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Friday, June 29, 2007

Retrospectiva

Tempo, escasso artigo
Que não se vende em lojas
E nem briga com sold out
Numa vitrine vazia

Tempo, néctar de vida
Forte cachoeira d’alma
Cálice de pátria em paz
Raro feito fosse Deus

Tempo, desperdiçado
Em quandos inúteis
Engarrafado no trânsito
Atrás dum porém, um todavia
Outro advérbio qualquer
Outra reticência inevitável

Pessoas perdem tempo
Com seus desamores
Suas friezas impertinentes
Dinheiros rasgam tempo
No ceifar de vidas
Pelo preço de nada
Misérias choram por tempo
De sobreviver, de regenerar
E dor só quer clemência
Quando estende a mão sofrida
Nos pés burgueses, indiferentes
Deslizantes na grande avenida, vazia

paulo-roberto andel, 29/06/2007

Amore

hoje que te quero agora
quanto que te quero muito
quando que te quero sempre
onde que te quero toda
longe, não te quero longe
nua que te quero em pêlo


paulo-roberto andel, 29/06/2007

A noite fria

a noite fria,
lúcida e fria
não é fiel para o fondue dos namorados
nem tem luar alumiado
para as meninas que jogam o vôlei
na rua montenegro

a verdadeira gélida noite
avassaladora noite
dorme quase abandonada
exceto por alguns meninos
que são promessa de mendigos
pequenas grandes testemunhas
imersas no cálice amargo do caos
que derrama por todo horizonte

ainda acordada
toda noite beija a lua em toda fase
parecem delícia de feliz casal
mesmo que nem sempre
enquanto isso, o mundo vilão, cru
mata e morre na casa ao lado


paulo-roberto andel, 29/06/2007

Tuesday, June 26, 2007

Uma terça de junho

Corre o bom da tarde, imagino.
Hoje é uma terça, terça-feira de um junho qualquer. Não há maiores sinais de frio ou chuva. Já vivemos o inverno, em termos cronológicos apenas.
Nem tão qualquer assim. Uma terça-feira do fim de junho. A última, deste junho. Outras virão, talvez.
Lá fora, pessoas vão vivendo e morrendo antes da novela das oito, do caos, do rush, da violência barata que justifica agredirem uma empregada, uma trabalhadora, num ponto de ônibus, por parecer uma prostituta. Televisão é alguém mentindo, pode notar a imagem de algum canal disponível.
E quem parece prostituta? Todo, todas.
Creio que, antes do primeiro gesto, da primeira voz de encontro, somos todos pretos e brancos, simples e difíceis. Prostitutas e recatadas, enfezados e dóceis. O resto, noves fora, nada. Vem depois, ao longe, longe de outras estações.
Numa terça nem tão vulgar quanto eu poderia supor, bons e maus se enfrentam, debacle que leva aos fins, as mortes.
Neste momento, sou cercado de paredes alvas, com algumas manchas. Um computador à frente, velho amigo. Não há janela. Perto, alguém opera alguma máquina de porte. A porta, cerrada.
Nenhum disco tocando, nada de jazz ecoando. Barulho de plástico e lata nos arredores é sinal de que, em breve, a moça da limpeza virá por aqui para recolher o lixo. Lixo. Produzimos muito lixo. Papéis, textos, embrulhos.
Nem telefones, nem e-mails. Nada de urgente.
O silêncio me faz pensar nas coisas que perdi, nas gentes que nunca mais vi, dos problemas e quase soluções, do futuro. Nada.
Minha mãe fará aniversário daqui a um mês. Ou faria, não sei ao certo.
Dentro de horas futuras, é provável que esteja num bar de Copacabana, sorvendo goles do chope dourado da felicidade, com alguns amigos. Coisa mais para a noite.
Neste exato momento, sinto-me bem, mesmo com o silêncio.
Trata-se de açucarada e temperada solidão. Por vezes, tão temida, agora muito desejada.
Eu e meu silêncio. Eu e meus pensamentos. Eu, repleto de mim e, por isso mesmo tão só.
Um barulinho de plim invadiu a sala. Mandaram um e-mail.
Interromperam a delícia de minha solidão.
Estraga-prazeres.
A vida segue.
Paulo-Roberto Andel, 26/06/2007

Wednesday, May 30, 2007

Casa

dentro do peito, carrego uma casa
que é tua, tão tua que parece nua
não importa se teu mar agora é outro
se a madrugada tem outro namorado
não importa quem me toma pela mão
ou quem te guia na friagem da noite
a casa é tua, sempre e somente tua
quando a deixas vazia, por certo tempo
acontece efêmero e modesto inquilinato
mas é tudo tão passageiro, temporário
a casa é tua, tão nua que parece crua
quando deito cansado, na escuridão
enxergo apenas as luzes da cidade alta
que abrem passagem para tua imagem
e recordo dos teus olhos adolescentes
a formosura do teu corpo em repouso
deitada em berço esplêndido, róseo
tão nua e crua como a casa que é tua,
carregada pela solidão do meu amor


Paulo-Roberto Ândel, 22/05/2007

O nada

eu era um zero
na ponta direita
no meio do nada
oh, nada
lá fora, mundo girava
com suas penas, dores

era canto de janela
era riso de morte
na varanda, infarto
no coração despedaçado, esperança
eu era um meia-direita
na ponta do nada
cantava amor e despedida
enquanto era chuva na relva
oh, fato
lá fora, mndo girava
cá dentro, desmilinguia
parecia um domingo cinza
antes da noite mais longa
que bem podia negar o que via
era vida vazia, derramada
a garrafa de vidro sem gás
era turma desamparada
mal-aquinhoada aos vinténs
desacreditada merda


Paulo-Roberto Ândel, 20/05/2007

Das pedras que rolam

por vezes, as pessoas relutam em mudar
por conta da natureza humana, conservadora
parece natural manter tudo em seu lugar
eu, contudo, oponho-me com veemência
acredito na importância da mudança
não se trata de rasgar as convicções
mas sim a saudável alternativa de mudar
feito o vivenciar de um novo pleno amor
feito o escutar de uma nova música
ler e ver outras coisas, personagens
até mesmo desfazer o rol de inimizades
a mudança renova o viço da vida
e permite novos enfoques, perspectivas
modificar detalhes, reparar nuances
viver a vida de outros outros modos
mesmo que signifique encarar espinhos
e deixar pelo caminho o que muito se amou
eu mudo a cada instante, cada mudança
e mudo, renovo incessantemente
eu mudo para não ser pedra com limo
feito certa poesia que definiu o mundo


Paulo-Roberto Ândel, 11/05/2007

Friday, May 25, 2007

Teus olhos

ao fundo, dorme o encanto da noite
e as águas beijam o ligeiro d'areia
durante o vaivém da baixamar
a praia, hoje quase deserta
é repleta de luzes da cidade
é moldura ideal dos teus olhos
que emanam faíscas enluaradas
e fazem conjunto com tua tez
da cor, não sei dizer os nomes
duas ágatas? ametistas?
jóias, quase garanto que são
feitiços do mar de copacabana
teus olhos, vivos, flamejantes
que remetem-me a certo dia
onde tudo era mais que uma vez,
onde ipanema era de pedro brito
sucedeu um acontecimento
e daí aprendi o que era beleza
tal como hoje, ela brilhava madrugada
morava nos teus olhos

11/05/2007

O dezenove

eu, pequeno e frágil de vida
tomava os bondes apinhados
e, repentinamente, encantava-me
pelo ponto chic, pela estação da luz
e a famosa avenida de são joão
foram idas e vindas curtas,
rápidas como nossa vida exige
todas desembocavam idênticas
na mesma noite, no mesmo mar
na mesma vista do palácio
eu, pequerrucho de vida
desfraldava meu coração à toa
mas fazia escoar toda dor e miséria
quando era um dezenove qualquer
onde parecia desesperança,
cerrava meus olhos de jabuticaba
ao abrir, copacabana era meu afago
eu era um dezenove qualquer
e o mundo sorria, quase falso
era um mar que só chacoalhava
terra firme, só copacabana

06/05/2007

Luciene

veio-me certa canção de trás dos montes
ela me falava de um bem que se quis
foi doce a voz que me serviu de trilha
enquanto via, saudoso, na lembrança,
a imagem da moça no teto fosco de gelo
via seus cachos, nos arredores, fartos
tangenciando o vigor dos olhos claros
e toda a formosura do nariz itálico
via o alvo e belo corpo de maios atrás
enquanto as frass da canção corriam
misturando-se a outra delicada voz
de tom suave e inabalável leveza
mais que isso, eram meus os céus
em toda rua de são francisco xavier
a turma do metropolitano no lanche
pelas vielas da dias da cruz, santa
quando a canção tomou encerramento
temi pelo desaparecimento da moça
mas era engano, era mais que bela vista
era bela como sempre, européia
não sei onde mora, com quem anda, solta
ando meio desligado

06/05/2007

Friday, May 11, 2007

O berro da estátua

Escrevo porque não me basto
É preciso espalhar-me em letras
Para compensar os fonemas
Que rumino diariamente
Enquantos os ouvidos são expectadores
Imersos no mais profundo desdém


Paulo Roberto Andel, 11/05/2007

Monday, May 07, 2007

NYC

faço-me nativo da noite chuvosa
enquanto a Bahia é Guanabara
ao longe, ouço rufar de tambores
ecoando de New York City

lá, certo mendigo dança reggae
ao mesmo tempo em que dois moços
afrodescendentes
relembram seus mortos de fome

os três ocupam a mesma calçada
onde se vê estampada bandeira
cheia de cores e vida, contrapartida
metáfora da paz entre iguais

existe um melodioso barulho, mutante
nas vias públicas de New York City
ele vem das buzinas e campainhas,
do ir e vir das gentes, todos os povos

desfilam um carnaval de nações
e fazem vezes de legiões urbanas
John Coltrane silenciou seu jazz
e Lou Reed pode parecer ausente

mas nada abala o calor de vida
da cosmopolita New York City
uma réstia opaca de sol a pino
ainda reluz em New York City

Paulo Roberto Andel, 07/05/2007

Destroços da liberdade

minha liberdade é tonta,
é bêbada e torta
escora-se pelos cantos,
pelas vielas baixas
e, num beco de curta saída,
vive entorpecida
para não encarar o vil,
a torpe realidade
minha liberdade é cidadã natimorta
realidade é a natureza morta
ausente da liberdade tão ansiada
e que só vive nos sonhos fugazes
desejos cristalizados quando sou tonto,
bêbado e torto, morto e vago
eu sou minha frágil realidade
e resta-se a singeleza do cárcere
estou isolado por grades que não se vê
e guardas que não se nota muito bem
um dia novo traz anunciação
estou cego para a alforria
tão cego quanto o abraço que promete
mas não me aquece
tão surdo quanto o beijo que se molha
mas não me deságua
eu sou minha liberdade


Paulo Roberto Andel, 04/05/2007

A poesia torta

é hora de subverter a poesia
torná-la simples, trivial
a poesia tem de ser plural
paratodos, valer a escrita
versos de amor e fé, construções arrebatadoras
tudo deve ser espalhado
repartido, compartilhado por todas mentes vivas
derramar poesia pelas praças, alamedas e travessas
cabe a poesia na porta dos botecos
e mesmo nas marquises mal-frequentadas
é tempo de subverter a poesia
para que sopre leve e faceira, mas intensa
feito a brisa de primavera
abençoando cada colo de mulher
cada corrida de criança a brincar
cada balão que fugir para os céus,
desamarrado e livre
tão livre como devem ser nossos sonhos
e nossa poesia
todos a céu aberto
namorando azul de atmosfera


Paulo Roberto Andel, 04/05/2007

Rascunhos

eis minha vida, em rabiscos
sobrescrita pelos cadernos
repensada, toda feita a lápis
com a sincera ingenuidade
que toda borracha apagaria
não fosse tudo ledo engano
pois o látex pode tirar a cor
ou o viço impresso no papel
mas nunca os vincos
pois o texto foi escrito com vigor
e as marcas beijaram com sede
a folha de caderno espiralada
são marcas permanentes
retratos de vida para sempre
no calor de beijo eterno
tatuagem que não se remove


Paulo Roberto Andel, 04/05/2007

Friday, April 27, 2007

Cotidianos

Vivo alternando os rasos e profundos
Malversando princípios e fins
Enquanto os meios são avenida principal
Sigo reto, torto
Perdido em minha ávida lucidez
Que namora afirmativas incertezas
Ofereço um bouquet delicado
Com doze rosas de vermelho intenso
Noutras vezes, sou gás mostarda
Napalm na mão, qualquer sinal
Quando vem uma nublada vespertina
Suntuosa entre os deuses da chuva
Saio cantando pelas ruas de Copacabana
Ensopado pelas águas celestes
Há dias em que faço imaginárias serenatas
Nas janelas das Alessandras, Tatianas
Uma Isaura somente, respeitosamente
Ao longe, vejo as caravelas de sonho
Que afastam-se do Leme rumo ao infinito
Vivo rente, em riste, rispidamente
E sigo o conselho de um grande escritor
Só me interessam as causas perdidas
Delas, não me arrependo; aquecem-me
Importante competir, ideal é vencer
Perder é recomeçar, reconstruir
Dedilhar o castelo de areia desfeito
Vivo muitas vezes, morro noutras, todos dias
Adormeço, invado pesadelos até renascer
Vivo de quandos, por enquanto
Sinto falta-me um portanto, conclusão
Estou longe demais da última estação
Do fim da linha, da viagem derradeira
E, por incrível que pareça a quem me guia
Quando tudo parece assustadoramente perdido
Sou feijão no meio do algodão, juvenil
Basta um copo de plástico barato de abrigo
Meio dedo d’água e vagarosamente floresço

19/04/2007

Thursday, April 05, 2007

Para o barco que não atraca

para esperar
um dia que nunca mais deve chegar
é preciso calar
costurar os limites das idéias
desimpedir quaisquer tristezas
é preciso falhar
para sorver a essência da vida
real

necessita-se de erros e zelos
apóstrofos e reticências sãs

para esperar
um velho samba novo de contagiar
é preciso acalmar
toda sede ansiosa de beber
água ardente que enxerga o prazer

precisa-se dançar
viver in natura a permanência do caos

algum dia a sorte pode chegar

enquanto isso, vamos vivendo,
tentando, respirando gerúndios
embevecidos de paciência
condescendência de saber esperar

esperar, desesperar, exasperar

esperar

Paulo Roberto Andel, 22/03/1998

Inevitável

desagrada-me ver em ti
melancolia pelo que restou
eu tenho um plano pra te fazer feliz
eu olho para o lado e só me falta abô
eu desconheco o além e não espero ninguém
para me dizer
o que eu não pretendo fazer
a minha velha forma de ser
cuidados que vou ter para viver

parar, jamais
eu sigo em frente
eu vou com o deus que me pede a mãe
de noves fora nada, de nove copas fora
somos eternos assim

eu te espero por aqui
de braços abertos pra te namorar
eu quero um beijo como minha retribuicão
por tudo aquilo que não te ensinei
e deixei de recordar
eu não preparo ninguém para contar

eu sigo em frente, sem você me carregando pela mão
das nove luas, nada
das nove noites, sonho

somos sementes de mim

Paulo Roberto Andel, 16/10/1998

Astronauta Carnaval

é assim que represento
acredito no impossivel
aceito o contrasenso

penso, vejo
acho que respondo ao teu anseio mais diverso
que troquei por outro amor

paro, caio noutra armadilha que insisto em perseguir
depois do sol me anunciar num feriado de segunda
quero deixar a tempestade à vontade, despudorada

é assim que me apavoro
a cada morte lenta, santa
anunciada na esquina da TV

caio, fujo, quase desconcentro
desaponto a velha classe ao pedir minha alforria
alegrar a noite fria, refazer um sonho bom

desencontro o lado mais claro da tua face imprecisa


Paulo Roberto Andel, 15/11/2000

Imbuí

é fotografia dos dias dispersivos
feito tempos do forte apache
imbui

aqui estou numa cúpula silenciosa
de uma fábula fabulosamente
infeliz

o velho general da banda não vive mais
carecem promessas para o novo futuro
o céu não tem fronteiras, nem histórias sem estrelas

o céu, desnudo léu

o céu, gigante destelhado

o céu so tem espaços, que preencho com lembranças
e nuvens que encobrem dissonantes pensamentos

onde me perco


Paulo Roberto Andel, 17/04/2000

Friday, March 30, 2007

Caminho de vida

vida que te quero vivida
nos frutos das árvores iluminadas
pelo vespertino sol da primavera

vida acesa, quente, alvissareira
cheia de exclamações, reticências
choros e risos, imprecisos

vida em que a derrota
não passa de fraco opaco
e a vitória tem brilho intenso
na claridade da cidade alta
na poesia da beleza em riste
no ledo engano do novo encanto

ah, vida

certas vezes, tu me parecestes
tão sofrida, ferida em pesar
que quase te abandonei
por teimosia, perseverei
agora, estou diante de ti
sou ferido pássaro na solidão
perdido, avoando todo mar
enquanto o ninho não chega
o repouso dos justos
breve alvorada da travessia mor
inevitável



Paulo Roberto Andel, 30/03/2007

Ossos do ofício poético

quando quiseres ser poeta
deves atirar uma, vinte, mil pedras de liberdade
numa multidão assustada
tendo em mãos as dálias
que melhor sejam desfolhadas
e ofereça cada pétala
ao sabor do carinho

quando quiseres ser poeta
precisas desfraldar teu peito nu
e abalroar o sentimento de frente
amores, ódios, compaixões
repulsas, alívios, serenidades
para que a palavra escorra em teu corpo
advinda de tuas lágrimas e suores

quando quiseres ser poeta
basta embebedar-se de vida
quente, morna, viva, rígida
e não é o caso de sorver goles
mas sim embriagar-se nas canecas, pelas tabernas
e brindar o entorpecer do amor


Paulo Roberto Andel, 30/03/2007

Saturday, March 17, 2007

Nau capitânia

faço as vezes de um rio caudaloso
e nele desço correnteza abaixo
não tenho onde me apoiar, equilibrar
e nem imagino onde vai ser a parada
são as águas que me levam, vigorosas
pelos quebrantos do desconhecido
cabe-me o medo natural de marujo novo
entretanto, vivo mesmo é conforto
que venham mais águas, puras
que tudo deságue no mar, eterno


Paulo Roberto Andel, 17/03/2007

Friday, March 09, 2007

Dois amores do Atlântico Sul

I)

Houve um dia
Em que fizestes chuva de prata
No espelho d'água que beijou Copacabana, cândida
Enquanto o sol era nosso ardor
Nossa bênção, lúcida
Eu repousei
Para fazer do meu coração o teu
Teu berço esplêndido
Canto das sereias, lembranças
Cicatriz e dor de amor
Há de haver um dia
Que farei da tua prata
Meu ouro branco de pote
Abrilhantando o luar
Deleitando-me no gosto leve
Açucarado, preciso
De te reencontrar, tão minha
E beijar-te, beijar
Até que o mesmo dia
Seja sintoma de eterno
Vire século, milênio
Todos os tempos, aconchegantes
Para ficar mais junto de ti
Minha chuva de prata
Meu pote d'ouro
Quero tudo que sirva
Para ver-te novamente em mim
Serena e permanentemente
Filha

II)

Dá-me tua mão, teu calor
Dá-me teu beijo
Que traz afago em minha face
Teu abraço que não cessa
Teu carinho infalível
Redivivo, definitivo incenso
Dá-me tua companhia querida
Longe da colina imprecisa
Que nunca servirá de amparo
Nem quando o sol incendeia
A tarde duma quinta de verão
Minha, mãe tão minha
Dá-me tua cor, tua voz
Teu colo de alicerce
Dá-me teu sorriso sem par
Perfeito ser
Dá-me tua presença
Teu caráter, vigor
Rigor de humor cativante
Dá-me tua mensagem
Um sinal, uma passagem
Para que eu possa buscar-te
Dá-me tua mão, teu calor
Na porta do palácio branco
Oxalá
Meu amor

(Dedicado a Maria Isaura, sua mãe e a minha)


Paulo Roberto Andel, 05/03/2007

Sunday, March 04, 2007

Entes

objetiva
a mente da gente que mente
e finge que não sente
o desencanto, de repente
da massa audiente
feito um sol de poente ausente
desnaturadamente
um falso encanto da serpente
truque reticente, inconsistente

objetiva a gente que mente
despudoradamente
desnecessariamente
escorada num dormente decadente
anestesiada, doente
ávida por tratar a gente
como se não fosse a gente
impróprio agente

obsessivamente, gente
objetivamente, gente
obsessiva mente que mente
demente gente
de mente, gente que desmente gente


Paulo Roberto Andel, 04/03/2007

Wednesday, February 28, 2007

Hino nacional

miséria ignorância desprezo descaso opressão censura ditadura cobiça avareza fanatismo violência indulgência demagogia malversação descalabro carnaval futebol sambalando tropicália renascença reforma inquisição tortura refavela tráfego tráfico imposição fé crime castigo casta verdade brasil grande pátria desimportante brasil amém brasil noves fora nada brasil brasileiro
Paulo Roberto Andel, 28/02/2007

Fading light

a fading light shines ahead like a little lovely star

it lives nearly a top of a uncertain green hill

the lovely ones carries love and peace to us

i´m the only sightseeing man looking around

my heart brings a throughout mood, so close

everything is broken, absolutely broken out

but i'm still alive, living a neverending story

coming and going with mom in my mind


Paulo Roberto Andel, 28/02/2007

Brumas de Copacabana

faça de minhas mãos as tuas
e deixe-as correrem teu rosto ainda tão juvenil
plácido, límpido
perto do teu olhar delicado, brilhante, sutil
banhado no mar
faça-me teu enredo, encanto
voz que se anuncia pelas Guanabaras, Paulicéias desvairadas
ou ainda pelas Diamantinas, todas as Gerais
faça-me de toque das tuas melenas
acesas, cativantes, convite a delícias e calores
faça-me de amparo dos teus anseios
e mergulhe-me em ti
ponha-se nua de corpo e alma
vestida apenas com o sal do Atlântico, no palácio d'água
toda Copacabana há de aplaudir
a trégua de teu mar, que fascina, conquista
e faz do teu rosto amor sem par, nem fim


Paulo Roberto Andel, 28/02/2007

Moto contínuo

transformo-me entre quandos e ondes
contatos costurados pelos porquês
o talvez servido de fio da esperança
apoiado em vigas de efêmera certeza

mastigo-me, rumino, pleno autofágico
na permanente mutação de meu viver
com inatingíveis desejos na realidade
entorpecentes baratos durante ir e vir

meus gritos causam delírio, dor, alegria
o silêncio que ostento arquiva mistério
todo amor que causei fez-se martírio
meu lamento é não saber dizer adeus


Paulo Roberto Andel, 27/02/2007

Sunday, February 25, 2007

Saudade

amor
que navega sete mares de memória
para atracar
no cais seguro do bom coração


Paulo Roberto Andel, 25/02/2007

Thursday, February 22, 2007

Idas e vindas

Eu, que sempre acreditei nas coisas que perdiam-se para todo sempre, tenho enganado-me

Uma foto, um objeto, a lembrança de uma velha frase ou do mais empolgante dos beijos

Quando menos se espera, as coisas e pessoas voltam-me do quase nada, implacavelmente

E, quando chegam, encantam-me feito jamais estivessem ausentes de minha companhia

Certa vez, um inimigo contemporâneo alertou-me de que o mundo dá muitas e muitas voltas

Raras vezes na vida, alguém pareceu-me tão sóbrio, sagaz e pertinente em seus dizeres

Eu, que tolo fui, acreditava nas coisas perdidas para a eternidade, vagas nos limbos, perdidas

E agora, percebo que nem a morte é capaz de abalar a posteridade do amor, do carinho, da paz

Perdi meus mais queridos, que fazem morada agora no amargurado peito que carrego só

Em agradecimento, eles enviaram outros de algum jeito, perdidos que reencontrei na trilha

Eu, que tenho vivido com tanto amargor em minha sutileza, perdido na tristeza, recolhido

Estou desconfiado de que existe algo escondido na misteriosa essência da vida humana, terra

Longe de mim ousar descrever, acreditar, rezar, chorar para tentar decifrar tal segredo

Resta-me viver, bem fazer, sonhar e esperar por novos dias, reencontros, aqui ou ao longe



Paulo Roberto Andel, 22/02/2007

Wednesday, February 14, 2007

Mal liberto

males são versos
derramados pelas frases
inconclusas
indecisas entre o cândido e o errante
besuntadas por discórdia e carinho
cativantes
fingem rezar pálidas preces
aos curtos poetas de cátedra
nada os detém ou repara
vivem soltos nos ares, libertos
em espreita do bem querer, querer
distante do poder, amontoado
nos gigantes corações de fé
imersos no amor a granel


Paulo Roberto Andel, 14/02/2007

Tuesday, February 06, 2007

Lágrima

nenhuma lágrima é vã quando um olho a derruba com sinceridade
e um rosto a ampara com a fidalguia maior, retidão, consciência
desimportam os motivos de tristeza ou alegria que a fecundaram
não são relevantes os meios e os fins que a cercam no momento
poucas coisas são mais cristalinas do que a verdadeira lágrima,
a diga lágrima, ausente das vistas vilãnicas, traiçoeiras, bandidas
eu falo das lágrimas das pessoas de coração voltadas ao bem
são trabalhadores, estudantes, remediados e miseráveis, solos
doentes, esfomeados, gente traída pelo amor, dinheiro e pela fé
empilhados nos hospitais, tribunais, vielas das favelas, avenidas
estes, sim, são capazes e frequentemente baixam suas lágrimas
quando deparam-se com alguma violência, apenas brasileiros

Paulo Roberto Andel, 05/02/2007

Wednesday, January 31, 2007

Respirando Copacabana

Meus tempos de garoto foram em Copacabana. Tempos vividos. Outros garotos viveram outros tempos, claro, falarei dos meus.
Definir a pequena cidade é algo ingrato para qualquer livro, quanto mais um pequeno relato textual.
Copacabana é casa do Brasil, é a gênese, é onde tudo de certa forma começou.
Você conhecia todo mundo, pelas ruas, ao mesmo tempo ninguém. Podia ficar anos sem ver um vizinho de prédio e, subitamente, lá apareceria ele na casa de guaraná da rua Siqueira Campos. Certa vez, conheci um sujeito na faculdade que veio a ser meu amigo, grande amigo, até que me matou sem razão justa. Falávamos pelos cotovelos nos corredores da academia, coisa de um ano. Belo dia, viro direita da Barata Ribeiro, vem o cabeludo em trajes de praia, rumo ao Atlântico; cumprimentamo-nos e veio a brancaleônica pergunta: "Você mora aqui?". Éramos vizinhos.
Futebol era Juventus e Bairro Peixoto, às vezes o Dínamo. Escoteiros no terceiro andar de um shopping, inacabado, construído pelo pai do presidente Collor (...), reunidos defronte uma igreja em forma de cúpula, isenta de imagens santas.
Mendigos? O "Kung Fu" da Figueiredo Magalhães, Ramiro, Lina (que era poliglota) e o impagável "Mr. Éter", lenda do bairro.
Lanches eram ice cream soda nos supermercados Leão, mini pizza da Gênova, Sumol, Bolonha e Suprema. Também tinha a lanchonete de porta das Lojas Americanas, com refresco de côco em copo cônico de papel.
Vez em sempre, uma celebridade da época atravessava as ruas. Éramos todos respeitosos. Abordar? Nem pensar.

Meninas lindas das proximidades? Patrícia, Anas Paulas, Elianes, Regina, Cissa, Cristina, Renatinha. Mais.

A trilha sonora tinha tudo: Tim Maia, Eric Clapton, Zeca Pagodinho, Slayer, Peter Gabriel, Caetano Veloso e toda Bossa Nova.

Meu pai estava sempre nos botequins, afogando mágoas. Minha amada mãe, preparando meus lanches para a volta do futebol na praia, sem iluminação, e com risco de acertar boladas num casal mais afoito à beira-mar.

Puteiros, ginástica, boates, teatros, livros, discos, moda. Cinema? Metro, Rian, Bruni, Caruso, Condor.

Jogo de botão nas ruas, aprendizado de sexo nas escadas dos prédios.

Bom dia numa padaria era cumprimentar um velhinho, um travesti, uma modelo e, talvez, um astronauta.

Estou aqui num escritório gelado, frente ao eterno computador, calculando. Abri um sítio, tinha foto da praia. Copacabana Palace. Leme. Posto 4. Pensei na mãe que perdi, no ex-amigo cabeludo, nos puteiros, nos bares, Ana Paula. Tudo. Tempo perdido? Não. Ainda não.

Copacabana me enganou.

Garoto, pensei que felicidade fosse eterna.

Morri de novo. Ressurreição existe?



Paulo Roberto Andel, 31/01/2007

Beatriz

danadinha a menina
sedenta de conquistas
não pára, leva a sina
provocante, delicada
no desejo de paixão
vive todo momento
que pareça novidade
entrega-se faceira
nua em pêlo, morna
e vai aquecendo
até fervilhar, plena
danadinha a menina
sorridente, levada
embebida no cálice
saboroso de idílio
safadinho, saboroso
futuro, não aguarda
atira-se ao vento vão
caçando oportunidades
sua essência de mulher

Paulo Roberto Andel, 31/10/2007

1995

hoje, tudo não passa de efêmeras vanguardas
mergulhadas pelas cadeiras, mesas, reuniões
amontoando laptops, pen drives, coffee break
foram-se os dedos e os anéis, caso encerrado
o tempo levou meu majestoso e melhor amor
por tudo isso, encanta-me doce nostalgia de ti
nada mais antigo e deliciosamente fascinante
feito dourado que confiastes às minhas mãos
um beijo carinhoso na pousada de um arraial
todo gosto, cheiro, pele, tudo que reze presença
do teu perfume leve e inacreditavelmente vivo
são tudo tons que não opacam minha companhia
e não afrontam quem deleita-se bem ao meu lado
pois brilham no céu vespertino do velho Arpoador
foram-se os tempos, minguantes, correram serenos
pela fonte d´água que mata sede de todos desejos
nós agora somos outras casas, bravias, distantes
confiamos nossos amores a quem os desmerecia
sonhamos, vivemos, sortimo-nos por cada lugar
mesmo que nossos corações tenham nova gente
mesmo que lembranças não recuperem o ardor
eu, somente eu, navego vista pelo meu horizonte
e te procuro, procuro, procuro em cada calçada
cada beira de mar em noite de calmaria, poetisa
e sonho-te, sonho meu secreto mundo do querer
enquanto eu não descansar em paz, há fato certo
meu pensamento mais lúcido carrega uma fantasia
e nela, o detalhe mais-que-perfeito é o teu sorriso
tua delicada voz que ecoa firme em minha cabeça
feito a canção dos melhores momentos de amor
o macio de tuas mãos percorrendo-me pausadas
e o calor do teu corpo cujo igual nunca mais vi

Paulo Roberto Andel, 31/01/2007

Tuesday, January 30, 2007

A traição das palavras

palavras, que voam velozes, indecisas e malfadadas
expulsas ao vento por vozes firmes ou delicadas
palavras, perdidas na indulgência da não verdade
esgarçadas pelos tempos e ventos, vãs memórias
palavras, algozes ou santas, mordazes redentoras
ora desperdiçadas, ora definitivas, reticentes, nós
a casa da palavra deveria ser templário sagrado
que protegesse a todas do uso falhado, da má fé
palavras não são más, feito a poesia na canção
o mau homem é que delas abusa, traz-lhes dor
falar, escrever o que não sente ou desacredita
enganar, arruinar um coração ou pedaço de vida
perdoemos almas vazias que vagam pela terra
em corpos que não significam seres humanos
apenas zumbis, imersos no espaço de caráter
malversando o divino dom da palavra sagrada
deixemos que sigam em paz, talvez descansem
mergulhados num mar de dúvidas e mentiras
eu não traio minhas palavras, apenas despeço
quando isso acontece, trata de cálido amor.


Paulo Roberto Andel, 30/01/2007

Monday, January 29, 2007

Réstia

juventude é o espaço da maior esperança entre as dores

maturidade é o espaço delgado entre as dores e o fim

do recomeço, rapaz, não sei dizer. nem viver.


Paulo Roberto Andel, 27/01/2007

Thursday, January 25, 2007

A última canção de Copacabana

eu sou a última, derradeira canção de Copacabana
e quem me entoa o faz em timbre mais que áspero
para recordar a certa época de gente mais fraterna
quando o bonde era desbravador da grande avenida
o meu cantar faz sombra, feito coqueiro a proteger
indigentes meninos negros e pobres, negros em cola
enquanto o Atlântico Sul repousa e também se agita
eu sou a praça Edmundo Lins quase calada, plácida
carente de crianças, sem feira nem festa, nem violão
perto da rua de Santa Clara, casa de Isabela, céu
eu sou o mendigo famoso e adormecido pelo éter
entorpecido na curta escadaria da Farmácia Piauí
enquanto um jovem casal de vibrantes namorados
troca juras de amor com uma casquinha na Bolonha
trazem-me à missa numa igreja um tanto diferente
com formato lunar e sobre um centro de comércio
sopram-me na praia num vespertino de sábado
e lá está o velho Juventus, e lá vai bola para o ar
eu faço força para aquecer os solitários corações
feito um dedicado escoteiro ligeiro da Santa Cruz
cada casa deste meu velho bairro faz-se pantheon
com seus Jorges e Clarissas, Ricardinhos e Bujas
eu faço voz aos desesperados, encardidos tristes
famintos de corpo e alma pelos postos e travessas
toda Prado Júnior, toda Francisco Sá, Inhangá
naus desgovernadas, mas resistentes pelo Leme
eu som o bom dia caridoso de um velhinho forte
para delicado travesti na calçada do Cirandinha
eu vivo solto ao vento, feito velha bandeira branca
fincada no alto do morro de chapéu mangueira
eu sou a última leviana canção de Copacabana
e nem mesmo o maior poeta deu cabo de mim
quando eu passar, haverá outra, mais muitas
tenho o mar, areia, meu palácio é grande hotel
caso meu destino seja mesmo descansar em paz
resta-me uma tarde esperançosa no Marimbás


Em homenagem ao grande poeta e cronista brasileiro Rubem Braga, com "Ai de ti, Copacabana"


Paulo Roberto Andel, 25/01/2007

Wednesday, January 24, 2007

Sobre um tempo

Há momentos em que surpreendo-me com os homens de meu tempo

Aqueles que, por todos instantes, atravessam as grandes metrópoles

Usam passos apressados, ingenuamente tentando domar as horas

Acompanhados de relógios suíços, telemóveis e a mais alta precisão

Minha surpresa é vê-los submersos num mar de ilusão fugaz, doce

O tempo não pode ser controlado pelos ponteiros sutis ou digitais

O tempo não é subserviente aos fabulosos meios convencionais

O tempo, senhores, tem duas medidas: esperança e desespero.


Paulo Roberto Andel, 24/01/2007