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Friday, August 31, 2007

IMPRESSÕES - 31/08/2007

PROBLEMAS
Leona Helmsley era multimilionária e, como todos os de sua estirpe, morreu sem ter usado boa parte do capital que acumulou durante sua vida. Não entrarei no mérito de sua fortuna, mas vale ressaltar que a mesma adveio do casamento com o magnata Harry Helmsley - e juntos, conduziram um império imobiliário na América que, dentre outros itens, fazia constar em sua lista de posses a administração do Empire State, veterano prédio mais do que conhecido. O ricaço morreu em 1972, dona Leona tocou o barco zilhardário.
A mídia impressa americana concedeu-lhe o título de "rainha da maldade". Mau sinal.
Semana passada, Leona partiu. Setenta e muitos anos, talvez fosse a hora, talvez não.
Deixou testamento. Trinta milhões de dólares na conta, mais ou menos o que a Mega-Sena poderá pagar a um felizardo (a) amanhã, que, se sobreviver ao infarto da notícia ótima, terá uma vida de rei (ou rainha) - a não ser que faça como o fulano da tal cabeleireira que era prostituta, assassinado em sua cadeira de rodas no bar perto do sítio. Quem se lembra?
Doze milhões de dólares ficaram ao cargo de Troble, seu pequenino cão maltês branco - e juro que o nome não significa nenhum trocadilho. Ainda.
Dez pratas para o irmão, Alvin. Cinco pratas para dois netos, David e Walter. Três milhões reservados para o túmulo de Trouble, que assim poderá ficar ao lado da amada dona em seu mausoléu tempos depois do último bife.
Outros dois netos, Craig e Meegan, por razões "por eles conhecidas", ficaram nus com a mão no bolso. Zerinho, como diria o inesquecível Jorge Curi.
Troble nem sabe, mas está diante de um problema. E, com sua fortuna, não tem autonomia para contratar seguranças, posar em revistas de celebridades ou mesmo torrar tudo em drogas. Menos ainda, tornar-se o "Rei Canino da Maldade".

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É a livre iniciativa, a falsa libertade econômica. Afinal, todos podem tudo - desde que tenham grana. Quem não tem, vive a também falsa realidade empregatícia - ou morre de fome.
É razoável que Craig e Meegan sejam osso duro, sem trocadilhos nem problemas. Ou então, apenas vítimas da perversa Rainha da Maldade. Não deve ser fácil ficar de fora dum tutu desses; se foi por maldade, então, caso de excelência plena. Para o lado ruim.
Quanto a Trouble, minhas sinceras considerações. Espero que seja um cão feliz.
E que jamais seja capaz de entender que mundo é esse no qual vive, onde uma mulher deixa de herança doze milhões de dólares para um cão maltês.
As pessoas riem, acham graça. Do mesmo jeito que riem quando se fala em atenuar a miséria das gentes em locais como o Brasil, por exemplo. Programas como o "Bolsa-Família" podem ser interpretados como mero assistencialismo, é natural - claro, de quem não sente fome e, em seguida, priva-se de comer por falta de dinheiro. Tenho certeza de que há erros. Certeza. E famintos, também.
Saber que menos gente morre de fome no Brasil é uma fagulha de esperança, pequenina e talvez vã.
Esperança, já não tenho é num mundo cujos dinheiros são acumulados como o da Sra. Leona Helmsley. O mundo da livre iniciativa.
Americanos também morrem de fome, vide Nova Orleans.
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Foram embora quase quarenta dias depois do trágico acidente da TAM, em São Paulo, que vitimou ao menos duzentas pessoas. Já se falou de tudo a respeito. Ainda é preciso averiguar e analisar para que se possa estabelecer culpas; contudo, até agora, os únicos a gozarem de isenção - merecida, pois - foram piloto e co-piloto da máquina de voar. Isentos porque, ao que parece surgir no horizonte, o show de trapalhadas entre os responsáveis pela aviação brasileira tem forte correlação com o genocídio anunciado.
Fala-se pouco do assunto. Não é mais manchete que chame atenção para angariar receitas de vulto. De toda forma, durou bastante. Era preciso, sabe-se.
Ontem, outra tragédia anunciada aconteceu. Morreu menos gente do que em São Paulo, bem menos. Mas morte não é mero algarismo, número que se risca. Basta perguntar aos parentes dos mortos em qualquer ocasião.
Bateram dois trens, em Japeri, quase o fim da linha. Terra de humildes, pobres. Nada de malas e bolsas, apenas sacolas de mão, uma ou utra mochila e muitas carteiras sem moedas.
O noticiário chamou-me a atenção: foi intenso, de momento, mas escasseando no passar das horas. Dá a impressão falsa que os mortos de Japeri são "menos importantes" do que os de Congonhas.
Curiosamente, ontem era dia de manchetes sobre a possível construção de um trem-bala ligando Rio de Janeiro a São Paulo, percurso de uma hora.
A malha ferroviária brasileira segue à míngua, mesmo com privatizações.
No Rio, certas estações nem cobram passagens, pois traficantes as dominam livremente.
A situação dos trilhos é caótica.
Alguém disse na tevê, e bem ouvi, que o trem, "meio de transporte mais seguro", provocava medo em usuários.
Trem? Não era o avião?
Bem que eu sempre desconfiei desse negócio de estatísticas.
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"Cansei!", o movimento de pessoas cansadas e ávidas pela mudança geral do Governo Federal, ainda não se pronunciou sobre os mortos de Japeri.
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31/08/2007

Wednesday, August 29, 2007

Pim-pá-pum

era um traque mequetrefe, somente
do tipo pim-pá-pum
pum-pá-pum
parará-tim-bum-bum
e parecia tourada em Madrid

Paulo-Roberto Andel, 29/07/2007

Tuesday, August 28, 2007

Dark side Copacabana

quando todos preferem
o azul celestial de Copacabana
sucede-me querer o contrário

sei da terra ser linda em todos os dias ensolarados,
mas também enxergo beleza noutros caminhos

meu caminho é o da noite
a longa noite, sem ledo engano
a noite firme, de mar em pranto
banhado pelo espelho negro

há noite, sempre noite
onde areia da praia é poeira de estrelas,
é o mar da tranquilidade
enquanto a mocidade troca dedos de prosa
aos pés das traves
e a ganja ligeira repousa ao sabor do vento
vão-se os meninos da cola ao longe
os homens de negócios, homens transformados
garotas imersas em árdua vida
e a fidelidade canina ao largo, ao tempo

todos querem Copacabana cintilante,
falso brilhante

respeito toda a beleza do celeste
mas o meu real interesse, o importante
é pelos velhos retratos em branco e preto
o preto profundo em mistério incandescente

eu quero o preto da noite,
a longa noite, o longo preto da noite
que me sirva de contraprova
à toda felicidade que ainda não vi

paulo-roberto andel, 28/08/2007

O sonho em grãos

o sonho não é somente para sonhar,
mas também para ser vivido
mesmo que somente no abstrato

o sonho é também para ser desejado,
cobiçado, jardim de conforto
feito os seios da mulher amada

o sonho é a vida na mesa do bar
enquanto escorre a conversa boa,
verdadeira e rara por entre os hojes

o sonho é casa de elfos e poetas,
de cítaras doces entre os timbaus,
de vivas vozes em canto audaz

ele, o sonho, faz do caos a paz
nele, dois são sós, céus têm fim
na farta aquarela do Algarve,
de Amsterdã e também Niterói

ele é águia dos asfalto, rasante,
voando rente às nossas cabeças,
flanando pela cidade gigante
roçando ventos do Atlântico Sul

o sonho é beijo, é cansaço
é dor de amor e pena, cativo

ele é matriz na matemática
com seus espelhos, inversões

o sonho descansa de si mesmo,
enquanto cansa de mim, e dorme,
dorme o sonho dos quase justos

morrer, de fato, o sonho não morre

apenas desfaz-se, amolecido
tal como rosa d'areia no vento
desfolha-se em grãos

em

vão

paulo-roberto andel, 28/08/2007

Thursday, August 23, 2007

O talho

por um momento
deparei-me com um talho na flor

dele, vinha incerto jorro
feito o de uma veia aberta
sangrenta

fosse chuva, era a cântaros

fosse tráfego, inevitável rush

por um momento
saltava a meus olhos um naco de cor
verdejante
esmeraldina bandeira

tomava-me de assalto tal qual
bandido fugaz

quando estendi a mão
para deliciar a flor

deparei-me com a fantasia
a perda
o vazio do nada

o nada do talho, o nada de flor

tudo mera ilusão
imaginário desejo
que, por vezes, vale a pena


vale a vida


paulo-roberto andel, 23/08/2007

Wednesday, August 22, 2007

O comodismo conveniente e a farsa da indignação

Amigos, as tardes voam breves e, em muitas semanas deste ano terrível, fomos testemunhas, cada um a seu modo particular, das mazelas do mundo, muitos mundos, o mundo Brasil também. Aos poucos, fomos nos deparando com queima de gentes, estupros, mortes banais, pilhagem aos cofres do Estado e também aos particulares, justamente os dos mais pobres - estes, fonte pagadora de dívidas seculares e desafiadoras dos mais firmes preceitos da infinitude matemática.
Dia desses, surpreendi-me com o chamado "Cansei", um movimento que, conforme pode ler-se no afirmativo, é de pessoas cansadas. Há momentos em que o Brasil parece ter oferecido tudo o que de mais surpreendente possa ser em termos negativos, até que vem uma escala maior de negatividade e bagunça tudo.
Naturalmente, reconheço que é saudável para a democracia qualquer movimentação nas ruas, desde que provida de ordem, respeito e fundamentos de natureza pública. Contudo, desconfio claramente do "Cansei".
Tenho minhas razões.
A primeira delas é que o suposto movimento demonstrou excesso de cansaço, ou melhor, descanso - esteve nas ruas pela última vez em 1964, o ano maldito, o ano em que começamos a perder 50 anos em 5, "Marcha com Deus pela Família e Liberdade". Depois daquilo, pareceram, os cansados, deitar eternamente em berço esplêndido e viveram felizes num mar de democracia e justiça social por quatro décadas e três anos. Quem se declara cansado depois de tamanho intervalo de tempo provoca suspeitas.
Outra razão é desconfiar da turma que posou no pantheon da liderança cansada: Regina Duarte (excelente atriz, com passado distante de causas políticas bastante interessantes, mas atuamente mais ligada à cúpula do neoliberal PSDB); Hebe Camargo (defensora, declarada fraterna e eterna amiga de Paulo Salim Maluf - síntese perfeita); Ana Maria Braga e Ivete Sangalo (quem?). Pessoa jurídica, a Daslu (abrigo profissional da filha do governador paulista, empresa envolvida publicamente com sonegação de impostos e complicações legais de comercialização). Como cereja do bolo, o presidente da Phillips, famosa multinacional que há décadas lucra nesta terra com o suor de brasileiros, alguns nortestinos e piauienses também, afirmando que "se o Piauí deixar de existir, ninguém teria falta" - na apoteose dos anos 30, um sujeito com discurso semelhante de exclusão varreu a paz e semeou a morte pelo mundo: Adolf Hitler.
Foram para as ruas, mil pessoas? Cinco mil? Não se sabe. Na melhor hipótese, cinco, trata-se de um número magnífico para a classe que representam. Vinte mil famílias, ou cerca de cem mil pessoas, são donatárias de 74% dos títulos da dívida pública brasileira. Não é irreal afirmar então que cinco por cento da elite econômica brasileira movimentou-se pelos arredores da Avenida Paulista. Imagens televisivas flagraram transeuntes vestidos com camisas cansadas, xingando Lula, o presidente, de "ladrão" e "vagabundo". Neste momento, percebi que, apesar da ditadura disfarçada que vivemos pela opressão da distribuição de renda, há democracia: lembrei-me de certo embate, há dez anos atrás, que o presidente FHC travou contra um estudante secundarista no programa de Sergio Groisman, chamando o garoto de "ignorante" e "que não sabia de nada". Não houve um palavrão, nada - tratou-se apenas do então presidente, acostumado ao poder e às benesses que sempre desfrutou, na condição de descendente de tradicional família ligada ao generalato brasileiro, irritar-se com questionamento comum. Imaginou que, por ser presidente à época, deveria encontrar adolescentes cabisbaixos pedindo-lhe bênção. É curioso imaginar o que faria se estivesse no lugar de Lula, tola elocubração minha porque isso jamais aconteceria: a turma cansada gosta de FHC. E o inverso talvez justifique o ato: simplesmente não gostam de Lula. Incômodo com suspeitas de desvios públicos, nunca tinham apresentado até então, ao menos durante o período de descanso - basta verificar as contas nacionais entre 1964 e 2007, para saber que, se cansados da "vagabundagem" do governo, poderiam ter pisado antes nas calçadas da Wall Street brasileira.
Votei em Lula, mais de uma vez. Fui eleitor de Leonel Brizola por muitos anos, e ainda sou adepto da causa trabalhista fincada com os pilares dele, Brizola, mais Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, o que me dá respaldo para questionar vários posicionamentos do PT. O Brasil que vejo nas ruas é muito distante de tudo o que sonhei quando era criança. Há falhas, problemas e o mal-estar do chamado "mensalão" (que se, comprovado, levará a caminhos tortuosos muito anteriores à posse de Lula) incomoda qualquer cidadão de bem. Sabemos que este é um pais em busca ainda de longa construção, a longa noite. Mazelas, aquelas lá de cima, não nos faltam.
Agora, o que esse Brasil "cansado" tem a me dizer? Viemos de 1.500, falam como se a república fosse datada de 2003.
Para os que enxergam a causa social com obtusa miopia, basta "pagar impostos" e tudo está resolvido: o Estado e a sociedade devem servir aos neo-feudalistas como serviçais. "Pago, portanto exijo". Neste momento, afastam-se do amor ao próximo; das religiões que, vez ou outra, defendem enfaticamente; da vida real, nas ruas, que não depende somente de compras sofisticadas ou ingressos VIP para aplaudir a melhor cantora de axé do país - seja lá o que possa significar isso.
A verdade é que, a passos curtíssimos, para alguns milhões de brasileiros, a tortura de sobreviver diminuiu. Que seja um fiapo, mas aconteceu. Reitero que há muitos erros, e que bons e pequenos passos não devem servir de justificativa para assalto aos cofres públicos. Contudo, o fato é que, para muita gente (em cujo grupo não me incluo como beneficiário) o Brasil ficou menos ruim.
Eu imaginava ouvir coisas da tal passeata como "Baixe os juros!" ou "Analise a questão das células-tronco!". Nada. Era "Vagabundo!", "Safado!", "Pilantra!", "Fora, Lula!". Desnecessário e baixo. Não me pareceram indignados com um "paraíba", expressão antiga que, em São Paulo, equivale a "baiano" - afinal, já tivemos o maranhense-amapaense (e "imortal"...) José Sarney como presidente. Um dos mais influentes políticos brasileiros dos últmos cinquenta anos (com tudo o que de ruim que isso possa significar) foi o notório ACM. Pronto, dois filhos da terra nordestina. Apesar de que.... não advieram da parte mais baixa da pirâmide social - e as reações destemperadas talvez possam ser justificadas por isso.
Não votaria em Lula para um hipotético terceiro mandato, se vislumbrasse alternativas razoáveis para a governabilidade brasileira. Tenho dúvidas sobre os candidatos que venham a se apresentar.
Estou certamente triste com muitos acontecimentos deste governo. O Sivam, o escândalo da reeleição de 1998, a decuplicação da dívida pública que tanto interessa a cem mil pessoas dentre os cento e noventa milhões de brasileiros, o impeachment, tudo isso também trouxe-me cargas de mágoa no passado. Estranha-me que não se comente sobre isso em nenhum lugar.
Contudo, não posso fazer papel de bobo ao acreditar na balela de que a classe mais privilegiada do Brasil, desde sempre, tem algum interesse em impichar o presidente para fazer algo de realmente positivo para toda a sociedade, sem olhar para o próprio umbigo. Tiveram a faca, o queijo, a goiabada, a colher e o suco de caju nas mãos. Nunca usaram sequer o guardanapo.
Negar os erros de qualquer governo não deveria implicar em aliar-se com a escória moral do país para qual causa fosse.
Somos uma nação plenejada para a desinformação, a docilidade em afagar os afortunados tal como os índígenas faziam com os exploradores portugueses. Tudo foi tramado para isso. Tudo foi planejado para que o stablishment jamais fosse ameaçado. Hoje, muito sofremos por causa desta herança maldita.
Se vivemos hoje uma situação perversa, é claro que a classe política tem toda culpa. Mas não é a única.
Partes da sociedade brasileira vêem com bons olhos a ignorância popular, associadas ao comodismo conveniente e às farsas de indignação, por vezes reveladas pelos "cansados".
Eu estou cansado é de gente sem coração, que sonega, não gera empregos quando pode e prefere ganhar com a especulação, não distribui renda quando lhe cabe, que não impede a livre circulação do tráfico porque tem a lucrar com isso. Lucrar, lucrar ao máximo com investimento mínimo. Livre iniciativa, desde que tenham as rédeas da situação - competição, jamais.
O Piauí é mais importante para mim do que Miami ou Manhattan.
E, sinceramente, fico orgulhoso quando leio declarações de Chico Buarque e Oscar Niemeyer, e constato que muito o que eu comentei acima tem a ver com o ideário admirável deles.
Paulo-Roberto Andel, 22/08/2007

O poeta de ferro

o poeta não falha
o poeta não dorme
e sequer se arrepende

não tomem o ledo engano
da aparente mudez
é nas palavras escritas
que o poeta vive e suspira
alimentando desejos
o poeta atravessa as nuvens
e as travessas de calçada
com asas de frases
e ases de quatro naipes

ninguém é de ferro, exceto o poeta
que flana tranquilo
de costas à brisa
e doce desdém ao Atlântico
leve indisciplina
contra o mar da Guanabara
dá de ombros, infalível
espera o vir da vida à frente
o poeta não cala, nem dança
pois ali, ao certo léu
ele faz-se a própria música
o próprio sopro de vida
que chamamos poesia

o poeta não falha, nem dorme
o poeta não morre
faz-se vivo e rijo
feito os ferros de seu corpo
seu sangue
sua imagem que jamais se desfaz

Paulo-Roberto Andel, 20/08/2007

(homenagem aos 20 anos da passagem de Carlos Drummond de Andrade)

Atado

ate-me a teu corpo
com a mais forte das cordas
que faça sulco nos seios
e aperte de ancorar
oxalá

marque-me em teu peito
feito cor de nova tatuagem
duradoura, fascinante
fazendo bodas na pele
oxalá

beba de meu encanto
calor d'ardente dezembro
que ferve com todo gás
todo fogo, desejo e gosto
amém


paulo-roberto andel, 20/08/2007

Wednesday, August 01, 2007

Dos ojos en la ciudad

Dos ojos en la ciudad
apuntan intento su sonrisa y su color,
en ellas, se zambulle y percibe
el escarlata uno de su boca
entre un momento allí y otra de sus palabras
hay, el mundo sonríe y grita
los pasos de la gente aquí precipitados
en el lado del mar

Una coca nueva es bastante a mí
y la mina de los ojos en ciudad
está mirando la suya mejor sonrisa
la mejor boca del escarlata
dos ojos son los míos, solamentee busca su sonrisa
me da su escarlata uno
haga de mi amanecer que el sol que fija
perpetuo recomienza


Paulo-Roberto Andel, 16/07/2007

Tuesday, July 31, 2007

Para Bergman e Antonioni

Inevitável é a morte. Vívida num dia de sol, enluarada pelo negrume da noite vã, alvissareira numa tarde outonal, ela é sempre presente. Sabemos disso, é a sina. Contudo, certas gentes deveriam ser proibidas de morrer, bem disse um intelectual em certo livro de minha cabeceira. Dia desses mesmo, falei de minha maravilhosa mãe, que está presente em todas minhas vistas, mas inalcançável ao tato. Agora entendo a lógica de se chamar o homem de "pobre mortal". Vivos, estamos mortinhos quando nosso amor não está mais ao alcance das mãos, ou do corpo, conforme cada caso. Minha mãe deveria ser banida da morte. Meus amigos Magno e Xuru, idem. Tom Jobim, também. John Coltrane. Por que o Lennon não era à prova de balas? E onde estava o Superman, que não desviou os aviões do Osama ou segurou o da Tam? Tim?
Mal começou a semana, a última julina, com agostos à beira, dois homens seguiram a tempestade: Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. Desde que a terra é terra, em poucas vezes uma semana começou tão derrotada. Foram embora dois gigantes da arte, cada um a seu modo, Bergman poucos anos mais novo que Antonioni, um dos ídolos do sueco.
Faziam cinema. Realizavam mágicas, essas coisas de se colocar uma visão duma historieta qualquer e fazer o ser humano pensar, pensar. Refletir. Sonhar.
Não foram poucas as gerações pelo mundo que deixaram-se impregnar pelo aroma magnético do cinema - e, se aquele mesmo mundo mudou um pouco para pior, é porque talvez tenhamos menos cinema nas veias do que deveríamos. Bergman e Antonioni eram sangue arterial, para alimentar corações e mentes. É certo que beiravam o centenário, mas... e daí? Niemeyer segue firme e forte desafiando convenções, homem de dois séculos. Poderiam ter ficado mais um pouco, o ítalo e o nórdico. De toda forma, alcançaram objetivos raros: viver da beleza e da poesia, construir o que realmente significaria uma obra, uma carta para a posteridade, muitas.
A perda é inevitável, não cabe constestação. Porém, um constrangimento fiel me vem à cabeça, como de algumas outras: a obra dos sujeitos fica, é permanente, mas sabemos que novas não virão. Quem fica no lugar deles?
Há quem diga que ninguém é insubstituível. Desconfio dessa frase. Creio ser mais apropriada qando ela refere-se aos humanos como números: um CPF, um título de eleitor, um transeunte, um paciente. Generalidades. No particular, não funciona.
Alguns personagens perdidos são lacunas eternas.
Como se repara o irreparável?
Eles faziam cinema.
Paulo-Roberto Andel, 31/07/2007

Monday, July 30, 2007

Mãe

Hoje, tudo o que eu disser, ou dissesse, seria de absoluta miséria para definir o valor de minha mãe.
Estivemos juntos por trinta e oito anos e meio. Só deixamos de nos falar em dias dos tempos que eu era escoteiro, acampava e nem sempre um telefone de fichas era disponível, coisa de outras primaveras, outras palavras. Nos vinte anos seguintes, sempre, todo dia, seja qual fosse a distância.
Minha mãe é digna de um livro. Não por me dar a vida, mas pela pessoa maravilhosa que foi e é. A ética. A bondade. O caráter. Tudo em doses cavalares como jamais vi em nenhum outro ser humano nesta terra - e cabe lembrar que o que não me faltam são amigos de valor intergaláctico. Fui testemunha das gentes que abrigou em nossa casa e tirou das ruas; dos dinheiros sofridos que, muitas vezes, foram para famintos a quem mal ou não conhecia. Atitudes.
Quase todo mundo tem a melhor mãe do mundo e isso é justo. Minha única vantagem foi também ter a melhor mãe do mundo e morar quase quatro décadas com a melhor pessoa do mundo, a mais sincera, a mais bondosa, a mais carinhosa, não apenas comigo.
Fui um bom filho, mas não consegui fazer por ela dez por cento do que sonhei. Com o passar dos tempos e a idade, ela deixou de ser mãe e passou a ser minha filha, amiga de sempre.
Duas ocasiões definem bem quem ela era. Aconteceram nos últimos anos.
Certa vez, numa noite de janta, conversei com ela como era legal ter uma cama de casal pois, independentemente do casamento, pode-se rolar à vontade. Dado que morávamos em um diminuto apartamento e eu nem quarto tinha, certamente não era possível a compra.
Para mim.
Para minha mãe, nada que significasse o bom estar do próximo era impossível.
Dia seguinte, chego em casa e me deparo com uma cama de casal. Na sala. E daí a funcionalidade da casa, a beleza, a arrumação? Para minha mãe, o que importava era meu bem estar.
Outro acontecimento foi há poucos meses, ano passado. Estávamos na cozinha, eu assava um frango, e brincávamos com o triste fim do penoso na alta temperatura do forno. Ao tirá-lo para cortar, ela fez a voz de criança de sempre, para falar baixinho "Pobre frango, eu te peço mil perdões, mas é que você é muito gostoso...". Rimos e, algum instante depois, ela tinha lágrimas nos olhos. Era brincalhona, mas estava mesmo com pena do frango.
Quem a conheceu, soube quem era a maravilhosa pessoa. Quantos de meus amigos não receberam suas rezas, em terço, para que voltassem bem às suas casas, depois da discoteca?
Quem vê fotos do passado, assusta-se em saber que uma mulher era tão linda quando jovem e tão generosa simultaneamente - não por coincidência, o nome de minha avó materna, a quem não conheci.
Generosa.
Não tenho crenças, mas é bom ter a esperança de ser um tolo, um burro, de tudo estar errado e, um dia, poder reencontrar minha mãe.
Eu explodiria em qualquer avião ou torre gêmea mil vezes se tivesse a certeza dessa possibilidade.
Eu amo minha mãe.
Hoje é meu aniversário, e de minha mãe também.
Vinte e seis de julho. O dia em que nasci, e que tenho morrido todos os dias.
Paulo-Roberto Ândel, 26/07/2007

Tuesday, July 10, 2007

Cracks da pelota
Duas voltas e meia, surpreendo-me com a velocidade dos tempos, da vida.

Outro dia mesmo, eu lembro de ter vivido o dia mais silencioso de toda a minha vida. Tinha quatorze anos, era um menino.

Cinco de julho de oitenta e dois, assim me permitam. O fatídico dia em que o Brasil, pátria de chuteiras em campo, perdeu para a garbosa seleção italiana. Falecido estádio Sarriá.

Algumas coisas devem ser levadas em consideração sobre aquele capítulo peculiar da história futebolística mundial. Primeira delas, a mais fácil – embora nós, brasileiros, com algum sentimento de “superioridade” para compensarmos as mágoas de um país que não deu certo, não tenhamos tanta facilidade em ver: a Itália, naquele dia, foi melhor e ponto. Talvez jogasse contra o Brasil seiscentas vezes e perdesse quase todas, exceto a daquele dia. Difícil encarar, mas os ítalos mereceram.

Segunda, bobagem dizer que “venceu o futebol-força”. Naturalmente, a seleção brasileira vinha de um momento encantador, jogou dois anos e perdeu apenas três vezes. Nós tínhamos um timaço, sim. Porém... Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Antognioni, Conti, Altobelli e Rossi eram excelentes jogadores também. Nosso conjunto era mais bonito, só que eles também tinham talento, embora bagunçado até então. Foi a única vez em que a seleção de Telê tomou três gols – na verdade, quatro, dado que Mister Abraham Klein, o árbitro, descontou mais um da Itália no finzinho do jogo.

Terceira, a terrível má interpretação que se criou pelo fato de que, se o “bonito” perdeu, que se louvasse o “feio”. Graças a esse erro patético, criou-se o assustador termo de “volantes de contenção” – tudo para esconder verdadeiros assassinos da bola, priorizando-os em vez dos verdadeiros jogadores de futebol, os que sabiam da pelota, os craques. Meu time de botão daqueles tempos tinha o Falcão de volante, e bastava.

De lá pra cá, foi terra que girou.

Acabaram com a União Soviética, o Muro de Berlin, uma considerável parte do Brasil, não deixaram nada no Iraq.

Matou-se e morreu por muito pouco, quase nada.

Hoje, brasileiros que somos, temos celulares, comunicação, internet, desenvolvimento. Porém, assim como era o bife nos anos cinqüenta ou o carro nos anos vinte, para poucos. Para quem tem dúvida, basta abrir a janela do carro.

Chegamos até a ganhar Copa do Mundo outra vez, uma quase feia, outra quase bonita. Nada que chegue aos pés de México 70. Nem ouso falar de Chile e Suécia.

Aquele bendito jogo teve sua mágica, o do Sarriá.

Até hoje, pelos campos da vida, eu fico procurando destroços daquele dia, como um passe, um drible, uma jogada, um corta-luz como esse que o Dodô fez outro dia, antes dos homens da lei o embargarem, o tal do doping. Se Sarriá fosse um desastre aéreo, estaria eu pelas matas do futebol a tentar resgatar um relógio, um pedaço de papel, qualquer coisa que significasse vida naquela maravilhosa e curta trajetória.

De vez em quando, acho. É difícil, mas acha-se.

Nem precisa ser nas vitórias do meu amado Fluminense. Não temos mais os times de antes, nem teremos: os empresários e cartolas dilapidam tudo em questão de meses, ou semanas. Qualquer dez míseros bons minutos de uma partida valem.

Naqueles tempos de Rossi, eu fazia oitava série. Por semanas, é claro que o assunto da velha escola tratava do velório nacional. Velório do futebol? Nem tanto. Fizeram – e fazem - de tudo para enterrá-lo, com autoritarismos, golpes, bajulações, desvios. Não adianta.

Chegava em casa, certo muxoxo, minha querida mãe falava pra ir jogar botão, bola, aquilo tudo passava. Passa rápido.

Vinte e cinco anos depois, tem jogo hoje contra os uruguaios. Essa marca vem de cinqüenta e sete anos, do gol de Gigghia, faltava muito ainda para eu nascer. Contudo, sei da força daquela história – um ano antes do Sarriá, perdemos o Mundialito em Montevideo, e vi muita gente de cabeça baixa na segunda-feira seguinte.

Agora, Copacabana deserta, sem gente, sem carro na rua, só no dia do 3 x 2.

Tenho saudades da escola.

Tenho saudades da minha mãe.

E muita saudade daquela derrota, porque nos dias seguintes, tudo o que eu e os outros garotos pensávamos era que a Copa seguinte seria nossa, aquele futebol era indestrutível.

Os tecnocratas de plantão impuseram por decreto a regra do futebol-força. Independentemente de qualquer resultado hoje ou amanhã, Robinho e Riquelme, por exemplo, estão acima disso.

Se for o caso, melhor perder a Copa América jogando mal do que vencê-la. Os louros da vitória às vezes enganam. Dunga, o treinador, diz que os que jogam bonito podem ficar vinte e quatro anos sem vencer uma Copa do Mundo.

Os bons italianos, de 1982 até 2006, também esperaram os mesmos vinte e quatro anos. E não convenceram.
Vida canina

a porra
do postelétrico
pôs luz na dura
tez do mendigo
frito na calçada
de cara assutada
que
ali somente
precisava dum instante de trevas
um minuto de silêncio
amém

paulo-roberto andel, 09/07/2007
Lira carioca

o carioca
varre a tristeza para debaixo da ponte
e sobe a favela em busca de chão
o carioca
é o petisco de carne na feira de sábado
enquanto não encara o engarrafamento
da avenida rio branco
uma nova passeata
com restos mortais de chocolate ao chão
o carioca
é o fãnque no pagódi que deságua
em dia de jogo no maracanã
e segue entrincheirado, tenso
fugindo das balas perdidas
por meio de um pôr de sol mais felix
o carioca, tão carioca
segue vivo no rente sorriso da mulata,
enquanto tenta escapar da multa,
imerso no doce lamento do chorinho
entre cândidos temas
o carioca reza esperança
mesmo que seja a da mão de mãe
estendida na calçada, desesparada
o carioca plagia o gato
e abusa de sete vidas, sete anos
em mesa de bar, numa noite
até que a madrugada nasça leve
e seja premissa de boa companhia


paulo-roberto ândel, 25/05/2007

Wednesday, July 04, 2007

Para a moça do retrato

recordei subitamente doutros tempos
quando meus olhos eram firmes e atentos
eles saboreavam um álbum de retratos,
cheio de imagens antigas,
daquelas que inundam corações
eram meus olhos atentos, quase molhados
eram distantes dos amigos ouvidos,
distraídos com o violão duma moça do norte
foi então quando também me distraí
os acordes também vieram aos meus olhos
atentos e molhados
vidrados noutra moça doutro retrato
a moça era linda
a moça era doce
ao meu alcance, a moça era morta
para meu coração alagado
tudo era vida em todo acorde
toda foto, todo violão do norte


Paulo-Roberto Ândel, 01/07/2007

Friday, June 29, 2007

Retrospectiva

Tempo, escasso artigo
Que não se vende em lojas
E nem briga com sold out
Numa vitrine vazia

Tempo, néctar de vida
Forte cachoeira d’alma
Cálice de pátria em paz
Raro feito fosse Deus

Tempo, desperdiçado
Em quandos inúteis
Engarrafado no trânsito
Atrás dum porém, um todavia
Outro advérbio qualquer
Outra reticência inevitável

Pessoas perdem tempo
Com seus desamores
Suas friezas impertinentes
Dinheiros rasgam tempo
No ceifar de vidas
Pelo preço de nada
Misérias choram por tempo
De sobreviver, de regenerar
E dor só quer clemência
Quando estende a mão sofrida
Nos pés burgueses, indiferentes
Deslizantes na grande avenida, vazia

paulo-roberto andel, 29/06/2007

Amore

hoje que te quero agora
quanto que te quero muito
quando que te quero sempre
onde que te quero toda
longe, não te quero longe
nua que te quero em pêlo


paulo-roberto andel, 29/06/2007

A noite fria

a noite fria,
lúcida e fria
não é fiel para o fondue dos namorados
nem tem luar alumiado
para as meninas que jogam o vôlei
na rua montenegro

a verdadeira gélida noite
avassaladora noite
dorme quase abandonada
exceto por alguns meninos
que são promessa de mendigos
pequenas grandes testemunhas
imersas no cálice amargo do caos
que derrama por todo horizonte

ainda acordada
toda noite beija a lua em toda fase
parecem delícia de feliz casal
mesmo que nem sempre
enquanto isso, o mundo vilão, cru
mata e morre na casa ao lado


paulo-roberto andel, 29/06/2007

Tuesday, June 26, 2007

Uma terça de junho

Corre o bom da tarde, imagino.
Hoje é uma terça, terça-feira de um junho qualquer. Não há maiores sinais de frio ou chuva. Já vivemos o inverno, em termos cronológicos apenas.
Nem tão qualquer assim. Uma terça-feira do fim de junho. A última, deste junho. Outras virão, talvez.
Lá fora, pessoas vão vivendo e morrendo antes da novela das oito, do caos, do rush, da violência barata que justifica agredirem uma empregada, uma trabalhadora, num ponto de ônibus, por parecer uma prostituta. Televisão é alguém mentindo, pode notar a imagem de algum canal disponível.
E quem parece prostituta? Todo, todas.
Creio que, antes do primeiro gesto, da primeira voz de encontro, somos todos pretos e brancos, simples e difíceis. Prostitutas e recatadas, enfezados e dóceis. O resto, noves fora, nada. Vem depois, ao longe, longe de outras estações.
Numa terça nem tão vulgar quanto eu poderia supor, bons e maus se enfrentam, debacle que leva aos fins, as mortes.
Neste momento, sou cercado de paredes alvas, com algumas manchas. Um computador à frente, velho amigo. Não há janela. Perto, alguém opera alguma máquina de porte. A porta, cerrada.
Nenhum disco tocando, nada de jazz ecoando. Barulho de plástico e lata nos arredores é sinal de que, em breve, a moça da limpeza virá por aqui para recolher o lixo. Lixo. Produzimos muito lixo. Papéis, textos, embrulhos.
Nem telefones, nem e-mails. Nada de urgente.
O silêncio me faz pensar nas coisas que perdi, nas gentes que nunca mais vi, dos problemas e quase soluções, do futuro. Nada.
Minha mãe fará aniversário daqui a um mês. Ou faria, não sei ao certo.
Dentro de horas futuras, é provável que esteja num bar de Copacabana, sorvendo goles do chope dourado da felicidade, com alguns amigos. Coisa mais para a noite.
Neste exato momento, sinto-me bem, mesmo com o silêncio.
Trata-se de açucarada e temperada solidão. Por vezes, tão temida, agora muito desejada.
Eu e meu silêncio. Eu e meus pensamentos. Eu, repleto de mim e, por isso mesmo tão só.
Um barulinho de plim invadiu a sala. Mandaram um e-mail.
Interromperam a delícia de minha solidão.
Estraga-prazeres.
A vida segue.
Paulo-Roberto Andel, 26/06/2007

Wednesday, May 30, 2007

Casa

dentro do peito, carrego uma casa
que é tua, tão tua que parece nua
não importa se teu mar agora é outro
se a madrugada tem outro namorado
não importa quem me toma pela mão
ou quem te guia na friagem da noite
a casa é tua, sempre e somente tua
quando a deixas vazia, por certo tempo
acontece efêmero e modesto inquilinato
mas é tudo tão passageiro, temporário
a casa é tua, tão nua que parece crua
quando deito cansado, na escuridão
enxergo apenas as luzes da cidade alta
que abrem passagem para tua imagem
e recordo dos teus olhos adolescentes
a formosura do teu corpo em repouso
deitada em berço esplêndido, róseo
tão nua e crua como a casa que é tua,
carregada pela solidão do meu amor


Paulo-Roberto Ândel, 22/05/2007

O nada

eu era um zero
na ponta direita
no meio do nada
oh, nada
lá fora, mundo girava
com suas penas, dores

era canto de janela
era riso de morte
na varanda, infarto
no coração despedaçado, esperança
eu era um meia-direita
na ponta do nada
cantava amor e despedida
enquanto era chuva na relva
oh, fato
lá fora, mndo girava
cá dentro, desmilinguia
parecia um domingo cinza
antes da noite mais longa
que bem podia negar o que via
era vida vazia, derramada
a garrafa de vidro sem gás
era turma desamparada
mal-aquinhoada aos vinténs
desacreditada merda


Paulo-Roberto Ândel, 20/05/2007

Das pedras que rolam

por vezes, as pessoas relutam em mudar
por conta da natureza humana, conservadora
parece natural manter tudo em seu lugar
eu, contudo, oponho-me com veemência
acredito na importância da mudança
não se trata de rasgar as convicções
mas sim a saudável alternativa de mudar
feito o vivenciar de um novo pleno amor
feito o escutar de uma nova música
ler e ver outras coisas, personagens
até mesmo desfazer o rol de inimizades
a mudança renova o viço da vida
e permite novos enfoques, perspectivas
modificar detalhes, reparar nuances
viver a vida de outros outros modos
mesmo que signifique encarar espinhos
e deixar pelo caminho o que muito se amou
eu mudo a cada instante, cada mudança
e mudo, renovo incessantemente
eu mudo para não ser pedra com limo
feito certa poesia que definiu o mundo


Paulo-Roberto Ândel, 11/05/2007

Friday, May 25, 2007

Teus olhos

ao fundo, dorme o encanto da noite
e as águas beijam o ligeiro d'areia
durante o vaivém da baixamar
a praia, hoje quase deserta
é repleta de luzes da cidade
é moldura ideal dos teus olhos
que emanam faíscas enluaradas
e fazem conjunto com tua tez
da cor, não sei dizer os nomes
duas ágatas? ametistas?
jóias, quase garanto que são
feitiços do mar de copacabana
teus olhos, vivos, flamejantes
que remetem-me a certo dia
onde tudo era mais que uma vez,
onde ipanema era de pedro brito
sucedeu um acontecimento
e daí aprendi o que era beleza
tal como hoje, ela brilhava madrugada
morava nos teus olhos

11/05/2007

O dezenove

eu, pequeno e frágil de vida
tomava os bondes apinhados
e, repentinamente, encantava-me
pelo ponto chic, pela estação da luz
e a famosa avenida de são joão
foram idas e vindas curtas,
rápidas como nossa vida exige
todas desembocavam idênticas
na mesma noite, no mesmo mar
na mesma vista do palácio
eu, pequerrucho de vida
desfraldava meu coração à toa
mas fazia escoar toda dor e miséria
quando era um dezenove qualquer
onde parecia desesperança,
cerrava meus olhos de jabuticaba
ao abrir, copacabana era meu afago
eu era um dezenove qualquer
e o mundo sorria, quase falso
era um mar que só chacoalhava
terra firme, só copacabana

06/05/2007

Luciene

veio-me certa canção de trás dos montes
ela me falava de um bem que se quis
foi doce a voz que me serviu de trilha
enquanto via, saudoso, na lembrança,
a imagem da moça no teto fosco de gelo
via seus cachos, nos arredores, fartos
tangenciando o vigor dos olhos claros
e toda a formosura do nariz itálico
via o alvo e belo corpo de maios atrás
enquanto as frass da canção corriam
misturando-se a outra delicada voz
de tom suave e inabalável leveza
mais que isso, eram meus os céus
em toda rua de são francisco xavier
a turma do metropolitano no lanche
pelas vielas da dias da cruz, santa
quando a canção tomou encerramento
temi pelo desaparecimento da moça
mas era engano, era mais que bela vista
era bela como sempre, européia
não sei onde mora, com quem anda, solta
ando meio desligado

06/05/2007

Friday, May 11, 2007

O berro da estátua

Escrevo porque não me basto
É preciso espalhar-me em letras
Para compensar os fonemas
Que rumino diariamente
Enquantos os ouvidos são expectadores
Imersos no mais profundo desdém


Paulo Roberto Andel, 11/05/2007

Monday, May 07, 2007

NYC

faço-me nativo da noite chuvosa
enquanto a Bahia é Guanabara
ao longe, ouço rufar de tambores
ecoando de New York City

lá, certo mendigo dança reggae
ao mesmo tempo em que dois moços
afrodescendentes
relembram seus mortos de fome

os três ocupam a mesma calçada
onde se vê estampada bandeira
cheia de cores e vida, contrapartida
metáfora da paz entre iguais

existe um melodioso barulho, mutante
nas vias públicas de New York City
ele vem das buzinas e campainhas,
do ir e vir das gentes, todos os povos

desfilam um carnaval de nações
e fazem vezes de legiões urbanas
John Coltrane silenciou seu jazz
e Lou Reed pode parecer ausente

mas nada abala o calor de vida
da cosmopolita New York City
uma réstia opaca de sol a pino
ainda reluz em New York City

Paulo Roberto Andel, 07/05/2007

Destroços da liberdade

minha liberdade é tonta,
é bêbada e torta
escora-se pelos cantos,
pelas vielas baixas
e, num beco de curta saída,
vive entorpecida
para não encarar o vil,
a torpe realidade
minha liberdade é cidadã natimorta
realidade é a natureza morta
ausente da liberdade tão ansiada
e que só vive nos sonhos fugazes
desejos cristalizados quando sou tonto,
bêbado e torto, morto e vago
eu sou minha frágil realidade
e resta-se a singeleza do cárcere
estou isolado por grades que não se vê
e guardas que não se nota muito bem
um dia novo traz anunciação
estou cego para a alforria
tão cego quanto o abraço que promete
mas não me aquece
tão surdo quanto o beijo que se molha
mas não me deságua
eu sou minha liberdade


Paulo Roberto Andel, 04/05/2007

A poesia torta

é hora de subverter a poesia
torná-la simples, trivial
a poesia tem de ser plural
paratodos, valer a escrita
versos de amor e fé, construções arrebatadoras
tudo deve ser espalhado
repartido, compartilhado por todas mentes vivas
derramar poesia pelas praças, alamedas e travessas
cabe a poesia na porta dos botecos
e mesmo nas marquises mal-frequentadas
é tempo de subverter a poesia
para que sopre leve e faceira, mas intensa
feito a brisa de primavera
abençoando cada colo de mulher
cada corrida de criança a brincar
cada balão que fugir para os céus,
desamarrado e livre
tão livre como devem ser nossos sonhos
e nossa poesia
todos a céu aberto
namorando azul de atmosfera


Paulo Roberto Andel, 04/05/2007

Rascunhos

eis minha vida, em rabiscos
sobrescrita pelos cadernos
repensada, toda feita a lápis
com a sincera ingenuidade
que toda borracha apagaria
não fosse tudo ledo engano
pois o látex pode tirar a cor
ou o viço impresso no papel
mas nunca os vincos
pois o texto foi escrito com vigor
e as marcas beijaram com sede
a folha de caderno espiralada
são marcas permanentes
retratos de vida para sempre
no calor de beijo eterno
tatuagem que não se remove


Paulo Roberto Andel, 04/05/2007

Friday, April 27, 2007

Cotidianos

Vivo alternando os rasos e profundos
Malversando princípios e fins
Enquanto os meios são avenida principal
Sigo reto, torto
Perdido em minha ávida lucidez
Que namora afirmativas incertezas
Ofereço um bouquet delicado
Com doze rosas de vermelho intenso
Noutras vezes, sou gás mostarda
Napalm na mão, qualquer sinal
Quando vem uma nublada vespertina
Suntuosa entre os deuses da chuva
Saio cantando pelas ruas de Copacabana
Ensopado pelas águas celestes
Há dias em que faço imaginárias serenatas
Nas janelas das Alessandras, Tatianas
Uma Isaura somente, respeitosamente
Ao longe, vejo as caravelas de sonho
Que afastam-se do Leme rumo ao infinito
Vivo rente, em riste, rispidamente
E sigo o conselho de um grande escritor
Só me interessam as causas perdidas
Delas, não me arrependo; aquecem-me
Importante competir, ideal é vencer
Perder é recomeçar, reconstruir
Dedilhar o castelo de areia desfeito
Vivo muitas vezes, morro noutras, todos dias
Adormeço, invado pesadelos até renascer
Vivo de quandos, por enquanto
Sinto falta-me um portanto, conclusão
Estou longe demais da última estação
Do fim da linha, da viagem derradeira
E, por incrível que pareça a quem me guia
Quando tudo parece assustadoramente perdido
Sou feijão no meio do algodão, juvenil
Basta um copo de plástico barato de abrigo
Meio dedo d’água e vagarosamente floresço

19/04/2007

Thursday, April 05, 2007

Para o barco que não atraca

para esperar
um dia que nunca mais deve chegar
é preciso calar
costurar os limites das idéias
desimpedir quaisquer tristezas
é preciso falhar
para sorver a essência da vida
real

necessita-se de erros e zelos
apóstrofos e reticências sãs

para esperar
um velho samba novo de contagiar
é preciso acalmar
toda sede ansiosa de beber
água ardente que enxerga o prazer

precisa-se dançar
viver in natura a permanência do caos

algum dia a sorte pode chegar

enquanto isso, vamos vivendo,
tentando, respirando gerúndios
embevecidos de paciência
condescendência de saber esperar

esperar, desesperar, exasperar

esperar

Paulo Roberto Andel, 22/03/1998

Inevitável

desagrada-me ver em ti
melancolia pelo que restou
eu tenho um plano pra te fazer feliz
eu olho para o lado e só me falta abô
eu desconheco o além e não espero ninguém
para me dizer
o que eu não pretendo fazer
a minha velha forma de ser
cuidados que vou ter para viver

parar, jamais
eu sigo em frente
eu vou com o deus que me pede a mãe
de noves fora nada, de nove copas fora
somos eternos assim

eu te espero por aqui
de braços abertos pra te namorar
eu quero um beijo como minha retribuicão
por tudo aquilo que não te ensinei
e deixei de recordar
eu não preparo ninguém para contar

eu sigo em frente, sem você me carregando pela mão
das nove luas, nada
das nove noites, sonho

somos sementes de mim

Paulo Roberto Andel, 16/10/1998

Astronauta Carnaval

é assim que represento
acredito no impossivel
aceito o contrasenso

penso, vejo
acho que respondo ao teu anseio mais diverso
que troquei por outro amor

paro, caio noutra armadilha que insisto em perseguir
depois do sol me anunciar num feriado de segunda
quero deixar a tempestade à vontade, despudorada

é assim que me apavoro
a cada morte lenta, santa
anunciada na esquina da TV

caio, fujo, quase desconcentro
desaponto a velha classe ao pedir minha alforria
alegrar a noite fria, refazer um sonho bom

desencontro o lado mais claro da tua face imprecisa


Paulo Roberto Andel, 15/11/2000

Imbuí

é fotografia dos dias dispersivos
feito tempos do forte apache
imbui

aqui estou numa cúpula silenciosa
de uma fábula fabulosamente
infeliz

o velho general da banda não vive mais
carecem promessas para o novo futuro
o céu não tem fronteiras, nem histórias sem estrelas

o céu, desnudo léu

o céu, gigante destelhado

o céu so tem espaços, que preencho com lembranças
e nuvens que encobrem dissonantes pensamentos

onde me perco


Paulo Roberto Andel, 17/04/2000

Friday, March 30, 2007

Caminho de vida

vida que te quero vivida
nos frutos das árvores iluminadas
pelo vespertino sol da primavera

vida acesa, quente, alvissareira
cheia de exclamações, reticências
choros e risos, imprecisos

vida em que a derrota
não passa de fraco opaco
e a vitória tem brilho intenso
na claridade da cidade alta
na poesia da beleza em riste
no ledo engano do novo encanto

ah, vida

certas vezes, tu me parecestes
tão sofrida, ferida em pesar
que quase te abandonei
por teimosia, perseverei
agora, estou diante de ti
sou ferido pássaro na solidão
perdido, avoando todo mar
enquanto o ninho não chega
o repouso dos justos
breve alvorada da travessia mor
inevitável



Paulo Roberto Andel, 30/03/2007

Ossos do ofício poético

quando quiseres ser poeta
deves atirar uma, vinte, mil pedras de liberdade
numa multidão assustada
tendo em mãos as dálias
que melhor sejam desfolhadas
e ofereça cada pétala
ao sabor do carinho

quando quiseres ser poeta
precisas desfraldar teu peito nu
e abalroar o sentimento de frente
amores, ódios, compaixões
repulsas, alívios, serenidades
para que a palavra escorra em teu corpo
advinda de tuas lágrimas e suores

quando quiseres ser poeta
basta embebedar-se de vida
quente, morna, viva, rígida
e não é o caso de sorver goles
mas sim embriagar-se nas canecas, pelas tabernas
e brindar o entorpecer do amor


Paulo Roberto Andel, 30/03/2007

Saturday, March 17, 2007

Nau capitânia

faço as vezes de um rio caudaloso
e nele desço correnteza abaixo
não tenho onde me apoiar, equilibrar
e nem imagino onde vai ser a parada
são as águas que me levam, vigorosas
pelos quebrantos do desconhecido
cabe-me o medo natural de marujo novo
entretanto, vivo mesmo é conforto
que venham mais águas, puras
que tudo deságue no mar, eterno


Paulo Roberto Andel, 17/03/2007

Friday, March 09, 2007

Dois amores do Atlântico Sul

I)

Houve um dia
Em que fizestes chuva de prata
No espelho d'água que beijou Copacabana, cândida
Enquanto o sol era nosso ardor
Nossa bênção, lúcida
Eu repousei
Para fazer do meu coração o teu
Teu berço esplêndido
Canto das sereias, lembranças
Cicatriz e dor de amor
Há de haver um dia
Que farei da tua prata
Meu ouro branco de pote
Abrilhantando o luar
Deleitando-me no gosto leve
Açucarado, preciso
De te reencontrar, tão minha
E beijar-te, beijar
Até que o mesmo dia
Seja sintoma de eterno
Vire século, milênio
Todos os tempos, aconchegantes
Para ficar mais junto de ti
Minha chuva de prata
Meu pote d'ouro
Quero tudo que sirva
Para ver-te novamente em mim
Serena e permanentemente
Filha

II)

Dá-me tua mão, teu calor
Dá-me teu beijo
Que traz afago em minha face
Teu abraço que não cessa
Teu carinho infalível
Redivivo, definitivo incenso
Dá-me tua companhia querida
Longe da colina imprecisa
Que nunca servirá de amparo
Nem quando o sol incendeia
A tarde duma quinta de verão
Minha, mãe tão minha
Dá-me tua cor, tua voz
Teu colo de alicerce
Dá-me teu sorriso sem par
Perfeito ser
Dá-me tua presença
Teu caráter, vigor
Rigor de humor cativante
Dá-me tua mensagem
Um sinal, uma passagem
Para que eu possa buscar-te
Dá-me tua mão, teu calor
Na porta do palácio branco
Oxalá
Meu amor

(Dedicado a Maria Isaura, sua mãe e a minha)


Paulo Roberto Andel, 05/03/2007

Sunday, March 04, 2007

Entes

objetiva
a mente da gente que mente
e finge que não sente
o desencanto, de repente
da massa audiente
feito um sol de poente ausente
desnaturadamente
um falso encanto da serpente
truque reticente, inconsistente

objetiva a gente que mente
despudoradamente
desnecessariamente
escorada num dormente decadente
anestesiada, doente
ávida por tratar a gente
como se não fosse a gente
impróprio agente

obsessivamente, gente
objetivamente, gente
obsessiva mente que mente
demente gente
de mente, gente que desmente gente


Paulo Roberto Andel, 04/03/2007