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Thursday, July 31, 2014

UOL 171

Adriano Wilkson, vulgo repórter, assinou farsa em forma de matéria “jornalística” no portal UOL ontem, intitulando o Fluminense como “o rei do tapetão”. 


Através de posicionamento oficial, o clube solicitou a revisão do teor indevido do texto.

Em resposta, o editor do portal, Daniel Tozzi, respondeu que o Portal UOL, por ele representado, considerava o Fluminense como o “Rei do Tapetão”, mesmo ciente de que o clube não foi responsável pelos erros dos outros.

Não se pode deduzir outra coisa: em busca de audiência polêmica, o portal UOL pratica estelionato jornalístico.

Mais ainda: deturpa, ofende, afronta o Código Penal e, confiante na eterna impunidade, seu próprio gerenciador de conteúdo oferece uma resposta estapafúrdia, ignorante e desprovida de arcabouço histórico mínimo.

Traduzindo: o popular “171”, mitificado no cancioneiro de craques como Bezerra da Silva.

“Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”

É natural o comportamento manipulador na seção esportiva do UOL. Trata-se de questão de DNA.

Advindo das entranhas da Folha de São Paulo e depois batizado pelo grupo Abril, o UOL tornou-se uma espécie de Rede Globo da internet brasileira com todo o reacionarismo de sua tutela sanguínea, bastante legível na resposta ditatorial de Tozzi. O gigantismo da audiência então passou a ser confundido como chancela de tudo o que é ali divulgado. São coisas diferentes, muito diferentes.

O problema da manipulação midiática e de seus próceres está justamente na maldição que popularizou o estelionato jornalístico de muitos deles: a internet. O Fluminense é um dos times brasileiros que tem sua torcida mais atuante nas redes sociais, com diversos sites e blogs de opinião, todos a postos para rebater as distorções da informação que diariamente praticam. Todos com melhores redações do que a de Wilkson.

Em seu tamanho desastre no desalinho com a ética jornalística em se tratando de futebol, não é a toa que o UOL é a casa de Juca Kfouri, um dos mais notáveis caluniadores do Fluminense.

Toda essa camarilha merece muito mais do que notas oficiais ou mesmo o repúdio completo da torcida tricolor.

Hora do clube promover o que já deveria ter feito em 2013: ações judiciais.

@pauloandel

Tuesday, July 29, 2014

invisíveis?

Wednesday, July 23, 2014

os tempos

tempo: eles dizem tempo
enquanto fazemos nossas pequenas
estatísticas
o tempo da força, do calor, o trabalho
o tempo do sexo
a hora da paixão, o tempo de luta

esperamos o melhor de nossas vidas por conta do tempo
só as mães congelam o tempo: seus filhos serão

sempre os mais lindos e delicados bebês
tememos o tempo de sobrevida
trememos em pensar no tempo de exílio
o que dizer do tempo vivido, o que insistimos
em chamar de perdido?
a mocidade tem seu tempo e a maturidade não deixa por menos

os amigos perdem tempo quando brigam
as mulheres ganham tempo quando percebem quem lhes usa
de passatempo - os homens, talvez

os rancorosos e os egoístas deixam escorrer o tempo
apenas por vantagens materiais e falsos poderes em vão
nós dizemos tempo
eis o que mais precisamos
para o amor que demora: tempo
para o retorno do leito: tempo
por isso, vamos e voltamos, seguimos no tempo, mergulhamos na contramão

e fingimos ter a certeza de onde tudo vai parar
quando o tempo disser "fim": enquanto isso, vivemos
pequenos intervalos de alegria entre a dor, a tristeza e a solidão
somente o poeta tem a receita
de como matar o tempo
como matar o tempo
o tempo 


@pauloandel

festa de tati

quando você chegar
não vai ter céu cinza
nem tristeza e a luz
será mais do que réstia
quando você chegar
nenhuma lágrima
suplantará o sorriso
e toda satisfação terá
mais força do que
tensões e raiva e dor
quando você chegar
vamos pensar numa selva
um recanto, um beijo
e  velas acessas não serão
morte mas romance jantar -
o infinito vai ser pouco
a mansidão, um problema
o desejo, nenhum pecado
a solidão, noves fora nada


@pauloandel

Tuesday, July 22, 2014

admirável amor de front


estender as mãos e rezar
rezar sem fim com rigor
rezar pelos aflitos, os derrotados
erguer o pensamento
na direção dos mais sofridos
os perdidos, os desaparecidos
e chorar contra as injustiças
solidariedade para os mendigos
de olhar perdido e morte em vida
estender o sonho e acreditar:
a vida pode ser louca e profana
distorcida e surpreendente
o amor em palavras reticentes:
ainda existe réstia graças ao sol
ou fôlego que não termina
o amor num canto, as cores
desejar a solidão a dois corações siameses redivivos
ainda existe amor nas alamedas
calcadas vazias e a velha cidade: tolos, somos imortais

@pauloadel

Saturday, July 19, 2014

ata-me (embalos de sábado à noite)

todo dia santo dia
e a mente minha tão
profana ou puta:
o gosto das coxas nuas
num devaneio poético
- os seios, sulcos, intumescência:
- delicados delírios do prazer
o conto do teu dorso, nuca
o desejo do corpo todo em mel
e cada tesão será vela acesa
afinados cânticos de sacanagem
mas você não dorme aqui
você não faz questão de estar por aqui
- ata-me em teu peito à boca
- ata-me em teus segredos e vontade
o verdadeiro pecado mora na hipocrisia
de não viver o que se sente e sente
todo santo dia a minha saliva procura
o gosto ausente da tua carne crua
tua nudez de tez ingênua e puta
os versos ásperos que te chamam romance
todo profano dia o meu querer
é o querer-te!
ata-me em teus braços e colo nu
faça-me o contratador de teus suores
uma banheira de espuma para ser
nosso caldeirão de desejos ardentes!
ata-me ao teu querer de todo dia

@pauloandel

Sunday, July 13, 2014

o dia em que seremos todos inúteis

um dia seremos
todos
inúteis
e aplaudiremos
a pieguice
a hipocrisia
a indigência lógica
do que as grandes corporações
tentam nos impor
um dia seremos todos
alheios
às desigualdades
e acharemos normal
nossos semelhantes comendo
lixo
chegaremos à nossa perfeita inutilidade
jabor será um gênio
mainardi um proust
e a bichice de reinaldo será apoteose
vamos nos libertar de vez!
seremos inúteis assumidos
deixando os armários da indignação
será fácil dizermos: você viu na globo?
o dia da revolução imbecil chegará
mas ainda é cedo e longe:
enquanto isso
que os espíritos de porco contrariem
as ridículas normas dessa televisão
desses jornais mofados
jorge mautner tem muito mais a nos dizer
emicida e criolo tem muito mais a escrever
e o céu de madureira ainda vai ter seu cristo redentor
enquanto isso
vomitemos contra essa estupidez pasteurizada
que insistem em nos atirar

@pauloandel

(jorge cabeleira e o dia em que seremos todos inúteis)

a parte ridícula da imprensa esportiva


Oportunistas.

Levianos.

Prepotentes. Megalômanos.

Há quatro semanas, diziam e escreviam: o Brasil é favorito. Basta procurar no Google.

Fizeram do pobre Neymar, um senhor jogador mas ainda longe demais de Pelé, o paradigma do futebol interplanetário.

O Brasil era o favorito. Nenhum deles afirmou: "Saibam por que não ganharemos a Copa do Mundo". Nunca fariam isso. E se o filme queimasse? Tem que conduzir a coisa ao sabor das marés...

Aos poucos, deliciaram-se  com os holandeses treinando na praia de Ipanema e com os fraternos alemães em Cabrália. Aquilo sim era trabalho. O que teriam dito de a Seleção Brasileira fosse a protagonista de tais fatos?

Felipão, com sua tradicional grosseria - aliás, a mesma que o alçou ao posto de pai da Família Scolari em 2002, com todo o noticiário à disposição - mandou-os para o inferno. Veio a conta: a Seleção execrada dia após dia até o (justo) massacre alemão, ideal para que os jornalistas de má-fé enganassem leitores trouxas: "Viram? A gente avisou."

Em geral, repetem sempre os mesmos termos. É mais fácil. Trabalho. Legado. Gestão. Estrutura.

ODEIAM os blogueiros que escrevem de forma independente sobre futebol. "Maldita internet que deixa essa gentinha escrever à vontade e nos criticar. Tá pensando o quê? EU SOU JORNALISTA!" (leia-se vergonha porque vários biólogos, estatísticos, engenheiros, açougueiros, secundaristas e mais escrevem de maneira mais clara, direta, poética e profunda sobre futebol).

Senhores da razão, não podem ser contrariados.

Aplaudem o excelente trabalho de Joachim Low à frente da Alemanha. Mas apenas por cinismo hipócrita. Low jamais teria chance de comandar o futebol do Brasil por oito anos, sem ganhar títulos e com essa gente nas redações e estúdios. Ninguém teria. Salvo Dunga, treinador da Seleção Brasileira começa no fim da Copa anterior e vai até as Olimpíadas. Perdeu, rua, vem outro, o que é ridículo, mas amplamente chancelado por grande parte da imprensa esportiva brasileira. Aos boquirrotos que gritam na televisão clamando por nomes, as imagens e manchetes falam por si só. Basta procurar no Google e no YouTube.

São os mesmos que exigem a moralização do futebol brasileiro, mas que se calaram ou fizeram piada da pilantragem ocorrida ano passado, popularmente conhecida como "Flamenguesa" (a maior coincidência da história do futebol brasileiro). Lembra a velha frase (editada) de Rubens Ricúpero: "O que é bom a gente mostra; o que é ruim, esconde".

Voltando a falar de Dunga, por sinal alguém por quem não tenho qualquer simpatia afora a carreira de jogador. Lembram dele massacrado em 1990, humilhado e depois aclamado com a Copa do Mundo nas mãos em 1994? Enquanto não questionou a emissora que transmite os jogos, paz; ao fazê-lo, sua vida na África do Sul virou um inferno.

Eles condenaram o futebol-arte de Telê em 1982 para aclamá-lo de volta em 1985, extirpando Evaristo depois de SEIS partidas. E depois, fizeram de Telê o "pé-frio" nas manchetes em 1986, como se ele é que tivesse batido o pênalti.

E falando em pênalti, vem aí mais uma de suas jogadas: o que leva parte da imprensa esportiva a deixar de lado os campeões mundiais de 1970 ainda vivos, os de 1994 e os de 2002, gente que foi lá e venceu, para enaltecer a cada dia, tarde e noite as impressões de Zico? No mínimo, um equívoco de hierarquia se o assunto é Seleção Brasileira. Ou há algo por trás disso?

Logo mais, tem Argentina x Alemanha na decisão do mundial. Uma vitória dos vizinhos colocará as manchetes em xeque: será possível elogiar o "trabalho" e a "estrutura" de um futebol forte e tradicional, mas que passa por uma colossal crise econômica? E se os alemães perderem, as loas feitas ao planejamento alemão irão para o ralo?

Preciso falar da leviandade Fla-Alemanha x Vasco-Argentina?

Alguns destes que se pretendem formadores de opinião estão aí desde os anos 60 e 70. E chamam Parreira e Scolari de ultrapassados. Por coincidência, os últimos treinadores a ganharem a Copa pelo Brasil. Não há dúvidas de que o tempo passou e que títulos no futebol não são aval para a eternidade profissional. Mas quem acompanha o discurso de parte dessa imprensa tem dificuldades de encadeá-lo por meio da lógica.

Os 3 x 0 da Holanda ontem atestam a necessidade de reformulação do futebol brasileiro. Dentro de campo, à beira dele, nas salas de reuniões e, claro, na parte mofada, oportunista e galhofeira da imprensa esportiva, manipuladora dos fatos de acordo com os interesses do patronato. 

Ah, a culpa do fracasso da Seleção era do Fred. Queriam o Brocador. Claro que o hexa não viria, mas pelo menos o jabá estava assegurado.

Aí sim seriam manchetes em cheque.

OBS: é claro que há jornalistas esportivos admiráveis e sérios. Conheço vários. Apenas não constituem maioria.

@pauloandel

Thursday, July 10, 2014

posto

e você que foi
embora
sem deixar rastro
nem sina
onde se namora tua alma?
onde mora tua poesia?
e você
que prefere distância
frieza
assepsia
onde embarcas em viagem?
que sol será teu?
e toda minha tristeza
fenece em copacabana
meu combustível
é a copacabana
quem espera?
um dia se engana
e vê o vazio cinza
em tom de teimosia

@pauloandel

a imprensa esportiva esquizofrênica

Hoje, a coletiva de Neymar causou comoção. Não há duvidas da maturidade do jovem jogador, muito ponderado em suas colocações. Mas se você só refletir por meio de jornais e programas de TV, terá a impressão de que ele fez uma Copa perfeita, deu todos os passes e foi infalível, o que é uma mentira grosseira. A estúpida joelhada que recebeu de Zuniga foi o álibi perfeito para suas atuações opacas contra Chile e Colômbia (antes de ser quebrado, claro).

Curioso, mas nem tanto, foi o uso dessa mesma coletiva para que naturalmente se desancasse internet e jornais afora os nomes de Luiz Felipe Scolari, Carlos Alberto Parreira, a cúpula da CBF e o raio que o parta. Berros de jornalistas, acusações de incompetência, afirmações de envolvimento com a ditadura 64, vociferações, tudo o que se pode imaginar para uma "verdadeira revolução no futebol brasileiro".

O comando político da CBF é abominável, lógico. Mas convém o bom senso de separar o joio do trigo.

Ok, ninguém pode achar normal a maneira como a Seleção foi trucidada pela Alemanha. Depois do segundo gol, faltou um veterano em campo que esfriasse a coisa. Deu no que deu.

Não morro de amores por Scolari. Nunca morri. Não gostava de suas instruções para quebrar jogadores, o jeito chucro nas declarações e outras coisas. Há muito tempo não vinha de boas jornadas. Mas justiça seja feita: tem currículo, é vitorioso e iniciou a atual jornada depois que Mano Menezes fracassou nos Jogos Olímpicos. Ali, era o mito da Família campeã em 2002 vencendo todos os jogos. A grande imprensa apoiou. Na jornada anterior, pegou o Brasil em frangalhos nas eliminatórias e chegou ao penta. É o treinador com mais vitórias em Copas do Mundo na história da Seleção Brasileira. E ainda levou o eterno azarão Portugal ao terceiro lugar de 2006. Não morro de amores por ele, mas não me permito ser idiota a ponto de renegar sua carreira.

Veio a Copa das Confederações, o Brasil emplacou, foi campeão, diziam de uma Família II.

Então o Brasil começou a Copa 2014 com dificuldades, assim como outras seleções, e se classificou. Todos diziam que o Chile seria  dos adversários mais difíceis de se enfrentar na Copa. E foi mesmo.

A Colômbia vinha jogando o fino com o craque James Rodríguez. Barra pesada. Diziam que não ia dar. Fizemos nossa melhor partida e passamos. Estávamos longe do brilho, mas parecia que decolaríamos.

Então veio a Alemanha e nos fuzilou piedosamente em dez minutos. Fez conosco o que não tinha conseguido contra Gana, Argélia, Estados Unidos e França. Goleou Portugal na estreia, o que não dá cartaz a ninguém.

Longe de tirar o mérito do colossal talento alemão, inquestionável, quero apenas dizer que os 7 x 1 foram atípicos até mesmo para quem tem oito anos de planejamento, tempo de Joachim Low à frente da esquadra germânica - terá doze com a renovação já feita antes da final. Eles se surpreenderam com o que aconteceu.

Scolari errou e ajudou a fornecer dados para a tragédia do Mineirão. Mas se tivesse perdido por 1 x 0, também seria escorraçado - no caso, a histórica goleada é apenas um agravante. Parte da imprensa esportiva do Brasil é conduzida por um marco de seus patrões: a derrota (ou perda econômica) é inaceitável. Perdeu, masmorra. Medieval mesmo.

Pausa para Parreira. Um dos únicos brasileiros bicampeões mundiais no futebol brasileiro (1970/1994), é o recordista de comando de seleções nas Copas. Campeão no Brasil por Fluminense, Inter e Corinthians. Um dos mais experientes profissionais vivos da história das Copas do Mundo. Virou um "ultrapassado que serviu à ditadura". Mas todos os que serviram à Seleção Brasileira entre 1966 e 1982 estiveram perto - involuntariamente ou não - daquele abominável momento político, salvo honrosas exceções como João Saldanha, Paulo Cezar Caju e Sócrates, sempre marcando posição. E o resto, é lixo?

Joachim Low tem a sorte de ser alemão. Jamais conseguiria trabalhar na Seleção Brasileira por oito anos sem conquistar títulos, esperando por um longo prazo até os frutos. Ao primeiro ano e meio, o primeiro fracasso e seria tachado de incapaz, fraco ou essas novas besteiras como "perdeu o vestiário".

Chega a ser fácil prever a opinião jornalística predominante, caso o excelente trabalho do treinador alemão fique pelo caminho diante de genialidade de dez minutos de um Messi, por exemplo, hipótese plausível.

E também fácil uma conclusão: a renovação do futebol brasileiro, tão ansiada e necessária, não pode ter como base os arroubos de uma imprensa esportiva esquizofrênica, oportunista, covarde e hipócrita - ela exige o que é incapaz de praticar. Liste o nome dos grandes formadores de opinião do ramo: estão aí desde os tempos de Médici; crucificaram Zagalo, Telê, Lazaroni; apedrejaram Evaristo com SEIS jogos em 1985. Cláudio Coutinho - militar nos tempos da ditadura e também campeão em 1970 -, falecido precocemente após um terrível acidente submarino, escapou do linchamento. Ah, e vários senhores da verdade jornalística trabalharam para veículos de comunicação ligados à ditadura. Nada como o vil metal a dobrar convicções. 

O sucessor de Luiz Felipe já tem pesadelos ao se esquivar das pedradas.

Os covardes não esperam.

@pauloandel

Tuesday, July 08, 2014

like an alien


hey, i am walking
like an alien
crossing the strange squares
rolling over the streets
looking for my love
the real and absolute country
my motherland that flies
with a sweetness of the unknown


hei, eu vou caminhando
como um estrangeiro
cruzando as esquinas estranhas
flanando pelas ruas
procurando o meu amor
o absoluto e real país
minha terra natal que voa
com a doçura do desconhecido


@pauloandel

Saturday, July 05, 2014

numa fotografia

te vi
outro dia numa foto
antiga
pensei
nas canções que te fiz
e ficaram
perdidas
sonhei
com você do meu lado
na noite do Leme
mas a praia de inverno
já não te sugere
talvez
numa outra estação
o carinho renasça
empecilhos e trilhas
não sejam ameaça
e o pôr do sol em paz
seja então nosso
bem
te vi
num quarto crescente do meu
coração
e pensei de você estar
aqui:
ilusão à toa
alegria um dia

@pauloandel

simples como fogo


tão importante
você
tão importante
em si
numa imponência
fugaz
fazendo pouco caso
desdenhando meus versos
minimizando as cores
do teu rosto que pintei à janela
(cheio de escolhas e caminhos)
foi aos poucos
sendo menos você do que devia

a hora passou
o brilho mofou
a nossa brincadeira
empoeirou
e agora
não há mais hora nem espaço:
o trono foi teu deboche
então alguém sentou
e sugere a vontade
de não ter vontade
para desocupar
o bendito lugar - simples como
fogo - se provocado
queima

@pauloandel

Thursday, July 03, 2014

romance caos



vi no céu teu olhar
tua tez, teu encanto
mas senti calafrio:
onde mora que não seja
no ventre do meu pensar?
o longe, o longe, desalento
o cais sem navio
amor de um, noves fora
nada, nada
nada: romance e caos

@pauloandel

Saturday, June 28, 2014

outro longe

feito um mistério
o que cerca o nosso
encanto:
um coração distante
namorando ao longe
outro coração
nenhuma certeza
e a sensação
de que o longe devia
estar aqui agora -
a ausência não mede
romance
as lágrimas são risos
doutra
história

@pauloandel

Thursday, June 26, 2014

granel

esta selva de pedra com grandes edifícios e pequenos personagens
os vis, os vilões, os pequenos burgueses, a escrotidão
as pequenas maldições que me cercam
a conta maldita, a sorte, a fome
a estupidez maldita
as lindas putas maldições
meu coração padecendo
e os torcedores deveras ocupados:
esta é a nossa copa do mundo
e algum amor me corrói
a febre maldita, os cantos malditos, os heróis da indiferença
vamos celebrar o sonho da cidade
nossas pequenas maldições
a opressão urbana, os preconceitos vivos, o egoísmo a granel
doses industriais de fel
e os estúpidos serão felizes
quando chegar a próxima
grande liquidação:
o inferno é o longe do fim

@pauloandel

o idiota num tratado geral

o perfeito idiota
con(funde)
elegância com empáfia
embaralha
literatura com datilografia

indistingue
poesia de verborragia - cita os trechos dos livros que não leu:

bastaram-lhe as orelhas - precisa fingir a tola sapiência - 
troca os pés pelas mãos porque não sabe
que menos e bem menos é mais -
nobre literato dos falsos cognatos, bacharel das hipérboles
ah, divino bardo das ciências curtas
e por demais apagadas:
por mais que vociferes
e ofereças teu ódio primitivo

jamais esconderás dos atentos
a tua verdadeira identidade - um idiota -
supremo e absoluto idiota -
deitado em berço ao nojo da arrogância
numa rede social qualquer, sempre fútil

sempre com mil pontos de exclamação, mil interrogações, mas nenhuma certeza útil 
ou dilema
um inevitável e contundente
idiota
idiota
idiota!
cuja estupidez nenhuma tabuada
há de calcular

granada sem pino da ignorância
coquetel molotov da imbecilidade!
ante a tua fétida presença

que se faz apoteose da feíura
qualquer boçal regenera-se: 

 - sou vulgar mas ali está o perfeito idiota! os ignorantes podem permanecer à vontade! 
sintam-se em casa!

@pauloandel

Wednesday, June 25, 2014

erotique (fullgás)

ah, boca - eu, a minha boca
e o teu líquido
cais em maré alta e cena firme
eu e o beijo quente de relance
eu e um romance no teu ventre
miados soltos, luar
ah, corpo - eu, a minha boca
e o teu corpo
corpo que se enrosca empolgante
eu e uma língua no teu corpo
santo e profano, tão devasso
um diamante a brilhar
ah, doce - eu, aquele doce
no teu corpo
saliva encontrando outra saliva
peitos e coxas em paz lunar
- corpo tremulando de desejo - língua que provoca outro líquido - chocolate no paladar - branco preto luso!
oh, carne!
carne do teu corpo que desejo
carne sem desculpas e artifícios
doce, quente, tão sincera e corajosa -
longe dos mandamentos imprecisos -
tenra, magra, farta, sempre alerta
rija, crua, nua, generosa - loucos temos muito a vagar
carne enrijecida de volúpia
seios saltitando na luxúria
a vida, o hoje, o gozo fullgás*

@pauloandel

*"Fullgás", Marina Lima & Antônio Cícero, 1982

Tuesday, June 24, 2014

Outros Rios







Meu Rio
perto da favela do Muquiço
eu menino já entendia isso
um gosto de Sustical
balé no Municipal
Quintino:
um coreto
entrevisto do passar do trem
nós nos lembramos bem
baianos, paraenses e pernambucanos:
ar morno pardo parado
mar pérola
verde onda de cetim frio
Meu Rio
longe da favela do Muquiço
tudo no meu coração
esperava o bom do som: João
Tom Jobim
traçou por fim
por sobre mim
teu monte-céu
teu próprio deus
cidade
vista do outro lado da baía
de ouro e fogo no findar do dia
nas tardes daquele então
te amei no meu coração
te amo
em silêncio
daqui do Saco de São Francisco
eu cobiçava o risco
da vida
nesses prédios todos, nessas ruas
rapazes maus, moças nuas
o teu carnaval
é um vapor luzidio
e eu rio
dentro da favela do Muquiço
Mangueira no coração
Guadalupe em mim é Fundação
solidão
Maracanã
samba-canção
sem pai nem mãe
sem nada meu
Meu Rio

Caetano Veloso

@pauloandel

Sunday, June 15, 2014

o romântico blues dos miseráveis

as trilhas urbanas estão cheias de miseráveis como se fosse o sangue venoso em processo
a miséria da alma
a miséria da falsa generosidade
ou a apoteose da nossa hipocrisia empoeirada

os miseráveis não são exatamente os sem casa, comida ou futuro
estão engravatados nas grandes corporações
ou subornando, sonegando, fustigando indiferença
chacoalhando suas joias em tribunas de honra
onde a honra é tão pequena

os miseráveis
também moram nos sonhos
dos rebeldes sem causa do Jardim Botânico ou da Gávea
e dos revolucionários que ainda revolucionaram nada
- outros são Marighella - o inimigo dorme ao lado - a covardia tem casa e comida - o pecado é capital -
senhores miseráveis
em busca da perfeição que não existe
amores eternos entre duas estações - a contradição entre o verso e a vivência - queremos mais pecados

a miserável podre moralista no discurso enfeitiçada
com bacanais e outras putarias
o miserável que quebra igrejas como se fossem bancos
o miserável que chutou a santa!
vamos perseguir os ateus!
a miséria reside no fel do egoísmo, na truculência

e no calor inexato das contradições - hoje é domingo - vamos buscar o perdão de deus! - vamos viver nossos feriados lambendo vitrines, vomitando pastiches e fazendo da utopia nosso melhor entorpecente
- riquezas são diferentes!*
- a morte não causa mais espanto!*
os miseráveis poem culpa em futebol e carnaval
o óbvio é repetir as manchetes que alguém pagou para lucrar e alguém pagou para ler

os miseráveis não eram os índios mortos, os favelados estuprados, nem estudantes torturados pela ditadura que hoje faz-se pensamento liberal
os miseráveis não são os que esticam braços cansados em busca de esmola vil
os miseráveis não são os esmagados nos trens no fim do expediente de uma grande capital

quero cantar sobre os verdadeiros miseráveis: os que pensam ter descoberto os caminhos do mundo
ou que tenham as opiniões pasteurizadas sobre tudo - os que apontem as soluções certas porque nunca resolveram problemas - os miseráveis que dão de ombros porque não inventaram o mundo e não tem compromisso com isso -
os miseráveis que trocam de calçada ao avistar um pedinte
ou que desfraldam seus diplomas conseguido com o dinheiro dos pais - há quem chame de mérito

quero cantar contra os miseráveis que não declaram seu nojo de quem nasceu negro
ou pobre ou suburbano
caipira talvez
quero cantar para os que são trezentos, trezentos e cincoenta*
e não apenas os que se envaidecem diante do próprio bom senso - na verdade a ausência
os miseráveis que pertencem à academia brasileira de letras longe dos livros
e sopradas na tv a cabo
deus, buda, alá, os orixás, todos os que são alguém vão nos redimir:
enquanto isso somos gado off price sem a elegância do pasto
a esperança dos campos verdes
as ruas estão cheias de miseráveis
com violência, desfaçatez, sede de poder e ganância
coisas que armani não conserta

penso em um poeta que pediu a deus para que salvasse a américa
e isso queria dizer de nossas almas indigestas:
dê ouro preto a quem só vê miami em tom tão brega
ou candeia contra o showbiz
os miseráveis jamais entenderam o canto cínico de gilmour: "money! it's a hit!"
e nunca vão entender
o lado escuro da lua
o lado escuro
da lua que recita o blues deles, tão miseráveis
miseráveis
humanos feito eu

@pauloandel

*citações de "miséria", titãs, e "eu sou 300", mário de andrade

Thursday, June 05, 2014

o dorso do mundo


eu não consigo entender o mundo
mas tento escutá-lo
ou ler seus poemas breves
os cochichos
- fotografias da alma
- tons de canções que acalmam

eu não consigo avançar no mundo
cheio de mares de rancor
a gente que detesta gente
na solidão das multidões
vamos nos despir da hipocrisia!
- um soco poderoso do queixo duro e covarde da hipocrisia!

os boçais sentem-se à vontade diante da miséria do mundo
e escarram modernidade pois o ranço colonialista incomoda-lhes
ao ventre vil

eu não consigo abraçar o mundo
mas beijo-lhe a nuca, o ventre
os rijos bicos dos seios
e namoro com fúria juvenil
até que goze e torne-se
planeta - e só o que importa
num momento de prazer
efêmero

as calçadas do mundo repletas de sofrimento
grandes corporações a serviço de pequenos interesses
deslumbrados, recalcados

e tão estupefatos testemunhamos
que o caos do caos é pouco
diante da violência maior:
a distância
a indiferença

o céu mais belo dos mortais
e minha tristeza
numa noite de junho:
estou longe
longe demais
do mundo - meu sonho à toa
desmaiado em pobres lençóis
de silêncio
profundo

@pauloandel

Saturday, May 31, 2014

no surprises

um coração aflito vaga pelos silêncios da fria noite de sábado
e voa longe, sonha o distante
cobiça as leves improbabilidades
um coração triste por conta dos mortos
os precocemente desaparecidos
os desolados e perdidos na selva do vão capital
um coração e sua vitrola eletrônica
num concerto do radiohead
e sua melancolia melódica
as pessoas estão apressadas com seus computadores de mão
e suas frases curtas, pragmáticas
thom yorke canta "no surprises"
a dor é tão evidente - por que nos surpreende?
garotos bobos escrevem tolices em busca de trinta segundos de fama
um coração e os tiros sombrios ao longe
as balas vão matar quem não merecia
alguém está ao lado de alguém que não queria
"no surprises!"
somente a estrada para fazer animar um tolo pobre coração
sempre na contramão
entusiasta da contradição

@pauloandel

Friday, May 30, 2014

consolação

uma garota linda e louca
um araponga à paisana
e o concreto jorra no vento
o tempo e o acontecimento
num momento! ei, momento!
selvas de pedra e gente carniça
hipócritas felizes e abonados
trabalhadores sofridos, aflitos
e toda são paulo não é de boa
- as equimoses são as estações -
- nada mudou - pobre são paulo -
que fim tomou a beleza lúcida
de rochelle schneider - mítica?
o sonho e seu assobro são festa
nas ruas de certa avenida central
ah, são paulo, longe do meu amor
perto do meu coração tão luzidio
o sol que nos consola parece breve
enquanto o gris do céu rege a dor

@pauloandel

Tuesday, May 20, 2014

os campos do silêncio

o silêncio dos homens em tempos tão ruidosos
porque vivemos angustiados
esperando os últimos momentos divertidos que não chegam
pensando em tudo o que foi desconstruído
e também o que sobrou
as memórias, fatos e objetos sobreviventes
o silêncio dos homens numa noite tão bonita
e dolorida
a multidão gritava como nunca no maracanã
enquanto o choro de um homem bom era tão triste
o pai, o filho e a morte tão crua à vista
numa humilde casa do coração da cidade
o silêncio dos anos é a lembrança de muitas reticências
poucas certezas
e o sentimento indescritível da falta que sentimos
do que sequer sorvemos, aproveitamos -
um desejo chamado saudade -
o silêncio do filho em lágrimas discretas
a imaginar o que restou das melhores lições
do silêncio de seu pai
o silêncio dos homens diante das mazelas do mundo
as injustiças que brotam a cada esquina, nas estradas de terra
nos matagais
há um país sofrido em busca de seu reencontro:
o abraço entre a gente, o resgate da generosidade, o trabalho
o silêncio do filho é a morte do pai
mais viva desde o sempre
as ruas parecem tão desertas: precisamos de gente, gente, gente

helio andel (17/04/1941-21/05/2008)

@pauloandel

Monday, May 19, 2014

a guerra

venha! venha!
vamos abrir as portas e as janelas
fazer da casa a terra liberta
onde todos serão um
e o somente não resista
às intempéries da paixão
para que os corpos
sejam livres na verdade nua
vamos derrubar os dogmas que nos aprisionam
eles não querem nosso bem
sejamos a pátria, a família
o amor pelo amor vivido
e saibamos celebrar a amizade
o respeito a quem não tem
o carinho para com quem sofre e chora debaixo do céu estrelado
e nenhum teto fraterno
sejamos o clímax de nossas plenas crenças e desejos
sem deixar que os deuses nos imponham desamor
sejamos a casa, a escola, a família
nossas mães dedicadas e pais proletários
enquanto namoramos os livros na sala -
e a voz seja um sinal de abraço
que as praias românticas e silenciosas sirvam como fotografias
dos namoros mais repletos
- oh, deus que não entendo e tanto ofereceu lágrimas aos meus olhos! -
até que eu possa
ver todas as crianças com a alegria que tive quando fui uma delas
agora que meus pais se fazem morte e presença
tão intensa que a tristeza infinita
confunde-se com as melhores
lembranças
que os escoteiros estejam sempre alertas a cada arcozelo
e este mundo de frias corporações nunca mais alimente a guerra
a guerra
- oh, senhor deus das minhas lágrimas! que cada criança tenha um carrinho
uma bola
e a saúde dos pais a bem tratá-la
meus amigos comunistas abraçados
no atlântico sul de copacabana:
as tristes putas lindas vão se recuperar
mulheres meninas com o gosto do mundo a se experimentar
os mendigos serão passado
e não precisaremos de mais droga nenhuma
para fingirmos fleuma e alegria
a terra
será a dignidade de todos
meus irmãos abraçados serão todos
um silêncio de luar será a melhor serenata
enquanto minha musa dorme nua
e ao lado
recito poemas de fé:
o meu país será outro, super outro feito artérias jovens
cheias de sangue limpo e rico -
copacabana será minha para sempre e fará da ribalta a luz
bailará entre musas estrelas
terá minha serena fidelidade:
seremos nós, nosso mundo
e tudo terá a calma do devido lugar
seremos nossos livros de história
cada vez mais bonita
sem porém a acrescentar: seremos nós mesmos!

@pauloandel

três pequenas histórias do litoral

1

Você olha a beleza do mar do Vidigal a São Conrado. Por um instante, ela faz esquecer as mazelas: a injustiça, a dor, o desespero, a escrotidão. A favela com classe, o verde que deslumbra. No ponto, entra um senhor lentamente e alguém logo lhe oferece assento no ônibus. Agradece, diz que não é necessário. Percebe-se que é cego.

Estava em busca do pão. Bem devagar, esgueira-se pelo corredor cheio e começa a distribuir pequenos papeizinhos onde pende ajuda financeira. Trata-se de uma cena comum nesse mundo de merda onde o egoísmo se traveste de capitalismo, mas o que chama mais atenção é que o senhor cego estava completamente sozinho – em geral, os pedintes portadores de necessidades tem alguém a ajudar-lhes na tarefa. Nada. um homem sozinho, esgueirando-se entre gente, certeiramente chegando perto das mãos das pessoas e lhes dando um bilhetinho de ajuda que não devia ter mais do que qutro centímetros.

Poucos falam no ônibus. O cego distribui os papéis. Até na hora mais difícil para uma pessoa, que é ter que sucumbir diante do dinheiro e pedir a terceiros, sua tarefa é dificultada. Numa das mãos ele carrega os papeizinhos; na outra os pequenos trocados. Penso na dificuldade de sua luta solitária. O jogo de mergulhar no escuro tão bem descrito ali: o senhor que não enxerga, os papéis que podem ser perdidos ou ignorados pelos mais rústicos, até mesmo o dinheiro. À ESQUERDA, a beleza infinita do Joá e o Costa Brava, Ao centro, o Brasil que ainda sofre enquanto moderninhos de merda chamam isso de assistencialismo. O que se faz com as centenas de milhares de pessoas que não são amparadas pelo Estado e, claro, tratadas como lixo pelo mercado? Ao fazer essa pergunta, geralmente o interlocutor recebe de volta um silêncio cínico que, audível, é traduzido pela chula expressão “fodam-se”.

Alguns sorriem porque a placa avisa quando você está na Barra. Os mais informados se entristecem ao lembrarem-se da linda Patrícia Amieiro. No primeiro ponto, o senhor cego salta. Conseguiu alguns bons trocados, terá direito a um pão enquanto a luta infinita não recomeça num novo ringue da vida. Devagar do começo ao fim, ele ensina que não se deve desistir nem quando tudo parece perdido. Tudo dança.

2

Poucos metros adiante, o sinal fecha perto do famoso e decano condomínio Riviera Del Fiori. Um menininho negro magro, magro e muito pequeno com suas bolinhas fazendo malabarismo. Era tão pequeno que mal conseguia alcançar as janelas dos carros para pedir ajuda aos irritados motoristas que o queriam fora daquele sinal, daquela avenida e até mesmo fora do planeta. Pequeno demais diante dos grandes gigantes de concreto e moradores abastados. Pequeno demais o garoto e longe demais de seu destino merecido: escola, comida, carinho, brinquedos, tudo perdido diante da solidão de uma avenida da Beverly Hills carioca e sua cafonália. Entre os carros, um Brasil que ainda sofre no almoço e sonha com o jantar, enquanto a vida ali parece tão injusta, insana e sinceramente tremo quando alguns de meus companheiros de faculdade  - muitos, beneficiados pela escola e dinheiro públicos – defendem a volta de velhos valores piorados, capazes de tornar o sofrimento daquele menininho pequeno, magro e negro uma escravidão a se perder pelos novos séculos.

3

Fim de dia, a bela praia de Botafogo, Pão de Açúcar ao fundo, belezas incontáveis desde séculos atrás, um rapaz solitário sentado no pé da trave esquerda á esquerda de quem olha a praia de frente. Um silêncio dos céus, um desenho de avião contornando, calçadas vazias, um Rio de Janeiro com vestes de outono e certa tristeza que alimenta o melhor da bossa nova, uma melancolia que não tem fim. O Rio é lindo, a vida é triste, só nos resta seguir em frente sem direção certa e sequer a menor ideia de onde isso tudo vai parar – se é que haverá parada.


@pauloandel

Friday, May 16, 2014

os brasis

1
O Brasil mudou nos últimos anos. Mudou sim. E para melhor. Não exatamente como muitos gostariam, não exatamente na construção de uma sociedade mais libertária e intelectualmente enriquecida, mas mudou. É fácil demais condenar o governo chamando de clientelismo qualquer política de inserção social. É fácil demais chamar o pobre de vagabundo quando se nasceu bem amparado financeiramente pela família, em competo descaso ao que se passa no outro lado da calçada. É fácil demais fingir que não se via milhões de pessoas simplesmente morrendo de fome – ainda morrem, mas numa escala muito menor – porque os socialmente cegos entendiam que cada um deve ser por si e não precisamos do Estado – a maneira educada de dizer “Foda-se o outro. Quero é saber de mim”. Décadas anteriores mostraram que o conceito de máxima liberdade do capital especulativo só serviu para aumentar o abismo social e suas mazelas. O Brasil ainda está longe do que se pode chamar de plena justiça social, mas mudou para melhor. Ainda falta muito, muito, muito. Não é possível sentir-se conformado quando bandidos armados oprimem favelas, estupram adolescentes arrancadas da casa dos pais e depois a exploram como garotas de programa. Inaceitável pensar que tudo o que aí está em termos de violência está diretamente ligado à indústria das drogas, dirigida de longe por milionários inescrupulosos que trocam seus capangas como quem troca de roupa: morre um analfabeto, coloque o fuzil na mão de outro – e pior ainda é pensar que, se todos estes escravos do crime tivessem recebido a devida atenção socioeducacional, é se imaginar que a força do banditismo fosse hoje cada vez menor. Não há como achar normal que, em 2014, pessoas considerem um acinte o caminhar de pretos e pobres em shopping centers requintados das grandes cidades. O que dizer de um candidato que se apresenta em frente às câmeras de TV, em busca de um novo mandato através de eleição, dizendo que tem saudades da ditadura cívico-miliar de 1964, responsável por estupros, torturas e assassinatos de milhares de brasileiros, impondo a pena de morte sem dó? Quem pode defender como são o fato do governo institucionalizar o crime que deveria combater? Falta muita coisa ao Brasil de agora, mas seria uma estupidez retornar a tempos de porões, farsa de frangos e entrega do patrimônio nacional a troco de banana – e, se neste momento, você reclama porque o sinal do teu celular é uma merda permanente, talvez entenda o papel de Daniel Dantas neste sentido.

2
O Brasil também paga o preço do mundo inteiro. Caminhamos para um mundo cada vez mais tecnológico e menos evoluído intelectualmente, por mais paradoxal que isso possa parecer. A internet é um fenômeno fabuloso, um dos grandes inventos da humanidade, no mesmo patamar do avião, do telefone, da luz elétrica; no entanto, sua enorme riqueza está mal distribuída. As pessoas gastam cada vez mais horas na rede mundial de computadores e cada vez leem menos, pensam menos, refletem menos. Curte-se e compartilha-se sem a menor convicção pró e contra, em gestos mecanizados completamente ausentes de reflexão. Parecer ficou mais importante do que ser. Há muito, ter ficou bem mais importante do que ser. As grandes imagens, os grandes textos, os pensamentos instigantes, os contrapontos, tudo fica perdido diante de um debochado vídeo popular onde alguém desrespeita alguém, ou alguma fofoca a respeito de determinada celebridade. O que poderia ser o mar da sofisticação se transformou no deserto das ideias. Sem ler, estudar e refletir, a capacidade argumentativa fica cada vez mais rasa. E ENTÃO surgem os fascínios pelos autoritários, os choques de ordem, a verborragia de aparências, a ostentação cafona. Nem tudo é derrota, claro: "O bom da Internet é que ela liberta o homem moderno, dando a ele uma independência, algo semelhante a um novo Renascimento, livre de opiniões editorializadas, livre de civilizações cosmopolitas e altamente fascinante. A Internet é efetivamente o maior veículo, o antirracista, o anti-preconceito religioso - na medida que proporciona a real integração dos povos, que se dá por meio da cultura e da informação. Daqui a uns 30 anos, a configuração do mundo globalizado e internetizado será fascinante, isso se o Saddam Hussein não jogar bombas bacteriológicas na gente antes disso. O ruim da Internet é que está virando uma enorme "páginas amarelas', ou seja, um enorme mercado de vendedores ambulantes." – Gerald Thomas em 1998.

3
O que falta realmente é respeitar a democracia. A palavra vem do povo. Da maioria. Ela é que deve prevalecer. Não há mais espaço para rancorosas viúvas do nazismo tupiniquim.

@pauloandel

Wednesday, May 14, 2014

dias de gris

1

ah, o peito que range
e dói
um coração que sangra
triste
e persiste
a desilusão
o pouso dos dias vazios
calados
sem viço
enquanto promete-se festa
a multidão sem voz
então
precisamos de mais piedade
trocarmos verdadeiros
abraços
que tenham
algo a dizer para os corações
que sangram firmes:
precisamos do futuro!

2

o amor não dorme
nem repousa:
apenas faz tocaia
até atacar
uma presa apaixonante
e sequestrá-la
até chegar ao cativeiro
numa base lunar

3

a dor silenciosa
corroendo lentamente
a réstia de vida
a dor, a dor
a tristeza em cor

4

batalhões de estranhos
a celebrar
a indisfarçável falsa
intimidade:
peixes fora d'água
numa rede antissocial


@pauloandel

Tuesday, May 13, 2014

lovewalk


@pauloandel

Thursday, May 08, 2014

chamei vanessa

chamei vanessa
para ver samba raiar
cantei, chorei
supliquei
parecia iemanjá
deusa azulada
do mar
chamei vanessa
e sambei para lhe amar
beijei, toquei
aceitei
acertando no milhar
chamei vanessa
se quiser acreditar
a realeza
aplaudiu paixão lunar

@pauloandel

maio

outono que não liberta:
cheiros de ruas tristes
e lixo e miséria a granel
a nossa grande cidade
tem cheiro duma tristeza
duas meninas solitárias
na mesa de um bar limpo
as calçadas esvaziadas
e cantos de lixo sobre lixo
as crianças comendo lixo
e a humanidade inexplicável
somos frios demais! frios!
por isso a miséria é normal
os guardanapos sempre limpos
as empregadas uniformizadas
pátria livre mãe sem gentileza:
não vamos consertar o mundo
nossos defeitos são outros
e bem mais que maiores
- somos os tais, somos futuro!
a marquise é aterrorizante


@pauloandel

Thursday, May 01, 2014

sobre felicidade

Não é por não falar
Titãs
1991


Não é por não falar
em felicidade
Que eu não goste
de felicidade
Não é que eu não goste
de felicidade
É por não falar
em felicidade
E é por falar
infelicidade
Que eu não gosto de falar
em felicidade

@pauloandel

Wednesday, April 30, 2014

devaneio

você fechou os olhos
e eu desapareci fugaz:
onde está algum sonho?
eis-me longe, estrangeiro
pensando num certo eu
que não tem teu vão valor
eis-me frio, contemplativo
acordado em pleno hiato

@pauloandel

Saturday, April 26, 2014

costa brava

então faz-se a minha mão a tua mão
boca, saliva, secreção
ardor de pele à pele ao chão -
sejamos vulcão, um tufão
tornado e tempestade
lua cheia e firme ao tempo cão
então seja minha oração
uma religião sem alarde
receita de romance no atlântico sul
lance, toque, meu novo tesão
então seja mais do que momento:
seja a razão do meu tempo azul
tempo
tempo
a fúria do sim contra o ranço do não
e não apenas entretenimento

@pauloandel

Friday, April 25, 2014

copacabana gotham city

a noite a deitar em berço esplêndido do horizonte
enquanto fazemos velhas promessas
sonhamos com o passado perdido
ou com novos tempos novos
e buscamos abrigo no coração da grande cidade
ah, mansidão que não aquece!
vastos outros corações em chamas!
os que sofrem e choram, falecem
há quem viva ao léu da dor
e pessoas de bem estraçalham-se em suores num vagão lotado
garotos fumam a morte para se esquecerem da vida
garotos com suas caixas de engraxate
e jovens com belos sobrenomes brindando champagne
a noite é Copacabana e seu cais de mil memórias
os netunos vão resgatar nossos amores
e nada será sempre perdido no fundo do mar
e nada será sempre o perdido no fundo do mar
ainda vamos inventar outra cidade
onde seus corações serão perdidos de amor - uns sobre os outros
e nenhuma dança será em vão
nenhum poema desperdiçado
mesmo que os arranha-céus sejam a regra
nós ainda vamos escrever a história de outra cidade

@pauloandel

Thursday, April 24, 2014

chuva, lágrimas e mães

Acabei de CHEGAR em minha humilde e confortável casa na Cruz Vermelha. Escapei de uma chuva enorme. Hoje era dia de doação de comida para moradores de rua em frente ao meu prédio. Quando a água apertou, o pessoal correu para debaixo da marquise - era a única alternativa. O porteiro tentou fazer uma piada sem graça: "Os mendigos vão fazer manifestação?" - nem todo humano faz jus à definição de bípede.

LEMBRO bem da primeira vez que fiquei triste por causa de alguém que sofria nas ruas.

Era uma noite de 1974 na avenida de Copacabana, bem em frente ao Cinema Metro, cujo ar condicionado gelava a calçada do outro lado da rua quando as portas de saída eram abertas.

Minha jovem e linda mãe me puxava pela mão direita quando saíamos do cinema. À porta, uma senhora pedia esmolas com uma garotinha que devia ter o meu tamanho ou menos. A mãe abriu a carteira, ainda éramos uma família com posses. Deu algumas notas, apertou a mão da senhora, fomos embora e pegamos um táxi.

Foi a primeira vez que vi minha mãe chorar. Ela estava muito triste com o sofrimento da senhora. Anos depois, a mãe me contou que, em seus primeiros dias no Rio, desesperada em busca de um emprego para ajudar meu avô no Paraná, chegou a dormir alguns dias na rua e até numa garagem até conseguir emprego numa casa de família.

Já em casa, Santa Clara 345, minha mãe ainda tinha o rosto avermelhado pelo choro. Eu entendi que uma pessoa sofrer na rua, desamparada, é triste e inaceitável - ao menos para quem tem o mínimo amor ao próximo.

Agora, tantos anos depois, quarenta, as pessoas continuam sofrendo na rua, fico tão triste como minha mãe me ensinou um dia e, a cada dia que passa, penso em como somos uma sociedade imbecil e inconsequente porque damos de ombros a quem sofre na rua. São vagabundos. Por que não trabalham? Falam tanto de Deus, de religião, de corrupção e ninguém enxerga uma mão estendida pedindo um pedaço de pão.

Um orgulho enorme em rever minha mãe apertando a mão da senhora mendiga. Uma dor enorme em cogitar saber do que aconteceu com a garotinha.

Somos estúpidos demais.

@pauloandel

Wednesday, April 23, 2014

copacabana sangra

eis que copacabana sangra
e suas ruas rugem o horror:
alguém morreu à toa, triste
a polícia apresenta as armas
a morte vira uma estatística
as manchetes em sangue frio
onde as vidas não tem valor
a bossa nova é sempre foda
mas a miséria da alma agride:
estupra, mata, corrompe, suja -
ordem, progresso e desamor -
pátria amada, Brasil - ninguém!

@pauloandel

Tuesday, April 22, 2014

copacabana amêndoa


chutando amêndoa
numa calçada enquanto
o mundo passa
no asfalto da Copacabana
um casal acha graça
uma mendiga em desespero
desconfia
e o rapaz do interior devolve
um objeto perdido a uma gata
pessoas passam num recado
carros lutam por suas vagas
e as grades brancas do Igrejinha
trazem vidas no compasso
das outras vidas - um arremedo
enquanto quase ninguém
lembrou de Almir Pernambuquinho
no Bar Bico
a vida é breve e tão sem graça
um carro à venda, outro negócio
uma calçada e sua amêndoa
alguém a chuta redivivo -
entre a paz e o caos e os rococós
Copacabana tem marra e charme
seja à luz dos grandes postes
ou de velas acesas na encruzilhada

@pauloandel

Thursday, April 17, 2014

somos tão modernos

numa rua da nova guanabara
passam ônibus nunca vistos antes
nos seios da noite, na hora da casa
e pessoas apressadas com seus fones correm
contra o tempo a desperdiçar
- vamos às casas - TVs a cabo - solidão nas salas - calores de corpo e almas apaixonadas à distância - deus nos perdoe - sonhos sinistros
uma linda mulher num deserto vagão de trem urbano
uma linda criança e sua mãe numa calçada do Centro
e a verdade escarrada em manchetes assépticas enrustidas em rasa elegância
o outro lado de qualquer lado da história
romance de nada - roubado é mais gostoso!
ninguém vai escutar um outro tiro noutro morro adiante
nem gritos de dor, desespero cru
estupro e covardia
ninguém pode mudar o mundo
os vãos vizinhos são números
ninguém vai escutar um outro tiro noutro morro adiante
nosso caos moderno, fraturado
desalmado, corações rancorosos
e todas as vitrines não podem dizer o bastante
ninguém vai escutar um outro crime noutra esquina adiante
uma linda mulher e um coração
que lhe cobiça ao distante
a nova guanabara soma forças
e cambaleia sem cortes

@pauloandel

Wednesday, April 16, 2014

mãos vazias

quando as mãos mendigas
estavam erguidas e tristes
havia uma noite de chuva
e marquises frias em cinza
as mãos em desespero e fé:
um resto, um trago, um troco
e a vida que a deus pertence
as mãos lutando noite e dia
insones, enrugadas e vazias
o perigo e a violência da rua
morte e vida tão encardidas
ninguém tem tempo a perder
nem pensar em certa covardia
somos o que temos, bobagem
a vida é breve, sem os rastros
a linda e tenra carne apodrece
nenhuma arrogância prevalece -
somos uma bobagem sincera
os dias são as mãos iludidas

@pauloandel