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Saturday, March 29, 2014

a metrópole

Alguns jovens tão sãos, peles e músculos nus, grandes seios e coxas, todos inebriados com drinks baratos num posto de gasolina.

Outros jovens mortos em vida, apodrecendo debaixo de marquises, cheirando garrafinhas tóxicas ou fumando cachimbos de morte, menos pela onda e mais por fome.

Burgueses rancorosos namorando o nazismo, mostrando saudades da ditadura, de quem torturou, estuprou e matou, rasgando ventres e jogando cadáveres em riachos, tudo em nome de Deus e da família. Ou dando pinta porque os pobres e pretos invadiram os aeroportos e shopping centers como se tudo fosse uma velha geral do Maracanã.

E vai ter briga no boteco. E vai ter briga de torcidas.

As grandes livrarias da Barra são frequentadas por clientes de outros bairros. No entanto, as lojas de aparelhos celulares estão cheias.

Alguém disse que o mendigo tem que morrer ou que tem que tacar uma bomba na favela. Eis um alguém que não merecia ter nascido.

A bossa nova é foda mas ninguém presta atenção direito. O velho samba também e foda e fica barrado na alfândega.

A UERJ também é foda mas o governo do Estado faz questão de minimizá-la.

Você anda na calçada do Boulevard 28 de setembro e as partituras de Noel Rosa são tratadas com indiferença, embora o velho poeta esteja mais vivo do que nunca.

A janela está fechada em meu quarto neste outono tímido que ainda parece confuso. Não quero ver o luar e o sol. Olhar para o teto e mergulhar no infinito: cadê o meu amor que viveu nas folhas de papel? A madrugada se confunde com a alvorada. Ninguém liga.

Mais tarde, os Racionais vão trazer inteligência e sagacidade para o coração da Lapa. Não dormem tranquilos enquanto o mundo for injusto demais. Ainda temos boas esperanças.

Daqui a poucas horas vão comemorar os 50 anos de ditadura militar, tudo com os argumentos mais estapafúrdios possíveis, tentando justificar o injustificado.

Os escritores Garcez e Andel preparam o lançamento de seu novo livro de futebol no coração da República, dentro de duas semanas.

Pessoas sofisticadas e outras nem tanto, algumas nem de perto, olham com indiferença as exposições do CCBB. Talvez não entendam nada.

Enquanto os novos baianos passeiam numa velha garoa querida, os cariocas tão normais continuam não gostando de sinal fechado.

O Brasil ainda é medroso, conservador, cafona e sectário num trecho de seu coração, ao contrário de outras áreas sem arritmia. Mas há quem se deite em berço esplêndido de sangue por causa da violência estúpida.

Um velhinho conversa com um travesti no elevador sobre o clássico de domingo no Maracanã. É claro que isso cheira a Copacabana.

Outro velhinho passeia tranquilamente pela orla da praia, sem causar nenhuma desconfiança de que foi um torturador no quartel da PE. Aqui, a fragrância é de Ipanema/Leblon.

As pessoas batendo cabeça na Rio Branco às seis da tarde. Os mesmos mendigos na praça da Cruz Vermelha. A imponência do prédio do MEC é um atestado das coisas boas que podemos fazer.

As pessoas com os olhos estatelados em frente à televisão na hora do jantar, a morte da reflexão.

É proibido fumar.

É permitido matar.

Noite e dia, a metrópole e suas permanentes contradições.

Somos imperfeitos demais. Permissivos, acomodados, alheios ao bem comum, o que sugere horror.

Algumas coisas acontecem no cérebro do meu coração.

@pauloandel

Wednesday, March 26, 2014

golpe














@pauloandel

Saturday, March 22, 2014

santo (logos)

1

o santo dia
o santo lema
o santo drama
e a vida feito
réstia fina, curta
luz opaca fria
sem incendiar

a santa sede
o vão desejo
a vida aflita
o desassossego
e tudo desvira
sem remelexo

a vida e o nexo
o grande apreço
o santo desvario
o ardor, a paixão
o sexo e o respiro
o santo logos
os santos logos
hocus pocus

@pauloandel

Thursday, March 20, 2014

Tuesday, March 11, 2014

Brizola vive


Tempos de luta.



)

Thursday, March 06, 2014

as outras estações

1

eles, tão loucos:
sonham juntos
longe
transam em sonhos
vagos
incendeiam-se
em olhares
num caleidoscópio -
cada nova imagem
tem a saudade
do que desaconteceu
mas arde à pele
neblina as vistas
até esvair-se fugaz
numa pretensão
numa bombatômica
de tesão e crença:
amor de pouco, liso
incompreensível

2

meu samba torto
inebriado
ajoelhado aos pés
da cama onde dorme
para sempre
uma garota morta
linda, triste e morta:
onde está o pesadelo
que não vai embora
depois da demissão
do bota-fora
qualquer diáspora
aquele samba torto
sem sentido
nem predicado
a rosa mais bonita
para quem disse
adeus
sem sentido, apaixonado
para o quem
já se perdeu

3

o pela-saco ruidoso
range rancores
porque a pequenez
dói-lhe feito facada
nas vísceras nuas
o pela-saco raivoso
porque a arte
sem desacato no fato
dói-lhe feito o soco
na medíocre fantasia

4

subversão
para emergir
o que há de bom
no subterrâneo

@pauloandel

Saturday, February 22, 2014

canções de amor (sábado em copacabana)

1

o amor que desacontece
à beira do gran grand prix:
heróis ficam inconsoláveis
poetas versam sob escombros
e a paixão tão noiva e linda
dispensada à beira do altar
o amor que só sugere é frio
esgueirando-se em hipóteses:
e se...? e se...? então poderia?
um amor se faz em fatos nus
e não vestido pelos subjetivos

2

sábado em copacabana para meu
amor ao norte, ao longe, qualquer
praça ou calçada de coração voraz
entre campos de bola entre areias
e mulheres de predicados carnais
meu coração não demora e espia
os espólios de uma cidade oculta
com seus pobres e ricos, liberais
machões, travestis, seus marginais
magnatas, roça e favela, paraíbas
as mulheres de carne esplêndida
louvadas por poetas de botequim:
ah, cervantes! ah, sat's! que fim
levaram o chuva de prata ou o tal
pé-sujo que não lembro o letreiro?
onde está a fachada do coruja bar?
as putas mais lindas, românticas
lado a lado com "mulher-pra-casar" -
e tudo será cedo quando esta noite
cerrar o dia pois o tempo não perdoa:
copacabana é sempre um sábado!

2

meu amor tão longe
num sorriso em foto
hoje à noite vai ter festa
mas não dançarei:
agora sou um longe
agora sou mais raso
e só resta uma promessa
se um amanhã risonho
há de haver em justiça -
resto-me em desejo e sede
alimento meus pecados
enquanto meu amor ri
mas sequer me acena - cor

@pauloandel

Friday, February 21, 2014

porta-retratos e humildes relíquias

1

olhar no céu e encontrar
um desenho de amor
num rosto de mulher
- os traços são os poemas! -
- duas ametistas brilham! -
algum olhar severo enternece
enquanto a beleza é tesão:
desejo incandescente - volúpia
ardor que desmerece desatino
meu amor de cores tão leves -
o céu parece uma bonequinha
uma Audrey, cena de gran luxo
e paixão e vontade noutra cama -
meu amor tem cor! voa rasante
e traz palpitações, ardência atroz
certa alma apaixonada não dorme
a sós, mas namora ao longe: jazz

2

você, meu jazz - você, meu verso
não me satisfaz um amor supérfluo
passatempo sem eira nem beira
você, já não disfarço que te quero
você, meu sonho, meu chão e teto
você, um quadro, a foto e um gesto
a flor que tanto venero, sem tempo
você, meu sexo - gozo e jorro certo
o longe que tanto me corrói às veias
o nunca onde o talvez já é afeto

3

os outros não pensam nosotros
rústicos caiporas com tom inglês
querem ser belos e eternos - truque
a breguice jamais se regenera!
os outros só pensam em si mesmos
e fodem sem brilho!
e morrem sozinhos
os outros são egoístas até demais
e perdem as boas histórias
com seus troféus de carne às mãos -
são rústicos caiporas, capangas
falsos retratos de um mundo falho

@pauloandel


Thursday, February 20, 2014

anagramas

1

esqueça a minha dor
a hipocrisia é uma fé
eu sei do que me dói
- o que corta
- arde e range
- o pesadelo
(sós)
apenas eu mesmo sei
a dor dos meus mortos
o pouco que me resta
a cor da linda noite vã
tudo está perdido no céu
mas uma estrela ao longe
sugere promessas, versos
a vida por um triz tilinta
em brindes à mesa de bar
- vamos à taberna!
- e se a vida tem sentido?
- beberemos até o gole fatal!
- onde está a vida dos que se pouparam?
não há dor ao só
não há dor ao só
apenas o pior: saudade

2

deitado
em tristeza esplêndida
ao verso triste
em mar do sul atlântico
deitado
em jazz de mingus livre
no café bohemia:
- let your soul fix the night!

3

um ateu em procissão
para encontrar um deus
no meio do nada mais
a venezuela é a vila vintém?
onde estão os liberais
elegantes? ou ficar a pátria
livre ou coroar a estupidez!
viva a democracia!
viva a imprensa livre!
mentirosos e podres
nunca fomos tão felizes:
uma salva de palmas
para o village mall!
viva os hipócritas sem deus!

@pauloandel


difícil

tão hipócrita é
o amor que não
ousa, esconde-se
por medo e regras
até desperdiçar-se
por nenhuma razão
tão hipócrita o medo
o fingir de bobagens
pelas tais convenções
tão hipócrita a frieza
a distância, assepsia
já que o sexo é fato
a vontade é um jogo
do país às nossas mãos

 @ pauloandel

Tuesday, February 18, 2014

podres poderes... tão atuais

Caetano, 1984

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...

Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...

Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...

Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...

Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...

Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!

@pauloandel

outra casa

nunca mais encontrei minha casa
desde que entendi drama e morte
os silêncios falam tão alto e vasto
que povoam delírios na memória
o que se perdeu mora no sempre
e o futuro faz-se escasso, tão frágil
sem os que sempre foram a casa
um dia, fechei a porta e vi o mundo
desci um grande corredor, uma rua
as frases repletas de otraspalabras
e gente sem se ligar em gente, feliz
o egoísmo é a sincera decadência
depois olhei para trás, era a porta
tão longe, tão crua, refém superoutra:
eu nunca mais encontrei minha casa

@pauloandel

Sunday, February 16, 2014

todos estão nus

abre um domingo
café, preguiça e jornais
um jogo adiante
e o carnaval, o carnaval
vamos ouvir jorge mautner
porque nenhum tempo espera
exceto o da puta fascista na TV
vamos ouvir mautner
e pedir piedade num abre-alas
ninguém vai resolver o fim
do mundo acorrentando
ninguém
penas de morte, choques de ordem
aves de rapina quebrando a firma
todos estão nus!
a hipocrisia em pêlo
a indiferença crua
o nada a ver com isso: todos estão nus!
a bossa nova é foda
e fingimos que é de fora
coltrane é negro
charlie parker negro
e miles negro demais -
o jazz de fora é foda!
estamos todos nus
distantes de qualquer paraíso
o tesão não é maçã nem pecado
a dor está nos mortos
nos perdidos das marquises
nas cabeças explodidas
com bombas, tiros, sacrifício
nas meninas estupradas
nos garotos desaparecidos
mãos estendidas por uma moeda
estamos todos nus
não precisamos de nazistas tupiniquins
o febeapá é nosso
falta a carta de alforria

@pauloandel

Thursday, February 13, 2014

ruas do mundo


o verão e suas bombas de calor
escritórios refrigerados
mas também as telhas de amianto no supermercado popular
o engravatado sempre mereceu o que tem e terá
o camelô e o mendigo também
foi assim que deus fez ou alguém preferiu acreditar
é bem mais confortável
do que perder tempo em raciocinar
somos todos medíocres
fazendo de nossos olhares
a real fotografia do mundo
a crônica sincera das ruas do mundo
e nada vai reparar
o cinegrafista assassinado
o jovem negro de joelhos assassinado
a bela jovem negra policial
o perigoso ladrão de moedas acorrentado como velho escravo
a menina estuprada dois meses na cadeia do maranhão
o menino joão helio arrastado pelas ruas fúteis do mundo
somos todos medíocres
ao escolhermos as injustiças que devem ser reparadas
bem como as esquecidas
somos todos medíocres
quando pensamos em bandidos fazendo justiça pelo bem
somos todos medíocres
somos todos medíocres
a violência ainda é tão fascinante aos olhares medíocres
e lá vêm o carnaval, o feriadão, a copa do mundo
a quem interessa lembrar da passarela?
as ruas do mundo são fúteis
quando há racismo, exclusão, indiferença
gente que faz de gente passatempo
videogame imperfeito
vã distração que se descarta
os livros nem sempre são lidos como devido - na verdade nunca! -
as dialéticas não são estabelecidas
somos todos medíocres a juntar na mesma panela o cozido
de riqueza, sucesso e desprezo alheio
ridicularizamos os comunistas
e a inflação nos irrita - somos hipócritas demais, incoerentes vorazes
precisamos de mais tempo perto do fogo *como faziam os hippies*
mas ninguém liga
ninguém liga
o amor virou mercadoria - só serve em perfeitas condições

@pauloandel

* "Perto do fogo", Cazuza e Rita Lee, 1989.

Monday, February 10, 2014

cães de aluguel, jards e cazuza

cães de aluguel

precisa-se de cães de aluguel
fortes, densos, mortíferos e vis
ideais para uma sociedade de fé
- não precisamos de leis - a lei é o caralho - leve o coitadinho para você
- isso tem mais que morrer
precisa-se de cães de aluguel
fiéis às desumanidades, sempre alertas para morder, ceifar, matar
o que fazer com nossa hipocrisia?
eis ipanema que precisa brilhar à noite e as manchetes do flamengo precisam ser reluzentes
foda-se a lei quando o dinheiro é poder - deixem-nos usar nossos smartphones em pax - glória a deus nas alturas - cada um por si e que o outro si foda-se 
- não fui eu quem fez o mundo assim
vamos prender nossos escravos nus - tragam o açoite - enfiem no rabo 
- eles têm que morrer sofrendo, há justiça
nossos cachorros mais agressivos
casa, comida e ódio nos peitos fortes
cores de mussolini, cenas de médici, risos debochados
tortura, pau-de-arara, choques elétricos, estupro e agonia
que tal aplaudir uma piranha fascista vociferando na televisão? 
o crime virou apenas exercício da liberdade de expressão
o aparelho mora numa calçada
o inimigo é negro e pobre, analfabeto
os punhos cerrados são ordem e progresso, tradição, família e propriedade
os foguetes têm religião e explodem sem dó a cabeça de inocentes
crianças das marquises já nasceram delinquentes
e a estupidez à vista é a revista do egoísmo ao caos
os comunistas são os imbecis
espertos liberais com sorrisos de luar, pasta de dólares, sonegação
e todo são domingo deus irá nos perdoar
a ironia do destino dá-nos nojo de dois ratos enquanto matamos por prazer, superioridade e empáfia num mundo com leis - só para os miseráveis

@pauloandel



só morto - jards macalé
Nessa manhã de louco/ O olho do morto/ Reflete o fogo/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Pedras rolam pro mar/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Espuma de sangue a brilhar/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco

Esse sol tão forte/ É um sol de morte/ Esse sol tão forte/ De mil mortes/ Esse sol/ Há quanto tempo/ Eu não via/ Um dia.../ Um dia.../ Tão bonito, tão.../ Tão maldito, tão.../ Um dia.../ Um dia.../ Oh, see the city lights/ I never seen you so bright/ Let this burning/ Let this burning/ Burning night


burguesia - cazuza

A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia
A burguesia não tem charme nem é discreta  com suas perucas de cabelos de boneca 
A burguesia quer ser sócia do Country 
A burguesia quer ir a New York fazer compras 
Pobre de mim que vim do seio da burguesia 
Sou rico mas não sou mesquinho 
Eu também cheiro mal 
Eu também cheiro mal 
A burguesia tá acabando com a Barra 
Afunda barcos cheios de crianças 
E dormem tranqüilos 
E dormem tranqüilos 
Os guardanapos estão sempre limpos 
As empregadas, uniformizadas 
São caboclos querendo ser ingleses 
São caboclos querendo ser ingleses 
A burguesia fede 
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia 
A burguesia não repara na dor  da vendedora de chicletes 
A burguesia só olha pra si  A burguesia só olha pra si 
A burguesia é a direita, é a guerra 
A burguesia fede 
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia 
As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução  ao contrário da de 64 
O Brasil é medroso 
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia 
Vamos pra rua  Vamos pra rua  Vamos pra rua  Vamos pra rua  Pra rua, pra rua 
Vamos acabar com a burguesia 
Vamos dinamitar a burguesia 
Vamos pôr a burguesia na cadeia numa fazenda de trabalhos forçados 
Eu sou burguês, mas eu sou artista - estou do lado do povo, do povo 
A burguesia fede - fede, fede, fede 
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia 
Não vai haver poesia 
Porcos num chiqueiro 
São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês 
Que vive do seu trabalho honestamente 
Mas este quer construir um país  e não abandoná-lo com uma pasta de dólares 
O bom burguês é como o operário 
É o médico que cobra menos pra quem não tem  e se interessa por seu povo 
Em seres humanos vivendo como bichos 
Tentando te enforcar na janela do carro  No sinal, no sinal  No sinal, no sinal 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia

Sunday, February 09, 2014

a chinelada



Saturday, February 08, 2014

dois cifrões...


os fragmentos da manhã vazia

1
tudo que me disser a canção
precisa rugir feito uma poesia:
sorver, tragar
ruminar, reter
precisa suar feito poesia
gozar, acontecer
refestelar-se numa sala
com memórias à mobília

2
sempre dar prioridade
a quem dela é seu vigia
a quem zela por todo dia
sem medo ou a distância
fria, vazia, que desameniza
o lado mais doce da vida

3
o estrangeiro
alheio
ser de outro planeta
homem fora dessas ruas
cansado e apressado
buscando a riqueza
de ser tão diferente
pela riqueza do jeito
ou as emoções tortas, cruas
que vivem os poetas de calçada

4
amor que não se rega
é pedra que não rola:
cria musgo
perde o sentido
namora o vazio
faz-se lágrima
de quem não chora

@pauloandel

Thursday, February 06, 2014

o amor 2 - Maiakovski

o amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)



a flauta vértebra

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


blusa fátua

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

(tradução: Augusto de Campos)


amo

COMUMENTE É ASSIM
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Mulher.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce
floresce,
e depois desfolha.


adolescente

A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.


Sobre Maiakovski

Em 1906, após a morte de seu pai, muda-se com a família para Moscou. Aos 15 anos ingressa no Partido Bolchevique e é preso duas vezes, sendo que na última permanece onze meses encarcerado, quando aproveita para leitura de todas as obras clássicas. Em 1910, ingressa na Escola de Belas Artes, de onde é expulso quatro anos depois, quando já se encontra ligado ao movimento futurista. Era o expoente de uma geração em busca de uma estética que captasse a profundidade daquelas inquietações russas. A partir da Revolução de 1917 sua atividade literária se intensifica unido a atividade política. Participa das comissões de literatura, pintura e cinema. Começa a ser tachado pelos burocratas do Partido de "incompreensível para as massas". Maiakóvski busca demonstrar seu engajamento fazendo cartazes e poemas de exaltação ao Regime Soviético. Nos últimos três anos de vida, levou seus versos a mais de 180 mil pessoas, em conferências e recitais por várias cidades. Nunca aceitou a imposição de escrever o vazio óbvio como os poetas proletários insistiam. Dizia "vangloriam-se alguns do fato de a nossa leitura ser florida como um jardim".

Suicidou-se talvez pela falta de perspectivas que via para a sua arte, talvez pelos problemas de saúde, estava com a garganta abalada e percebia que não poderia recitar mais, talvez pelos relacionamentos amorosos infelizes. Além das poesias e roteiros dos filmes escreveu as peças teatrais Mistério Bufo (1918 e 1920) e O Percevejo (1929) dirigidas por Meyerhold, Eu, Vladimir Maiakóvski (1913) e Os Banhos (1930).

@pauloandel

Wednesday, February 05, 2014

jazz!


Jazz é aquilo: ama-se ou não se compreende. Você está numa noite do Costa Brava com o mar infinito por todos os lados e espera Tatiana para um drink. Ou o Atlântico Sul beija o Imbuí enquanto Eliane, linda de morrer, olha como se buscasse o horizonte para si, amenizando o coração.

Tenho escutado jazz desde os tempos da faculdade. Minha primeira influência firme foi Jô Soares em seu programa de rádio que eu escutava num walkman vermelho, comprado no Camelódromo. Ao Jô devo o mergulho profundo; entretanto, antes dele eu já conhecia alguns nomes como Wayne Shorter e, claro, Miles Davis. E no programa, logo percebi que o meu jazz não era o de Jô, dos anos 30 com Gene Krupa, mas o avant-garde do fim dos anos 50, Ornette Coleman. Mas também Charles Mingus, Thelonious Monk, Sonny Rollins, McCoy Tyner, Miles, Chet, Coltrane, Blakey, outros.

Perto dos vinte e poucos anos, outro porto importante foi a livraria Berinjela, coração do Rio, avenida Rio Branco. Era amigo dos donos, ouvia muito jazz por lá quase diariamente entre os maravilhosos livros enquanto Carlito Azevedo falava do Chaves, Rubens Figueiredo sorria e Maurício dava sonoras gargalhadas à la Flipper quando Alvaro O Marechal fazia a performance da dança do Siri Patola. Kamille também ria e eu adorava. Tínhamos nosso divertido Café Bohemia imaginário e particular. Ou jogos de botão narrados por Jimmy Scott ou Julie London, belíssima.

Mergulhei para sempre nas vertentes, nas resenhas, buscando novos discos e artistas, tentando captar aquela atmosfera musical que um dia me fisgou para sempre. O jazz sempre esteve perto da poesia que pratiquei, das mulheres que amei e das pessoas queridas que já se foram para sempre.

Jazz não é só pra se ouvir, mas pra se sentir. Sonhar. Fugir. Experimentar momentos de sonho e liberdade num mundo cada vez mais reacionário e agressivo. Apague a luz, abra a janela, ligue o som e voe longe. Você pode dançar, ficar estático, deitar, procurar estrelas no teto do quarto, pensar na mulher desejada, um grupo de amigos rindo e brindando com o chope dourado da felicidade.

Tanto faz se são artistas consagrados ou iniciantes. Se o repertório é de standarts ou novidades. E daí que não estamos no Five Spot mas na Cruz Vermelha? Maravilhosas Jane Monheit e Diana Krall!

O jazz nascendo, toda liberdade para dentro da cabeça é pouca. O que sinto há vinte e tantos anos.

Chego a pensar em Zoot Sims atravessando a Figueiredo Magalhães em Copacabana enquanto meu velho amigo Fred arregala os olhos.

@pauloandel

o amor

Caetano Veloso
(sobre um poema de Vladimir Maiakovski) 

Talvez quem sabe um dia 
Por uma alameda do zoológico 
Ela também chegará 
Ela que também amava os animais 
Entrará sorridente assim como está 
Na foto sobre a mesa 
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão 
O século trinta vencerá 
O coração destroçado já 
Pelas mesquinharias 
Agora vamos alcançar 
Tudo o que não podemos amar na vida 
Com o estelar das noites inumeráveis 
Ressuscita-me ainda que mais não seja 
Porque sou poeta 
E ansiava o futuro 
Ressuscita-me 
Lutando contra as misérias do cotidiano 
Ressuscita-me por isso 
Ressuscita-me 
Quero acabar de viver o que me cabe 
Minha vida para que não mais existam amores servis 
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se 
por uma casa, um buraco 
Ressuscita-me 
Para que a partir de hoje 
A partir de hoje 
A família se transforme 
E o pai 
Seja pelo menos o Universo 
E a mãe 
Seja no mínimo a Terra 
A Terra 
A Terra 

@pauloandel

Tuesday, February 04, 2014

a hipocrisia

Qual rua não a adota? Casa, paço, alameda, ciudad, calle? Acordamos, vivemos, dormimos e lá está a danada da hipocrisia. Nos discursos de ordem e progresso em defesa da grande pátria, escoram-se rastros de hipocrisia. Ou então os falsos moralistas que adoram criticar o comportamento alheio enquanto escondem toda sua podridão, lá está a fortalecida hipocrisia. O caso de agora vivido nas manchetes pelo Fluminense é um exercício completo de hipocrisia plena: jornalistas cínicos omitem a verdade, distorcem, subvertem e entorpecem a opinião pública, muito menos do fizeram diante do inacreditável caso Bruno. Quando Cuba constrói seu porto, os hipócritas vociferam e apregoam o fim do comunismo com ridicularização incompatível; são os mesmos que defendem o liberalismo e incomodam-se com a alta dos preços em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo – liberalismo pleno, desde que tenham seus bolsos cheios e o resto-que-se-foda - o nome disso é hipocrisia. Eduardo Coutinho, brilhante cineasta assassinado domingo passado, era comunista: alguém teria condições morais de apontá-lo como idiota por isso? A hipocrisia quer a fogueira para Woody Allen a respeito de um crime que jamais foi comprovado, mas não move uma palha sobre a garota que acabou de ser estuprada no Alto da Boa Vista, as garotas que são seviciadas diariamente em comunidades ainda dominadas pelo tráfico carioca, as garotas que fazem programa na avenida Atlântica e espalhadas em todos os puteiros. Quantos jornalistas hipócritas não defenderam com veemência regimes prisionais mais severos, até perpétuos, mas calaram-se diante do caso Pimenta Neves? Empresários hipócritas sempre reclamam dos altos tributos, mas fogem da Receita Federal com dois mil e um artifícios no limite da lei – às vezes, extrapolando-a. A hipocrisia que marcou as discussões a respeito do beijo gay na televisão é um marco da nossa estupidez contemporânea: há décadas, personagens homossexuais estão (devidamente) incorporados ao cotidiano televisivo. Namoram, seduzem, tudo acontece, por que então a celeuma em torno de um beijo? Um provincianismo comovente, da mesma natureza que alimenta os intelectuais de orelha de livro, ávidos pelas mais novas idiotices de Mainardi e Jabor, temperadas com verborragia barata e palavras pinçadas para dar o tom professoral que os arrogantes tanto apreciam. Para a hipocrisia comum, Chico Buarque, Caetano e Gil são defensores da censura, com todo o ridículo daqueles que não têm acompanhado suas trajetórias. A hipocrisia está de mãos dadas com a indiferença diante da miséria, o desinteresse pelo próximo, a patética sede de poder. O amor que não se declara. O ódio que se espalha. O primarismo da vitória que se traduz em bens de consumo e cabeças ocas. O ter mais importante do que o ser. A hipocrisia na intolerância religiosa e até mesmo na ausência de religião. A hipocrisia em ser o que não se é ou não ser o que se realmente é. Ou a hipocrisia da via única: um jornal, um canal de televisão, uma opinião, uma escola de samba, um time. As ruas estão pintadas com a hipocrisia da ostentação idiota, devidamente rejeitada pelos verdadeiros racionais. Cada vez mais temos mais informação, computadores, meios de comunicação, velocidade e tudo se perde no caminho porque não sabemos viver sem hipocrisia. Personagens politicamente corretos sonegando impostos, furando fila, transferindo bens para terceiros, fingindo que André Santos e Heverton são personagens de uma história com Papai Noel. Você que me lê por ora considera-me um hipócrita e, nisso, fica deitada em berço esplêndido a mais fina flor do que aqui propus tratar como simples hipocrisia. A covardia da covardia. Escrotidão e ironia. Que nostalgia fria?

@pauloandel

Saturday, February 01, 2014

a dança dos sonhos

para eu estar em você
e sermos um exato um
que tal desatar os nós
desabrochar más ideias
e jogá-las longe, frígidas?
para eu dançar em você
dançar-te, sobrevoar-te
fazer da nossa noite crua
a delicada Gotham City
nenhum Batsinal à vista
ninguém a cortar clima
a dança dos sonhos, sexo
os desejos fora do eixo
o nexo que nos revitaliza
e tudo vai dar certo no caos
tudo será leve diante do caos

@pauloandel

Monday, January 27, 2014

Lançamento do livro "Pagar o quê"?



"Posso ter acabado de voltar de uma heroica partida do Fluminense – ou mesmo desimportante, tanto faz, se é que existe algum jogo nosso que não tenha importância do ponto de vista de tabela –, tanto no Engenho de Dentro, quanto em Guilherme da Silveira ou em São Januário. Talvez tenhamos uma excelente participação nos cenários que nos abrigam por ora (nos anteriores mais recentes é um fato), mas tudo o que se diga será pouco diante da repetição incessante de conhecida frase, dotada de inteligência restrita e insuficiência histórica vascular, regularmente utilizada para tentar diminuir – em vão – o brilho tricolor numa grande conquista, uma vitória expressiva, um belo golaço (com todas as hipérboles aqui plausíveis) ou até mesmo a incontestável beleza das nossas milhares de mulheres empolgantes nas arquibancadas: “Paguem a Série B!”.

Chegamos ao segundo posto da Copa América anos atrás, realizamos duas façanhas quase inigualáveis nas lutas contra o descenso em 2008 e, principalmente, em 2009. Como biscoito fino, mais dois títulos brasileiros incontestáveis, quase um terceiro entre eles. O adversário, ciente das suas escassas possibilidades em diminuir uma trajetória vencedora, das mais pujantes nos últimos tempos, repete com o fervor que sugere um fundamentalismo religioso na afirmativa: “Paguem a Série B!”."

Saturday, January 25, 2014

eu sem você sem eu (taty)

passei aqui pra dizer
que sinistro eu gosto de você
e ninguém há de negar
o grão-futuro que vai te pertencer
passei aqui pra dizer
o que é simples de entender
e o resto, o resto
a longa estrada no horizonte
que ainda vamos percorrer
vidros quebrados, sentimentos estilhaçados
e tudo recomeça logo após o sol se pôr
a cada nova esquina alguém se lembra de um recado de amor
então vamos nós:
o sol a pino, a vida em riste, o mundo ao nosso lado
e nós tão sós
tão sós, sós

@pauloandel

Thursday, January 23, 2014

dos hermanos

1

oh, terras distantes e o meu coração flamejante
lateja insone, vazio, porque o teu coração vaga
sem rumo certo ou fronteira a desbravar alegre

dois irmãos, dois pensamentos marginais a sós
o céu do costa brava sem nossos bons retratos
cada cabeça, um furacão e recortes vis do amor

quando a minha mão encontrar a tua mão divina
e fizemos dos convescotes a lembrança de hoje
será sinal de que não somos mais simples uns

vamos ver a boa cor do mar e ela será tão vivída
que não nos restará orfandade alguma ou mísera
nosso amor será o perfeito som do caos, oh caos!

e nada do que já fomos antes terá qualquer razão
e nada do que pensamos antes será um futuro são
apenas a mão entrelaçada à mão e um silêncio nu


2

vamos ficar muito perdidos
e libertar nossos instintos
agora é um quando? onde?
que tal um chute no porém?
vamos fazer o que nos resta
enquanto o que não presta
nos cerca e ameaça tanto
quem sabe ficarmos na boa
pescando pessoas no mar?*


* Citação de "   ", Arnaldo Baptista, 1974

Wednesday, January 22, 2014

pequenas luzes da cidade

o topo do morto, meu mundo
em sépia morna à brisa fraca
o bairro sorri tão triste ao léu
pequenos mortos-vivos, caos
um paredón dos cabisbaixos
e a feia fumaça sobe sem cor
numa quina de rua perdida
a solidão das grandes cidades
esculpidas debaixo de viadutos
ou campos de concentração nus
nas calçadas, marquises, pisos
não há mais sol para todos os uns
não há mais fé para todos alguns
e o próximo feriado é higiene sã
para todos os que detestam ver
as pequenas luzes da tal cidade
como as estrebuchadas vísceras

 @pauloandel


Tuesday, January 14, 2014

adeus, verão

o nobre verão escaldante e suas estampas ou uma réstia de saudade
os garotos não jogam mais duplas
nenhum tango & cash, nenhuma trave derrubada à revelia
outros namorados trocam as mãos
e o céu de janeiro já deixou outros janeiros escorrendo feito areia fina
jovens putas nos bares, travestis a mil
o vaivém dos velhinhos no fim da tarde
ainda é tão quente mas o verão acabou
feito os olhos fechados de quem se foi
a última canção de um fogo de conselho
as garotas têm novos sorrisos e destinos
a luz da sala está apagada e o verão acabou
não teremos nunca mais a mesma estação
o verão sofreu e chorou:
contou seus últimos trocados e andou
solitário feito a dor de um mendigo
entorpecido feito um morto-vivo em crack
as pessoas parecem tão felizes
e esperam seus novos amores à luz
não perceberam o que está perdido:
o verão chorou, o verão acabou.

@pauloandel

Saturday, January 11, 2014

calor

doze sóis num só para um verão de felizes. doze mil graus, uma cidade febril e fulgurantes manchetes mentirosas enganando a ingenuidade. os bares, as cores, os corpos e o ir e vir no vaivém. todos querem carnaval, alguns querem mansidão e eu quero ir-me embora, dar o fora mesmo que ninguém venha comigo. o brasil virou um verão enquanto os degolados nas penitenciárias são coisa normal. danar o outro é algo natural. todo mundo quase sabe com quem está falando. basta assassinarem o fluminense e tudo parecerá normal, tanto quanto a feia hipocrisia que tomou milhões de rostos neste sábado de janeiro sem par. um garoto caiu da janela em são paulo e ninguém liga. amarildo foi embora e ninguém diz mais nada. a violência é tão fascinante para os imbecis, a hipocrisia é tão confortável para os medíocres e miles davis ok ao vivo na europa é um sinal da música que agora mora tão longe, longe. este sábado não comporta um prêmio de loteria nem vai ter sinal de amor. o calor das ruas e a vida longe, engarrafada na contramão.

Sunday, January 05, 2014

nós, nós

1

então passou domingo
de outro ano tão feliz
e meu outro eu, porém
pensando tanto noutro
você, você, vazio pleno
sobre a história que não
foi dividida ou aquela
lembrança que já não me
arrepia mas ainda insurge
contra o óbvio, evidente
óbvio que não faz graça
da vida como seria devido
então passou domingo en sol
caetano faz cinema falado
com seus poemas de outrora
e penso a esmo porque você
fica assim tão longe de você
e isso mesmo faz de mim um si:
estamos tão longe que nem
o fim parece a próxima estrada

2

o homem velho e seus versos
sua praia deserta, calor e jazz
o mundo não espera a próxima
parada, o próximo capítulo
e qualquer estalar de dedos
pode ser o fim do mundo cruel
o homem velho e seus livros
histórias de cor e pele urbanas
pode ser o meio do mundo fugaz
o homem velho e seu amor em vão
longe das mãos, perto do adeus
outros versos, outras palavras
e nada que sugira conforto sincero
diante da imensidão azul do caos
o homem velho e sua cidade
a pátria de muitas pátrias mães
gentis enquanto a vida navega -
frias quando ela diz tchau e cerra

@pauloandel

Wednesday, January 01, 2014

cedo/ cor

1

o verão que se faz flor agora
tão cedo
corações civis mergulham n'água
despudoradamente
enquanto o posto seis é um cartório
a registrar seus amores de orla:
tênues, livres, definitivos, uma ocasião
há quem fale de calor, volúpia, bens
mas eles só querem amar
querem apenas um instante que valha
por mil
o verão nasceu tão cedo
e os corpos nus procuram suas paixões
em qualquer lugar onde haja céu e cor
os seres vivos derramando amor
adeus, rancor e drama!
corações a mil caçando cama

2

o fim do amor tem cor?
quem disse que o luto tem cor?
uma ilusão a ausência caber numa
aquarela
assim como a cor do amor que sequer nasceu
e foi sufocado, um natimorto à crista
o descaso não tem cor
a solidão não tem cor
tudo é o que fazemos por mera satisfação à cobrança das retinas
impor as cores às dores e ao feliz
num mundo branco e preto e gris
ouro, cobalto e véu, grená e violeta
o amor não tem cor
ele é coisa de muito além

3

quando você me convidar
para nos jogarmos no mundo
eu te abraço como se estivéssemos
em queda livre, salvos
pela perícia do para-quedas
e não solto nunca mais
mesmo quando estivermos sãos
e salvos com pés em terra firme
quando você me convidar
eu vou, eu vou, eu vou
só para entender o porque, o talvez
da imensidão do meu amor sem cor
que floresce à tua pele

@pauloandel

Friday, December 20, 2013

Férias

Volto em janeiro.

Obrigado por tudo.

Beijo beijo.

@pauloandel

Friday, December 13, 2013

O GOLPE DE SEGUNDA-FEIRA 16/12 - A FARSA DE RIZEK, RMP E A CAMARILHA


Por Paulo-Roberto Andel 

O desespero dos respeitáveis homens (melhor dizendo, seres humanos registrados cartorialmente como homens) da grande imprensa esportiva parece não ter fim.

Mentem, sabotam, subvertem, omitem, tudo em prol de velhos interesses notórios que buscam preservar na condição de doces lacaios.

A diferença do momento atual para outras armações jornalísticas passadas está num fato inédito no futebol brasileiro: a INTRANSIGENTE DEFESA DE SE RASGAR O REGULAMENTO DO CAMPEONATO BRASILEIRO, descumprindo um item cristalino que trata do impedimento de atuação de atletas suspensos. 

Os que se diziam tão éticos e defensores da moralidade não hesitam em utilizar de forma torpe e leviana a covardia do poder da imprensa não para informar, mas sim desviar focos e principalmente fazer garantir seus objetivos pessoais.

Qualquer pessoa minimamente letrada em termos de futebol brasileiro sabe o que o Fluminense vem sofrendo em termos de achincalhamento jornalístico nas últimas décadas, tudo por conta de fatos que jamais influenciou ou impôs. Domingo passado, a torcida Tricolor aceitou com tristeza e maturidade o resultado final do campeonato brasileiro, sem que se soubesse da denúncia a respeito da irregularidade crassa cometida pela Portuguesa de Desportos. Tristeza, nenhum rancor e a certeza de que vale o resultado de campo, desde que ele não esteja enlameado por fatores exógenos tão bem articulados por papeleteiros amarelos. 

Em nenhum momento, estes respeitáveis homens de imprensa teriam escrito uma única linha se o resultado final da competição tivesse na décima-sétima posição o Náutico, a Ponte Preta e outros times da primeira divisão que eventualmente pudessem estar na zona de descenso. Trata-se de um problema pessoal contra o Fluminense F.C. e sua imensa torcida, tanto por rancores pessoais quanto pela necessidade de arranjar um bode expiatório para os males do futebol brasileiro – que começam por quem banca, transmite e emprega tais pessoas.

Torcedor do Fluminense, DIGA NÃO À FARSA! CHEGA DE NOS DESRESPEITAREM COM ESSE JORNALISMO FAJUTO!

Não se trata de içar o nosso time a nenhuma divisão privilegiada, mas sim de defender o respeito às regras e regulamentos estabelecidos. 

Manifeste o seu repúdio neste momento nas redes sociais, nos jornais, em toda a internet, nas ruas. 

Na próxima segunda-feira, às 16 horas, a pilantragem da FlaPre$$ marcou o evento abaixo descrito:

"O futebol brasileiro já viu várias vezes o desprezo pelas regras e normas do futebol brasileiro, provocando três viradas de mesa dignas de vergonha. Agora querem provocar uma quarta. Chega de tanta safadeza no futebol! Segunda, dia 16/12 haverá às 17h o julgamento pelo STJD que quer outra virada de mesa. Se você não concorda com essa malandragem e ama o futebol, compareça na porta do julgamento, com a camisa do seu time, seja de que divisão for, e mostre para o STJD que futebol se ganha em campo! O endereço é: Rua da Ajuda, 35 - Centro do Rio de Janeiro - RJ.”

Torcedor do Fluminense, é hora de reagir a essa pilantragem com a nossa camisa, o nosso grito e mostrar que a nossa força está acima de qualquer divisão e, PRINCIPALMENTE, CONTRA A MANIPULAÇÃO DE CAMPEONATOS BANCADA POR PARTE DA IMPRENSA ESPORTIVA NACIONAL.

Tuesday, December 10, 2013

blood

se soubesse da dor
que flama e rasga
que dilacera e causa
infernos aos olhos nus
talvez mudasse, risse
vivesse sem paz mas cor
talvez cantasse firme
um recado bom de amor
se soubesse da dor
que arromba a alma
talvez pensasse, triste
que ninguém pode ser
feliz fazendo sofrer:
apenas justo um viver

@pauloandel

Friday, December 06, 2013

a chuva

agora que chove
penso nos doentes
os desaparecidos
as dores debaixo de marquises
penso nos mortos e vivos
a solidão parece chuva:
cai, chora e sai
destrói e diz adeus
os outros pensam apenas
em mais um dia de sol
parlapatões e boquirrotos
ansiosos por um domingo
de caos
e tudo é tão desimportante
frente às tragédias humanas
que chamamos cotidiano
tudo é tão desimportante
que deslumbrar-se é apenas
o precipício da alma

@pauloandel

Friday, November 29, 2013

dois garotos pretos

DOIS garotos pretos sentados na calçada próxima ao estacionamento anexo ao edifício da Cruz Vermelha no coração da cidade do Rio, algo em torno de sete horas da manhã, talvez tivessem doze ou quinze anos, garotos do mesmo jeito. Limpos - mas humílimos em suas vestes -, com ar de tristeza numa sexta-feira que irradia sol sem querer dizer que isso resume a vida em forma de felicidade – pessoas vão morrer, pessoas vão ser enterradas, pequenas e grandes tragédias pessoais podem acontecer, eu mesmo enterrei praticamente todas as pessoas queridas por mim em dias de sol desértico.

Dois garotos pretos silenciosos, de olhar perdido e um silêncio de dar dó, como se o mundo parecesse a desolação suprema – por que não? – que nasce diariamente nas grandes cidades, com seus edifícios supremos, sua opulência e um completo dar de ombros ao próximo. A cidade das pessoas descartáveis. O mundo onde talvez baste o telefonema rápido, o e-mail, a frase curta no whatsapp e tudo está resolvido porque não se pode perder tempo – e ele deve ser investido em que mesmo?

Dois garotos pretos, pobres, limpos, mas vestidos com roupas bastante humildes, não pareciam moradores de rua e nem dotados das mazelas cotidianas que geralmente mostram suas garras a olhos nus, tais como o uso das drogas da morte. Apenas dois garotos mudos, de olhar perdido, vagando por galáxias que ninguém saberá descrever – talvez nem eles mesmos – num cenário urbano e frio em pleno dia de sol no Rio de Janeiro, geralmente melhor aproveitado pelos mais abonados e desocupados – estes, temporária ou permanentemente falando. A cidade está viva, o verão se avizinha, o ano começa a dizer adeus e todos falam de seus planos, suas promessas, os novos velhos sonhos que, de certa forma, nos oferecem combustível para percorrer a longa estrada da inevitável solidão – por mais que se esteve perto de quem se gosta, de quem se ama, é impossível não pensar na mesma solidão em algum ou vários momentos.

Dois garotos pretos, pobres, limpos, vestidos com roupas humildes, com olhar perdido. Retratos de um mundo que jamais será justo. Retratos de uma reflexão sobre o sentido das coisas, o sentido da vida – se é que ele existe -, o tempo que desperdiçamos com bobagens, vaidades, obsessões, que nada significa diante do fato que aqui somos mera passagem, ninguém pertence a ninguém, o eterno não passa de efêmero. Grandes anúncios de grandes corporações na televisão, nos computadores e jornais, qualquer lugar. Seja um vencedor, tenha o poder, desfrute das boas coisas da vida, seja o melhor, tudo num balaio de grandes babaquices quando o mundo se resume a amigos, amores e alguma alegria vã, num intervalo entre as dores.

Dois garotos tristes. Ao me aproximar, disse-lhes uma saudação de bom dia. Não responderam absolutamente nada. Entendi.

@pauloandel 

Monday, November 25, 2013

juice

insone um amor
que se baseia em
nada vaga e flana
sem rumo ou destino
tropeça em sonho
e pisa firme à toa
em realidade alguma
insone um amor que
se basta, mendigo de
seu próprio destino
insone amor tão vivo!

@pauloandel

Friday, November 15, 2013

enquanto


enquanto a cidade sangra um canto debaixo do sol alguém
dorme como se fosse um sono
da morte alguém padece como se a vida fosse apenas paciência entre noites insones
a cidade sangra suas esquinas
e marquises solitárias
casas de campo para quem não vê Deus enquanto a cidade namora a solidão o céu troca seu gris por cobalto azul
a primavera já não demora
a cidade cobiça uma nova estação
a cidade rasga um pranto em vão
até que surja uma velha nova canção
outra nova canção

@pauloandel

Wednesday, November 13, 2013

Insones

ninguém viu ao certo a lua nova na Cruz Vermelha
enquanto mendigos mexiam em seus escombros de vida
buscando matar a dor da fome e do medo
vasculhando pequenos banquetes no lixo entulhado
ninguém viu nada ao certo ou mesmo incomodou-se
há quem creia que tudo não passa de opção ou hábito
há quem dê de ombros e depois penitencie-se em amém
ninguém viu a dor dos garotos desmaiados na praça
viajando em céus de limão com o sorriso do crack
o mundo noutro mundo que não condiz com mundo algum
há quem creia que tudo não passa de opção ou hábito
há quem dê de ombros e depois penitencie-se em amém
ninguém viu com clareza a lotação debaixo da marquise
numa noite de chuva e frio duma primavera esquisita
as flores não são mais os abre-alas da nova estação
mas acontece que ninguém viu direito ou concentrou-se
as pessoas estão ocupadas demais para pensar em alguém
pois somos uma grã-sociedade de fina competitividade:
quem tem mais sai na frente, quem não tem apenas se dana
ninguém viu ao certo a lua nova na Cruz Vermelha
há muito a se fazer para construir castelos de nada

@pauloandel