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Saturday, June 28, 2014

outro longe

feito um mistério
o que cerca o nosso
encanto:
um coração distante
namorando ao longe
outro coração
nenhuma certeza
e a sensação
de que o longe devia
estar aqui agora -
a ausência não mede
romance
as lágrimas são risos
doutra
história

@pauloandel

Thursday, June 26, 2014

granel

esta selva de pedra com grandes edifícios e pequenos personagens
os vis, os vilões, os pequenos burgueses, a escrotidão
as pequenas maldições que me cercam
a conta maldita, a sorte, a fome
a estupidez maldita
as lindas putas maldições
meu coração padecendo
e os torcedores deveras ocupados:
esta é a nossa copa do mundo
e algum amor me corrói
a febre maldita, os cantos malditos, os heróis da indiferença
vamos celebrar o sonho da cidade
nossas pequenas maldições
a opressão urbana, os preconceitos vivos, o egoísmo a granel
doses industriais de fel
e os estúpidos serão felizes
quando chegar a próxima
grande liquidação:
o inferno é o longe do fim

@pauloandel

o idiota num tratado geral

o perfeito idiota
con(funde)
elegância com empáfia
embaralha
literatura com datilografia

indistingue
poesia de verborragia - cita os trechos dos livros que não leu:

bastaram-lhe as orelhas - precisa fingir a tola sapiência - 
troca os pés pelas mãos porque não sabe
que menos e bem menos é mais -
nobre literato dos falsos cognatos, bacharel das hipérboles
ah, divino bardo das ciências curtas
e por demais apagadas:
por mais que vociferes
e ofereças teu ódio primitivo

jamais esconderás dos atentos
a tua verdadeira identidade - um idiota -
supremo e absoluto idiota -
deitado em berço ao nojo da arrogância
numa rede social qualquer, sempre fútil

sempre com mil pontos de exclamação, mil interrogações, mas nenhuma certeza útil 
ou dilema
um inevitável e contundente
idiota
idiota
idiota!
cuja estupidez nenhuma tabuada
há de calcular

granada sem pino da ignorância
coquetel molotov da imbecilidade!
ante a tua fétida presença

que se faz apoteose da feíura
qualquer boçal regenera-se: 

 - sou vulgar mas ali está o perfeito idiota! os ignorantes podem permanecer à vontade! 
sintam-se em casa!

@pauloandel

Wednesday, June 25, 2014

erotique (fullgás)

ah, boca - eu, a minha boca
e o teu líquido
cais em maré alta e cena firme
eu e o beijo quente de relance
eu e um romance no teu ventre
miados soltos, luar
ah, corpo - eu, a minha boca
e o teu corpo
corpo que se enrosca empolgante
eu e uma língua no teu corpo
santo e profano, tão devasso
um diamante a brilhar
ah, doce - eu, aquele doce
no teu corpo
saliva encontrando outra saliva
peitos e coxas em paz lunar
- corpo tremulando de desejo - língua que provoca outro líquido - chocolate no paladar - branco preto luso!
oh, carne!
carne do teu corpo que desejo
carne sem desculpas e artifícios
doce, quente, tão sincera e corajosa -
longe dos mandamentos imprecisos -
tenra, magra, farta, sempre alerta
rija, crua, nua, generosa - loucos temos muito a vagar
carne enrijecida de volúpia
seios saltitando na luxúria
a vida, o hoje, o gozo fullgás*

@pauloandel

*"Fullgás", Marina Lima & Antônio Cícero, 1982

Tuesday, June 24, 2014

Outros Rios







Meu Rio
perto da favela do Muquiço
eu menino já entendia isso
um gosto de Sustical
balé no Municipal
Quintino:
um coreto
entrevisto do passar do trem
nós nos lembramos bem
baianos, paraenses e pernambucanos:
ar morno pardo parado
mar pérola
verde onda de cetim frio
Meu Rio
longe da favela do Muquiço
tudo no meu coração
esperava o bom do som: João
Tom Jobim
traçou por fim
por sobre mim
teu monte-céu
teu próprio deus
cidade
vista do outro lado da baía
de ouro e fogo no findar do dia
nas tardes daquele então
te amei no meu coração
te amo
em silêncio
daqui do Saco de São Francisco
eu cobiçava o risco
da vida
nesses prédios todos, nessas ruas
rapazes maus, moças nuas
o teu carnaval
é um vapor luzidio
e eu rio
dentro da favela do Muquiço
Mangueira no coração
Guadalupe em mim é Fundação
solidão
Maracanã
samba-canção
sem pai nem mãe
sem nada meu
Meu Rio

Caetano Veloso

@pauloandel

Sunday, June 15, 2014

o romântico blues dos miseráveis

as trilhas urbanas estão cheias de miseráveis como se fosse o sangue venoso em processo
a miséria da alma
a miséria da falsa generosidade
ou a apoteose da nossa hipocrisia empoeirada

os miseráveis não são exatamente os sem casa, comida ou futuro
estão engravatados nas grandes corporações
ou subornando, sonegando, fustigando indiferença
chacoalhando suas joias em tribunas de honra
onde a honra é tão pequena

os miseráveis
também moram nos sonhos
dos rebeldes sem causa do Jardim Botânico ou da Gávea
e dos revolucionários que ainda revolucionaram nada
- outros são Marighella - o inimigo dorme ao lado - a covardia tem casa e comida - o pecado é capital -
senhores miseráveis
em busca da perfeição que não existe
amores eternos entre duas estações - a contradição entre o verso e a vivência - queremos mais pecados

a miserável podre moralista no discurso enfeitiçada
com bacanais e outras putarias
o miserável que quebra igrejas como se fossem bancos
o miserável que chutou a santa!
vamos perseguir os ateus!
a miséria reside no fel do egoísmo, na truculência

e no calor inexato das contradições - hoje é domingo - vamos buscar o perdão de deus! - vamos viver nossos feriados lambendo vitrines, vomitando pastiches e fazendo da utopia nosso melhor entorpecente
- riquezas são diferentes!*
- a morte não causa mais espanto!*
os miseráveis poem culpa em futebol e carnaval
o óbvio é repetir as manchetes que alguém pagou para lucrar e alguém pagou para ler

os miseráveis não eram os índios mortos, os favelados estuprados, nem estudantes torturados pela ditadura que hoje faz-se pensamento liberal
os miseráveis não são os que esticam braços cansados em busca de esmola vil
os miseráveis não são os esmagados nos trens no fim do expediente de uma grande capital

quero cantar sobre os verdadeiros miseráveis: os que pensam ter descoberto os caminhos do mundo
ou que tenham as opiniões pasteurizadas sobre tudo - os que apontem as soluções certas porque nunca resolveram problemas - os miseráveis que dão de ombros porque não inventaram o mundo e não tem compromisso com isso -
os miseráveis que trocam de calçada ao avistar um pedinte
ou que desfraldam seus diplomas conseguido com o dinheiro dos pais - há quem chame de mérito

quero cantar contra os miseráveis que não declaram seu nojo de quem nasceu negro
ou pobre ou suburbano
caipira talvez
quero cantar para os que são trezentos, trezentos e cincoenta*
e não apenas os que se envaidecem diante do próprio bom senso - na verdade a ausência
os miseráveis que pertencem à academia brasileira de letras longe dos livros
e sopradas na tv a cabo
deus, buda, alá, os orixás, todos os que são alguém vão nos redimir:
enquanto isso somos gado off price sem a elegância do pasto
a esperança dos campos verdes
as ruas estão cheias de miseráveis
com violência, desfaçatez, sede de poder e ganância
coisas que armani não conserta

penso em um poeta que pediu a deus para que salvasse a américa
e isso queria dizer de nossas almas indigestas:
dê ouro preto a quem só vê miami em tom tão brega
ou candeia contra o showbiz
os miseráveis jamais entenderam o canto cínico de gilmour: "money! it's a hit!"
e nunca vão entender
o lado escuro da lua
o lado escuro
da lua que recita o blues deles, tão miseráveis
miseráveis
humanos feito eu

@pauloandel

*citações de "miséria", titãs, e "eu sou 300", mário de andrade

Thursday, June 05, 2014

o dorso do mundo


eu não consigo entender o mundo
mas tento escutá-lo
ou ler seus poemas breves
os cochichos
- fotografias da alma
- tons de canções que acalmam

eu não consigo avançar no mundo
cheio de mares de rancor
a gente que detesta gente
na solidão das multidões
vamos nos despir da hipocrisia!
- um soco poderoso do queixo duro e covarde da hipocrisia!

os boçais sentem-se à vontade diante da miséria do mundo
e escarram modernidade pois o ranço colonialista incomoda-lhes
ao ventre vil

eu não consigo abraçar o mundo
mas beijo-lhe a nuca, o ventre
os rijos bicos dos seios
e namoro com fúria juvenil
até que goze e torne-se
planeta - e só o que importa
num momento de prazer
efêmero

as calçadas do mundo repletas de sofrimento
grandes corporações a serviço de pequenos interesses
deslumbrados, recalcados

e tão estupefatos testemunhamos
que o caos do caos é pouco
diante da violência maior:
a distância
a indiferença

o céu mais belo dos mortais
e minha tristeza
numa noite de junho:
estou longe
longe demais
do mundo - meu sonho à toa
desmaiado em pobres lençóis
de silêncio
profundo

@pauloandel

Saturday, May 31, 2014

no surprises

um coração aflito vaga pelos silêncios da fria noite de sábado
e voa longe, sonha o distante
cobiça as leves improbabilidades
um coração triste por conta dos mortos
os precocemente desaparecidos
os desolados e perdidos na selva do vão capital
um coração e sua vitrola eletrônica
num concerto do radiohead
e sua melancolia melódica
as pessoas estão apressadas com seus computadores de mão
e suas frases curtas, pragmáticas
thom yorke canta "no surprises"
a dor é tão evidente - por que nos surpreende?
garotos bobos escrevem tolices em busca de trinta segundos de fama
um coração e os tiros sombrios ao longe
as balas vão matar quem não merecia
alguém está ao lado de alguém que não queria
"no surprises!"
somente a estrada para fazer animar um tolo pobre coração
sempre na contramão
entusiasta da contradição

@pauloandel

Friday, May 30, 2014

consolação

uma garota linda e louca
um araponga à paisana
e o concreto jorra no vento
o tempo e o acontecimento
num momento! ei, momento!
selvas de pedra e gente carniça
hipócritas felizes e abonados
trabalhadores sofridos, aflitos
e toda são paulo não é de boa
- as equimoses são as estações -
- nada mudou - pobre são paulo -
que fim tomou a beleza lúcida
de rochelle schneider - mítica?
o sonho e seu assobro são festa
nas ruas de certa avenida central
ah, são paulo, longe do meu amor
perto do meu coração tão luzidio
o sol que nos consola parece breve
enquanto o gris do céu rege a dor

@pauloandel

Tuesday, May 20, 2014

os campos do silêncio

o silêncio dos homens em tempos tão ruidosos
porque vivemos angustiados
esperando os últimos momentos divertidos que não chegam
pensando em tudo o que foi desconstruído
e também o que sobrou
as memórias, fatos e objetos sobreviventes
o silêncio dos homens numa noite tão bonita
e dolorida
a multidão gritava como nunca no maracanã
enquanto o choro de um homem bom era tão triste
o pai, o filho e a morte tão crua à vista
numa humilde casa do coração da cidade
o silêncio dos anos é a lembrança de muitas reticências
poucas certezas
e o sentimento indescritível da falta que sentimos
do que sequer sorvemos, aproveitamos -
um desejo chamado saudade -
o silêncio do filho em lágrimas discretas
a imaginar o que restou das melhores lições
do silêncio de seu pai
o silêncio dos homens diante das mazelas do mundo
as injustiças que brotam a cada esquina, nas estradas de terra
nos matagais
há um país sofrido em busca de seu reencontro:
o abraço entre a gente, o resgate da generosidade, o trabalho
o silêncio do filho é a morte do pai
mais viva desde o sempre
as ruas parecem tão desertas: precisamos de gente, gente, gente

helio andel (17/04/1941-21/05/2008)

@pauloandel

Monday, May 19, 2014

a guerra

venha! venha!
vamos abrir as portas e as janelas
fazer da casa a terra liberta
onde todos serão um
e o somente não resista
às intempéries da paixão
para que os corpos
sejam livres na verdade nua
vamos derrubar os dogmas que nos aprisionam
eles não querem nosso bem
sejamos a pátria, a família
o amor pelo amor vivido
e saibamos celebrar a amizade
o respeito a quem não tem
o carinho para com quem sofre e chora debaixo do céu estrelado
e nenhum teto fraterno
sejamos o clímax de nossas plenas crenças e desejos
sem deixar que os deuses nos imponham desamor
sejamos a casa, a escola, a família
nossas mães dedicadas e pais proletários
enquanto namoramos os livros na sala -
e a voz seja um sinal de abraço
que as praias românticas e silenciosas sirvam como fotografias
dos namoros mais repletos
- oh, deus que não entendo e tanto ofereceu lágrimas aos meus olhos! -
até que eu possa
ver todas as crianças com a alegria que tive quando fui uma delas
agora que meus pais se fazem morte e presença
tão intensa que a tristeza infinita
confunde-se com as melhores
lembranças
que os escoteiros estejam sempre alertas a cada arcozelo
e este mundo de frias corporações nunca mais alimente a guerra
a guerra
- oh, senhor deus das minhas lágrimas! que cada criança tenha um carrinho
uma bola
e a saúde dos pais a bem tratá-la
meus amigos comunistas abraçados
no atlântico sul de copacabana:
as tristes putas lindas vão se recuperar
mulheres meninas com o gosto do mundo a se experimentar
os mendigos serão passado
e não precisaremos de mais droga nenhuma
para fingirmos fleuma e alegria
a terra
será a dignidade de todos
meus irmãos abraçados serão todos
um silêncio de luar será a melhor serenata
enquanto minha musa dorme nua
e ao lado
recito poemas de fé:
o meu país será outro, super outro feito artérias jovens
cheias de sangue limpo e rico -
copacabana será minha para sempre e fará da ribalta a luz
bailará entre musas estrelas
terá minha serena fidelidade:
seremos nós, nosso mundo
e tudo terá a calma do devido lugar
seremos nossos livros de história
cada vez mais bonita
sem porém a acrescentar: seremos nós mesmos!

@pauloandel

três pequenas histórias do litoral

1

Você olha a beleza do mar do Vidigal a São Conrado. Por um instante, ela faz esquecer as mazelas: a injustiça, a dor, o desespero, a escrotidão. A favela com classe, o verde que deslumbra. No ponto, entra um senhor lentamente e alguém logo lhe oferece assento no ônibus. Agradece, diz que não é necessário. Percebe-se que é cego.

Estava em busca do pão. Bem devagar, esgueira-se pelo corredor cheio e começa a distribuir pequenos papeizinhos onde pende ajuda financeira. Trata-se de uma cena comum nesse mundo de merda onde o egoísmo se traveste de capitalismo, mas o que chama mais atenção é que o senhor cego estava completamente sozinho – em geral, os pedintes portadores de necessidades tem alguém a ajudar-lhes na tarefa. Nada. um homem sozinho, esgueirando-se entre gente, certeiramente chegando perto das mãos das pessoas e lhes dando um bilhetinho de ajuda que não devia ter mais do que qutro centímetros.

Poucos falam no ônibus. O cego distribui os papéis. Até na hora mais difícil para uma pessoa, que é ter que sucumbir diante do dinheiro e pedir a terceiros, sua tarefa é dificultada. Numa das mãos ele carrega os papeizinhos; na outra os pequenos trocados. Penso na dificuldade de sua luta solitária. O jogo de mergulhar no escuro tão bem descrito ali: o senhor que não enxerga, os papéis que podem ser perdidos ou ignorados pelos mais rústicos, até mesmo o dinheiro. À ESQUERDA, a beleza infinita do Joá e o Costa Brava, Ao centro, o Brasil que ainda sofre enquanto moderninhos de merda chamam isso de assistencialismo. O que se faz com as centenas de milhares de pessoas que não são amparadas pelo Estado e, claro, tratadas como lixo pelo mercado? Ao fazer essa pergunta, geralmente o interlocutor recebe de volta um silêncio cínico que, audível, é traduzido pela chula expressão “fodam-se”.

Alguns sorriem porque a placa avisa quando você está na Barra. Os mais informados se entristecem ao lembrarem-se da linda Patrícia Amieiro. No primeiro ponto, o senhor cego salta. Conseguiu alguns bons trocados, terá direito a um pão enquanto a luta infinita não recomeça num novo ringue da vida. Devagar do começo ao fim, ele ensina que não se deve desistir nem quando tudo parece perdido. Tudo dança.

2

Poucos metros adiante, o sinal fecha perto do famoso e decano condomínio Riviera Del Fiori. Um menininho negro magro, magro e muito pequeno com suas bolinhas fazendo malabarismo. Era tão pequeno que mal conseguia alcançar as janelas dos carros para pedir ajuda aos irritados motoristas que o queriam fora daquele sinal, daquela avenida e até mesmo fora do planeta. Pequeno demais diante dos grandes gigantes de concreto e moradores abastados. Pequeno demais o garoto e longe demais de seu destino merecido: escola, comida, carinho, brinquedos, tudo perdido diante da solidão de uma avenida da Beverly Hills carioca e sua cafonália. Entre os carros, um Brasil que ainda sofre no almoço e sonha com o jantar, enquanto a vida ali parece tão injusta, insana e sinceramente tremo quando alguns de meus companheiros de faculdade  - muitos, beneficiados pela escola e dinheiro públicos – defendem a volta de velhos valores piorados, capazes de tornar o sofrimento daquele menininho pequeno, magro e negro uma escravidão a se perder pelos novos séculos.

3

Fim de dia, a bela praia de Botafogo, Pão de Açúcar ao fundo, belezas incontáveis desde séculos atrás, um rapaz solitário sentado no pé da trave esquerda á esquerda de quem olha a praia de frente. Um silêncio dos céus, um desenho de avião contornando, calçadas vazias, um Rio de Janeiro com vestes de outono e certa tristeza que alimenta o melhor da bossa nova, uma melancolia que não tem fim. O Rio é lindo, a vida é triste, só nos resta seguir em frente sem direção certa e sequer a menor ideia de onde isso tudo vai parar – se é que haverá parada.


@pauloandel

Friday, May 16, 2014

os brasis

1
O Brasil mudou nos últimos anos. Mudou sim. E para melhor. Não exatamente como muitos gostariam, não exatamente na construção de uma sociedade mais libertária e intelectualmente enriquecida, mas mudou. É fácil demais condenar o governo chamando de clientelismo qualquer política de inserção social. É fácil demais chamar o pobre de vagabundo quando se nasceu bem amparado financeiramente pela família, em competo descaso ao que se passa no outro lado da calçada. É fácil demais fingir que não se via milhões de pessoas simplesmente morrendo de fome – ainda morrem, mas numa escala muito menor – porque os socialmente cegos entendiam que cada um deve ser por si e não precisamos do Estado – a maneira educada de dizer “Foda-se o outro. Quero é saber de mim”. Décadas anteriores mostraram que o conceito de máxima liberdade do capital especulativo só serviu para aumentar o abismo social e suas mazelas. O Brasil ainda está longe do que se pode chamar de plena justiça social, mas mudou para melhor. Ainda falta muito, muito, muito. Não é possível sentir-se conformado quando bandidos armados oprimem favelas, estupram adolescentes arrancadas da casa dos pais e depois a exploram como garotas de programa. Inaceitável pensar que tudo o que aí está em termos de violência está diretamente ligado à indústria das drogas, dirigida de longe por milionários inescrupulosos que trocam seus capangas como quem troca de roupa: morre um analfabeto, coloque o fuzil na mão de outro – e pior ainda é pensar que, se todos estes escravos do crime tivessem recebido a devida atenção socioeducacional, é se imaginar que a força do banditismo fosse hoje cada vez menor. Não há como achar normal que, em 2014, pessoas considerem um acinte o caminhar de pretos e pobres em shopping centers requintados das grandes cidades. O que dizer de um candidato que se apresenta em frente às câmeras de TV, em busca de um novo mandato através de eleição, dizendo que tem saudades da ditadura cívico-miliar de 1964, responsável por estupros, torturas e assassinatos de milhares de brasileiros, impondo a pena de morte sem dó? Quem pode defender como são o fato do governo institucionalizar o crime que deveria combater? Falta muita coisa ao Brasil de agora, mas seria uma estupidez retornar a tempos de porões, farsa de frangos e entrega do patrimônio nacional a troco de banana – e, se neste momento, você reclama porque o sinal do teu celular é uma merda permanente, talvez entenda o papel de Daniel Dantas neste sentido.

2
O Brasil também paga o preço do mundo inteiro. Caminhamos para um mundo cada vez mais tecnológico e menos evoluído intelectualmente, por mais paradoxal que isso possa parecer. A internet é um fenômeno fabuloso, um dos grandes inventos da humanidade, no mesmo patamar do avião, do telefone, da luz elétrica; no entanto, sua enorme riqueza está mal distribuída. As pessoas gastam cada vez mais horas na rede mundial de computadores e cada vez leem menos, pensam menos, refletem menos. Curte-se e compartilha-se sem a menor convicção pró e contra, em gestos mecanizados completamente ausentes de reflexão. Parecer ficou mais importante do que ser. Há muito, ter ficou bem mais importante do que ser. As grandes imagens, os grandes textos, os pensamentos instigantes, os contrapontos, tudo fica perdido diante de um debochado vídeo popular onde alguém desrespeita alguém, ou alguma fofoca a respeito de determinada celebridade. O que poderia ser o mar da sofisticação se transformou no deserto das ideias. Sem ler, estudar e refletir, a capacidade argumentativa fica cada vez mais rasa. E ENTÃO surgem os fascínios pelos autoritários, os choques de ordem, a verborragia de aparências, a ostentação cafona. Nem tudo é derrota, claro: "O bom da Internet é que ela liberta o homem moderno, dando a ele uma independência, algo semelhante a um novo Renascimento, livre de opiniões editorializadas, livre de civilizações cosmopolitas e altamente fascinante. A Internet é efetivamente o maior veículo, o antirracista, o anti-preconceito religioso - na medida que proporciona a real integração dos povos, que se dá por meio da cultura e da informação. Daqui a uns 30 anos, a configuração do mundo globalizado e internetizado será fascinante, isso se o Saddam Hussein não jogar bombas bacteriológicas na gente antes disso. O ruim da Internet é que está virando uma enorme "páginas amarelas', ou seja, um enorme mercado de vendedores ambulantes." – Gerald Thomas em 1998.

3
O que falta realmente é respeitar a democracia. A palavra vem do povo. Da maioria. Ela é que deve prevalecer. Não há mais espaço para rancorosas viúvas do nazismo tupiniquim.

@pauloandel

Wednesday, May 14, 2014

dias de gris

1

ah, o peito que range
e dói
um coração que sangra
triste
e persiste
a desilusão
o pouso dos dias vazios
calados
sem viço
enquanto promete-se festa
a multidão sem voz
então
precisamos de mais piedade
trocarmos verdadeiros
abraços
que tenham
algo a dizer para os corações
que sangram firmes:
precisamos do futuro!

2

o amor não dorme
nem repousa:
apenas faz tocaia
até atacar
uma presa apaixonante
e sequestrá-la
até chegar ao cativeiro
numa base lunar

3

a dor silenciosa
corroendo lentamente
a réstia de vida
a dor, a dor
a tristeza em cor

4

batalhões de estranhos
a celebrar
a indisfarçável falsa
intimidade:
peixes fora d'água
numa rede antissocial


@pauloandel

Tuesday, May 13, 2014

lovewalk


@pauloandel

Thursday, May 08, 2014

chamei vanessa

chamei vanessa
para ver samba raiar
cantei, chorei
supliquei
parecia iemanjá
deusa azulada
do mar
chamei vanessa
e sambei para lhe amar
beijei, toquei
aceitei
acertando no milhar
chamei vanessa
se quiser acreditar
a realeza
aplaudiu paixão lunar

@pauloandel

maio

outono que não liberta:
cheiros de ruas tristes
e lixo e miséria a granel
a nossa grande cidade
tem cheiro duma tristeza
duas meninas solitárias
na mesa de um bar limpo
as calçadas esvaziadas
e cantos de lixo sobre lixo
as crianças comendo lixo
e a humanidade inexplicável
somos frios demais! frios!
por isso a miséria é normal
os guardanapos sempre limpos
as empregadas uniformizadas
pátria livre mãe sem gentileza:
não vamos consertar o mundo
nossos defeitos são outros
e bem mais que maiores
- somos os tais, somos futuro!
a marquise é aterrorizante


@pauloandel

Thursday, May 01, 2014

sobre felicidade

Não é por não falar
Titãs
1991


Não é por não falar
em felicidade
Que eu não goste
de felicidade
Não é que eu não goste
de felicidade
É por não falar
em felicidade
E é por falar
infelicidade
Que eu não gosto de falar
em felicidade

@pauloandel

Wednesday, April 30, 2014

devaneio

você fechou os olhos
e eu desapareci fugaz:
onde está algum sonho?
eis-me longe, estrangeiro
pensando num certo eu
que não tem teu vão valor
eis-me frio, contemplativo
acordado em pleno hiato

@pauloandel

Saturday, April 26, 2014

costa brava

então faz-se a minha mão a tua mão
boca, saliva, secreção
ardor de pele à pele ao chão -
sejamos vulcão, um tufão
tornado e tempestade
lua cheia e firme ao tempo cão
então seja minha oração
uma religião sem alarde
receita de romance no atlântico sul
lance, toque, meu novo tesão
então seja mais do que momento:
seja a razão do meu tempo azul
tempo
tempo
a fúria do sim contra o ranço do não
e não apenas entretenimento

@pauloandel

Friday, April 25, 2014

copacabana gotham city

a noite a deitar em berço esplêndido do horizonte
enquanto fazemos velhas promessas
sonhamos com o passado perdido
ou com novos tempos novos
e buscamos abrigo no coração da grande cidade
ah, mansidão que não aquece!
vastos outros corações em chamas!
os que sofrem e choram, falecem
há quem viva ao léu da dor
e pessoas de bem estraçalham-se em suores num vagão lotado
garotos fumam a morte para se esquecerem da vida
garotos com suas caixas de engraxate
e jovens com belos sobrenomes brindando champagne
a noite é Copacabana e seu cais de mil memórias
os netunos vão resgatar nossos amores
e nada será sempre perdido no fundo do mar
e nada será sempre o perdido no fundo do mar
ainda vamos inventar outra cidade
onde seus corações serão perdidos de amor - uns sobre os outros
e nenhuma dança será em vão
nenhum poema desperdiçado
mesmo que os arranha-céus sejam a regra
nós ainda vamos escrever a história de outra cidade

@pauloandel

Thursday, April 24, 2014

chuva, lágrimas e mães

Acabei de CHEGAR em minha humilde e confortável casa na Cruz Vermelha. Escapei de uma chuva enorme. Hoje era dia de doação de comida para moradores de rua em frente ao meu prédio. Quando a água apertou, o pessoal correu para debaixo da marquise - era a única alternativa. O porteiro tentou fazer uma piada sem graça: "Os mendigos vão fazer manifestação?" - nem todo humano faz jus à definição de bípede.

LEMBRO bem da primeira vez que fiquei triste por causa de alguém que sofria nas ruas.

Era uma noite de 1974 na avenida de Copacabana, bem em frente ao Cinema Metro, cujo ar condicionado gelava a calçada do outro lado da rua quando as portas de saída eram abertas.

Minha jovem e linda mãe me puxava pela mão direita quando saíamos do cinema. À porta, uma senhora pedia esmolas com uma garotinha que devia ter o meu tamanho ou menos. A mãe abriu a carteira, ainda éramos uma família com posses. Deu algumas notas, apertou a mão da senhora, fomos embora e pegamos um táxi.

Foi a primeira vez que vi minha mãe chorar. Ela estava muito triste com o sofrimento da senhora. Anos depois, a mãe me contou que, em seus primeiros dias no Rio, desesperada em busca de um emprego para ajudar meu avô no Paraná, chegou a dormir alguns dias na rua e até numa garagem até conseguir emprego numa casa de família.

Já em casa, Santa Clara 345, minha mãe ainda tinha o rosto avermelhado pelo choro. Eu entendi que uma pessoa sofrer na rua, desamparada, é triste e inaceitável - ao menos para quem tem o mínimo amor ao próximo.

Agora, tantos anos depois, quarenta, as pessoas continuam sofrendo na rua, fico tão triste como minha mãe me ensinou um dia e, a cada dia que passa, penso em como somos uma sociedade imbecil e inconsequente porque damos de ombros a quem sofre na rua. São vagabundos. Por que não trabalham? Falam tanto de Deus, de religião, de corrupção e ninguém enxerga uma mão estendida pedindo um pedaço de pão.

Um orgulho enorme em rever minha mãe apertando a mão da senhora mendiga. Uma dor enorme em cogitar saber do que aconteceu com a garotinha.

Somos estúpidos demais.

@pauloandel

Wednesday, April 23, 2014

copacabana sangra

eis que copacabana sangra
e suas ruas rugem o horror:
alguém morreu à toa, triste
a polícia apresenta as armas
a morte vira uma estatística
as manchetes em sangue frio
onde as vidas não tem valor
a bossa nova é sempre foda
mas a miséria da alma agride:
estupra, mata, corrompe, suja -
ordem, progresso e desamor -
pátria amada, Brasil - ninguém!

@pauloandel

Tuesday, April 22, 2014

copacabana amêndoa


chutando amêndoa
numa calçada enquanto
o mundo passa
no asfalto da Copacabana
um casal acha graça
uma mendiga em desespero
desconfia
e o rapaz do interior devolve
um objeto perdido a uma gata
pessoas passam num recado
carros lutam por suas vagas
e as grades brancas do Igrejinha
trazem vidas no compasso
das outras vidas - um arremedo
enquanto quase ninguém
lembrou de Almir Pernambuquinho
no Bar Bico
a vida é breve e tão sem graça
um carro à venda, outro negócio
uma calçada e sua amêndoa
alguém a chuta redivivo -
entre a paz e o caos e os rococós
Copacabana tem marra e charme
seja à luz dos grandes postes
ou de velas acesas na encruzilhada

@pauloandel

Thursday, April 17, 2014

somos tão modernos

numa rua da nova guanabara
passam ônibus nunca vistos antes
nos seios da noite, na hora da casa
e pessoas apressadas com seus fones correm
contra o tempo a desperdiçar
- vamos às casas - TVs a cabo - solidão nas salas - calores de corpo e almas apaixonadas à distância - deus nos perdoe - sonhos sinistros
uma linda mulher num deserto vagão de trem urbano
uma linda criança e sua mãe numa calçada do Centro
e a verdade escarrada em manchetes assépticas enrustidas em rasa elegância
o outro lado de qualquer lado da história
romance de nada - roubado é mais gostoso!
ninguém vai escutar um outro tiro noutro morro adiante
nem gritos de dor, desespero cru
estupro e covardia
ninguém pode mudar o mundo
os vãos vizinhos são números
ninguém vai escutar um outro tiro noutro morro adiante
nosso caos moderno, fraturado
desalmado, corações rancorosos
e todas as vitrines não podem dizer o bastante
ninguém vai escutar um outro crime noutra esquina adiante
uma linda mulher e um coração
que lhe cobiça ao distante
a nova guanabara soma forças
e cambaleia sem cortes

@pauloandel

Wednesday, April 16, 2014

mãos vazias

quando as mãos mendigas
estavam erguidas e tristes
havia uma noite de chuva
e marquises frias em cinza
as mãos em desespero e fé:
um resto, um trago, um troco
e a vida que a deus pertence
as mãos lutando noite e dia
insones, enrugadas e vazias
o perigo e a violência da rua
morte e vida tão encardidas
ninguém tem tempo a perder
nem pensar em certa covardia
somos o que temos, bobagem
a vida é breve, sem os rastros
a linda e tenra carne apodrece
nenhuma arrogância prevalece -
somos uma bobagem sincera
os dias são as mãos iludidas

@pauloandel

Tuesday, April 15, 2014

o catador

Entrei no ônibus vazio, cumprimentei o motorista, vi poucos passageiros, todos com ar tenso ou cansado, natural numa noite de segunda-feira às dez da noite. Vou para os últimos bancos. Chuva, frio, as ruas desertas, apenas solitários passageiros nos pontos ou sofredores de rua, sempre com o risco de algum infeliz assassiná-los porque "não são gente".

Na porta do Clube Municipal, mal prestei atenção aos letreiros dos próximos shows. Pela porta dos fundos, entrou um rapaz com roupas humildes e dois sacos com vários objetos. Perguntou se o ônibus passava no (Batalhão de) Choque, expliquei que deixava razoavelmente perto. Foi à frente, pagou sua passagem, o trocador não girou a roleta, ele voltou para os fundos, sentou-se e desandou a falar.

Nas primeiras palavras, percebi sua humildade ainda maior pelos vários dentes faltantes. Era um catador. Mas ele estava numa alegria só: mostrou com toda festa que tinha conseguido uma máquina de cortar cabelo, novinha na caixa. Um par de tênis, nem tão novos mas perfeitos para uso. Moedas. Um relógio não propriamente em folha, mas disse-me do sonho de colocar uma bateria nele para funcionar. Vibrou quando disse que tinha já o dinheiro para a hospedagem do dia seguinte e até para a comida. Ainda completou, dizendo torcer que nenhum dos achados fosse produro de roubo, que fossem apenas lixo para quem os despejou. Claro que nada roubado é mais gostoso, exceto para bandidos e imbecis.

Conversamos, eu o parabenizei e fiquei feliz também: num mundo cheio de ganância, ruindade e escrotidão, é um alento ver um rapaz tão sofrido comemorando a vitória de um dia, a gota no oceano de solidão, egoísmo e hipocrisia das grandes cidades. Justamente no fim de um dia em que me senti tão derrotado, a alegria de quem sofre é um alerta: perdemos muito tempo com coisas e gentes inúteis. O futebol, por exemplo: deveria ser só uma diversão mas vira sofrimento quando nele vemos os retratos mais sujos de hipocrisia e preconceito. As fofocas, o cotidiano fútil, a indiferença de quem se sente confortável em relação a quem agoniza lentamente. O que dizer dos imbecis que perseguem comunistas em 2014?

Coisa de minutos, o rapaz desceu apressado no Sambódromo com suas quinquilharias e pertences. Não nos despedimentos, não havia tempo e a chuva apertava. Eu torci para que ela não piorasse. Só queria que ele chegasse bem em sua humilde hospedagem, descansasse e comemorasse ainda sua pequena vitória diante de um mundo tão injusto, desequilibrado e infeliz. Tomara que tenha dado tudo certo.

Nunca mais falaremos. Foram cinco minutos em que tive um correto irmão de volta. Um tempo em que as pessoas conversavam umas com as outras importando-se com elas. Nenhum nazismo nas ruas, praças e arquibancadas. Quando a vida de terceiros era um bem precioso e respeitado.

Desci perto de casa, comi uma fatia de pizza no bar da esquina, voltei para casa, conversei com minha garota e ouvi um disco de músicas tristes. A simplicidade de um catador e a luta diária para sobreviver honestamente fazem pensar.

As multidões são solitárias.

@pauloandel.

Tuesday, April 08, 2014

romance proibido


COMBINAMOS um pacífico chope no Paladino, com seu mar de histórias e um século de sorrisos. Depois de um pequeno contratempo, comecei a caminhada para cruzar o coração da cidade por volta das seis da tarde.

Descer a rua do Senado e perceber que o verão disse adeus: o céu escuro, a rua vazia e nos poucos rostos disponíveis, procurei meu irmão em vão. Uma tristeza enorme que persistiu mesmo com a beleza das luzes no hotel moderno da Praça Tiradentes - as ruas cheias de carros, barulhos, gente impaciente e cansada, tudo em nome dos tempos modernos.

Tomei a Sete de Setembro, comprei três discos no sebo, ainda o Zeca Baleiro nas Lojas Americanas, já cheia de ovos de Páscoa no teto falso e isso de alguma forma rasga meu peito sofrido e o coração inchado porque penso na alegria de minha mãe, felicidade viva com uma lembrança de criança.

Depois espiar a rua Uruguaiana com os carros e seus motoristas nervosos, tentando voar onde se deveria andar até o encontro com a Presidente Vargas e suas grades nas calçadas, uma vez que o governo entende o adestramento como única saída para lidar com seus passageiros rebeldes. Duas garotas bonitas na porta do McDonald's, não mais do que um belo recado no correio do telefone.

A cidade e a beleza de seu caos ornamentado por cones de cor laranja. Logo depois, jovens executivos animadíssimos com a escada vermelha e os balões da porta do puteiro - e o sexo que preencha o rancor, o tesão que tape o sol da solidão com uma peneira - da vida não se leva nada.

NELSON está sentado à mesa e chego quase ao mesmo tempo que Tiba. Chopes dourados e ainda não tenho felicidade. Rimos assim mesmo. E falamos mal de todo mando: dos amigos, inimigos, mulheres desclassificadas, o Estado que não regenera, do futebol, da direita e de nós mesmos, ingênuos em sonhar por um mundo melhor.

Desde a entrada, percebo um jovem casal no canto do bar, direção noroeste da nossa mesa. Um clima de romance proibido: a mulher, casada e com aliança à vista; o rapaz, não. Ela, tímida, nem bonita mas interessante com seu jeito de repelir o pretendente: ora sorria, ora mexia nos cabelos bem-tratados, ora deixava o conquistador tocar-lhe a mão direita. Não pude deixar de sacanear Tiba, por conta de ter condenado certo romance meu de muito tempo justamente naquelas bases. Catalano, já à mesa, entre reflexões, obsessões e boas fotos.

Enquanto nos empanturrávamos com omeletes, sanduíches e chope, Trino chegou e aumentou o número de gargalhadas por segundo. Agora somos tão velhos e jovens. A mesa nos reconduz ao fantástico mundo dos tempos de faculdade que nunca voltará, até por jamais ter ido realmente embora de fato. Mulheres, ex-mulheres, amigos chatos, amigos mergulhados no porão das religiões, eu e Bola contando com a força de nosso pai Inri Cristo. Trabalho, dinheiro, falta de dinheiro e um mundo repleto de editores da história, da verdade absoluta e de outras bobagens descartáveis.

Sinal de alerta a noroeste: num súbito, o conquistador puxou a companheira e conseguiu o beijo que, se nasceu tímido, logo perdeu qualquer pudor e sugeria que ali tinha nascido um vigoroso romance proibido. Sabe-se lá porque, torci por aquilo: ainda somos todos bobos românticos esperando um beijo de amor - o amor só existe porque desacontece - o amor precisa da contradição e do desencontro. E não é que paramos nosso mar de risos pra falarmos coisas sérias de amor e desamor? Talvez em 2014 um beijo apaixonado e proibido ainda seja mais poderoso do que uma vida sem sentido em filas, engarrafamentos, vagões abarrotados e limite de cheque especial.

Apressado, o casal logo fechou sua conta. Saíram discretos do Paladino. Talvez tenham ido confirmar o amor, o tesão, a vontade, os desejos reprimidos com os quais nem todos sabem lidar. Ainda demos mais gargalhadas, até mesmo quando veio a caríssima conta. Os dois saíram discretos mas felizes. Não cabe julgamento: ninguém sabe exatamente o que ali era o enganar alguém.

Deu tempo para um abraço da turma e a despedida do até breve. Voltei com Tiba de carona no carro de Trino. Logo chegamos à Gomes Freire, meio Souza Lima com seus travestis em riste. Dois minutos depois, cumprimentei os amigos, caminhei pela Cruz Vermelha, não vi meu irmão em nenhum dos rostos solitários da região. Cheguei ao prédio, subi, entrei em casa, banho tomado, falei com Marina e agora o teto branco e frio é meu interlocutor e eu, o viajante solitário. Que fim levou aquele casal? A única coisa importante no homem é a contradição, conforme Enrico Bianco. Qusndo o amor não vence, seja ele qual for, o vazio da alma é o cúmulo da certeza.

A vida sem romance é um equívoco. O belo romance que não foi sorvido, uma guerra nuclear. Queremos mais. Fogos de artifício explodindo e colorindo a beleza à beira do cais. 

@pauloandel

Monday, April 07, 2014

naja

aquele olhar de naja
verde viva cativante
- agora somos brisa
e réstia cintilante à sina
- mal se crê o disfarce
aquele olhar de cais
e mar e tarde fustigante
enquanto cada lance
é chama
e todo lance é xeque
em riste
dá-me tua vista do céu
enquanto os anjos tristes
não encontrarem a cor de
deus

@pauloandel

Sunday, April 06, 2014

433 - Vila Isabel x Leblon

Depois de uma manhã triste, conversei durante algum tempo no Whatsapp. Antigamente usávamos o telefone ou as conversas de bar; agora são tempos modernos. De toda forma, foi divertido, pequeno bálsamo diante das mazelas da vida.

Aconteceu que resolvi almoçar fora. Pareceu mais prático do que ir ao mercado, voltar e preparar. O restaurante da rua dos Inválidos estava vazio; quem não mergulhou de cabeça nas praias ensolaradas já estava em bares ou casas no ritmo da decisão do campeonato carioca de futebol. São tempos modernos onde as arquibancadas ficam em segundo plano. O prato bom como sempre. Pensei em voltar para casa e passar o dia recolhido, mas resolvi dar uma volta.

Apesar de não ser um homem abonado e de não saber dirigir, ainda costumo atravessar as veias abertas do Rio de Janeiro, viver a cidade em seus diferentes formatos. Para viagens mais longas, táxi e metrô geralmente resolvem. O resto consigo fazer de táxi, mesmo que os maus motoristas tenham preconceitos estúpidos em termos de aparência do passageiro ou da corrida a ser feita.

Pois bem: inicialmente pensei em ir à Fnac para ver livros e discos. Quando cheguei perto da rua do Riachuelo, cogitei pegar um táxi mas, logo que atravessei a rua, veio um ônibus 433, o eterno, um percurso de dez minutos para ir até o Rio Sul - discos na Saraiva, jazz da ATCO, lembranças de Fred pedindo um Color Surprise no Bigburger. Embarquei.

Estranho o fato de uma bonita nissei passar a roleta e ficar em pé com tantos assentos disponíveis - alguns moderninhos, senhores, gente antenada. O motorista parecia um tanto impaciente com as pessoas que embarcavam. Ainda gosto de ônibus: sempre gostei de viagens coletivas, lembram-me o Maracanã dos tempos dignos. Tudo passa rápido demais.

A pequena viagem também. Praia do Flamengo, Oswaldo Cruz, Enseada de Botafogo, o Atlântico Sul em seu esplendor namorando o Pão de Açúcar.  No primeiro ponto a nissei desceu sozinha. Veio o segundo, em frente ao velho Mourisco imaginário que os jovens desconhecem.

O ônibus parou.

Abriu-se a porta traseira.

O Brasil subiu os degraus do coletivo.

Num rompante, pela porta de trás e sobe uma garotada de oito ou dez anos de idade.

Era coisa de chorar: todos visivelmente entorpecidos, garrafa de tíner à mão.

Sentaram-se em vários lugares, inclusive cercando um casal no último banco que, apavorado, saltou imediatamente. Do meu lado, ninguém: acho que minha cara, meu cabelo e meu tamanho não são atraentes para pequenas intimidações. Um dos garotos, o menor de todos, talvez uns sete anos, entrou com a mão debaixo da camiseta: era tão pequena que o dedinho não simulava nem uma pistolinha de brinquedo.

Um dos meninos gritou, com sua voz de taquarinha rachada: "Piloto, vamos que eu tenho hora pra chegar em casa". Os passageiros apavorados. Prometi a mim mesmo que só agiria em caso de necessidade extrema - e não era o caso.

O motorista não se levantou. De longe, começou a gritar para que descessem e que não prosseguiria viagem com os garotos. Então vi uma cena triste demais: eles se entreolharam cabisbaixos, mesmo muito doidos, e lentamente começaram a descer. Duas meninas junto. Tive medo de que uma delas parecesse grávida. Olhavam-se com o ar da rejeição que sofrem desde cedo. Pensei: se fossem violentos mesmo, teriam reagido imediatamente. Encolheram-se e voltaram para a casa que o Estado e a sociedade lhes oferece: a calçada.

O ônibus atravessou no túnel e parou no ponto do Rio Sul. Saltei. Pensei na minha tristeza da manhã. Num segundo, passou-me pela cabeça que eu evitei que mais um garoto fosse humilhado nas ruas por ser pobre, socialmente destroçado e fiz de tudo para que tivesse uma vida melhor. Se não consegui o que queria, esforço não faltou.

Todas as crianças eram negras. Por mais que o preconceito pudesse indicar, não eram violentas. Não entraram no ônibus para cometer delitos.

Dentro do Rio Sul, dois menininhos brincavam com o pai na porta da Taco. Riam. Quinhentos metros atrás, dez crianças saboreavam o ballet da morte. Não sei dizer quantas sobreviverão ao massacre das ruas, a uma nova Candelária a conta-gotas que acontece diariamente, a tantas desgraças.

Mesmo alijada das condições mínimas de sobrevivência e completamente drogadas, aquela garotada não questionou uma ordem firme. O que poderiam ser com carinho, estudo, comida, roupa, brinquedos?

Não consegui ver disco algum. Logo voltei para casa. Nada de táxi: um 126, as garotas voltando da praia. 

Nós tratamos muito mal o futuro. Depois é fácil demais colocar toda a culpa em um ou dois. Ou no PT.

@pauloandel

cativa

o que
você não
cativa é o que
escorre por entre
os dedos ou voa livre
pelos céus da liberdade
até pousar em mãos de afeto

@pauloandel

brotherhood

Quando Matheus acordou no domingo de manhã, sua namorada Safira tinha uma pressa enorme para chegar ao trabalho. Banho tomado, correria, beijaram-se, ela se despediu e tomou um táxi no adormecido coração da cidade para Copacabana.

Ele voltou a se deitar, cansado mas sem sono, dolorido pela noite anterior mas atento. Ligou o aparelho de música, ouviu discos de soul e jazz.

Por volta das dez da manhã, sem compras feitas, resolveu tomar café numa lanchonete da esquina. Ao descer do elevador, João, o porteiro, avisou-lhe que seu irmão, Pedro, havia passado na portaria horas antes. Perguntou por Gílson, o antigo funcionário do prédio que pediu demissão no ano anterior. E também por Matheus.

Como Pedro tinha sinais de embriaguez, João preferiu não incomodar Matheus no interfone e disse que o morador havia saído. Por conta própria, resolveu a seu modo, tentando poupar o condômino.

Não sabia da besteira que cometeu.

Há cinco anos que Matheus e Pedro não se viram e sequer trocaram uma palavra. O irmão foi embora de casa alegando ter engravidado uma namorada e que ia morar com ela, tudo subitamente, talvez uma desculpa para querer ter uma vida livre, sem satisfações nem cobranças no apartamento em que os dois residiam após a morte dos pais - Matheus sempre foi contra violência e drogas - ninguém abandona um irmão apenas porque se tornará pai. Simplesmente Pedro pegou suas coisas de um dia para o outro, não deixou telefone nem endereço, nunca mais deu notícias. Matheus respeitou sua vontade, mesmo em completa discordância. Os dois são os únicos parentes próximos vivos da família. Perderam todo o contato. Matheus, mais velho, passou noites e noite temendo pela vida do irmão, que estivesse em más companhias ou numa vida vertiginosa. Chorou e sofreu.

Cinco anos depois, alcoolizado e provavelmente vindo da Lapa, a boemia próxima à casa de Matheus, Pedro pode ter tido apenas um lapso. Uma doideira. Talvez a noite virada e o álcool lhe fornecessem a coragem para lidar com uma ferida aberta, dolorosa e desnecessária de sua vida. Talvez fosse a grande chance de Matheus rever o irmão querido. Mas não aconteceu: em nome da ordem, João fez o que lhe parecia certo. Não era.

Matheus, educadamente, pediu ao porteiro para que, numa próxima oportunidade, não deixasse de interfonar de forma alguma. Saiu do prédio, foi à lanchonete, comeu um misto quente sem o prazer devido. Resolveu voltar para casa. Pensou em Pedro e chorou. A tristeza e o temor, sem exagero, de que pudesse ter se tornado um dependente químico. A alegria de saber que, anos depois, o irmão está vivo e caminha com suas próprias pernas, mesmo trôpegas.

Matheus chorou. Não culpou João. A vida é assim: um intervalo para sonhar enquanto uma dor rói a alma. E a esperança de que o talvez não se torne o nunca. O quarto semiescuro e o teto que parece sem estrelas são seus confidentes. O ventilador ligado lhe dá ar gelado e sinistro. Há um silêncio e um vazio enormes. 

@pauloandel

Thursday, April 03, 2014

urbe coração

alguma coisa desanconteceu
num coração da urbe ao léu
e o mundo num segundo vil
se fez ausência, vazio, traço:
o amor inerte rejeita um som

anjos do asfalto atordoados
a solidão às veias esquálidas
a indiferença dos massacres
cada um por si e o deus além -
o amor fenece e desfaz o som

bom dia, boa tarde, goodnight
quero dar um tapa so big style
num embalo duma noite flácida
batalhões de estranhos íntimos:
a suruba dos sentimentos ocos

alguma coisa desaconteceu cruel
o amor que fugiu no porta malas
o e-mail que explode numa lixeira
a conversa que perdeu certo nexo:
o fim da linha num suicídio tímido

@pauloandel

(sobre "Pros que estão em casa", Hojerizah, 1984)

Saturday, March 29, 2014

a metrópole

Alguns jovens tão sãos, peles e músculos nus, grandes seios e coxas, todos inebriados com drinks baratos num posto de gasolina.

Outros jovens mortos em vida, apodrecendo debaixo de marquises, cheirando garrafinhas tóxicas ou fumando cachimbos de morte, menos pela onda e mais por fome.

Burgueses rancorosos namorando o nazismo, mostrando saudades da ditadura, de quem torturou, estuprou e matou, rasgando ventres e jogando cadáveres em riachos, tudo em nome de Deus e da família. Ou dando pinta porque os pobres e pretos invadiram os aeroportos e shopping centers como se tudo fosse uma velha geral do Maracanã.

E vai ter briga no boteco. E vai ter briga de torcidas.

As grandes livrarias da Barra são frequentadas por clientes de outros bairros. No entanto, as lojas de aparelhos celulares estão cheias.

Alguém disse que o mendigo tem que morrer ou que tem que tacar uma bomba na favela. Eis um alguém que não merecia ter nascido.

A bossa nova é foda mas ninguém presta atenção direito. O velho samba também e foda e fica barrado na alfândega.

A UERJ também é foda mas o governo do Estado faz questão de minimizá-la.

Você anda na calçada do Boulevard 28 de setembro e as partituras de Noel Rosa são tratadas com indiferença, embora o velho poeta esteja mais vivo do que nunca.

A janela está fechada em meu quarto neste outono tímido que ainda parece confuso. Não quero ver o luar e o sol. Olhar para o teto e mergulhar no infinito: cadê o meu amor que viveu nas folhas de papel? A madrugada se confunde com a alvorada. Ninguém liga.

Mais tarde, os Racionais vão trazer inteligência e sagacidade para o coração da Lapa. Não dormem tranquilos enquanto o mundo for injusto demais. Ainda temos boas esperanças.

Daqui a poucas horas vão comemorar os 50 anos de ditadura militar, tudo com os argumentos mais estapafúrdios possíveis, tentando justificar o injustificado.

Os escritores Garcez e Andel preparam o lançamento de seu novo livro de futebol no coração da República, dentro de duas semanas.

Pessoas sofisticadas e outras nem tanto, algumas nem de perto, olham com indiferença as exposições do CCBB. Talvez não entendam nada.

Enquanto os novos baianos passeiam numa velha garoa querida, os cariocas tão normais continuam não gostando de sinal fechado.

O Brasil ainda é medroso, conservador, cafona e sectário num trecho de seu coração, ao contrário de outras áreas sem arritmia. Mas há quem se deite em berço esplêndido de sangue por causa da violência estúpida.

Um velhinho conversa com um travesti no elevador sobre o clássico de domingo no Maracanã. É claro que isso cheira a Copacabana.

Outro velhinho passeia tranquilamente pela orla da praia, sem causar nenhuma desconfiança de que foi um torturador no quartel da PE. Aqui, a fragrância é de Ipanema/Leblon.

As pessoas batendo cabeça na Rio Branco às seis da tarde. Os mesmos mendigos na praça da Cruz Vermelha. A imponência do prédio do MEC é um atestado das coisas boas que podemos fazer.

As pessoas com os olhos estatelados em frente à televisão na hora do jantar, a morte da reflexão.

É proibido fumar.

É permitido matar.

Noite e dia, a metrópole e suas permanentes contradições.

Somos imperfeitos demais. Permissivos, acomodados, alheios ao bem comum, o que sugere horror.

Algumas coisas acontecem no cérebro do meu coração.

@pauloandel

Wednesday, March 26, 2014

golpe














@pauloandel

Saturday, March 22, 2014

santo (logos)

1

o santo dia
o santo lema
o santo drama
e a vida feito
réstia fina, curta
luz opaca fria
sem incendiar

a santa sede
o vão desejo
a vida aflita
o desassossego
e tudo desvira
sem remelexo

a vida e o nexo
o grande apreço
o santo desvario
o ardor, a paixão
o sexo e o respiro
o santo logos
os santos logos
hocus pocus

@pauloandel

Thursday, March 20, 2014

Tuesday, March 11, 2014

Brizola vive


Tempos de luta.



)

Thursday, March 06, 2014

as outras estações

1

eles, tão loucos:
sonham juntos
longe
transam em sonhos
vagos
incendeiam-se
em olhares
num caleidoscópio -
cada nova imagem
tem a saudade
do que desaconteceu
mas arde à pele
neblina as vistas
até esvair-se fugaz
numa pretensão
numa bombatômica
de tesão e crença:
amor de pouco, liso
incompreensível

2

meu samba torto
inebriado
ajoelhado aos pés
da cama onde dorme
para sempre
uma garota morta
linda, triste e morta:
onde está o pesadelo
que não vai embora
depois da demissão
do bota-fora
qualquer diáspora
aquele samba torto
sem sentido
nem predicado
a rosa mais bonita
para quem disse
adeus
sem sentido, apaixonado
para o quem
já se perdeu

3

o pela-saco ruidoso
range rancores
porque a pequenez
dói-lhe feito facada
nas vísceras nuas
o pela-saco raivoso
porque a arte
sem desacato no fato
dói-lhe feito o soco
na medíocre fantasia

4

subversão
para emergir
o que há de bom
no subterrâneo

@pauloandel

Saturday, February 22, 2014

canções de amor (sábado em copacabana)

1

o amor que desacontece
à beira do gran grand prix:
heróis ficam inconsoláveis
poetas versam sob escombros
e a paixão tão noiva e linda
dispensada à beira do altar
o amor que só sugere é frio
esgueirando-se em hipóteses:
e se...? e se...? então poderia?
um amor se faz em fatos nus
e não vestido pelos subjetivos

2

sábado em copacabana para meu
amor ao norte, ao longe, qualquer
praça ou calçada de coração voraz
entre campos de bola entre areias
e mulheres de predicados carnais
meu coração não demora e espia
os espólios de uma cidade oculta
com seus pobres e ricos, liberais
machões, travestis, seus marginais
magnatas, roça e favela, paraíbas
as mulheres de carne esplêndida
louvadas por poetas de botequim:
ah, cervantes! ah, sat's! que fim
levaram o chuva de prata ou o tal
pé-sujo que não lembro o letreiro?
onde está a fachada do coruja bar?
as putas mais lindas, românticas
lado a lado com "mulher-pra-casar" -
e tudo será cedo quando esta noite
cerrar o dia pois o tempo não perdoa:
copacabana é sempre um sábado!

2

meu amor tão longe
num sorriso em foto
hoje à noite vai ter festa
mas não dançarei:
agora sou um longe
agora sou mais raso
e só resta uma promessa
se um amanhã risonho
há de haver em justiça -
resto-me em desejo e sede
alimento meus pecados
enquanto meu amor ri
mas sequer me acena - cor

@pauloandel