tempo em que não faltavam “incêndios acidentais” nas comunidades carentes? Virou braço-direito de Maia.

Há vinte e cinco anos, a cidade era o caos. Vinte também. Dez, hoje. Havia sempre um discurso pronto: “A culpa é do Brizola”. Raras vezes a seguir, o imaginário popular foi tão bem-dotado de completa idiotice. Atualmente, há outra: “A culpa é do Lula”.

Poucos anos depois da confusão que insiste em permanecer nublada, dado o interesse de muitos, o desconforto em ver Delúbio, Silvinho e a cara amarrada do Deputado Genoíno ainda é muito grande. Mas existe uma diferença enorme do jingombéu de Brasília: faltam imagens claras, gravadas, de um governador agradecendo a caridade dada (em notas). E a crise da Arena 2009 não foi denunciada por Roberto Jefferson, ex-advogado do povo (na tv), ex-companheiro de auditório de Serginho Mallandro e que, ao ser questionado sobre as provas que teria a respeito das denúncias do “mensalão” (péssimo neologismo popularizado pelo obeso ex-parlamentar), afirmou com singeleza: “São histórias que vi e vivi”.


III

Os traficantes sanguinários que hoje trazem dor e desespero à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro pertencem justamente à geração herdeira dos milhões de desempregados no governo Collor, em paralelo sem precedentes que foi o desgoverno de Marcello Alencar. Seria alguma coincidência? Ou a “culpa” vai cair sobre Saturnino Braga?


IV

Gente é gente todo dia. Gente precisa de atenção e amparo todo dia.

O individualismo das ruas extirpe essa idéia.

Ou se muda a sociedade ou ela desabará por seus próprios meios. E não vai adiantar correr para o São Conrado Fashion Mall em busca de abrigo – a Rocinha é bem ali.


V

Pouca gente é capaz de conviver com seus super-heróis. Eu consegui.

Minha mãe não tem paralelo na minha vida por ter sido minha mãe, somente. É porque foi a melhor pessoa que conheci na vida.

Em 1978, vivíamos muita dificuldade em casa por conta da derrocada financeira de meu pai. Eram tempos de coisas contadas, mesmo, bem diferente da pujança de pouco tempo antes. Certo dia, caminhávamos pelo Bairro Peixoto quando a vi assustada: ela tinha acabado de avistar um rapaz com quem trabalhara em alguma loja. Ele, de mãos estendidas, se chamava Matias. Tinha virado mendigo.

Toda a praça parou para nos ver, claro. Se hoje, 2009, não é comum uma pessoa “bem-vestida” conversar com um mendigo na rua, imaginem trinta anos antes. Além do mais, minha mãe estava arrumada e ainda era muito bonita, o que aumentava o choque de preconceito. Não lembro bem o que conversaram, mas sei que minha mãe me trouxe com ele, comprou algumas roupas no shopping center de Copacabana (hoje, o “Shopping dos antiquários”) e subiu conosco para nossa minúscula casa. Desnecessário dizer da reação das pessoas na rua, mas minha mãe nem estava aí para nada quando o assunto era fazer o bem. O Matias subiu, tomou banho, trocou de roupa. Descemos novamente, fomos ao barbeiro também no shopping. Virou outra pessoa, mesmo.

Como nossa casa tinha se tornado muito pequena, não havia como hospedá-lo. Minha mãe tinha pouco dinheiro, mas comprou um jornal, parou num orelhão daqueles que usavam fichas da Cetel e telefonou: conseguiu uma vaga para o Matias num anúncio de jornal. E pagou dois meses. Lembro que, depois da ligação, ele não parava de chorar e eu não entendia, claro: na verdade, estava agradecido.

O tempo passou, um, dois anos talvez. Por razões que a memória esqueceu, lá estava eu na rua com a minha mãe de novo em algum lugar do bairro. Num súbito, deu um grito de alegria: era o Matias. Estava com avental, na hora de folga, flanando: era cozinheiro de algum restaurante de Copacabana. Quando nos despedimos, eu lembro bem da alegria que tomou conta da minha mãe; criança ainda, eu não tinha a real noção de grandeza daquela situação. Literalmente, com alguns trocados, uma ficha de orelhão e muita atitude, minha mãe mudou a vida de uma pessoa sofrida para sempre.

Felizmente, as histórias que vi e vivi são bem diferentes das contadas pelo Sr. Roberto Jefferson. E das registradas em vídeo com a participação especial do Governador Arruda.

Meu Natal é minha mãe.


VI

Vale a pena reproduzir aqui o excelente artigo escrito por Frei Betto a respeito do novo fenômeno da internet, a blogueira cubana Yoani Sánchez, cantada e decantada como uma versão latino-americana de Mahatma Gandhi a lutar contra as injustiças de Cuba. Não se trata de uma verdade absoluta; tão-somente, um instrumento de reflexão. O artigo de Frei Betto foi publicado em inúmeros jornais e veículos recentemente. Veja:

“O mundo soube que, a 7 de novembro último, a blogueira cubana Yoani Sánchez teria sido golpeada nas ruas de Havana. Segundo relato dela, “jogaram-me dentro de um carro... arranquei um papel que um deles levava e o levei à boca. Fui golpeada para devolver o documento. Dentro do carro estava Orlando (marido dela), imobilizado por uma chave de karatê... Golpearam-me nos rins e na cabeça para que eu devolvesse o papel... Nos largaram na rua... Uma mulher se aproximou: “O que aconteceu?” “Um sequestro”, respondi. (www.desdecuba.com/generaciony )

Três dias depois do ocorrido nas ruas da Havana, Yoani Sánchez recebeu em sua casa a imprensa estrangeira. Fernando Ravsberg, da BBC, notou que, apesar de todas as torturas descritas por ela, “não havia hematomas, marcas ou cicatrizes” (BBC Mundo, 9/11/2009). O que foi confirmado pelas imagens da CNN. A France Press divulgou que ela “não foi ferida.”

Na entrevista à BBC, Yoani Sánchez declarou que as marcas e hematomas haviam desaparecido (em apenas 48 horas), exceto as das nádegas, “que lamentavelmente não posso mostrar”. Ora, por que, no mesmo dia do suposto sequestro, não mostrou por seu blog, repleto de fotos, as que afirmou ter em outras partes do corpo?

Havia divulgado que a agressão ocorreu à luz do dia, diante de um ponto de ônibus “cheio de gente.” Os correspondentes estrangeiros em Cuba não encontraram até hoje uma única testemunha. E o marido dela se recusou a falar à imprensa.

O suposto ataque à blogueira cubana mereceu mais destaque na mídia que uma centena de assassinatos, desaparecimentos e atos de violência da ditadura hondurenha de Roberto Micheletti, desde 27 de junho.

Yoani Sánchez nasceu em 1975, formou-se em filologia em 2000 e, dois anos depois, “diante do desencanto e a asfixia econômica em Cuba”, como registra no blog, mudou-se para a Suíça em companhia do filho Téo. Ali trabalhou em editoras e deu aulas de espanhol.

Em 2004, abandonou o paraíso suíço para retornar a Cuba, que qualifica de “imensa prisão com muros ideológicos”. Afirma que o fez por motivos familiares. Quem lê o blog fica estarrecido com o inferno cubano descrito por ela. Apesar disso, voltou.

Não poderia ter assegurado um futuro melhor ao filho na Suíça? Por que regressou contra a vontade da mãe? “Minha mãe se recusou a admitir que sua filha já não vivia na Suíça de leite e chocolate” (blog dela, 14/08/2007).

Na verdade, o caso de Yoani Sánchez não é isolado. Inúmeros cubanos exilados retornam ao país após se defrontarem com as dificuldades de adaptação ao estrangeiro, os preconceitos contra mulatos e negros, a barreira do idioma, a falta de empregos. Sabem que, apesar das dificuldades pelas quais o país atravessa, em Cuba haverão de ter casa, comida, educação e atenção médica gratuitas, e segurança, pois os índices de criminalidade ali são ínfimos comparados ao resto da América Latina.

O que Yoani Sánchez não revela em seu blog é que, na Suíça, implorou aos diplomatas cubanos o direito de retornar, pois não encontrara trabalho estável. E sabe que em Cuba ela pode dedicar tempo integral ao blog, pois é dos raros países do mundo em que desempregado não passa fome nem mora ao relento...

O curioso é que ela jamais exibiu em seu blog as crianças de rua que perambulam por Havana, os mendigos jogados nas calçadas, as famílias miseráveis debaixo dos viadutos... Nem ela nem os correspondentes estrangeiros, e nem mesmo os turistas que visitam a Ilha. Porque lá não existem.

Se há tanta falta de liberdade em Cuba, como Yoani Sánchez consegue, lá de dentro, emitir tamanhas críticas? Não se diz que em Cuba tudo é controlado, inclusive o acesso à internet? Detalhe: o nicho Generación Y de Sánchez é altamente sofisticado, com entradas para Facebook e Twitter. Recebe 14 milhões de visitas por mês e está disponível em 18 idiomas! Nem o Departamento de Estado do EUA dispõe de tanta variedade linguística. Quem paga os tradutores no exterior? Quem financia o alto custo do fluxo de 14 milhões de acessos?

Yoani Sánchez tem todo o direito de criticar Cuba e o governo do seu país. Mas só os ingênuos acreditam que se trata de uma simples blogueira. Nem sequer é vítima da segurança ou da Justiça cubanas. Por isso, inventou a história das agressões. Insiste para que suas mentiras se tornem realidades.

A resistência de Cuba ao bloqueio usamericano, à queda da União Soviética, ao boicote de parte da mídia ocidental, incomoda, e muito. Sobretudo quando se sabe que voluntários cubanos estão em mais de 70 países atuando, sobretudo, como médicos e professores.

O capitalismo, que exclui 4 bilhões de seres humanos de seus benefícios básicos, não é mesmo capaz de suportar o fato de 11 milhões de habitantes de um país pobre viverem com dignidade e se sentirem espelhados no saudável e alegre Buena Vista Social Club”.

Moral da história? “Assim não é, se lhe parece”.


VII

Foi-se o tempo em que eu acreditava na bondade dos homens no Natal. No Papai Noel, também.

Era 1974. Eu e meu amigo Júnior estávamos em minha casa, na rua de Santa Clara, 345, num prédio que não mais existe – agora é um moderno fléti. Era véspera de Natal, dia 24.

Bateram à porta. Ficamos assustados e nervosos. Minha amada mãe disse que poderia ser o Papai Noel. Corremos, abrimos a porta e lá estava um sacão de brinquedos de enlouquecer qualquer criança. Imediatamente, corri para a banheira a testar um pequeno submarino que flutuava n’água. O Júnior ficou muito contente também com muitos presentes. A ingenuidade de crianças não nos permitiu perceber que o Papai Noel era meu pai, que levou o sacão e voltou ao apartamento pela porta dos fundos. Foi uma grande noite. Eram tempos de fartura econômica para meu pai, infelizmente despedaçados para sempre a seguir. Tudo bem antes da história do Matias.

Fui uma das poucas crianças deste país a ganhar um presente desses numa noite de Natal, embora o gesto de carinho seja infinitamente maior do que os objetos presenteados. Sou e serei eternamente grato a meus pais por tudo o que me ofereceram; até mesmo nas inúmeras dificuldades, aprendi bastante. Se é que os perdi para sempre, o passado está intacto.

Dedico aquela grande noite à minha querida família, que sempre estará por aqui de alguma forma.

E também ao mendigo sofrido da lanchonete Akay.


Paulo-Roberto Andel, 14/12/2009