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Friday, March 30, 2018
hey, amor
hey, amor/ as coisas continuam fora do lugar/ o caos é nossa matriarca gentil/ eu continuo sem você/ e tão sem mim/ o brasil precisa amanhecer/ o que será daquele um só mesmo?/ e das manchetes encardidas/ desta selva de pedra nazifascista/ mas ainda existem restos de amor/ my love said never felt him so good/ longe do mar de lágrimas das entranhas da rua/ longe do ódio e dos fuzilamentos/ um milhão de detentos para justiça alguma/ o sol ainda brilha em abril/ mas temos contado mortos demais/ as veias de asfalto estão sangrando demais/ meu coração ainda espera por ti/ nunca estarás morta no que vejo/ não viveremos para sempre no exílio/ nem pediremos esmolas aos que nos veem com nojo/ não precisamos destes bostas para nada/ hey amor/ hoje é uma noite solitária/ de dia santo e mil diabos pelas ruas/ pobres diabos sem rumo nem preço/ ainda choro por ti/ e me desaconteço/ Brasil/ minha voz enternecida/ calou-se à última canção/hey amor/ se eu não te ver nunca mais/ saiba que te carreguei feito os versos de um poema emblemático/ dos dias sofridos da grande metrópole/ onde todos são todos e cada um é ninguém/ só eu sei das esmolas que peço a mim mesmo/ perdido na solidão das ruas/ despencando do décimo andar da tristeza/ até me estraçalhar no chão/ para viver outra vez sem razão/ hey, amor/ a madrugada tem silêncios moles/ a solidão traz poesias de ironia e cores/ queremos pequena fé enquanto degustamos os rumos da desesperança. @pauloandel
Thursday, March 29, 2018
Tuesday, March 27, 2018
A panfleteira
A
GAROTA morena e jovem está na porta da casa de tolerância panfletando a
propaganda de serviços sexuais, enquanto espia o smartphone e usa um fone de
ouvido. Ela parece jovem, é mais jovem do que se pode supor, mas carrega as
marcas do tempo veloz de quem trabalha na prostituição. Ela atende clientes
também. Ela às vezes sorri, enquanto na diagonal da Rua do Senado um
panfleteiro conversa com transeuntes e veste uma camisa de time de futebol. Ela
também é séria e compenetrada em seu trabalho. A Rua do Senado é vazia e quente
perto de uma da tarde, quase sem carros, praticamente sem gentes. Mais adiante,
ouve-se um poderoso som de funk saído de um cortiço. Mais adiante, uma voz em
alto-falante ecoa do Quartel Central do Corpo de Bombeiros. Mais adiante, duas
jovens e belas garotas, elegantemente vestidas, saem do palácio corporativo da
Petrobras rumo ao almoço ou qualquer outra coisa. Elas são bonitas e jovens, bem
jovens, tão jovens quanto a garota morena que panfleta honestamente na porta da
casa de tolerância, jovens demais mas com trajes de sobriedade empresarial bem sucedida. As duas garotas cochicham e riem, do mesmo jeito que a
garota morena fez cento e cinquenta metros atrás ou adiante - conforme o referencial, mas também conversam seriamente
e tudo se resume a uma distância muito pequena quando se pensa em andar, mas
imensa quando o caso é entender o Brasil, as desigualdades, as oportunidades e
o futuro de jovens mulheres que, por incrível que pareça, andam pela mesma
calçada – e nela, podem acontecer os únicos encontros de suas vidas, mas no máximo com um esbarrão e só.
Saturday, March 24, 2018
carne tesa carne
carne tesa carne
inebriada
de desejos e tesões
- ah, perversões!
cantos danças corpos
madrugada
e carnavais de pele
pra quem entende
o sexo em riste
o gozo e o contraste:
há efêmero e eterno
descartável e permanente
os colos trêmulos
os líquidos pulsantes
a vida o êxtase - há cor
e mil estrelas à vista
o abraço do prazer
cumprido e o fim
do gosto proibido
- existe a paz!
@pauloandel
Tuesday, March 20, 2018
bella blú
nenhum poeta escreverá
os versos na toalha de mesa
na última grande noite
da pizzaria - não, nenhum!
copacabana é um peito
cansado e triste, vazio
perdido em lembranças vãs
e memórias em decomposição
a linda prostituta nunca
mais cortejará seu
elegante cafetão na última
grande noite da pizzaria
nunca mais os jovens
famintos à espera do
amigo mais velho e rico
para pagar algum prato
os mafiosos italianos
com elegantes camisas
vermelhas agora são mera
lembrança do longe, longe
copacabana não dorme
e joga fora os armários
de fatos e fotos - a vida
em riste e mil faroestes
as ruas são farmácias
os doentes, empilhados
debaixo da marquises
e de olhares de nojo
a cólera é a covardia
enrustida
somos hipócritas imorais
em nome de Deus
nunca mais dois amantes
darão as mãos à mesa
na última grande noite
da pizzaria
alguém proteja o bar
sniff e a adega pérola
até mesmo o velho pé sujo
da anita garibaldi
antes que o mundo seja
um tarde demais à noite
mais quente do ano - tão fria
para os corações saudosos
@pauloandel
Sunday, March 18, 2018
PIB (Perfeito Idiota Brasileiro)
Desprezar, fazer pouco caso ou reduzir o tamanho da monstruosidade cometida contra Marielle não é sinal de politização, consciência ou de "opinião polêmica".
Na verdade é desumanidade, estupidez, incapacidade de ver o próximo como semelhante e, por fim, desconhecer um palmo à frente do nariz quando o assunto é Brasil.
É falta de convivência, apreço, respeito, dignidade.
É ler sem entender, aplaudir sem compreender, olhar sem enxergar.
É achar que suas deliberadas manifestações de falta de raciocínio são "polêmicas" ou "para abalar".
Estupidez. Desumanidade. Marcas típicas do PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro.
O fuzilamento foi cometido próximo à Prefeitura, ao Hospital Central da PM, ao Batalhão de Choque e à Acadepol, para que não deixasse dúvidas: os assassinos e seus mandantes deixaram um recado claro de escárnio às instituições. Debocharam de todos os policiais honestos e agentes públicos das mesmas. "Quem manda nessa merda é a gente. Uhu!"
Por sinal, a luta de Marielle também envolvia a defesa de famílias de policiais fuzilados como ela foi.
O PIB sequer percebe que, para expor gratuitamente a sua falta de visão de mundo e a sua colossal ignorância (que independe de "anos de estudo"), é preciso democracia - e ela inexiste quando qualquer pessoa é fuzilada.
Quantos livros, quantas aulas, quantas horas, quanta coisa foi jogada fora em favorecimento dessa verdadeira apologia ao primitivismo...
O PIB é a realidade modal do Brasil, e também a sua maior desgraça.
Saturday, March 17, 2018
eles estão mortos demais
haja o que houver
eles estão mortos demais
afogados na própria cólera
engasgados com fel
na saliva
eles são a verdadeira carne
podre que anda e ri sem
entender as mazelas do mundo
fantoches das manchetes
vassalos da televisão
haja o que houver
eles são os verdadeiros mortos
os suicidas da lucidez
e celebram suas desgraças
sorrindo pela dor dos outros
e comemoram a morte da mártir
a mulher indefesa fuzilada
eles são corpos em decomposição
nas geladeiras mortuárias
quebradas nas redes
antiasociais
pulhas pilantras medíocres
boçais ignorantes
débeis mentais
que leem mas não entendem
que pensam mas não
raciocinam
que olham mas não enxergam
sim eles estão felizes
a estupidez lhes regenera
mas o fascismo não é para
sempre quem atira e mata
também morrerá - o ódio
é o mais certeiro fracasso
haja o que houver por aqui
o assassino é um morto
em vida - que ninguém se
iluda eles sabem da própria
morte infeliz e nojenta
Tuesday, March 13, 2018
Picaretagem no samba
No mundo do samba, é difícil encontrar alguém que já não tenha ouvido ou visto
o Grupo Cultural Exaltação ao Samba de Enredo, que sempre foi conhecido como Grupo Samba Enredo, seu nome original.
Primeiro, pelo principal:
talento.
Segundo, porque o conjunto já passou por várias quadras das principais Escolas de Samba do Rio em seus dez anos de carreira, além de ter tocado com praticamente todas as Velhas Guardas em suas apresentações.
Segundo, porque o conjunto já passou por várias quadras das principais Escolas de Samba do Rio em seus dez anos de carreira, além de ter tocado com praticamente todas as Velhas Guardas em suas apresentações.
Há anos, o Exaltação toca na
quadra da Mangueira, da Portela, no Bola Preta, no tradicional sábado de samba
do Tijuca Tênis Clube e em seu berço, o bar Armazém da Senado, um dos endereços
mais tradicionais da cidade, com 111 anos de vida. Aqui falo de cadeira porque
vi seus shows em vários desses lugares.
Um dos principais incentivadores
do grupo em sua fundação e trajetória é Rubem Confete, que é uma lenda viva do
samba carioca, além de compositor, jornalista, roteirista, teatrólogo,
radialista, gráfico, cantor, ativista e estudioso das questões afro-brasileiras.
No Tijuca Tênis Clube, o
Exaltação é grupo fixo, levando centenas de pessoas às suas apresentações que
duram horas em sábados alternados.
Alguém me avisa e fico sabendo de
que, no Facebook, foi criada uma página do grupo... “Samba Enredo”, que nada
tem a ver com o original, mas é um projeto que, no mínimo, tenta se aproveitar
do primeiro, usando um nome parecido.
Ao visitá-la, vejo que o show de “lançamento
nacional” do grupo é no dia 21/04... no Tijuca Tênis Clube, o mesmíssimo
endereço onde o Exaltação toca há anos.
É quase o mesmo que, se nos anos
1980, tivesse surgido um grupo de pop rock chamado Legião Suburbana, Parabrisas
de Bonsucesso ou Barão Verde. Tentativas levianas de driblar acusações de
evidente plágio.
No entanto, lançar um grupo quase
homônimo no mesmo lugar onde o original toca há anos é, no mínimo, um exercício
descarado de má fé.
Indignado, publiquei na página o
vídeo de documentário do Exaltação, recebendo uma resposta inacreditável: que
se tratava de uma “nova proposta” (sofisma para disfarçar plágio descarado) e,
logo abaixo, um emoji que não sei dizer se é de raiva ou vergonha.
Mas a minha indignação
naturalmente não foi a única. Afinal, muita gente acompanha o Exaltação há anos
e anos. Repare nas respostas da "nova proposta"...
É justo que um grupo tente buscar
espaço no mercado da música. Agora, é ABOMINÁVEL a desfaçatez de plagiar e se começar
numa carreira usando o trabalho consagrado de outros artistas como “escada”.
No mínimo, cabe um
ajuizamento claro.
É o tipo de coisa que já causa no
mínimo mal estar em qualquer área, imagine na arte.
Espero que os responsáveis pelo plágio, a ponto de tentar ocupar o mesmo espaço físico do grupo original, caiam em si
a tempo de desfazer este ato claramente lesivo à imagem e trabalho do
Exaltação. Contudo, se não o fizerem, já começam dando vários passos para trás, para não dizer um tiro no pé.
Na arte, a traição não perdoa.
Para seguir o VERDADEIRO Grupo Exaltação ao Samba de Enredo, acesse A PÁGINA DO FACEBOOK.
Wednesday, March 07, 2018
Tuesday, March 06, 2018
Sunday, March 04, 2018
Monday, February 26, 2018
uma janela do mundo
o negrume de um
quarto
escuro
e procuro no teto
o mapa mundi
do fim do
mundo
o mês que se despede
a opressão que insiste
em coibir a vida:
a liberdade
é uma farsa
de calças arriadas
debaixo do teto
de um quarto escuro
funciona um bunker
de proteção contra
o fim do mundo
as mensagens estão
mudas
a palestra parece
vazia
ninguém troca
amores
escondido no escuro
do quarto vazio
numa noite do mundo
quem vai nos salvar
de vez?
os corações perfeitos
parecem arredios
demais
@pauloandel
quarto
escuro
e procuro no teto
o mapa mundi
do fim do
mundo
o mês que se despede
a opressão que insiste
em coibir a vida:
a liberdade
é uma farsa
de calças arriadas
debaixo do teto
de um quarto escuro
funciona um bunker
de proteção contra
o fim do mundo
as mensagens estão
mudas
a palestra parece
vazia
ninguém troca
amores
escondido no escuro
do quarto vazio
numa noite do mundo
quem vai nos salvar
de vez?
os corações perfeitos
parecem arredios
demais
@pauloandel
Sunday, February 25, 2018
amor mora
onde mora o meu amor
além dos silêncios
e desencontros
ou em palavras que
nunca são ditas?
perdido entre hiatos
náufrago da distância
retrato de natureza
morta
ah, o meu amor
escondido em prateleiras
e postagens
insignificantes
ou em versos de
passos tortos
claudicantes de
um bêbado admirável
ele estende as mãos
de paixão
e pede esmolas
debaixo duma marquise
numa grande avenida
central
o meu amor anda sozinho
por ruas perigosas
e não dá bom dia
a estranhos
não dorme mas sonha
e espera o impossível
na próxima esquina
ele mora longe, longe
sem palavras
o meu amor está falido
em portas arriadas
cadeados fechados
e placas de aluga-se
há poesia em vão
escorrendo entre corações
de peitos vazios
e memórias desperdiçadas
o meu amor tão sozinho
esperando o VLT
às oito horas na Rio Branco
enquanto famílias
felizes trazem os filhos
de mãos dadas
ou alguém olhando
o antigo relógio da Mesbla
subindo a escada do metrô
na Cinelândia
o meu amor é um domingo
à noite
silencioso e fugidio
sem bares lotados
e risos
sem um grito de campeão
o último pouso
no Santos Dumont
enquanto a linda
comissária parece
tão indiferente ao fim
do expediente
o meu amor é um país
destruído
é um féretro vazio
é um livro que não
foi lido
e mora tarde, tarde
ele dá as costas
e dá de ombros
para caminhar sozinho
na madrugada
na avenida chile
procurando a morte
num assalto covarde
- ou celebrando a vida
sob escombros
no coração da grande
cidade
@pauloandel
Wednesday, February 21, 2018
a tristeza soberana da guanabara
inevitável é pensar:
soberana, a tristeza
em meio à tempestade
os desprezados e humilhados
ratos humanos em busca
de toca
os corações solitários
oprimidos
em terra de cobiça
e modernas senzalas
a cidade e suas águas
melancólicas
pela própria natureza:
os famintos, desabrigados
o desprezo tão humano
e alheio ao razoável
a opressão em doses cruas
o desamor a indiferença
o sofrimento em peles queimadas
e drogas letalíssimas
à venda numa TV
que nem Paul Simon acode
o amor que delinque
o tesão que não se
cumpre
os sonhos sob
escombros
a cidade afogada em
lágrimas
não há vagas
não há sonhos
não há abraços
e as mãos mendigas
afagam a morte
sob marquises infiéis
e as mãos mendigas
procuram um aperto
um abraço de palmas
mas só encontram
pequenas moedas, se muito
hoje é um novo dia
para os mais ingênuos
os indiferentes
os homens de negócios
chamando as pessoas
por números e valores
e contas desprezíveis
depois do sinal os
recados
são a consagração
da inutilidade
diante de todos os
mortos
os corações dilacerados
em vão:
somos um lindo planeta!
nosso único pecado
reside na colossal
hipocrisia
ninguém há de resgatar
a lama suja da nossa
insana hipocrisia
o sinal caiu
soberana, a tristeza
em meio à tempestade
os desprezados e humilhados
ratos humanos em busca
de toca
os corações solitários
oprimidos
em terra de cobiça
e modernas senzalas
a cidade e suas águas
melancólicas
pela própria natureza:
os famintos, desabrigados
o desprezo tão humano
e alheio ao razoável
a opressão em doses cruas
o desamor a indiferença
o sofrimento em peles queimadas
e drogas letalíssimas
à venda numa TV
que nem Paul Simon acode
o amor que delinque
o tesão que não se
cumpre
os sonhos sob
escombros
a cidade afogada em
lágrimas
não há vagas
não há sonhos
não há abraços
e as mãos mendigas
afagam a morte
sob marquises infiéis
e as mãos mendigas
procuram um aperto
um abraço de palmas
mas só encontram
pequenas moedas, se muito
hoje é um novo dia
para os mais ingênuos
os indiferentes
os homens de negócios
chamando as pessoas
por números e valores
e contas desprezíveis
depois do sinal os
recados
são a consagração
da inutilidade
diante de todos os
mortos
os corações dilacerados
em vão:
somos um lindo planeta!
nosso único pecado
reside na colossal
hipocrisia
ninguém há de resgatar
a lama suja da nossa
insana hipocrisia
o sinal caiu
Thursday, February 15, 2018
A Globo é a mesma de sempre
É natural que a Globo passe a mirar seus fuzis para a Tuiuti.
Acostumada a colonizar opiniões, oprimir e apartar brasileiros por meio de castas, ela não toleraria impunemente a verdadeira humilhação que passou na Sapucaí, ao ter pago para transmitir a demolição de suas mentiras em rede internacional. E, como sempre faz, agora busca meios para destruir moralmente sua nova inimiga número um.
A "novidade" é, em nome de sua ética elástica, apontar o terrível acidente que vitimou uma pessoa ano passado na avenida como a "mancha" para o desfile-denúncia que ganhou o mundo no Carnaval 2018. Tudo dentro das perspectivas de cinismo de quem vê o povo brasileiro apenas como mercado consumidor, dócil e submisso.
Quantos crimes contra o povo brasileiro têm sido estimulados, apoiados ou promovidos pela Globo no último meio século?
A mesma Globo que fez tudo para sabotar o Carnaval de 1984. Ou a que apoiou todos os golpes contra a democracia no Brasil, para décadas depois 'pedir desculpas' cinicamente. Ou a que editou criminosamente um debate presidencial para impor seu candidato ao país, elegê-lo a marretadas e depois descartá-lo quando ele contrariou algum de seus interesses.
A Globo que hipocritamente denuncia o 'crime' da Tuiuti é a mesma que sempre apoiou, bajulou e promoveu poderosos homens do Carnaval, todos eles com enorme ficha criminal desde sempre. Nunca se preocupou com crime algum. É uma farsa. O que lhe incomoda é ter sido desafiada perante o povo brasileiro, sem capacidade de reação simultânea, exceto a ridícula supressão de comentários na reprise do dia seguinte.
A mesma Globo que, anualmente, com a força de seu dinheiro (obtido dos pobres que ela tanto odeia), humilha as escolas de samba porque "paga a transmissão". O desfile é transmitido cortado para dezenas de milhões de pessoas há anos. As primeiras escolas a desfilar, excluídas. Trabalhadores de um ano inteiro são condenados à invisibilidade para que ela, Globo, possa exercer os seus caprichos de programação. Quem não aceitar, está fora.
A mesma Globo que 'promove o futebol', impondo-o nos horários mais estapafúrdios, mas paga propina para a FIFA visando unicamente benefício próprio. Ética e moral seletivas.
A mesma Globo que quer triturar o brasileiro com essa farsa da reforma da presidência, mas que não esboça a menor preocupação quando um de seus funcionários, alçado à condição de 'presidenciável' (é a cara da emissora), 'fatura' um jatinho no BNDES para gerar zero emprego. Aliás, falando em dinheiro público, em matéria de calotar tributos a empresa de comunicação (editada) é multicampeã de todos os Carnavais. E depois coloca a culpa nas aposentadorias...
A mesma Globo farsante que, durante anos e anos, tentou destruir a imagem de Leonel Brizola, até que um dia foi humilhada em suas próprias câmeras de transmissão por determinação da Justiça, a mesma que hoje ela faz tudo para manipular, tratando os brasileiros como marionetes ou fantoches.
Qualquer semelhança de reação odiosa contra o desfile da Tuiuti em 2018 e o vídeo abaixo não é mera coincidência.
Nos dois casos, a Globo foi desmascarada em rede nacional, diante de suas próprias barbas.
https://youtu.be/ObW0kYAXh-8
Acostumada a colonizar opiniões, oprimir e apartar brasileiros por meio de castas, ela não toleraria impunemente a verdadeira humilhação que passou na Sapucaí, ao ter pago para transmitir a demolição de suas mentiras em rede internacional. E, como sempre faz, agora busca meios para destruir moralmente sua nova inimiga número um.
A "novidade" é, em nome de sua ética elástica, apontar o terrível acidente que vitimou uma pessoa ano passado na avenida como a "mancha" para o desfile-denúncia que ganhou o mundo no Carnaval 2018. Tudo dentro das perspectivas de cinismo de quem vê o povo brasileiro apenas como mercado consumidor, dócil e submisso.
Quantos crimes contra o povo brasileiro têm sido estimulados, apoiados ou promovidos pela Globo no último meio século?
A mesma Globo que fez tudo para sabotar o Carnaval de 1984. Ou a que apoiou todos os golpes contra a democracia no Brasil, para décadas depois 'pedir desculpas' cinicamente. Ou a que editou criminosamente um debate presidencial para impor seu candidato ao país, elegê-lo a marretadas e depois descartá-lo quando ele contrariou algum de seus interesses.
A Globo que hipocritamente denuncia o 'crime' da Tuiuti é a mesma que sempre apoiou, bajulou e promoveu poderosos homens do Carnaval, todos eles com enorme ficha criminal desde sempre. Nunca se preocupou com crime algum. É uma farsa. O que lhe incomoda é ter sido desafiada perante o povo brasileiro, sem capacidade de reação simultânea, exceto a ridícula supressão de comentários na reprise do dia seguinte.
A mesma Globo que, anualmente, com a força de seu dinheiro (obtido dos pobres que ela tanto odeia), humilha as escolas de samba porque "paga a transmissão". O desfile é transmitido cortado para dezenas de milhões de pessoas há anos. As primeiras escolas a desfilar, excluídas. Trabalhadores de um ano inteiro são condenados à invisibilidade para que ela, Globo, possa exercer os seus caprichos de programação. Quem não aceitar, está fora.
A mesma Globo que 'promove o futebol', impondo-o nos horários mais estapafúrdios, mas paga propina para a FIFA visando unicamente benefício próprio. Ética e moral seletivas.
A mesma Globo que quer triturar o brasileiro com essa farsa da reforma da presidência, mas que não esboça a menor preocupação quando um de seus funcionários, alçado à condição de 'presidenciável' (é a cara da emissora), 'fatura' um jatinho no BNDES para gerar zero emprego. Aliás, falando em dinheiro público, em matéria de calotar tributos a empresa de comunicação (editada) é multicampeã de todos os Carnavais. E depois coloca a culpa nas aposentadorias...
A mesma Globo farsante que, durante anos e anos, tentou destruir a imagem de Leonel Brizola, até que um dia foi humilhada em suas próprias câmeras de transmissão por determinação da Justiça, a mesma que hoje ela faz tudo para manipular, tratando os brasileiros como marionetes ou fantoches.
Qualquer semelhança de reação odiosa contra o desfile da Tuiuti em 2018 e o vídeo abaixo não é mera coincidência.
Nos dois casos, a Globo foi desmascarada em rede nacional, diante de suas próprias barbas.
https://youtu.be/ObW0kYAXh-8
Tuesday, February 13, 2018
todos todos os dias
todos os dias, morre um policial a tiros, disparados por armas que os bandidos compram da própria polícia.
todos os dias, os golpistas tentam convencer os golpeados de que a corrupção deles é legítima.
todos os dias, escravos contemporâneos batem palmas para os maus atos dos senhores de engenho da era moderna - e vibram com as chicotadas que sofrerão
todos os dias, a estupidez comum impede o entendimento das manipulações praticadas pela TV, seus jornais e demais veículos de comunicação
todos os dias a massa de manobra não percebe que é manobrada, enquanto os fantoches se divertem com a própria mediocridade
todos os dias, o ódio tem vencido o amor, a fome tem vencido o conforto, a hipocrisia tem vencido a sensatez, a cobiça tem vencido a paz
todos os dias, a humanidade escorre pelos ralos em troca de nada, a maior parte das vidas é sofrimento em troca de nada, a miséria é a lei magna
todos os dias são a casa grande para poucos, a senzala para uma multidão, mas ficamos felizes com nossos smartphones em plena idade média
todos os dias são mãos mendigas estendidas, gravatas e ternos em correria, ladrões em bando dando porrada e matando, o caos latejando
todos os dias são de cidades esfaceladas, vidas perdidas, ordem e progresso das mentiras e crimes, a banalidade da morte, a opressão
todos os dias são pavor, morte, tristeza, pobreza, exclusão, aparte, insensatez, ignorância, tragédia e muita estupidez
é preciso mudar estes dias, a ferro e fogo, a espuma de sangue a brilhar, acabar com uma escravidão que nunca foi extinta, apenas realinhada, adaptada, marretada
@pauloandel
todos os dias, os golpistas tentam convencer os golpeados de que a corrupção deles é legítima.
todos os dias, escravos contemporâneos batem palmas para os maus atos dos senhores de engenho da era moderna - e vibram com as chicotadas que sofrerão
todos os dias, a estupidez comum impede o entendimento das manipulações praticadas pela TV, seus jornais e demais veículos de comunicação
todos os dias a massa de manobra não percebe que é manobrada, enquanto os fantoches se divertem com a própria mediocridade
todos os dias, o ódio tem vencido o amor, a fome tem vencido o conforto, a hipocrisia tem vencido a sensatez, a cobiça tem vencido a paz
todos os dias, a humanidade escorre pelos ralos em troca de nada, a maior parte das vidas é sofrimento em troca de nada, a miséria é a lei magna
todos os dias são a casa grande para poucos, a senzala para uma multidão, mas ficamos felizes com nossos smartphones em plena idade média
todos os dias são mãos mendigas estendidas, gravatas e ternos em correria, ladrões em bando dando porrada e matando, o caos latejando
todos os dias são de cidades esfaceladas, vidas perdidas, ordem e progresso das mentiras e crimes, a banalidade da morte, a opressão
todos os dias são pavor, morte, tristeza, pobreza, exclusão, aparte, insensatez, ignorância, tragédia e muita estupidez
é preciso mudar estes dias, a ferro e fogo, a espuma de sangue a brilhar, acabar com uma escravidão que nunca foi extinta, apenas realinhada, adaptada, marretada
@pauloandel
Monday, February 12, 2018
tempestade
há muitos anos tenho
visto as dores
o sofrimento
dos outros o meu
todos parecem tão
felizes enquanto
choro - ninguém repara
ou finge não perceber
tenho sido testemunha
das misérias infinitas
da indiferença e até
do ódio cru e rijo
já vi de perto os dramas
as tragédias as mortes
o desespero e muitas vezes
não encontrei
outras lágrimas além
das minhas
ah, as pessoas estão
ocupadas
elas têm suas vidas
ou estão desinteressadas:
ninguém tem culpa
deste mundo injusto
e cruel exceto
a raça humana
agora vejo a melancolia
a violência o ódio
o assassinato por nada
ou quase nada ou qualquer
coisa - a selvageria venceu:
ela mora nos discursos
dos homens brancos de bem
e também nos porretes dos
bandidos pretos e brancos
ou de qualquer outra pele
agora vejo o passado em
remake: a idade média tem
smartphone o crime tem
piratas e quadrilhas selvagens
enquanto se mija e caga
nas ruas tão carnavalescas
agora o futuro é ontem
a esperança virou desprezo
e só falta acontecer de vez
a nova guerra dos cem anos
as cruzadas os corpos
estraçalhados por cavalos
as cabeças decapitadas
tudo está aí no jornal nacional
e o contragolpe não será
televisionado o contragolpe
não será televisionado
ainda somos os mesmos
e vivemos chicoteados
por manchetes editadas
por farsas golpistas e mãos
estendidas à espera de
uma esmola em salvação
há muitos anos tenho sido
o menino mais triste
do mundo
não importa quem esteja
ao meu lado a cada passo
eu choro pelas dores de tudo
e sou o menino mais triste
do mundo ainda mais agora
que o fim parece tão mais
perto do que o começo
mas as pessoas estão felizes
ou fingem estar felizes
- o errado sou eu certamente
não sei enganar a mim mesmo
e sei que o tempo é cada vez
mais escasso e rápido, rápido
minha dor reside em testemunhar
a grande ilusão do mundo
e toda a minha impotência
não salvarei nem a minha vida
triste e deprimente vida - não:
eu não tenho mais tempo
nem força nem esperanças
em deixar um pedacinho
de terra melhor do que encontrei:
nem terra eu tenho!
o que me restou foi procurar
beleza em meio a uma
tempestade interminável
minha dor respira, inspira, respira
sem ajuda de aparelhos sem atenção
caridade ou amizade sem mais ninguém
a minha dor é o que me basta
@pauloandel
visto as dores
o sofrimento
dos outros o meu
todos parecem tão
felizes enquanto
choro - ninguém repara
ou finge não perceber
tenho sido testemunha
das misérias infinitas
da indiferença e até
do ódio cru e rijo
já vi de perto os dramas
as tragédias as mortes
o desespero e muitas vezes
não encontrei
outras lágrimas além
das minhas
ah, as pessoas estão
ocupadas
elas têm suas vidas
ou estão desinteressadas:
ninguém tem culpa
deste mundo injusto
e cruel exceto
a raça humana
agora vejo a melancolia
a violência o ódio
o assassinato por nada
ou quase nada ou qualquer
coisa - a selvageria venceu:
ela mora nos discursos
dos homens brancos de bem
e também nos porretes dos
bandidos pretos e brancos
ou de qualquer outra pele
agora vejo o passado em
remake: a idade média tem
smartphone o crime tem
piratas e quadrilhas selvagens
enquanto se mija e caga
nas ruas tão carnavalescas
agora o futuro é ontem
a esperança virou desprezo
e só falta acontecer de vez
a nova guerra dos cem anos
as cruzadas os corpos
estraçalhados por cavalos
as cabeças decapitadas
tudo está aí no jornal nacional
e o contragolpe não será
televisionado o contragolpe
não será televisionado
ainda somos os mesmos
e vivemos chicoteados
por manchetes editadas
por farsas golpistas e mãos
estendidas à espera de
uma esmola em salvação
há muitos anos tenho sido
o menino mais triste
do mundo
não importa quem esteja
ao meu lado a cada passo
eu choro pelas dores de tudo
e sou o menino mais triste
do mundo ainda mais agora
que o fim parece tão mais
perto do que o começo
mas as pessoas estão felizes
ou fingem estar felizes
- o errado sou eu certamente
não sei enganar a mim mesmo
e sei que o tempo é cada vez
mais escasso e rápido, rápido
minha dor reside em testemunhar
a grande ilusão do mundo
e toda a minha impotência
não salvarei nem a minha vida
triste e deprimente vida - não:
eu não tenho mais tempo
nem força nem esperanças
em deixar um pedacinho
de terra melhor do que encontrei:
nem terra eu tenho!
o que me restou foi procurar
beleza em meio a uma
tempestade interminável
minha dor respira, inspira, respira
sem ajuda de aparelhos sem atenção
caridade ou amizade sem mais ninguém
a minha dor é o que me basta
@pauloandel
Sunday, February 11, 2018
um abraço de Carnaval
Dois homens conversando nas imediações da Mem de Sá em plena alvorada do domingo de Carnaval. Podiam estar indo ou vindo, mas ali eram apenas dois confidentes, talvez tentando espantar a tristeza com um dos únicos punhados de celebração destas terras, que é quando as pessoas vão às ruas e cantam, dançam, transam, gozam, vibram e procuram algum sentido numa vida que é, entre sofrimentos, o intervalo para um trago ou um gole.
Falavam baixo para uma festa e alto para a madrugada, quase atrapalhando o sono desesperado dos mendigos nas imediações. Falavam de samba e sociedade, de alguma alegria e afeto, de pequenos brindes e deliciosas ilusões.
Quando se abraçaram, eram mais do que amigos ou irmãos. Dois camaradas, dois sobreviventes da guerrilha urbana, dois trabalhadores humildes celebrando os últimos momentos da primeira grande noite de Carnaval.
Um tomou um ônibus qualquer. O outro tomou o caminho de casa a pé. A noite acabou, o silêncio apareceu, o negrume do céu fica cada vez mais azulado, a Praça da Apoteose estava deitada em seu berço esplêndido. Ainda vai ter festa, mas tudo passa tão rápido que é preciso saborear cada momento.
Duma janela nas imediações, um velho homem testemunhara a despedida dos dois camaradas. Pensando em seu passado, quando acreditava ter amigos e estar longe do fim, ele se calou e chorou.
É Carnaval, mas existe um estranho cheiro de ruas tristes no ar.
Falavam baixo para uma festa e alto para a madrugada, quase atrapalhando o sono desesperado dos mendigos nas imediações. Falavam de samba e sociedade, de alguma alegria e afeto, de pequenos brindes e deliciosas ilusões.
Quando se abraçaram, eram mais do que amigos ou irmãos. Dois camaradas, dois sobreviventes da guerrilha urbana, dois trabalhadores humildes celebrando os últimos momentos da primeira grande noite de Carnaval.
Um tomou um ônibus qualquer. O outro tomou o caminho de casa a pé. A noite acabou, o silêncio apareceu, o negrume do céu fica cada vez mais azulado, a Praça da Apoteose estava deitada em seu berço esplêndido. Ainda vai ter festa, mas tudo passa tão rápido que é preciso saborear cada momento.
Duma janela nas imediações, um velho homem testemunhara a despedida dos dois camaradas. Pensando em seu passado, quando acreditava ter amigos e estar longe do fim, ele se calou e chorou.
É Carnaval, mas existe um estranho cheiro de ruas tristes no ar.
Wednesday, February 07, 2018
eu não tenho a menor ideia
se
existe alguma verdade
ela é: não sei
ela é: não sei
não
sei da minha vida
não tenho planos
não sei se a minha morte
está logo aqui ou longe
não sei quem me amou ou ama
quem gosta de mim
quem me abraçou de verdade
e sente falta
não sei direito a quem ajudei
se influenciei alguém
quem se emocionou com algo que fiz
eu não sei quem pensa em mim com amor
não tenho a menor ideia de quando fui marcante
ou se fiz chorar por algo bonito
não tenho planos
não sei se a minha morte
está logo aqui ou longe
não sei quem me amou ou ama
quem gosta de mim
quem me abraçou de verdade
e sente falta
não sei direito a quem ajudei
se influenciei alguém
quem se emocionou com algo que fiz
eu não sei quem pensa em mim com amor
não tenho a menor ideia de quando fui marcante
ou se fiz chorar por algo bonito
será
que lembram de mim no sniff?
no que sobrou do loreninha?
ou da parede de uma casa aos escombros
em arraial do cabo?
quem comprou discos de jazz comigo
em ipanema?
quem me ouviu em mesas de bar?
no que sobrou do loreninha?
ou da parede de uma casa aos escombros
em arraial do cabo?
quem comprou discos de jazz comigo
em ipanema?
quem me ouviu em mesas de bar?
eu não
tenho a menor ideia
se sou importante para uma única pessoa que seja
e realmente não penso nisso:
o que fiz e tenho feito é ser sincero
amar e ajudar o próximo
desde os tempos em que fiz uma promessa
quando era um garoto com o mundo pela frente
quando fred era meu amigo inseparável
e jogávamos botão à tarde numa mesa de tacos
se sou importante para uma única pessoa que seja
e realmente não penso nisso:
o que fiz e tenho feito é ser sincero
amar e ajudar o próximo
desde os tempos em que fiz uma promessa
quando era um garoto com o mundo pela frente
quando fred era meu amigo inseparável
e jogávamos botão à tarde numa mesa de tacos
eu não
tenho a menor ideia
de quem me lê ou escuta
quem sorri com minhas pequenas trapaças
em versos tortuosos e nada óbvios
quem entende por que vivo numa guerra particular
chorando e vendo os destroços da gente
amontoados debaixo das marquises?
de quem me lê ou escuta
quem sorri com minhas pequenas trapaças
em versos tortuosos e nada óbvios
quem entende por que vivo numa guerra particular
chorando e vendo os destroços da gente
amontoados debaixo das marquises?
eu não
sei
sobre os piores futuros que se avizinham
sobre o meu tempo
que é cada vez mais perto do fim
do que do começo
das coisas que passam velozes
feito a paisagem numa bela janela
do vlt
sobre os piores futuros que se avizinham
sobre o meu tempo
que é cada vez mais perto do fim
do que do começo
das coisas que passam velozes
feito a paisagem numa bela janela
do vlt
eu não
sei dizer
porque gosto tanto de miles davis
e jorge mautner e carlito azevedo
de rubens figueiredo e cacaso
e também jards macalé - tom zé
como se todos estivessem comigo
a conversar sobre o nada - uma ilusão
eu não sei dizer
porque sempre choro no cinema
e sofro tanto com a dor de um mundo
que não tem solução
nem que eu fosse egoísta
e só pensasse em mim mesmo
porque gosto tanto de miles davis
e jorge mautner e carlito azevedo
de rubens figueiredo e cacaso
e também jards macalé - tom zé
como se todos estivessem comigo
a conversar sobre o nada - uma ilusão
eu não sei dizer
porque sempre choro no cinema
e sofro tanto com a dor de um mundo
que não tem solução
nem que eu fosse egoísta
e só pensasse em mim mesmo
eu não
sei dizer
se whatsapp é amizade mesmo
se normalidade é distância e frieza
não sei dizer o que é normal
no dito mundo dos adultos
o quê?
se whatsapp é amizade mesmo
se normalidade é distância e frieza
não sei dizer o que é normal
no dito mundo dos adultos
o quê?
[aqui
padeço a cada dia
como se cumprisse uma pena
como se cumprisse uma pena
eu não
entendo o mundo e seus rancores
suas vaidades ocas
o pedantismo reinante
se vamos todos um dia
ser carne apodrecida ou cinzas
numa caixinha
suas vaidades ocas
o pedantismo reinante
se vamos todos um dia
ser carne apodrecida ou cinzas
numa caixinha
é tudo
tão inútil
eu não
tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
e sigo vivendo até não sei quando
o que virá
o que virá
a luz no fim do túnel
o desabamento final
ou qualquer coisa muito diferente
de todas as que pensei
e vivi - até aqui quase nada
fez sentido mas talvez
o grande lance seja mesmo este:
ficamos a procurar pela vida inteira
o que não existe
o que faça sentido porque
na verdade a vida e o sentido
devem caminhar em paralelas perfeitas
de todas as que pensei
e vivi - até aqui quase nada
fez sentido mas talvez
o grande lance seja mesmo este:
ficamos a procurar pela vida inteira
o que não existe
o que faça sentido porque
na verdade a vida e o sentido
devem caminhar em paralelas perfeitas
[elas jamais se cruzam
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
@pauloandel
Monday, February 05, 2018
o suicídio da cidade
há tristeza
tão sincera por
todos os poros
tão sincera por
todos os poros
da cidade
mergulhada na
falsa felicidade
do Facebook
nas verdades ocas
do WhatsApp
nas manchetes mentirosas
dos jornais
e suas imitações baratas
a tristeza é vencedora
nos semblantes arrogantes
na indiferença para com
as mãos de esmola
no ir e vir das gentes apressadas
no silêncio dos vagões lotados
e cabeças pensantes
com fones de ouvido
há tristeza na política
feita por gente de merda
na hipocrisia de generais
e juízes de merda
tristeza nas grandes avenidas
nas vielas, nas ruas esquecidas
há tristeza nas mãos armadas
de jovens traficantes
deixando a vida escorrer
em rastilhos de sangue seco
a tristeza nas portas das lojas
cerradas
nas vagas já preenchidas
na violência primitiva
no desamor que prevalece
e no amor que só existe
nos desencontros
há tristeza numa banca de revistas
sem leitores
numa carrocinha de açaí
sem compradores
numa linda praia de Copacabana
deserta e fria
há tristeza nos arredores
da Cinelândia
e da avenida Rio Branco
é carnaval, e daí?
a tristeza é a grande vencedora
a campeã do desfile
escondida entre os sorrisos
a cantoria, o tesão
a tristeza pelo que poderia ter sido
mas nunca será
a geografia permanecerá intocável
mas é impossível esconder
a tristeza: somos sem dúvida
uma cidade triste
por todos os poros de concreto
em cada gota de sangue
nas artérias de asfalto
tanta beleza infinita
num mar interminável
de corações tristes
e outros, infames, egoístas
é carnaval, é carnaval
mas muitos de nós carregamos
no peito um funeral
lágrimas contidas
e a sensação de que já
fizemos o suficiente
o suficiente
o suicídio da cidade é um poema
alguém não para de chorar!
celebremos o fim do que sequer
começou
@pauloamdel
Sunday, February 04, 2018
somos todos ódio
agora temos ordem
e progresso
somos todos
ódio
cólera
desprezo e empáfia
no outro vemos apenas
um escravo
um bosta
um número
odiamos nossos vagabundos
na calçada
mas aplaudimos nossos pilantras
de gravata
parecemos tão antenados
mas somos cópias do discurso
da televisão
as chacinas já não nos importam
não temos nada a ver com isso
e acreditamos com fé, santa fé
em nossa estupidez carnavalesca
adoramos criticar ditadores
mas somos incapazes de enxergar
a tirania que envolve as nossas favelas
as nossas favelas
as ruas e praças e bairros:
viramos reféns da nossa própria indiferença
o que podemos oferecer é ódio
foda-se o outro o pobre o bosta
somos pessoas de bem
quem nunca saiu na mão com uma mulher?
quem nunca recebeu auxílio moradia?
nós somos contra a corrupção
(dos outros)
nós somos em defesa da família
(a nossa)
e assim vivemos em berço esplêndido
da nossa fina hipocrisia
namorando vitrines de shoppings
gritando uhu atrás dos cordões
xingando o show da travesti
e nos calando diante de traficantes morais
um helicóptero de cocaína não nos importa
queremos ser classe pose e presença
mas na essência
não passamos de filhasdasputas
- eis o nosso doutorado!
e progresso
somos todos
ódio
cólera
desprezo e empáfia
no outro vemos apenas
um escravo
um bosta
um número
odiamos nossos vagabundos
na calçada
mas aplaudimos nossos pilantras
de gravata
parecemos tão antenados
mas somos cópias do discurso
da televisão
as chacinas já não nos importam
não temos nada a ver com isso
e acreditamos com fé, santa fé
em nossa estupidez carnavalesca
adoramos criticar ditadores
mas somos incapazes de enxergar
a tirania que envolve as nossas favelas
as nossas favelas
as ruas e praças e bairros:
viramos reféns da nossa própria indiferença
o que podemos oferecer é ódio
foda-se o outro o pobre o bosta
somos pessoas de bem
quem nunca saiu na mão com uma mulher?
quem nunca recebeu auxílio moradia?
nós somos contra a corrupção
(dos outros)
nós somos em defesa da família
(a nossa)
e assim vivemos em berço esplêndido
da nossa fina hipocrisia
namorando vitrines de shoppings
gritando uhu atrás dos cordões
xingando o show da travesti
e nos calando diante de traficantes morais
um helicóptero de cocaína não nos importa
queremos ser classe pose e presença
mas na essência
não passamos de filhasdasputas
- eis o nosso doutorado!
Wednesday, January 31, 2018
o poema da grande farsa
Radiohead,
The Bends, 1995
You
can force it, but it will not come
You can taste it, but it will not form
You can crush it, but it’s always here
You can crush it, but it’s always near
You can taste it, but it will not form
You can crush it, but it’s always here
You can crush it, but it’s always near
Chasing
you home
Saying
Saying
Everything
is broken
Everyone
is broken
You
can force it, but it will stay stung
You can crush it as dry as a boné
You can walk it home straight from school
You can kiss it, you can break all the rules
You can crush it as dry as a boné
You can walk it home straight from school
You can kiss it, you can break all the rules
All
the rules
But still
But still
Everything
is broken
Everyone
is broken
Everyone
is
Everyone is broken
Everyone is broken
Everyone
is
Everything is broken
Everything is broken
Why
can’t you forget?
Why can’t we forget?
Why can’t you forget?
Why can’t we forget?
Why can’t you forget?
xxxxxxxxxx
Você
pode forçá-lo mas isso não virá
Você pode prová-lo mas isso não vai se consolidar
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará aqui
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará por perto
Te seguindo até sua casa dizendo
Você pode prová-lo mas isso não vai se consolidar
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará aqui
Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará por perto
Te seguindo até sua casa dizendo
Tudo
está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo mundo está quebrado
Você
pode forçá-lo mas isso continuará incomodando
Você pode esmagá-lo tão seco quanto um osso
Você pode levá-lo à casa direto desde a escola
Você pode beijá-lo, você pode quebrar todas as regras
Todas as regras, mas ainda
Você pode esmagá-lo tão seco quanto um osso
Você pode levá-lo à casa direto desde a escola
Você pode beijá-lo, você pode quebrar todas as regras
Todas as regras, mas ainda
Tudo
está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo
mundo está
Todo mundo está quebrado
Todo mundo está quebrado
Todo
mundo está
Tudo está quebrado
Tudo está quebrado
Por
que você não pode esquecer?
Por que nós não podemos esquecer?
Por que você não pode esquecer?
xxxxxxxxxx
Por que nós não podemos esquecer?
Por que você não pode esquecer?
xxxxxxxxxx
RAY CHARLES
duas
e meia da manhã
o sono está morto
a noite está viva
ray charles canta na TV
e parece vivo demais
cego, enxerga tudo:
os tons, as matizes
america the beautiful
ray charles é cego
mas enxerga tudo no mundo
correm os metais de Montreux
you make me feel so Young
meu país é um sequestro
meu povo, perdição
meu time é a mais alegre
das tristezas
meu povo, exílio
existe ódio nas esquinas
a plateia bate palmas
a eterna voz ainda ecoa
o sono está morto
a noite está viva
ray charles canta na TV
e parece vivo demais
cego, enxerga tudo:
os tons, as matizes
america the beautiful
ray charles é cego
mas enxerga tudo no mundo
correm os metais de Montreux
you make me feel so Young
meu país é um sequestro
meu povo, perdição
meu time é a mais alegre
das tristezas
meu povo, exílio
existe ódio nas esquinas
a plateia bate palmas
a eterna voz ainda ecoa
é
impossível ser feliz sem música
meu país acabou
deixe seu recado no whatsapp
ray charles me redime
da dor e tristeza insone
meu país acabou
deixe seu recado no whatsapp
ray charles me redime
da dor e tristeza insone
xxxxxxxxxx
O POEMA DA GRANDE FARSA
ATENÇÃO: NÃO RECOMENDADO
PARA IDIOTAS. PROVOCA EFEITOS
COLATERAIS. LEIA A BULA.
PARA IDIOTAS. PROVOCA EFEITOS
COLATERAIS. LEIA A BULA.
todo esse ódio veio de longe e vai dar merda quem ri desse mar de ódio
ainda vai lembrar quando tomar a pedrada nos cornos do ódio um tricolor com
ódio do outro e meia dúzia de picaretas sonhando com a vitória meia dúzia de
picaretas sonhando com emprego meia dúzia de picaretas pensando em si e o resto
que se foda o amor tem sempre a porta aberta tem dois fluminenses um é eterno
das lembranças do amor da luta dos abraços até nas horas mais difíceis perdendo
ou ganhando o outro acabou aquele dos abraços e de uma só torcida acabou
parabéns panfleteiros do ódio parabéns candidatos do ódio parabéns
situacionistas do ódio parabéns higienistas da arquibancada do ódio parabéns
irresponsáveis do ódio o Fluminense vai ganhar e perder ruim ou bom vai
sobreviver mas uma coisa acabou morreu já se encontra em adiantado estado de decomposição o respeito entre os irmãos de arquibancada está tudo morto e podre
as vísceras rachadas as carnes dilaceradas os vermes navegando por entre os
restos de músculos o cheiro de merda lancinante o fedor do ódio o imbecil que
sorri do incêndio enquanto a vítima faz seus últimos acenos da bela janela
francesa antes do braço desaparecer no meio da fumaça preta o Fluminense está
vivo vai viver o ódio venceu apenas os idiotas comemoram somente os idiotas
semeiam o ódio todo idiota tem no ódio a sua única fonte de sobrevivência viver
o Fluminense sem intermediários sem filhasdasputas que só pensam em lucro sem
filhasdasputas que só pensam em cargos sem filhasdasputas que só pensem em si
só os idiotas se acham superiores com ódio nosso futuro recomeça o grande cão
late na porta do umbral esperando por todas as almas insanas e sementes ódio mil vezes ódio estúpido eis a grande farsa o ódio é a farsa todos são
fluminenses muitos são cada um por si outros pensam na morte do outro na
destruição do outro mas só quem morre é o Fluminense todos serão infelizes para
sempre os sócios estão mortos os torcedores estão mortos as carnes estão
putrefatas O FLUMINENSE vai viver vai sobreviver vai seguir seu caminho o ódio precisa morrer quem semeia o ódio está morto e não sabe todos devem renunciar
todos devem renunciar a grande farsa todos estão neste mesmo prédio em chamas e
uns acham que só os outros vão morrer o poder está morto a contestação está
morta a luta continua amanhã é um novo dia é preciso protestar contra tudo é
preciso tirar o Fluminense da morte mas isso não pode ser a morte de uma
legenda uma torcida um abraço uma arquibancada viva a Young Flu viva a Fôrça
Flu viva o Fluminense dos amores das vitórias improváveis dos timinhos
ganhadores morte aos falsos aos hipócritas às contas mentirosas aos CNPJs morte
à sonegação morte aos defensores do ódio ESTÁ TUDO MORTO ENTERRADO podre burro
estúpido ignorante reacionário imbecil há de haver um jogo há de sempre haver
Fluminense resta abortar todos os intermediários interesseiros de merda resta
desprezar todos os bandidos de computador de merda resta refundar um clube uma
torcida um time uma pátria um amor só os idiotas são felizes só os idiotas
odeiam só os idiotas não sabem renunciar FORA TODOS DE DENTRO DE FORA DE CIMA
DE BAIXO viva Nelson Rodrigues morte a todos os seus imitadores de merda morte
ao ódio morte ao ódio RENUNCIEM TODOS DE DENTRO DE FORA DE CIMA DE BAIXO chega
de ódio chega de incompetência chega de internet chega de livros chega de blogs
chega de redes imbecis chega de famosos de anônimos de bizarros vamos celebrar
a estupidez humana o Fluminense vive respira luta e é um poema verdadeiro não
uma farsa de quatro mil quando milhões o esperam chega de empresários de merda chega de funcionários de merda chega de traição em nome do amor SÓ OS IDIOTAS
SÃO FELIZES venha que o que vem é perfeição Fluminense sem intermediários time
stand still time stand still MANDAR O ÓDIO OS CARGOS A EMPÁFIA A INCOMPETÊNCIA
E 2019 À MERDA o caos é aqui a morte é aqui os inimigos riem de toda a nossa
estupidez nós mesmos nos matamos nós mesmos nos odiamos nós mesmos nos
fuzilamos e sequer nos conhecemos o cu do mundo hora de refundar um clube um
time uma torcida sem escola as crianças mortas não existe salvador da pátria
todos são mentirosos ao assumirem esse papel o ódio deve morrer SÓ OS IDIOTAS
SÃO FELIZES OU INSENSÍVEIS não abracei meu pai morto num jogo do Fluminense à toa só a poesia liberta do ódio e dos ignorantes vamos celebrar nossa
destruição só o Fluminense é importante morra o ódio o hino fala de amor não
sejamos estúpidos todos devem renunciar ao ódio aos cargos às aparências há um
prédio em chamas espuma de sangue a brilhar só bandidos podem comemorar esta
dor esta estupidez todos devem renunciar ao que estão fazendo todos devem podem precisam todas as políticas devem morrer mais do mesmo é a morte na janela
incendiada em nome do ódio somos todos merda terra arrasada a estupidez de quem
agride a estupidez de quem não ouve a estupidez de quem não estende a mão a
estupidez de quem ganha dinheiro às custas da desgraça do Fluminense não vender
o amor próprio não vender as próprias palavras não alugar o próprio caráter oh
santa estupidez a estupidez de quem quer conseguir emprego no Fluminense
aparecer no Fluminense botar uma melancia no pescoço enfiar a melancia na
cloaca os bilionários podem chacoalhar suas joias ódio é merda ódio é merda
tudo precisa mudar a partir deste momento dentro fora aqui aí lá aqui aí eu era
falso porque tinha ódio e morri então o ódio morreu e morto estou cada vez mais
vivo O FLUMINENSE VIVE viverá um dia tão bonito também pode ser o dia de um velório triste não precisará da estupidez de quem cantou esta canção oxalá
aleluia todos os versos são tristes
(este poema contém trechos de “Perfeição”, Renato Russo, 1994; “O cu do
mundo”, Caetano Veloso, 1989; Jards Macalé, “Só morto”, 1969)
Friday, January 26, 2018
city heartbeat
o coração da cidade
quente, forte, nublado
com seus meninos sem
esperança
os mendigos vivem a morte
em vida
e se tornam invisíveis
a quem os vê como lixo
obra do diabo, chorume
gente que não presta!
os grandes edifícios cheios
de indiferença e rancor
dos pavimentos altos não
se escuta o som do térreo
os transeuntes vêm e vão
muito ocupados com música
as grandes filas têm solidão
pouco se percebe o que está ao redor
o coração da cidade
é um peito vazio, perdido
acabrunhado
e assim vamos todos
juntos escrevendo
o futuro
@pauloandel
quente, forte, nublado
com seus meninos sem
esperança
os mendigos vivem a morte
em vida
e se tornam invisíveis
a quem os vê como lixo
obra do diabo, chorume
gente que não presta!
os grandes edifícios cheios
de indiferença e rancor
dos pavimentos altos não
se escuta o som do térreo
os transeuntes vêm e vão
muito ocupados com música
as grandes filas têm solidão
pouco se percebe o que está ao redor
o coração da cidade
é um peito vazio, perdido
acabrunhado
e assim vamos todos
juntos escrevendo
o futuro
@pauloandel
Wednesday, January 24, 2018
porque escrevi FDP
a essência
do fdp contemporâneo
brasilêro
"sem textões.
tudo o que eu tinha a dizer sobre o que aí está.
tem estado. vai estar.
jesus não tem dentes no país das panelas.
o estado mínimo é a escrotidão máxima.
o mais incrível de tudo:
apesar de escrever publicamente
há vinte anos, e de ter vendido alguns
poucos milhares de livros sobre football
consegui mil downloads desta obra grátis
em cinco dias não pelo talento que sei ter
não pela ideia de tributar o grande filósofo
Alberto Pimenta, mas
porque escrevi FDP na capa do livro e
ele é muito mais do que isso.
o brasileiro médio da vitrine do shopping
aquele que repete como papagaio
todas as nossas manchetes farsantes
é ou não é um FDP admirável?
o brasileiro médio é o escravo que tem
tesaum pela chicotada do capitão
do mato.
do mato.
mato!
fiz esse livro de graça
para esfregar na cara dos pobres
diabos
é melhor já ir se acostumando
com o quinto dos infernos, a casa do caraio
o ódio, a fome, a merda
os corpos em decomposição da alma
amontoados debaixo das marquises
muito obrigado aos que me inspiraram:
vocês são três letras
do fundo do meu coração.
paredón para quase todos."
do fdp contemporâneo
brasilêro
"sem textões.
tudo o que eu tinha a dizer sobre o que aí está.
tem estado. vai estar.
jesus não tem dentes no país das panelas.
o estado mínimo é a escrotidão máxima.
o mais incrível de tudo:
apesar de escrever publicamente
há vinte anos, e de ter vendido alguns
poucos milhares de livros sobre football
consegui mil downloads desta obra grátis
em cinco dias não pelo talento que sei ter
não pela ideia de tributar o grande filósofo
Alberto Pimenta, mas
porque escrevi FDP na capa do livro e
ele é muito mais do que isso.
o brasileiro médio da vitrine do shopping
aquele que repete como papagaio
todas as nossas manchetes farsantes
é ou não é um FDP admirável?
o brasileiro médio é o escravo que tem
tesaum pela chicotada do capitão
do mato.
do mato.
mato!
fiz esse livro de graça
para esfregar na cara dos pobres
diabos
é melhor já ir se acostumando
com o quinto dos infernos, a casa do caraio
o ódio, a fome, a merda
os corpos em decomposição da alma
amontoados debaixo das marquises
muito obrigado aos que me inspiraram:
vocês são três letras
do fundo do meu coração.
paredón para quase todos."
Sunday, January 21, 2018
os miseráveis
os miseráveis choram
seus mortos e vivos
estendendo suas mãos
para esmolas de fraternidade
que jamais virão:
os escravos de hoje
são os de ontem, ontem
e muito tempo atrás.
os indiferentes não
têm tempo a perder:
querem apenas viver bem
em nome do tímido deus
não criaram o mundo
e assim explicam as suas
indiferenças
os escravos sentem o açoite
n'alma enquanto vivem
sem uma esmola de paz
seus mortos e vivos
estendendo suas mãos
para esmolas de fraternidade
que jamais virão:
os escravos de hoje
são os de ontem, ontem
e muito tempo atrás.
os indiferentes não
têm tempo a perder:
querem apenas viver bem
em nome do tímido deus
não criaram o mundo
e assim explicam as suas
indiferenças
os escravos sentem o açoite
n'alma enquanto vivem
sem uma esmola de paz
Wednesday, January 17, 2018
Wednesday, January 03, 2018
onze anos sem minha mãe
Quem se lembra do que estava fazendo há exatos onze anos neste momento? Eu cochilava às nove da noite e não sabia que minha mãe estava morta no quarto. Meu pai só percebeu à meia noite e então passei a pior noite de toda a minha vida. Era cedo demais: ela mal completara 61 anos. Morreu dormindo, como merecem os melhores.
A dor mudou minha vida. Eu já escrevia desde os anos 1990 mas não levava muito a sério - a ponto de ter desperdiçado a oportunidade de colaborar com uma revista dirigida por dois vencedores do Prêmio Jabuti. Mas em 2007 tudo mudou: para ocupar a minha cabeça cheia de tristeza, passei a escrever, escrever, escrever e, quase num golpe de sorte, publiquei meu primeiro livro. De lá para cá, já ganhei muitos abraços na rua e em jogos do Fluminense, emocionei muitas pessoas que me agradecem reservadamente, virei amigo dos meus ídolos e o próprio Flu me homenageou. Ok, isso também atraiu gente falsa, interesseira e oportunista, mas só recebe bajulação e pedradas quem está na moda. Foi mal...
Conheci grandes pessoas, fiz rir e chorar muito, juntei amigos - o que nem todo mundo suporta -, e tenho sido um ótimo escritor, sem falsa modéstia. Para quem acha futebol um assunto menor, os Cenas do Centro do Rio aí estão.
A minha diferença primordial para muita gente deslumbrada por aí está num ponto: não comecei nisso em busca do mundo dos likes, dos compartimentos e da "fama" (quantas pessoas são realmente famosas num mundo com transbilhões de pessoas?). Nada disso: quando saiu meu primeiro livro, há sete anos, eu nem tinha Facebook - e o fiz por sugestão de amigos e da editora, para divulgar o trabalho.
O que me trouxe até aqui, quinze livros depois, entre solos e coautorias, foi a tentativa - em vão - de ocupar a minha cabeça depois de perder minha mãe. Isso nunca mais vai mudar e vale para meu pai, minha família, as pessoas queridas. Às vezes choro, todo dia tenho uma saudade de Madredeus, eu me pego pensando em algum momento e então escrevo.
Foi por isso que, um dia, muitos de vocês me conheceram. A todos, um grande abraço e muito obrigado.
A dor mudou minha vida. Eu já escrevia desde os anos 1990 mas não levava muito a sério - a ponto de ter desperdiçado a oportunidade de colaborar com uma revista dirigida por dois vencedores do Prêmio Jabuti. Mas em 2007 tudo mudou: para ocupar a minha cabeça cheia de tristeza, passei a escrever, escrever, escrever e, quase num golpe de sorte, publiquei meu primeiro livro. De lá para cá, já ganhei muitos abraços na rua e em jogos do Fluminense, emocionei muitas pessoas que me agradecem reservadamente, virei amigo dos meus ídolos e o próprio Flu me homenageou. Ok, isso também atraiu gente falsa, interesseira e oportunista, mas só recebe bajulação e pedradas quem está na moda. Foi mal...
Conheci grandes pessoas, fiz rir e chorar muito, juntei amigos - o que nem todo mundo suporta -, e tenho sido um ótimo escritor, sem falsa modéstia. Para quem acha futebol um assunto menor, os Cenas do Centro do Rio aí estão.
A minha diferença primordial para muita gente deslumbrada por aí está num ponto: não comecei nisso em busca do mundo dos likes, dos compartimentos e da "fama" (quantas pessoas são realmente famosas num mundo com transbilhões de pessoas?). Nada disso: quando saiu meu primeiro livro, há sete anos, eu nem tinha Facebook - e o fiz por sugestão de amigos e da editora, para divulgar o trabalho.
O que me trouxe até aqui, quinze livros depois, entre solos e coautorias, foi a tentativa - em vão - de ocupar a minha cabeça depois de perder minha mãe. Isso nunca mais vai mudar e vale para meu pai, minha família, as pessoas queridas. Às vezes choro, todo dia tenho uma saudade de Madredeus, eu me pego pensando em algum momento e então escrevo.
Foi por isso que, um dia, muitos de vocês me conheceram. A todos, um grande abraço e muito obrigado.
Sunday, December 31, 2017
a mudez
calar-se é falar tudo
nas entrelinhas da imaginação
o silêncio que provoca
sugere e excita
que faz pensar e sonhar
a mudez que tudo diz
ou aguça os pensamentos
os desejos provocantes
calar-se é dizer tudo
para o bem e para o mal
para o gozo e a frustração
não dizer, não comentar
observar, querer
e até mesmo desprezar
com classe
calar-se é oferecer
mil caminhos e também
a dúvida: será, será?
nas entrelinhas da imaginação
o silêncio que provoca
sugere e excita
que faz pensar e sonhar
a mudez que tudo diz
ou aguça os pensamentos
os desejos provocantes
calar-se é dizer tudo
para o bem e para o mal
para o gozo e a frustração
não dizer, não comentar
observar, querer
e até mesmo desprezar
com classe
calar-se é oferecer
mil caminhos e também
a dúvida: será, será?
Saturday, December 30, 2017
quinze anos
Eu andava com meu amigo Xuru pela Domingos Ferreira até que chegamos ao prédio onde ficava o grande apartamento de seus padrinhos, falecidos um ano e meio antes - lá fizemos uma grande festa de Réveillon que não deu exatamente certo. Não podíamos mais subir: parentes do Sul, subitamente surgidos, mandaram trocar a fechadura para que não entrássemos mais no apartamento. A missão era apenas pegar as contas na caixa de correio para pagá-las.
Xuru passou a vida inteira frequentando aquele apartamento e, se justiça houvesse, teria herdado o imóvel: era tratado como filho. Foi um pacote duro: além dos padrinhos, ele tinha perdido a mãe e acabara de se recuperar da primeira cirurgia do câncer que o vitimaria menos de três anos depois.
Depois de pegarmos as contas, ficamos olhando para a fachada do luxuoso prédio onde entramos tantas vezes. Segundos depois, ele disse "Paulón, foda-se esse apartamento. Ele só me importava por causa dos meus padrinhos. Se querem ganhar dinheiro com essa merda, que ganhem". E fomos embora, talvez para comer um lanche e tomar um chope.
Esta cena completa exatamente quinze anos hoje.
Xuru foi embora de vez em 2005. Ontem, teria feito 47 anos. Não chegou aos 35. Foi uma luta enorme até o fim. De lá pra cá, muitas coisas mudaram, algumas delas para pior, outras não. Perdi minha família, fiz novos amigos - o Leo hoje é uma espécie de Xuru sem a filosofia, digamos, "bring on the night". De resto, o mundo ficou mais colérico e odioso, o que atinge a tudo: a política, a sociedade, o cotidiano e até mesmo o meu Fluminense, do mesmo jeito que fizeram com o Brasil em 2015.
Este foi um ano de merda. Vi amigos sendo demitidos, pessoas passando mais necessidades, a fome está a olhos nus pelas ruas - só não vê quem não quer - e, no fim das contas, muitas vezes o próximo não está nem aí para você - e depois os outros bichos é que são irracionais. Ok, publiquei três e-books tricolores para download gratuito e, finalmente, dois pocket books sobre o centro desta cidade devastada. Vi grandes shows, namorei, ganhei elogios, involuntariamente também alimentei recalques de gentinha, acontece. Estou vivo, com alguma saúde. Vamos em frente, sem pensar muito. Eu não penso somente em mim e isso é o que me encaminha à infelicidade, mas não me arrependo.
Começarei o ano cheio de problemas, com pouquíssimo apoio e precisando manter a casa em pé, enquanto assisto nas ruas ao sórdido espetáculo diário do sofrimento coletivo. Vida que segue, diria o mestre Saldanha. Vamos para mais uma tentativa. Estou cansado. Muito cansado. Mas é nessa hora em que o sprint é necessário, mesmo sem família, sem Xuru, testemunhando a agonia de um país golpeado, pensando em gente feito meu tio Mendel, que arriscou a vida para defender esta merda e que, deprimido no exílio, cometeu suicídio. Ou sabendo que meus amigos de hoje vivem a vida muito mais pelo Whatsapp do que por qualquer outro meio.
Sem medo nem esperança, olho para trás e me recordo de uma bela lição do meu amigo: o ser humano é mais importante do que qualquer bem material. E mesmo que pareça uma bobagem, eu vou com ela até o final. Só me resta escrever.
Onde está o Xuru?
Thursday, December 28, 2017
impotência
o amigo que sofre
a dor que devasta
o silêncio opressor
nós não somos merda
nenhuma
e perdemos nossos tempos
com tolices em vão
o amor que dorme
o desencontro
a certeza do melhor
que já se foi
o que vai restar dos versos
além das lágrimas?
quando as drogas acabarem
sem lugar para comprar
nós não somos bosta
nenhuma
os cemitérios estão lotados
de likes e compartilhamentos
e visualizações
todos estão mortos
deus seja louvado
vamos aplaudir a queima
dos fogos
e fingir que o novo é novo
é um pé na porta
fingir que não há dor
sofrimento
que o outro não é nada
ah, real estupidez!
vamos aplaudir o ano novo
e o mundo
enquanto somos mortos
vivos mortos
vivos
não há saldo na conta corrente
the time is gone!
hoje a festa é sua
filhadaputa!
a dor que devasta
o silêncio opressor
nós não somos merda
nenhuma
e perdemos nossos tempos
com tolices em vão
o amor que dorme
o desencontro
a certeza do melhor
que já se foi
o que vai restar dos versos
além das lágrimas?
quando as drogas acabarem
sem lugar para comprar
nós não somos bosta
nenhuma
os cemitérios estão lotados
de likes e compartilhamentos
e visualizações
todos estão mortos
deus seja louvado
vamos aplaudir a queima
dos fogos
e fingir que o novo é novo
é um pé na porta
fingir que não há dor
sofrimento
que o outro não é nada
ah, real estupidez!
vamos aplaudir o ano novo
e o mundo
enquanto somos mortos
vivos mortos
vivos
não há saldo na conta corrente
the time is gone!
hoje a festa é sua
filhadaputa!
niilismo
se os novos críticos musicais atacam a Pablo por homofobia, fodam-se eles todos. se ela, Pablo, é obesofóbica, que se foda muito também. fodam-se todos. fodam-se os paneleiros, os golpistas, os ignorantes, os bandidos, os corruptos, os massademanobra. fodam-se os recalcados, as subcelebridades, a flubabaca. fodam-se todos os opressores, os covardes, os machões de teclado, os bonzinhos que não querem se envolver, os estapafúrdios, os coléricos sem causa. fodam-se o mbl, o pfl, as ditaduras da al, as organizações globo, a folha, o estadão, a casa do caralho. fodam-se todos os que estão silenciados perante o helicoca, as propinas da FIFA, a bodytech. fodam-se cabral e sua gang nos quintos do inferno. fodam-se de verdamarelo ou quaisquer cores e cinquenta estrelas. fodam-se os lobistas e vigaristas. foda-se o bitcoin e seus especuladores. foda-se trump e também o velho ridículo golpista do inferno. fodam-se os idiotas que abanam o rabo com as mentiras sobre os dados de emprego, renda e pib. fodam-se todos os egoístas, os fascistas, os totalitaristas do capital. fodam-se, fodam-se muito, sem sexo e gozo, mas o foder da vida. fodam-se os arrogantes, os indiferentes, os que não têm apreço pelo outro, os traidores da amizade. o concreto já rachou, a destruição é a moda, ninguém quer saber de ninguém e que todos estes se fodam. foda-se o ano novo, o carnaval, a copa do mundo, o próximo feriado. fodam-se as mudanças que não virão. foda-se o futuro: ele é a morte. um minuto de silêncio em memória de todos os oprimidos e desprezados neste mundo injusto de merda. o resto que se foda. fodam-se todas as fake news e breaking news. paz, onde mora a tal paz? o mundo é maravilhoso, a desgraça é o serumano.
Wednesday, December 27, 2017
um intruso no mundo
eu não quero ser
o grito de ódio
a gota d'água
o suspiro inútil
a despedida
não, não quero!
este dia amargo
não é meu
nem a selvageria
a escrotidão ao léu
este sangue morto
não me pertence
essa cólera fétida
não!
não, mil vezes não!
este cheiro asqueroso
eu só quero vender
meu cachorro quente
e ter um pouco de sombra
sem luxo esdrúxulo
sem gourmetizações
eu só quero olhar o céu
e ter a certeza de que
não feri ninguém
espiando os escoteiros
parados bem perto
do monumento nacional
pensando em música
e cultivando amor
num quartinho
essa rua não é minha
nem o bairro, a cidade
eu só queria não ser
um intruso no mundo
um intruso no mundo
um intruso
@pauloandel
o grito de ódio
a gota d'água
o suspiro inútil
a despedida
não, não quero!
este dia amargo
não é meu
nem a selvageria
a escrotidão ao léu
este sangue morto
não me pertence
essa cólera fétida
não!
não, mil vezes não!
este cheiro asqueroso
eu só quero vender
meu cachorro quente
e ter um pouco de sombra
sem luxo esdrúxulo
sem gourmetizações
eu só quero olhar o céu
e ter a certeza de que
não feri ninguém
espiando os escoteiros
parados bem perto
do monumento nacional
pensando em música
e cultivando amor
num quartinho
essa rua não é minha
nem o bairro, a cidade
eu só queria não ser
um intruso no mundo
um intruso no mundo
um intruso
@pauloandel
Monday, December 25, 2017
meia noite inteira
o teto é o céu
e o motor do
ventilador é
uma turbina de
avião: vamos
decolar! meia
noite inteira os
versos estão
cansados os
beijos estão
mortos a viagem
é longa meia
noite inteira os
amores silenciados
agora é um novo
dia inútil ninguém
à espera no ponto
@pauloandel
e o motor do
ventilador é
uma turbina de
avião: vamos
decolar! meia
noite inteira os
versos estão
cansados os
beijos estão
mortos a viagem
é longa meia
noite inteira os
amores silenciados
agora é um novo
dia inútil ninguém
à espera no ponto
@pauloandel
Saturday, December 23, 2017
quando você morre
há muitas maneiras de se estar morto em vida. você morre quando o ódio triunfa, quando a dialética é destruída pela ignorância, quando a ingratidão anda de mãos dadas com a indiferença. você morre quando beija o desamor, quando o abraço é formal, quando a democracia prevê senzalas. você morre quando as crianças são tristes, os idosos têm melancolia e os adultos estão ocupados demais no whatsapp. você morre quando um bandido acerta uma bala na cabeça de um inocente, mas também já morreu quando aquele mesmo bandido era uma criança chorando de fome e batendo na janela do carro. você morre quando o pragmatismo mata o sonho, quando a distância é melhor do que a vizinhança, quando ficar calado é o remédio para não ouvir. você morre com um gol contra ou a favor, a vitória que será derrota, quando a certeza é o desprezo. você morre muitas vezes, exceto quando odeia, porque aí já deitou morto dentro do ventre. você morre com o rancor e o descaso. você morre, morre, morre, mas depois respira e procura a próxima morte.
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