quando as mãos mendigas
estavam erguidas e tristes
havia uma noite de chuva
e marquises frias em cinza
as mãos em desespero e fé:
um resto, um trago, um troco
e a vida que a deus pertence
as mãos lutando noite e dia
insones, enrugadas e vazias
o perigo e a violência da rua
morte e vida tão encardidas
ninguém tem tempo a perder
nem pensar em certa covardia
somos o que temos, bobagem
a vida é breve, sem os rastros
a linda e tenra carne apodrece
nenhuma arrogância prevalece -
somos uma bobagem sincera
os dias são as mãos iludidas
@pauloandel
Translate
Wednesday, April 16, 2014
Tuesday, April 15, 2014
o catador
Entrei no ônibus vazio, cumprimentei o motorista, vi poucos passageiros, todos com ar tenso ou cansado, natural numa noite de segunda-feira às dez da noite. Vou para os últimos bancos. Chuva, frio, as ruas desertas, apenas solitários passageiros nos pontos ou sofredores de rua, sempre com o risco de algum infeliz assassiná-los porque "não são gente".
Na porta do Clube Municipal, mal prestei atenção aos letreiros dos próximos shows. Pela porta dos fundos, entrou um rapaz com roupas humildes e dois sacos com vários objetos. Perguntou se o ônibus passava no (Batalhão de) Choque, expliquei que deixava razoavelmente perto. Foi à frente, pagou sua passagem, o trocador não girou a roleta, ele voltou para os fundos, sentou-se e desandou a falar.
Nas primeiras palavras, percebi sua humildade ainda maior pelos vários dentes faltantes. Era um catador. Mas ele estava numa alegria só: mostrou com toda festa que tinha conseguido uma máquina de cortar cabelo, novinha na caixa. Um par de tênis, nem tão novos mas perfeitos para uso. Moedas. Um relógio não propriamente em folha, mas disse-me do sonho de colocar uma bateria nele para funcionar. Vibrou quando disse que tinha já o dinheiro para a hospedagem do dia seguinte e até para a comida. Ainda completou, dizendo torcer que nenhum dos achados fosse produro de roubo, que fossem apenas lixo para quem os despejou. Claro que nada roubado é mais gostoso, exceto para bandidos e imbecis.
Conversamos, eu o parabenizei e fiquei feliz também: num mundo cheio de ganância, ruindade e escrotidão, é um alento ver um rapaz tão sofrido comemorando a vitória de um dia, a gota no oceano de solidão, egoísmo e hipocrisia das grandes cidades. Justamente no fim de um dia em que me senti tão derrotado, a alegria de quem sofre é um alerta: perdemos muito tempo com coisas e gentes inúteis. O futebol, por exemplo: deveria ser só uma diversão mas vira sofrimento quando nele vemos os retratos mais sujos de hipocrisia e preconceito. As fofocas, o cotidiano fútil, a indiferença de quem se sente confortável em relação a quem agoniza lentamente. O que dizer dos imbecis que perseguem comunistas em 2014?
Coisa de minutos, o rapaz desceu apressado no Sambódromo com suas quinquilharias e pertences. Não nos despedimentos, não havia tempo e a chuva apertava. Eu torci para que ela não piorasse. Só queria que ele chegasse bem em sua humilde hospedagem, descansasse e comemorasse ainda sua pequena vitória diante de um mundo tão injusto, desequilibrado e infeliz. Tomara que tenha dado tudo certo.
Nunca mais falaremos. Foram cinco minutos em que tive um correto irmão de volta. Um tempo em que as pessoas conversavam umas com as outras importando-se com elas. Nenhum nazismo nas ruas, praças e arquibancadas. Quando a vida de terceiros era um bem precioso e respeitado.
Desci perto de casa, comi uma fatia de pizza no bar da esquina, voltei para casa, conversei com minha garota e ouvi um disco de músicas tristes. A simplicidade de um catador e a luta diária para sobreviver honestamente fazem pensar.
As multidões são solitárias.
@pauloandel.
Tuesday, April 08, 2014
romance proibido
COMBINAMOS um pacífico chope no Paladino, com seu mar de histórias e um século de sorrisos. Depois de um pequeno contratempo, comecei a caminhada para cruzar o coração da cidade por volta das seis da tarde.
Descer a rua do Senado e perceber que o verão disse adeus: o céu escuro, a rua vazia e nos poucos rostos disponíveis, procurei meu irmão em vão. Uma tristeza enorme que persistiu mesmo com a beleza das luzes no hotel moderno da Praça Tiradentes - as ruas cheias de carros, barulhos, gente impaciente e cansada, tudo em nome dos tempos modernos.
Tomei a Sete de Setembro, comprei três discos no sebo, ainda o Zeca Baleiro nas Lojas Americanas, já cheia de ovos de Páscoa no teto falso e isso de alguma forma rasga meu peito sofrido e o coração inchado porque penso na alegria de minha mãe, felicidade viva com uma lembrança de criança.
Depois espiar a rua Uruguaiana com os carros e seus motoristas nervosos, tentando voar onde se deveria andar até o encontro com a Presidente Vargas e suas grades nas calçadas, uma vez que o governo entende o adestramento como única saída para lidar com seus passageiros rebeldes. Duas garotas bonitas na porta do McDonald's, não mais do que um belo recado no correio do telefone.
A cidade e a beleza de seu caos ornamentado por cones de cor laranja. Logo depois, jovens executivos animadíssimos com a escada vermelha e os balões da porta do puteiro - e o sexo que preencha o rancor, o tesão que tape o sol da solidão com uma peneira - da vida não se leva nada.
NELSON está sentado à mesa e chego quase ao mesmo tempo que Tiba. Chopes dourados e ainda não tenho felicidade. Rimos assim mesmo. E falamos mal de todo mando: dos amigos, inimigos, mulheres desclassificadas, o Estado que não regenera, do futebol, da direita e de nós mesmos, ingênuos em sonhar por um mundo melhor.
Desde a entrada, percebo um jovem casal no canto do bar, direção noroeste da nossa mesa. Um clima de romance proibido: a mulher, casada e com aliança à vista; o rapaz, não. Ela, tímida, nem bonita mas interessante com seu jeito de repelir o pretendente: ora sorria, ora mexia nos cabelos bem-tratados, ora deixava o conquistador tocar-lhe a mão direita. Não pude deixar de sacanear Tiba, por conta de ter condenado certo romance meu de muito tempo justamente naquelas bases. Catalano, já à mesa, entre reflexões, obsessões e boas fotos.
Enquanto nos empanturrávamos com omeletes, sanduíches e chope, Trino chegou e aumentou o número de gargalhadas por segundo. Agora somos tão velhos e jovens. A mesa nos reconduz ao fantástico mundo dos tempos de faculdade que nunca voltará, até por jamais ter ido realmente embora de fato. Mulheres, ex-mulheres, amigos chatos, amigos mergulhados no porão das religiões, eu e Bola contando com a força de nosso pai Inri Cristo. Trabalho, dinheiro, falta de dinheiro e um mundo repleto de editores da história, da verdade absoluta e de outras bobagens descartáveis.
Sinal de alerta a noroeste: num súbito, o conquistador puxou a companheira e conseguiu o beijo que, se nasceu tímido, logo perdeu qualquer pudor e sugeria que ali tinha nascido um vigoroso romance proibido. Sabe-se lá porque, torci por aquilo: ainda somos todos bobos românticos esperando um beijo de amor - o amor só existe porque desacontece - o amor precisa da contradição e do desencontro. E não é que paramos nosso mar de risos pra falarmos coisas sérias de amor e desamor? Talvez em 2014 um beijo apaixonado e proibido ainda seja mais poderoso do que uma vida sem sentido em filas, engarrafamentos, vagões abarrotados e limite de cheque especial.
Apressado, o casal logo fechou sua conta. Saíram discretos do Paladino. Talvez tenham ido confirmar o amor, o tesão, a vontade, os desejos reprimidos com os quais nem todos sabem lidar. Ainda demos mais gargalhadas, até mesmo quando veio a caríssima conta. Os dois saíram discretos mas felizes. Não cabe julgamento: ninguém sabe exatamente o que ali era o enganar alguém.
Deu tempo para um abraço da turma e a despedida do até breve. Voltei com Tiba de carona no carro de Trino. Logo chegamos à Gomes Freire, meio Souza Lima com seus travestis em riste. Dois minutos depois, cumprimentei os amigos, caminhei pela Cruz Vermelha, não vi meu irmão em nenhum dos rostos solitários da região. Cheguei ao prédio, subi, entrei em casa, banho tomado, falei com Marina e agora o teto branco e frio é meu interlocutor e eu, o viajante solitário. Que fim levou aquele casal? A única coisa importante no homem é a contradição, conforme Enrico Bianco. Qusndo o amor não vence, seja ele qual for, o vazio da alma é o cúmulo da certeza.
A vida sem romance é um equívoco. O belo romance que não foi sorvido, uma guerra nuclear. Queremos mais. Fogos de artifício explodindo e colorindo a beleza à beira do cais.
@pauloandel
Monday, April 07, 2014
naja
aquele olhar de naja
verde viva cativante
- agora somos brisa
e réstia cintilante à sina
- mal se crê o disfarce
aquele olhar de cais
e mar e tarde fustigante
enquanto cada lance
é chama
e todo lance é xeque
em riste
dá-me tua vista do céu
enquanto os anjos tristes
não encontrarem a cor de
deus
@pauloandel
verde viva cativante
- agora somos brisa
e réstia cintilante à sina
- mal se crê o disfarce
aquele olhar de cais
e mar e tarde fustigante
enquanto cada lance
é chama
e todo lance é xeque
em riste
dá-me tua vista do céu
enquanto os anjos tristes
não encontrarem a cor de
deus
@pauloandel
Sunday, April 06, 2014
433 - Vila Isabel x Leblon
Depois de uma manhã triste, conversei durante algum tempo no Whatsapp. Antigamente usávamos o telefone ou as conversas de bar; agora são tempos modernos. De toda forma, foi divertido, pequeno bálsamo diante das mazelas da vida.
Aconteceu que resolvi almoçar fora. Pareceu mais prático do que ir ao mercado, voltar e preparar. O restaurante da rua dos Inválidos estava vazio; quem não mergulhou de cabeça nas praias ensolaradas já estava em bares ou casas no ritmo da decisão do campeonato carioca de futebol. São tempos modernos onde as arquibancadas ficam em segundo plano. O prato bom como sempre. Pensei em voltar para casa e passar o dia recolhido, mas resolvi dar uma volta.
Apesar de não ser um homem abonado e de não saber dirigir, ainda costumo atravessar as veias abertas do Rio de Janeiro, viver a cidade em seus diferentes formatos. Para viagens mais longas, táxi e metrô geralmente resolvem. O resto consigo fazer de táxi, mesmo que os maus motoristas tenham preconceitos estúpidos em termos de aparência do passageiro ou da corrida a ser feita.
Pois bem: inicialmente pensei em ir à Fnac para ver livros e discos. Quando cheguei perto da rua do Riachuelo, cogitei pegar um táxi mas, logo que atravessei a rua, veio um ônibus 433, o eterno, um percurso de dez minutos para ir até o Rio Sul - discos na Saraiva, jazz da ATCO, lembranças de Fred pedindo um Color Surprise no Bigburger. Embarquei.
Estranho o fato de uma bonita nissei passar a roleta e ficar em pé com tantos assentos disponíveis - alguns moderninhos, senhores, gente antenada. O motorista parecia um tanto impaciente com as pessoas que embarcavam. Ainda gosto de ônibus: sempre gostei de viagens coletivas, lembram-me o Maracanã dos tempos dignos. Tudo passa rápido demais.
A pequena viagem também. Praia do Flamengo, Oswaldo Cruz, Enseada de Botafogo, o Atlântico Sul em seu esplendor namorando o Pão de Açúcar. No primeiro ponto a nissei desceu sozinha. Veio o segundo, em frente ao velho Mourisco imaginário que os jovens desconhecem.
O ônibus parou.
Abriu-se a porta traseira.
O Brasil subiu os degraus do coletivo.
Num rompante, pela porta de trás e sobe uma garotada de oito ou dez anos de idade.
Era coisa de chorar: todos visivelmente entorpecidos, garrafa de tíner à mão.
Sentaram-se em vários lugares, inclusive cercando um casal no último banco que, apavorado, saltou imediatamente. Do meu lado, ninguém: acho que minha cara, meu cabelo e meu tamanho não são atraentes para pequenas intimidações. Um dos garotos, o menor de todos, talvez uns sete anos, entrou com a mão debaixo da camiseta: era tão pequena que o dedinho não simulava nem uma pistolinha de brinquedo.
Um dos meninos gritou, com sua voz de taquarinha rachada: "Piloto, vamos que eu tenho hora pra chegar em casa". Os passageiros apavorados. Prometi a mim mesmo que só agiria em caso de necessidade extrema - e não era o caso.
O motorista não se levantou. De longe, começou a gritar para que descessem e que não prosseguiria viagem com os garotos. Então vi uma cena triste demais: eles se entreolharam cabisbaixos, mesmo muito doidos, e lentamente começaram a descer. Duas meninas junto. Tive medo de que uma delas parecesse grávida. Olhavam-se com o ar da rejeição que sofrem desde cedo. Pensei: se fossem violentos mesmo, teriam reagido imediatamente. Encolheram-se e voltaram para a casa que o Estado e a sociedade lhes oferece: a calçada.
O ônibus atravessou no túnel e parou no ponto do Rio Sul. Saltei. Pensei na minha tristeza da manhã. Num segundo, passou-me pela cabeça que eu evitei que mais um garoto fosse humilhado nas ruas por ser pobre, socialmente destroçado e fiz de tudo para que tivesse uma vida melhor. Se não consegui o que queria, esforço não faltou.
Todas as crianças eram negras. Por mais que o preconceito pudesse indicar, não eram violentas. Não entraram no ônibus para cometer delitos.
Dentro do Rio Sul, dois menininhos brincavam com o pai na porta da Taco. Riam. Quinhentos metros atrás, dez crianças saboreavam o ballet da morte. Não sei dizer quantas sobreviverão ao massacre das ruas, a uma nova Candelária a conta-gotas que acontece diariamente, a tantas desgraças.
Mesmo alijada das condições mínimas de sobrevivência e completamente drogadas, aquela garotada não questionou uma ordem firme. O que poderiam ser com carinho, estudo, comida, roupa, brinquedos?
Não consegui ver disco algum. Logo voltei para casa. Nada de táxi: um 126, as garotas voltando da praia.
Nós tratamos muito mal o futuro. Depois é fácil demais colocar toda a culpa em um ou dois. Ou no PT.
@pauloandel
cativa
o que
você não
cativa é o que
escorre por entre
os dedos ou voa livre
pelos céus da liberdade
até pousar em mãos de afeto
@pauloandel
você não
cativa é o que
escorre por entre
os dedos ou voa livre
pelos céus da liberdade
até pousar em mãos de afeto
@pauloandel
brotherhood
Quando Matheus acordou no domingo de manhã, sua namorada Safira tinha uma pressa enorme para chegar ao trabalho. Banho tomado, correria, beijaram-se, ela se despediu e tomou um táxi no adormecido coração da cidade para Copacabana.
Ele voltou a se deitar, cansado mas sem sono, dolorido pela noite anterior mas atento. Ligou o aparelho de música, ouviu discos de soul e jazz.
Por volta das dez da manhã, sem compras feitas, resolveu tomar café numa lanchonete da esquina. Ao descer do elevador, João, o porteiro, avisou-lhe que seu irmão, Pedro, havia passado na portaria horas antes. Perguntou por Gílson, o antigo funcionário do prédio que pediu demissão no ano anterior. E também por Matheus.
Como Pedro tinha sinais de embriaguez, João preferiu não incomodar Matheus no interfone e disse que o morador havia saído. Por conta própria, resolveu a seu modo, tentando poupar o condômino.
Não sabia da besteira que cometeu.
Há cinco anos que Matheus e Pedro não se viram e sequer trocaram uma palavra. O irmão foi embora de casa alegando ter engravidado uma namorada e que ia morar com ela, tudo subitamente, talvez uma desculpa para querer ter uma vida livre, sem satisfações nem cobranças no apartamento em que os dois residiam após a morte dos pais - Matheus sempre foi contra violência e drogas - ninguém abandona um irmão apenas porque se tornará pai. Simplesmente Pedro pegou suas coisas de um dia para o outro, não deixou telefone nem endereço, nunca mais deu notícias. Matheus respeitou sua vontade, mesmo em completa discordância. Os dois são os únicos parentes próximos vivos da família. Perderam todo o contato. Matheus, mais velho, passou noites e noite temendo pela vida do irmão, que estivesse em más companhias ou numa vida vertiginosa. Chorou e sofreu.
Cinco anos depois, alcoolizado e provavelmente vindo da Lapa, a boemia próxima à casa de Matheus, Pedro pode ter tido apenas um lapso. Uma doideira. Talvez a noite virada e o álcool lhe fornecessem a coragem para lidar com uma ferida aberta, dolorosa e desnecessária de sua vida. Talvez fosse a grande chance de Matheus rever o irmão querido. Mas não aconteceu: em nome da ordem, João fez o que lhe parecia certo. Não era.
Matheus, educadamente, pediu ao porteiro para que, numa próxima oportunidade, não deixasse de interfonar de forma alguma. Saiu do prédio, foi à lanchonete, comeu um misto quente sem o prazer devido. Resolveu voltar para casa. Pensou em Pedro e chorou. A tristeza e o temor, sem exagero, de que pudesse ter se tornado um dependente químico. A alegria de saber que, anos depois, o irmão está vivo e caminha com suas próprias pernas, mesmo trôpegas.
Matheus chorou. Não culpou João. A vida é assim: um intervalo para sonhar enquanto uma dor rói a alma. E a esperança de que o talvez não se torne o nunca. O quarto semiescuro e o teto que parece sem estrelas são seus confidentes. O ventilador ligado lhe dá ar gelado e sinistro. Há um silêncio e um vazio enormes.
@pauloandel
Thursday, April 03, 2014
urbe coração
alguma coisa desanconteceu
num coração da urbe ao léu
e o mundo num segundo vil
se fez ausência, vazio, traço:
o amor inerte rejeita um som
anjos do asfalto atordoados
a solidão às veias esquálidas
a indiferença dos massacres
cada um por si e o deus além -
o amor fenece e desfaz o som
bom dia, boa tarde, goodnight
quero dar um tapa so big style
num embalo duma noite flácida
batalhões de estranhos íntimos:
a suruba dos sentimentos ocos
alguma coisa desaconteceu cruel
o amor que fugiu no porta malas
o e-mail que explode numa lixeira
a conversa que perdeu certo nexo:
o fim da linha num suicídio tímido
@pauloandel
(sobre "Pros que estão em casa", Hojerizah, 1984)
num coração da urbe ao léu
e o mundo num segundo vil
se fez ausência, vazio, traço:
o amor inerte rejeita um som
anjos do asfalto atordoados
a solidão às veias esquálidas
a indiferença dos massacres
cada um por si e o deus além -
o amor fenece e desfaz o som
bom dia, boa tarde, goodnight
quero dar um tapa so big style
num embalo duma noite flácida
batalhões de estranhos íntimos:
a suruba dos sentimentos ocos
alguma coisa desaconteceu cruel
o amor que fugiu no porta malas
o e-mail que explode numa lixeira
a conversa que perdeu certo nexo:
o fim da linha num suicídio tímido
@pauloandel
(sobre "Pros que estão em casa", Hojerizah, 1984)
Saturday, March 29, 2014
a metrópole
Alguns jovens tão sãos, peles e músculos nus, grandes seios e coxas, todos inebriados com drinks baratos num posto de gasolina.
Outros jovens mortos em vida, apodrecendo debaixo de marquises, cheirando garrafinhas tóxicas ou fumando cachimbos de morte, menos pela onda e mais por fome.
Burgueses rancorosos namorando o nazismo, mostrando saudades da ditadura, de quem torturou, estuprou e matou, rasgando ventres e jogando cadáveres em riachos, tudo em nome de Deus e da família. Ou dando pinta porque os pobres e pretos invadiram os aeroportos e shopping centers como se tudo fosse uma velha geral do Maracanã.
E vai ter briga no boteco. E vai ter briga de torcidas.
As grandes livrarias da Barra são frequentadas por clientes de outros bairros. No entanto, as lojas de aparelhos celulares estão cheias.
Alguém disse que o mendigo tem que morrer ou que tem que tacar uma bomba na favela. Eis um alguém que não merecia ter nascido.
A bossa nova é foda mas ninguém presta atenção direito. O velho samba também e foda e fica barrado na alfândega.
A UERJ também é foda mas o governo do Estado faz questão de minimizá-la.
Você anda na calçada do Boulevard 28 de setembro e as partituras de Noel Rosa são tratadas com indiferença, embora o velho poeta esteja mais vivo do que nunca.
A janela está fechada em meu quarto neste outono tímido que ainda parece confuso. Não quero ver o luar e o sol. Olhar para o teto e mergulhar no infinito: cadê o meu amor que viveu nas folhas de papel? A madrugada se confunde com a alvorada. Ninguém liga.
Mais tarde, os Racionais vão trazer inteligência e sagacidade para o coração da Lapa. Não dormem tranquilos enquanto o mundo for injusto demais. Ainda temos boas esperanças.
Daqui a poucas horas vão comemorar os 50 anos de ditadura militar, tudo com os argumentos mais estapafúrdios possíveis, tentando justificar o injustificado.
Os escritores Garcez e Andel preparam o lançamento de seu novo livro de futebol no coração da República, dentro de duas semanas.
Pessoas sofisticadas e outras nem tanto, algumas nem de perto, olham com indiferença as exposições do CCBB. Talvez não entendam nada.
Enquanto os novos baianos passeiam numa velha garoa querida, os cariocas tão normais continuam não gostando de sinal fechado.
O Brasil ainda é medroso, conservador, cafona e sectário num trecho de seu coração, ao contrário de outras áreas sem arritmia. Mas há quem se deite em berço esplêndido de sangue por causa da violência estúpida.
Um velhinho conversa com um travesti no elevador sobre o clássico de domingo no Maracanã. É claro que isso cheira a Copacabana.
Outro velhinho passeia tranquilamente pela orla da praia, sem causar nenhuma desconfiança de que foi um torturador no quartel da PE. Aqui, a fragrância é de Ipanema/Leblon.
As pessoas batendo cabeça na Rio Branco às seis da tarde. Os mesmos mendigos na praça da Cruz Vermelha. A imponência do prédio do MEC é um atestado das coisas boas que podemos fazer.
As pessoas com os olhos estatelados em frente à televisão na hora do jantar, a morte da reflexão.
É proibido fumar.
É permitido matar.
Noite e dia, a metrópole e suas permanentes contradições.
Somos imperfeitos demais. Permissivos, acomodados, alheios ao bem comum, o que sugere horror.
Algumas coisas acontecem no cérebro do meu coração.
@pauloandel
Wednesday, March 26, 2014
Saturday, March 22, 2014
santo (logos)
1
o santo dia
o santo lema
o santo drama
e a vida feito
réstia fina, curta
luz opaca fria
sem incendiar
a santa sede
o vão desejo
a vida aflita
o desassossego
e tudo desvira
sem remelexo
a vida e o nexo
o grande apreço
o santo desvario
o ardor, a paixão
o sexo e o respiro
o santo logos
os santos logos
hocus pocus
@pauloandel
o santo dia
o santo lema
o santo drama
e a vida feito
réstia fina, curta
luz opaca fria
sem incendiar
a santa sede
o vão desejo
a vida aflita
o desassossego
e tudo desvira
sem remelexo
a vida e o nexo
o grande apreço
o santo desvario
o ardor, a paixão
o sexo e o respiro
o santo logos
os santos logos
hocus pocus
@pauloandel
Thursday, March 20, 2014
Tuesday, March 11, 2014
Thursday, March 06, 2014
as outras estações
1
eles, tão loucos:
sonham juntos
longe
transam em sonhos
vagos
incendeiam-se
em olhares
num caleidoscópio -
cada nova imagem
tem a saudade
do que desaconteceu
mas arde à pele
neblina as vistas
até esvair-se fugaz
numa pretensão
numa bombatômica
de tesão e crença:
amor de pouco, liso
incompreensível
2
meu samba torto
inebriado
ajoelhado aos pés
da cama onde dorme
para sempre
uma garota morta
linda, triste e morta:
onde está o pesadelo
que não vai embora
depois da demissão
do bota-fora
qualquer diáspora
aquele samba torto
sem sentido
nem predicado
a rosa mais bonita
para quem disse
adeus
sem sentido, apaixonado
para o quem
já se perdeu
3
o pela-saco ruidoso
range rancores
porque a pequenez
dói-lhe feito facada
nas vísceras nuas
o pela-saco raivoso
porque a arte
sem desacato no fato
dói-lhe feito o soco
na medíocre fantasia
4
subversão
para emergir
o que há de bom
no subterrâneo
@pauloandel
eles, tão loucos:
sonham juntos
longe
transam em sonhos
vagos
incendeiam-se
em olhares
num caleidoscópio -
cada nova imagem
tem a saudade
do que desaconteceu
mas arde à pele
neblina as vistas
até esvair-se fugaz
numa pretensão
numa bombatômica
de tesão e crença:
amor de pouco, liso
incompreensível
2
meu samba torto
inebriado
ajoelhado aos pés
da cama onde dorme
para sempre
uma garota morta
linda, triste e morta:
onde está o pesadelo
que não vai embora
depois da demissão
do bota-fora
qualquer diáspora
aquele samba torto
sem sentido
nem predicado
a rosa mais bonita
para quem disse
adeus
sem sentido, apaixonado
para o quem
já se perdeu
3
o pela-saco ruidoso
range rancores
porque a pequenez
dói-lhe feito facada
nas vísceras nuas
o pela-saco raivoso
porque a arte
sem desacato no fato
dói-lhe feito o soco
na medíocre fantasia
4
subversão
para emergir
o que há de bom
no subterrâneo
@pauloandel
Saturday, February 22, 2014
canções de amor (sábado em copacabana)
1
o amor que desacontece
à beira do gran grand prix:
heróis ficam inconsoláveis
poetas versam sob escombros
e a paixão tão noiva e linda
dispensada à beira do altar
o amor que só sugere é frio
esgueirando-se em hipóteses:
e se...? e se...? então poderia?
um amor se faz em fatos nus
e não vestido pelos subjetivos
2
sábado em copacabana para meu
amor ao norte, ao longe, qualquer
praça ou calçada de coração voraz
entre campos de bola entre areias
e mulheres de predicados carnais
meu coração não demora e espia
os espólios de uma cidade oculta
com seus pobres e ricos, liberais
machões, travestis, seus marginais
magnatas, roça e favela, paraíbas
as mulheres de carne esplêndida
louvadas por poetas de botequim:
ah, cervantes! ah, sat's! que fim
levaram o chuva de prata ou o tal
pé-sujo que não lembro o letreiro?
onde está a fachada do coruja bar?
as putas mais lindas, românticas
lado a lado com "mulher-pra-casar" -
e tudo será cedo quando esta noite
cerrar o dia pois o tempo não perdoa:
copacabana é sempre um sábado!
2
meu amor tão longe
num sorriso em foto
hoje à noite vai ter festa
mas não dançarei:
agora sou um longe
agora sou mais raso
e só resta uma promessa
se um amanhã risonho
há de haver em justiça -
resto-me em desejo e sede
alimento meus pecados
enquanto meu amor ri
mas sequer me acena - cor
@pauloandel
o amor que desacontece
à beira do gran grand prix:
heróis ficam inconsoláveis
poetas versam sob escombros
e a paixão tão noiva e linda
dispensada à beira do altar
o amor que só sugere é frio
esgueirando-se em hipóteses:
e se...? e se...? então poderia?
um amor se faz em fatos nus
e não vestido pelos subjetivos
2
sábado em copacabana para meu
amor ao norte, ao longe, qualquer
praça ou calçada de coração voraz
entre campos de bola entre areias
e mulheres de predicados carnais
meu coração não demora e espia
os espólios de uma cidade oculta
com seus pobres e ricos, liberais
machões, travestis, seus marginais
magnatas, roça e favela, paraíbas
as mulheres de carne esplêndida
louvadas por poetas de botequim:
ah, cervantes! ah, sat's! que fim
levaram o chuva de prata ou o tal
pé-sujo que não lembro o letreiro?
onde está a fachada do coruja bar?
as putas mais lindas, românticas
lado a lado com "mulher-pra-casar" -
e tudo será cedo quando esta noite
cerrar o dia pois o tempo não perdoa:
copacabana é sempre um sábado!
2
meu amor tão longe
num sorriso em foto
hoje à noite vai ter festa
mas não dançarei:
agora sou um longe
agora sou mais raso
e só resta uma promessa
se um amanhã risonho
há de haver em justiça -
resto-me em desejo e sede
alimento meus pecados
enquanto meu amor ri
mas sequer me acena - cor
@pauloandel
Friday, February 21, 2014
porta-retratos e humildes relíquias
1
olhar no céu e encontrar
um desenho de amor
num rosto de mulher
- os traços são os poemas! -
- duas ametistas brilham! -
algum olhar severo enternece
enquanto a beleza é tesão:
desejo incandescente - volúpia
ardor que desmerece desatino
meu amor de cores tão leves -
o céu parece uma bonequinha
uma Audrey, cena de gran luxo
e paixão e vontade noutra cama -
meu amor tem cor! voa rasante
e traz palpitações, ardência atroz
certa alma apaixonada não dorme
a sós, mas namora ao longe: jazz
2
você, meu jazz - você, meu verso
não me satisfaz um amor supérfluo
passatempo sem eira nem beira
você, já não disfarço que te quero
você, meu sonho, meu chão e teto
você, um quadro, a foto e um gesto
a flor que tanto venero, sem tempo
você, meu sexo - gozo e jorro certo
o longe que tanto me corrói às veias
o nunca onde o talvez já é afeto
3
os outros não pensam nosotros
rústicos caiporas com tom inglês
querem ser belos e eternos - truque
a breguice jamais se regenera!
os outros só pensam em si mesmos
e fodem sem brilho!
e morrem sozinhos
os outros são egoístas até demais
e perdem as boas histórias
com seus troféus de carne às mãos -
são rústicos caiporas, capangas
falsos retratos de um mundo falho
@pauloandel
olhar no céu e encontrar
um desenho de amor
num rosto de mulher
- os traços são os poemas! -
- duas ametistas brilham! -
algum olhar severo enternece
enquanto a beleza é tesão:
desejo incandescente - volúpia
ardor que desmerece desatino
meu amor de cores tão leves -
o céu parece uma bonequinha
uma Audrey, cena de gran luxo
e paixão e vontade noutra cama -
meu amor tem cor! voa rasante
e traz palpitações, ardência atroz
certa alma apaixonada não dorme
a sós, mas namora ao longe: jazz
2
você, meu jazz - você, meu verso
não me satisfaz um amor supérfluo
passatempo sem eira nem beira
você, já não disfarço que te quero
você, meu sonho, meu chão e teto
você, um quadro, a foto e um gesto
a flor que tanto venero, sem tempo
você, meu sexo - gozo e jorro certo
o longe que tanto me corrói às veias
o nunca onde o talvez já é afeto
3
os outros não pensam nosotros
rústicos caiporas com tom inglês
querem ser belos e eternos - truque
a breguice jamais se regenera!
os outros só pensam em si mesmos
e fodem sem brilho!
e morrem sozinhos
os outros são egoístas até demais
e perdem as boas histórias
com seus troféus de carne às mãos -
são rústicos caiporas, capangas
falsos retratos de um mundo falho
@pauloandel
Thursday, February 20, 2014
anagramas
1
esqueça a minha dor
a hipocrisia é uma fé
eu sei do que me dói
- o que corta
- arde e range
- o pesadelo
(sós)
apenas eu mesmo sei
a dor dos meus mortos
o pouco que me resta
a cor da linda noite vã
tudo está perdido no céu
mas uma estrela ao longe
sugere promessas, versos
a vida por um triz tilinta
em brindes à mesa de bar
- vamos à taberna!
- e se a vida tem sentido?
- beberemos até o gole fatal!
- onde está a vida dos que se pouparam?
não há dor ao só
não há dor ao só
apenas o pior: saudade
2
deitado
em tristeza esplêndida
ao verso triste
em mar do sul atlântico
deitado
em jazz de mingus livre
no café bohemia:
- let your soul fix the night!
3
um ateu em procissão
para encontrar um deus
no meio do nada mais
a venezuela é a vila vintém?
onde estão os liberais
elegantes? ou ficar a pátria
livre ou coroar a estupidez!
viva a democracia!
viva a imprensa livre!
mentirosos e podres
nunca fomos tão felizes:
uma salva de palmas
para o village mall!
viva os hipócritas sem deus!
@pauloandel
esqueça a minha dor
a hipocrisia é uma fé
eu sei do que me dói
- o que corta
- arde e range
- o pesadelo
(sós)
apenas eu mesmo sei
a dor dos meus mortos
o pouco que me resta
a cor da linda noite vã
tudo está perdido no céu
mas uma estrela ao longe
sugere promessas, versos
a vida por um triz tilinta
em brindes à mesa de bar
- vamos à taberna!
- e se a vida tem sentido?
- beberemos até o gole fatal!
- onde está a vida dos que se pouparam?
não há dor ao só
não há dor ao só
apenas o pior: saudade
2
deitado
em tristeza esplêndida
ao verso triste
em mar do sul atlântico
deitado
em jazz de mingus livre
no café bohemia:
- let your soul fix the night!
3
um ateu em procissão
para encontrar um deus
no meio do nada mais
a venezuela é a vila vintém?
onde estão os liberais
elegantes? ou ficar a pátria
livre ou coroar a estupidez!
viva a democracia!
viva a imprensa livre!
mentirosos e podres
nunca fomos tão felizes:
uma salva de palmas
para o village mall!
viva os hipócritas sem deus!
@pauloandel
difícil
tão hipócrita é
o amor que não
ousa, esconde-se
por medo e regras
até desperdiçar-se
por nenhuma razão
tão hipócrita o medo
o fingir de bobagens
pelas tais convenções
tão hipócrita a frieza
a distância, assepsia
já que o sexo é fato
a vontade é um jogo
do país às nossas mãos
@ pauloandel
o amor que não
ousa, esconde-se
por medo e regras
até desperdiçar-se
por nenhuma razão
tão hipócrita o medo
o fingir de bobagens
pelas tais convenções
tão hipócrita a frieza
a distância, assepsia
já que o sexo é fato
a vontade é um jogo
do país às nossas mãos
@ pauloandel
Tuesday, February 18, 2014
podres poderes... tão atuais
Caetano, 1984
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...
Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...
Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
@pauloandel
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...
Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...
Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
@pauloandel
outra casa
nunca mais encontrei minha casa
desde que entendi drama e morte
os silêncios falam tão alto e vasto
que povoam delírios na memória
o que se perdeu mora no sempre
e o futuro faz-se escasso, tão frágil
sem os que sempre foram a casa
um dia, fechei a porta e vi o mundo
desci um grande corredor, uma rua
as frases repletas de otraspalabras
e gente sem se ligar em gente, feliz
o egoísmo é a sincera decadência
depois olhei para trás, era a porta
tão longe, tão crua, refém superoutra:
eu nunca mais encontrei minha casa
@pauloandel
desde que entendi drama e morte
os silêncios falam tão alto e vasto
que povoam delírios na memória
o que se perdeu mora no sempre
e o futuro faz-se escasso, tão frágil
sem os que sempre foram a casa
um dia, fechei a porta e vi o mundo
desci um grande corredor, uma rua
as frases repletas de otraspalabras
e gente sem se ligar em gente, feliz
o egoísmo é a sincera decadência
depois olhei para trás, era a porta
tão longe, tão crua, refém superoutra:
eu nunca mais encontrei minha casa
@pauloandel
Sunday, February 16, 2014
todos estão nus
abre um domingo
café, preguiça e jornais
um jogo adiante
e o carnaval, o carnaval
vamos ouvir jorge mautner
porque nenhum tempo espera
exceto o da puta fascista na TV
vamos ouvir mautner
e pedir piedade num abre-alas
ninguém vai resolver o fim
do mundo acorrentando
ninguém
penas de morte, choques de ordem
aves de rapina quebrando a firma
todos estão nus!
a hipocrisia em pêlo
a indiferença crua
o nada a ver com isso: todos estão nus!
a bossa nova é foda
e fingimos que é de fora
coltrane é negro
charlie parker negro
e miles negro demais -
o jazz de fora é foda!
estamos todos nus
distantes de qualquer paraíso
o tesão não é maçã nem pecado
a dor está nos mortos
nos perdidos das marquises
nas cabeças explodidas
com bombas, tiros, sacrifício
nas meninas estupradas
nos garotos desaparecidos
mãos estendidas por uma moeda
estamos todos nus
não precisamos de nazistas tupiniquins
o febeapá é nosso
falta a carta de alforria
@pauloandel
café, preguiça e jornais
um jogo adiante
e o carnaval, o carnaval
vamos ouvir jorge mautner
porque nenhum tempo espera
exceto o da puta fascista na TV
vamos ouvir mautner
e pedir piedade num abre-alas
ninguém vai resolver o fim
do mundo acorrentando
ninguém
penas de morte, choques de ordem
aves de rapina quebrando a firma
todos estão nus!
a hipocrisia em pêlo
a indiferença crua
o nada a ver com isso: todos estão nus!
a bossa nova é foda
e fingimos que é de fora
coltrane é negro
charlie parker negro
e miles negro demais -
o jazz de fora é foda!
estamos todos nus
distantes de qualquer paraíso
o tesão não é maçã nem pecado
a dor está nos mortos
nos perdidos das marquises
nas cabeças explodidas
com bombas, tiros, sacrifício
nas meninas estupradas
nos garotos desaparecidos
mãos estendidas por uma moeda
estamos todos nus
não precisamos de nazistas tupiniquins
o febeapá é nosso
falta a carta de alforria
@pauloandel
Thursday, February 13, 2014
ruas do mundo
o verão e suas bombas de calor
escritórios refrigerados
mas também as telhas de amianto no supermercado popular
o engravatado sempre mereceu o que tem e terá
o camelô e o mendigo também
foi assim que deus fez ou alguém preferiu acreditar
é bem mais confortável
do que perder tempo em raciocinar
somos todos medíocres
fazendo de nossos olhares
a real fotografia do mundo
a crônica sincera das ruas do mundo
e nada vai reparar
o cinegrafista assassinado
o jovem negro de joelhos assassinado
a bela jovem negra policial
o perigoso ladrão de moedas acorrentado como velho escravo
a menina estuprada dois meses na cadeia do maranhão
o menino joão helio arrastado pelas ruas fúteis do mundo
somos todos medíocres
ao escolhermos as injustiças que devem ser reparadas
bem como as esquecidas
somos todos medíocres
quando pensamos em bandidos fazendo justiça pelo bem
somos todos medíocres
somos todos medíocres
a violência ainda é tão fascinante aos olhares medíocres
e lá vêm o carnaval, o feriadão, a copa do mundo
a quem interessa lembrar da passarela?
as ruas do mundo são fúteis
quando há racismo, exclusão, indiferença
gente que faz de gente passatempo
videogame imperfeito
vã distração que se descarta
os livros nem sempre são lidos como devido - na verdade nunca! -
as dialéticas não são estabelecidas
somos todos medíocres a juntar na mesma panela o cozido
de riqueza, sucesso e desprezo alheio
ridicularizamos os comunistas
e a inflação nos irrita - somos hipócritas demais, incoerentes vorazes
precisamos de mais tempo perto do fogo *como faziam os hippies*
mas ninguém liga
ninguém liga
o amor virou mercadoria - só serve em perfeitas condições
@pauloandel
* "Perto do fogo", Cazuza e Rita Lee, 1989.
Monday, February 10, 2014
cães de aluguel, jards e cazuza
cães de aluguel
precisa-se de cães de aluguel
fortes, densos, mortíferos e vis
ideais para uma sociedade de fé
- não precisamos de leis - a lei é o caralho - leve o coitadinho para você
- isso tem mais que morrer
precisa-se de cães de aluguel
fiéis às desumanidades, sempre alertas para morder, ceifar, matar
o que fazer com nossa hipocrisia?
eis ipanema que precisa brilhar à noite e as manchetes do flamengo precisam ser reluzentes
foda-se a lei quando o dinheiro é poder - deixem-nos usar nossos smartphones em pax - glória a deus nas alturas - cada um por si e que o outro si foda-se
- não fui eu quem fez o mundo assim
vamos prender nossos escravos nus - tragam o açoite - enfiem no rabo
- eles têm que morrer sofrendo, há justiça
nossos cachorros mais agressivos
casa, comida e ódio nos peitos fortes
cores de mussolini, cenas de médici, risos debochados
tortura, pau-de-arara, choques elétricos, estupro e agonia
que tal aplaudir uma piranha fascista vociferando na televisão?
o crime virou apenas exercício da liberdade de expressão
o aparelho mora numa calçada
o inimigo é negro e pobre, analfabeto
os punhos cerrados são ordem e progresso, tradição, família e propriedade
os foguetes têm religião e explodem sem dó a cabeça de inocentes
crianças das marquises já nasceram delinquentes
e a estupidez à vista é a revista do egoísmo ao caos
os comunistas são os imbecis
espertos liberais com sorrisos de luar, pasta de dólares, sonegação
e todo são domingo deus irá nos perdoar
a ironia do destino dá-nos nojo de dois ratos enquanto matamos por prazer, superioridade e empáfia num mundo com leis - só para os miseráveis
@pauloandel
precisa-se de cães de aluguel
fortes, densos, mortíferos e vis
ideais para uma sociedade de fé
- não precisamos de leis - a lei é o caralho - leve o coitadinho para você
- isso tem mais que morrer
precisa-se de cães de aluguel
fiéis às desumanidades, sempre alertas para morder, ceifar, matar
o que fazer com nossa hipocrisia?
eis ipanema que precisa brilhar à noite e as manchetes do flamengo precisam ser reluzentes
foda-se a lei quando o dinheiro é poder - deixem-nos usar nossos smartphones em pax - glória a deus nas alturas - cada um por si e que o outro si foda-se
- não fui eu quem fez o mundo assim
vamos prender nossos escravos nus - tragam o açoite - enfiem no rabo
- eles têm que morrer sofrendo, há justiça
nossos cachorros mais agressivos
casa, comida e ódio nos peitos fortes
cores de mussolini, cenas de médici, risos debochados
tortura, pau-de-arara, choques elétricos, estupro e agonia
que tal aplaudir uma piranha fascista vociferando na televisão?
o crime virou apenas exercício da liberdade de expressão
o aparelho mora numa calçada
o inimigo é negro e pobre, analfabeto
os punhos cerrados são ordem e progresso, tradição, família e propriedade
os foguetes têm religião e explodem sem dó a cabeça de inocentes
crianças das marquises já nasceram delinquentes
e a estupidez à vista é a revista do egoísmo ao caos
os comunistas são os imbecis
espertos liberais com sorrisos de luar, pasta de dólares, sonegação
e todo são domingo deus irá nos perdoar
a ironia do destino dá-nos nojo de dois ratos enquanto matamos por prazer, superioridade e empáfia num mundo com leis - só para os miseráveis
@pauloandel
só
morto - jards macalé
Nessa manhã de louco/ O olho
do morto/ Reflete o fogo/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Pedras
rolam pro mar/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Nessa manhã de
louco/ Todo mistério é pouco/ Espuma de sangue a brilhar/ Nessa manhã de louco/
Todo mistério é pouco
Esse sol tão forte/ É um sol
de morte/ Esse sol tão forte/ De mil mortes/ Esse sol/ Há quanto tempo/ Eu não
via/ Um dia.../ Um dia.../ Tão
bonito, tão.../ Tão maldito, tão.../ Um dia.../ Um dia.../ Oh, see the city
lights/ I never seen you so bright/ Let this burning/ Let this burning/ Burning
night
burguesia - cazuza
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
A burguesia não tem charme nem é discreta com suas perucas de cabelos de boneca
A burguesia quer ser sócia do Country
A burguesia quer ir a New York fazer compras
Pobre de mim que vim do seio da burguesia
Sou rico mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal
A burguesia tá acabando com a Barra
Afunda barcos cheios de crianças
E dormem tranqüilos
E dormem tranqüilos
Os guardanapos estão sempre limpos
As empregadas, uniformizadas
São caboclos querendo ser ingleses
São caboclos querendo ser ingleses
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
A burguesia não repara na dor da vendedora de chicletes
A burguesia só olha pra si A burguesia só olha pra si
A burguesia é a direita, é a guerra
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução ao contrário da de 64
O Brasil é medroso
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia
Vamos pra rua Vamos pra rua Vamos pra rua Vamos pra rua Pra rua, pra rua
Vamos acabar com a burguesia
Vamos dinamitar a burguesia
Vamos pôr a burguesia na cadeia numa fazenda de trabalhos forçados
Eu sou burguês, mas eu sou artista - estou do lado do povo, do povo
A burguesia fede - fede, fede, fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
Porcos num chiqueiro
São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês
Que vive do seu trabalho honestamente
Mas este quer construir um país e não abandoná-lo com uma pasta de dólares
O bom burguês é como o operário
É o médico que cobra menos pra quem não tem e se interessa por seu povo
Em seres humanos vivendo como bichos
Tentando te enforcar na janela do carro No sinal, no sinal No sinal, no sinal
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
A burguesia não tem charme nem é discreta com suas perucas de cabelos de boneca
A burguesia quer ser sócia do Country
A burguesia quer ir a New York fazer compras
Pobre de mim que vim do seio da burguesia
Sou rico mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal
A burguesia tá acabando com a Barra
Afunda barcos cheios de crianças
E dormem tranqüilos
E dormem tranqüilos
Os guardanapos estão sempre limpos
As empregadas, uniformizadas
São caboclos querendo ser ingleses
São caboclos querendo ser ingleses
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
A burguesia não repara na dor da vendedora de chicletes
A burguesia só olha pra si A burguesia só olha pra si
A burguesia é a direita, é a guerra
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução ao contrário da de 64
O Brasil é medroso
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia
Vamos pra rua Vamos pra rua Vamos pra rua Vamos pra rua Pra rua, pra rua
Vamos acabar com a burguesia
Vamos dinamitar a burguesia
Vamos pôr a burguesia na cadeia numa fazenda de trabalhos forçados
Eu sou burguês, mas eu sou artista - estou do lado do povo, do povo
A burguesia fede - fede, fede, fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
Porcos num chiqueiro
São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês
Que vive do seu trabalho honestamente
Mas este quer construir um país e não abandoná-lo com uma pasta de dólares
O bom burguês é como o operário
É o médico que cobra menos pra quem não tem e se interessa por seu povo
Em seres humanos vivendo como bichos
Tentando te enforcar na janela do carro No sinal, no sinal No sinal, no sinal
Enquanto houver burguesia não vai haver poesia
Sunday, February 09, 2014
Saturday, February 08, 2014
os fragmentos da manhã vazia
1
tudo que me disser a canção
precisa rugir feito uma poesia:
sorver, tragar
ruminar, reter
precisa suar feito poesia
gozar, acontecer
refestelar-se numa sala
com memórias à mobília
2
sempre dar prioridade
a quem dela é seu vigia
a quem zela por todo dia
sem medo ou a distância
fria, vazia, que desameniza
o lado mais doce da vida
3
o estrangeiro
alheio
ser de outro planeta
homem fora dessas ruas
cansado e apressado
buscando a riqueza
de ser tão diferente
pela riqueza do jeito
ou as emoções tortas, cruas
que vivem os poetas de calçada
4
amor que não se rega
é pedra que não rola:
cria musgo
perde o sentido
namora o vazio
faz-se lágrima
de quem não chora
@pauloandel
tudo que me disser a canção
precisa rugir feito uma poesia:
sorver, tragar
ruminar, reter
precisa suar feito poesia
gozar, acontecer
refestelar-se numa sala
com memórias à mobília
2
sempre dar prioridade
a quem dela é seu vigia
a quem zela por todo dia
sem medo ou a distância
fria, vazia, que desameniza
o lado mais doce da vida
3
o estrangeiro
alheio
ser de outro planeta
homem fora dessas ruas
cansado e apressado
buscando a riqueza
de ser tão diferente
pela riqueza do jeito
ou as emoções tortas, cruas
que vivem os poetas de calçada
4
amor que não se rega
é pedra que não rola:
cria musgo
perde o sentido
namora o vazio
faz-se lágrima
de quem não chora
@pauloandel
Thursday, February 06, 2014
o amor 2 - Maiakovski
o amor
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.
Vladimir Maiakovski (1893-1930)
a flauta vértebra
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)
blusa fátua
Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.
Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"
Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!
Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!
(tradução: Augusto de Campos)
amo
COMUMENTE É ASSIM
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Mulher.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce
floresce,
e depois desfolha.
adolescente
A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.
Sobre Maiakovski
@pauloandel
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.
Vladimir Maiakovski (1893-1930)
a flauta vértebra
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)
blusa fátua
Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.
Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"
Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!
Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!
(tradução: Augusto de Campos)
amo
COMUMENTE É ASSIM
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Mulher.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce
floresce,
e depois desfolha.
adolescente
A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.
Sobre Maiakovski
Em 1906, após a morte de seu pai, muda-se com a família para Moscou. Aos 15 anos ingressa no Partido Bolchevique e é preso duas vezes, sendo que na última permanece onze meses encarcerado, quando aproveita para leitura de todas as obras clássicas. Em 1910, ingressa na Escola de Belas Artes, de onde é expulso quatro anos depois, quando já se encontra ligado ao movimento futurista. Era o expoente de uma geração em busca de uma estética que captasse a profundidade daquelas inquietações russas. A partir da Revolução de 1917 sua atividade literária se intensifica unido a atividade política. Participa das comissões de literatura, pintura e cinema. Começa a ser tachado pelos burocratas do Partido de "incompreensível para as massas". Maiakóvski busca demonstrar seu engajamento fazendo cartazes e poemas de exaltação ao Regime Soviético. Nos últimos três anos de vida, levou seus versos a mais de 180 mil pessoas, em conferências e recitais por várias cidades. Nunca aceitou a imposição de escrever o vazio óbvio como os poetas proletários insistiam. Dizia "vangloriam-se alguns do fato de a nossa leitura ser florida como um jardim".
Suicidou-se talvez pela falta de perspectivas que via para a sua arte, talvez pelos problemas de saúde, estava com a garganta abalada e percebia que não poderia recitar mais, talvez pelos relacionamentos amorosos infelizes. Além das poesias e roteiros dos filmes escreveu as peças teatrais Mistério Bufo (1918 e 1920) e O Percevejo (1929) dirigidas por Meyerhold, Eu, Vladimir Maiakóvski (1913) e Os Banhos (1930).
Wednesday, February 05, 2014
jazz!
Jazz é aquilo: ama-se ou não se compreende. Você está numa noite do Costa Brava com o mar infinito por todos os lados e espera Tatiana para um drink. Ou o Atlântico Sul beija o Imbuí enquanto Eliane, linda de morrer, olha como se buscasse o horizonte para si, amenizando o coração.
Tenho escutado jazz desde os tempos da faculdade. Minha primeira influência firme foi Jô Soares em seu programa de rádio que eu escutava num walkman vermelho, comprado no Camelódromo. Ao Jô devo o mergulho profundo; entretanto, antes dele eu já conhecia alguns nomes como Wayne Shorter e, claro, Miles Davis. E no programa, logo percebi que o meu jazz não era o de Jô, dos anos 30 com Gene Krupa, mas o avant-garde do fim dos anos 50, Ornette Coleman. Mas também Charles Mingus, Thelonious Monk, Sonny Rollins, McCoy Tyner, Miles, Chet, Coltrane, Blakey, outros.
Perto dos vinte e poucos anos, outro porto importante foi a livraria Berinjela, coração do Rio, avenida Rio Branco. Era amigo dos donos, ouvia muito jazz por lá quase diariamente entre os maravilhosos livros enquanto Carlito Azevedo falava do Chaves, Rubens Figueiredo sorria e Maurício dava sonoras gargalhadas à la Flipper quando Alvaro O Marechal fazia a performance da dança do Siri Patola. Kamille também ria e eu adorava. Tínhamos nosso divertido Café Bohemia imaginário e particular. Ou jogos de botão narrados por Jimmy Scott ou Julie London, belíssima.
Mergulhei para sempre nas vertentes, nas resenhas, buscando novos discos e artistas, tentando captar aquela atmosfera musical que um dia me fisgou para sempre. O jazz sempre esteve perto da poesia que pratiquei, das mulheres que amei e das pessoas queridas que já se foram para sempre.
Jazz não é só pra se ouvir, mas pra se sentir. Sonhar. Fugir. Experimentar momentos de sonho e liberdade num mundo cada vez mais reacionário e agressivo. Apague a luz, abra a janela, ligue o som e voe longe. Você pode dançar, ficar estático, deitar, procurar estrelas no teto do quarto, pensar na mulher desejada, um grupo de amigos rindo e brindando com o chope dourado da felicidade.
Tanto faz se são artistas consagrados ou iniciantes. Se o repertório é de standarts ou novidades. E daí que não estamos no Five Spot mas na Cruz Vermelha? Maravilhosas Jane Monheit e Diana Krall!
O jazz nascendo, toda liberdade para dentro da cabeça é pouca. O que sinto há vinte e tantos anos.
Chego a pensar em Zoot Sims atravessando a Figueiredo Magalhães em Copacabana enquanto meu velho amigo Fred arregala os olhos.
@pauloandel
o amor
Caetano Veloso
(sobre um poema de Vladimir Maiakovski)
Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra
@pauloandel
(sobre um poema de Vladimir Maiakovski)
Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra
@pauloandel
Tuesday, February 04, 2014
a hipocrisia
Qual
rua não a adota? Casa, paço, alameda, ciudad,
calle? Acordamos, vivemos, dormimos e lá está a danada da hipocrisia. Nos
discursos de ordem e progresso em defesa da grande pátria, escoram-se rastros
de hipocrisia. Ou então os falsos moralistas que adoram criticar o
comportamento alheio enquanto escondem toda sua podridão, lá está a fortalecida
hipocrisia. O caso de agora vivido nas manchetes pelo Fluminense é um exercício
completo de hipocrisia plena: jornalistas cínicos omitem a verdade, distorcem,
subvertem e entorpecem a opinião pública, muito menos do fizeram diante do
inacreditável caso Bruno. Quando Cuba constrói seu porto, os hipócritas vociferam e apregoam o fim do comunismo com ridicularização incompatível; são os mesmos que
defendem o liberalismo e incomodam-se com a alta dos preços em cidades como Rio
de Janeiro e São Paulo – liberalismo pleno, desde que tenham seus bolsos cheios
e o resto-que-se-foda - o nome disso é hipocrisia. Eduardo Coutinho, brilhante cineasta assassinado domingo
passado, era comunista: alguém teria condições morais de apontá-lo como idiota
por isso? A hipocrisia quer a fogueira para Woody Allen a respeito de um crime
que jamais foi comprovado, mas não move uma palha sobre a garota que acabou de
ser estuprada no Alto da Boa Vista, as garotas que são seviciadas diariamente
em comunidades ainda dominadas pelo tráfico carioca, as garotas que fazem
programa na avenida Atlântica e espalhadas em todos os puteiros. Quantos
jornalistas hipócritas não defenderam com veemência regimes prisionais mais
severos, até perpétuos, mas calaram-se diante do caso Pimenta Neves? Empresários
hipócritas sempre reclamam dos altos tributos, mas fogem da Receita Federal com
dois mil e um artifícios no limite da lei – às vezes, extrapolando-a. A
hipocrisia que marcou as discussões a respeito do beijo gay na televisão é um
marco da nossa estupidez contemporânea: há décadas, personagens homossexuais
estão (devidamente) incorporados ao cotidiano televisivo. Namoram, seduzem,
tudo acontece, por que então a celeuma em torno de um beijo? Um provincianismo
comovente, da mesma natureza que alimenta os intelectuais de orelha de livro,
ávidos pelas mais novas idiotices de Mainardi e Jabor, temperadas com
verborragia barata e palavras pinçadas para dar o tom professoral que os
arrogantes tanto apreciam. Para a hipocrisia comum, Chico Buarque, Caetano e Gil
são defensores da censura, com todo o ridículo daqueles que não têm acompanhado
suas trajetórias. A hipocrisia está de mãos dadas com a indiferença diante da
miséria, o desinteresse pelo próximo, a patética sede de poder. O amor que não
se declara. O ódio que se espalha. O primarismo da vitória que se traduz em
bens de consumo e cabeças ocas. O ter mais importante do que o ser. A
hipocrisia na intolerância religiosa e até mesmo na ausência de religião. A
hipocrisia em ser o que não se é ou não ser o que se realmente é. Ou a
hipocrisia da via única: um jornal, um canal de televisão, uma opinião, uma
escola de samba, um time. As ruas estão pintadas com a hipocrisia da ostentação
idiota, devidamente rejeitada pelos verdadeiros racionais. Cada vez mais temos
mais informação, computadores, meios de comunicação, velocidade e tudo se perde
no caminho porque não sabemos viver sem hipocrisia. Personagens politicamente
corretos sonegando impostos, furando fila, transferindo bens para terceiros, fingindo
que André Santos e Heverton são personagens de uma história com Papai Noel.
Você que me lê por ora considera-me um hipócrita e, nisso, fica deitada em berço
esplêndido a mais fina flor do que aqui propus tratar como simples hipocrisia. A covardia da covardia. Escrotidão e ironia. Que nostalgia fria?
@pauloandel
Saturday, February 01, 2014
a dança dos sonhos
para eu estar em você
e sermos um exato um
que tal desatar os nós
desabrochar más ideias
e jogá-las longe, frígidas?
para eu dançar em você
dançar-te, sobrevoar-te
fazer da nossa noite crua
a delicada Gotham City
nenhum Batsinal à vista
ninguém a cortar clima
a dança dos sonhos, sexo
os desejos fora do eixo
o nexo que nos revitaliza
e tudo vai dar certo no caos
tudo será leve diante do caos
@pauloandel
e sermos um exato um
que tal desatar os nós
desabrochar más ideias
e jogá-las longe, frígidas?
para eu dançar em você
dançar-te, sobrevoar-te
fazer da nossa noite crua
a delicada Gotham City
nenhum Batsinal à vista
ninguém a cortar clima
a dança dos sonhos, sexo
os desejos fora do eixo
o nexo que nos revitaliza
e tudo vai dar certo no caos
tudo será leve diante do caos
@pauloandel
Friday, January 31, 2014
Monday, January 27, 2014
Lançamento do livro "Pagar o quê"?
"Posso ter acabado de
voltar de uma heroica partida do Fluminense – ou mesmo desimportante, tanto
faz, se é que existe algum jogo nosso que não tenha importância do ponto de
vista de tabela –, tanto no Engenho de Dentro, quanto em Guilherme da Silveira
ou em São Januário. Talvez tenhamos uma excelente participação nos cenários que
nos abrigam por ora (nos anteriores mais recentes é um fato), mas tudo o que se
diga será pouco diante da repetição incessante de conhecida frase, dotada de
inteligência restrita e insuficiência histórica vascular, regularmente
utilizada para tentar diminuir – em vão – o brilho tricolor numa grande
conquista, uma vitória expressiva, um belo golaço (com todas as hipérboles aqui
plausíveis) ou até mesmo a incontestável beleza das nossas milhares de mulheres
empolgantes nas arquibancadas: “Paguem a Série B!”.
Chegamos ao segundo
posto da Copa América anos atrás, realizamos duas façanhas quase inigualáveis nas
lutas contra o descenso em 2008 e, principalmente, em 2009. Como biscoito fino,
mais dois títulos brasileiros incontestáveis, quase um terceiro entre eles. O
adversário, ciente das suas escassas possibilidades em diminuir uma trajetória
vencedora, das mais pujantes nos últimos tempos, repete com o fervor que sugere
um fundamentalismo religioso na afirmativa: “Paguem a Série B!”."
Saturday, January 25, 2014
eu sem você sem eu (taty)
passei aqui pra dizer
que sinistro eu gosto de você
e ninguém há de negar
o grão-futuro que vai te pertencer
passei aqui pra dizer
o que é simples de entender
e o resto, o resto
a longa estrada no horizonte
que ainda vamos percorrer
vidros quebrados, sentimentos estilhaçados
e tudo recomeça logo após o sol se pôr
a cada nova esquina alguém se lembra de um recado de amor
então vamos nós:
o sol a pino, a vida em riste, o mundo ao nosso lado
e nós tão sós
tão sós, sós
@pauloandel
que sinistro eu gosto de você
e ninguém há de negar
o grão-futuro que vai te pertencer
passei aqui pra dizer
o que é simples de entender
e o resto, o resto
a longa estrada no horizonte
que ainda vamos percorrer
vidros quebrados, sentimentos estilhaçados
e tudo recomeça logo após o sol se pôr
a cada nova esquina alguém se lembra de um recado de amor
então vamos nós:
o sol a pino, a vida em riste, o mundo ao nosso lado
e nós tão sós
tão sós, sós
@pauloandel
Thursday, January 23, 2014
dos hermanos
1
oh, terras distantes e o meu coração flamejante
lateja insone, vazio, porque o teu coração vaga
sem rumo certo ou fronteira a desbravar alegre
dois irmãos, dois pensamentos marginais a sós
o céu do costa brava sem nossos bons retratos
cada cabeça, um furacão e recortes vis do amor
quando a minha mão encontrar a tua mão divina
e fizemos dos convescotes a lembrança de hoje
será sinal de que não somos mais simples uns
vamos ver a boa cor do mar e ela será tão vivída
que não nos restará orfandade alguma ou mísera
nosso amor será o perfeito som do caos, oh caos!
e nada do que já fomos antes terá qualquer razão
e nada do que pensamos antes será um futuro são
apenas a mão entrelaçada à mão e um silêncio nu
2
vamos ficar muito perdidos
e libertar nossos instintos
agora é um quando? onde?
que tal um chute no porém?
vamos fazer o que nos resta
enquanto o que não presta
nos cerca e ameaça tanto
quem sabe ficarmos na boa
pescando pessoas no mar?*
* Citação de " ", Arnaldo Baptista, 1974
oh, terras distantes e o meu coração flamejante
lateja insone, vazio, porque o teu coração vaga
sem rumo certo ou fronteira a desbravar alegre
dois irmãos, dois pensamentos marginais a sós
o céu do costa brava sem nossos bons retratos
cada cabeça, um furacão e recortes vis do amor
quando a minha mão encontrar a tua mão divina
e fizemos dos convescotes a lembrança de hoje
será sinal de que não somos mais simples uns
vamos ver a boa cor do mar e ela será tão vivída
que não nos restará orfandade alguma ou mísera
nosso amor será o perfeito som do caos, oh caos!
e nada do que já fomos antes terá qualquer razão
e nada do que pensamos antes será um futuro são
apenas a mão entrelaçada à mão e um silêncio nu
2
vamos ficar muito perdidos
e libertar nossos instintos
agora é um quando? onde?
que tal um chute no porém?
vamos fazer o que nos resta
enquanto o que não presta
nos cerca e ameaça tanto
quem sabe ficarmos na boa
pescando pessoas no mar?*
* Citação de " ", Arnaldo Baptista, 1974
Wednesday, January 22, 2014
pequenas luzes da cidade
o topo do morto, meu mundo
em sépia morna à brisa fraca
o bairro sorri tão triste ao léu
pequenos mortos-vivos, caos
um paredón dos cabisbaixos
e a feia fumaça sobe sem cor
numa quina de rua perdida
a solidão das grandes cidades
esculpidas debaixo de viadutos
ou campos de concentração nus
nas calçadas, marquises, pisos
não há mais sol para todos os uns
não há mais fé para todos alguns
e o próximo feriado é higiene sã
para todos os que detestam ver
as pequenas luzes da tal cidade
como as estrebuchadas vísceras
@pauloandel
em sépia morna à brisa fraca
o bairro sorri tão triste ao léu
pequenos mortos-vivos, caos
um paredón dos cabisbaixos
e a feia fumaça sobe sem cor
numa quina de rua perdida
a solidão das grandes cidades
esculpidas debaixo de viadutos
ou campos de concentração nus
nas calçadas, marquises, pisos
não há mais sol para todos os uns
não há mais fé para todos alguns
e o próximo feriado é higiene sã
para todos os que detestam ver
as pequenas luzes da tal cidade
como as estrebuchadas vísceras
@pauloandel
Tuesday, January 14, 2014
adeus, verão
o nobre verão escaldante e suas estampas ou uma réstia de saudade
os garotos não jogam mais duplas
nenhum tango & cash, nenhuma trave derrubada à revelia
outros namorados trocam as mãos
e o céu de janeiro já deixou outros janeiros escorrendo feito areia fina
jovens putas nos bares, travestis a mil
o vaivém dos velhinhos no fim da tarde
ainda é tão quente mas o verão acabou
feito os olhos fechados de quem se foi
a última canção de um fogo de conselho
as garotas têm novos sorrisos e destinos
a luz da sala está apagada e o verão acabou
não teremos nunca mais a mesma estação
o verão sofreu e chorou:
contou seus últimos trocados e andou
solitário feito a dor de um mendigo
entorpecido feito um morto-vivo em crack
as pessoas parecem tão felizes
e esperam seus novos amores à luz
não perceberam o que está perdido:
o verão chorou, o verão acabou.
@pauloandel
os garotos não jogam mais duplas
nenhum tango & cash, nenhuma trave derrubada à revelia
outros namorados trocam as mãos
e o céu de janeiro já deixou outros janeiros escorrendo feito areia fina
jovens putas nos bares, travestis a mil
o vaivém dos velhinhos no fim da tarde
ainda é tão quente mas o verão acabou
feito os olhos fechados de quem se foi
a última canção de um fogo de conselho
as garotas têm novos sorrisos e destinos
a luz da sala está apagada e o verão acabou
não teremos nunca mais a mesma estação
o verão sofreu e chorou:
contou seus últimos trocados e andou
solitário feito a dor de um mendigo
entorpecido feito um morto-vivo em crack
as pessoas parecem tão felizes
e esperam seus novos amores à luz
não perceberam o que está perdido:
o verão chorou, o verão acabou.
@pauloandel
Saturday, January 11, 2014
calor
doze sóis num só para um verão de felizes. doze mil graus, uma cidade febril e fulgurantes manchetes mentirosas enganando a ingenuidade. os bares, as cores, os corpos e o ir e vir no vaivém. todos querem carnaval, alguns querem mansidão e eu quero ir-me embora, dar o fora mesmo que ninguém venha comigo. o brasil virou um verão enquanto os degolados nas penitenciárias são coisa normal. danar o outro é algo natural. todo mundo quase sabe com quem está falando. basta assassinarem o fluminense e tudo parecerá normal, tanto quanto a feia hipocrisia que tomou milhões de rostos neste sábado de janeiro sem par. um garoto caiu da janela em são paulo e ninguém liga. amarildo foi embora e ninguém diz mais nada. a violência é tão fascinante para os imbecis, a hipocrisia é tão confortável para os medíocres e miles davis ok ao vivo na europa é um sinal da música que agora mora tão longe, longe. este sábado não comporta um prêmio de loteria nem vai ter sinal de amor. o calor das ruas e a vida longe, engarrafada na contramão.
Sunday, January 05, 2014
nós, nós
1
então passou domingo
de outro ano tão feliz
e meu outro eu, porém
pensando tanto noutro
você, você, vazio pleno
sobre a história que não
foi dividida ou aquela
lembrança que já não me
arrepia mas ainda insurge
contra o óbvio, evidente
óbvio que não faz graça
da vida como seria devido
então passou domingo en sol
caetano faz cinema falado
com seus poemas de outrora
e penso a esmo porque você
fica assim tão longe de você
e isso mesmo faz de mim um si:
estamos tão longe que nem
o fim parece a próxima estrada
2
o homem velho e seus versos
sua praia deserta, calor e jazz
o mundo não espera a próxima
parada, o próximo capítulo
e qualquer estalar de dedos
pode ser o fim do mundo cruel
o homem velho e seus livros
histórias de cor e pele urbanas
pode ser o meio do mundo fugaz
o homem velho e seu amor em vão
longe das mãos, perto do adeus
outros versos, outras palavras
e nada que sugira conforto sincero
diante da imensidão azul do caos
o homem velho e sua cidade
a pátria de muitas pátrias mães
gentis enquanto a vida navega -
frias quando ela diz tchau e cerra
@pauloandel
então passou domingo
de outro ano tão feliz
e meu outro eu, porém
pensando tanto noutro
você, você, vazio pleno
sobre a história que não
foi dividida ou aquela
lembrança que já não me
arrepia mas ainda insurge
contra o óbvio, evidente
óbvio que não faz graça
da vida como seria devido
então passou domingo en sol
caetano faz cinema falado
com seus poemas de outrora
e penso a esmo porque você
fica assim tão longe de você
e isso mesmo faz de mim um si:
estamos tão longe que nem
o fim parece a próxima estrada
2
o homem velho e seus versos
sua praia deserta, calor e jazz
o mundo não espera a próxima
parada, o próximo capítulo
e qualquer estalar de dedos
pode ser o fim do mundo cruel
o homem velho e seus livros
histórias de cor e pele urbanas
pode ser o meio do mundo fugaz
o homem velho e seu amor em vão
longe das mãos, perto do adeus
outros versos, outras palavras
e nada que sugira conforto sincero
diante da imensidão azul do caos
o homem velho e sua cidade
a pátria de muitas pátrias mães
gentis enquanto a vida navega -
frias quando ela diz tchau e cerra
@pauloandel
Wednesday, January 01, 2014
cedo/ cor
1
o verão que se faz flor agora
tão cedo
corações civis mergulham n'água
despudoradamente
enquanto o posto seis é um cartório
a registrar seus amores de orla:
tênues, livres, definitivos, uma ocasião
há quem fale de calor, volúpia, bens
mas eles só querem amar
querem apenas um instante que valha
por mil
o verão nasceu tão cedo
e os corpos nus procuram suas paixões
em qualquer lugar onde haja céu e cor
os seres vivos derramando amor
adeus, rancor e drama!
corações a mil caçando cama
2
o fim do amor tem cor?
quem disse que o luto tem cor?
uma ilusão a ausência caber numa
aquarela
assim como a cor do amor que sequer nasceu
e foi sufocado, um natimorto à crista
o descaso não tem cor
a solidão não tem cor
tudo é o que fazemos por mera satisfação à cobrança das retinas
impor as cores às dores e ao feliz
num mundo branco e preto e gris
ouro, cobalto e véu, grená e violeta
o amor não tem cor
ele é coisa de muito além
3
quando você me convidar
para nos jogarmos no mundo
eu te abraço como se estivéssemos
em queda livre, salvos
pela perícia do para-quedas
e não solto nunca mais
mesmo quando estivermos sãos
e salvos com pés em terra firme
quando você me convidar
eu vou, eu vou, eu vou
só para entender o porque, o talvez
da imensidão do meu amor sem cor
que floresce à tua pele
@pauloandel
o verão que se faz flor agora
tão cedo
corações civis mergulham n'água
despudoradamente
enquanto o posto seis é um cartório
a registrar seus amores de orla:
tênues, livres, definitivos, uma ocasião
há quem fale de calor, volúpia, bens
mas eles só querem amar
querem apenas um instante que valha
por mil
o verão nasceu tão cedo
e os corpos nus procuram suas paixões
em qualquer lugar onde haja céu e cor
os seres vivos derramando amor
adeus, rancor e drama!
corações a mil caçando cama
2
o fim do amor tem cor?
quem disse que o luto tem cor?
uma ilusão a ausência caber numa
aquarela
assim como a cor do amor que sequer nasceu
e foi sufocado, um natimorto à crista
o descaso não tem cor
a solidão não tem cor
tudo é o que fazemos por mera satisfação à cobrança das retinas
impor as cores às dores e ao feliz
num mundo branco e preto e gris
ouro, cobalto e véu, grená e violeta
o amor não tem cor
ele é coisa de muito além
3
quando você me convidar
para nos jogarmos no mundo
eu te abraço como se estivéssemos
em queda livre, salvos
pela perícia do para-quedas
e não solto nunca mais
mesmo quando estivermos sãos
e salvos com pés em terra firme
quando você me convidar
eu vou, eu vou, eu vou
só para entender o porque, o talvez
da imensidão do meu amor sem cor
que floresce à tua pele
@pauloandel
Subscribe to:
Posts (Atom)








